História Um pedaço de mim - Capítulo 10


Escrita por:

Postado
Categorias Histórias Originais
Tags Adolescente, Amor, Dor, Drama, Ficção, Filha, Infância, Passado, Romance
Visualizações 4
Palavras 4.931
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Adultério, Insinuação de sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 10 - (Parte 10)


Acordei em um súbito, sem saber exatamente onde eu estava. Quando voltei para o quarto na noite anterior, acabei sentando no sofá de frente para a janela e fiquei contemplando o céu noturno enquanto minha cabeça dava voltas. E fora exatamente ali que eu acordara, com uma forte dor no pescoço, assim como no resto do corpo. 

Levantei-me, tentando ao mínimo não esticar tanto meu corpo. Sabia que era necessário um alongamento para aliviar, mas a dor do processo não parecia tão convidativa no momento. Fui em direção ao quarto e, ao ver que Evie ainda dormia serenamente, tentei fazer pouco barulho para que ela aproveitasse seu sono. Escorei-me na cômoda enquanto abria minha bolsa e procurava pelo analgésico que o médico me receitara. O relógio em cima do objeto de madeira indicava que eram 5h56; se eu tivesse tido quatro horas de sono achei ser muito. Quando achei o remédio, fui até o mini bar em busca de água e o tomei. Em seguida, peguei um roupão e me dirigi ao banheiro. 

Tirei minhas roupas e as entulhei no canto da porta, não me importando com o fato delas ainda estarem limpas, em perfeito estado de reuso, em contraste com o chão do banheiro. A limpeza do hotel parecia estar em dia, claro, mas todos sabemos a quantidade monstruosa de bactérias que costumam habitar aquele específico cômodo. Foquei na minha imagem refletida no espelho acima da pia. Se antes eu já sentia que me faltava um esforço para me tornar uma pessoa meramente apresentável, no momento eu percebia o longo e tortuoso caminho que eu precisaria percorrer para me reestabelecer como alguém que se preocupava e cuidava de si todos os dias. 

Meu cabelo, longo e castanho, estava opaco. Os fios apenas caíam para baixo com a ajuda da gravidade. Minha pobre pele exibia ressecamento e palidez; não duvidaria em nada se alguém me dissesse que eu estava com carência de vitamina D. Ignorando todos os outros sinais que indicavam que eu não ligava para minha aparência, pois já estava cansada daquele hábito nada saudável que eu desenvolvi, meus olhos desceram até meu pescoço, onde uma mancha escura me chamou a atenção. Por um instante pensei em negligenciá-la e estava para continuar com o plano de tomar uma ducha quando um pensamento pipocou. Pus uma mão em volta do pescoço, com meu polegar parando a milímetros de distância do pequeno hematoma.

Cenas curtas me passaram em flashes enquanto eu mantinha minha mão ali, com a outra apoiando meu pulso. Imitei a pressão que Daniel aplicara em meu pescoço naquele dia e observei as veias dos meus olhos começarem a se tornar cada vez mais vermelhas. Meu rosto foi mudando de cor à medida que eu continuava a aplicar alguma força com as mãos e o ar me faltava. Perguntei-me se era possível alguém se matar daquele jeito, pressionando sua própria garganta por alguns minutos. Ou se de alguma forma o instinto de sobrevivência poderia interferir naquela ação que só poderia ser levada ao fim por um segundo sujeito.

Fora só quando eu finalmente senti que meu pulso fora reduzido mais que o normal que afrouxei as mãos, que logo tombaram ao meu lado. Uma tosse frenética se deu a partir daí, juntamente com a dificuldade para voltar a respirar normalmente. Diferente do que ocorrera naquele dia, uma vez que Daniel me acertara tão precisamente na cabeça que eu acabei por desmaiar. E, como não se dera por satisfeito, como soube pelo laudo médico, ainda aferiu-me mais alguns socos e chutes. Eu fora seu verdadeiro saco de pancadas. 

Duas batidas na porta fizeram-me despertar do meu transe e forcei-me a controlar minha respiração. Evie chamava-me pelo outro lado com uma clara preocupação em sua voz. Engoli em seco e a respondi da melhor maneira dizendo que estava tudo bem, para ela voltar para a cama. Esperei alguns segundos e, por mais que eu não tenha conseguido ouvir seus passos, acreditei que ela tinha acatado ao que eu dissera. Prossegui com o que tinha de fazer e entrei no box para tomar meu banho.

