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História Um Sonho Chamado Noxus - Capítulo 67


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Notas do Autor


terminei esse cap hoje
todo dia um cap gigante da kataprima
gente babado viu
ta doido o baguio aqui corona vairus
comida japonesa eh top

tw// insinuação de tortura; insinuação de sexo

Capítulo 67 - Chica


— Estamos previstos para chegar na alfândega amanhã de manhã, então se já quiser ir se preparando, fique à vontade — a capitã Fortune deu de ombros, encarava de maneira um tanto indiferente o temível Mastak.

— Muito bem, capitã. Se precisar discutir táticas para amanhã, é só me avisar — Vernon assentiu em seriedade e então desceu do deck.

Katarina se sentiu um tanto idiota ao ouvir sua capitã dar um suspiro cansado quando Vernon já estava longe demais para ouvir.

Com a próxima missão de Fortune sendo no oeste de Freljord, ela teria que cruzar o Mar Estreito e chegar até Demacia, que era o destino de Kat, Pandora e Vernon. Parecia uma ideia perfeita pegar carona no navio Syren, dar uma oportunidade para os dois se conhecerem e terem uma melhor relação profissional, passar por cima daquele incidente com a Conclave dos Corsários.

Mas estava errada, porque a capitã parecia ainda mais irritadiça que o normal, como se estivesse sendo monitorada. Kat não podia simplesmente negar que ele poderia estar monitorando-a, mas esse meio que era o trabalho dele. Na maioria das vezes, parecia que ele apenas estava tentando puxar conversa, mas apenas não estava tendo a abordagem que Fortune gostaria.

Gostava de fingir que isso não era problema seu, porque sabia que se o atrito entre eles aumentasse, seria Katarina que seria puxada de um lado para o outro nesse cabo de guerra. E como se isso não fosse suficiente, sentia que Fortune estava mais distante, a amizade delas havia sido colocada na espera por conta dos problemas com Vernon. Ainda conversavam normalmente, mas sentia algo diferente. Às vezes flagrava a capitã a encarando pensativa, mas esta sempre desviava o olhar quando ela olhava de volta.

De qualquer jeito, Kat estava ocupada demais trabalhando para prestar muita atenção na vida dos outros. Agora seus colegas piratas sabiam que ela era parente de Mastak, como se não fosse diferente o suficiente por seu gênero ou suas origens. Queria que eles a vissem como uma deles, queria a irmandade que eles pareciam ter um com o outro, e estava se esforçando para isso.

Comia a mesma comida, fazia as mesmas tarefas — mesmo ainda estando sob a supervisão de Rafen e a capitã — e tentava interagir o melhor possível, sem ser uma puxa saco. Até mesmo evitava conversar com Vernon e Pandora enquanto estava fazendo suas tarefas, o que esperava que não os magoasse.

Fora Pandora que insistiu que eles fossem ao casamento, porque queria conhecer Demacia e a biblioteca real, e disse que gostava muito daquelas cerimônias grandiosas. Não eram motivos muito bons, Kat suspeitava haver algo mais por trás, mas decidiu entrar no time dela apenas por poder ter uma chance de reencontrar Garen Crownguard.

E ali no navio, a garotinha passava o dia fazendo relatórios sobre o que os piratas faziam, enchendo Rafen e Fortune de perguntas. Mesmo que isso alimentasse ainda mais a paranoia da capitã, Kat sabia que a menina só fazia isso para poder se lembrar de tudo de interessante que aconteceu e contar para Elia quando voltasse. Ao menos Rafen parecia adorar a companhia dela, alegremente a ensinando como um barco funcionava.

— Seu turno já acabou, se você quiser... sei lá, descansar — a Capitã Fortune estava de costas para ela, encarando o mar, e mesmo assim soube que Katarina estava a encarando.

— Amanhã nós temos que fazer muita coisa ou vamos poder visitar a cidade? — Katarina perguntou como quem não queria nada.

— Não, nós só vamos ter uma conversa com a alfândega para nos dar passagem e reabastecer as estações. Vamos embora na manhã seguinte, para os garotos poderem se divertir e não ficarem enchendo o saco tão cedo — Fortune disse, desinteressada. Talvez o único motivo dela ter aceitado trazer Vernon e Pandora fosse a passagem livre na alfândega burocrata de Piltover. Além do bom nome que ele tinha com a elite de lá, tinha um convite da realeza demaciana. — Você já morou aqui, o que tem para visitar?

— Meus antigos vizinhos — a noxiana deu de ombros.

Desde que ficou sabendo que iriam fazer uma parada em Piltover, sua mente se levou a pensar em reencontrar Hayek e Tish e lhes apresentar à aquela Katarina mais segura de si, por ter um lugar e uma família para chamar de sua. Imaginava que seria divertido, e estava curiosa para saber como elas estavam, e tudo que havia acontecido nos últimos seis meses.

E talvez, apenas talvez, ela pudesse reencontrar Yousef Bahdur e dizer que sentia muito.

— Não faça nada que eu não faria — foi o que a capitã Fortune resmungou, a olhando de lado.

— Bem... isso não me dá muitas restrições — ela brincou, levantando uma sobrancelha.

— É o que eu espero, chica. Sabe que nós temos que dar o exemplo — infelizmente, a sentinense não tinha um senso de humor muito aguçado, mantinha aquele ar sério.

— É claro, capitã — a outra assentiu, estufando o peito. Já havia ouvido aquele discurso vezes demais, mesmo que entendesse a importância pessoal que Fortune dava para aquela perfeição de ser. — Bem, se não se importa, eu vou descansar. Tenha uma boa noite.

Fortune respondeu com um muito expressivo ‘hmpf’ e então Kat decidiu que era sua hora para descer ao convés inferior onde todos dormiam em redes. A dela era a mais perto da porta, uma escola pessoal da capitã por sua falta de fé em homens. Ao mesmo tempo que havia esta vantagem, era o lugar mais barulhento.

Não mentiria, mas também não deixaria de reclamar mentalmente sobre como aquela rede era péssima para dormir. Seus colegas ou estavam dormindo ou se reuniam resmungando coisas em sentinense, a língua que ela ainda tentava aprender, já conseguira o básico.

Àquela hora da noite, não havia muito o que se fazer. Apenas podia se preparar para o dia seguinte, esperava boas coisas. Mas o sono não vinha, ficava apenas encarando o fino telhado de madeira. E, como em todas as noites no barco, pensava no caderno que havia em sua mala. 

Depois de ler sobre a morte de sua mãe, Katarina ficou muito aflita sobre continuar. Como se fosse um sinal, até o livro seguinte parecia ter se perdido durante todas as suas viagens, então estaria pulando um pedaço de tempo indeterminado. Por mais que isso tivesse a aborrecido, que ainda não conseguia parar de pensar no que havia acontecido com sua mãe, precisava saber o que se passava na mente de Marcus Du Couteau enquanto ele a machucava.

Sabia que estava nervosa de voltar para Piltover e iria precisar se cansar um pouco para poder cair no sono, mesmo que nesse caso fosse mais emocionalmente do que qualquer coisa. E, num suspiro de derrota, arrastou-se até os compartimentos pessoais e tirou o diário velho de lá para poder então voltar para cama e encarar a capa até criar a coragem para abrir.

“Pensei que havia deixado esse hábito do diário com a minha vida antiga, porque bem, depois que Cassiopéia nasceu, não houve mais nada para contar. Prosseguia me sentindo num pesadelo sonâmbulo em que aquele demoniozinho me colocou, um que fazia o mesmo dia maçante e exaustivo se repetir eternamente. Um que tem uma peça crucial faltando em mim, e essa ausência estava me matando aos poucos. Ainda está, na verdade.

Mas bem, se eu estou sentado aqui escrevendo é porque, obviamente, algo aconteceu. Um momento de euforia que me acordou desse pesadelo. Um segredo que terei de guardar, uma maldade que eu vi chegando, mas algo que fez eu me sentir vivo novamente.

Não sinto que preciso contextualizar meus sentimentos por Katarina, sendo que o último caderno foi basicamente um estudo sobre tudo o que odeio sobre ela. É só uma criança burra, medrosa e desesperada por atenção.

Mesmo contra todos os esforços de minha mãe, meus sentimentos paternais perante ela nunca floresceram. Ainda me esforçava para evita-la a todo custo, mas ao mesmo tempo a pirralha se dispõe a ficar atrás de mim e me atazanar com sua voz aguda.

É claro, ela não sabe nem limpar a própria bunda direito, tem quatro anos. Sei que tem coisas que eu não entendia com essa idade. Minha maior esperança é que conforme ela for crescendo, se afaste cada vez mais de mim ao ponto de esquecer que eu existo, ir para bem longe. Quando ela começa sua perseguição, eu apenas a ignoro, vou para outro lugar.

