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História Um Sonho Chamado Noxus - Capítulo 65


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Notas do Autor


ola lindos vamos fingir q nao sumi....
perdao gente eu fui de ferias e dai quando voltei ja era primeira semana da facul
foda.....
vou adiar o casamento pq tive ideias top mas vou tentar escrever bonitinho
so nao sei se vai ser todo domingo ainda....
vou terminar essa fanfic so ano q vem real oficial
#dificil
pra pedir desculpas to um pov da melhor personagem do lol

Capítulo 65 - Meio-dia


A Capitã Sarah Fortune deu um último trago em seu cigarro antes de apaga-lo no cinzeiro de prata daquela mesa de madeira refinada freljordana, com várias outras bugigangas chiques. Diziam que o temível Mastak tinha um gosto impecável, mas para ela era um tanto antiquado demais, por mais que almejasse tal opulência, como qualquer outro sentinense.

Ela mesma não viera de um dos passados mais humildes, seus pais eram os melhores ferreiros daquele arquipélago, faziam uma grana. Mas nada parecia com a grandeza daquela mansão, destoante de toda a miséria maçante daqueles que viviam nas docas. Era mais do que bom gosto, era uma mensagem: aquele homem, que possuía tais riquezas, ele havia vencido no jogo traiçoeiro que aquela ilha forçava todos os seus habitantes a jogar.

Mas de maneira alguma ela deveria se mostrar impressionada com aquele lugar, deveria agir como se salas em abóbadas com arcos esculpindo a mais bela vista que poderia se ter da praia fosse algo tão familiar que se tornava entediante.

— Presumo que não me chamou aqui para trocar gracejos, Monet — a capitã indagou, como se já não soubesse o motivo da repentina carta. Acabar com a Conclave dos Corsários teria suas consequências, disso ela sempre soube. — Eu só preciso saber... quem foi que te contou?

— Ora, se eu identificasse os meus informantes tudo perderia a graça, não? Mas não se preocupe, eu nunca vou pelas escolhas óbvias — o homem respondeu no rastro de um travesso sorriso, com se soubesse exatamente a preocupação que ela tinha em mente. — E francamente, eu nem precisaria de tanto esforço, com todas as coisas que dizem de você nas ruas.

— Contanto que estejam dizendo meu nome certo... — ela deu de ombros em divertimento. Já se preocupara com isso quando era mais jovem, mas então perceber que era inevitável toda aquela polêmica, e apenas a deixou rolar, tentou moldá-la ao seu favor.

— Sabe, minha melhor amiga era uma mulher não tão diferente de você, Fortune. Me conhece um pouquinho melhor que os outros, sabe que tenho motivos para simpatizar com vira-latas. E eu acredito na sua causa, mesmo que eu não viva isso na pele. Fui criado num lugar muito diferente desse aqui, onde as coisas que você sonha são uma realidade. Sei que é possível — Mastak fez uma pausa, a encarava atentamente enquanto gesticulava com seu charuto. — Algo que você já deve saber, é que para ser tão grande quanto eu, tem que cuidadosamente criar um personagem para o público. Tem que se tornar pelo menos um pouco previsível para poder passar sua mensagem. Quando algo acontece, as pessoas esperam uma resposta, talvez até precisem dela. E o meu apreço pela sua causa me fez gentilmente ignorar quando vinham gritar seu nome à minha porta. Mas não desta vez, minha cara. Quando sangue é derramado, dívidas precisam ser pagas, conhece o negócio.

Fortune não sabia bem o que dizer, sabia que estava bem claro que ele não ligaria para justificativas e nem pedidos de desculpas que nunca teria. Mas de certo modo, tinha uma vantagem, uma que já antecipava. Com receito de afastar sua sobrinha, Mastak não lhe daria uma punição tão severa, sabia que a causa também importava à sua preciosa Katarina.

— Vamos aos negócios, então — ela o encarou de volta sem exibir um pingo de seus receios, estes que a assombraram à noite. — Qual será a minha punição?

Ele pareceu ligeiramente desapontado que não pôde continuar seu monólogo, mas ela realmente não tinha paciência para aqueles enigmas, sabiam que eram apenas palavras bonitas complicando uma mensagem simples numa tentativa de confundi-la, para que se deixasse ser persuadida pelo notório charme de Vernon Monet.

— Direto aos números? — Mastak ajeitou seus óculos, intrigado. — Metade da sua munição vai para mim, e uma parte do tesouro do Gangplank para cada gangue que foi alvo. Divida em quatro e fica o resto para você.

— Metade da minha munição, é? Para quê? Para você a vender para eles e os meus homens levarem tiros das próprias balas? — ela estreitou os olhos, incapaz de conter sua indignação. — Minha intenção era dividir o tesouro igualmente como uma oferta de paz, e então aqueles desgraçados vieram para cima de mim. Eu conquistei o tesouro, e se ninguém quer aceitar isso, ele é meu.

— Não abuse da minha gentileza, Fortune. Estou me esforçando para consertar a merda que você fez do jeito mais pacífico possível — Mastak retrucou, sério. — Facínora, tirana e sádica, esses são os nomes mais bonitinhos que as ruas tem para você. Não é uma boa imagem para a sua marca, então sugiro que não piore as coisas. Aceite o acordo e siga em frente.

A capitã rangeu os dentes: nem sempre conseguia moldar a reputação ao seu favor, e mesmo se pusesse mais esforço nisso, seria chamada de falsa, desesperada. Não importava o que fizesse, sempre estaria na estaca, não teria o respeito que merecia. E por um único motivo, um motivo estúpido.

— Gangplank torturava seus prisioneiros cortando a carne deles, deixando os ossos à mostra para ele esculpir lindas serpentes nele com uma agulha. Ah, e ele fazia questão de deixá-los acordados durante o processo, diziam que ele gostava dos gritos — Fortune contou. Era algo que o Monet já sabia, todos sabiam. — Acha que alguém tinha a audácia de chama-lo de facínora, tirano e sádico? Não, nenhum pio. E pior, as pessoas o admiravam por isso! Ele, ele era um homem de verdade, que punha sua espada na mesa e dizia quem é que manda!

— Fortune, está tentando explicar para mim que injustiça existe? Por favor, me responda, apenas para eu ter certeza — o homem levantou uma sobrancelha em desdém. Sim, ela imaginava que ele também tinha sofrido sua leva de preconceitos sendo abertamente gay há tanto tempo. Até ela mesma achava estranho para alguém como ele, mas não tinha como dizer nada.

