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História Um dia antes da formatura - Capítulo 5


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Notas do Autor


Mais um cap recém saído do forno, espero que gostem, boa leitura <3

Capítulo 5 - O clichê de ter um passado triste


Quando alguém te machuca, você sente ódio, mas quando você machuca alguém se torna amargo. Naruto podia ser um desenho para crianças, mas sermos novos não significa que não conhecemos a dor. Eu fui ferido quando era criança e não conseguia perdoar, mas não queria aprender o que significava se culpar ao se tornar uma pessoa amargurada. 

Eu era bem jovem, tinha apenas dois anos de idade quando meu pai começou a namorar, a Yuna era jovem, tinha apenas dezoito anos, ela não era a melhor pessoa do mundo. Tinha ciúmes, não aceitava ter que dividir seu tempo comigo.

Quando ela ficou grávida eu tinha apenas 4 anos, eu ainda precisava de muitos cuidados e dessa época eu tenho uma vaga lembrança, de como ela não me suportava e não me queria por perto.

Mas eu? Eu só queria uma mãe e ela foi a única mulher que eu conheci.

Eu pensava que um dia ela fosse gostar de mim e quando percebi que ela me via como um intruso algo quebrou dentro de mim.

Eu me senti desajustado. Meu pai tinha um filho e uma mulher que amava já, não precisava de mim. Era só um estorvo, porque eu precisava existir?

Muitos vem julgar dizendo que não existe criança com depressão, que os pequenos são inocentes e não sabem o que é o mundo. A gente pode não saber muita coisa, mas sentimos, não somos imunes as doenças de “adulto”. Meu psicológico era uma droga, eu odiava a Yuna porque ela tirou o meu pai de mim. E odiava o meu pai por querer saber só do Jungkook. Mas o Jungkook? Não, ele eu não odiava, porque ele era o único que gostava de mim.

Ficar perto dele bebê era a minha paz, mesmo sem dizer nada Jungkook era a minha estabilidade emocional, o freio das minhas angústias.

Conforme crescemos nos tornamos amargos, porque eu não conseguia perdoar meu pai por deixar uma mulher tirar o meu lar.

Não conseguia perdoar a infantilidade da Yuna em ter ciúmes de uma criança como uma retardada.

E não conseguia me perdoar por magoar o meu pai em quase toda a minha pré adolescência com a minha rebeldia. Eu surtava, porque eu achava que só eu sofria. 

Mas hoje, com dezoito anos, preste a morrer, pela primeira vez eu quis ver as fotos de minha mãe e comecei a entender coisas que eu jamais pensei que houvesse explicações.

Eu não achava que isso valia de desculpa, mas entendia que seres humanos erravam.

Meu pai não conseguia ficar perto de um filho que parecia tanto a mulher que ele mais amou. Que talvez ele nunca fosse me perdoar de ter tirado a vida da mulher da vida dele. Porque se eu não tivesse nascido, se ela tivesse optado por não ter aquele filho em tanto riscos da gravidez, ela ainda estaria viva e eles vivendo felizes.

Também percebi que o ódio da Yuna não era só uma criança querendo o tempo do seu novo namorado, era uma criança que o fazia lembrar-se da ex. Ela sabia que meu pai não a amava da mesma forma. Que talvez fosse um tampa buraco.

Chorar é mesmo uma bosta, o nariz entope, o peito aperta. A gente não sabe se está aliviado ou apenas ainda mais sufocado.

Minha mãe era linda e pela primeira vez eu me senti tão bonito, eu tinha os seus olhos, nariz e boca. Tão parecido com Min Yoonji... 

Antes mesmo de nascer eu era muito amado por essa mulher, que não ligaria de morrer só pra me trazer ao mundo. Eu me senti querido, a cada folha do álbum que eu passava mais em paz eu me sentia. 

Porém, a amargura em meu coração florescia. O que eu podia fazer? Sou humano, detesto meu pai e a Yuna, estar morrendo não vai mudar isso. 

Respirei fundo e fechei o álbum de fotografia, mas o levei comigo saindo da garagem, minha mãe não vai mais ficar pegando poeira naquela caixa velha de papelão. O lugar das lembranças de minha mãe será pra sempre ao meu lado. 

Não vou esquecer essa mulher, mesmo sem nunca tê-la conhecido eu a amo. Sou grato porque é por ela que eu estou vivo. Foi por ela que eu descobri o quão feliz eu fui apesar de toda dor.

Eu sorri jogando basquete, eu ri assistindo um filme de comédia e eu amei tendo um irmãozinho só pra mim. 

Nunca pensei que fosse dar valor aos momentos como hoje, jamais pensei que podia sorrir e dizer em meio as lágrimas: é eu tive uma boa vida.

Se eu tivesse parado de reclamar antes, me empenhado mais em ser quem eu sou em vez de me afogar na dor da solidão, eu estaria mais feliz ainda. Mas eu posso até saber a minha data de validade, só que isso não faz de mim alguém morto, sinceramente estava mais morto antes do que agora.

Ontem, naquela sexta feira, eu joguei basquete com o meu irmão, ri como nunca havia rido antes com ele. E hoje, nesse sábado ridiculamente quente, decidi ser como um jovem qualquer, sair e curtir.

