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História Um passado no presente - Capítulo 3


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Notas do Autor


Boa leitura!

Capítulo 3 - Obra do destino


O aniversário no play de 18 anos de Ronaldo estava chegando ao fim, mas para aquelas duas jovens de 17 que tinham acabado de se conhecer parecia apenas o começo.

Eleonor, mesmo sendo a melhor amiga do aniversariante e uma das mais populares ali, teve toda sua atenção durante a noite para a penetra Maria Catarina.

Em uma conversa sem fim, as desconhecidas já sabiam segredos uma da outra, se abriram de uma forma tão natural que a sensação que tinham era que já se conheciam há muitos anos.

Eleonor era desapegada, galanteadora, beijava muitas bocas, mas nunca havia se apegado a ninguém, sempre achou romances e paixões uma grande palhaçada. Nunca foi de falar dos seus sonhos, ambições, medos, nem mesmo para seus amigos mais próximos, porém ali com a penetra, ela já tinha contado sobre sua infância e até mesmo confessado que seu grande sonho era ter uma banda.

Maria Catarina por sua vez, tinha uma energia e uma luz própria que fazia com que as pessoas se hipnotizassem, falava bonito... olhar penetrante, voz firme.  Para o mundo ela era a felicidade em pessoa, mas por dentro haviam muitos problemas que ela nunca havia contado à ninguém, entretanto ali com aquela garota que havia acabado de conhecer, contou até mesmo sobre seus pais... e confessou junto a Eleonor que seu sonho também era ter uma banda.

- Sério... – Maria Catarina revirou os olhos ao ver mais uma pessoa passar por elas, olhar para Eleonor e rir. – Qual o problema dessas pessoas? Toda hora passa um rindo, apontando, cochichando... rindo de novo. Eu tava tentando ignorar..., mas acabei tomando mais cerveja do que deveria e estou ficando sem filtros.

Eleonor riu da maneira que a outra falou, suspirou ainda sorrindo e negou com a cabeça.

- Olha... é que... – negou mais uma vez – eu conheço todo mundo dessa festa e a galera toda tá meio achando diferente a gente tá aqui só conversando sabe?

- Não sei não, explica melhor... – desafiou.

- Eles acham que tô dando em cima de você. – Revirou os olhos meio envergonhada, coisa que raramente acontecia.

- E não tá? – seu olhar era instigante.

- Para ser bem sincera... eu estou dando o meu máximo para não dar em cima de você. – Eleonor sorriu sem jeito, já Maria Catarina sorriu satisfeita.

- E porque está fazendo tanto esforço?

Eleonor analisou-a a sua frente e teve que fazer força para tentar entender se Maria Catarina estava dando em cima dela, ou se ela estava tão acostumada com flertes que estava vendo coisa onde não tinha.

- Bem... você namora um garoto há anos... e você disse que sua mãe inclusive está começando a planejar um casamento... eu não me envolveria com alguém que está prestes a se casar...

- Ué, mas não é você que não se envolve?! – seu tom diminuiu e seu olhar revezou entre sua boca e olhos.

Eleonor prendeu o ar e engoliu a seco ao ter quase certeza que a outra estava mesmo dando em cima dela. Porém, o que a deixou mais nervosa foi todo aquele redemoinho em seu estomago e toda sua vontade de beijar aquela garota... mas ao mesmo tempo estar apavorada com aquela hipótese... aquilo sim a deixou nervosa, logo ela que sempre teve qualquer um... a hora que ela quisesse, sem medo, nervosismos ou qualquer outra coisa.

- O que isso quer dizer, Maria Catarina? – perguntou sentindo seu coração ir a boca.

- Que me chamando de Maria Catarina você parece minha mãe brigando comigo...

- Mas esse é o seu nome... quer que eu te chame de que? de Renata?

- Não. – riu de canto ao revirar os olhos – Sei lá... me chama de Cá... meus amigos me chamam de Cá...

- E eu lá sou seus amiguinhos? – disse com deboche – de jeito nenhum vou chamar você do jeito que eles te chamam.

- Vai me chamar de que então?

- Maria? – Eleonor perguntou, Maria Catarina negou – Catarina? – negou novamente, fazendo-a pensar por alguns segundos. – Tári! É isso! Tári!

- Estranho... mas amei! – sorriu e bebeu um gole de cerveja – Eleonor também é muito formal... você agora é a nova Léo!