— Não é a mesma coisa — ela fez força para não revirar os olhos.

— Na minha opinião, as duas coisas têm o mesmo fundamento, mas podemos discutir isso em outro dia, certo? — Mastak respirou fundo. — O ponto é, Fortune, que para que você cresça, não posso simplesmente te fazer uma exceção, isso não é bom para nenhum de nós. Tem muito a aprender ainda, mas já sabe bem que precisa de mérito mais do que qualquer outra coisa. Sei que você tem capacidade de sobra para superar esse obstáculo, por isso não estou preocupado em te dar segurança.

A manipulação condescendente de implicar que estava a apoiando nos bastidores, de a dizer os caminhos para ser grandioso como ele, que estava a sabotando para vê-la ‘superar obstáculos’... não sabia nem o que responder. Era muita arrogância. Odiava a falsa empatia, preferia a sinceridade, que ele não ligava para sua causa e era apenas uma falha tentativa de ganhar a confiança dela.

— Mais alguma coisa? — a mulher suspirou em desagrado, levantando uma sobrancelha.

— Não, minha cara. Creio que nós dois temos dias cheios pela frente, então está livre para ir. Tenha um bom dia — Monet gesticulou com a mão, novamente ajustando seus óculos para então voltar a ler pergaminhos.

Com isso, a capitã Fortune assentiu e se levantou, o dando as costas para ir embora com mais nada a ser dito. Imaginou que o caminho até a saída seria fácil, já havia ido lá antes. Mas em algum lugar depois do hall pegou uma entrada errada e ficou perambulando pelo jardim, tentando chegar até a frente. Sinceramente, não conseguiria viver num lugar tão estupidamente grande.

Na busca de alguma outra entrada agora que estava no jardim, chegou num ginásio onde havia duas almas vivas naquele mausoléu opulento. Não foi tão surpreendente quando identificou que eram Katarina Du Couteau e a filha de Mastak, fazendo flexões em barras. A pirralha parecia frustrada e cansada, sua pele pálida se tornando rosada pelo esforço que desistira de fazer, apenas com as mãos nas barras, mas sem fazer força.

Por outro lado, a noxiana parecia estar se divertindo ao levantar o próprio peso como se não fosse nada. O suor em sua pele apenas fazia parecer que seus músculos brilhavam no sol. Usava uma calça larga amarrada na cintura e o busto enfaixado, com uma tira de couro para sustenta-lo. Os cabelos ruivos presos para trás, deixando seu rosto mais visível.

Com o abdômen definido à mostra, era possível vê-lo contrair quando Katarina fazia força.

Na língua nativa dela, ur-nox, sua prima pareceu fazer alguma reclamação e a ruiva respondeu com uma gargalhada e uma retórica num tom debochado. E então a mulher começou a se balançar na barra, tomando impulso para jogar-se para cima, dado piruetas em volta da barra em diversas poses, sem nenhum esforço, sem as mãos vacilarem.

Mas quando ela percebeu que Fortune estava a observando, pareceu levar um susto. A garota perdeu o equilíbrio e caiu sentada no chão. Como se levantou logo em seguida, não deveria ter se machucado. Nervosamente batendo as mãos nas calças, a ruiva a cumprimentou com aquele mesmo sorriso bobo de sempre.  

A capitã não sabia bem explicar, mas havia algo sobre Katarina, simplesmente algo arbitrário, que a deixava extremamente irritada ao encarar o rosto anguloso dela, salpicado com leves sardas e os desenhados olhos de esmeralda, um que era cortado por uma cicatriz.

— Eh, Fortune! Não esperava te ver por aqui — a noxiana declarou em seu sotaque cantado, que comicamente trocava os sons de algumas letras para outras. Estava levemente ofegante, com se alguma parte do corpo dela quisesse admitir que fazer todos aqueles malabarismos a cansavam um pouco. — Como foi a reunião?

— Depois nós falamos disso — desabafar sobre o desgraçado Mastak na frente de sua pirralha não era nem de longe uma boa ideia. A menina pareceu aproveitar que Katarina se distraiu para soltar a barra e limpar o suor de sua testa.

— Ah, tudo bem — ela assentiu, colocando para trás as mechas de cabelo que teimosamente saíram de seu rabo de cavalo. — Tem alguma tarefa para mim?

— Não com você vestindo isso — a capitã retrucou num rosnado.

— Deveria me vestir assim mais vezes então — Katarina brincou, levantando uma sobrancelha de maneira travessa. — É, eu ainda estou me acostumando com esse calor.

— Não é tão quente assim — Fortune argumentou. Apenas imaginava o quanto aquela garota iria sofrer no verão, se já reclamava na primavera. — Tenho uma reunião para ir, mas eu não consigo achar a maldita saída. Como consegue viver nesse lugar?

Como se quisesse deixar sua chefe ainda mais irritada, a noxiana deu uma risada.

— A casa em que eu cresci é no mesmo estilo. O Vernon também cresceu lá, então acho que sei de onde ele tirou a inspiração — ela contou, colocando a mão nas costas da capitã para guia-la até o lado de dentro.

— Então você cresceu numa mansão, eh? — por algum motivo, não estava surpresa com isso.

— Minha família é importante em Noxus. Babushka é uma lenda — a garota continuou enquanto elas andavam por mais passagens arqueadas.

— É claro, milady — a capitã caçoou.

E como se fosse uma rota muito mais simples, elas já estavam na frente do portão. E só pelo jeito que Katarina lhe lançava um olhar debochado, não deveria para entender a confusão da outra com o caminho, como se não fosse óbvio apenas pelo tamanho do lugar.

— Da próxima vez eu te dou um mapa, chefe — a noxiana disse, lhe dando uma leve cotovelada.

— Vai pro inferno — a capitã rosnou como um adeus, partindo com o som da outra rindo.

Respirando fundo, fez seu caminho de volta até a cidade.

Katarina era uma tripulante competente e disciplinada, além de ser uma ótima imagem para a causa,  lutava muito melhor do que Fortune jamais poderia — não que fosse admitir isso, é claro — mas ela notava que a mulher estava fazendo de tudo para ganhar sua confiança. Poderia ser a genuína vontade de fazer uma amizade, ou uma grande cilada.

E ainda houve aquela noite depois do “massacre” em que a bebida a falhou e lhe fez a confidenciar seus segredos mais profundos, tais que a noxiana pareceu empatizar. Foi estranho demais, dizer aquelas coisas em voz alta sobre como Gangplank violou sua alma, destruiu sua mente, como toda a situação a apodreceu por dentro.