Parece que Katarina está sempre me testando, realmente quer ver o quanto dela eu consigo suportar. Sempre imaginei o que aconteceria quando o dia em que eu quebrasse, o que eu seria capaz de fazer. E bem, hoje ela descobriu da pior maneira.

Eu estava voltando do trabalho, só queria voltar para o meu quarto, o espaço sagrado em que nem Anastasia, nem Katarina e nem minha mãe enchiam minha orelha. Um lugar em que eu podia fechar meus olhos e fingir que eu ainda dividia aquele quarto com Veronica, que a qualquer momento ela iria entrar de fininho e abrir porta e se aconchegar comigo.

E ela estava lá, fuçando nas minhas coisas. Não Veronica, mas sim o demoniozinho que havia tirado sua vida. Usava a capa dela, sentava-se no lado dela da cama, como se realmente quisesse deixar claro que estava tentando tomar seu espaço, assim como tentava tomar sua aparência.

Por um momento, eu a observei contemplando minha caixa de lembranças, largando peças importantes para mim simplesmente jogadas no lençol.

O que você está fazendo aqui? — eu rosnei, surpreso. Ela ter bobamente pulado num susto me fez ranger os dentes.

Quando me aproximei, percebi que o que ela tinha em suas mãozinhas melequentas era a única foto que eu tinha guardado de Veronica e Vernon, já que ele levou todos os álbuns quando voltou para buscar suas coisas. É, ele teve a cara de pau de me enviar uma carta para me convidar para ver a vida perfeita e devassa dele, como se não tivesse abandonado sua família.  

Essa que é a minha mãe? — a menina apontou para a ruiva da foto pela metade, como se já não fosse cruel o suficiente me fazer revisitar essa foto. — Quando que ela vai voltar para casa?

Me dá isso, sua peste! minha primeira reação foi arrancar a foto da mão dela e enfiar em meu bolso, o coração batendo rápido, indignado com a falsa ingenuidade dela. Como que você entrou aqui?

Me responde! Katarina decidiu me ignorar e ficar de pé na cama, se impor na urgência de querer que eu dissesse em voz alta o que ela havia feito. Quando que ela vai voltar?

De pé na cama, ela ficava um pouco mais próxima da minha altura e isso só me fazia pensar no fato de que ela iria crescer e aprender a fazer mais perguntas, a ser mais cruel, que iria se parecer ainda mais com Veronica apenas para poder me torturar sem esforço algum. E eu não sei se conseguiria aguentar isso por muito tempo.

A primeira coisa que veio na minha cabeça quando ela começou a repetir suas palavras naquela voz esganiçada foi de jogá-la ao chão com o braço, para que ao menos ela parasse de pular em cima das minhas coisas.

E foi quase que automático, como se meus instintos básicos tomassem conta de mim naquele ódio tão fervoroso. Ela nem teve chance de se queixar de ser empurrada, porque começou a gritar quando eu chutei seu corpinho frágil e patético com a força de tudo o que eu estava reprimindo naqueles últimos quatro anos. Ela ainda teve a audácia de tentar se arrastar para fugir do que ela tanto merecia, e eu pisei em suas mãos. O som de seus ossos quebrando era realmente uma sinfonia.

 Menina insolente! rosnei, cuspindo no chão. Havia algo extremamente satisfatório em vê-la me olhar de baixo com medo do que eu poderia fazer. Poderia nem ao menos entender o conceito da morte, mas sabia que eu tinha o poder de acabar com a sua vida.

Quando eu me agachei ao seu lado, ela deixou de olhar para mim, finalmente havia calado a boca. Era só assim que ela iria entender a mensagem. Eu podia matá-la. E se não fosse por todas as complicações futuras que viriam, as perguntas, os julgamentos... eu o faria. Mas também não poderia livrá-la tão fácil do inferno em que me colocou. Não poderia apenas ignorá-la e a deixar viver a vida como bem queria. Se ela criou o sofrimento naquela casa, o sentiria também. Sentiria todo dia, assim como eu. Não posso matá-la, mas posso fazer com que deseje que eu pudesse.

Eu só queria ver! — ela choramingou pateticamente com o rosto vermelho.  

— Pois aprecie a visita, então — sorri para ela quando me agachei ao seu lado, e com isso ela virou o rosto. Pareceu certo, eu a puxei pelo colarinho e—

A agonia que tomava seus nervos levou Katarina a simplesmente jogar o livro no chão. Sabia que era capaz de ler tudo aquilo, mas não conseguia. O que pensou que iria encontrar, Marcus mostrando algum tipo de remorso? Não era surpresa alguma ela estar chorando inquieta, sendo inundada por memórias e sensações horríveis. E a deixava furiosa pois viu isso chegando de muito longe.

Mordendo os lábios, ela levantou-se e pegou o diário do chão e foi para o deck de cima. Imaginou que o ar fresco iria a tirar daquele estado em que revivia todos os momentos em que Marcus a machucou, apenas imaginando o quanto ele ficou satisfeito consigo mesmo ao vê-la definhar. Sentia todas as suas cicatrizes formigando como se fossem recém-nascidas, conscientes de que sua mente se lembrava de cada uma delas.

O mar e a escuridão eram tudo o que havia em volta, e isso não fez um bom trabalho em não a fazer se sentir encurralada pelo medo. Estava decepcionada consigo mesma por se sentir daquele jeito, o que não ajudava. Talvez realmente fosse viciada naquela dor, era algo que fazia uma parte muito grande dela. Não precisava mais senti-la, mas achava meios de se colocar de volta naquilo, não conseguia ficar em paz.

Faria um ano da morte de Marcus, e ela ainda sofria, ainda tremia, ainda tinha pesadelos. E ela ainda foi estúpida de dizer que o perdoava, sendo que ele nunca mereceu isso, nem um pouco. As desculpas dele não contavam para nada se ele gostava de machucá-la.

— Está tão ansiosa assim para chegar? — Vernon devia ter achado adorável vê-la ao longe andando de um lado para o outro no meio da noite. — Daqui você não vai ver nada, só de manhã.

Tentando limpar suas lágrimas, ela acabou por chorar mais. Por vergonha, por raiva, por medo. Seu tio, que ela era muito grata de ter conhecido, se aproximava lentamente. Quando o rosto dele fora iluminado pelo lampião, a agonia e o desconforto pulsavam no sangue dela, a fazendo tremer e gaguejar seus suspiros chorosos. Odiava que seu tio parecia tanto com Marcus, que mesmo sabendo que ele nunca teria um sorriso tão caloroso, ainda via muito dele em Vernon.

Aquilo realmente era patético, disso Marcus estava certo. Mas ela simplesmente não conseguia parar de chorar e tremer. Dava leves passos para trás, mesmo que soubesse que seu tio havia parado no lugar quando reparou no estado dela, que seu sorriso sumiu e ele parecia ter tanto medo quanto ela.

— Kat, você quer conversar...? — ele murmurou cautelosamente.

Sabia que tudo o que ele queria era a abraçar, mas tinha consciência de todo o trauma dela e preferia não fazer isso. Sabia que ela tinha medo dele por motivos que não tinham nada a ver com ele, que ele tentava seu melhor para fazê-la se sentir confortável.

Então agora ela também estava com raiva por ter que enfiar aquele bom homem de volta na tempestade da dinastia Du Couteau. Sentia raiva por não conseguir se aproximar direito dele. E, se sentindo a menor das criaturas, ela reconheceu que estava desesperada, apavorada por fantasmas de seu passado. Lutando contra toda a resistência de seu corpo, ela fechou os olhos e abraçou Vernon desajeitadamente, um pouco forte demais. Simplesmente precisava disso para não desmoronar.

Talvez não fosse aquele o jeito que Vernon imaginava o primeiro abraço deles, mas não disse nada ao delicadamente retribuir o contato. E mesmo que as mãos pesadas dele segurando seu corpo de volta a fizessem tremer e soluçar mais ainda, ela apenas respirou fundo e tentou ignorar isso.

— Me desculpe — ela murmurou entre os seus soluços. — Me desculpe por te enfiar nessa bagunça, você nunca pediu por isso.

— Não peça desculpas, querida — o homem beijou o topo da sua cabeça enquanto calmamente acariciava seus cabelos. — Nós somos uma família, estamos aqui para ajudar um ao outro com essas bagunças. E eu estou mais do que feliz em estar aqui com você, tudo bem? O que aconteceu, hm?

— O diário — a ruiva respondeu um tanto envergonhada, enterrando seu rosto no peito dele. — Ele estava falando de mim, do que ele fazia comigo. Fazia ele se sentir bem, e...  e eu já sabia disso.

