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História Um conto do mar - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Segunda Onda


Eu e Pedro saímos de um show lotado, com fãs enlouquecidas a rasgar-me a camisa e arrancar fios do meu cabelo. Eu, agarrado a minha esposa e ele tentando controlar as mulheres que não ligavam para a cara emburrada de Marocas segurando meu braço ou apertando, já nem recordo. Pegamos um carro e tocamos para a praia. Como era de se esperar, muitos jovens estavam fazendo festinhas regadas a fumaça na areia, mas não nos intimidamos, até acenamos gentilmente para alguns simpáticos. Nos prostramos exaustos, rindo à vera das mocinhas que quase me mataram minutos antes.

-Não sei o que diabos essas meninas veem nesse moleque. Veja, todo desenxabido, só não digo que é viado por causa de ti, Marocas.

-Isso não garante nada! – Marocas ainda estava emburrada e respondeu de má vontade, com a ira do ciúme latejando na língua.

-Vá a merda! Você bem que gosta do viado aqui! – Puxei ela para um beijo, mas estava irredutível e me acertou bem onde o sol não bate. – Porra, Marocas. Precisa essa ignorância?

- Deixa ela, Chico. Não acostumou ainda...

- Aquele bando de vagabundas te agarrando e você adorando, seu filho da puta. – Me deu as costas e bandeou para o lado dos meninos da fumaça.

-Não sei que porra ela tem que fica assim toda vez que faço um show.

-Deixa de se fazer de mané, Chico. Cê fica rodeado de putas e quer que ela fique como? Feliz? Viadinho de merda!

-São fãs, porra. Além do mais você sabe que amo ela!

-Sei de nada...- Pedro fez cara de desentendido e sorriu.

-É o que?

-Aquela mocinha lá...

-Ela não é mais mocinha ...

-Viu só que você se lembra?

-Você que gosta da putaria! Já disse para não falar dela perto da Marocas.

-Ela está ocupada ali com a galera... – Quando olhei para o lado, percebi que Marocas estava bem enturmada. Os meninos estavam tocando algumas músicas da moda, inclusive minhas. E para variar, o baseado corria de boca em boca.

-Depois eu que vou ter que aguentar o porre!

-Deixa ela... – Nos deitamos a admirar o céu azulado. Fechei os olhos e acabei cochilando. Não sei por quanto tempo fiquei em tal estado, mas me recordo apenas de acordar com cotoveladas de Pedro.

-Acorda, porra. A Marocas...

-Que? – Ainda zonzo, vi os meninos da fumaça gritando na areia e um Pedro atordoado tentando me chamar a atenção.

-Marocas vai se afogar, porra. – Corri meio sem saber porque e me vi no meio de um mar, repentinamente, revolto. Lutei com exaustão com as ondas que me varriam para dentro e me atiçavam para fora, tudo ao mesmo tempo. Quando finalmente consegui agarrar Marocas e tirá-la do meio da confusão de azul de Copacabana, estava quase tão afogado quanto ela, mais ainda vivo.

-Ela tá respirando?

- Não sei, porra.

-Acorda ela...

-Cala boca, caralho. – Marocas estava azul e receei, pela primeira vez, perder alguém. Fiz massagem cardíaca, respiração boca a boca e ate rezei, mas nada a reanimava.

- Ela morreu, cara...- Pedro levou a mão a cabeça e já chorava em desespero. Os meninos da fumaça, claro, sumiram em meio a ela.

-Cala boca, seu merda!- Quase soquei o peito de Marocas e continuei a tentar lhe sugar um suspiro de vida de qualquer lugar. Quando estava prestes a desistir, já banhado de choro e remorsso, vi um tossir desesperado. Estava viva, afinal.

-Caralho!

-Pega o carro, temos que levar ela para o hospital. – Com a minha esposa nos braços e um Pedro atordoado ao lado, partimos às cegas para qualquer pronto atendimento mais próximo.

Um arrepio leve me passou na espinha. Aquela noite fora realmente assustadora. Depois da euforia da festa, das moças me beijando, quase morremos eu e Marocas afogados e o pobre do Pedro, no embalo, morreria do coração frágil e mole que tinha. Por sorte, nada tivemos além de um susto e a noite perdida no sombrio São Zacarias. Fora isso, a bronca da minha sogra e o discurso de que Marocas não nasceu para essa vida, de que eu fui um moleque, irresponsável, sem coração. Depois de passado, ri muito de dona Joana de humor de cão e camisola sob um discreto robe verde.

Entrei no hospital aos gritos, procurando qualquer um de jaleco branco que pudesse providenciar um socorro. Por alguma razão, a emergência estava lotada e não havia ninguém que desse atenção ao meu desespero. Então, agarrei uma maca de corredor e peguei um rapazote magrelas pelo colarinho.