Quando acabei, procurei em minha mala por uma das minhas melhores roupas de trabalho: um vestido acinturado bege claro e de gola média. Pus o vestido, envolvendo a cintura com um fino cinto preto e penteei o cabelo molhado para trás, cuidando para que as pontas não estivessem pingando água. Olhei para o relógio que então marcava 6h45 e voltei minha atenção para minha pequena Evie. Como eu instruíra, voltara a dormir, com seu peito subindo e descendo devagar, de acordo com sua respiração leve. Não queria acordá-la, mas precisava sair dali e fazer algo. Precisava acabar com aquele dia antes mesmo que ele pudesse começar. 

Calcei meus sapatos de salto e fui em busca do meu celular para ligar para Kris. A ligação caiu direto para a caixa postal e pensei que poderia estar com o aparelho desligado ou descarregado. Dando mais uma espiada no quarto, me aventurei em ir até seu quarto. Dei algumas batidinhas na porta, mas também não recebi resposta. Soltei um suspiro curto. Teria de me virar sozinha. 

Acordei Evie, a arrumei e partimos em direção ao meu futuro ex local de trabalho. Fui recebida pela minha assistente com um olhar surpreso, mas logo a mesma saiu de trás de seu balcão e veio me abraçar, não medindo seus elogios, incluindo “você parece tão bem”. Isso era devido a tonelada de maquiagem que eu me obriguei a passar. O dia já seria difícil por si, não precisava dos olhares pesarosos e piedosos que receberia se apresentasse uma má aparência. Quer dizer, não má, mas a real. 

Sorri para ela, que logo voltou sua atenção para Evie, fazendo carinho no topo de sua cabeça e recebendo um abraço de Evie na altura da cintura. 

— Não sabia que você voltaria hoje ao trabalho. — Disse, olhando para mim com um sorriso confiante no rosto. Era o sorriso que tentava expressar o quanto ela me considerava guerreira e inspiradora por eu estar posando como se o que tinha acontecido não passasse de um nada. Mas não era nada, era algo imensamente marcante e, eu sabia, não iria conseguir manter a fachada por muito tempo. 

— Na verdade, vim aqui para falar com a Vicky. Ela está? — Victoria Aberlude era quem dava as cartas na clínica. Mesmo que todos soubessem que tudo fora construído através de uma sociedade, também sabiam que quem tinha a última palavra em tudo era ela. Uma mulher como ela que conseguia sobreviver e imperar em um mundo de homens podia, no mínimo, ser considerada um ícone a ser seguido. 

Nem tudo no meu trabalho era flores, não concordava com muitas coisas que Vicky decidia, mas tinha ainda muito o que aprender com ela. Seus métodos, sua imposição implícita e, principalmente, seu poder. Victoria Aberlude sabia jogar e, se ela estava sentada na mesa, era porque nunca perdera uma rodada antes. Porém, infelizmente, minhas decisões me proporcionaram efeitos colaterais difíceis de se contornar no estado em que eu estava. Era, definitivamente, hora de partir.

— Sim, está na sala dela. Pode ir até lá, eu fico com Evie. — Como sempre, minha querida secretária sempre antevia minhas necessidades. Iria sentir sua falta, principalmente do seu profissionalismo. Assenti enquanto rumei para as salas ao fundo da clínica, onde se encontravam os escritórios dos integrantes da sociedade. 

De frente para sala de Vicky e pronta para bater na porta, uma voz lá no fundo me perguntou “Você está realmente tomando a decisão certa?” e eu travei ali mesmo. Meu cérebro apagou e eu não conseguia associar nenhum dos meus pensamentos. Não conseguia colocar em perspectiva o que tinha acontecido, o que eu estava fazendo e o que eu imaginava que iria acontecer. Eu simplesmente fiquei ali, com o punho levantado com a mão fechada, sentindo nada, pensando nada. Não sei ao certo quanto tempo ridiculamente fiquei ali, mas fora só quando Victoria abrira a porta, prestando atenção em uma folha que tinha em mãos e pronta para sair dali, que eu voltei a mim. 

— Olívia! — Disse com um tom surpreso. Tentava retomar minha postura de confiante, mas ainda me sentia zonza e desajeitada. Gaguejei um pouco antes de conseguir falar uma frase que fizesse sentido, ao que a Dr. Aberlude prestou atenção, pacientemente, esperando meu momento. Suspirei com um sorriso no rosto, como se me desculpando pela cena. 