Eleonor sorriu com a alegria de Maria Catarina e chegou a conclusão que sim, que ela estava vendo coisa onde não tinha, que a outra havia até mudado de assunto, o que fez seu coração estranhamente se apertar... algo de muito estranho estava acontecendo dentro dela.

Maria Catarina achou fofo o jeito que a outra sorriu, e sentiu uma força estranha dentro de si, havia algo latente em seu peito, uma energia que havia nascido ali, daquele encontro. Ela sempre foi uma garota corajosa, mas não impulsiva, sempre pensou bem nos seus atos, coisa que ali, parecia não existir, sua coragem estava de mãos dadas com sua impulsividade.

- Léo e Tári... – Eleonor dizia olhando para um ponto fixo – imagina a gente... cantando em um palco com uma plateia alucinada... eles gritando por nós... – sorriu ao olhar para Maria Catarina. – Agora sim eu vi futuro para gente, essa banda vai nascer, Tári! Eu sinto que esse é o nosso momento!

- Sente? – sorriu, já Eleonor apenas afirmou. – É...eu também tô sentindo algo...

Eleonor tentou ignorar seu coração acelerado com o jeito que a outra a encarou. Que por sua vez olhou ao redor onde havia bastante gente, voltando a encarar Eleonor, levantou, ficou de frente para ela e estendeu a mão.

- Vem comigo... – Maria Catarina disse séria.

- Onde?

- Só vem comigo... – sorriu fazendo-a pegar em sua mão e puxa-la para onde não haviam pessoas.

Maria Catarina, com uma impulsividade desconhecida para ela desde então, levou Eleonor até o outro lado do play sem dizer uma palavra. Seu coração batia como um tambor, mas sua coragem e vontade não a deixaram abalar.

Tári colocou Léo encostada a uma pilastra, se afastou para olhar ao redor e encarou-a a sua frente que tinha mil perguntas estampadas em seu rosto, que antes mesmo de fazer qualquer uma delas, Maria Catarina se aproximou e lhe invadiu seu espaço pessoal.

- Tinha muita gente lá... – Maria Catarina explicou em tom baixo.

- Eles estavam mesmo te incomodando né? – meio chateada – Não liga para eles – foi interrompida com a mão da outra em seus lábios.

- Shiih... – encarou sua mão sobre os lábios de Eleonor, mas voltou aos seus olhos no instante em que a retirou. – Não tô nem aí para eles... – sorriu de canto - eu só queria poder te beijar sem plateia.

Sua coragem misturada com sua impulsividade, Maria Catarina colou seu corpo no de Eleonor, segurou em seu rosto encarando seus lábios, suas respirações se tornaram uma, olhou em seus olhos que estavam fixos em sua boca, seus corações martelavam em seus peitos, com calma aproximou ainda mais e lhe beijou o canto fazendo ambas soltarem um suspiro.

Eleonor se encontrava meio estática, incrédula e até sem saber o que fazer... mas ao sentir os lábios de Maria Catarina tocarem os seus... conseguiu finalmente despertar para o que havia acontecido ali. Afastou um pouco para olhar em seus olhos semicerrados, segurou em sua cintura, girou seu corpo trocando de lugar com ela encarou sua boca por dois ou três segundos e lhe beijou com toda sua vontade.

As vozes animadas de Madu e Navi ecoaram pelo corredor do casarão dos quartos, trazendo Éli de volta a situação atual, onde havia deixado Miguel dormindo... e estava ali sentada em sua canga sobre a grama, próxima a varanda, encostada a um banco, junto aos seus pensamentos e a uma garrafa de vinho.

Já havia passado umas duas horas desde que Éli havia visto Maria no palco. De inicio o impacto foi grande, ficou sem reação, tonta e até sem ar... mas ao relaxar junto ao vinho e a luz da lua, seus pensamentos foram voltando ao lugar... aquela Eleonor do passado, aquela jovem viveu em outra vida, outros tempos... por mais que tivesse sim sido uma fase cheia de intensidades em sua vida... aquela não era mais sua vida.

Em meio a lembranças do passado, tentativas de convencer a si mesma que tudo que sentiu um dia em relação a Maria já não existia mais... tinha também o fato bem confuso de que ela era mãe da Navi.

Éli bebia o vinho na boca da garrafa sem pressa, tentando esclarecer algumas coisas e anestesiar outras... por mais conturbada ela estivesse há pouco tempo, ali olhando o céu imersa a memórias, teve a certeza de que pelo menos as emoções daquela noite haviam chegado ao fim, mas aquela paz durou apenas 3 segundos.

