História Um pedaço de mim - Capítulo 9


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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Adultério, Insinuação de sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 9 - (Parte 9)


          Pedi para que Kris me deixasse em casa e fosse passear com Evie em qualquer lugar que ela quisesse. Kris me olhou como se eu fosse maluca, até mesmo tentou argumentar comigo, em sussurros, que não seria uma boa ideia ficar sozinha no apartamento, mas eu precisava. Disse que tinha coisas para resolver o mais rápido que conseguisse e, mesmo contrariado, ele me deixou na porta do condomínio. Depositou um beijo demorado em minha testa e pediu para que eu ligasse para ele se precisasse de qualquer coisa. Esforcei-me para beijar Evie no rosto, que estava no banco de trás, e depois saí do carro.

          Na porta do apartamento, senti meu peito murchar e um frio correr pela minha espinha, provocando uma pontada em minhas costelas. Tentei acalmar meus nervos respirando devagar e o mais profundo que eu conseguia sem que sentisse que meus pulmões fossem sair do lugar. E então pus as mãos na maçaneta. 

          O apartamento estava banhado pela luz do sol, que se encontrava livre das nuvens que teimavam em deixá-lo escondido do mundo. Dei passos cautelosos até meu quarto, pressentindo que se eu fosse muito bruta ao andar, algo sairia de trás de alguma das portas e me levaria embora daquela dimensão. Parei quando finalmente cheguei ao meu quarto; a porta de madeira estava quase que escancarada, fazendo com que o choque fosse maior se caso eu a abrisse lentamente. Fiquei parada perto do batente observando aquela cena. Nosso quarto, que um dia acolheu a mim e a Daniel, presenciou nossas promessas e nosso amor um ao outro, parecia os fundos de um galpão abandonado. Senti um instinto resistente tentando me puxar para longe dali, mas, novamente pensando em Evie e em seu rosto que trazia consigo toda a esperança de uma nova vida, forcei-me a entrar no cômodo. 

          O quarto fedia. Um cheiro metálico parecia estar preso ali, sem fazer a menor menção de se dispersar. Um choro veio fervorosamente crescendo em minha garganta, mas não deixei que prosseguisse. Ele ficaria ali, aprisionado, assim como eu me sentia no momento, aprisionada a uma vida estraçalhada. Forcei-me, então, a cobrir aquelas evidências, pelo menos para que eu conseguisse fazer o que eu tinha ido fazer. Puxei um tapete e cobri primeiro a mancha escura e seca no chão. Depois, puxei os lençóis da cama e os joguei para debaixo da mesma. Arrastei uma mala para cima da cama, xingando com a dor que sugara por um segundo minha respiração, e comecei a guardar minhas coisas. 

          Fiz uma faxina parecida com a de Daniel, porém havia deixado para trás tudo que me lembrava qualquer memória da minha vida com ele. Se queria uma novo início, teria que fazer do jeito certo. Sem lembranças da minha vida passada. Tinha que considerar aquele cenário do quarto a minha morte, a morte de uma pessoa fraca, que tinha desistido de lutar, que aceitou todos os calotes que a vida havia passado nela. Não sabia o que eu queria me tornar naquele momento, mas sabia que não queria prosseguir como uma farsa. Eu me daria um novo começo. 

          Puxei a mala e mais uma bolsa até o quarto de Evie e guardei suas coisas em outra mala. Já exausta e rezando para que uma luz divina me abençoasse, segui puxando e empurrando as bolsas em direção a sala para concluir a parte dois do meu plano. Porém, quando saí do quarto de Evie e virei-me para apagar a luz, me deparei com uma mancha na parede do corredor. Aproximei-me mais para tentar observar aquilo melhor e, quando finalmente processei o que via, foi como um soco tivesse me acertado no estômago. Escorreguei pela parede, sentindo uma dor sufocante em todo meu ser e dessa vez não fui forte para segurar as lágrimas. Elas desceram em efeito cascata, tirando-me o fôlego e me puxando para o fundo, repleto de escuridão. 

