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História Um Reino de Monstros Volume 2 - Capítulo 4


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Notas do Autor


Rosicler tem um encontro com conde Verdramungo, um militar que tem outros planos para a Pedra Filosofal.

Capítulo 4 - Capítulo 3: A Pedra Filosofal


Fanfic / Fanfiction Um Reino de Monstros Volume 2 - Capítulo 4 - Capítulo 3: A Pedra Filosofal

Parte 1

Rosicler caminhava a passos apressados, a instalação do batalhão da RFE parecia muito com um presídio. O QG tivera sido improvisado devido o ataque dos monstros.

Metade do Baronato estava em controle da Horda. O barão e sua família evacuaram a cidade antes da invasão, e se safaram por pouco, muito pouco!

Mas o conde Verdramungo, o seu mais ferrenho crítico e inimigo assumido, agora era o comandante-geral da Real Força Espagíria.

Droga, onde fica a saída desse lugar?

A garota parou repentinamente, a sua frente, na travessa de quatro corredores, dois militares vinham discutindo sobre os acontecimentos do dia.

— Sinceramente eu já tô cansado de fazer o “faz-tudo” sabia? Nem bem chegamos à sala do Estado-Maior e agora temos que fazer “faxina”!

— Ah, nem me fala cara, nem bem voltamos da maldita missão de resgate da Pedra Filosofal, agora estamos aqui, “indo arrumar o paiol”.

Ela entrou numa das celas e ficou espionando a conversa dos dois.

— Fiquei triste pelo major Bernardo, ele era um cara legal, um tanto ríspido, mas sei lá, ainda assim não consigo imaginar o Regimento Aeroalquimista sem aquele falastrão.

— Hahaha, nem eu, mas não sei se tu viu a cara da general-brigadeiro, parecia arrasada.

— É eu vi sim, era o melhor amigo dela...

As vozes se tornaram distantes. A garota saiu da escuridão do catre, ela continuou sua fuga, pela descrição dos homens, estava indo na direção certa.

Com certeza a sala do estado-maior não ficava longe da sala do comandante-geral.

Ela esgueirava-se pelas paredes como uma aranha preste a dar o bote. Parecia esperar um ataque a qualquer momento por parte dos alquimistas.

Dobrou mais um corredor e deu numa antessala enorme. Numa placa na parede podia-se ler “Comandante-geral Conde Verdramungo”.

A porta se abriu e uma mulher saiu para o corredor, era a general-brigadeiro, ela bufava furiosa. Com certeza não tivera um encontro prazeroso com seu superior.

Rosicler esperou até que ela se afastasse. De dentro da sala ela ouvia o conde.

Eu preciso pegar aquela pedra veio, talvez ainda dê pra negociar com a Horda...

Verdramungo saiu da sala alisando o coldre que atravessava o seu tórax. A garota esperou o momento certo e lançou o seu punhal prateado no nobre.

— O quê?

Tzimmmm, o punhal passou pelas mechas cacheadas do comandante-geral e cravou-se na porta. Desequilibrando-se, o homem caiu no chão.

— Sua ladra, como conseguiu escapar?

A ladina deu língua e puxou o olho mostrando sua pupila, aquilo irritou o militar profundamente, era muita ousadia de uma larapia fazer isso com ele.

Mas que ofensa!

— Tchauzinho vovô, hihihihi!

A jovem deu uma corrida desenfreada em direção ao corredor, distanciando-se do conde. Este por sua vez ergueu os braços e os bateu no chão com as mãos espalmadas.

— Mas já vai minha netinha? Fique mais um pouco, você nem fez um carinho no seu avô... Transmutação Telúrica – O Muro das Lamentações.

No mesmo instante, as paredes, o teto e o piso sofreram uma estranha metamorfose, como se tivessem ganhado vida, eles se conectaram uns aos outros.

O que restou foi uma impenetrável muralha com padrões de rostos humanos cadavéricos. Usando de sua agilidade, Rosicler saltou para trás. O muro foi desfeito.

Esse lugar é muito apertado, mas eu não vou conseguir atrair ele pra fora daqui assim tão fácil...

Arfando muito, ela virou-se para o conde, que por sua vez, sorria jovialmente.

— Vamos pequenina, mostre-me do que os ladrões são capazes, se é que são capazes.

— Não precisa pedir duas vezes coroa: Chuva de Facas.

— O que é isso, um circo?