A única outra pessoa que sabia desse segredo era Rafen, que acolheu aquela menina órfã suja de sangue e lhe deu abrigo. Devia tudo a ele, por mais que odiasse sua teimosia às vezes. Por seu erro de ter aberto a boca, imaginou que sua ruína logo viria. Mas nada mudou, ninguém agia como se soubesse, nem a própria Katarina. Mas talvez fosse cedo demais para dizer, o acontecimento fora a menos de uma semana.

Mas ela odiava pensar nesse assunto. Queria que um dia simplesmente esquecesse daquela noite que mudou sua vida para o pior. Queria poder descansar, sorrir, amar, como qualquer outra pessoa. Mas ainda esfregava a sujeira de seu corpo, os rastros do que fizeram com ela.

Sem tempo para aquelas emoções, teve de acender mais um cigarro quando fechou a porta do escritório.

— Do que precisa, capitã? — Stella, a cafetina traiçoeira, lhe encarava com um sorriso gracioso.

— Munição — a ruiva rosnou, sentando-se.

— No amanhecer as meninas trarão pistas de carga, e será a primeira a saber — a loira assentiu, sem pestanejar. Por mais que não confiasse nem um pouco nela, Fortune reconhecia a utilidade das informações da outra. — E já que estamos no assunto, uma mulher muito rica que contratou meus serviços disse que queria uma reunião sigilosa com você, te quer para um serviço. Não nos deixou contato, me pagou muito bem para ser sua mensageira, disse que o lugar e a hora seriam de sua prerrogativa, mas que apenas estaria na cidade até meia-noite.

Justo quando achava que estava perdida, uma grande oferta lhe vinha às mãos. Poderia ser tanto o paraíso quanto sua perdição, mas não custava tentar. Pegando um papel e a caneta tinteiro na mesa de Stella, escreveu as instruções. Um horário e um local. À noite, num bistrô perto de suas docas, onde podia deixar homens de plantão caso fosse uma emboscada.

— Foi só isso? — franzindo o cenho, ela hesitou em dar o cartão à cafetina, ainda cética de uma oportunidade vindo tão fácil à ela. —  Que tipo de serviços essa mulher comprou de você? Me diga tudo o que sabe.

— Estamos num bordel, Fortune — com um sorriso travesso, Stella deu de ombros.

— Ah — a ruiva concordou com a cabeça, um tanto constrangida. De todos os cenários que imaginava, aquele era um dos últimos que suspeitaria, mesmo dado o contexto.

— As pessoas te surpreendem, não? — a loira suspirou, ainda sorrindo ao gentilmente pegar o cartão da mão da capitã. — Bem, é uma terra sem lei, certas coisas já deveriam ser esperadas.

— Certo — ela tentou manter uma expressão neutra, mas não conseguiu evitar estreitar os olhos, para o divertimento da cafetina. Quis fazer mais perguntas sobre a mulher misteriosa, mas o rumo daquela conversa a deixou um tanto receosa. Se já deixaria reforços em volta do bistrô, agora seria em dobro. — Entregue isso a ela, peça para que seja pontual.

— Como quiser, capitã — a cafetina enrolou o papel e o escondeu em seu decote, ainda com aquela confiança de alguém que guardava um segredo escandaloso. — O que foi, senhora? Está chocada com meu segredinho pervertido? Não acredito que você nunca percebeu...

— Não confio em você, Stella — contendo muito de seu desconforto, a capitã a encarou em seriedade, tentando não se irritar com aquele comportamento. — Nossa relação é puramente profissional, eu não dou a mínima para a sua vida pessoal, contanto que você não tenha a pretensão de me envolver nela.

— Você me conhece, só quero dinheiro no meu bolso — a loira deu de ombros, um tanto arrogante demais para seu gosto. — Não é a única que recebe meus serviços, por mais que eu te dê prioridade. Posso não ter o emprego mais respeitável, mas tenho escrúpulos. O que seria de mim se não tivesse a confiança dos meus clientes?

— Me diga você — Fortune lhe lançou um olhar de desdém. — Eu lucro de homens serem estúpidos o suficiente para confiarem em prostitutas, não estou reclamando. Mas sei que vocês são treinadas para tirar o melhor proveito disso. Não sou um deles, Stella, esses seus joguinhos não funcionam comigo. Se você quiser continuar com seus negócios, é melhor não se esquecer disso.

— Não sabe o quanto aprecio você não ser um deles, capitã — ela mantinha aquele sorriso malicioso e o olhar fixo. — Eu admiro muito a sua causa, e o que faz por nós. Tanto que me fizeram uma oferta tentadora para te sabotar e eu vim te contar antes de fazer uma decisão.

— Ainda considera aceitar, então? — levantando uma sobrancelha, Fortune contemplou a ideia de matá-la, bem ali mesmo. Infelizmente, depois daquela dor de cabeça com Mastak, não poderia pagar por isso.

— Pediu minha honestidade, senhora — ela deu de ombros. — Você precisa de mim tanto quanto eu preciso de você. Gosto de pensar em nós como iguais, nesse sentido. Mas... se não confia em mim, por que eu deveria confiar em você? É um golpe baixo, quererem atacar o elo fraco de nossa aliança, mas você devia ver como aquele ouro brilhava, Fortune...

Ela sabia bem que seus próprios homens frequentavam aquele lugar, e fora um ato de preservação comprar aquele bordel, para controlar o dano que a tolice deles podia trazer. Preferia lucrar da tolice das tripulações inimigas, e em troca dava a Stella e às meninas uma parcela justa dos serviços e elas eram tratadas com dignidade. Seus inimigos tentavam comprar segredos das meninas, e nas ocasiões que isso acontecia, elas eram punidas. Nunca pensou que teria esse problema com a própria Stella.

— O que querem de você? — sabia que deveria ser mais flexível numa situação tão delicada, mas estaria mentindo se ignorasse o quanto estava aflita. 

— Digamos que seus homens não são os únicos a pedir nossos serviços — foi o que ela disse.

— É, eu pago você para usufruir dos serviços que vocês prestam a outras tripulações — a ruiva falou o óbvio, confusa. — Se alguém está te pagando por essa informação, não é muito esperto.

— Não foi isso que eu quis dizer — a cafetina levantou as sobrancelhas. — Não são só homens na sua tripulação.  

A levou um momento para juntar as peças, ainda tentando absorver aquele absurdo.