- Léo... – Maria chamou sua atenção em voz baixa, fazendo-a virar para encara-la.

- Tari... – respondeu no mesmo tom.

Elas se olharam sem nada dizer em palavras, já em seus olhos havia tanta coisa que mal dava para decifrar direito.

Em total silêncio, Maria se aproximou de Éli, pegou sua garrafa de vinho, tomou alguns goles, a encarou novamente, analisou o local onde ela estava, sentou do outro lado da canga se encostando também ao banco, olhou para o céu por longos segundos, bebeu mais alguns goles de vinho, devolveu a garrafa e a encarou.

- Como?... – Maria negou de leve fazendo Éli dar de ombros como resposta. – Eu preciso ir... – levantou de uma só vez já indo.

- Tari? – Éli a chamou, fazendo-a virar. – Até amanhã. – Maria sorriu de canto e soltou o ar preso.

- Boa noite.

 

ºººººº

 

 

No café da manhã, Maria, Navi, Bento, Madu e Miguel mais conversavam do que comiam. Incrível como todos eles se deram tão bem, se gostaram tanto e criaram uma conexão tão linda em apenas uma refeição. Era como se o destino tivesse reunido eles, como se já fossem uma grande família mesmo antes de se conhecerem.

- Seu nome é só Maria ou é Maria alguma coisa? – Madu perguntou.

- Maria Catarina.

- E sempre te chamaram só de Maria? Porque eu sou Maria Eduarda... nunca me chamaram de só Maria ou só Eduarda... sempre foi Madu ou Duda...

- É eu já tive alguns apelidos... quando eu era criança meu pai era o único que me chamava de Maria... na verdade meu pai e meu tio... na infância e na adolescência eu era chamada de Catarina ou Cá... Mas teve uma época da minha vida que eu era só chamada de-

- Mãe! Finalmente você veio! – Miguel disse feliz ao ver Éli se aproximar da mesa.

- Bom dia... – sua voz saiu meio para dentro ao evitar encarar Maria.

- Mãe! Pelo amor! Eu estava quase indo lá te acordar! – mesmo reclamando Madu estava nitidamente feliz.

- Agora que finalmente você levantou tia Éli, eu posso apresentar vocês! – Navi disse animada ao revezar o olhar entre Maria e Éli que se olhavam mais sérias do que deveriam. – Tia Éli essa é a minha mãe Maria, mãe, essa é a minha querida, amada e perfeita, tia Éli.

- Bom dia, Léo... – sua voz saiu com uma pitada de deboche.

- Bom dia, Tari... – sentou na cadeira vaga a sua frente.

- Que? Léo? Tari? – Madu foi a primeira a perguntar.

Um silencio tomou conta da mesa, Éli e Maria se olharam em uma conversa silenciosa, enquanto os outros a encararam sem entender nada.

- O que tá rolando? – a voz de Miguel quebrou o silencio.

- Como eu estava dizendo... – Maria voltou para Madu – teve uma época da minha vida que meu apelido foi Tari...

- Não tá fazendo sentindo... – Navi olhava para as mais velhas que pareciam serenas demais.

- E como minha mãe sabe disso? – Madu.

Éli e Maria apenas se olharam fazendo todos os outros esperarem respostas que não vieram.

- Cara? Vocês se conhecem? – Navi perguntou sem entender.

- Como assim? – Madu estava chocada.

- A gente... – Maria começou sem saber o que falar, fazendo Éli lhe dizer não com o olhar.

- Ela é a integrante da banda que eu estava procurando. – disse sem emoção para os mais novos.

- Estava me procurando?

- Como assim tia Éli? Como assim?! – Éli deu de ombros, já Navi estava indignada. – Tia Éli!? Como assim minha mãe teve uma banda com você? Como assim vocês se conhecem? Porque nunca me contou nada disso?

- Querida... – Éli a olhou com tranquilidade. – Eu só soube quando cheguei aqui, fiquei tão surpresa quanto você.

- Pelo amor de deus! Como assim!? – Navi estava mesmo em choque. – Eu estou completamente em choque! Chocada em cristo real!... Não consigo nem pensar.