-Você é médico?

-Não, senhor, sou enfermeiro!

-Pois trate de providenciar a porcaria de um médico...

-Senhor...- Ele ia argumentar, mas passou olhos investigativos pelo meu semblante agoniado e, de certo, me reconheceu. Não esperou que eu pedisse novamente. Pegou a maca e seguimos corredor afora. Eu lhe contava o que havia acontecido, Pedro tentava sustentar seus quase 100 quilos enquanto corria e o rapazote digeria sem muita atenção minhas palavras entrecortadas.

-Olhe, seu Chico, essa emergência está o diabos hoje. Mas se tratando de vossa excelência... – Sorri amarelo e constrangido pela deferência. Prometi um autógrafo ao final da Via Crucis. Marocas foi examinada e o médico recomendou que ela ficasse de repouso até terem certeza de que tudo não passara de um susto. Assenti, despachei Pedro para casa em um taxi e fiquei sentado nas cadeiras duras enquanto minha digna esposa dormia sob efeito das drogas, as lícitas e ilícitas.  Hospitais podem ser deveras interessantes ou tediosos ao máximo. São Braz era um misto. Hora ou outra, ouvia gritos de feridos, mulheres parindo, crianças. Um médico de mau humor, enfermeiros apressados. Fato é que nesse clima eu não ia conseguir cochilar, sequer. Então, me restava assistir televisão na recepção. Dada a hora, a programação era das piores. Fora que não tinha como mudar de canal, a não ser que quisesse me arriscar a ouvir um belo berro de uma recepcionista com cara de fuinha que me olhava com certo desdém e desprezo. Acho que ela não gostava das minhas músicas ou, simplesmente, achava que eu era um daqueles famosos de galocha, chatíssimo. Em algum momento notei que ela rosnou entredentes e levantou o queixo. Vá lá, não a culpo. O que a pobre devia ouvir de desaforos todo dia. Fiquei sentado, quase deitado na pequena e desconfortável cadeira, parte de um conjunto de cinco, olhando para a porta tentando vislumbrar alguma coisa de interessante. Deus que me perdoe, mas cheguei a sonhar com a entrada triunfante de algum baleado e médicos eufóricos, policiais armados e pessoas aos gritos. Eu assistia muitas séries policiais naquela época. Nada aconteceu! De tédio ou cansaço, acabei pegando num sono morno, entrecortado por um susto daqueles que temos ao descobrir que não estamos no conforto de nossas camas. Num desses, vi uma moça entrar pelas portas. Me chamou atenção o fato da mesma estar sozinha, toda de branco e amparando uma mão ensanguentada. Fiquei observando com curiosidade, procurando por um acompanhante ou coisa assim, mas ela estava mesmo só. Não pude ver seu rosto, de imediato. Nem consegui entender bem o que ela disse a cara de fuinha...digo, recepcionista. Foi coisa de poucos minutos, ela virou, se direcionando para as cadeiras. Pisquei os olhos várias vezes. Acho que o quase afogamento me deixou meio zonzo. Olhei de novo, apurei as vistas e sim, o afogamento tinha me deixado meio zonzo ou o destino queria mesmo me pregar uma peça daquelas bem sacanas.

-Sente aqui, dona Maria. Vou chamar o médico. – A cara de foinha foi solícita, colocando a moça sentada carinhosamente e indo chamar o médico. Desconfiei, por um momento, que o problema dela comigo era mesmo meu órgão genital, mas dispersei o pensamento, já que me interessei particularmente por dona Maria sentada numa fileira a frente da minha.  Com o coração aos pulos, agora já ajeitado na cadeira, inclinado quase como um curioso sobre os ombros da moça, fiquei pensando se eu deveria me aproximar. E se ela pensasse que eu era um doidivanas fanático? Bom, mas ela deveria me conhecer da TV. Ou não? Nessa hora, lembrei das sábias palavras de vovó: Meu filho, na dúvida, faça o que seu coração mandar. Bendita vovó! Levantei e arrisquei a ouvir meu coração.

- Boa noite...- Ela olhou-me ternamente. A memória do programa de TV veio viva e quase pude ouvir a voz dela cantando. – Desculpe, eu vi você entrando...

- Sim...

- Lembra de mim?

- Seus olhos não me são estranhos...

-Chico...

-O Chico da TV?

- Sim- Retribui o sorriso bonito que ela me ofereceu.

- Ora, mas que mundo pequeno esse!- Notei que ela fez uma leve careta de dor.

-Você se machucou feio!

-Acidente doméstico. Fui inventar de cozinhar a essas horas...