Retirando afiadas adagas de várias partes das vestes como as mangas da camisa, cintura e até mesmo de dentro da bandana, a ladra investiu contra Verdramungo.

O conde se defendeu usando outra transmutação, repelindo as facas com o ar.

— Isso minha cara, ataque, lute com tudo que tem.

— Então tá bom, você quem pediu vovô.

Empunhando uma das facas, Rosicler esfaqueou o comandante-geral da RFE.

O velho nobre esquivou-se do primeiro golpe, o segundo acertou o dorso da mão direita. A gatuna aproveitou a desconcentração do militar para investir numa técnica que seu irmão mais velho havia lhe ensinado há muito, muito tempo atrás, ela era infalível...

Thunck, o pé de Rosicler atingiu bem entre as duas pernas do homem, ele projetou o corpo para trás e passou a esfregar a área púbica com as duas mãos.

— S-sua p-pequena p-piranha...

— Para um nobre o senhor tem uma boca muito suja sabia?

Os olhos do conde Verdramungo lacrimejaram, sua visão dobrou por alguns instantes.

— Olha aqui oh conde Vagamundo...

— Verdramungo!

— Tanto faz... Eu tô pegando essa pedra aqui emprestada entendeu, só não sei quando eu posso devolver. Tipo assim, é, ela vai ficar comigo por um l-o-n-g-o-t-e-m-p-o.

— Como é que você pode roubar o que não conhece?

— Se vale tanto assim pra você morrer por essa coisa, e a Horda vir até aqui para pegar esse troço, então ele deve valer bastante acha não? Eu ouvi tua conversinha com aquela galega azeda, esse aqui vai ser meu salvo-conduto no Reino dos Monstros...

O homem recobrou a postura e olhou a ladina altivamente, seu desdém preenchia o ar.

Andando a passos lentos, o aristocrata chegou perto da garota e disse:

— Mas que gracinha, me parece que de onde você vem não te ensinaram que roubar é feio, aliás, roubar sem ter como levar é muito vergonhoso para um ladrão. Essa aí não é simplesmente uma joia vulgar para ser posta num colar, ela tem uma característica especial, ela é a Obra Maior, o resultado perfeito do coito do rei e da rainha...

— Mas que coisa erótica pra se dizer a uma garota solitária num corredor!

— Ora sua... Melhor, vou mostrá-la empiricamente. Espere, mas como?

— Tá procurando isso aqui garotão?

Na mão direita de Rosicler, a Pedra Filosofal bailava entre os seus dedos ágeis.

Verdramungo chegou a corar, uma simples garota tinha retirado a pedra de sua mão, sem nenhum esforço! O conde não pôde acreditar numa coisa como aquela.

— Como você conseguiu ir tão longe?

— Sem problema vovô, usei minha técnica favorita, Mão-Leve. Posso tirar qualquer coisa de você sem que você perceba, eu só preciso chegar perto o bastante, o resto cê sabe como é né não?

— Sua fedelha!

— Te mais coroa... Ughr!

De repente todo o corpo da ladra foi sendo revestido por uma substância amarela e rija.

Era a mesma substância que Letícia havia usado para silenciar o conjurador. A goma cresceu em tamanho e deixou apenas o rosto e o braço estendido da garota do lado de fora. O alquimista andou até ela, embora ela tentasse a goma não se dissolvia.

— Isto é inútil minha jovem. Note que quanto mais se mexer, mais apertado ela ficará.

— Seu desgra... Unh-uhnun...

— Seu silêncio me agrada.

Ele tomou a pedra da mão da gatuna e recostou-se a uma parede, adorando-a.

A joia brilhava pulsante em suas mãos ossudas. A pele manchada recebia o brilho rubro da Pedra Filosofal. O nobre virou-se para o corredor e emitiu um suspiro.

— Tudo menos você!

— Comandante-geral quem é essa garota e o que faz com a Pedra Filosofal?

— Eu é que pergunto o porquê de você ter permitido a fuga desta trombadinha...

— O quê? Ei, não fuja da minha pergunta conde, quem permitiu a saída da Pedra Filosofal desta sala?

— Ora, eu impedi que este poderoso artefacto caísse nas mãos dessa ladra, e quem garante que ambas não estão juntas nessa?

Letícia franziu o cenho, ele estava tentando jogar a culpa para cima dela. A general-brigadeiro olhou para a ladina presa na goma, Rosicler revirou os olhos.