— A Katarina...? — a capitã franziu o cenho, incrédula. — É claro. Só porque uma mulher sabe lutar e não se arruma adequadamente não significa que ela é... isso é ridículo. Estão inventando isso só para denegrir a imagem da minha causa. É claro, homens inventam qualquer tipo de desculpa quando são rejeitados. Patético.

— Mas... é verdade — Stella assentiu, atenta. — Eu sei disso porque é à mim que ela visita. Querem me pagar para confirmar os boatos da próxima vez que ela vier. Nós tentamos manter isso o mais discreto possível, mas sempre houve esse risco.

— Não, você está inventando coisas! — o maior argumento de Fortune era que as duas já dividiram uma cama e a noxiana não tentou nada, mas nunca contaria para ninguém. — Ela já me falou que tinha um namorado em Piltover!

— Eu atendia homens, mesmo detestando — a cafetina argumentou. — Com a minha posição, eu não sou obrigada a fazer nada, mas eu abri uma exceção para a Katarina. Eu não sei, aquele sotaque simplesmente me pegou... é verdade o que dizem sobre noxianos, eles realmente fodem com força.

O jeito que ela olhou para o lado e suspirou fez com que Fortune se imaginasse a esganando bem ali, e apenas para deixar isso ainda mais claro, fuzilou a mulher com os olhos.

— Me poupe dos detalhes dos seus sonhos pervertidos, Stella — a ruiva rosnou.

— Para minha felicidade, são mais do que sonhos. Se acha que estou mentindo, bem... ela tem várias cicatrizes, mas a minha segunda favorita é a cruz, bem no meio das costas. Dizem que é um símbolo de boa sorte — a loira contou, ainda sorrindo. — Bem, capitã, eu não saberia disso se não tivesse visto e tocado nela. Fico arrepiada só de lembrar... os músculos dela são perfeitos, não?

Fortune nunca iria concordar que os músculos delicados de Katarina eram um tanto que impressionantes, porque o ponto em comum partia de lugares muito diferentes. Mas tentou levar sua memória para aquela manhã, onde Katarina não usava muita roupa, mas não havia reparado em suas costas, não tinha ainda como refutar isso.

Por mais que ela não quisesse acreditar nisso, não podia negar que era plausível. A noxiana estava desesperada por sua confiança, talvez apenas para poder guardar seu segredo ou por algo mais, algo que Fortune não queria considerar.

Qualquer que fosse a razão, aquilo não deixava de ser decepcionante, porque realmente se permitiu de considerar Katarina como uma amiga, mas agora descobria essa mentira que esteve debaixo do seu nariz o tempo todo. Podia ser algo difícil de se contar, de se entender, mas... era uma mentira.

Com suas experiências horríveis, Fortune sempre se sentia tensa quando era a única mulher numa sala lotada de homens, e a maior parte dos cenários de sua vida eram assim. Até mesmo em seu barco, trancada na cabine de capitã, tinha um medo irracional de que todos aqueles homens se rebelassem, arrombassem sua porta e fizessem o que bem queriam com ela.

Mas ter Katarina por perto a fez se sentir menos sozinha, porque apenas outra mulher entenderia todos aqueles medos, sentiria empatia. E principalmente uma mulher séria, forte e bem treinada como aquela noxiana. Fortune nunca suspeitaria que outra mulher iria tentar tocá-la e isso lhe dava um senso de segurança. E agora nem isso tinha.

Novamente, provava a si mesma que estava certa em não confiar em ninguém.

— Você vai matar essa história. Não é um pedido — Fortune declarou após uma longa pausa.

— Então vai ter de me fazer uma oferta melhor, capitã — ela teve a ousadia de pedir.

Os anos a ensinaram que infelizmente não conseguia acabar com todos os seus problemas por matar pessoas, acabava por criar mais. Precisava do sistema de Stella, e se a matasse perderia a confiança das outras garotas.

— O que quer que eles te oferecerem, eu dobro — a mulher suspirou em derrota.

— Muito bem, eu te passo a conta depois — Stella sorriu, triunfante.

Sabia que aquele rumor iria transformar sua causa em uma piada, iriam questionar os motivos de Fortune ter contratado uma mulher, iriam dizer que ela também era pervertida. E todo o seu ‘ódio por homens’ seria traduzido em sua falta de interesse romântico neles, e então nunca conseguiria ser vista de outro jeito, nunca seria levada a sério.

Já não era levada a sério, já diziam que ela ainda iria achar o homem perfeito que iria fazê-la sossegar de suas bobagens, que iria calar a boca se tivesse uma boa noite com um homem de verdade, e isso sem esse tipo de boato. Não queria apenas piorar esse argumento.

— E você também vai banir a Katarina daqui, sabe que estão observando — a capitã declarou.

— Ah, então ela ainda está no jogo? — a loira pareceu surpresa. — Você é bem mais progressista do que eu imaginava. Não estou reclamando.

— Não posso voltar atrás, não agora — ela respondeu em desgosto.

Sem mais nada a dizer, a capitã Fortune foi embora.

Felizmente era hora do almoço, e não tinha nenhuma reunião para hoje até a mulher misteriosa de Stella a confirmar alguma coisa. Não estava com fome e queria fazer algo útil, como ajudar Rafen com as burocracias do barco. Ela até gostava daquelas tarefas simples quando não eram tudo o que tinha que fazer. E aliás, tinha que atualizá-lo nos novos problemas.

Conhecia bem o homem, sabia onde ele estaria. Em casa, sentado perto da janela, se servindo o almoço com o mesmo costumeiro suco de laranja e encarando o livro de pássaros que se apossou numa das recompensas. Era o único livro que possuía, nem era tão bem letrado, mas gostava de encarar as figuras enquanto comia, dizia que o acalmava.

— Cacete, você nunca vai aprender a bater, não? — Rafen resmungou. Levou um susto com ela escancarando a porta abruptamente e derrubou o suco de laranja em seu colo.

O humor da capitã estava péssimo, mas não conseguiu evitar uma risadinha com o aborrecimento daquele pirata com as calças molhadas e as mãos na cintura. Rafen, seu segundo no comando, era um homem baixo, parrudo com a pele escura e poucos cabelos lhe restando na cabeça, apesar da barba espessa. Suas roupas eram tão simples e funcionais quanto sua casa, mas ele nunca se importou muito com isso.

— Tecnicamente, eu bati — ela retrucou, dando de ombros de maneira brincalhona ao tirar seu casaco e largá-lo em cima do sofá, para então se abaixar no armário. — Argh, eu tive uma manhã horrível, preciso de uma bebida forte.