- Perigoso...- Como um fã embevecido diante do seu ídolo, me pus calado perante aquela figura tão cara nas minhas memórias de menino. Não sabia bem como me portar, com as mãos no bolso, suando um pouco.

-Venha cá, Chico...- Sua voz me transportou para a realidade.- Você não foi aquele rapaz bonito de quem gravei uma música faz uns dez anos?

- Sim... – Nunca a palavra bonito soou tão doce e elogiosa aos meus ouvidos.

-Olha...música linda igual ao compositor. Que mundo pequeno! – Ela repetiu para o nada. – Mas o que o traz para o São Braz? – Ela mudou de assunto mais rápido do que pude acompanhar e me embolei um pouco.

- Afogamento....digo, minha esposa Marocas se afogou em Copa.

-Que perigo!

-Nada...só susto mesmo!

-Graças a Deus, não é! – A sua mão estava sangrando mais do que o pano em que a enrolara podia conter e o sangue começou a sujar seu vestido branco. Fiquei assustado, preocupado. Não me parecia lícito que uma só gota maculasse a sua perfeição, mesmo que a gota fosse do seu próprio sangue. Por impulso, arranquei um lenço meu de não mais onde e coloquei, ternamente, envolvendo a sua mão. Ela se assustou, eu me assustei, mas já era tarde demais para retroceder. Coramos, ambos. Eu mais, com toda certeza.

-Vai levar uns pontos ai...

- Meus Deus...

-Besteira, deve ser pouca coisa...

-Tenho pavor a agulhas, Chico- Sorriu sem graça de revelar seu segredo. A sua ternura me tocou tão no fundo, que me senti meio pai de dona Maria. Quis pegá-la em meu colo e lhe proteger das agulhas, mas a cara de fuinha voltou e me dirigiu um raio de olhar.

-Dona Maria, o médico te espera. – Maria ficou reticente, senti uma palidez. – Pode vim...

-Eu vou com você, se não se importar...

-Apenas parentes na enfermaria, senhor...- Cara de fuinha me barrou raivosa. O que ela queria, Dona Maria apenas para ela?

-Somos primos...- Maria respondeu prontamente, para contragosto da ....vocês sabem.

-Primos....

-Sim, somos primos! Quer ver nossos documentos ou vai conduzir a minha prima para fazer o curativo? – Segurei Maria pela cintura, temendo que a recepcionista carrancuda implicasse e resolvesse mesmo pedir meus documentos e me escorraçasse de lá a pauladas. Mas ela assentiu e deixou que fossemos juntos. Senti o suspiro aliviado da prima que acabei de ganhar e comemorei meu triunfo sobre aquela rival imaginária, talvez.

Ahh, Dona Maria. Fora as gotinhas de sangue em seu vestido e o medo estampado em seu lindo rostinho, posso dizer que não tive na vida imagem mais linda para guardar em minhas memórias. Naquela noite, esqueci completamente o que me levara ao São Braz e me dispus a ficar ao lado dela. Cara de fuinha, mais tarde soube, acabou gostando de mim. Veja a ironia da vida, não. Lhe dei um autografo uma outra vez que estive na sala de espera do hospital, já mais famoso do que na época em que nos conhecemos e bem mais velho, também. Cumplice, ela não revelou a ninguém o idílio do qual fomos personagens anos antes. Obrigada, fuinha, digo, recepcionista cujo nome não vem à mente agora.

O médico olhou para mim. Rapaz jovem, aparência cansada de intermitentes plantões e querendo entender como eu poderia ser esposo de Marocas e primo de Dona Maria numa mesma noite. Obvio, me fingi de surdo e cego e continuei a segurar Maria com todo cuidado paternal ou primal... ( existe isso?).

-Dona Maria, como conseguiu esse corte tão profundo?

-Uma faca, quando estava para temperar um peixe, doutor!

-Ahh, aquele seu famoso peixe...- Acho que somente eu não compreendi a referência, mas ri apenas para não passar como ignorante, embora o fosse mesmo.

- Sim...

-Veja bem.... vamos precisar dar uns pontos ai.

-Se prometer ser breve, acredito que suporto...

-Vai durar menos do que espera.... – O médico preparou os aparatos, vestiu as luvas e antes que pudesse encostar a agulha na sua mão, ela tremeu, suou. Se apertou ao meu corpo, como se buscasse o refúgio do meu calor.

-Eu estou aqui, Maria. Não tenha susto...- Sussurrei tentando acalmá-la, embora eu mesmo estivesse desesperado vendo aquele médico lhe enfiar linhas aqui e ali. Ela começou a ficar um pouco fria e vi o médico parar um instante, seu corpo derreou-se de leve a minha espádua e suspiro gelado me cavou um leve arrepio na face. – Que diabos...