          Eu merecia aquilo? Aquele era o preço a se pagar por ser passiva e aceitar tudo? Por ter aberto minha vida para um estranho que estendera a mão e me ajudara uma vez? Era aquele o resultado de deixar a vida se desenrolar do jeito que quisesse e não tomar as rédeas? Se Evie tivesse em casa, as coisas teriam sido diferentes? Nada mais daquilo era importante, eu sabia, mas eu não conseguia evitar aquelas perguntas, pois eu sentia que, de alguma maneira, poderia ter sido diferente. Não saberia dizer de que forma, mas apenas… diferente. Deixei todos os pensamentos ruins me consumirem de uma vez enquanto eu me acomodava no chão, um lugar que se tornara tão comum para mim. 

          Não sabia exatamente quanto tempo ficara ali, mas fora o suficiente para que eu chorasse até minha cabeça doer. E quando o choro finalmente cessou, eu gritei um basta. Não queria mais ser a vítima da minha própria história, mesmo que às vezes parecia que eu nunca conseguiria deixar de interpretar esse papel. Levantei-me, tentei me recompor e continuei com o que eu planejei. Pus as malas ao lado da porta de saída e voltei para a sala, pegando o telefone fixo, acomodando minhas costas nas almofadas do sofá, e discando os números que eu nunca esqueceria. Bastou apenas três toques para que aquela voz familiar e que eu tanto sentia falta atendesse. 

— Mãe, sou eu. — É preciso muita coragem para alguém se afastar da família e, em um passado não tão distante, eu tinha tido esse nervo. 

          Meus pais sempre tiveram um futuro planejado para mim, quer eles afirmando isso ou não. Então, eu decidindo seguir a área de psiquiatria foi um grande divisor de águas em nosso relacionamento. Nenhum dos dois acreditavam que eu estava fazendo a decisão certa, pensavam que eu tinha perdido meu rumo no momento em que havia me desprendido das minhas raízes, como disseram. O que significava que, ao escolher a faculdade mais longe de casa e após ter terminado com Kris, eu estava claramente me rebelando. Só não sabia exatamente do quê. 

          Então, toda vez que viam alguma foto minha, claramente numa festa durante a semana, que eu havia postado ou sido marcada em alguma rede social, ligavam-me para me reprovar, dizendo que estavam totalmente decepcionados comigo e que não era para aquilo que pagavam minhas mensalidades. Sempre tentava explicar que as festas eram minha válvula de escape de toda a pressão que eu tinha com as mil provas e trabalhos acadêmicos, mas eles nunca entendiam.

          Em um feriado de final de ano, decidi voltar para casa, porque, apesar dos aborrecimentos, eles continuavam sendo meus pais. Para tentar fugir do assunto de que eu me tornara uma garota festeira, pensei que seria uma boa ideia introduzir minha decisão de carreira. Contei entusiasmada para meus pais e meus tios que estavam presentes que eu tinha encontrado, finalmente, algo que me instigava. Com todos curiosos, contei-lhes que tanto os estudos na área de psiquiatria quanto a carreira haviam ganhado um lugar especial no meu coração. Mas, antes que eu pudesse compartilhar sobre meus planos e minha inscrição em um curso de verão sobre farmacologia, olhei para os rostos desacreditados dos meus pais. Ao me olhar, parecia que eles sentiam que tinham me perdido, não reconhecendo a pessoa que se sentava a sua frente. E eu me irritei profundamente com aquilo. Não podia acreditar na descrença deles, eles já não tinham fé alguma em mim e em minhas decisões. 

          Quando voltei novamente para a faculdade, pensei que receberia um pouco de paz de seus olhares fulminantes, mas não. Quase todos os dias eu era bombardeada com artigos e mais artigos que me enviavam sobre medicação a pessoas com problemas de saúde mental, dizendo o quanto eles faziam mais mal do que bem. Diziam que aquele ramo era apenas do interesse farmacêutico, das grandes empresas que queriam lucrar com doentes e que, eu me aliando a eles, não desejava o bem dos meus futuros pacientes. Se eu precisava drogá-los para que eles tivessem alguma melhora, eu não era uma boa profissional. Na visão dos dois, o dinheiro deles não tinha passado de um grande gasto ao invés de um investimento. 