— Ainda é meio-dia, Sarah. Acho que você aguenta mais um pouco — o homem assentiu daquele jeito que tentava esconder sua preocupação e julgamento. O velho jurava que em um dia desses ela ainda iria se tornar uma alcóolatra, como se todos os marujos não bebessem tanto quanto ela.

E ignorando-o, ela encheu um copo de rum e se jogou no sofá, ainda observando-o com seu almoço, que tinha um cheiro muito bom, mas ela aprendeu a nunca aceitar comida de Rafen, pois ele sempre carregava na pimenta.

— Como foi, então? — Rafen resmungou de boca cheia, então a encarando. — Usar sapatos dentro de casa traz mau agouro, tire isso!

Suspirando, ela acatou seu pedido, mesmo que tivesse apenas deixado suas botas deslizar de seus pés ao chão. Rafen era um homem muito supersticioso, e já fazia alguns anos desde a última vez que decidiu dizer que isso era bobagem, pois era então que coincidentemente essas coisas pareciam reais e ela tinha que lidar com inconveniências esquisitas. Apenas o deixava com suas coisinhas.

— Mastak quer que eu divida o tesouro de Gangplank com as gangues que eu feri e dê metade do meu estoque de munição para ele — Fortune não conseguia amenizar as coisas, não para ele, que era quem sempre a ajudava. — E ele fez tentar parecer como se fosse uma boa coisa, como se estivesse me ajudando a crescer!

— Podia ser muito pior, então... não estou reclamando — ele suspirou, concordando com a cabeça e olhando para o nada, como se estivesse calculando suas estratégias. Já haviam brigado sobre a ‘imprudência’ dela antes, então ele não repetiria o discurso de ‘eu te avisei’. — A cafetina já te deu alguma pista de munição?

— Não, me disse que de manhã vai ver se tem alguma novidade — Fortune disse. — Mas uma mulher misteriosa quer me contratar, eu devo me encontrar com ela no bistrô hoje à noite, quero que organize uma patrulha nos quarteirões. E fiquem atentos, pelo o que a Stella disse, essa mulher pode ser meio estranha. Não me deu muitas informações, mas não custa tentar.

— Deve ser forasteira. É, pode ser muito bom ou muito ruim. Os rapazes vão ficar de olho, qualquer coisa. Considere feito — ele assentiu, ainda mastigando seu arroz com vegetais e frango. — É meio esquisito mesmo, isso logo depois do massacre. Sei que você estava querendo trabalhar com outra mulher já faz tempo, mas tome muito cuidado. Vem pra cá depois da reunião, preciso saber com quem estamos lidando.

— Eu sei me cuidar sozinha, relaxa — ela suspirou, tentando não se irritar com o hábito dele de sempre lhe dizer o óbvio. Ele ainda a via como uma garotinha desamparada, por mais que negasse.

— É claro que sabe, mas nenhum cuidado é pouco. — o velho insistiu.

E então os dois ficaram em silêncio. Fortune o conhecia desde que se entenda por gente, Rafen era um vizinho da ferraria de seus pais. Quando ela se tornou órfã, ele a acolheu, e tentou seu melhor para guia-la, mesmo não tendo tato para lidar com tudo o que estava acontecendo com ela.

Rafen viu toda a choradeira, os tremeliques, os terrores noturnos. Aprendeu as paranoias, as manias e os medos dela, tentou consertá-los. De muitas maneiras, Sarah Fortune não era mais aquela garotinha frágil e assustada, por mais que houvesse algumas constantes. E conforme ela foi crescendo, menos coisas tinham a dizer um para o outro, o que mais os unia era o navio. Mas não era algo necessariamente ruim, ela apenas havia crescido, era independente agora.  

— E nas docas, como estão as coisas? — ela quis saber.

— Consegui uma negociação para aquele açougue que você queria comprar, a reunião vai ser na quarta — o homem a avisou.

— Obrigada — a ruiva assentiu.

Não havia contado seu plano a Rafen, não sabia se ele havia percebido. A morte de Gangplank não era o suficiente para consertar as coisas, precisava destruir todo o legado dele. Começando pelo seu tesouro, suas propriedades. Iria comprar todas elas, e se não pudesse, iria fazer com que falissem, ou em último caso, queimá-las.

— E você, Sarah, como está seu dia? Faz tempo que não vem atrapalhar meu almoço — ele tinha um leve sorriso ao encará-la.

Ela sabia que Rafen entendia aquele silêncio, mas ficou nervosa demais para formular uma resposta convincente. O que podia dizer? Nunca esteve bem, se fosse ser sincera. Toda aquela história de Katarina a encheu de raiva, se sentia traída e confusa. Mas não conseguia pensar em alguma maneira decente de explicar tudo isso para o pobre homem.

— Ainda é meio-dia — a capitã repetiu a frase dele, encarando as próprias mãos.

***

Fortune acabou não conversando muito com Rafen, os dois comeram e então foram as docas, convocando alguns tripulantes que ainda estavam lá para fazer a separação dos tesouros e as munições, e então o transporte.

Seus marinheiros estavam um tanto desanimados, já há algumas semanas sem velejar, não tinha muito a se fazer nas docas, o barco já estava limpo e a comida em estoque, então a maioria deles voltava para suas casas até que fossem convocados. E agora foram chamados de volta porque sua capitã havia perdido os bens que eles lutaram tanto para conseguir.

Realmente esperava que aquela mulher misteriosa fosse algo sério, porque sabia que seus rapazes precisavam disso. Se as coisas continuassem assim, algum idiota iria poder questionar sua capitania e ela não queria duelar com seus próprios marujos.

E ali estava ela, quietamente refazendo as páginas do inventário e as contas, as divisões e toda a burocracia daquilo, só porque queria deixar Rafen descansar um pouco. Ele ainda estava na barraca ao lado, tomando um café enquanto listava os homens.

Fortune fora letrada ainda quando criança, mas não era uma para ficar lendo livros à troco de nada, preferia coisas práticas. Até que gostava de trabalhar com aqueles números, eram simples, por mais que um tanto trabalhosos. Tinha que se concentrar para não errar, o que não lhe deixava espaço para ficar ponderando sobre suas preocupações.

Mas toda aquela calmaria fora inundada de volta por todo seu nervosismo quando Katarina Du Couteau timidamente entrou pela tenda com aquele sorriso idiota de sempre. Ela vestia o mesmo de sempre, calças e botas de couro com uma camisa branca leve e larga. Suas mãos sujas de poeira e metade do cabelo preso para trás, o que significava que ela deveria estar trabalhando.