- Olha, sinceramente eu também nem sei o que dizer, minha mãe... sua mãe... – Madu começou olhando para Navi, mas depois encarou Éli e Maria a sua a frente. – Vocês vão ter que contar essa história direito ai, porque... – fez uma curta pausa - como assim vocês já tiveram tipo... uma vida juntas? Minha cabeça está explodindo.

- Mãe alá tia Gabi – Bento cortou o assunto e apontou para próximo a cozinha falando diretamente com Maria.

- Mãe? – Éli perguntou para Maria.

- Sim, esse aqui é o meu filhote Bento. – Beijou e apertou ele.

- Ai mãe...

- Nossa sim, esqueci completamente... desculpa Bento! – Navi falou com ele. – Essa é a mãe do Miguel e da Madu, minha tia Éli, que agora é sua tia também. – sorriu para ele que sorriu para Éli.

- Oi tia Éli, muito prazer.

- O prazer é todo meu pequeno Bento.

- Grande Bento. – A corrigiu.

- Ok, grande Bento.

- Bom dia! – Gabriela disse ao se aproximar deles e selar a boca de Maria, fazendo-a sorrir sem graça e olhar rapidamente de canto para Éli.

- Bom dia. – Todos responderam, alguns espantados outros admirados, já Éli e Maria nitidamente incomodadas.

- Tia Éli, essa é a minha tia Gabi, namorada da minha mãe, tia Gabi essa é a tia Éli, mãe do Miguel e da Madu – Bento quem apresentou elas. – E essa aqui é a Navi... ela é minha irmã – disse com orgulho.

- Muito prazer. – Gabriela disse a todos um pouco tímida. – Bem eu vim só te dar oi mesmo e ver a carinha da sua filha – olhou para Navi que sorriu, em seguida se virou para Maria – estou indo visitar minha mãe... então só volto na terça, qualquer coisa me liga ok? – Maria apenas afirmou com a cabeça - bem não vou atrapalhar vocês ai, curtam bastante! – beijou Maria mais demorado do que a outra desejava – tenham um ótimo final de semana – desejou a todos antes de ir.

Durante o resto do café, Éli e Maria deram toda sua atenção aos jovens que estavam curiosos sobe o passado delas, passado esse que elas levaram anos e anos para enterrar, mas que em menos de um dia estava ali todo exposto à sua frente.

É claro que elas não entraram em detalhes e não contaram sobre o namoro, mas isso não significava nada para seus corações que palpitavam toda vez que seus olhos se cruzavam e tinham uma conversar intima entre eles... não contar a eles tudo que viveram no intimo não mudava as lembranças que explodiam em suas mentes... e por mais que estivessem dando o máximo para levar toda aquela situação numa boa, dentro delas tudo que elas queriam que aquele café chegasse ao fim.

Enquanto Maria foi levar Bento ao banheiro, Éli conversou com os seus e conseguiu convencer Madu e Miguel a irem na piscina com ela para deixar Navi a vontade com sua mãe e irmão... mas o que foi mais difícil foi convencer Navi a ficar sozinha com Maria e Bento, ela queria mesmo era ficar com tudo mundo ao mesmo tempo.

- Não faz essa cara! – Éli a repreendeu assim que levantou.

- Mas tia...

- Mas tia nada... você não veio aqui para isso? Então para de bobeira que eu não te criei para isso, cadê a Ana Vitória corajosa e independente?

- Ela tá aqui pedindo socorro. – Fez careta fazendo éli sorrir.

- Mas garotinha, do que você tá com medo?

- Eu não sei... de não ter papo, sei lá...

- Olha... se tem uma coisa que não vai acontecer é isso... sua mãe, ela... – o coração de Éli acelerou por dois segundos – ela é como você... vocês são tipo as mestras em ter assunto, então respira, relaxa e vai curtir sua mãe.

- Eu ainda não acredito que vocês foram tipo eu e Madu – Éli sorriu sem graça.

- Vamos! Levantem... – Falou com Madu e Miguel.

- Aí mãe que saco... – Madu reclamou.

- Bora, bora! – apressou – vamos logo.

 

ºººººº

 

Maria levou a filha para conhecer seus tios.

Navi achou os três ainda mais lindo pessoalmente... aquela coisa deles serem um trisal e ainda serem velhos a encantava demais.

Já Heitor, Antônio e Laura de cara se apaixonaram pela sobrinha neta... e ficaram impressionados o quanto elas eram parecidas.

