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História Um Show De Vizinha - Camren (G'p) - Capítulo 26


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Capítulo 26 - Vinte e quatro


                    POV Lauren Jauregui



  Infelizmente Camila não pode me acompanhar na viagem para Nova York. O que era uma pena, queria que ela pudesse rever sua família e passar um tempo com ela, mesmo que curto.

Assim que o avião pousou, peguei um carro que me aguardava e fui direto para a Trojan Horse Security, a lendária empresa de Ethan Evans, hoje sob as mãos do CEO Anthony Mitchell, um cara extremamente habilidoso e inteligente e que ampliou o catálogo da empresa para inserir robótica.

Assim que o carro chega na avenida mais movimentada de prédios comerciais, vejo um que é recoberto por um material estilo espelho, que reflete tudo o que vem de fora. E por dentro, assim que entro, vejo as paredes de vidro.

Aqui não é apenas a empresa de Ethan, mas a sua casa. Ele e sua família moram numa incrível mansão no subsolo, que aliás, é cheio de conexões com toda a cidade.

Ajeito o sobretudo no corpo por causa do frio e dou alguns passos até o elevador que é reservado apenas para a família. Não preciso mostrar identidade nem nada, sou rapidamente reconhecida e entro nele.

Em seguida, duas pessoas entram também.

— Anthony? — pergunto ao apontar para o homem de olhos azuis bem expressivos e a face lânguida. — Você deixou o cabelo crescer. Legal. 

Anthony aperta a minha mão, mas não sorri, sempre mantém aquela expressão séria e impenetrável.

— Tio Ethan me disse que você vinha hoje, então fiquei de tocaia para recebê-la. Você vai ter tempo para ver os projetos que andamos criando? — Anthony não perde tempo. Não é apenas um gênio da robótica, é curto e grosso, um bom negociador e profissional ao extremo.

— Sim, sim. Na verdade, se eu tiver tempo após ver a sua mãe, quero ver tudo — aceno para ele e viro o rosto para o outro lado, onde vejo uma moça.

Seu rosto é bem bonito e seus cabelos pretos descem em caracóis.

Mas o que chama a minha atenção são os seus olhos: um é verde e o outro é azul.

— Essa é Victória Leão — Anthony a apresenta, mas em sua voz há um quê de embargo. — Imagino que você esperava encontrar a Maria Eduarda Dourado hoje, mas a Victória é a futura CEO da LEÃO&DOURADO e tem tomado a frente das coisas da empresa.

— Senhorita Leão — aperto a mão de Victória.

— Vai ficar muito tempo conosco, senhora Jauregui? Gostaria de ver umas minúcias do seu acordo com a L&D.

— Só por hoje. Preciso voltar para Miami, mas podemos conversar no jantar ou até mesmo por chamada de vídeo depois, sem problemas.

Victória faz que sim, passa a mão pelos cabelos e olha para Anthony de esguelha. Ele olha para ela de esguelha. Tenho a leve sensação de que estou no meio de um tiroteio, como naqueles filmes do velho oeste.

— Vocês parecem tensos — coço a ponta do nariz. 

— Não — os dois dizem juntos e se encaram. Consigo até ver os raios saindo de seus olhos.

— É que tivemos... bem... uns enganos — Anthony tenta se explicar, mas não é bom com isso.

— Eu não me enganei com nada — Victória diz com um semblante leve e pleno. — Vim fazer o meu trabalho e estou fazendo — ela sacode os ombros. — Mas alguém não é atencioso o suficiente.

— Atencioso? Eu sou extremamente atencioso — Anthony rosna e a encara com ódio.

— Atencioso até demais. Cuidado com a atenção dele — Victória se vira para mim. — Ele pode acabar tirando a roupa... por ser atencioso demais — ela provoca.

— Você não me impediu e gostou — ele rosna.

Tá. O que está acontecendo aqui?

