História Um Sonho de Padeiro - Capítulo 49


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Categorias Histórias Originais
Tags Amizade, Amor, Bissexual, Comedia, Comedia Romantica, Gay, Humor, Infidelidade, Romance, Yaoi
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Palavras 4.710
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa leitura <3

Capítulo 49 - Cê que sabe, amor


Fanfic / Fanfiction Um Sonho de Padeiro - Capítulo 49 - Cê que sabe, amor

"Eu tô me expondo de uma maneira que não vale mais a pena" — Gretchen

 

Havia passado da uma hora da manhã quando desisti de tentar voltar a dormir e fui para a frente da janela, apoiando os antebraços no peitoril de madeira. Embora abri-la só iria aumentar o número de pernilongos ali dentro e eu estava usando apenas um short curto de algodão  — o que só piorava os ataques —, aqueles mosquitos não eram o meu principal problema.

Apertei os punhos, usando todo o meu autocontrole para não arrastá-lo do quarto ao lado pelos cabelos, imaginando que ele poderia estar fazendo safadezas com a indiazinha! Quem deixou a minha vida chegar a esse ponto?

— Fecha essa janela, velho, os bichos tão entrando — resmungou o índio, o qual se cobriu com o lençol até à cabeça, e foi nesse exato momento que a porta do quarto foi aberta.

Ele me fitou de baixo para cima, sorrindo torto após dizer: gostoso.

— Por que demorou tanto? Ah... dane-se. — Corri, ergui-o pelas coxas e terminei de fechar a porta com suas costas enquanto provava daquela boca com gosto de álcool. Contudo, ao ouvir o "Eu ainda estou aqui" distante, Gustavo conseguiu se livrar dos meus lábios, movimento que os levou ao seu pescoço.

— Tem as moral de dormir no sofá, bolota? — pediu, suspirando e quase me arrancando os cabelos da nuca. — Valeu... Agora nos tira da frente da porta pra ele passar, Erick.

Levei alguns centésimos para perceber que o André localizava-se ali do lado com cara de sonâmbulo querendo sair, por isso, sem soltar o Gustavo, recuei, enfim vendo-o deixar o quarto.

— Você não tá bêbado, não, né? — Demorei, mas perguntei.

Com aquela face azeda que eu já estava cansado de ver, ele voltou pro chão, passou a chave na porta e tornou a manter o corpo bem próximo a mim durante o correr dos dedos pelo meu peito e abdômen nus.

— Só bebi duas doses de Vodka pra ficar alegre e criar coragem. Chega de frescura e me fo...

Nossos lábios tornaram a invadir a boca um do outro, entretanto, não de modo afobado ou lerdo. Era aquele beijo decidido, firme, o qual tinha como prioridade sentir a língua percorrer o interior salivando e quente, em vez de apenas beijar. Nesse meio tempo, desci as mãos para a cintura dele por baixo da camisa vermelha, e exatamente no mesmo minuto, Gustavo soltou a minha nuca para me segurar o pulso esquerdo e forçá-lo para baixo. Os dedos me libertaram no instante que sua mão correu por cima da minha, guiando-a descaradamente até a...

— Aperta... com força — pediu.

Meu anjo, agora que recebi carta-branca, vou fazer bem mais do que apertar essa raba. Portanto, numa fração de segundos, minha mão não só lhe apertou a bunda, como fez isso por dentro da cueca. Gustavo respirou forte agarrado ao beijo antes de me morder o lábio, e isso, só contribuiu para meus dedos seguirem àquele caminho o qual tanto o coiso clamava.

E... puta que pariu!

— Que delicinha, todo depiladinho — soprei, lhe gerando um riso ao começar a babar no meu pescoço.

— O teu macho aqui, só trabalha com a parada completa. Falando nisso, você é fresco pra caralho, o lance com o chuveirinho foi molezinha, demorei mais tempo na fila da...

Só foi eu ouvir aquilo para jogá-lo sobre a cama de solteiro que rangeu com o ato. Confesso que me senti envergonhado, pois, enquanto pra mim durante anos evitei fazer a lavagem dos infernos, ele só precisou de apenas alguns dias.

Isso que é vontade!

Sobre aquele corpo esguio, lhe dei um beijo não tão demorado, logo despindo não só ele, mas também a mim. Em questão de instantes, todos os panos que cobriam nossas peles já encontravam-se no chão do quarto o qual continha uma boa faixa de luz, resultado da janela aberta — inclusive, ficou até romântico o fato do céu estrelado ter ficado visível bem acima das nossas cabeças.