— Quando você me falou que tinha os diários do Marcus, eu mesmo fiquei tentado a pedir emprestado depois que você terminasse, sabia? — ele respondeu em sua voz serena. — Depois de tudo o que você me disse, quis saber como ele se tornou essa pessoa, quis saber o que ele pensava de mim e das coisas que aconteceram entre nós, de como foram os últimos meses da Veronica... a mesma coisa que você, eu acho. Mas eu desisti disso, porque toda vez que eu te vejo triste é por causa desses diários. Não importam as justificativas, isso é uma história real, é o passado. Sabemos o final e ele não pode ser mudado.

— No final, ele pediu meu perdão e eu o concedi. Mas eu não consigo, não consigo — aquilo ainda lhe assombrava todas as noites. — Mas eu não sei seguir em frente sem isso e eu já estou cansada de me sentir assim.

— Eu não perdoei a minha mãe, mas eu consegui, com muito trabalho, me perdoar — Vernon respirou fundo. — Me perdoei por não ter trabalhado mais na nossa relação, por ter a feito de vilã, por ter deixado aquilo me machucar por tanto tempo. Eu consigo entender o lado dela hoje, mas isso não muda o que ela fez e nem as décadas que se passaram. É claro, a sua situação é diferente da minha, mas o que eu estou querendo dizer, é que... você não precisa perdoar ele para ser feliz, só precisa se perdoar por ter se enganado sobre ele. Não é fácil, mas vale à pena, meu bem.

— Você não sente saudades dela? — Katarina não o soltou, mas se afastou de leve para encarar o rosto dele, que tinha uma melancolia pintada sob aquela calmaria. Ainda se sentia culpada por não ter ao mínimo se despedido de sua avó, apenas esperava que ela não a odiasse.

— Nós tivemos dias bons — ele assentiu de leve, desviando o olhar. — Ainda dói de vez em quando. Mas eu tenho outras pessoas agora, pessoas que eu fico muito feliz de ter na minha vida, que me deixam ocupado demais para sentir falta de algo que já se foi. Você, a Pandora, o Jacobo... isso é mais importante.

— Vocês também são importantes para mim. Sei que não demonstro isso muito bem, mas é a verdade — Katarina também concordou com a cabeça, misturando algumas lágrimas amorosas no meio das tristezas.

— Fico muito feliz em saber disso, querida — o homem sorriu para ela.

— Como que consegue confiar tanto em mim se nem me conhece direito? — aquilo sempre a deixou um tanto intrigada.

— Elliot morreu do mesmo jeito que o meu pai. Uma doença que o levou aos poucos. Não vi meu pai nos últimos meses e isso sempre me remoeu, mas nada foi pior do que ver o homem que eu amava definhando, sabendo do que ia acontecer e simplesmente tentando viver. Isso foi dez vezes pior. Eu juro, toda vez que a Pandora espirra meu coração já fica pesado. Ela é tudo o que eu tenho, tudo o que me faz querer continuar aqui. Não sei o que seria de mim se eu a perdesse, e esse pensamento me aterroriza todas as noites — era possível ver algumas lágrimas brilhando no rosto dele, mesmo que se mantivesse sério. — Você e eu nos esclarecemos aquela noite e desde então, te aceitei como alguém da minha família, porque não tenho tempo para ficar duvidando de você. Tenho que me lembrar de que não nos conhecemos a muito tempo, de que eu tenho que ir devagar, que tem coisas que não falamos sobre, mas já te ter por perto vale a pena por si só. Quando se perde tanto, aprende-se a apreciar o que você tem.

— Obrigado, Vernon, por tudo — e agora, quando ele apenas acanhadamente deu de ombros, ela o abraçou novamente e não foi estranho.

— Muito bem, agora que você está melhor, só resta uma coisa a se fazer — o homem sorriu, pegando o livro de sua mão.

Por um segundo ela quis perguntar o que ele ia fazer, mas estava bem claro quando ele abriu o diário e então rasgou uma página, amassou em sua mão e a jogou no mar. Katarina ficou tão chocada que apenas conseguiu abrir a boca em choque.

— Você não...

— É a sua vez — ele a entregou o caderno de volta. — Foda-se o Marcus, vamos lá.

Quando ele foi arrancar outra página, ela segurou o caderno, ainda não sabendo descrever aquela confusão de sentimentos em sua barriga. Um tanto receoso, ele deu um passo para trás. Sabia que ele ia pedir desculpas, mesmo que não devesse. E antes que ele pudesse, Kat percebeu a verdade.

— Sabe de uma coisa? Você está certo — a ruiva assentiu, segurando a lombada do livro e desajeitadamente a rasgando, para então a arremessar ao mar. — Isso já foi. Foda-se o Marcus, aquele psicopata desgraçado!

— Eu sempre estou certo, querida — Vernon sorriu.

***

Foi uma visão muito explicativa ver os dois saindo juntos das docas piltovenses. Vernon tinha um sorriso doce e triunfante para Katarina, enquanto Sarah Fortune estava emburrada. Mesmo que conseguir passagem fosse uma vitória, ela deveria estar odiando dar crédito a um homem poderoso.

— Muito bem, tudo certo, Sarah? — Rafen aguardava ao lado dela, e esfregou as palmas, ansioso.

— Já cuidou dos mantimentos? — foi o que ela resmungou de volta. O homem assentiu como resposta e então ela olhou para a tripulação que aguardava ansiosamente atrás dele. — Muito bem, rapazes, podem ir. Não exagerem, tem que trabalhar amanhã. Estejam de volta ao amanhecer, ou partiremos sem vocês. Dispensados.

E numa velocidade surpreendente, toda a tripulação de marujos se dissipou entre as ruas do porto, parecendo muito alegres em direção aos bares. Ainda haviam aqueles mal-humorados que ficaram no barco por escolha ou punição, mas a maioria ansiosamente aguardou a negociação acabar, esperando seu momento para sair em disparada.

— Papai e eu vamos às galerias de arte, está convidada — Pandora anunciou, indo para o lado de seu pai e segurando sua mão.

— Eu vou visitar alguns amigos, mas quem sabe eu encontro vocês — Katarina assentiu, sorrindo gentilmente para a garota.

— Juízo, hm? — Vernon lhe lançou um sorriso travesso e então acenou para ir embora, e então os dois partiram. Logo em seguida, Rafen deu um tapinha no ombro de Fortune e saiu também, provavelmente iria comer algo e ficar de olho nos rapazes.

E então Katarina ficou a sós com aquela Fortune que estava mal-humorada como sempre. Depois daquela noite em que percebeu seus verdadeiros sentimentos pela capitã, a noxiana ficava nervosa em situações como aquelas, talvez quieta demais. Sabia que era uma encrenca pronta, mas não conseguia evitar aquela sensação esquisita em seu estômago toda vez que a mulher a encarava.

— Eh, você tem planos para hoje? — ela perguntou bobamente.

— Na verdade, não. Eu planejava voltar pro barco e ver os documentos — a capitã deu de ombros, olhando pro lado. — E você, vai visitar seus amigos, né?

— É. Se você quiser vir, eu posso.... — Katarina murmurou.

— Quero ver o tipo de gente com quem você anda. Aposto que se vestem tão mal quanto você, se isso for possível... — a sentinense assentiu.

A noxiana sorriu para ela, aceitando aquele ‘sim’. Ela passou a achar extremamente adorável o jeito que Fortune se esforçava para não parecer que não gostava dela. A mulher sempre implicava com ela e resmungava, mas Kat sempre acabava conseguindo arrancar um sorriso ou outro dela.

Mas sim, ela totalmente estava tentando manter sua paixonite secreta sob controle.

— Muito bem, vamos lá. Elas são bem legais — ela assentiu.

Mesmo que esses seis meses tivessem se passado como se fossem dois anos, ela ainda se lembrava muito bem daquele lugar. E assim, ela conduziu Fortune pelas ruas de pedra branca de Piltover, que realmente pareciam uma versão perfeita de Águas de Sentina. As construções de madeira e metal dourado eram muito similares, se não fossem pelos entalhos de sereias, polvos e outros monstros marinhos tão típica dos piratas.

Fortune não falava muito, apenas encarava cheia de julgamento os piltovenses e suas roupas pomposas cheias de babados, os vestidos estupidamente volumosos e as peças de robô que eles usavam no corpo. Quanto mais perto elas foram chegando do bairro dos imigrantes, mais normais as pessoas pareciam, por mais excêntrica que fosse a mistura de shurimanes, ionianos e demacianos.

Pensou que não conseguiria entrar no prédio que antes morava, já que não era mais residente e não sabia se Hayek e Tish ainda estavam por lá. Decidiu que iria na floricultura de Hayek, parecia um lugar plausível para ela estar.

Dentre a vitrine de várias flores coloridas, havia uma garota morena de cabelos cacheados em cima de uma escada, regando algumas plantas que estavam penduradas no teto. Como sempre, usava seus vestidos largos de estampas shurimanes coloridas. Quando ouviu o sino de sua porta tocando, ela voltou-se para as duas outras que surgiram na porta e sorriu.