Mandei mensagem para o Hoseok, porque ele sabia minha condição, se eu passasse mal ele saberia como reagir. Teve até uma avó com a mesma doença que eu, não exatamente igual, mas ele estava preparado pra chamar uma ambulância.

Hoseok não demorou muito pra responder, na verdade ele ficou mais animado do que eu dizendo que sempre quis ter um amigo maior de idade para ir a uma balada.

Pois é, fazia meses que havia feito dezoito anos, até mesmo antes de saber da leucemia, mas nunca havia antes tido interesse em sair pra dançar e beber. Tudo bem que bebida eu não podia, mas nada iria me impedir de passar vergonha dançando sóbrio. 

Esperei a noite chegar, tomei um demorado banho, me arrumei, eu estava horrível, a pele seca. Mas em frente ao espelho eu dei um trato no visual, passei um pouco de corretivo nas olheiras, esfumei com os dedos. Com um lápis marrom tracei uma linha no canto externo e interno. 

Peguei um batom vermelho, passei no dedo e suavemente passei em meus lábios para tirar aquela cor pálida e doente. Deixei as minhas bochechas mais saudáveis e coradas. 

Com a pomada eu tornei aquele cabelo quebrado e sem vida mais interessante e estiloso. Ele estava fraco e tive que tomar cuidado pra não arrancar pedaços, já que ele começava a querer ficar quebradiço apesar de não estar caindo ainda. 

Não queria parecer um E-boy, mas eu só tinha roupas pretas como o Jungkook, que ele sim era um gótico sem igual, tirando pelos sapatos horríveis cor de mostarda estragada. 

Saí do banheiro após passar perfume e vi que Hoseok mandou mensagem que havia chegado. 

— Yoongi? Vai sair hoje? — Meu pai questionou, ele estava sentado no sofá vendo televisão, ao seu lado estava a minha madrasta. 

— Sim, vou sair com um amigo, voltarei tarde — respondi.

— Você tem certeza disso? Você sabe a sua condição.

— Eu contei a ele sobre a leucemia, se eu passar mal ele saberá como agir, não tem que se preocupar.

— Precisa de dinheiro? Quero que se divirta! — exclamou se levantando.

— Eu ainda tenho um pouco...

— Toma, aceita. — Tirou a carteira do bolso me dando mais dinheiro do que costumava.

— Obrigado — falei colocando dentro da minha carteira enfiando ela de volta no bolso.

— Se cuida.

— Se divirta Yoongi — Yuna sorriu pra mim.

Assenti e dei o fora de lá, quando abri a porta Hoseok estava que nem uma mula olhando de um lado para o outro. Se eu fosse um policial eu acharia que ele queria roubar a minha casa. 

— Ei, qual o problema? —perguntei rindo.

— É muito estranho vir te buscar em casa, o que sua família iria pensar?

— Isso faz parecer ainda mais um encontro, ah Hoseok, não sabia que gostava de garotos — debochei.

— Fica quieto, não é nada disso. Não é porque você está lindo de um jeito que eu nunca vi antes, que eu vá cair no seu charme e assumir que eu sou bissexual — respondeu.

— Obrigado... Você está muito nervoso hoje, está tudo bem?

— Eu só não estava esperando você ser do tipo que gosta de balada — respondeu. — Vou chamar um uber.

— É a minha primeira vez também, eu só quero fazer algumas coisas antes de morrer.

— Ah...

— É, mas vamos nos divertir, esquecer isso.

— Vamos fazer hoje ser o dia mais divertido das nossas vidas.

— Tem certeza? Você terá uma vida longa, eu precisarei me esforçar pra fazer realmente esse dia marcar muito — comentei.

— Sim, terá que colocar muito esforço nisso — respondeu mexendo no celular. 

— Adoro um desafio... Sabe, eu não vou poder beber, sem querer ser chato queria te pedir pra não ficar bêbado, pra caso eu passe mal e você consiga chamar uma ambulância — falei um pouco sem jeito de lhe dar tamanha responsabilidade.

— Eu também não vou beber nada, até porque como você mesmo disse, eu vou ter uma vida longa e não quero que nada estrague a minha memória ou lembrança do dia de hoje.

— Isso, você precisa ficar sóbrio para registar bem a visão vergonhosa que é me ver dançando — falei sorrindo abertamente.

— O Uber chega em três minutos...

— Ok... Hoseok, hoje eu não quero ir pra casa, vamos viver a vida como dois jovens baladeiros que fica fora até as cinco da manhã —avisei.

— Vamos ser caras maus que sabem curtir a vida, mas sem bebidas ou drogas.

— Sim, vamos ser caretas juntos — sorri abertamente e o vi sorrir mais do que eu, me fazendo sentir um pouco de calmaria.

Sentia ansioso vivendo aquele clichê de viver a vida sem olhar mais pra trás. A escuridão podia estar enraizada, porém em minha frente havia um céu estrelado e uma bela lua. E o Hoseok era como o sol preste a nascer iluminando aquele caminho cheio de alegrias.

Mas sim, eu também sabia que era repleto de espinhos, mas eu não tinha mais medo de me machucar. 


Notas Finais


Até o próximo <3


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