          Para a minha idade, aquilo me marcou profundamente. Não ter o apoio dos meus pais sobre algo era uma coisa, mas os ter criticando minhas boas intenções e duvidando da minha capacidade era algo fora do normal. Fiquei sentindo que nada que fazia poderia deixá-los satisfeitos, e fora por isso que daquele período em diante decidi seguir minha vida longe deles. Dediquei-me totalmente aos estudos, que eles continuaram pagando, talvez achando que uma hora eu mudaria de ideia, e sempre buscava tirar as melhores notas da turma. Sempre procurando todas as atividades extracurriculares e cursos possíveis que pudessem bombar meu currículo. Assim que me formei, um dos diretores do manicômio mais importante do estado ofereceu-me pessoalmente um trabalho em sua instituição. Eu não vou dizer que me orgulho dessa escolha em particular, mas estava decidida a fazer com que meus pais pagassem com a língua. Além disso, o salário inicial era mais do que eu podia imaginar que ganharia após me formar. 

          Trabalhei naquele lugar por alguns anos, mas a cada dia me arrependia de ter aceitado. Os métodos não ortodoxos da instituição para tratar os pacientes eram apavorantes. Não sei dizer porquê fiquei tanto tempo naquele lugar, mas creio que fora, na maior parte, por conta da minha teimosia de uma criança. Meus pais já tinham decidido não falar mais comigo, uma vez que eles tinham alguma ideia do que acontecia atrás daquelas paredes, e pensei que nunca me perdoariam por ter trabalhado no manicômio. Mas não vou mentir dizendo que não adquiri nenhuma experiência, pois aprendi tudo o que eu não devia fazer com um paciente que precisava de ajuda. E fora com esse conhecimento que fiz minha pós graduação, cujo projeto fora publicado, abrindo-me portas que eu nem pensei que poderiam ser um dia abertas para mim.

          Mas, como esperado, isso não foi o suficiente para que meus pais me mostrassem qualquer apoio ou remorso. O que veio depois também não os surpreendeu. Quando fui ameaçada com um processo que poderia me fazer perder minha licença, corri para eles em busca de algum abrigo, já que a perda de um paciente foi uma das coisas mais dolorosas que eu sentira. Mesmo que por telefone, eles não me pouparam de seus pensamentos medíocres falando sobre como todo o meu sistema era falho e que não era de se espantar que uma coisa daquela havia acontecido. 

          Quis crer que o choque havia os pegado de surpresa e que aquela pequena raiva que vinha da frustração deles fora o que provocara a crítica. E eu insisti nesse pensamento apenas até o comentário odioso que se seguiu ao primeiro. Depois disso, não lhes dei mais notícias. Não liguei para contar que o rapaz tinha desistido do processo e muito menos liguei para avisar que havia engravidado. Só os céus saberiam dizer o desgosto deles diante de uma gravidez indesejada em minha vida e meu amor por Evie não admitiria que eles destilassem o lado deles passivo-agressivo num ser tão puro. 

          Mas ali estava eu, despedaçada, quebrada aos cacos, sem ter para onde ir. Engolindo todo o meu orgulho, contei tudo para minha mãe e aproveitei para desabafar sobre como me senti por todo aquele tempo, com todos os comentários e provocações. Sei que não poderia iniciar uma nova vida com tanto rancor e dor em relação aos meus pais, e não sabia dizer se fora algo divino ou apenas coincidência do destino, mas minha mãe chorou ao telefone me pedindo perdão. Não lembro de outro momento em que senti que minha vida estava finalmente guinando para o caminho certo, mas aquilo parecia até mesmo ensaiado de tão bem sincronizado que fora. 

          Não havia contado sobre o episódio violento que Daniel me fizera passar, apenas disse que estava pensando em visitá-los e que havia alguém que eu queria que eles conhecessem. Minha mãe não comediu palavras para dizer o quanto aquilo lhe deixava feliz, que todo aquele tempo separadas tinha a feito perceber a burrice que fizera no passado, ao me recriminar e querendo ditar meus passos. Todas famílias tem suas desavenças e discordâncias, mas isso já tinha ido longe demais, dissera. No momento eu chorava de felicidade, queria me beliscar para saber se o que eu ouvia era realmente verdade ou apenas algo que eu tinha tirado do meu mundo de fantasias. Mas, ao que aparentava, era a minha nova realidade. 

          Minha mãe passara o telefone para meu pai, esse que pelo o que eu entendi, ouvira toda a conversa e parecia também estar chorando. Como minha mãe, pedira-me perdão por tudo que tinha feito de errado e por não ter me procurado antes para acertar nossas desavenças. 