— Kat, você por aqui! — Hayek exclamou, cuidadosamente descendo da escada.

Ela ia se aproximar para cumprimenta-la, mas então percebeu a outra mulher ao lado, a olhou de baixo à cima um tanto impressionada. Realmente, não era sempre que se via uma beleza tão extraordinária quanto a de Sarah Fortune. Mas não deixou de ser um tanto cômico, porque a capitã apenas franziu o cenho daquele seu jeito mal-humorado, como se não tivesse entendido o sorriso da outra.

— Essa é a minha chefe, capitã Fortune. Eu estou em Águas de Sentina agora, nós estamos de passagem para uma viagem — a noxiana se explicou. — Sei lá, só resolvi fazer uma visitinha.

— Bem, você é sempre bem-vinda por aqui! — a morena a abraçou e então avançou para apertar a mão da capitã, que ainda mantinha sua confusão silenciosa. — É um prazer te conhecer, capitã.

Hmpf — foi a resposta da sentinense.

— Capitã, essa é a Hayek, minha antiga vizinha — Katarina explicou, tentando ser sutil ao pedir que a mulher fosse um pouquinho menos carrancuda.

— Eu gostei do seu vestido — Fortune declarou, assentindo ao apertar a mão da morena. A noxiana não conseguiu evitar uma leve risada.

— Obrigada! — a morena sorriu, inclinando a cabeça. — Então, quanto tempo vocês vão ficar aqui?

— Já vamos amanhã de manhã — a noxiana respondeu, assentindo.

— Que pena que não vão ficar mais. Mas podemos aproveitar essa noite, que tal? — Hayek levantou as sobrancelhas, animada. — Vou chamar a Tish e nós podemos ir todas juntas no Cerejas, que tal?

— O Cerejas? Não acho que seja uma boa ideia... talvez um lugar mais quieto — sabia que sua ex-namorada poderia dar algumas escapadinhas que deixariam Fortune confusa, e Katarina queria começar a mostrar para ela que pessoas gays eram normais, se Vernon não fosse a prova viva, mas leva-la num bar gay era ir longe demais, a cabeça da pobre capitã iria explodir.

— Qual é, só pelos velhos tempos, Kat... — a morena piscou para ela. Katarina então acenou com a cabeça para a capitã, que permanecia observando Hayek atentamente.

— Ah, me desculpe, vocês estão juntas? — a shurimane levantou as sobrancelhas.

— Nós entramos na loja juntas, sim — nervosamente, a noxiana assentiu. — É que você sabe, os drinks do Cereja são péssimos. Você me conhece, eu gosto de vodka de verdade! E a Fortune não negaria um bom rum, ou uísque, certo?

—Até uma cerveja vai — a capitã deu de ombros, a promessa de uma bebida a fazendo se permitir dar um leve sorriso. — É aqui em Piltover que eles têm aqueles drinks de bichinha, não? Os meninos disseram que tem gosto de xarope de criança!

— Kat disse a mesma coisa quando eu a levei no cerejas, sabia? — Hayek perdeu um tanto de seu sorriso, já que não gostava daquela palavra. — Bem, ela aprendeu muitas coisas aquela noite...

— Que tal a gente se encontrar no Sangrento depois? — com um sorriso amarelo, Katarina mudou de assunto. Ainda era um território difícil de explicar para Fortune, principalmente de todas as perguntas que a mulher havia feito sobre sua vida amorosa na semana passada.

— Fechado — Hayek concordou com a cabeça. — Vejo vocês às seis, meninas.

— Até mais tarde, então — a noxiana sorriu aliviada, e então se apressou para fora, sendo seguida pela capitã, que olhava em volta.

Por alguns quarteirões ela conseguiu apenas conduzir o passeio delas sem mais explicações, pensando em onde seria a próxima parada, já que teriam a tarde livre por Hayek estar trabalhando. Talvez apenas como uma barganha, funcionaria levar Fortune para almoçar e usar de argumento para força-la a ir ao balé.

— Você vai pagar, é? — foi o que a capitã disse num sorriso travesso.

— É claro, por que não? — a noxiana resmungou de volta.

— Aiai, você adora puxar meu saco, não negue — ela revirou os olhos de maneira brincalhona, impossibilitada de conseguir ser mais arrogante do que já era.

— Não me faça mudar de ideia — Katarina suspirou.

— Vamos num lugar chique, né? É claro que a lady noxiana deve ter seus contatos... — a mulher a provocou, levantando as sobrancelhas.

Para o infortúnio da capitã, as duas acabaram num restaurante não muito longe dali, um que ela costumava ir. Para os padrões de Águas de Sentina, deveria ser chiquérrimo. Fortune ficou resmungando aqui e ali sobre os pareceres do lugar de tijolos e madeira escuro com detalhes de bronze e aquele cheiro artificial estranhamente bom das lâmpadas hextec. 

Ela pediu uma salada de frango, que sempre foi seu favorito quando estava lá. Julgando muito a escolha tão piltovense da outra, Fortune optou por uma opção mais chique, bisteca de porco com o molho de vinho branco. As duas pediram um vinho tinto demaciano suave para acompanhar, apenas para apreciar o bom gosto.

Katarina estava sentindo-se num sonho, comendo com aquela mulher, as duas fingindo-se mais pomposas do que eram. Poderia perder-se no oceano azul dos olhos dela sem jamais se preocupar em ser achada. Desde que percebeu seus sentimentos, fez o máximo para reprimi-los, mas quanto mais tentava, mais forte aquilo ficava. Simplesmente não conseguia negar, ficar junto dela a fazia se sentir bem como nunca.

Ver Sarah Fortune com os ombros relaxados, um leve sorriso enquanto resmungava mais uma de suas provocações, era uma imagem que sentia que não eram todos que viam. Significava alguma coisa, não? A capitã ser capaz de baixar sua guarda por ela, por tão pouco que fosse. Aquela mulher havia passado por muita coisa, merecia qualquer sorriso que Kat era capaz de providenciá-la. Só queria a fazer se sentir tão bem quanto se sentia.

Mas então se lembrava de que havia muito que Fortune não sabia sobre ela. Sabia que estava fadada ao sofrimento de um amor não correspondido, mas estava entrando em termos com isso. Se importava mais com a felicidade de Fortune, mesmo que não fosse com ela. E talvez, quando inevitavelmente a capitã descobrisse seu segredo, não iria entender isso, talvez fosse pensar que ela fosse pervertida e inconfiável.

Houve um momento em que a sentinense sutilmente a perguntou sobre isso, perguntou se ela já beijou uma garota por curiosidade. E Katarina disse que não, porque não beijou Hayek ou Stella por curiosidade, mas por certeza, porque queria fazer isso. Não teve coragem de dizer o resto, apenas mudou de assunto.

— Você nunca me contou o seu histórico — Katarina a encarou, as palavras saindo mais rápido do que seus pensamentos.

— Hm? — por um momento, a capitã pareceu preocupada que iriam tocar em assuntos delicados.

— Sobre relacionamentos — a noxiana explicou-se. — Te contei os meus.

— Bem, eu não te contei por que não tem nada para contar — Fortune desviou o olhar, tomando mais um gole de seu vinho. — Sei lá, eu nunca tive um relacionamento, por assim dizer. Só alguns caras que eu tenho à minha disposição se eu estiver naqueles dias. Não é como se eu evitasse isso, só... só nunca aconteceu. Eu acho que só tenho outras prioridades em mente.

 — Caramba. Nem se apaixonou, tipo, de longe? — ela teve de se confessar intrigada. Ao mesmo tempo que fazia sentido Fortune se afundar no trabalho e nem reparar nessa parte da vida, imaginava que ao menos alguns dos milhares de homens que eram apaixonados por ela iriam parecer interessantes.

— Ah, sim. Ainda existem alguns homens decentes, mas infelizmente eu não tenho tempo para eles, porque estou ocupada lutando contra a maioria nojenta — a capitã revirou os olhos. — Mas sei lá, se não aconteceu nada não deveria ser amor de verdade. A Serpente-Mãe sabe o caminho em que nos coloca a andar, então deve ter uma razão para não ter dado em nada. O meu cara ainda está por aí, em algum lugar.

— Desculpe, mas eu não consigo te imaginar em casa com crianças e um marido — a noxiana deu uma risadinha.

— É, não é isso que eu quero. Todos nós vamos morrer um dia, e eu vou morrer pela minha causa, vou morrer lutando. Eu só não vou morrer sozinha — a mulher deu de ombros.