— Preciso tratar de um assunto com você. — Vicky assentiu e abriu espaço para que eu entrasse em sua sala. Segui até a cadeira de frente a sua mesa e tentei passar um pequeno discurso em minha cabeça sobre como abordar o assunto sem que eu, de alguma forma, a insultasse. Era uma linha muito tênue a se seguir quando você pedia demissão de um lugar como aquele. As pessoas tratam de pensar que ou você as usou para conseguir algo melhor ou, presunçosamente, se sente superior aos seus colegas de trabalho. 

— Então, me diga, que assunto seria esse? — Emendou enquanto arrastava sua cadeira para perto da mesa, de forma que conseguisse apoiar seus cotovelos sobre a mesma, descansando o queixo em suas mãos, e ainda assim permanecer com a postura de quem era ela que comandava tudo que acontecia sob aquele teto. — Na verdade, me diga primeiro como você está. Conseguiu se recuperar dos hematomas? — Minha estadia no hospital não fora segredo para ninguém da clínica, mas claro que os detalhes ninguém sabia, a não ser, eu desconfiava, minha secretária. Para os outros, eu apenas havia me envolvido em uma espécie de acidente, necessitando de cuidados médicos por um período de algumas semanas. Mexi em meu cabelo, tentando ajeitá-lo, acreditando que eu poderia me mover e a marca que Daniel deixara em meu pescoço pudesse acabar por aparecer. 

— Estou bem, Vicky. Obrigada por perguntar. — Permaneci elegante, com a postura ereta, as mãos cruzadas no colo e as pernas pendendo para o mesmo lado. — Tudo em ordem. — Prolonguei-me nos “u”, tentando fazer uma gracinha, ao qual Vicky correspondeu com um risinho. 

— Pois bem, me diga o que você quer. — Victoria era uma mulher direta e sempre gostou que as coisas lhe fossem ditas sem ladainhas, principalmente nas reuniões da clínica. Nelas, apresentávamos novos casos e discutíamos os melhores métodos de avançar com a terapia de pacientes cujos quadros podiam ser complicados. E ali eu também precisava ser direta, sem parecer grossa. Apenas devia apresentar os fatos que realmente importassem para o meu pedido. 

— Infelizmente, Vicky, precisarei pedir minhas contas. — Minhas mãos já suavam frio e eu tentei conter minha vontade de secá-las no meu vestido. A mulher me encarou pelo o que pareceu uma década. Não conseguia identificar se seu rosto expressava incredulidade ou apenas curiosidade. Por fim, Vicky balançou lentamente a cabeça para frente e para trás, com ela ainda apoiada nas mãos, e projetou seus lábios para fora, formando um bico. 

— Quanto? 

— Perdão? — Ajeitei-me na cadeira, procurando ficar pelo menos numa posição mais confortável, pensando que me ajudaria a passar por aquela conversa. 

— Para você ficar. Quanto que você quer? 

— Não! — Exaltei-me com o mal entendido. Vicky realmente acreditou que eu estava usando uma tática barata para conseguir um aumento. — Eu não estou aqui para isso. Vicky, eu realmente… — Eu realmente o quê?! O que eu realmente precisava? Alguém saberia me dizer? — Eu tenho que ir embora. Aconteceu…. Aconteceu algumas coisas que estão me forçando a seguir em frente. Por isso que preciso ir.  — Estava ciente de que minha fala parecia sair da boca de uma garotinha, mas eu tinha deixado o nervoso me vencer. Vicky utilizou-se de alguns minutos para absorver todos os pontos e entender o que eu queria dizer. Era o fim para nós duas, um fim forçado, mas ainda assim um fim.

— Tudo bem. Para quem você quer que eu repasse seus casos? — Torci o nariz ao ouvir a última palavra, não gostava de me referir aos meus pacientes como coisas, mas Vicky não se importava com aquilo. Levantou-se em direção aos arquivos, dando-me tempo de enxugar uma lágrima, sem que ela visse, que ainda brincava em encher meus olhos, e voltou trazendo para mesa as fichas de meus pacientes. Ficamos ali mais um tempo discutindo sobre os psiquiatras disponíveis para pegar novos “casos” e qual se encaixaria melhor em cada. Quando tudo estava re-etiquetado, e eu tinha assinado todos os papéis que Vicky colocou em minha frente, preparei para me despedir de minha primeira e única mentora mulher. Tudo o que me ensinara seria carregado comigo para onde eu fosse, pelo menos disso tinha certeza. 