Heitor, o tio de sangue de Maria falou inúmeras vezes o quanto Ana Vitória era a própria luz que sua sobrinha era quando jovenzinha... e o quanto Maria havia recuperado parte dessa energia só em ter reencontrado a filha... que dava para ver nos olhos o quanto estava feliz.

Seus tios também aproveitaram para falar novamente sobre o café e bar no Rio de Janeiro, fazendo Maria ficar chateada com o assunto, já Navi e Bento mais que animados.

Conversaram, riram, se conheceram, se reconectaram, mostraram fotos de Maria pequena, assim como Navi mostrou algumas suas. Aquele primeiro dia entre mãe e filha foi melhor do que o esperado.

No final da tarde depois de Navi ter falado o bastante sobre sua vida, mas também ter dito muito a respeito de Éli, Madu e Miguel, os tios ficaram curiosos sobre a tal família que acolheu sua sobrinha.

 

ºººººº

 

 

Éli saiu daquela mesa do café certa de que teria um longo dia com seus pensamentos sobre o passado, mas para sua surpresa as conversas e as brincadeiras com seus filhos lhe ocuparam todo o tempo. É claro que Madu e Miguel fizeram mais algumas perguntas sobre o passado, mas no geral os assuntos foram outros.

No final da tarde, depois da piscina, da sauna e do lanche, os três sentaram na grande sala comum do casarão principal onde havia um piano... piano esse que Éli encarou quase todo tempo enquanto conversava com seus filhos.

- Mãe toca para gente... – Madu a incentivou ao notar a resistência, Éli negou. – Ah mãe... toca sim... o dia foi lindo... tudo que eu queria agora era te ouvir tocar e cantar...

- Eu toco aquela com você – Miguel levantou animado já indo até o piano e o abrindo.

- Jura? – sorriu a contragosto para eles que afirmaram animados. – Está bem...

Tocar e cantar eram coisas que Éli não fazia mais em público, de alguma forma seu passado sempre vinha à tona e lhe lembrava de coisas que não queria. Ela tocava e cantava em casa, com os filhos, com Navi, mas também não chegava nem perto da frequência que foi um dia.

Ali naquela grande sala, o que era para ser algo em família se tornou um pequeno show com os hospedes e funcionários que pararam para os assistir.

Éli tocou e cantou os pedidos de seus filhos e dos que a assistiam, musica após musica ela se sentia mais feliz, seu coração estava vibrando uma energia que há tempos não emanava, aquela sensação de tocar novamente para um público, mesmo que pequeno, era completamente diferente de como ela sempre achou que iria ser.

Em meio a mais pedidos, Navi sentou de surpresa ao seu lado fazendo-as se acomodarem no banco em frente ao piano. Éli sorriu feliz para a jovem, que sorriu de volta.

Sem nada dizer, Navi se voltou ao piano e começou a tocar algumas notas fazendo Éli a olhar com recusa.

- Que foi? – Navi perguntou baixinho ao parar de tocar.

- Essa não...

- Porque não? A gente sempre toca ela juntas... é meio que uma coisa nossa...

Éli olhou ao redor e viu a plateia que cresceu, mas seus olhos foram em busca de Maria que estava parada próxima aos seus filhos com o olhar apreensivo e um sorriso torto nos lábios... Éli encarou Navi ao seu lado, sorriu de  canto, se voltou para o piano e começou a tocar a musica que Ana Vitória havia começado.

Aquela musica sempre foi uma das que Éli tocava ao piano nos dias em que seu passado ocupava seu coração. Nos dias em que lembrava da banda, nos dias em que Maria Catarina se fazia presente em suas memórias... Era uma canção apenas dela que lhe lembrava o passado e lhe fazia chorar, mas Navi ainda criança se sentiu tocada com a melodia e a letra, que lhe fazia lembrar  tanto de sua mãe.

Navi nunca contou a tia Éli que aquela musica que se tornou algo delas, fazia ela lembrar de sua mãe. Muito menos Éli contou a Navi que aquela musica lhe fazia lembrar de um amor do passado. Ambas mesmo sem saber ao cantarem e tocarem tal canção estavam sempre pensando na mesma pessoa.

Você – Maria Bethânia

Você, que tanto tempo faz,

Você que eu não conheço mais

Você, que um dia eu amei demais

Você, que ontem me sufocou

De amor e de felicidade

Hoje me sufoca de saudade

Você, que já não diz pra mim

As coisas que preciso ouvir

Você, que até hoje eu não esqueci

Você que, eu tento me enganar

Dizendo que tudo passou

Na realidade, aqui em mim

Você ficou

Você que eu não encontro mais

Os beijos que já não lhe dou

Fui tanto pra você

E hoje nada sou.