— Eh, com licença... eu preciso conversar com você, chefe — a noxiana parou à sua frente com as mãos juntas à frente do corpo.

— O que você quer? — a capitã resmungou, analisando-a, tentando achar uma pista de que as coisas que Stella disse estavam ali o tempo todo.

— Antes de tudo, queria me desculpar pelo o que aconteceu com o Vernon... eu tentei explicar para ele que nós não fizemos nada de errado, que não merecia ser punida por isso, mas ele obviamente não me escutou — a garota olhava para o chão e então de volta para ela, um tanto acanhada.

Fortune estava furiosa com as mentiras dela, ponderando qual seria a veracidade de todas as outras coisas que pensava saber sobre Katarina. E mesmo assim, ela estava ali, se desculpando por coisas que não eram culpa dela com aquele nervosismo idiota.

— Você vai estar encarregada de transportar a munição para as docas dele — mesmo assim, a capitã não podia dar o braço a torcer, ela ainda era uma mentirosa pervertida. — Faremos isso amanhã cedo, quando terminarmos de organizar as parcelas do inventário.

— Sim, senhora — a noxiana assentiu, falando em firmeza com seu sotaque que Stella tanto gostava.

— Mais alguma coisa? — não conseguia encarar Katarina sem pensar naquela cafetina maldita.

— Tem uma coisa que preciso te contar — ela disse, atraindo a atenção de Fortune com aquela pausa séria. — É... o Vernon foi convidado para o casamento real de Demacia, e eu tenho alguns amigos lá que quero rever, então... nós estamos indo.

— Demacia é do outro lado do mundo, você sabe disso, certo? — a capitã franziu o cenho, processando tudo o que aquilo implicava. Esperava outro tipo de confissão, o que deixava esta ainda mais inesperada.

— É, exatamente. Eu vim te avisar porque nós provavelmente vamos passar um mês fora, e sei lá, isso parece o tipo de coisa que se avisa para sua chefe — ela deu de ombros.

— Um mês? — a mulher questionou, ainda incrédula. Parecia um alívio, um mês sem Mastak, mas ainda era esquisito Katarina ir embora assim.

— O Vernon vai deixar um vice no comando e nós vamos amanhã à noite. Não precisa me pagar pelas missões que fizer enquanto eu estiver fora — ela assentiu formalmente.

— E você; você, vai para Demacia? Que tipo de noxianos vocês são? — a cada momento que parava a ponderar sobre aquilo, tudo ficava mais estranho.

— O marido do Vernon era demaciano, sabia? — Katarina revelou, parecendo achar graça da indignação de sua chefe. — E eu, bem... eu tenho um amigo lá, quero saber como ele está. E eu nunca conheci o lugar, dizem que é bem bonito.

— Se você gosta de montanhas — a capitã deu de ombros. — E que amigo é esse? É um amigo especial, tipo, um cara...?

— Não, não — ela arregalou os olhos, negando abruptamente. — Quer dizer, ele é um cara, mas nós somos só amigos. Ele me ajudou muito depois que o meu pai morreu, e eu nunca pude agradecer.

— Mas ele é bonitinho? — Fortune insistiu, desesperada para achar algo que provasse que Stella estava errada, ou que Katarina era uma mentirosa. Mas não queria confrontá-la diretamente, sabia que ela iria negar.

— É, ele é alto, musculoso, tem olhos azuis..., mas ele é demaciano — Katarina deu de ombros, não parecendo muito interessada no que dizia.

— Certo — a capitã concordou com a cabeça. Aquela era uma descrição vaga e genérica, de quem não pensava muito bem nisso. A única prova que teria seria a cicatriz nas costas, porque só estava ficando cada vez mais confusa. — Já que você vai embora amanhã, o que acha de nós irmos fazer compras hoje, hm? Eu estava te devendo essa. E você se vestir melhor é um favor para mim.

— Se isso fizer você parar de implicar comigo, ótimo — a noxiana suspirou.

Sem antes dar um breve aviso para Rafen, elas fizeram seu caminho antes mesmo de alguém poder questionar aonde estavam indo. Fortune conhecia a melhor rua de boutiques que havia na ilha, e era para lá que levava sua suspeita companheira, que ficou em silêncio no caminho, ainda nervosa.

— Qual é o seu tamanho? — a capitã indagou.

— Eu não sei — Katarina deu de ombros enquanto soltava seus cabelos. Percebeu a indignação da outra e pareceu indignada também. — O que foi? Todas as minhas roupas eram sob medida!

— Ah, é. Quase me esqueci de que você é podre de rica — a sentinense a lançou um olhar cheio de julgamento. — Nós plebeus compramos roupas feitas em loja e ajustamos em casa. Meus vestidos e casacos são sob medida, mas ainda não tenho o luxo de um guarda-roupas inteiro.

— Eu literalmente só tenho um vestido, então todo o resto fica ainda mais necessário — ela disse.

— O seu único vestido é um Anastasia — aquilo a irritou um pouco. Sabia do vestido que ela estava falando, era o que havia usado na festa de Mastak, um modelo exclusivo e inconfundível de uma das mais famosas estilistas do mundo. E justo vestindo Katarina, que nem ligava para moda.

— Ela me deu de aniversário — a noxiana se defendeu, como se aquilo fosse fazer ela parecer menos nobre.

— Então você a conhecia? — Fortune levantou as sobrancelhas, impressionada.

— Anastasia era minha madrasta. A gente nunca foi muito próxima, mas no ano passado ela me ajudou bastante com alguns problemas lá de casa. Ela era um anjo — Katarina deu um suspiro melancólico. O mundo inteiro ainda murmurava sobre o desaparecimento de Anastasia Von Grimm, era até deprimente ver alguém que viveu isso de perto já assumi-la como morta.

— É impressão minha ou você é parente de todas as pessoas famosas de Noxus? — a capitã não quis entrar em assuntos tristes e se distrair do objetivo de estarem ali. Mas realmente era um padrão, primeiro disse que era a neta da Guilhotina de Noxus, uma boa amiga do Grande General e agora mais isso. A vida dela devia ter sido interessante.

— É bem por aí — a noxiana deu uma risadinha, encarando as camisas exibidas na vitrine.

— Deve ter conhecido um monte de gente rica e famosa, eu aposto. Quem eram os caras mais gostosos ao vivo? — Fortune decidiu voltar ao assunto principal.