— Deixe um endereço para contato, vou enviar para você uma excelente carta de recomendação. — Disse, piscando para mim enquanto me oferecia um bloco de notas e uma caneta. Sorri para ela, agradecendo por toda oportunidade que me proporcionara durante o tempo que fiquei ali. 

Vicky, como todos sabiam, era uma mulher antiquada para nossa geração. Não utilizava emails e muito menos mensagens de texto. Para ela, se não fosse olho no olho, eram bilhetes entregues por outros pessoas ou cartas enviadas pelo correio. Não discutíamos com ela, afinal, Victoria Aberlude era quem mandava. Por isso, deixei o endereço da casa dos meus pais, já que me instalaria lá até eu decidir qual seria o meu próximo passo. 

— Quanto aos ajustes financeiros, não se preocupe que logo baterá em sua conta. 

Assenti para ela, observando-a se levantar e andar em minha direção para um abraço apertado. Reprimi minhas emoções e depositei dois tapinhas em suas costas, como se aquilo não passasse de boas maneiras entre colegas de trabalho. Logo que nos separamos, saí de sua sala e fui em busca de uma caixa de papelão para que pudesse reunir meus pertences que ainda estavam no meu, oficialmente, antigo escritório. 

Caminhei melancolicamente até a porta após ter recolhido tudo que me pertencia. Virei-me mais uma vez e observei aquela sala tão bem arrumada e iluminada, onde eu havia passado tantas horas da minha vida dedicando-me a amenizar a dor daqueles que mais precisavam. Fechei a porta com pesar e caminhei até a frente da clínica, onde Evie brincava de quebra-cabeça sob a supervisão de minha ex colega de trabalho. 

Com pressa para abandonar aquele lugar que, no momento, só me trazia uma vontade de chorar, chamei por Evie e acenei para minha secretária. Quando seu olhar bateu na caixa que eu carregava, pude ver o desentendimento brincar com sua expressão, mas eu não aguentaria explicar e me despedir dela. Fui egoísta e dei as costas, agarrando na mão de Evie e andando porta afora. 

Uma vez que saímos de lá, andei dois quarteirões com Evie no meu pé perguntando o por quê da caixa em meus braços. Ignorei suas outras perguntas, dizendo que logo tudo ficaria mais claro para ela. Evie, no entanto, não gostou do que ouvira e deixou aquilo bem claro com seu aborrecimento estampado no seu rosto. Porém, não durou muito tempo. Como não havíamos tomado café da manhã no hotel, parei numa delicatessen que havia perto do trabalho e nos comprei fatias de bolo com suco para Evie e café para mim. Quando o pedido chegou à mesa, Evie não conteve seu sorriso ao ver a grande fatia de chocolate posta a sua frente. Sentia que já esquecera de tudo. 

 

***

 

As coisas na escola de Evie não caminharam muito bem. Quando saltamos do táxi em frente ao colégio Egerton, Evie disparou com suas palavras. Eu realmente não tinha pensado naquilo. Segurando em uma mão a pequena bomba relógio que se tornara minha filha e, desajeitadamente, apoiando com a outra a caixa debaixo do meu braço, eu me arrependia profundamente de ter feito aquele caminho. Como pude achar que fazia sentido levar Evie para pedir transferência sendo que eu não havia lhe contado do meu plano? Ou até mesmo caminhar com aquela caixa, incomodando minha costela fraturada, durante todo o processo? Não tinha outra palavra que eu poderia dirigir a mim mesma que não fosse “burra”.

Eu não sabia o que fazer e o incômodo que a caixa proporcionava encostada no meu torso criou uma dor de cabeça que se intensificava a cada agudo que saía da boca de Evie, que falava tudo que lhe vinha à mente, totalmente estressada e exasperada. Enquanto ela repetia que não sabia o que estava acontecendo, quase que me implorando para lhe contar algo, qualquer coisa, eu a arrastei escola adentro. Mas, quando passamos da recepção e caminhamos pelo corredor que nos levaria até a sala da diretora, Evie parou subitamente puxando sua mão da minha. 