— Planejo que para mim seja algo parecido, também — Katarina concordou com a cabeça. Não sabia se queria ter filhos, pois tinha um histórico ruim. Sua avó foi impossibilitada de ter filhos depois de sua arriscada gravidez, e sua mãe havia morrido dando a luz. Realmente lhe dava um mau agouro sobre continuar essa mórbida tradição. Talvez adotasse uma criança, quem sabe.

— Ao mesmo tempo em que não quero desistir da minha vida para uma família porque seria completamente o oposto do que eu acredito, soa muito cruel criar vida na realidade em que eu vivo, por mais que eu queira isso pro futuro. Não sei quando meu tempo irá acabar, mas espero que eu viva para ver como solucionar esse problema — a capitã suspirou, também devendo ter pensamentos melancólicos sobre crianças.

— Eu não sei... ainda acredito que existem coisas boas a se ver no mundo — Katarina deu de ombros, não querendo continuar aquele assunto angustiante. — E bem, falando nisso... tem um lugar que eu quero ir hoje, e já que eu estou pagando o seu almoço, você é obrigada a ir junto.

— Vamos ver o que você vai inventar agora — a capitã cruzou os braços.

— Nós estamos indo ver um concerto de balé da companhia em que eu trabalhava! — talvez se a noxiana soasse o mais animada possível, conseguiria contagiar sua chefe.

— Eu sempre esqueço que você dança balé. É tão... não a sua cara — Fortune inclinou a cabeça.

Sem saber se aquilo era um elogio ou não, Katarina apenas assentiu e então se levantou para ir pagar a conta delas. E então as duas fizeram aquele caminho que a noxiana fez tantas vezes quando ainda persistia na fantasia de ser uma bailarina.

Tudo continuava a mesma coisa, mas foi algo completamente novo entrar pela porta da frente, nas largas escadas e pilares daquele prédio de pedra branca. Era um dos mais bonitos de Piltover, em sua opinião. O brilho de seus detalhes de ouro fazia sempre parecer que refletia o fim de tarde.

Felizmente, a peça dessa estação já estava em cartaz: Sonho de uma Noite de Verão, um clássico de Shakespeare. Comprou dois ingressos e arrastou aquela Sarah Fortune com olhares de julgamento para toda a nobreza piltovense para dentro do teatro.

Katarina sempre achou estúpidos os enredos dos concertos de balé, apenas prestava atenção na dança, mais do que qualquer coisa. Sabia que a história era complexa por si só, por ter três tramas diferentes, então nem se preocupou em tentar acompanhar isso.

Lhe deu um senso de nostalgia ver suas antigas colegas dançando, conseguia reconhecer a maioria delas, sabia o quanto se esforçavam para fazer um espetáculo tão belo e florido, conseguia até se imaginar entre elas, mas simplesmente não era mais a sua vida.

Não lhe surpreendeu que Fortune acabou dormindo no meio da peça, mas não reclamou quando ela encostou a cabeça em seu ombro para ficar mais confortável.

Além de fazê-la se sentir feliz, aquilo a lembrava o motivo de ter deixado Piltover: achar um lugar em que se encaixava, pessoas que a entendiam. E era tudo isso e muito mais que Fortune a providenciava em meio a seus resmungos carrancudos. Mas ainda não podia dizer que não mais fingia ser alguém que não era, porque havia coisas que sua capitã deveria saber, coisas que talvez ela não fosse entender.

— Não sei o que os riquinhos veem demais nisso. E daí que um bando de adolescentes quer trepar na floresta? Tem que fazer um teatro disso? — foi o tão culto comentário que Fortune resmungou quando elas estavam saindo da sala.

— É uma comédia — Katarina assentiu num leve riso.

— E eu dormi! — a capitã argumentou.

— Não é para entender — ela deu de ombros. — Eu só vou visitar o pessoal nos bastidores, mas daí eu juro que a gente vai beber.

Fortune consentiu com um revirar de olhos, e então também foi conduzida pelo corredor por onde as bailarinas e os músicos saiam. Ela não podia fingir que era popular e ficar surpresa que a maioria das pessoas não a reconheceu ou só sorriu educadamente. Betsy, sua única amiga, havia corrido para abraçar seu marido, então decidiu não ir interromper.

E atrás das várias bailarinas magricelas em roupas floridas, os músicos com suas vestes vermelhas saíram, e Katarina não conseguiu mais esconder o real motivo de estar esperando: o rapaz negro que cuidadosamente carregava seu violino nas costas em sua malinha. Yousef Bahdur conversava com um de seus colegas e sorria. Continuava do mesmo jeito, alto e magro com o cabelo raspado.

Como sempre, ele não saia junto de todos porque ficava para pegar um café da mesa, achava que era melhor do que fazia em sua casa. E aquela foi sua chance de provar que era madura e havia mudado, sua chance de ir até ele e agir como uma pessoa normal.

— Eh, você pode me passar o açúcar, por favor? — ela aproximou-se da mesinha, tentando manter a calma, mas não apenas agir como se tivesse esquecido-se do que fez.

Observou a reação dele atentamente: Yousef sorriu de leve e fez menção de pegar o açúcar, mas logo olhou para ela e franziu o cenho. Ele então levantou as sobrancelhas de leve e seu sorriso sumiu. Aquilo já explicava muito sobre como ele se sentia em relação a ela.

— Katarina — ele assentiu, voltando o olhar para seu café.

— Yousef, oi — ainda um tanto constrangida e com as mãos suando de nervosismo, ela tentava sorrir sem soar completamente falso.

— Você está de volta, então? — ele quis saber, mesmo que parecesse desinteressado.

— Só estou de passagem, na verdade. Sei lá, já que eu estava aqui, achei que seria legal te ver, saber como você está... e tal — a versão dela que era confiante simplesmente havia empacado, e ela nem sabia direito o que estava dizendo.

— Eu estou bem — o rapaz concordou com a cabeça.

E então um silêncio tomou um ar, e ela via o quanto estava perdendo o interesse dele com seu nervosismo, era quase como se fingisse que ela não estava ali, só não havia ido embora por educação. E não havia um bom jeito de entrar no assunto, então ela engoliu seu orgulho e disse de uma vez:

— Yousef, eu sinto muito. De verdade — a ruiva engoliu em seco. — Aquela noite, eu... eu me arrependo do jeito que eu agi, mas esse lugar realmente não estava me fazendo bem. Mas eu quero que você saiba que nada disso é culpa sua, eu estava passando por...

— Já é tarde demais para isso, Katarina — ele a interrompeu, suspirando num ar sério que ela nunca tinha visto em seu rosto. — Se você se sente culpada, aprenda a lidar com isso sozinha, como você me disse que ia fazer. Não é mais problema meu.

Com isso, ele terminou seu café e foi embora, deixando-a ali, chocada por ter sido tratada daquele jeito por alguém que se lembrava de ter um sorriso radiante. Mas não estava brava, não podia estar: ele tinha todo o direito de não querer mais ouvir as desculpas dela. E algo dentro dela ainda queria provar para ele que tudo fora por um motivo, que agora ela estava melhor e era digna de perdão.

— Ah, isso foi difícil de assistir — Fortune timidamente voltou ao lado dela. — Pela sua cara, acho que aceitaria aquele rum que você me prometeu.

— Não, as coisas não podem acabar assim. — fazendo força para segurar suas lágrimas, Katarina acenou negativamente com a cabeça. — Eu vou mostrar para ele que...

Ay chica¸ ele não está tão afim de você, assim — suspirando, a capitã delicadamente lhe deu um tapinha no ombro, tentando amenizar a verdade. — Eu estou te proibindo de ir atrás dele, isso, além de uma ordem, é um favor para você mesma.

— Mas...

— Não, mas nada! — ela levantou as sobrancelhas. — Eu já pisei no coração de vários homens? Sim. Foi de propósito? Sim, também. No seu caso não, mas... enfim. Todos eles mereciam isso? Não. Mas eu tive que seguir a minha vida, aprender as minhas lições. Sugiro o mesmo para você.

Suspirando, Katarina apenas concordou com a cabeça e deixou aquela Fortune com a mão em seu ombro a conduzir para fora. Não iria conseguir dizer mais nada sem se sentir idiota e começar a chorar. Ela foi guiando o caminho até o Urso Sangrento, o bar preferido de Tish.

Foi um silêncio constrangedor no caminho, em que ela não sabia muito bem o que dizer para Fortune, estava com os olhos marejados, tentando seguir o conselho dela de apenas levar a lição a frente, que isso era um fim bom o suficiente para essa história. A capitã permaneceu com o braço em volta de seus ombros, um gesto simples que a ajudou a se sentir um pouco melhor.

Quando elas chegaram naquele lugar que preservava um ar menos pomposo, sendo todo feito de madeira e metal enferrujado, com lampiões zaunitas pendurados no telhado, não foi difícil de achar, no fundo do bar, Hayek e Tish, que levantaram os braços e sorriram ao vê-las.