A alquimista então retirou sua pistola do coldre e ordenou ao velho militar:

— Entregue a Pedra Filosofal imediatamente ou será preso por mim e julgado por um Tribunal de Guerra, e pela quantidade de seus crimes, nem mesmo o posto de comandante-geral da Real Força Espagíria...

— Olha aqui garota, eu não tenho mais tempo a perder.

Verdramungo lançou um globo de vidro contendo um líquido esbranquiçado e fumacento, a esfera de vidro partiu-se liberando o líquido que imediatamente transformou-se numa cortina de fumaça cinzenta e espessa.

Porção Fog, covarde...

 

Parte 2

De modo inesperado, nenhuma explosão ocorreu, o trio ergueu-se do chão com pistolas apontadas para suas cabeças.

— Vocês acharam que não tínhamos um sistema de segurança no nosso paiol? A sala tem um selo para impedir a propagação de energia mágica. Agora mãos para o alto, se levantem bem devagar e não façam nenhuma bobagem.

— É isso aí, vocês estão dominados, eu sempre quis dizer isso!

Os dois militares pareciam felizes em render os prisioneiros.

O servo de Nalab deu um sorriso de escárnio que assombrou até mesmo o garoto.

— Acham mesmo que estamos dominados?

— E porque não estariam?

— Olhem bem quem foi dominado.

Os olhos do conjurador fixaram-se nos pés dos alquimistas, eles fizeram o mesmo e se decepcionaram por saber que o mascarado usara sua magia divina para capturá-los.

Enquanto estava agachado no chão, ele entoara um cântico a sua deusa e usara a Prisão da Sombra. Os oficiais rangeram os dentes, tinham caído num simples truque!

— Saragat como você consegue manter os dois presos em sua conjuração ao mesmo tempo?

— Quanto maior a sombra do alvo, maior o meu poder de domínio sobre ele, as sombras são o meu elemento Tell.

O mago-espadachim virou-se para o balé de sombras, a projeção do mascarado constringia o pescoço dos reflexos dos alfonsinos. Eles debatiam-se em vão, o encapuzado respirava controlando sua sombra de modo preciso.

— Olhem para mim, não somos seus inimigos...

— E-então, p-prove o que d-diz...

— L-largue-me, t-to sufocando...

Desfazendo a conjuração, os alquimistas desabaram, enquanto eles se recuperavam, o trio de fugitivos se preparava para uma nova investida. Os militares ergueram-se.

— Está bem, se é verdade o que dizem, mostrem-nos o Monstronomicom.

O Lisliboux então pegou o tomo e revelou-o por debaixo de sua capa. Os olhos dos dois oficiais brilharam ao ver as letras dourado no fundo preto.

Ao ver a emoção dos homens, o jovem fez uma pergunta:

— Querem ver?

— SIM!

Sem antes pedir, o livro foi retirado da mão dele rapidamente, ambos passaram as páginas de um lado para o outro. Eles ficaram receosos, todas as páginas estavam em branco, não havia proêmio, nem sumário.

Nele só havia duas páginas com conteúdo, uma delas era a imagem de uma caveira, menos horrorosa que as que já tinham visto, mas ainda assim constituía uma visão perturbadora.

— Ei! Que negócio é esse, eu achei que era um manual de como matar os monstros.

— Não sei como esse livro de colorir vai ajudar a derrotar a Horda.

— Então vocês não sabem o que é o Monstronomicom?

Com um gesto de cabeça eles deram uma negativa ao garoto, o livro foi passado as suas mãos novamente. Ele então pôs o livro novamente na alça abaixo da capa.

— Levem-nos até a sala do comando-geral de vocês, precisamos falar com seu líder.

— Tudo bem, vem conosco mascarado.

Saragat impediu Tell de acompanhar os dois militares, pois faltava algo.

— Não está esquecendo nada não lerdo?

— Ah sim! Nossas armas.

— Entrem e peguem.

O conjurador e o neto de Taala adentraram o paiol e foram atravessando as dezenas de prateleiras de olmo.

Index ajudou na busca voando pelo local, até que ele encontrou mais ao fundo, escorado em suportes com identificação particular, o sabre flandino e o Cajado Nebuloso. O mascarado beijou o artefacto emocionado, o mago-espadachim embainhou o sabre.

— Vamos?

— Sim, já pegamos nossas armas.

— Um conjurador das sombras sem o seu cajado não é um conjurador das sombras.