— Mãe! — Seu grito ecoara pelo largo corredor e, apesar de se tratar de um sábado de manhã, eu desejei que ninguém aparecesse para presenciar aquela cena. Eu me sentiria muito humilhada se alguma mãe metida ou algum professor visse toda a pirraça que Evie estava fazendo. 

— Evie, em casa nós conversamos sobre isso. — Tentei retomar nosso caminho, mas a menina se afastou mais ainda de mim, encarando-me com o cenho franzido e uma espécie de careta. 

— Não! Eu quero saber agora! — Disse cruzando os braços na altura do peito. Nunca vira Evie daquele jeito e uma vontade de largar tudo e ir embora cresceu dentro de mim enquanto eu olhava para ela, tentando ver se sua postura mudaria e ela voltaria a relaxar e aceitar minha palavra. Mas Evie não deu para trás, em vez disso, uma fúria começou a brotar em seu olhar. E, por um infeliz momento, eu vi os olhos de seu pai nela, o que fez correr um arrepio de medo pelo meu corpo. 

Suspirei em derrota, afastando lembranças de Daniel, e larguei a caixa ao lado de um banco, sentando-me nele para ficar na altura da minha filha. Eu não podia mais adiar aquela conversa, não era justo com ela. 

— Senta aqui. — Apontei para o espaço ao meu lado e, com alguma relutância, ela me obedeceu. 

— Primeiro de tudo, você não pode se comportar dessa maneira. Eu sou sua mãe e você precisa me respeitar acima de tudo. — Dei uma pequena bronca, tentando ainda me agarrar aos poucos segundos que eu tinha até introduzir o assunto principal. Evie havia amolecido, desfazendo sua tromba. Não era de seu feitio aprontar uma daquelas. Criara ela passando todos os ensinamentos básicos e com todo meu amor, e aquela era a primeira vez que tinha me desobedecido daquela forma. Eu certamente não gostara. 

— Desculpa, mamãe. — Evie, com sua voz mais doce e mansa, encarou o chão para me responder. Passei a mão pelo topo da sua cabeça e a puxei para junto a mim por alguns segundos enquanto pensava no que dizer. 

— Você confia em mim? — Perguntei e Evie apenas balançou a cabeça em afirmação, ainda encostada em mim, logo completando com um “confio” baixinho. 

Segurei seus ombros e virei-a para mim, levantando sua cabeça ao puxar seu queixo para cima, querendo que nossa conversa pudesse se dar olho no olho. 

— Eu só quero o melhor do mundo para você. — Comecei, segurando minhas companheiras lágrimas, tentando não permitir que minha voz falhasse. Precisava transparecer confiança para Evie, só assim ela entenderia que o que eu fazia era totalmente para o nosso bem. — Evie, infelizmente nós teremos que nos mudar daqui. — Levantei o indicador assim vi sua boca se abrir pronta para pestanejar, fazendo sinal para que ela não falasse no momento. A coragem que eu havia reunido até ali era pouca e iria se esvair em poucos minutos. — Preciso que entenda que não iria fazer isso com você se não fosse realmente preciso. Nós vamos para um lugar melhor do que aqui, um seguro, e você ainda vai poder curtir um tempo com seus avós.

— Meus avós? — Perguntou-me com um novo brilho no olhar. Evie sempre achara estranho não ter contato algum com a parte da minha família, no máximo ela via a irmã de Daniel e era essa sua relação com parentes fora eu e seu pai. Fiquei esperançosa de que meus pais poderiam conceder todo o amor a Evie como me concederam quando eu era criança. As brincadeiras, os lanchinhos feitos com carinho e, principalmente, todas as histórias de contos de fada que me contavam todas as noites antes de dormir. 

— Sim, nós vamos morar com eles por algum tempo, então você poderá conhecê-los! — Sorri, tentando demonstrar o quanto aquilo seria divertido e importante para sua formação. Mas Evie, não dando o braço a torcer, continuou a me contrariar. 

— Mas por que não posso conhecê-los daqui? Da nossa casa? — Pensei que já tinha resolvido aquela questão, mas a vida queria mesmo é me ver rolando no chão esperneando por misericórdia. Virei o rosto para que ela não pudesse perceber minha frustração e a minha paciência se esvaindo.

— Evie… Por favor. — Tentei uma súplica, com o tom carregado de exaustão.

— Isso tem a ver com você no hospital? — Sua pergunta me fez virar rapidamente a cabeça em direção a ela. O que diabos ela tinha entendido de tudo que estava acontecendo ao seu redor? Eu não conseguira ao menos esconder o real motivo de ter ficado internada?