 

Ao terminarem a música, Éli e Navi se olharam satisfeitas com lagrimas presas nos olhos, se abraçaram com força, se encararam mais uma vez, se levantaram e viraram para os outros para receberam os aplausos.

Maria revezava seu olhar entre Navi e Éli... seu coração na boca junto a um sorriso único nos lábios... aquela sensação em seu ser era conflituosa, havia tantos sentimentos ali que estava difícil de decifrar se estava feliz ou triste. Mas, de uma coisa Maria tinha certeza, ela tinha orgulho da pessoa que sua filha tinha se tornado... e que por mais estranho fosse, ela era grata a Éli por isso.

Aquela foi a última música, Éli não ia conseguir ficar tocando com a presença de Maria, ainda mais depois do que tinha acabado de tocar... e antes mesmo dos mais jovens terem a ideia de coloca-las para cantarem juntas ela encerrou o mini show improvisado.

Os outros se foram, deixando a sala para a família de Éli e de Maria.

Os três tios elogiaram o show e deram a ideia que elas não queriam, de cantarem e tocarem juntas... e mesmo com todo o cuidado para disfarçarem o incomodo os três tios sentiram algo estranho no ar entre aquelas duas.

Éli chegou a suspirar aliviada por realmente ter finalizado o show no piano a tempo de aquilo não acontecer ali naquele momento.

- Como minha querida sobrinha neta Navi disse que está faminta, e eu confesso que eu também estou... o que acha de jantarmos todos juntos lá em casa, só a gente... sem hospedes por perto? – Laura sugeriu a todos.

- Sim! – Bento pulou de alegria.

- Vai caber todo mundo lá? – Maria perguntou.

- A gente dá um jeito... – Laura.

- Olha, nós não queremos incomodar... – Éli.

- Que incomodar o que criança! – Laura falou com Éli como fala com Maria. – Minha querida sobrinha neta Navi falou o dia todo de vocês... e ainda por cima ficamos sabendo que você e Maria já são amigas de longa data... então teremos sim uma noite de massa e vinho com direito a muita história.

Maria e Éli se olharam rapidamente onde seus olhos gritavam uma para outra por socorro e sorriram para os tios a contragosto.

 

ºººººº

 

Navi e Madu se arrumavam no quarto em que estavam hospedadas... animadas e ansiosas por mais. Falaram sobre o dia e em como tudo aquilo parecia obra do destino, como algo planejado pelos Deuses, quase como um conto de fadas ou uma novela mexicana.

- Olha eu não sei quanto tempo vai levar para eu deixar de estar em choque por causa das nossas mães... – Navi secava os cabelos com uma toalha.

- Te falar que eu também... – fez uma pausa e pensou bem antes de falar – você parou para reparar?

- Em que?

- Você, sua mãe e seu tio... todos gays...

- Tava demorando... – revirou os olhos.

- Não! Para! – revirou os olhos e respirou fundo - To só falando... tipo... legal né?

- Legal? – parou para analisa-la.

- É...

- Desde quando você acha gays legais? Na real eu to até surpresa com você por ter gostado deles, mesmo eles sendo gays...

- Para cara! Quantas vezes eu vou ter que dizer que não sou homofóbica?

- Você pode dizer quantas vezes quiser, porque suas palavras de nada valem já que suas atitudes sempre mostram o que você é.

Aquele assunto era sempre pesado e motivo de brigas, coisa que Navi não queria ainda mais naquele final de semana. Já Madu ao ver todos eles tão felizes e sua mãe Éli sendo tão de boa mediante as relações deles, uma faísca de coragem surgiu em seu peito. Não que ela tivesse a intenção de contar a Navi que sempre foi apaixonada por ela, longe disso, mas ela queria ao menos contar a sua melhor amiga que era como ela.

- Cara...

- Madu?! Não! Eu tô feliz à beça, tá tudo sendo incrível! E eu não tô afim de entrar nessa discussão com você agora, ok?

- Mas eu não quero discutir com você, cara! – elevou a voz sem perceber – eu só comentei... achei legal, queria saber como se sente em relação a isso..., mas de boa... não falo mais nada.

- Prefiro. – Sorriu debochada. – Eu real não quero essa briga agora.