Todos riram da observação de Saragat, principalmente os alquimistas, para eles o pronome correto seria “conjuradora”. Eles saíram do paiol e rumaram para o comando-geral.

 

Parte 3

A ladra estava sentada na cadeira à frente de Letícia, algemada e cabisbaixa, ela pensava num plano de como sair dali. Havia sido retirada da goma e posta em algemas.

De uma prisão para outra, isso já está ficando chato...

— Então quer dizer que você queria roubar a Pedra Filosofal para trocá-la por...

Tunc-tum-tunc, a porta foi aberta após a permissão sair da boca da general-brigadeiro.

Dois soldados acompanhados de um garoto de olhos lacrimosos, um suspeito mascarado e uma criatura roliça deixaram a alquimista em prontidão.

— O que é isso, mais fugitivos?

— Permissão para falar senhora?

— Permissão concedida.

— Eles não são mais fugitivos, eles são os enviados de Flande.

Rosicler se virou da cadeira, corada, tremendo de medo ela exclamou:

— Tell, Saragat!

Os olhares dos dois penetraram sua pele como facas. Ela suspirou desapontada.

O garoto esquecendo-se de onde estava foi até a ladina e encarou-a bem nos olhos.

— Acha que nós esquecemos o que você fez? Deixou-nos lá, sozinhos, como se nós três fôssemos cachorros.

— Eu não podia... Eu...

Rosicler baixou a cabeça a ponto de o queixo tocar a sua clavícula. Lágrimas rolaram em seu belo rosto, os lábios carnudos e rosáceos se contorceram trêmulos.

— Eu admito Tell, eu menti e usei vocês para chegar até Alfonsim, desde o começo eu só andei com vocês para garantir a minha segurança...

— E o que mais, nossa vida vale menos do que sua ganância?

Saragat parecia muito interessado nas motivações da garota. Ela continuou:

— Eu fui recrutada por Anhangá, o general atroz do Batalhão Espectral, os monstros subordinados a ele têm um grande papel: Serviço Secreto. Todas as pessoas capturadas pelos monstros são enviadas para a Fortaleza do Crepúsculo, lugar onde as pessoas são torturadas até a exaustão... É horrível.

— Não me diga que quer voltar pra lá?

— Não Saragat, você não entendeu, meu irmão mais velho continua preso lá! Só eu posso salvá-lo, eu tenho que salvá-lo...

Letícia expirou o ar pesadamente. O cansaço físico e mental já se acentuava de modo muito evidente, mesmo assim manteve a postura e perguntou:

— Então seu plano era trocar algo de valor pela vida do seu irmão mais velho?

— Eu não confio em você Rosicler, OLHE PARA MIM!

O comportamento de Tell chocou até mesmo o Guardião do Monstronomicom que se escondeu atrás do mascarado. A ladina evitava a todo custo olhá-lo diretamente.

Gritando e gesticulando muito, Rosicler soluçava. Letícia pediu calma ao mago-espadachim. O Lisliboux se exaltou ainda mais.

— Me acalmar? Como é que eu vou me acalmar? Ela poderia ter colocado tudo a perder...

— Ela agiu por impulso, quem não perdeu alguém para a Horda?

O garoto virou-se para a ladra, ele não pôde mais continuar com suas acusações, nem mesmo ele saberia o que fazer para ter seus pais e avô de volta.

Misericordiosamente, o Lisliboux abraçou a gatuna de modo terno e carinhoso.

Letícia sorriu ao ver a cena, ele secava as lágrimas dela com as dobras dos dedos.

A general-brigadeiro deu ordens aos soldados para que retirasse suas algemas. Tell pegou o Monstronomicom e deu-o a oficial. Ela alisou a capa do livro espantada.

Esse é o Monstronomicom? A arma definitiva contra os monstros!

— Sendo vocês enviados do Baronato de Flande, nós erramos em fazê-los prisioneiros, Rosicler tem meu perdão por ter tentado impedir a retirada da Pedra Filosofal pelo conde Verdramungo do comando-geral, agora e-eu, Uaaaaagh...

Letícia bocejou gravemente e desabou na cadeira com a cabeça pendendo pro lado.

 

Parte 4

Havia uma turba de milhares de pessoas em frente, era impossível ver alguma coisa com menos de um metro de altura no meio daquela muralha humana.