— Não. — Respondi secamente, tentando tirar o pânico do meu semblante. — Olhe, isso é apenas uma coisa que a mamãe precisa fazer. Você disse que confia em mim, não é? Então. 

— Mas eu não quero ir embora! — Conseguia ver a eminência da pirraça que ameaçava voltar e um nervosismo começou a crescer dentro de mim. Eu já não sabia mais o que falar. — Eu… Eu vou ficar com meu pai! — Zangou-se e sorriu em triunfo, achando que, de alguma forma, tinha resolvido todos nossos problemas. 

— Seu pai está em uma viagem à negócios, não vai poder ficar com você. Nós vamos para casa da vovó e do vovô e tudo vai ficar bem. Você vai gostar de lá. E assunto encerrado. — Disse, já me colocando de pé, pegando a caixa, posicionando-a de volta no lugar de antes e esticando a mão para pegar Evie. Mas, novamente, a menina se afastou do meu toque.

— Não! Eu não vou! Eu vou ficar aqui, sua chata! — Suas palavras me atingiram como um raio atinge uma árvore e a parte ao meio. Evie nunca me dirigira nenhuma palavra como aquela antes, nem mesmo de brincadeira. Então, quando aquilo saiu de sua boca, eu sabia que ela queria dizê-la com todas as letras, tentando expressar o que sentia por mim. E eu não pude aguentar aquilo. 

Ainda a encarando, incrédula diante do jeito que estava agindo, joguei a caixa no chão com toda a raiva que eu tinha guardada. Evie, que estava agarrada às pernas do banco tentando provar seu ponto de que não sairia dali, deu um pulo com o susto que levou. Se eu estivesse pelo menos cinco por cento sã, eu também teria me assustado com a minha atitude. Mas eu estava esgotada. Cansada de sentir dor emanando do meu corpo, cansada de não saber o que fazer e, principalmente, cansada de aturar um ser com pouco mais que um metro querendo se mandar. 

— Então fique! — Vociferei extremamente irritada e dei as costas à minha filha, marchando em direção a sala da diretora, querendo acabar logo com aquilo. Enquanto me afastava, pude ouvir o choro crescente de Evie. Mas nem mesmo aquele som me fez voltar, eu havia me transformado.

Não sabia exatamente como eu chegara na sala, pois estava cega de raiva. Passei pela secretária sem dar a menor atenção para a ladainha que saía de sua boca. Bati rapidamente na porta da diretora e logo entrei, já lhe pedindo que providenciasse os documentos necessários para a transferência de Evie o mais rápido possível. Não sei se fora meu olhar matador, minhas narinas bufando, meu tom de voz ou até mesmo meus punhos cerrados ao lado do corpo, mas a diretora não me fez perguntas, apenas acenou e saiu da sala. Fiquei esperando pelo o que pareceu uma eternidade, enquanto eu andava para o lado e para o outro naquela pequena sala, tentando colocar minha cabeça no lugar. Mas, antes que eu pudesse ter algum avanço, a mulher assustada que outrora saíra correndo de sua própria sala, retornou com um envelope pardo contendo o que eu havia pedido. 

Arranquei o envelope de sua mão e virei-me em direção a porta, pronta para sair dali como entrei: como uma tempestade. Porém, por cima do meus batimentos cardíacos que eu conseguia ouvir claramente, a voz da pobre mulher ressoou pelo ambiente, dizendo-me que eu teria que assinar alguns papéis para concluir o processo. Encarei ela, esperando que me desse os malditos papéis, mas a mulher apenas conseguiu me encarar horrorizada pelo momento que se estendeu até perceber que eu aguardava a entrega do que fosse preciso. 

Atrapalhando-se, abriu uma gaveta e retirou folhas grampeadas umas nas outras e estendeu-as para mim juntamente com uma caneta. Não me dissera onde eu tinha que assinar, seu horror parecia ter inibido qualquer movimento brusco ou som que poderia produzir. Encarei ela novamente quando puxei o papel e a caneta de sua mão, pensando seriamente em esbravejar sobre sua incompetência, mas algo, talvez ainda meu lado racional, me impediu de fazer isso. Apenas folheei as páginas, observando as linhas e se tinha escrito “responsável" embaixo e as assinei, jogando as coisas em sua mesa quando  eu havia acabado. 