Tish continuava a mesma menina magricela com orelhas de ferro, roupas largas, um pigmento preto forte nos olhos e pernas finas. Seu cabelo continuava curto e loiro, mas agora as pontas eram pretas, e havia algumas argolas de metal no seu nariz e sobrancelha. Ela se levantou e abraçou Katarina, já com uma cerveja na mão.

— É bom te ver de novo! — ela sorriu. — Cacete, eu estava com saudade de beber com você!

— Espero que já tenha inventado novas misturas — Katarina brincou, colocando os cabelos para trás na hora de se sentar. Fortune sentou-se ao lado dela, novamente observando e julgando. — Ah, Tish, essa daqui é a minha amiga, Sarah Fortune.

— Espera, você não é tipo aquela única capitã mulher de Águas de Sentina? — a loira era uma para saber o que acontecia em todos os lados de Runeterra, gostava de ler jornais.

— Em carne e osso — a capitã sorriu de leve, provavelmente adorando ter o seu ego inflado.

— Eu não acredito! Isso é tão legal! Você é muito foda, sério — Tish mantinha a boca aberta, maravilhada. A resposta da sentinense foi dar de ombros num sorriso falsamente humilde, como se nem houvesse que dizer algo para confirmar o quão incrível ela era. — Eu não imaginei que você ia ser tão bonita, sei lá, eu tava imaginando uma mulher super musculosa, tipo, grandona.

— Não faça ela ficar mais metida do que já é, por favor — Katarina murmurou de maneira brincalhona, recebendo um olhar indignado de sua chefe.

— Eu não sou... — ela foi argumentar, mas simplesmente não pôde dizer essa mentira quando a noxiana a encarou de volta. — Tá, só um pouquinho. Mas eu mereço, tudo bem? Eu posso. O Vernon é a pessoa mais metida que eu conheço e ninguém fala nada.

— Eu sempre falo, não se preocupe — a garota deu um tapinha no ombro dela.

— Kat, fiquei sabendo que você vinha pra cá e decidi te trazer um presente — com um enorme sorriso no rosto, Tish tirou de sua bolsa uma garrafa de vodka noxiana e a colocou em cima da mesa, orgulhosa. — Como é que você sempre dizia, vixie zradola?

Vashe zdorovye — a noxiana corrigiu com uma risada. E então deu-se uma saga de tentar ensinar a pronúncia certa para a zaunita, que simplesmente não conseguia. — Eu aprecio o seu esforço, Tish. Vamos brindar a isso, que tal?

Dando de ombros num sorriso, ela pediu alguns copos e foi servindo doses para todo mundo, até que Hayek tapou o copo com a mão com uma careta.

— Não, não obrigada. Não senti falta do cheiro desse troço — a morena disse, pegando a taça que já tinha pedido daquelas coisas coloridas de frutas. — Eu vou continuar com as minhas bebidas de bichinha, estou bem assim.

— Faz sentido — a loira assentiu. — Kat, você quer uma bebida meio bicha? Tipo, só uma cerejinha no fundo? Ia ficar bonitinho.

— Eu acho que passo. Vodka é para ser tomada pura. Vashe zdorovye! — sentindo os olhos de Fortune queimando nela, Katarina bebeu, para que aquela queimação viesse por dentro e pudesse ser disfarçada.

Vaz dorovai? — era o melhor que Tish conseguia, dando uma risada quando a noxiana apenas acenou negativamente com a cabeça. Ela tomou tudo e fez uma careta, e pareceu esperar que Fortune também fosse ter a mesma reação, mas apenas sorriu para a loira.

— Por que você esta surpresa? Ela é uma pirata! — Hayek deu uma risadinha.

— Ah, céus, vocês duas já fizeram uma competição para saber quem bebe mais? — Tish quis saber.

— Nós já tentamos, mas como tínhamos que voltar para casa sozinhas numa cidade extremamente perigosa, decidimos declarar um empate — Fortune assentiu, servindo-se de mais uma dose.

— Sou eu — Katarina murmurou com um sorrisinho travesso. Sua chefe a lançou um olhar indignado e ela riu. — Qual é, eu estava praticamente te carregando para casa. Isso já diz muito.

— Isso não diz nada, eu comecei a beber primeiro, você bebeu menos! — ela lhe apontou o dedo.

— Vocês são adoráveis — Tish sorriu admirada para elas. — Bem, eu vou tomar mais uma pura também, já que eu fiz a descoberta de que sou... uh, Hayek, como que você chama as pessoas que não são frutinha?

— Eu os chamo de chatos — a shurimane resmungou, saboreando sua bebida laranja com um guarda-chuva na ponta.

— Qual é, eu não sou chata! — a loira argumentou.

— É, você é adotada — a morena deu uma risadinha. — Sei lá, chame de pescador, nunca vi um pescador gay.

— É verdade, também nunca vi — a zaunita concordou com a cabeça. — Então, Kat, depois do meu ex ter sido um babaca, eu tentei ser frutinha, mas simplesmente não foi. É com muita vergonha que eu admito que sou uma pescadora. Estou fadada a me decepcionar com homens. Todos eles são imaturos, fedidos e sexistas, mas... é. Essa é a minha vida.

Deve existir algum homem razoável. Não nos lugares que você frequenta, mas... — Hayek deu de ombros, parecendo achar graça da tristeza da amiga.

— Não, todos eles são porcos. Todo dia aquele ‘não sou tão ruim quanto você pensa’, eu não aguento mais isso — Tish resmungou, enchendo mais um copo e o tomando.

— Já ouviu o ‘você é madura para a sua idade’? — Katarina respondeu, também se servindo.

— ‘Você não é como as outras, sabe? Minha ex era doida’ — Fortune revirou os olhos. Ela já deveria ter ouvido todo tipo de absurdo. — Ou quando eles te explicam algo que você já sabe para se sentirem mais inteligentes que você... honestamente, a lista é gigante.

— Que horror. Todo dia eu agradeço aos deuses por não ter que lidar com isso — a shurimane fez uma careta, bebendo de sua tacinha. — Tem suas óbvias desvantagens, mas... pelo menos mulheres tem bom senso.

— Bem, eu concordo com você, mas eu sou pescadora, também — Fortune falou lentamente, acenando com a cabeça, como se estivesse ficando um tanto desconfortável com a conversa.  

— Sério? — Tish inclinou a cabeça, intrigada.  

— Por que você está surpresa? Eu nunca deixei a entender o contrário — a capitã franziu o cenho, brincando com o copo em sua mão.

— Cara, eu jurava que você e a Kat...

— Tish, por que você não vai buscar umas bolachinhas para nós? — talvez a noxiana a interrompeu alto demais, mas suas mãos estavam ficando suadas. Estavam perto demais, e Fortune não era tonta, iria acabar ligando os pontos.

Katarina percebeu que tinha gritado quando a mesa ficou em silêncio e a encarou, e ela não conseguiu deixar de se sentir envergonhada, olhando para baixo e suspirando.

— Desculpe, é que eu estou com fome — ela a lançou um sorriso constrangido.

— Ah, sem problemas — mesmo que ainda estivesse estranhando um pouco, a loira assentiu e se levantou, timidamente se retirando.

— Bem, eu já vou aproveitar para ir ao banheiro, Kat, você pode me acompanhar? — Hayek pediu com sua voz doce, por mais que estivesse com o rosto sério.

Um tanto intimidada, a noxiana apenas concordou com a cabeça e a seguiu até a pequena cabine, ainda sentindo o olhar de Fortune queimar às suas costas. Quando as duas estavam juntas, ela não se escondia por assim dizer, mesmo que preferisse ser mais privada.

— Que porra foi essa? — a shurimane a olhou feio.

— Não é o que parece, eu só estava... — Katarina nem sabia o que dizer.

— Sabe o que parece? Que você está se escondendo para manter aquela mulher perto de você, porque não teve coragem de contar a verdade sobre quem você é — a morena infelizmente acertou em cheio.

— Em Águas de Sentina as pessoas não gostam muito de gente como a gente. E sabe, eu me comprometi à causa dela, não posso passar uma má impressão aos olhos da sociedade — a ruiva murmurou, olhando para o chão. — Achei que trazer ela aqui, para conhecer você, iria fazer ela perceber que eu podia ser diferente, mas que eu não sou uma pervertida mentirosa, porque você não é assim, mas parece que eu só estou cavando a minha cova.

— Eu não sei qual é a natureza dos seus sentimentos por ela, mas independente disso, você precisa contar a verdade — Hayek assentiu. — Você nunca teve vergonha de mim, Kat, não tenha vergonha de você mesma. Se ela não te aceitar, não é uma pessoa com quem você pode contar.