E assim, segurando o canto esquerdo do seu rosto protegido por pelos ralos que acabaram por camuflar seu cavanhaque, deixei a minha boca se entreter com o outro lado, vira e mexe desviando para a orelha; queixo; mamilos... Gustavo liberou o ar, ao sentir meus dentes. Porém, não fiquei muito tempo ali, já que o desespero em prender seus pulsos sobre o travesseiro e afundar o rosto no seu pescoço com cheiro alucinante, foi mais forte do que eu.

— De sete a um, o quanto sou viado por gostar quando você me segura desse jeito?

— Viado não sei, mas tentação do capeta é mais de oito mil.

Os únicos sons que se ouviu em seguida, foram os esporádicos tapinhas que eu recebia na retaguarda juntamente do splash de saliva que fazíamos com as línguas, no entanto, me afastei ao lembrar que...

— Diabo do meu ódio, eu não trouxe lubrificante, e agora? — avisei, já imaginando o tanto de cuspe que eu teria que usar.

Gustavo por sua vez, riu, inclinou-se para o canto e pegou sua bermuda do chão. Ali do bolso traseiro, tirou um pacote de sachês.

— Relaxa, moleque, eu vim preparado — concluiu atirando o pacote sobre mim e deitando-se novamente, com um braço atrás da cabeça.

Já dizia aquele famoso ditado peruano: Não existem barreiras para quem quer dar.

— Você é muito a minha delicinha, sabia? — Rasguei o pacote no dente, removendo um sachê de dentro, o qual deixei reservado.

Meus dedos que encontraram os pelos no centro daquele peitoral pálido, gerando ali um sobe e desce doido, arrastaram-se lentamente à barriga e contornaram os fios em torno do seu umbigo em meio às nossas respirações bem auditivas. Passando pela última seção de pelos, portei aquilo que eu só tinha cinquenta por cento de direito, o qual foi... direto para a minha boca! Gustavo largou outro suspiro, e esse, super perceptível. Diante disso, levantei os olhos ao mesmo tempo que,  massageava o interior de sua coxa e virilha, me deparando com um peito acelerado, corpo apoiado nos cotovelos e dentes apertando o lábio,  seguidos do sussurro: boca gostosinha.

Mas eu já conhecia muito bem aquela parte dele — e como conhecia —, precisava dar atenção àquela outra totalmente nova para mim, e foi em razão disso que soltei o troço inundado de saliva, descendo mais o corpo e lhe ergui pela área traseira das coxas com ambas as mãos, para... Os cachos que me davam tanto trabalho de manter nos eixos, faziam cosplay de black power graças à mão do Gustavo que não se decidia se alisava o meu couro cabeludo ou puxava meus fios castanhos. Não me contive ao ouvir aquele gemido e tornei a procurar seu rosto a fim de saber o efeito que as minhas lambidas lhe causavam.

— Não me... olha assim, não... filho da puta — gemeu de novo. Larguei um riso involuntário, e em dois tempos já havia trocado a língua pelos dedos lubrificados. — Erick, vo-voc... Caralho do céu!

Eu achava aquilo tudo muito engraçado e excitante. Mesmo já tendo ficado com vários garotos virgens, aquelas reações que duraram alguns minutos, eram inéditas pra mim. Talvez fosse pelo motivo de que eu soube o que estava fazendo, ao contrário dos tempos de adolescente, onde a prioridade era só chegar e mandar bala.

— Posso? — Balancei a camisinha, e ao receber sua confirmação com a cabeça, encapei o coiso já vibrando. Sabe a pressa? — Se doer muito, avisa.

A mão que se utilizou para virar apenas o quadril dele para o lado, erguendo uma coxa e mantendo todo o seu torso de frente a mim — na minha posição favorita, meio de ladinho —, também lhe acariciou o rosto avermelhado enquanto eu dobrava os joelhos na cama e me posicionava sobre ele. Beijei-o, sentindo suas palmas suadas correrem pelas laterais do meu corpo de um jeito quase sutil. Não sei se a vontade dele ajudou ou sou muito bom na arte de relaxar os caras — quase certeza que foi a opção dois —, mas, o Gustavo não reclamou muito. Quando vi, plau! Já estava dentro.