- Se você não quer essa briga então não briga, cara! Porque eu só comentei que era legal...

- Como se seus comentários sobre o assunto não levassem sempre a uma briga né, Maria Eduarda?!

- Ta vendo? Você fala que não quer brigar, mas já tá aí brigando à toa comigo... eu só disse que era legal!

- Olha, Madu, sinceramente, sabe? Qual é a tua? Fala! Quer dizer o que com esse comentário de “legal” – fez aspas com as mãos – porque eu vejo no seu olhar, eu vejo na sua cara que você ta dizendo isso como se fosse algum defeito de família, ou sei lá qual bizarrice passa em sua cabeça.

- Cara, você tá maluca?! Eu nunca na minha vida pensei algo assim!... Na real isso aí é coisa da sua cabeça, isso sim! Porque eu nunca nem disse nada parecido para você!

- Nunca disse, mas sempre deu a entender, sempre com cara de nojo para as minhas amigas sapatão, sempre de mimimi comigo.

- Na moral Ana Vitória, você só ta falando merda! – Navi riu com deboche do comentário.

- Eu? – encarou – Eu Madu? Eu?

- É! Sim, você! Olha só a tempestade que ta fazendo com nada? Pelo amor, sabe? Eu as vezes acho que você é que tem preconceito com você mesma e fica jogando isso para cima de mim.

- Ah não, Madu! Ah não! Sério... Já deu para mim, eu as vezes me pergunto como posso ser amiga de uma homofóbica, sabe? Eu to cansada dessas discussões idiotas que nunca levam a nada.

- É verdade né, Navi? É verdade... - debochou – nossa amizade deve ser mesmo uma merda para você... mas fica tranquila que eu posso me retirar da tua vida... – tinha raiva e tristeza nos seus olhos e voz – e me desculpa não ter te contado antes, mas eu sou apaixonada por uma garota... – deu as costas e bateu a porta.

Navi ficou em choque novamente naquele dia, pensou em correr atrás dela e tirar satisfações, brigar ainda mais até se entenderem novamente. Mas aquela nova informação sobre Madu fez seu coração murchar. Ela já tinha aceitado que nunca teria chances com a amiga, mas aquela situação era diferente, Maria Eduarda não a queria por motivos de ser hetero e sim por motivos de gostar de outra garota... aquilo mudou tudo.

Em vez de ir conversar com Madu, Navi resolveu deixar as coisas esfriarem, aterrarem e fazerem o mínimo de sentido em sua cabeça.

 

ºººººº

 

A noite estava estrelada, a lua brilhava no céu e Eleonor estava sentada em uma das mesas próxima ao lago.

O dia tinha sido longo e mesmo assim não havia chegado ao fim.

Éli aproveitou aquele momento em que todos estavam tomando banho e se arrumando para ter um momento para si, tentou refletir sobre todo aquele emaranhado de coisas dento do peito. Pensou em ligar para seu ex-marido e contar a grande peça que destino a havia pregado, mas desistiu ao imaginar as coisas que ele lhe diria, Éli desejava paz no coração e não Ricardo colocando lenha da fogueira.

Éli pensou em Navi, lembrou de todas as vezes que achou ela parecida com Maria, mas que sempre teve a certeza de que era apenas o universo querendo brincar com sua cara... na verdade foi mesmo obra do destino sua filha ser a melhor amiga da filha de Maria Catarina.

Pensou nos três tios de Maria e lembrou das histórias que ela havia lhe contato sobre eles, de como tudo na fazenda era lindo e que aquele era o lugar perfeito para o casamento delas... Éli chegou ao rir sozinha com tamanha bobeira vivida no passado.

Pensou em como Maria Catarina continuava linda fisicamente, mas que algo em seu olhar havia se apagado, ela não era mais a mesma, mas ainda era a mesma... confuso, instigante e perturbador.

Pensou em sua vida, em como passou anos e anos tentando apenas não lembrar dela, e lá estava Éli, passando um final de semana no hotel fazenda que sempre foi desejado, mas nunca real visitado.

E mais uma vez se pegou pensando em Navi... sua filha do coração, tão amada e queria... Ana Vitória era filha da única pessoa por quem Eleonor se apaixonou.

- Atrapalho? – a voz mansa de Maria tirou Éli de seus devaneios, que a olhou e negou com um leve sorriso.

Maria sentou na cadeira ao lado dela e encarou o lago a frente.



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