— A Fortune passou por muita coisa, sabe. Ela não consegue confiar muito nos outros e... eu acho que ela confia em mim, até certo nível. Não quero estragar isso com essa coisa que nem é tão importante assim. Eu sei que ela vale a pena, eu acredito nela. Posso manter isso privado, se for o necessário para poder fazer parte do que ela está construindo — Katarina deu de ombros.

— Isso não define quem você é, isso é verdade — a morena tinha um olhar firme. — Mas ainda é uma parte de você, uma parte importante.  Não vale a pena se diminuir só para agradar os preconceitos dela, tente ensiná-la a coisa certa. Sabe, de um jeito ou de outro, nenhum segredo se mantém enterrado, e acho que ela apreciaria muito mais ouvir isso direto da sua boca.

— Tudo bem, eu vou conversar com ela quando estivermos sozinhas, prometo — derrotada, a ruiva podia apenas concordar. Sabia que Stella não era confiável, que muitas pessoas estavam de olho nas duas, então não tinha muito tempo.

— Ótimo, ótimo. Por enquanto eu e a Tish vamos falar menos, mas se for para ser assim, é para você contar mesmo, viu? — Hayek lhe deu um tapinha no braço e a noxiana assentiu.

E então, como se nada tivesse acontecido, as duas voltaram para perto da mesa com um sorriso, e felizmente Tish ainda não havia voltado e Fortune as observava cheia de atenção, provavelmente cheia de perguntas, estas que Kat teve de prometer que responderia depois.

— Nós vamos dançar, hm? — a morena declarou quando Tish estava perto o suficiente para ouvir.

Tish apenas sorriu e fez um sinal vitorioso ao deixar as bolachinhas na mesa, então pegando a garrafa de vodka e dando um gole direto do gargalo. Depois de todo o stress que estava prestes a passar, beber mais parecia a melhor e pior decisão que podia tomar, e foi isso que fez, tirando a garrafa da mão da amiga.

— Você não vem? — a noxiana perguntou nervosamente para sua chefe, que continuou sentada.

— Eu nunca fiz balé, sabe. Não sou uma pessoa que dança — ela inclinou a cabeça, dando aquele olhar sarcástico e charmoso para Katarina. — Vocês podem ir. Se eu estiver bêbada o suficiente, talvez até me junte a vocês.

— Fique à vontade, capitã — Tish assentiu, muito feliz ao ir para o espaço livre que tinham para dançar aquelas coisas barulhentas zaunitas que fazia os ouvidos de qualquer nobre piltovense sangrar. Todos aqueles que dançavam estavam alcoolizados, no mínimo, então não podiam julgar os movimentos desengonçados uns dos outros. Era doloroso ver aquilo como alguém que já trabalhou no balé profissional, mas não deixava de ser divertido.

Com a cabeça girando de leve, Katarina tirou seu casaco e o deixou na mesa em que Fortune se ajeitava contra a parede. Ela voltou para o lado de Hayek e Tish e simplesmente fechou os olhos, deixou se levar por todo o calor daquelas pessoas aglomeradas e seus movimentos imprevisíveis, controlados pela adrenalina em suas correntes sanguíneas, perdendo-se no momento.

Quando abriu seus olhos, percebeu que a capitã Sarah Fortune estava a fitando intensamente, sem nenhuma expressão específica no rosto. E mesmo que ainda estivesse bebendo, não quebrava aquele olhar. Katarina não conseguiu evitar uma risada, imaginando que ela deveria estar muito embriagada, presa em devaneios que a impediam de se levantar sem ficar tonta.

Talvez ela encarasse porque Kat dançava um pouco perto demais de Hayek, talvez apenas pelo hábito. Mas como iria tirar toda aquela historia à limpo mais tarde, não fazia diferença. Qualquer coisa, culparia a bebida, que realmente estava a influenciando a ser tão descuidada. Descuidada a ponto de gesticular com a mão para que a capitã se juntasse a elas. A reação dela foi apenas segurar seu copo com mais força, os ombros tensos novamente.

E havia quase que se tornado um desafio, ver quem desviava o olhar primeiro. Mais uma das disputas bêbadas idiotas de Fortune, e mais uma que ela planejava ganhar.

E então, algo bloqueou seu campo de visão e ela ficou atordoada por uns segundos antes de perceber que era Hayek, indo sentar-se de volta na mesa para pegar suas coisas. Tish também havia voltado, parecendo completamente zonza.

— Me desculpem por acabar a festinha tão cedo, mas eu tenho que trabalhar logo cedo — a morena disse, colocando a bolsa em volta de um ombro, enquanto o outro abraçava aquela zaunita com um sorriso bobo no rosto.

— Ah, Kat, eu senti tanto a sua falta... por favor, volte mais vezes. Vaz dorovai, hm? — a loira desengonçadamente a abraçou, o que foi adorável.

— Sim, foi bom te ver! Sempre que precisar, já sabe — Hayek se juntou ao abraço, dando uma risadinha antes de desgrudar Tish dela. — Também foi um prazer te conhecer, Fortune.

— Você é foda, sabia? — a zaunita apontou o dedo para a capitã, que sorriu constrangida para as duas que então se dirigiram para fora.

— Prometo vir visitar mais vezes, vocês são incríveis! Obrigada por hoje — a noxiana sorriu.

Com um senso nostálgico, Kat observou as duas indo embora, Tish resmungando enquanto Hayek dava risadinhas das merdas que ela dizia. Mas seu sorriso melancólico desapareceu quando encarou Sarah Fortune de novo, constrangida sobre o momento que as duas acabaram de ter.

— Eh, eu conheço uns lugares bons para dormir aqui perto — foi a coisa mais funcional que conseguia pensar para dizer.

— São camas separadas? — a sentinense se levantou num resmungo.

— Sim — Katarina encarou o chão, entendendo o motivo de ela precisar perguntar aquilo.

No caminho elas não chegaram a trocar muitas palavras, talvez fosse o cansaço. Como estavam reservando completamente em cima da hora, só havia um quarto disponível, mas eram as camas separadas, como sua capitã preferia. Mas ao menos era um dos mais altos, com uma bela vista da cidade na sacada.

Elas chegaram e cada uma se jogou em uma cama, e então o silêncio estava de volta.

— Boa noite, capitã — Katarina disse, encarando o teto.

Hmpf — foi o que Fortune resmungou, se revirando na cama para então se levantar e ir até a sacada para respirar fundo. Seus ombros ainda estavam tensos. E depois de muito tempo questionando se deveria fazer isso, a noxiana também se levantou, mas ficou na porta da sacada.

— Está tudo bem? Quer que eu te traga uma água? — a garota engoliu em seco.

— Você mentiu para mim, chica — foi o que ela disse, respirando fundo. — Quando a Stella me falou, achei que era só um boato de mau gosto. Eu não queria acreditar. Te perguntei e você negou. Daí, eu venho aqui e... eu me sinto uma idiota por tentar agir normalmente o dia inteiro enquanto você falava com aquela menina. Não me faça ter de te perguntar mais uma vez.

Mesmo que ela já estivesse esperando isso, o fator de que Fortune já sabia e ficou apenas observando seu comportamento realmente a chocou. Nem teve a oportunidade de ser a primeira a dizer, porque Stella havia traído sua confiança.

— Eu não sou tão diferente delas. Hayek e eu, nós já... — e não conseguiu seguir o conselho de sua amiga de não sentir vergonha de si mesma, porque nem conseguiu terminar a frase. — Mas... mas eu não menti para você. Tinha me perguntado se eu já beijei uma menina por curiosidade. E não foi por curiosidade, foi porque eu queria. Porque eu nunca vi nada de errado com isso.

— E por que você não me contou, cacete? — Fortune virou-se de frente para ela, furiosa.

— Sei o que os sentinenses, incluindo você, pensam de gente como eu — lhe tomou coragem para olhar nos olhos de safira de sua capitã. — E eu não sou nenhuma dessas coisas, eu sou normal, como qualquer outra garota. Eu sabia que você não ia entender, mas... em algum momento, quando eu já tivesse tido uma oportunidade de te mostrar meninas como eu, que elas não são aberrações, eu ia te contar, ia te contar tudo.

— E você acha que eu ia confiar em você depois disso? — ela ralhou. — Sabe o que as pessoas vão dizer, Katarina? Vão dizer que eu sou como você, vão dizer que toda a minha luta só vem de desinteresse por homens, que nada disso é sério, que eles têm mais motivos para rir de mim. Mas nada disso se passou pela sua cabeça quando você ficou entrando de fininho no bordel da Stella, não? Só que eu sou uma pessoa horrível por ficar com raiva de você ser uma farsa! Ela ia vender essas informações para os outros capitães, eu tive que pagar uma fortuna pelo silêncio dela, sem garantia nenhuma!

— Eu não vou mais me encontrar com ela — Kat assentiu nervosamente.