— Eu fiquei surpresa e fui na sua onda. Tinha negócios a resolver e pensei que essa era a sua forma de lidar com eles — ela move a cabeça sutilmente.

— Eu tinha negócios aquele dia com uma acompanhante de luxo e você chegou, sem avisar, não disse do que se tratava e eu resolvi os “meus” negócios. Me desculpe — ele cruza os braços e a encara com ódio.

— Está desculpado — ela também cruza os braços e o encara com ódio.

— Acreditem, quando eu digo isso — passo a mão pelo ombro de Anthony e pelo de Victória e os aproximo do meu corpo. — No mundo animal eles têm a dança do acasalamento. E nós, meus caros, temos isso.

— Isso o quê? — os dois perguntam juntos, furiosos. 

— Exatamente isso — dou uns tapinhas nas costas deles. — Façam o que tiverem de fazer, mas arrumem um quarto. Por favor.

Salva pelo gongo ou pelo elevador, vejo a passagem se abrir e sigo meu destino, deixando-os discutir animosamente sobre arrumarem um quarto ou coisa do tipo.

Diferente da empresa, a parte do subsolo possui paredes normais, então caminho pelo corredor sem ver quem está nos cômodos. E antes que eu chegue na sala de estar, sou abordado por Beatriz Mitchell.

— Dra. Mitchell! É bom vê-la, estou ansiosa para ouvir o seu feedback.

— Olá, Lauren! Como foi a viagem?

— Já me acostumei com esses bate-volta de Miami para Nova York,então estou bem.

— Ótimo! — Beatriz ajeita os óculos com hastes douradas e me aponta a porta à esquerda. — Bernardo está com o Noah e o Allen na sala de estar, então podemos conversar reservadamente aqui.

— É claro — a sigo até a sala de jogos, onde já vejo de cara uma mesa de sinuca e vários aparelhos antigos de jogos.

Beatriz ajeita a saia branca antes de se sentar na poltrona e coloca as mãos no colo. Pega um celular grande e começa a abrir arquivos, talvez em busca de suas anotações.

Sento-me na poltrona preta diante dela e olho ao redor. A sala é cheia de relíquias.

— Primeiramente, eu estou feliz e surpresa de ver que o Bernardo teve um avanço muito grande.

— Eu também — digo imediatamente. 

— Ele tinha dificuldades no início para falar e depois para pronunciar as palavras, mas desde que descobrimos no que ele realmente tem interesse, pudemos trabalhar com tudo isso. Preciso parabenizá-la Laurrm. Estou realmente surpresa que você fez todo o trabalho sozinha!

— Você é mãe e pode me entender — cruzo as pernas. — Eu não queria perder nenhum momento dele, sabe? Eu o vi andar pela primeira vez.

E aprendi com o tempo o que cada gesto e barulho que ele fazia significavam... e fiquei preocupada no início com medo de que Bernardo nunca fosse falar...

— Sua próxima missão é fazê-lo parar de falar — ela ri e acaba me contagiando. — Brincadeira.

Beatriz estende seu celular para mim e consigo ver suas anotações.

— Nas últimas semanas temos exercitado com o Bernardo o fato dele criar empatia e demonstrar que se importa e está interessado com o mundo ao seu redor. E ele está. Só que tem interesses específicos. Agora que demos esse passo, preciso que treine com o Bernardo os sentimentos, necessidades e vontades dele. Pedi que ele começasse a dizer o que quer, objetivamente.

— Aham.

— Isso vai facilitar muito a sua vida. Não vai mais precisar ficar 24h o observando, tentando entender qual sinal é o de dor, o de fome, o de medo, o de desejo... Bernardo está aprendendo que precisa se comunicar abertamente com as pessoas.

— Logo agora que estava me tornando expert em expressões faciais e gestos? — me divirto. 