— Não conheci tanta gente assim, eu era bem tímida — a garota deu de ombros. — Eu tinha uma quedinha no Darius, sabe? A Mão de Noxus. Minha vó treinou ele. Ele é tipo trinta anos mais velho que eu, nunca deu bola pra mim, só era educado. Mas eu não sei, ele era tão maneiro e musculoso..., mas daí eu descobri que quando ele era jovem namorou com a minha mãe, então ficou esquisito e eu finjo que nunca aconteceu.

— Isso é... bizarro — a capitã respondeu, frustrada. — Sei lá, e os meninos ricos, eles são bonitos?

As duas estavam entrando, e Fortune até dispensou a vendedora porque estava muito focada em desvendar as expressões faciais de Katarina. Parecia que ela falava a verdade em todas, mas ainda não fazia sentido.

— Eles são uns babacas. Me chamavam de ‘sinistra’ porque tinham medo de mim, sabiam que eu podia quebrar a cara deles — a noxiana contou, passando os dedos por entre as varas de cabides, tentando achar algo.

— Então não tinha ninguém lá? Você não se apaixonou por nenhum deles? — Fortune quis saber.

— Ah, eu já tinha me apaixonado uma vez, um professor muito mais velho do que eu. Ele se aproveitou de mim sabe, foi bem errado, eu só tinha catorze anos — Katarina murmurou, olhando para o chão.

— Eu sinto muito — por um momento, ela desistiu de sua caçada para suspirar em angústia. Fortune empatizava com aquele relato, mas ao mesmo tempo ficou furiosa pelas lembranças que vieram à sua cabeça, e o fato de que coisas terríveis acontecerem com meninas jovens era tão comum.

— Está tudo bem — a garota sorriu de leve. — Demorou alguns anos, mas eu superei isso. Fiz umas coisas estranhas, eu ficava muito louca e pegava uns caras muito mais velhos do que eu e... bem, eu não faço mais isso.

— Acho que toda garota tem essa fase — a capitã concordou com a cabeça, sem ter como julgar.

— Isso é meio triste — Katarina franziu o cenho. — Mas é, teve um único carinha legal que eu conheci, ele ia no baile comigo. Ele era perfeito: bronzeado, musculoso, lutava muito bem, tinha um ar meio bravo, mas na verdade era muito fofo. E daí, na noite do baile ele morreu, foi picado por uma abelha e descobriu que era alérgico.

Fortune não pôde deixar de rir apesar da expressão um tanto triste da outra, mas felizmente ela riu junto, as bochechas ficando um tanto coradas. A descrição que deu do tipo dela era convincente, e ali estava mais uma história difícil de se inventar.

— Isso é sério? — a capitã levantou as sobrancelhas.

— Infelizmente, sim. Foi muita sorte, passei o baile bebendo sozinha — ela continuou. — Fui ao enterro dele, a família era muito gentil.

— Essa é sua breve história amorosa? — Fortune indagou em desdém.

— Não, não. Eu me diverti um pouco quando estava em Piltover — Katarina a respondeu com um sorriso travesso. — Me descobri bastante lá, ficando sozinha pela primeira vez. Fiquei com uma pessoa por um mês, eu fui meio babaca com ela e daí eu parti para cima do violinista que eu te falei e bem, foi uma bagunça.   

Ela? — Fortune levantou uma sobrancelha, tentando não demonstrar a satisfação de descobrir o que queria.

— Ela, a pessoa — a garota assentiu, não parecendo nervosa. — Ur-nox não usa muitos pronomes e eu fico meio confusa.

— É claro — como não sabia uma palavra de ur-nox, não sabia se devia duvidar. — Mas bem, já que tocou no assunto, você já beijou uma garota por curiosidade? Não sei como são as coisas na sua terrinha, então...

— Não — ela afirmou, desinteressada ao pegar algumas camisas. — Em Noxus essas coisas são mais toleradas, mas depende de para quem você perguntar.

— Impressionante. Se essas coisas são permitidas lá, como que nunca teve curiosidade? — a capitã indagou, encarando-a.

— Eu não sou gay, se é isso que você quer saber — Katarina a encarou de volta, parecendo entediada com aquela conversa. — E por que quer saber disso, afinal? Está interessada?

A noxiana a lançou um sorriso travesso, que deixou Fortune deveras confusa, como se algo estivesse se revirando em seu estômago. Quis matar sua capanga por parecer se divertir com a reação.

— Você iria adorar isso, não é mesmo? — a capitã rosnou cinicamente, fuzilando-a com o olhar.

Katarina não largou de seu sorriso, mas ficou em silêncio. Fortune concordou com isso, pois não queria continuar com aquele foco direcionado à ela. Só de pensar, um arrepio lhe corria a espinha, e precisava levar as coisas de volta ao normal.

— Eu acho que você ia ficar incrível nesse — para mudar definitivamente de assunto, parou ao lado da garota que encarava um sobretudo que embutia um corset, era preto e estranhamente reminiscente de roupas militares, o que parecia perfeito para uma noxiana maldita.

— Eu não vou passar calor? — era essa a preocupação de Katarina.

— Compre camisas de tecido fresco, eu já te falei mil vezes — a capitã ralhou, tirando a veste de seu cabide e o empurrando para a outra.

Com isso, a noxiana entrou com a blusa e o sobretudo no quarto de trás que as pessoas usavam para provar as roupas. Como uma cliente frequente, Fortune sabia bem que aquela porta era terrível e não fechava direito, sempre sobrava uma frestinha. Mas não era como se alguém se preocupasse, apenas mulheres frequentavam aquela loja. 

Fortune teve um dilema moral, encarando a faixa de luz que vinha da porta. Mas ela precisava saber a verdade, ter alguma conclusão em todas aquelas questões que carregou durante o dia, depois de todas as coisas que Stella disse.

Sem fazer nenhum barulho, ela se encostou à porta e suavemente a empurrou com a ponta dos dedos, para abri-la o suficiente para poder espiar. Era o momento certo, quando Katarina estava de costas, despindo sua camisa horrível.

E no meio de sua figura esguia e seus músculos definidos, ali estava entre as outras, uma cicatriz fincada em sua carne no formato de uma cruz.

Por um segundo, foi como se sua respiração tivesse sumido com o choque. Katarina olhou nos olhos dela e mentiu na cara dura, e ainda queria ser sua amiga daquele jeito. A confirmação de seus temores acompanhou uma quente raiva e muitas perguntas. Muitas mesmo. Primeiramente, como que ela conseguia parecer tão comum, como qualquer outra pessoa, quando carregava aquele segredo horrível?