— Ótimo! — a sentinense levantou as sobrancelhas, furiosa. — E você acha que é só isso, chica? Confiei em você como amiga, te contei coisas que eu não conto para ninguém... você sabe por que eu sou do jeito que sou — e então ela engoliu em seco, hesitando. — E então nós dormimos na mesma cama, e eu não sei se... quer dizer, como você acha que eu ia me sentir quando descobrisse?

— Fortune, eu nunca faria isso com você. Nunca — a noxiana disse no tom mais sério que podia, mesmo que estivesse chocada com essa suposição.

— Como eu sei se você secretamente quer me comer? Como que eu posso confiar em te deixar perto de mim se eu não sei se... — os olhos dela desviavam de um lado para o outro, nervosamente.

— Isso não importa — Katarina a interrompeu firmemente. — Não importa a sua aparência, o jeito que eu me sinto ou a nossa relação, eu te vejo como uma pessoa, em primeiro lugar. Uma pessoa que eu admiro e respeito, alguém em quem eu acredito. Nem se eu fosse perdidamente apaixonada por você eu iria fazer qualquer avanço indesejado. Tudo o que eu quero é que você seja feliz, que consiga o que quer, mesmo que eu não esteja ao seu lado em sua vitória. Eu entendo se você não se sente mais segura perto de mim, eu cometi um erro ao não ser honesta, você merecia isso. Se quiser que eu me demita, é só dizer, eu não vou lutar contra isso.

E então um silêncio se instalou, em que Fortune parecia tão furiosa que não sabia o que dizer. As mãos tremiam de leve, e as bochechas estavam rosadas. Ela foi se aproximando devagar, e Katarina estava paralisada, hipnotizada pelo jeito que a mulher a fuzilava com o olhar.

— Nunca mais, nem pelo motivo mais bobo... nunca mais minta para mim, chica — ela falou do jeito mais claro e ameaçador que podia. Nem precisava completar a frase para que ficassem claras quais seriam as consequências disso. — Nunca, você entendeu?

Ela deu um passo mais para perto e a noxiana conseguia ver as sardas que ainda sobraram na pele de porcelana dela. Concordou com a cabeça, incapaz de falar.

— Você me entendeu, Katarina? — sua chefe repetiu, erguendo a cabeça. Mesmo sendo alguns centímetros mais baixa que ela, a mulher conseguia ser bastante intimidadora.

— Sim, capitã — a noxiana engoliu em seco, olhando nos olhos dela.

Kat prendeu sua respiração, pois o mundo havia parado com o silêncio que havia se instalado quando os olhares delas se encontraram. Estavam no mesmo joguinho do bar, mas desta vez era muito mais sério.

E novamente, foi um empate.

Foi quase como se sua mente tivesse deixado de funcionar, e naquele segundo ela não soube quem que deu o primeiro passo, apenas soube que seu corpo inteiro se arrepiou com o mero toque dos lábios macios de Sarah Fortune sob os dela. Tudo que lhe vinha à cabeça era um suspiro de alívio ao sentir as mãos trêmulas dela delicadamente pousarem em sua nuca, queimando-a ao mero toque da ponta de seus dedos ásperos. Não era capaz de captar completamente em palavras a intensidade daquela explosão sensorial, podia dizer que era apenas como se tudo estivesse em seu devido lugar.

Quando instintivamente a puxou para mais perto pela cintura e Fortune quebrou o silêncio arfando de leve, foi como se alguém lhe tacasse um balde de água fria, e ela finalmente saiu daquele transe, em receio de ter feito aquilo que disse que nunca faria: não resistir às suas vontades. Talvez aquele fosse mais um teste.

— Fortune, eu sinto muito, eu... — ela tinha os olhos arregalados, um tanto que chocada.

— Cale essa boca antes que eu me arrependa — a mulher ainda mantinha aquele olhar intenso, mas sua voz não saía muito mais alta que um sussurro. — Se você começou, tem que ir até o fim.

Ela realmente não soube se aquilo era mais um de seus sonhos fantasiosos quando a capitã simplesmente segurou o rosto da outra em suas mãos e a beijou mais uma vez, inundando os sentidos de Katarina com seu perfume floral e apimentado. Um sonho não seria capaz de fazer seu coração bater tão rápido, então teve de simplesmente aceitar que aquilo estava acontecendo de verdade, por mais absurdo que soasse.

Quanto mais se acostumava com a realidade de tudo aquilo, mais aquele beijo deixava de ser algo suave e incerto para revelar o quanto desejou aquilo, deixando-se explorar as curvas da mulher mais bonita que já viu. Tinha uma inquietação no ventre apenas de imaginar as possibilidades.

Sem nem ao menos prestar atenção nos arredores, as duas cambalearam até que tropeçassem e caíssem deitadas em uma das camas. Fortune arquejou de leve com o susto que levou, os músculos adoravelmente enrijecendo por um segundo antes que esses se dessem conta de que estavam nos braços de Katarina, que havia então arranjado uma ótima desculpa para descer suas mãos ao traseiro dela, segurá-la com força e ouvir um leve suspiro sair de seus lábios carnudos e vermelhos, agora borrados sem vergonha alguma.

A noxiana delicadamente a puxou para o lado para subir em seu colo, e não houve resistência alguma. Imaginou que seria ela a ficar por cima, porque para Fortune já deveria estar sendo suficiente de um tumulto interno apenas de estar se permitindo agir em seus desejos reprimidos.

A própria Katarina tinha de resistir aos seus próprios impulsos de simplesmente ir de cabeça, porque não queria assustá-la. Tinha de considerar que talvez Fortune nem sabia direito o que iria acontecer, que tinha certo receio, dada a sua história. Mesmo que fosse ela por cima, queria deixar claro que era a capitã que ditava o que aconteceria ou não, que a qualquer queixa ela iria parar e fingir que nada daquilo havia acontecido, não importando o quanto desejava devorá-la avidamente.

Mas talvez estivesse enganada sobre prever o que Fortune deveria estar sentindo, porque fora acordada de seus devaneios com a capitã mordiscando o polegar com qual Katarina acariciava seu rosto, e o sorriso surpreso dela fora retribuído por um outro cheio de luxúria.

Mordendo o lábio inferior, Kat delicadamente desceu seus dedos, estes que seguiam a linha do decote dela até o nó de sua camisa rendada, o desfazendo devagar, apenas para acompanhar a reação de Fortune e se assegurar que ela não estava desconfortável. A mulher apenas parecia exasperada, completamente hipnotizada pelo toque da outra.

A primeira coisa que captou seus olhos quando abriu a camisa de Fortune era uma cicatriz de queimadura logo abaixo de seu peito esquerdo, quase que coberta pela tatuagem de uma palmeira, algo que Jacobo disse ser um símbolo de recomeço para os sentinenses. Era a prova de que quando tinha apenas catorze anos, Fortune teve de salvar o que restou de sua vida e jurar vingança naqueles que lhe trouxeram injustiça. Foi o que a tornou quem ela era hoje.

Talvez tivesse gostado tanto de ver aquilo apenas por se sentir melhor por todas as suas próprias cicatrizes. Ela mesma decidiu tirar sua própria camisa antes de se inclinar para beijar Fortune novamente, arrepiada pelo jeito que a capitã arranhou as costas de Katarina quando ela mordiscou seu pescoço ao mesmo tempo em que generosamente encheu suas mãos com os seios dela.

Para Katarina, nunca houve uma vista tão bela quanto ver Sarah Fortune revirar os olhos com a boca manchada de vermelho entreaberta, gemendo de leve quando a noxiana foi deixando uma trilha do mesmo batom do pescoço dela até seus tão volumosos seios. Planejava deixar o rastro por cada centímetro da perfeição de sua macia pele de porcelana, queria deixar sua marca, mesmo que fosse apenas por uma noite.  


Notas Finais


mf de saco cheio do vernon kkkkkkkkkkkkk
ARRE MARCUS
gente vernon um anjo amo ele
arre eu amo tanto o elliot vcs nao fazem ideia rip
ISSO JOGA O DIARIO LONGE QUEIMA ESSA MERDA
HAYEK RAINHA LESBICA GRANOLA
dormir no bale eh coisa de sarah viu (perdao vitoria te amo)
arre essa do yousef doeu em mim..............
AY CHICA HE'S NOT THAT INTO YOU iconico
arre a tish eh tao fofa amo ela
vixie zradola!!!!!
as menina falando mal de homem = tudo pra mim
hayek rainha da verdade amo ela
na minha cabeça tava tocando gimme more quando elas estavam dançando
kat dançando foi o fim da mf hetero
mf putassa o proprio gay disaster
FINALMENTE ELAS SE PEGARAM
FINALMENTE MSM
SURTEI GAY AQUI Ó
a kat eh gado d++++
gente do ceu me empolguei nos pega fodase
arre gente amém finalmente


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