— Eu amo você, minha filha. Quero que saiba que sempre amei. — Meu pai soluçava do outro lado da linha e eu ria com ele me contando que havia lido outros artigos que argumentavam os benefícios do uso de medicamentos em pacientes com depressão. — Eu não acredito que fui burro o bastante para afastar minha filhota. — Meu coração transbordava esperanças e eu mal podia esperar para ver o desenrolar daquele novo amanhã. 

          Quando encerrei a ligação, prometendo comprar passagens o mais rápido possível para ir visitá-los, tirei um minuto para secar as lágrimas e respirar aliviadamente. Em seguida, liguei para Kris para que ele passasse para me buscar. Arrastei mala por mala até o elevador e, com a ajuda do porteiro, as tirei do mesmo, colocando em um canto até Kris chegar. Ele nos levaria até seu hotel, onde eu reservaria um quarto para mim e para Evie. Planejei ficar apenas pelo tempo suficiente para que eu conseguisse terminar de acertar minhas coisas naquela cidade. Porque eu não estava indo simplesmente visitar meus pais, eu estava indo para ficar.

 

***

 

          À noite, Kris bateu na porta do meu quarto, mais do que pronto para nossa conversa. No caminho para o hotel, disse que tinha resolvido qual seria meu próximo passo, mas sussurrei que só depois poderíamos falar sobre aquilo. Ainda me preparava para contar à Evie que iríamos nos mudar sem seu pai, pois não tinha a mínima ideia de como explicaria as coisas a fazer algum sentido, por isso estava empurrando aquele momento com a barriga. 

          Como Evie tinha finalmente caído no sono e eu não queria acordá-la, sugeri que fôssemos ao bar para conversarmos melhor. Kris tentava manter uma expressão neutra no rosto enquanto caminhávamos em silêncio até o elevador, mas eu sabia que, se ele pudesse, já estaria no chão se contorcendo de curiosidade. Desde que eu negara denunciar Daniel e ele tinha deixado claro sua posição quanto a isso, vinha cada vez menos falando comigo. Creio que não fosse uma postura infantil, mas sim que tinha ficado abalado com minha decisão. Talvez até mesmo acreditando que não me conhecia mais, apesar de todo o nosso alvoroço de dias atrás. 

          Quando deixei o hotel daquela vez, possuída de raiva e totalmente frustrada com a vida, pensei que nunca mais o veria e por um momento também desejei isso. Mas, com tudo o que acontecera e com meu tempo desacordada, eu tinha começado a vê-lo com outros olhos. Continha um arrependimento alvoroçado dentro de mim, pois Kris não merecia nenhuma das minhas palavras ditas naquela tarde depois que me mostrou o anel. 

          Enquanto estava desacordada, após ou durante a cirurgia, não saberia dizer, sonhei com aquele momento novamente e fui além. Sonhei com aquele dia em que o chamei em minha casa, anos atrás, pronta para terminar. Daquela vez, porém, as coisas tinham tomado um rumo diferente. Havia deixado Kris falar primeiro e, mesmo com todo o nervosismo, ele conseguira puxar uma caixinha de seu bolso e me perguntar aquelas duas palavras. De imediato, meu coração parecia que ia cavar um buraco pelas minhas costelas e sair voando, mas assim que as lágrimas começaram a rolar pelos meus olhos, minha cabeça respondeu por mim. 

          Kris tinha me derrubado na cama, subindo em cima de mim, me abraçando e me enchendo de beijos. Meu sorriso parecia que ia esgarçar todo o meu rosto, mas eu não me importava com nada, só queria apreciar aquele momento enquanto ele durasse. Ainda corriam lágrimas pelas minhas bochechas quando ele se sentou na cama e me puxou pelos braços para fazer o mesmo. Pegou minha mão e me olhou mais uma vez, em busca de aprovação. Concordara mais uma vez com aquela façanha e, então, Kris escorregou o anel pelo meu dedo, que me serviu como uma luva. Era aquele sentimento que eu sempre pensei que minha vida se tornaria. Toda aquela euforia e toda a felicidade, como se eu fosse a mulher mais sortuda do mundo. 

         Mas, voltando à realidade, eu não me sentia daquele jeito. Ainda tinha o sentimento de que me faltava coisas e talvez uma dessas coisas estivesse sentada ao meu lado, com os olhos espertos, atentamente esperando que eu falasse algo. Sentamos-nos em uma das muitas mesas que tinham dispostas no bar, o qual dispunha de uma iluminação suave, na tentativa de criar algum clima entre quem estivesse por lá, e pedi por uma água tônica, enquanto Kris dispensara tudo o que tinha no cardápio. 