- Não se preocupe, ela volta... – Terminou rapidamente a costura e a colocou deitada na maca.

-Ela tem medo de agulhas. – Falei esmo, aflito por não saber bem como agir.

-Uma curiosidade, seu Chico...

-Antes que me pergunte, não sou primo dela. Mas a cara de fuinha...digo, a sua recepcionista não me deixaria acompanha-la de outra maneira.

-Bem, não era isso que eu iria perguntar, mas já que disse.- O médico sorriu e eu corei de vergonha.

-Não me leve a mal, doutor...

-Não se preocupe! Se foi por uma boa causa... – Dona Maria começou a acordar e, como bom acompanhante, me pus ao seu lado, preocupado.

-Pronto, Dona Maria, já terminamos!

-Eu desmaiei? – Ela buscou meu olhar e balancei a cabeça positivamente. – Meu Deus, que vergonha!

-Não tenha vergonha, eu mesmo tenho medo de dentista. – Sorri para tranquiliza-la!

-Bom, seu Chico, já pode levar a sua prima para casa! Basta retornar aqui dentro de alguns dias para trocarmos o curativo. – O doutor me sorriu.

-Obrigada, doutor! – Maria ainda estava mareada, mas conseguiu se apoiar em meu braço e fomos andando.

-Chico, você foi providência divina...

-Quando disse que tinha medo de agulhas, não tinha noção do quanto!

-Geralmente meu marido me acompanha nessas coisas...- Quando ela terminou de falar, estaquei. Marido? Ela não avisou nada sobre marido. Recebi a notícia como uma bomba. – Ele teve compromisso de trabalho, não tive como avisá-lo, sabe...

-Entendo! – Eu entendia mesmo? Eu estava mais disposto a quebrar aquele marido caído de para quedas ao meio. – Não sei se confio de deixa-la ir para casa sozinha, Maria...

-Não tenha susto não, Chico... vou tranquila.

-Não, não. Eu te levo...

- Mas e sua esposa? - Por um tempo esqueci da existência de Marocas.

-Posso voltar de táxi...

-Que é isso, Chico...não vou lhe tomar trabalho sem necessidade. Vou no meu carro sem problemas.

-Mas...- Não conclui o argumento. Um homem alto, de barba longa, aparência austera entrou portas adentro procurando com os olhos por algo e deu de cara com fuinha, que lhe apontou num manear de cabeça em nossa direção.

-Maria...

-Veja aí, ele me achou! – A Dona Maria que outrora se derramou de pavor em meus braços, agora estava agarrada àquele ser estranho como uma amabilidade invejável.

-Fui em casa, não te achei, perguntei ao porteiro...

-Avisei a ele que vinha para cá, caso me procurasse...

-Mas o que foi isso? – Ele segurou a mão dela com preocupação e senti uma pontadinha de inveja do quanto ela estava à vontade perto dele.

-Bobagem, só tomei alguns pontinhos, não foi Chico?

-Ahh... sim, nada de grave! – O homenzarrão me olhou com desconfiança. Como qualquer bom marido, segurou mais o amado troféu perto de si e me encarou como um adversário em potencial.

-Chico foi um doce! Acredita que desmaiei na hora dos pontos? Ele me ajudou...

-Você não é aquele menino da TV?- Menino soou estupidamente ofensivo e receei responder rispidamente. Respirei e simplesmente sorri.

- Eu mesmo...

-Lembra daquela música bonita que gravei faz uns dez anos, aquela da qual te falei. Apois, é desse menino.

-Obrigado...Chico.

-Que isso...

-Vamos, Maria?  - O grandão não parecia estar muito disposto a ser agradável. Por coincidência, eu também não.  Da recepção, cara de fuinha aplaudia com sorriso cínico a minha derrota.

-Melhoras para sua esposa, Chico. Nos vemos por aí...

- Nos vemos por aí...

Nos vemos por aí...nunca palavras soaram tão proféticas quanto essas. Agora, recordo-me que passei o resto da noite pensando nelas e acalentando-as no íntimo. Fora uma longa noite aquela. A cara de fuinha passou toda ela dividida entre atender as emergências da recepção e me hostilizar pelo canto do olho. Lembro-me que no dia seguinte, fiquei muito envergonhado pelo médico que teve que dar alta a Marocas e me olhava, o tempo inteiro, com um meio sorriso e a Fuinha....bem, ela fazia cara de reprovação e soltava muxoxos. Graças a Deus Marocas ainda estava muito sonolenta para pegar qualquer coisa no ar. Depois desse dia...tentei ser mais cuidadoso, mas o destino as vezes complica a tarefa. 



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