De testas unidas, subi um pouco mais a sua coxa direita flexionada e me acomodei melhor, à medida que aquela outra perna mega peluda, permanecia entre as minhas.

— Tá doendo? — lhe perguntei de novo, sussurrando.

Ok, a pergunta foi retórica, porque esperar por zero dor, ainda mais na primeira vez, seria muito ficção adolescente. No entanto, só de ficar daquela maneira, ainda que parado, estava dando um fogo danado em mim, porém para ele podia não estar tão legal.

— Erick, para de me perguntar isso e... Só vai devagar, paixão. Dá pra aguentar.

Então, tá.

Sobre os seus fios grudados na frente da orelha, passearam meus dedos, igualmente como naquelas mechas presas em sua testa através do suor. Meus cabelos não encontravam-se nada diferentes; pude sentir um arrepio ao captar uma gota escorrer pela nuca, dado que o quarto parecia uma frigideira. Como sempre, os gemidos em forma de "Gustavo" não saíram da minha boca, mas os dele mudaram. Durante os sopros fortes que o traste soltava diante do meu rosto, junto ao aperto nas minhas costelas, eu assisti seus olhos quase fecharem em razão dos meus movimentos controlados, o ouvindo murmurar:

— Isso, moleque... desse jeito, devagarzinho... — Acabou levando o tronco para o lado, apertando os lábios e mesmo assim deixando sair o gemido reprimido, já se tocando com mais pressa.

Isso deixou seu pescoço totalmente à mercê da minha língua, e ela, não perdeu tempo em degustar da pele quente e salgada, tendo o som da cama velha rangendo e alguns grilos, como trilha sonora.

Também não conseguindo manter os olhos abertos, colei a boca em seu ouvido.

— Delicinha... amor da minha vida...

Gustavo sussurrou algo que não pude ouvir, pois, eu já tinha saído daquele plano espiritual.

***

Minutos haviam se passado e continuamos nus e parados em cima daquele colchão úmido de suor, o qual exalava a combinação dos nossos cheiros. Quer dizer, não exatamente parados, já que estávamos de lado na cama e de frente um do outro recebendo carícias. Gustavo, que como eu, não fazia menção de fechar os olhos, tinha a bochecha esquerda alisada pelos meus dedos, e eu, a direita do mesmo modo.

Narizes a ponto de se tocarem; corpos quase caindo daquela cama de solteiro.

— Te amo, moleque. Pra caralho. — Enfim deu fim ao silêncio.

Sorri, né? Sou bobo.

— Eu também...

— ...me amo — completou, por mim.

Como ele sabia?

— Olha, cê para de ler os meus pensamentos, macumbeiro!

Não sei se foi pela minha expressão espantada, mas rindo, Gustavo cobriu meu rosto com a mão, empurrando-o para cima.

— Então você ia dizer isso, mesmo? Que vacilão!

Deixei sair um riso em conjunto com ele, aproveitando para me ajeitar e puxá-lo pro meu peito.

— Eu te amo, também, Gustavo, e o meu amor é inteiro, não pela metade como o seu.

De imediato, ele soltou o ar quente com força. Talvez não fosse o momento ideal para jogar aquilo na cara dele, ou exatamente a brecha certa.

— Para, Erick. O meu é inteiro também, não existe amor pela metade.

— Ah, tá.

A seguir, deixei de alisar suas costas para iniciar os cafunés, juntamente de mais uma sequência de sossego que surgiu.

— Sabe — Mas ele não queria parar de falar. Só porque eu queria dormir? —, a gente podia parar de usar camisinha, o que você acha?

Respirei fundo, porém, foi por causa do sono.

— Gustavo, se você pretende engravidar pra me arrancar pensão, fique sabendo que o meu advogado tem dois maridos.

Quê?

Sim, a gargalhada delicinha que ele liberou fez meu sono sumir no ar feito vapor. O beijo forte e mordido também contribuiu.

— Me amarro nesse teu jeitinho doido. — Isso foi um elogio? Após deslizar o dedo pelo meu nariz, Gustavo me apertou a ponta dele. — Às vezes fico te imaginando como pai. A criança que ia cuidar de você, tipo Black Mirror.

Desde quando ele assiste séries?

— Era pra rir? Mas para começo de conversa, assim que eu for pai, o pirralho ou pirralha terão que me tratar feito um rei, só por aquela cantada do padeiro funcionar com eles.