— Eu decidi voltar para casa. — Acreditei que Kris sabia de todo meu histórico com meus pais, ele devia ter tido mais contato com eles do que eu nesses últimos anos, pois ele arregalou ainda mais seus olhos, totalmente surpreso com a minha escolha. 

— Uau… Eu realmente não esperava por isso. Vocês… — Já sabendo ao que ele se referia, o interrompi. 

— Eu liguei para eles e, por incrível que pareça, as coisas se encaminharam para um pedido de perdão. — Disse com um sorriso satisfeito no rosto, eu ainda não conseguia acreditar que aquilo tinha acontecido. Não sabia que a aceitação dos meus pais fazia tanta falta em minha vida. 

— Sol, eu fico muito feliz de ouvir isso. — Torci o nariz por conta do apelido bobo que ele me dera quando tínhamos uns dez anos, mas me agraciei com seu toque gentil em meu braço. Kris, assim como eu, valorizava a relação familiar e, como eu já imaginava, sua mãe ou até mesmo a minha deveria ter lhe inteirado sobre o bafafá no período em que nos afastamos. 

          Kris continuou com a mão pousada no meu braço, encarando-me e alisando minha pele. Eu ainda não me acostumara com toda atenção que ele me dava. Mesmo ali, quando eu estava pronta para me abrir para ele, parecia que ele conseguia saber de qualquer coisa apenas ao me olhar, analisando meu rosto e, principalmente, meu olhar nele.

— Liv, eu preciso te perguntar… — Levantei as sobrancelhas, esperando ele voltar a me fitar, já que abaixara o olhar por alguns segundos. — Nós estamos bem? — Demorei um pouco para entender ao que se referia, mas, quando prestei atenção naqueles olhos de golden retriever abandonado, tudo se clareou. Suspirei, ajeitando-me no meu lugar e Kris também ajeitou sua postura, como se esperasse por um baque. 

— É claro que estamos. — Sorri para, o que me pareceu por um segundo, o menino que Kris um dia foi, com as bochechas gordinhas e o cabelo escuro bagunçado sobre o rosto. — Eu nunca deveria ter dito nada daquilo. Eu só fiquei muito frustrada e peço desculpas por ter chamado você de sádico. — Vi o alívio atingir Kris, o que me partiu o coração. Por todo esse tempo ele acreditou que eu pensava algo ruim dele e, mesmo assim, fez de tudo e mais um pouco para me ajudar. Meu coração pertenceria sempre a ele. 

— Sádico doentio, se me permite corrigir. — Brincou.

— Hum… Talvez o doentio não seja parte do pacote de desculpas. — Correspondi a brincadeira, mas no momento que abri a boca me contraí por medo de ter sido muito cedo para aquilo. Kris, no entanto, não se incomodou, pois logo se pôs a rir. Como sempre, seu espírito era leve e calmo. 

— Mas falando sério agora, eu quero agradecer mais uma vez por tudo o que você fez. Eu não sei o que seria de mim se você não estivesse aqui. — Ainda frágil, as lágrimas ameaçaram cair, mas antes que eu pudesse interromper aquele fluxo de emoção, Kris me envolvera em seus braços. 

— Nem pense nisso. — Sussurrou perto do meu ouvido. E eu não queria pensar, por isso me concentrei em sua pele morna na minha e seus músculos embaixo dos meus dedos. 

          Quando finalmente pareceu que nós dois tínhamos nos recompostos, afrouxamos o abraço e nos afastamos, sorrindo um para o outro. Kris passou o dedo pela minha bochecha, onde uma lágrima insistiu em percorrer e ficou com a mão ali, parecendo me adorar a cada carícia. Se casas fossem pessoas, eu diria que ele era a minha. Kris sabia como me acalmar, como me fazer sentir amada e única. Naquele momento, parecia que todos os meus problemas haviam simplesmente evaporado e só o que importava era seu polegar em minha pele e seu olhar no meu.

— Eu vou com você. — Kris tirou-me do meu transe e eu comecei a me preocupar com toda aquela situação. Tirei sua mão do meu rosto já me preparando para uma possível discussão. 

— Do que você tá falando? 