Ela agitou suas mãozinhas no ar, o homem que segurava sua mão firmemente a pegou pela cinturinha e a colocou nos ombros. Finalmente pôde ver os balões multicoloridos no céu. Cada um tinha uma estampa diferenciada, rodopiavam soprados pelo vento.

Aquele era um dos maiores e mais comemorados feriados de Alfonsim, o Festival dos Balões. Criado após os alquimistas que usaram balões, derrotarem as forças invasoras da Horda na Primeira Grande Guerra.

Todos os anos nessa época eles realizavam uma emocionante corrida nos ares.

Eles não podiam usar a Transmutação Aeriforme, qualquer técnica que empregasse magia desclassificava o competidor, assim até os não alquimistas poderiam participar.

— Veja Letícia, daqui a alguns anos vocês também estarão competindo, os Dumont realmente nasceram para dominar o céu, hahahaha.

A garota agitou os braços e cantarolou feliz. Com as suas pequenas mãos, ela tentava como que capturar os aeróstatos. O pai sorria com as tentativas vãs de a filha pegar os enormes balões, flutuando de modo preguiçoso.

As nuvens brancas formavam um plano de fundo perfeito para o balé dos ares.

De repente houve um estrondo, um dos balões havia sido atingido.

— PAIIIIIIIII!

A explosão formou uma esfera de fogo, que foi incendiando todos os outros aeróstatos.

— NÃOOOOOOOOOOOOOO!

O som emudeceu ao sair da garganta, trazendo uma agonia infinita. Letícia tentou chamar o pai, convencê-lo a fugir, mas nada disso adiantou, ele continuou como uma rija estátua. Enquanto isso a Horda avançava.

Quanto mais ela se debatia, o mundo a sua volta se tornava lento e se desintegrava.

De repente a pequena alquimista apertou os punhos, fechou os olhos e começou a declamar:

— Isso é apenas um sonho, isso é apenas um sonho, isso é apenas um sonho...

— Isso realmente não é um sonho mina... É um pesadelo!

Quando ela abriu os olhos, já não era mais a pequena garotinha que via o Festival dos Balões com o seu pai. A general-brigadeiro apertou os lábios e sorriu.

Tudo à sua volta tinha mudado, ela e o ilustre visitante pairavam em cima das nuvens.

— Muita ousadia sua invadir meus sonhos e usar minhas memórias afetivas contra mim.

— Tecnicamente eu só posso invadir teus sonhos com minha Trepanação Onírica e usar sua instabilidade mental para criar os pesadelos, tua cabecinha é muito zoada hein! Como tu sacou que era eu?

— Meu pai nunca me levou para ver o Festival dos Balões, ele era organizador, íamos com a mamãe... Diga-me, o que fizeram com meu irmão seu monstro?

— Isso aí ninguém sabe, acho que nem mesmo o capitão sabe. Mas agora que eu to aqui, sabe como é, num to fazendo nada, nem tu também...

Kuromaru sacou sua chokuto e ascendeu aos céus com a espada descrevendo uma vertical. Letícia preparou-se para a investida do inimigo.

A lâmina de fio mui finérrima e reta desceu, o tengu aplicou uma grande força nos braços avermelhados. As veias saltaram nos antebraços, o quimono se agitou como uma bandeira recebendo uma lufada de vento.

— Transmutação Aeriforme – Éolo.

No mesmo instante as mãos da alquimista foram alterando os átomos do ar, impregnando-o com sua energia mágica, dobrando a matéria a seu bel-prazer.

O ar em redor de Letícia começou a vibrar e essa mesma vibração cresceu como uma onda e aos poucos as suas mãos já formavam uma massa de ar enorme.

O monstro ainda cravou sua espada, mas quando a explosão aconteceu, ele foi arremessado atrás das nuvens. Diferente de outras ocasiões, ela não se sentiu cansada.

Se tudo está acontecendo na esfera dos sonhos, então posso sonhar que estou derrotando-o.

— E olha a mina!

A lâmina passou tão rente à cabeça dela, que suas madeixas foram cortadas, deixando-a com um corte curto e assimétrico.

Dando um salto mortal, ela escapou de Kuromaru e caiu em cima de uma nuvem.

A alquimista fechou os olhos e fez um grande esforço tentando imaginar uma situação.

Quando terminou, eles já estavam no solo, um cenário que resultou do estímulo do consciente na manifestação onírica, ou melhor, ela construiu o seu sonho.