***

Ao deixar a casa, dei de cara com um cara de macacão preto montando uma estrutura de cor mogno no jardim, enquanto outro distribuía uns punhados de flores brancas ao redor do tapete um tom mais verde do que a grama. Ao lado notei cadeiras empilhadas, uma sobre a outra, mais flores e caixas de madeira, contudo, eu não estava a fim de assistir o projeto de decoração da cerimônia que aconteceria no começo da noite daquele domingo tomando forma, por isso, deixei o corpo descansar na rede que tanto me atraiu.

Eu já acordei cansado.

No entanto, ao me sentir ser tocado entre as pernas, tirei com pressa o antebraço dos olhos para afastar a mão da Bea, decidido a xingar aquela...

Pisquei, incrédulo com a figura sorridente a qual surgiu ao meu lado.

— Se não quiser levar outro soco, corre! — berrei.

O embuste na maior cara de pau, riu.

— Não venha dar uma de macho porque já saquei que você é boiola. — Dessa vez, Fábio foi certeiro e passou os dedos no meu mamilo, gesto que só me fez ser dominado pelo Satã ao apertar a rede para descer, já desejando lhe tirar alguns dentes, porém, antes de eu me colocar de pé, Fábio se encontrava no chão com o supercílio sangrando.

— Se não vazar daqui em trinta segundos, te mato e faço parecer acidente! — Pela forma que o Gustavo segurava um rastelo bem enferrujado, falou sério.

Nesse intervalo percebi que os caras que ajeitavam a decoração da cerimônia não tiravam a atenção de nós. Enxeridos! Então, Fábio ergueu-se, e sem afastar a cara debochada, dividiu o olhar comigo e com o Gustavo, até aproximar-se, me encarando.

— Um com tantos... — Mudou o foco pro Gustavo, batendo palmas. — Que pica doce, hein, parceiro. Parabéns!

— 29... 28... 27... — iniciei a contagem, e isso foi o suficiente pro Fábio dar meia volta e entrar na casa. Depois, tirei aquele ninho de tétano das mãos do Gustavo, pondo no canto. — Acha que o mocorongo vai contar? — Lancei a pergunta mentalizando um "sim" bem grande.

— Acho que você deveria pôr uma camisa! — soou quase como um rosnado, mas logo sua cara amarga se dissipou. — A Manu gosta de você pra caralho, sabia? — Trocou o assunto, envolvendo o meu ombro esquerdo com a mão em meio a um olhar estranho. E eu com isso? — Sei que você também se daria bem com ela. Aliás, acredito que nós três... — Entretanto, parou ao descer os olhos, puxando o meu braço. — Não passou repelente? — questionou, mudando completamente o tom calmo e correndo os dedos sobre as bolinhas avermelhadas na minha pele.

Apesar dele não ter concluído, só naquele momento entendi de fato o que ele pretendia propor.

— Nem lembrei de trazer. Não estou acostumado a viver no mato.

Após o seu famoso "tsc", Gustavo deixou a varanda para passar suas esferas verdes pelos quatro  cantos daquela chácara à procura de alguém, e assim que ele se concentrou num ponto, assobiou.

— Manu, vem cá! — Completou com um "vem" de mão.

Assisti outra vez a corridinha, a qual tornou a balançar seus cabelos horrorosos, como o vestido.

— Já consertou a luminária? — Puxou todo o cabelo para frente, de um lado só, acredito que por causa do calor da manhã.

Que inveja daquele cabelo grosso, diferente do meu extra fino que quebra até com o vento.

— Ainda não. Vai lá na despensa e pega um repelente pro Erick. Pode ser?

Eu bem queria dizer que não precisava, porém ninguém merece picada de mosquitos.

— Podexá... Vamos. — Me chamou, andando na frente. No mesmo instante, encarei o Gustavo enquanto lhe enviava aquele olhar "faço o quê, praga dos infernos?", e ele como se não tivesse percebendo a gravidade da coisa, só moveu os lábios respondendo "vai".

Sem outra alternativa, fui atrás dela, adentrando a casa de madeira e parando dentro do mesmo cômodo apertado onde a salvei daquele embuste. Soltei a respiração pensando em cachorrinhos fofos na tentativa de esconder o quanto a presença dela me fazia mal. Eu não queria me sentir daquele jeito, mas não tinha como evitar. Não sou feito de ferro e nem tenho vocação para ser santo.