— Você vai continuar a aprender sobre isso, mas fará bem, tanto a ele, quanto a relação de vocês dois que vocês se comuniquem com franqueza. Nicolas está aprendendo que a empatia é uma via de mão dupla: quando ele se importa com os outros, os outros também se importam com ele. E o que é necessário que ele absorva nesse momento é que ele precisa externar o que está em sua cabeça. É claro, aquilo que for importante transmitir. Tem coisas que não precisam ser ditas, e confio que você o ajude nessa tarefa.

— É claro.

— Dito isso, Bernardo evoluiu bastante e eu estou feliz que vocês dois estejam em sintonia.

— Ouvir isso significa muito para mim, obrigada.

Devolvo o celular para Beatriz.

— Você acha que... o Bernardo um dia vai conseguir ter uma vida normal? — pergunto.

— Quem de nós vive uma vida normal? — ela retruca e ri.

Pensando por esse lado...

— O Bernardo não é diferente das outras pessoas. Todos nós vivemos,construímos e nos comunicamos de acordo com os nossos gostos. O detalhe é que temos muitos gostos e nos comunicamos com rapidez, o que é, afinal de contas, uma exigência do mundo moderno.

— Sim — concordo com a senhora Mitchell.

— Até agora só descobrimos um gosto do Bernardo, que é pelas formigas. E apenas com isso, ele aprendeu diversas palavras, além de que você sabia que ele sabe falar “formiga” em vinte idiomas?

— Sério? — junto as mãos e me inclino. 

— Pedi que o Noah pesquisasse historinhas sobre formigas em diversas línguas e ele comprou diversos livros, cheios de ilustrações, de dez idiomas diferentes. Acredite, Bernardo têm cinco anos e imagino que em menos de três meses ele vai saber cada palavra daqueles livros. Entende onde quero chegar?

— Acho que sim.

— Bernardo tem o seu próprio tempo e o seu próprio espaço Lauren. E ele está ansioso para conhecer o mundo, mas para isso ficar mais atrativo, ele se concentra nas formigas. Talvez esse seja o único interesse dele...talvez você descubra cinco, dez, cem ou mil outros interesses... o importante é que você trabalhe esse tema. Por que é isso que prende a atenção dele. E a partir desse tema você expanda tudo: vocabulário, conhecimento, regras sociais e de etiqueta, valores, moral...

— Compreendi, parece tudo mais claro agora. Obrigada.

— No Brasil houve um educador chamado Paulo Freire. O método do Freire é muito famoso, principalmente em países na Europa. Basicamente, o que podemos usar no Bernardo, é a compreensão do Paulo Freire que a alfabetização e o conhecimento são construídos a partir de interesses. Ele ensinava construtores a ler e escrever, por exemplo,incentivando-os a ler e escrever coisas que tinham a ver com seu dia a dia.Tijolo, cimento, arame, pedra, areia... sabe?

Concordo de imediato.

— Nos dias modernos, principalmente, em que somos bombardeados com tantas informações e conteúdo verídico e duvidoso, nós nos debruçamos ao que nos interessa. E é uma bênção que descobrimos que o Bernardo se interessa por formigas. E que ele consegue compreender a noção de colônia, mútua ajuda, esforço, dedicação, trabalho, união. 

— Consegui captar, parece ótimo!

— O meu prognóstico é que Bernardo está pronto para aprender a ler e escrever, por isso indico que procure alguém que use o método do Freire. E depois... ele vai conhecer vários amiguinhos no infantil. Vai para o colegial. Para o ginásio. E vai para Harvard estudar as formigas! — ela faz sinal de vitória.

E eu faço junto, muito feliz em ouvir tudo isso.

— Isso!

— A parte mais difícil nisso tudo — Beatriz diz de um jeito mais sóbrio. — É que o Bernardo certamente vai fugir das expectativas que você tem para com ele. O que você quer para ele, talvez não signifique nada para ele. Para o desenvolvimento do seu filho, você precisa deixá-lo aprender quais são seus interesses e permitir que ele os desenvolva. Mas é claro,sempre cuidando e zelando para que ele não corra perigo, não fique vulnerável demais e esteja sempre no caminho adequado, mas seguro.