Observava o jeito que os cabelos carmesim da noxiana roçavam em sua pele cheia daquelas misteriosas cicatrizes, como riscos nos delicados músculos que se definiam por seu treino árduo... e estava então distraída pelos questionamentos que se fazia, coisas que não tinha coragem para encarar. Parecia um delírio, imaginar todas as coisas que Katarina fazia em segredo, para no dia seguinte vir chama-la de capitã com seu estúpido sorriso. E confessava não captar muito bem como todas aquelas perversões funcionavam, mas soava errado ponderar sobre isso.

— Está tudo bem aí, capitã? — quando se virou de lado e vestiu a blusa, Katarina olhou diretamente na direção dela, intrigada.

— Eh... anda logo! Você está demorando demais — foi o que ela resmungou, quando parou de gaguejar e conseguiu formular palavras de verdade.

Katarina respondeu bufando e revirando os olhos, e então Fortune respirou fundo e se afastou da visão, e de todos os pensamentos que não entendia. Seu coração ainda batia rápido demais pelo susto, e não sabia o que fazer.

E então ela saiu vestindo o sobretudo, com as mãos na cintura. Usava uma camisa fresca solta, que tinha babados e um decote. Naquele sorriso um tanto cínico, ela abriu os braços e deu uma voltinha, parecendo sem-graça.

A capitã não quis olhar por muito tempo.

— Finalmente, você parece um pirata de verdade — Fortune assentiu, encarando aquele colar de moeda que a noxiana sempre usava. — Uh... a peça te vestiu bem. 

— Pois é — Katarina se encarava no espelho, mas olhava para a capitã no reflexo. — Às vezes nós só precisamos tentar uma coisa nova. Eu vou levar.

— Ótimo — a sentinense engoliu em seco. — Tenho uma reunião superimportante agora de noite, eu te vejo depois. Divirta-se com a roupa... sei lá.

Fortune sentia que ia implodir se continuasse ali, então acenou com a cabeça nervosamente como despedida e saiu em disparada antes mesmo de Katarina perguntar sobre a pressa. Só... havia sido coisas demais num dia, precisava tomar ar, junto de uma boa dose de rum.

Como não podia se embebedar de maneira decente por conta de sua reunião, Fortune se contentou à uma caneca de cerveja e uma soneca para afastar seus pensamentos nefastos. Quando acordou, foi se arrumar para ir até o bistrô. Não era nada chique, sem vestidos e seus espartilhos infernais, ia com suas roupas normais de trabalho.

Com suas pistolas e uma faca escondida na bota, e a confortante confirmação de que seus homens escoltavam o quarteirão, que Rafen estava quietamente comendo no mesmo lugar, ela se sentiu pronta para passar pela porta do bistrô.

Era um lugar simples, mas bonito. Havia o térreo com mesinhas redondas e a cozinha, e então o deck, com tendas e uma vista para o mar. Imaginou que a mulher rica iria preferir os assentos mais chiques, e por lá, Fortune foi procura-la.

Não sabia a aparência da mulher, mas quando no deck avistou uma mulher pálida com cabelos negros curtos e cuidadosamente enrolados, imaginou ser ela. Suas vestes sofisticadas e seus lábios mantinham a cor escura, e os detalhes de ouro em suas vestes eram da mesma cor que seus olhos. E quando a mulher a encarou de volta com um sorriso travesso e acenou de leve com a mão, Fortune se aproximou, com uma sensação de desconforto.

— Capitã Fortune, é um prazer conhece-la, sou Emilia Blackwood. — a mulher apertou sua mão educadamente e então acenou para que a outra se sentasse. Era de conhecimento geral que havia muitos sobrenomes poderosos em Piltover, e aquele era um deles.

— Preciso dizer, fiquei um tanto cética com todo o sigilo dessa reunião, senhora — a capitã admitiu, encarando-a.

— Me disseram que você não era uma a fazer muitas perguntas — a mulher retrucou, bebericando de seu vinho tinto. Fortune aproveitou a oportunidade para chamar o garçom para lhe trazer rum, e a madame ficou a encarando em silêncio durante todo o tempo.

— Não, não muitas perguntas. Apenas o básico — a sentinense assentiu. — Stella me informou que a senhora estava interessada em me contratar, especificamente.

— Ah, sim, Stella... — a mulher deu um riso travesso, e foi quando Fortune lembrou-se de que a cafetina disse que prestou serviços à aquela piltovense pomposa. — Tenho como uma política pessoal de que qualquer trabalho que um homem pode fazer, uma mulher faz duas vezes melhor. Me contaram sobre a sua nobre causa e o que posso dizer, me interessei. Se tudo ocorrer como planejado, eu até mesmo posso me tornar uma cliente permanente.

— Gosto da sua maneira de pensar, madame — a ruiva sorriu de canto. — O que quer que eu faça?

— Não é nada muito difícil, capitã — Emilia sorriu de leve, inclinando a cabeça. — Há uma tribo freljordana, a Garra do Inverno, que acabou com um dos artefatos roubados da minha família, o Malho Congelado. Recebi uma dica quase certeira de que planejam realocar meu item de suas terras pelo porto de Guardageada, já sabem que estamos procurando-o. É aí que você entra: quero que intercepte o navio, recupere meu item e vingue meu nome. Não deixe sobreviventes.

— Se não me engano, está falando do litoral oeste de Freljord — a capitã estreitou os olhos em dúvida, tal que foi confirmada com um aceno de cabeça da madame. — Muito bem, posso ultrapassar a alfândega piltovense e depois o mar estreito cheio de navios de guerra noxianos, terminando com um passeio no litoral demaciano e ainda voltar..., mas por um preço. E um bastante salgado, nesse caso.

— Dinheiro não será um problema — a mulher Blackwood assentiu em arrogância.

— Se adiantar o pagamento, posso sair amanhã à tarde — Fortune barganhou.

— Metade do pagamento — a madame concordou com a cabeça. Dando de ombros, a ruiva concordou, achando justo. Nisso, a outra sorriu e seus olhos dourados brilharam. — É um prazer fazer negócios com você, capitã Fortune.


Notas Finais


vernon e mf interagindo = tudo pra mim
mf lacradora adoroh
kkkkkkkkk mf secando o tanquinho da kat eh minha razao de viver
eu amo a stella tipo DEMAIS
mf está perplecta
rafen um nene preocupado com sua criança problematica
linda a mf interrrogando a kat
arre uma lagrima caiu quando mencionaram a ana......
puts o yousef e a hayek.....
mf eh o gay disaster em pessoa amo mt
foco nessa cena da evaine.......................


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