— Geralmente as minhas vítimas acabaram sendo derrotadas no primeiro assalto, poxa, tu tá dificultando mesmo...

O campo de batalha era uma enorme jaula, apoiada num vazio infinito.

Kuromaru olhou para os lados, para cima e para baixo, realmente era uma prisão.

— Eu sou só isso pra você alquimista, um passarinho na gaiola?

O monstro soltou um assovio, debochando da visão da militar, ela por sua vez mantinha sua concentração. Ele havia invadido seus sonhos, o plano era prendê-lo lá.

O piso da gaiola gigante era formado por uma extensa plataforma de granito.

O tengu voou se dependurando nas grades, Letícia impregnou suas mãos com energia mágica e as chocou contra o solo, no mesmo instante surgiram estalagmites de granito.

— Transmutação Telúrica – Mísseis Acúleos.

Ele tentou desviar, o monstro rodeou toda a extensão da gaiola, mas a munição dela não acabava. Kuromaru foi atingido, o sangue roxo gotejou das asas feridas.

O tenente caiu no chão prostrado. Ele uniu as mãos e fez um sinal com os dedos entrelaçados. Depois entoou um mantra e as asas foram recolhidas no corpo.

— Eu desisto! Desculpe-me, mas eu não vim pra brigar não...

— Ora seu!

Em poucos instantes um mosquete havia aparecido na mão de Letícia e a arma estava apontada para o nariz alongado do inimigo. Uma gota de suor escorreu do seu rosto.

Ele fez uma bandeira branca aparecer na mão direita. A alquimista baixou a arma.

— Viu só?

— Você só inventou isso porque eu entendi o funcionamento de sua conjuração, além do mais, pelo que eu entendi: essa magia não provoca ferimentos mortais, estou certa?

Kuromaru embainhou a espada e alisou seus cabelos espetados e grisalhos.

— Bem, é verdade, mas podem deixar muitas cicatrizes, krukrukru...

— O quê disse?

— Olha, né por nada não, é que o capitão Pazuzu ordena que tu abaixe as armas e sirva o nosso rei Zarastu com toda pompa e orgulho, morou?

— Desculpe, eu não entendo essa sua tagarelice de corvo.

— Se rende fia. Tu tem uma semana e olhe lá viu!

— Nem pensar, pra essa medida desesperada, vocês monstros já sabem que o Monstronomicom chegou aqui, não iremos mais ficar acovardados com a Horda.

— Tu que sabe...

As imagens desvaneceram, se apagando como um borrão num papel.

Quando tudo se tornou uma massa de cor branca e uniforme, Letícia acordou. Ao seu lado estava Saragat, impondo as mãos como se rezasse. Seu corpo se moveu pesado.

Ela olhou para os pés, a sombra do conjurador estava conectada à sua.

O servo de Nalab desfez a conjuração lhe devolvendo os movimentos, ela bocejou, mas não sentia mais o sono profundo que a atormentava dias atrás.

Estava na enfermaria ao lado do mascarado, Rosicler e uns militares do serviço médico, todos em meio às centenas de camas e feridos de guerra, muitos mutilados.

— Huah, agora quem ficou com sono foi eu. Estamos a três dias tentando te despertar desse coma em que você se meteu. Eu tive que usar minha Prisão da Sombra em ti, você esperneia e grita demais enquanto dorme.

A alquimista pulou da cama, sentia todo o seu vigor retornando ao corpo.

— Três dias... isso é tempo demais.

Ela tentou caminhar, mas uma fraqueza súbita atingiu-a, ela foi amparada pela ladra.

— Calminha viciada em trabalho, a gente precisa de você inteiraça para acabar com a Horda.

— Onde está aquele garoto, o Tell?

— Foi dá um rolezinho por Alfonsim.

 

Parte 5

Se não fosse por Index, ele teria se perdido diversas vezes, para o filho de Taran todas as ruas, exceto por pequeníssimos detalhes eram completamente iguais!

Como uma cidade planejada, com forte enfoque no desenvolvimento urbanístico, Alfonsim se tornou um polo de revolução industrial, sendo o Baronato pioneiro na utilização de armas de fogo e uso de pólvora para fins militares.

Apesar da metade da cidade estar sob comando das Almas de Rapina, nenhum cidadão havia se juntado aos monstros, ao menos, não que soubessem.

— Puxa! Eu não sabia que Alfonsim era uma cidade tão bonita.

— Não Tell, por aqui.