— Posso fazer isso com tranquilidade.

— Ótimo! Então nos veremos daqui um mês? Estou ansiosa para ver o desenvolvimento do Bernardo.

— Também estou — me levanto e aperto a mão dela.

— Ah, uma coisa! — Beatriz diz antes de sairmos. — O Bernardo me contou que se sentiu bem ao ver que você conheceu uma nova amiga, chamada Camila.

— Ah, sim... acho que ele e eu nos sentimentos bem por isso...

— Imagino que sim. Já é um avanço que ele se sinta confortável em meio aos primos que ganhou quando esteve aqui em Nova York. É o que ele tem de mais próximo como referencial de família, e eu sinceramente me sinto honrada — ela leva a mão ao peito. — E ele também se sentiu confortável ao ver que você se aproximou da Camila, primeiro porque ela gosta de formigas, é claro.

— É, tivemos um incidente com elas — coço o cabelo.

— Sim... e também porque ela é bonita, e principalmente: ela não é o Vincent.

— Ah, graças a Deus que ela não é o Vincent — faço uma careta.

— Nessa nova fase em que vocês vão treinar os sentimentos, desejos e as necessidades do Bernardo, talvez seja importante salientar que nós, assim como as formigas, precisamos de amigos ao nosso redor, para nos sentirmos bem. E ensinar a ele como se conhece pessoas... como as cumprimentar... perguntar sobre os interesses delas... aprender a dizer seus próprios interesses...

— Mês que vem voltaremos com muitas novidades para você, prometo.

— Eu espero que sim. E a minha sugestão é que a Camila possa estar com vocês em alguns desses momentos. É natural que o Bernardo queira expressar coisas com você, o pai, primeiro. E também conosco, sua família.

Mas desde já é bom que ele também faça isso com pessoas com quem simpatizou. Quem sabe em um momento desses ele não descobre mais um interesse? Seria um avanço e tanto!

Antes da Dra. Beatriz Mitchell eu me sentia bem insegura a respeito de como lidar com o Bernardo. Ele era um completo mistério para mim.

Mas ela tornou tudo mais fácil, ela não apenas ajudou o meu filho, mas me ajudou a entender não só como cuidar e tratar o Bernardo, mas também, a vida em geral. 

Foi difícil ouvir que eu não pertencia mais à minha família original por decidir que meu emprego, em tempo integral, seria cuidar do meu pequeno.

Mas eu ganhei uma nova família no lugar, que não apenas me deu suporte e me apoiou, mas amou o Bernardo e o trouxe para seu seio.

— Vou levar à cabo tudo isso. Nos vemos no próximo mês — me despeço dela e retorno para o corredor.

Dirijo-me à sala de estar, onde encontro Bernardo e Ethan Evans, o robô em forma de formiga está entre eles.

— Olha só quem chegou! — anuncio assim que entro.

Meu pequeno não se vira, continua olhando para a formiga e parece animado:

—... Elas constroem casas dentro da terra para se sentirem bem. Fazem vários túneis. E quando elas... — deixo ele concentrado no que está dizendo e me posiciono ao lado de Ethan.

— Muito obrigado por cuidar dele — seguro em seu ombro.

— Estou prestes a raptá-lo. O menino é o maior especialista em formigas que existe.

— Imagino que sim. Espero que ele não tenha dado muito trabalho.

— Bobagem! — Ethan segura em meu braço. — Uma criança que não dá trabalho não, está aproveitando a vida!

Quando Bernardo termina de falar, há um breve silêncio. Daí o robô responde tudo o que ele disse, acrescentando informações e dando dados científicos de uma forma simples e como saber mais sobre aquele tema.

— Oi, filho! Cheguei para te buscar! 

— Eu vi — ele pega o presente e o levanta em minha direção para que eu veja.

— Que lindo! Eu amei o seu presente! Mas como você está?

— Sentado.



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