— Ele te adora — comentou, fuçando a prateleira cheia de sabonetes e shampoos. — Estou achando até que você vai roubar o lugar do André de padrinho — riu, puxando um frasco laranja do fundo. — Ah... percebi o Gus voltando pro quarto de manhã, ele comentou onde estava? Juro que não vou te dedurar.

Não reparei no final, pois... Padrinho do quê? Será que ela está grávida? Porra, por que ficou frio de repente? Cadê o ar desse cubículo?!

— Padrinho? — Minha testa franzida deve ter me gerado altas rugas.

— É. — Tornou a rir, entregando-me o repelente. Aceitei sem prestar atenção. Se fosse uma granada eu teria morrido. — Do nosso casamento. Ele já tinha escolhido o André, mas pelo visto será você. — Gesticulou, como se tivesse dito algo óbvio antes de pousar as mãos na cintura.

Ah! Dos males o menor.

Fitando aquele pernilongo enorme no frasco o qual eu segurava, me calei por alguns segundos. Grandes merdas esse casamento. Inclusive, eu já havia decidido que ele não iria acontecer, entretanto, eu poderia fazer aquilo de um modo mais light, sei lá... Poupá-la de alguma forma.

Afinal, eu sou ou não sou um servo iluminado por Deus?

Segurei-a pelo cotovelo ao vê-la se dirigir à porta, obrigando os olhos puxados pararem em cima dos meus.

— Tem certeza que é uma boa se casar com ele?

A expressão serena que fazia parte daquele rosto contornado por franja e longos cabelos negros, transformou-se em desorientada. A Pocahontas imediatamente puxou o braço, e só então percebi que eu ainda a segurava.

— Por que está perguntando isso?!

Não conseguindo manter o contato visual, suspirei e preferi observar as prateleiras de madeira crua do outro lado, onde continham alimentos.

— Talvez porque você merece alguém melhor...? — Tentei ser o mais delicado possível, embora a vontade era de gritar: porque você é corna!

Ela soltou uma risada, o que me fez parar de encarar um pacote de arroz para encontrar um semblante nada amistoso. O fato dela ter erguido o dedo não foi o responsável do meu recuo. É sério!

— Você falou igual aquele nojento do Fábio, porém, ao contrário de vocês, eu dou mais valor ao interior das pessoas! Deve pensar que eu mereça alguém bonitão feito você, né? Mas pra mim, o Gustavo é o homem mais lindo desse mundo! O dia que você amar alguém, garoto, saberá que beleza física não é importante!

E simplesmente, deixou o lugar, abanando aquele cabelo e me obrigando a prender a respiração para não sentir o seu perfume. Nem vi o início do ato, só sei que após atirar o frasco na parede, já secava o canto dos olhos. A necessidade de chorar igual uma criança estava alta, mas a de quebrar tudo, também.

Reconheço que eu não tinha o direito, contudo, eu senti muita raiva dela e gostei disso. Como pode ser tão cega? Tornei a enxugar os olhos, limpei a garganta, e por fim, deixei a despensa minutos mais tarde.

Se a indiazinha queria do jeito difícil, é isso o que ela teria!

Enquanto eu deixava a casa, indo aos fundos, passei pela cozinha e de sobre o balcão todo rústico da vida, reconheci o celular do traste. Sem pensar duas vezes apanhei-o — ele me seria útil, já que eu tinha descoberto a senha. Do lado de fora, vi o Gustavo cutucando uma luminária idêntica às várias espalhadas no jardim com uma chave de fenda; adiante, de bruços a Pocahontas tomava sol sobre uma esteira de palha vestindo apenas um biquíni minúsculo amarelo: e foi exatamente pra lá que eu fui.

Não nego, minha intenção era fazer algo pior, entretanto, perdi a coragem ao conhecer os véios; não ia estragar as bodas deles.

Portanto, fiz o que eu tinha que fazer: abri o aplicativo de mensagens e larguei o meu celular sobre uma espreguiçadeira ao lado dela, obviamente sem esquecer de retirar o padrão de desbloqueio. Acelerando os passos, parei às costas do Gustavo, sussurrando algo, para então, continuar caminhando depois de ver seu risinho safado. Finalmente, num canto escondido atrás de uns matos doidos, iniciei a ligação a qual deixei dar os toques até ela morder a isca, finalizando com a mensagem que enviei para mim mesmo através do celular do Gustavo, tal mensagem que apaguei antes de deixar o aparelho onde encontrei, logo correndo pro "palco".