— Aqui onde?

Bluogh, o estômago do guardião respondeu prontamente. A criatura alada planou vorazmente em cima de uma barraca de comida, apesar da improvisação, a vida cotidiana continuava a mesma em Alfonsim. O garoto checou suas economias para ter certeza de que podia comer.

— Dois pratos são seis peças de ouro meu jovem.

— Ah não, só o meu amigo aqui vai comer, ele fica com fome quando está ansioso.

O velho atrás do balcão coçou a cabeça calva e imaginou que estranha espécie de animal seria aquela. A criatura esfomeada chamava atenção por onde passava.

Era um ser ovular que tinha orelhas como asas e que falava como um humano. Seu dorso era cheio de caracteres em relevo escuro. Entretanto para seu bem, ninguém até aquele momento o havia considerado perigoso, por isso ele ainda continuava vivo.

O mago-espadachim olhou a sua volta, as casas pareciam num processo de reconstrução constante. Durante os três dias que esteve perambulando pela cidade, o Lisliboux percebeu que todos os dias uma reforma estava sendo feita numa casa.

— Anh, senhor, desculpe perguntar, mas algo aqui me chamou a atenção, estou já há algum tempo na cidade, eu percebi que os pedreiros e carpinteiros todos os dias trabalham construindo uma casa, os ataques da Horda continuam tão incessantes assim?

— Ah não, não, não, creio que deva ser realmente um turista desavisado, aqui é Alfonsim meu jovem, “a cidade em que todo dia explode uma casa”.

O garoto e a criatura se entreolharam confusos, o velhote sorriu e continuou:

— Nestas terras, os alquimistas estudam e produzem muitas fórmulas e elixires, e até eles saberem as dosagens corretas dos ingredientes, podem ocorrer, “alguns acidentes”.

— Alquimia parece muito perigosa, aliás, Alfonsim parece muito perigosa!

Index tremia todo, Tell o pegou e o aproximou do seu peito, lugar onde ele se aninhou. O senhor de cabelos grisalhos continuou os seus afazeres enquanto conversava.

— É verdade, não deixa de ser, quando as Almas de Rapina chegaram aqui, ela levou tempo para subjugar a nossa defesa, mas quando fez, tomou controle de grande parte da cidade e agora estamos aqui, encurralados. Todos os dias os obituários relatam mais mortes de nossos brilhantes alquimistas, e agora tivemos uma traição, ora essa!

O homem parou de encerar o balcão e enxugou a testa, ele parecia nervoso e cansado, mais para aquele do que para este. Então ele apontou para um quadro, de onde estava, ele e o Lisliboux podiam ver a foto de um jovem bem apessoado ao lado da esposa.

Uma lágrima caiu no balcão, o dono da barraca logo limpou a lágrima. O garoto ficou em silêncio.

— O meu filho disse que daria a vida para o conde Verdramungo, que ele o seguiria até o inferno se fosse preciso, e agora o sacrifício da vida do meu filho foi em vão! Como pai eu não posso aceitar isso, quantos mais terão que morrer para nos vermos livre destas... aberrações, todos eles merecem a morte.

Terminando de falar com seu tom rancoroso, o homem cuspiu no chão. O mago-espadachim entendendo e sentindo a mesma dor do velhote, resolveu contar sobre o Monstronomicom.

— Não fique assim senhor, os monstros poderão ser derrotados...

— Cale-se meu jovem, nem mesmo o maior de todos os magos, aquele que conhecia todas as artes mágicas e selou um deus não conseguiu dar fim a esta praga, como você agora pode dizer que os monstros podem deixar de existir, ainda não inventaram esse passe de mágica.

— Bem, na verdade, sem querer ofender, esse “passe de mágica” já existe!

O velhote alisou o bigode crespo e bateu com os punhos em cima do balcão.

— Você está tripudiando da minha dor?

— Não, de maneira nenhuma, eu...

— Eu mesmo vi o meu filho sendo arrancado de sua terra natal e levado para além de Alfonsim, depois disso eu nunca mais o vi, e sabe por quê? A Resistência é um fiasco, uma farsa, uma mentira bem ou mal contada, isso vai depender de quem ouve, mas eu não posso admitir que um moleque xereta como você me trate como se eu fosse um idiota, pague a conta e te manda! Leve esse morcego-branco com você!

— Mas que grosseirão!

A criatura alada apertou suas mãozinhas e preparou um soco com os braços balofos.