Marchei porta afora, deixando sua porta aberta de propósito. Ignorei os olhares que me seguiam dos funcionários presentes na cena e tentei voltar para onde havia deixado Evie. Errei o caminho duas vezes antes de finalmente conseguir acertar o corredor, vendo uma pequena bola encolhida no canto da caixa que eu jogara no chão. Evie havia recolhido os objetos que caíram do papelão e os colocou de volta ao lugar de antes. Observando-a de longe, um sentimento ruim começou a crescer em meu peito, mas fora somente quando ela levantou a cabeça e me viu, o que fez ela se recolher de medo, que a dor se manifestou a ponto de me sufocar. 

Parei no meio do caminho, arfando pela boca e dei meia volta, correndo para o corredor adjacente. Encostei-me na parede branca, coberta por cartazes coloridos, e deixei que as lágrimas caíssem. Apertei sobre meu peito o envelope, amassando seus lados e molhando sua superfície. O choro fora arrebatador, do tipo que insistia em expulsar um grito pela minha garganta, ao qual eu impedi, pondo a mão sobre a boca. Deixei que meu corpo deslizasse pela parede e bati com minhas nádegas no chão duro. Meu rosto se contorcia com o choro. Só de lembrar minha pequena Evie se retraindo ao me ver, buscando algum tipo de escudo contra mim, as lágrimas caíam em maior velocidade, encharcando meus braços e o envelope. Enfim, o coloquei de lado e tirei minha bolsa de cima do meu ombro, abrindo-a totalmente em busca do meu celular. Eu precisava de ajuda. 

Ainda não conseguindo conter o choro para poder ligar para Kris com uma voz no mínimo normal, tentei enxergar o teclado por entre a água salgada que escorria dos meus olhos e digitar uma mensagem para ele. Enquanto esperava por resposta, desejei que seu celular não estivesse desligado como estava mais cedo. E, como se tivesse ouvido meus pensamentos, meu celular vibrou com sua resposta. Ele estava a caminho.

Fui ao banheiro e joguei água fria em meu rosto, na tentativa de que aquilo pudesse criar uma barricada contra as lágrimas. Não me atrevi a voltar para onde Evie estava, não queria que ela me visse daquele jeito e não suportaria seu olhar de medo direcionado a mim. Como ela estava no corredor principal, sabia que Kris logo a encontraria quando chegasse. Quanto a mim, esperaria receber outra mensagem dele dizendo que havia encontrado Evie e o responderia pedindo para que ele a levasse embora. Não daria explicações, queria esquecer aquilo o mais rápido possível. Minha mente já estava sobrecarregada com todas as merdas que tinham acontecido, eu certamente não precisava da lembrança de que minha filha, além de me odiar, não queria que eu chegasse perto dela. 

Fiquei dentro de uma das cabines do banheiro até Kris me mandar uma mensagem, dizendo o que eu já havia imaginado. Segui meu plano e terminei digitando para que ele não me fizesse perguntas. Como não fez, esperei dez minutos antes de sair do banheiro, não querendo correr o risco de pegá-los no meio do caminho. Ao me aproximar do corredor que Evie estava, no entanto, andei devagar para me certificar de que não estava lá. Ao dar uma espiada, ela e a caixa haviam desaparecido, como se nunca tivessem realmente existido naquele plano. 

Caminhei pelo corredor até a entrada principal de cabeça erguida, como se nada horrível tivesse me acontecido naquele lugar, e, uma vez que estava de volta a rua movimentada, entrei no fluxo de pessoas e segui pela calçada sem rumo. Sem pressa alguma, andei por todo o centro da cidade, deixando o ar frio bater em minha pele descoberta, de forma a esvaziar a cabeça. Observava os grandes e cinzentos prédios, erguidos tão alto que pareciam me olhar lá de cima e debochar da minha inferioridade. 

Virei meu rosto em todas as direções, olhando para todos os aspectos daquela cidade que até então abrigava meu lar, como se estivesse interessada em achar algo em específico. A verdade é que eu não enxergava as coisas a minha volta mais, e o que eu procurava não era algo exatamente paupável. Era subjetivo demais para se achar em alguma esquina rodeada de pessoas e carros. Era mais que impossível, mas eu estava determinada a continuar com a minha busca. Eu precisava daquilo, eu precisava me reencontrar, a qualquer custo.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...