Apoiado na parede do quarto, me deixei fitar a cama de casal durante um estalar de dedos, como se eu me preparasse para socar o colchão e travesseiros a qualquer momento. Mas para o bem dos meus nervos, Gustavo nem esperou dar o tempo que estipulei, e eu, muito menos alguma palavra ser dita; só puxei seu rosto, atacando sua boca de uma maneira faminta. Ah, como eu adoro beijar essa praga. Tendo total consciência do que eu fazia, levei-o à cama, empurrando-o sobre ela e me jogando por cima do seu corpo, resultando em pernas rodeadas na minha cintura.

Assim que fui tomar conta de sua orelha, Gustavo aproveitou para me deixar sentir sua língua transitar pelo meu ombro.

— Erick... — soprou, me beijando no pescoço. — trancou a porta?

Lógico que não!

— Ah... delícia dos infernos! Adoro quando você me morde. — Voltei a beijá-lo, desconversando.

O som da maçaneta sendo girada ecoou, porém, eu estava mais interessado naqueles dentes mordiscando meus lábios; nas mãos fincadas na minha bunda; no roçar dos nossos volumes; nos...

— Gustavo!

Como o que eu queria já havia sido feito, imediatamente abandonei a cama após aquele berro. Andando de costas, assisti aos dois olhares ligados: um abalado, e o outro, perturbado. Gustavo que é pálido por natureza, parece que teve todo o sangue drenado do corpo, mas a Pocahontas carregava uma pele avermelhada no rosto. Só me falta essa aí abrir o berreiro. Cruzei os braços, torcendo para alguém me trazer a pipoca.

Brincadeira, eu odeio pipoca.

— Manu, me-me desculpa, e-eu... — gaguejou.

— Não acredito que... Nós íamos nos casar! Gustavo, por que fez isso comigo?! — Durante suas palavras chorosas, ela ergueu o meu celular, e no mesmo segundo, corri, tirando-o de sua mão.

Eu tinha que apagar a mensagem.

— O que o seu celular estava fazendo com ela, Erick?

Era esse o momento de ligar o meu lado "empina o nariz e improvisa"? Era!

— Também não sei. — Procurei os olhos indígenas. — O que fazia com o meu celular, querida?!

Manuela balançou a cabeça em negação, fitando o nada e passando as mãos no rosto, secando-o. Eu ia pro inferno por não me comover com aquelas lágrimas?

— Eu gostava de você, Erick. Sempre disse isso ao Gustavo, mas... — Respirou fundo, tomando ar. — agora vejo que você é podre... vingativo, maldoso!

— Já você é uma santa, e mesmo assim ele te trai comigo, engraçado — joguei na cara. Tá bom que eu ia deixar a culpa ficar só em mim.

De imediato, Gustavo correu até ela, porém, recebeu um tapa no rosto, o qual não o impediu de tornar a tocá-la nos ombros. Aquela cena só serviu para me gerar mais nojo.

— Vamos conversar, nós três, com calma? — pediu, e dessa vez, foi empurrado.

A seguir, a Pocahontas começou a caminhar em minha direção, o que me fez dar um passo para trás e fitar a porta.

— Só precisava ser mais direto e não ter armado um flagra tão clichê, infantil e burro! — Parou, a uma distância segura. — Como o Gustavo te ligou e mandou a mensagem, se eu o vi consertando a luminária no mesmo tempo? — Nesse instante, ele perguntou "quê mensagem?", causando um tremor nas minhas pernas. — Além do mais, se esse estranho te chamou aqui, como você sabia se não leu o recado?!

Tornei a observar a porta, talvez seria melhor sair correndo.

— Por isso que você me chamou aqui?! — Gustavo já berrava. — Erick, você armou essa palhaçada?!

Merda!

— Vai dar ouvidos a quem toma sol às onze da manhã? É doida, não tá vendo? Interna! — rebati.

Colocar em dúvida a saúde mental de alguém durante uma briga, é sempre válido.

— Como você... — E a indiazinha voltou a abrir a boca, exalando aquela voz fina. Oh, mulher que fala! — pôde se misturar com alguém tão baixo, Gustavo? Ouça as coisas que ele diz! — suas palavras soaram oscilantes, gaguejadas.