O garoto o impediu de voar. O velho virou as costas e começou a lavar a escassa louça de seu estabelecimento.

O mago-espadachim então pôs as três peças de ouro no balcão e falou:

— Os monstros podem sim ser derrotados e nós somos testemunhas de que isso é verdade.

— Vai querer me dizer que além de ingênuo você é mentiroso?

— Ah, me deixa pegar ele Tell, me deixe pegar ele...

— Não Index, é comum que pessoas sem esperança não costumem ver a verdade. Eu sou Tell de Lisliboux, sou um dos enviados de Flande, a Resistência continua ativa e operando com uma capacidade ainda maior. O Baronato de Flande já foi liberto, e agora é a vez de Alfonsim. Seu filho não foi morto ou levado embora, ele pode ter sido transformado em um monstro, nós podemos purificá-lo e...

Nessas últimas palavras o velho começou uma gargalhada cacarejante e tremia o corpo convulsionando para frente e para trás, havia um tanto de loucura e cinismo em sua ironia. Depois ele se virou para o garoto enxugando uma lágrima da bochecha.

— Então quer dizer que você também acredita nessa de que monstros se transformam em humanos, que piada garoto, não seja estúpido, isso foi só uma lorota que o tal de Taala lançou antes de fugir do combate...

Nesse momento o mago-espadachim mudou sua expressão, ele manteve uma postura rija, seu semblante estava furioso, tão feroz estava que o velhote recuou para trás.

Até mesmo Index não o reconheceu naquele momento, ele estava nervoso a ponto de quebrar aquele balcão lançando uma de suas magias.

— Retire o que disse.

— O quê? A sai daí garoto, parece que Taala ainda tem fãs...

— RETIRE O QUE DISSE, JÁ!

Apenas com a concentração de sua energia mágica, Tell criou um vórtice, o homem foi lançado para trás, a barraca começou a chacoalhar devido à emanação de energia.

O filho de Taran debulhava lágrimas, os dentes rangiam fazendo um som rascante.

— O meu avô lutou durante anos para proteger a humanidade, Lashra deve muito a ele, e o que meu avô recebe em troca? Nada mais do que críticas e piadas. O que o senhor fez em prol do seu Baronato, nada, ninguém fez nada, eu perdi os meus pais, perdi meu avô e agora o senhor quer que eu perca a esperança também? Retire o que disse agora!

O velho protegendo o rosto encovado com as mãos rotas, disse balbuciante:

— Perdão, perdoe-me, pare, já chega ou vou perder o meu ganha-pão.

O jovem parou, mesmo assim seus ombros continuaram a mover-se para cima e para baixo, depois disso ele saiu a correr pelas ruas, as pessoas olhavam para ele com piedade.

O guardião ainda voou atrás dele, tentando alcançá-lo sem sucesso. O velho respirou fundo. Por um momento ele teve medo do garoto. Havia um ódio queimando no fundo dos seus olhos. Por sorte aquilo havia acontecido num momento de pouco movimento.

O velhote então foi até o fundo da barraca, pegou um telemago portátil, do tamanho de um brinco e iniciou uma transmissão de voz para a tenente Cora.

— Tenente Cora, peço perdão por não ter trazido informes mais rápidos...

— Desembuche logo seu inútil, não temos o dia todo.

A ideia de fazer dos pequenos comerciantes espiões das Almas de Rapina foi da strix, à reunião de pessoas nesses estabelecimentos fazia deles um lugar perfeito para se obter informações, através de sequestro e suborno, o monstro conseguiu o que tanto queria.

— H-hoje eu conheci Tell, ele parece poderoso.

— E o livro, você viu o livro?

— Não minha senhora, mas ele estava andando ao lado de uma estranha criatura alada.

— Esse deve ser o tal do Index, o Guardião do Monstronomicom. Mas alguém estava com ele?

— Não, estava só com o “Index”.

— Significa que o grupo cujo Flande enviou não é tão coeso como se supunha, continue me informando ou eu o matarei ouviu?

O homem fez que sim com a cabeça e tremelicando suas mãos o velho encerrou a transmissão para não despertar suspeitas.

Um grupo de carpinteiros chegou à barraca de comida e sentaram-se no balcão, eles fizeram seus pedidos animados, nenhum deles podia suspeitar o que se passara ali.


Notas Finais


Tell e Index fazem um tour pelo Baronato de Alfonsim.


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