— Não me olhe desse jeito. — Kris tentava me repreender, já sabendo o turbilhão de coisas que se passava pela minha cabeça. Mas eu não conseguia evitar. — Eu quero estar lá pra você. Eu tenho certeza de que você não contou o que aconteceu para seus pais, não é? — Sua pergunta, eu sabia, era retórica. — E provavelmente não vai contar e eles não vão saber como te ajudar. 

— O que você quer que eu faça? Reate minha relação com eles já jogando uma bomba no meio? — Falei na defensiva e um pouco exaltada. Às vezes era um pé no saco ter alguém na sua vida que lhe conhecia tão bem. 

— Não, Sol. Eu não quero que você faça nada. Só que se cuide e se recupere devidamente. — Disse se aproximando mais de mim, mantendo a voz calma e baixa. — Mas eu quero ter essa chance de fazer o certo dessa vez, de te alcançar e estar ao seu lado em vez de abrir os braços e deixar você ir. 

          Suas palavras pareciam ser tudo o que eu precisava, mas algo ainda me puxava para o lado do não. Eu não podia aceitar aquilo, parecia errado e apressado demais. Não daria certo, sentia que iria perdê-lo novamente. Mas, se nos separássemos ali, não teríamos o mesmo resultado? 

— Não. — Falei balançando a cabeça. — Você não pode fazer isso. E a sua carreira? E sua turnê? E seu plano de dez anos? 

— Que se foda a minha carreira. Foi exatamente por esse motivo que eu te perdi na primeira vez e eu já aprendi direitinho com meu erro pra tentar cometê-lo novamente. E não é como eu não possa fazer uns shows aqui ou ali, até mesmo me focar na escola de música. — Eu ainda balançava a cabeça, querendo que ele parasse de insistir naquilo, não era certo. — Liv. — Chamou minha atenção com a voz mais doce que conseguiu fazer. Olhei para ele e Kris colocou suas mãos nas minhas, apertando-as. 

— Kris, eu não posso fazer isso agora. Não com tudo o que aconteceu. Eu confiei em um cara e ele quase acabou com a minha vida. Eu não estou pronta. — Olhei-o nos olhos, esperando alguma ponta de decepção, mas tudo que eu encontrava era compreensão. 

— Eu sei, Liv-Liv. Eu não espero isso de você, eu só quero estar lá para você, como seu suporte pessoal. Para quando você achar que não vai mais conseguir seguir em frente, vou estar lá para dizer “Pense duas vezes antes de desistir, mocinha!” — Brincou. — Eu prometo. Na verdade, eu juro solenemente que a minha intenção é te ajudar. — Disse, levantando uma das mãos como se fizesse um juramento. Deixei um sorriso escapar, aquilo estava muito bom para ser verdade. Eu não poderia impedi-lo de fazer aquilo, ou talvez pudesse e apenas não quisesse. Mas, assim como ele permitiu que eu terminasse nosso namoro anos atrás, por acreditar na minha palavra de que era o melhor a se fazer, eu não iria interferir em seu plano de me ajudar ao me acompanhar para onde tudo começou. 

— Então, o bem-sucedido vai voltar a morar com os pais? — Kris armara um sorriso no rosto, que ficou ali até o momento que eu percebi que estava tarde demais e precisava dormir. Já me sentia cansada com todas as emoções que passara no dia, e realmente necessitava tomar meus remédios e deitar na macia cama do hotel. Ou pelo menos eu esperava que fosse macia como a de Kris, já que as suítes eram diferentes. 

          O resto da semana seria difícil, eu sabia. Tinha que resolver as coisas no meu trabalho, pegar a transferência na escola de Evie e contar para ela sobre nossa mais nova mudança de cenário. Não tentaria contatar Daniel para lhe dizer que, se quisesse ver Evie, ele teria que pegar um avião e aterrissar na minha cidade natal. No fundo eu sabia que não tinha direito de impedir Evie de ver seu pai, mas de forma alguma eu iria atrás daquele pedaço de merda. Não acreditava que ele era digno de estar perto de nós, mas também não queria problemas com ele. Então, já que ele tinha fugido, eu poderia fazer o mesmo. De forma alguma aquilo poderia me afetar em uma corte em um futuro incerto, eu não deixaria. E, se aquele momento chegasse, eu teria o apoio não só de Kris, como o dos meus pais. Eu sabia que eles estariam ao meu lado, segurando minha mão e me dando todo o suporte que eu precisasse para vencer qualquer batalha que me aguardasse. 



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