Tão baixo? Cadê as autoridades?

Escondi as mãos nos bolsos, mudando o foco para o rosto ainda sem cor do Gustavo, embora com a marca do tapa, contudo, ele permaneceu mudo e imóvel.

— Por que não conta pra ela que você a deixou sozinha a noite toda pra gemer no ouvido do baixo aqui?!

O que eu presenciei em seguida, foi o choro da Pocahontas se tornar audível e o corpo do Gustavo se materializar diante de mim.

— Cala essa boca! — Sua expressão só revelava raiva. — Tudo bem você querer contar pra ela, juro que entendo, mas humilhá-la? Armar um flagrante? Quantos anos você tem?!

— Humilhá-la? Ela tem é que me agradecer! Senão ia continuar corna, chifruda, galhuda, eu já falei corna?!

Imediatamente a Pocahontas deixou o quarto batendo a porta, e, ao mesmo tempo me vi sendo empurrado pelo peito, de modo que acabei chocando as costas na parede e derrubando um quadro.

— Falei pra você esperar, por que fez isso, caralho?! Eu ia dar um jeito nisso hoje!

— Quê jeito?! Casal de três? Acha mesmo que eu ou ela aceitaríamos uma porra dessa?! Quantos anos você tem?! — berrei. Porém, ao vê-lo fazendo menção de ir à porta, puxei-o pelo braço, de maneira nada gentil. — Se for atrás dela, faça o favor de nunca mais me procurar!

Gustavo se livrou da minha mão e me puxou pela nuca, também nem um pouco amigável.

— Arrume as suas coisas e suma daqui! — Me soltou, se dirigindo apressado à saída novamente.

Não era isso que eu tinha em mente. Na fanfic que montei na minha cabeça, a doida de cocar terminaria tudo, o Gustavo ia perceber que era de mim que ele gostava mais, e enfim, seríamos felizes para sempre. Por que as pessoas nunca seguem o roteiro que criamos mentalmente? Confesso que eu estava com aquele coiso da tristeza no peito, mas também com raiva. Muita raiva. Era raiva pra mais de metro. Ele não vai sair por cima! Não vou ser descartado!

Avancei a tempo de impedi-lo de sair, grudando-o na porta.

— Quer saber? Pra mim tanto faz! Já consegui te comer do jeito que eu queria desde o início, e nem foi tão bom assim!

Esperei um ataque de fúria, no entanto, só recebi um olhar congelado.

— Sério que vai me mandar esse papinho que é ridículo até pra adolescente carente? Tipo aquelas minas que chamam ex de falecido? Fui otário ao achar que um dia você amadureceria, Erick Silveira da Silva. — Gustavo me afastou, suspirando — Pra mim, foi bom. — e saiu, me deixando desconcertado.

Precisava falar o meu nome inteiro?

O fato dele ter falado calmamente, quase educado, como se... estivesse pouco se lixando, foi o que bastou para me fazer vazar pelos olhos. Mas o choro durou só até eu recuperar a vergonha na cara, remover as lágrimas com o antebraço e correr para o quarto, tacando tudo que era meu dentro da mala.

— Tretaram de novo? — O enxerido do André quis saber, contudo, ignorei enquanto puxava o celular e ligava para o primeiro contato o qual vi online. — Velho, pelas coisas que o Gustavo vive me contando, isso parece carga pesada de outras vidas. Já procurou uma cartomante?

Me coloquei de costas assim que a ligação foi aceita, não estando nem um pouco interessado em papinho com o inimigo.

— Tá livre, Renan?

***

— São só coisas da vida, Erick, com o tempo passa. — Renan me consolava e pilotava a sua Uber em direção ao prédio da Letícia.

Eu havia contado superficialmente, tanto pro Renan quanto pra Letícia, o que houve, e sem pensar, ela me pediu para passar em seu apartamento, o que foi uma boa, porque eu não pretendia mais voltar à casa dele.

— Eu achava que o meu maior castigo era ter nascido pobre, mas definitivamente foi ter nascido gay. Gostar de homem é a pior das desgraças.


Notas Finais


Agora só faltam 2 capítulos, um do Erick e o último sob o ponto de vista do Gustavo (esse vou dividir, porque tá grande) + epílogo :3


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