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História Uma Boa Menina - Dramione - Capítulo 17


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Capítulo 17 - Conversas Passadas de Velhos Amigos


Todos ali com exceção de Kenji olharam para Marlene com uma ponta de diversão misturada a preocupação pela fala dela. Estava claro para Hermione que, apesar de a mãe ter dito aquilo brincando, havia mais seriedade em suas palavras do que a mais velha deixava que notassem. A perna que não parava de vibrar com ansiedade com certeza era um dos indícios que provavam isso.


— Já está na hora do almoço — observou Dorcas casualmente, como se estivesse comentando sobre o tempo, mas Hermione sabia que aquela era uma abertura para distrair Marlene, que apenas resmungou em resposta, roendo a unha enquanto mantinha um olhar cheio de ausência na janela. Hermione observou cada um de seus acompanhantes, percebendo que, a seus próprios modos, eles todos estavam preocupados por Marlene. A seus próprios modos, todos ali amavam 


— Marlene — Alice sorriu docemente, agarrando o braço da amiga e olhando-a como uma criança pedindo colo — porque não vamos comer em um restaurante antes de falarmos com Diego?


— Onde? — a mãe de Hermione perguntou para a amiga loira, que apenas falou que iriam para um restaurante a alguns minutos dali. Marlene olhou para a filha com um sorriso e disse — vamos lá, você deve estar faminta depois de tudo isso, ou estar enjoada demais para comer. Ainda podemos aproveitar a oportunidade para nos conhecermos não importa qual for sua escolha.


Era uma oferta. Um convite com muito mais significado que apenas ir tomar um suco de laranja e almoçar, mas Hermione não se importava. Ela sabia o que queria, por isso assentiu e disse:


— Eu adoraria.


Marlene sorriu fracamente de volta para a filha, desviando os olhos com certa timidez e Hermione de repente visualizou como seria a sua vida se ela tivesse sido criada por Marlene, em um apartamente pequeno de dois quartos e sala adjacente à cozinha, assistindo filmes até tarde da noite e com a mãe penteando seu cabelo gentilmente enquanto cantava algo da banda de seu pai com um ar melancólico. Talvez ela tivesse raiva de Sirius em algum momento e se auto censurasse por isso e talvez ela nunca viesse a sequer conhecer Henry. Ela não sabia se a possibilidade a deixava feliz e melancólica por uma vida que nunca tivera ou triste e desamparada, porque querendo Hermione ou não, o avô fez dela quem ela era hoje e a morena não sabia se gostaria da Hermione que seria se tivesse sido criada por sua mãe, por melhor que Marlene parecesse ser. Hermione tinha orgulho de si mesma, da mulher que se tornara, porque passara por todas aquelas dificuldades e conhecera todas aquelas pessoas incríveis que haviam se tornado sua família no circo. 


Ela era a soma de todos os acontecimentos de sua vida e não poderia abrir mão disso se tivesse escolha. Não abdicaria de quem ela era por ninguém, nem mesmo por Draco e esse amor próprio havia sido sua maior conquista daquele ano, percebeu Hermione com um sorriso discreto. Graças a ele, ela sabia quais os limites que poderia ultrapassar e quais nunca deveria mexer, sabia o que exigir das pessoas e sabia o quanto podia dar a elas de si mesma. E era isso que mantinha seu amor por Draco, porque quem se ama sabe o que faz bem para si mesmo e procura ter isso em sua vida. E Draco, maldito fosse, era uma das melhores coisas da vida de Hermione.


Eles seguiram para o restaurante rindo e fazendo piadas em uma atmosfera leve de amizade e sem nenhuma pressão por nenhum dos dois lados. Hermione contou para Marlene sobre sua vida até aquele momento, mas não falou sobre Draco ou sobre o circo, preferindo se concentrar na faculdade e em como ela construíra sua relação com Alice. Não era aquele o momento certo de contar sobre algo tão pessoal. No fim do dia, ela rira e se divertira com as amigas de Marlene e com Kenji, que estava obviamente apaixonado por Dorcas, mesmo que a advogada fizesse questão de não demonstrar que não o notava. Alice havia falado com sua namorada ao telefone na frente de todos e todos comemoraram quando o rosto da mulher se iluminara com a possibilidade de um encontro entre as duas para que ela explicasse toda a situação. Elas iriam se encontrar no dia seguinte.


— Esse foi um dia muito longo — comentou Hermione olhando para seu copo de suco de laranja pela metade quado finalmente acabaram de almoçar em um restaurante aconchegante e não chique o suficiente para que alguém que ela conhecia se apresentasse no local. Ela notou, no entanto, alguns olhares, provavelmente de fanáticos e seguidores de Henry ou algo assim, que incomodaram-na, mas ela conseguiu ignorar a todos depois de um tempo de conversa.


— Sim, foi mesmo — concordou Marlene com o próprio copo nas mãos — meu pai é um desgraçado, com certeza, mas sabe exatamente o que está fazendo. Ele joga como um mestre.


— E eu cresci sendo um peão sem nem mesmo saber — observou Hermione sem olhar para sua mãe, ouvindo a amargura aflorando em sua própria voz diante daquela verdade sórdida enquanto ela observava Alice e Dorcas conversando com Kenji. Marlene demorou um pouco para responder, mas foi o suficiente para que Hermione erguesse os olhos para ela e fitasse sua expressão pensativa.


— Quando eu morava com Henry, quando ainda era uma criança — disse-lhe Marlene afinal, olhando em seus olhos com a expressão em branco e o copo de laranja pousado na mesa — Henry me odiava com um tipo de ódio que a maior parte das pessoas não está acostumada. Eu tenho certeza hoje, assim como eu tenho agora, que ele não se importaria nem um pouco de me ver morta. Mas você... eu vi o carinho com que ele te olha, Hermione, vi o amor nos olhos que nunca me trataram com amor. Tudo quando ele olhou para você.


— O que quer dizer com isso? — Hermione sentiu sua voz enrijecer, assim como seu corpo e forçou-se a beber um gole de suco de laranja, fazendo o líquido passar por sua garganta apertada. Marlene sorriu suavemente e disse:


— Não estou tentando te dizer que ele deveria ser perdoado só porque ama você. Estou simplesmente apontado que Henry se comporta como se ele se importasse com você. Você não é um peão para ele. Está mais para uma rainha.


Os intensos olhos azuis de Marlene pareciam queimar Hermione, eram como fogueiras imensas que atraiam-na como uma mariposa, mas a morena era esperta demais para se queimar naquele fogo, por isso deu mais um gole em seu suco e perguntou, desviando-se do assunto:


— Por que você acha que ele me ama tanto assim se te odeia na mesma intensidade?


— Minha mãe, Alice, fugiu com o motorista dele, não sei se você sabe — quando Hermione assentiu, Marlene sorriu com humor e então desviou os olhos em direção ao próprio copo, girando-o com apenas uma mão antes de responder-lhe — para Henry, ele me fez um favor ao me prender a ele sem deixar que minha mãe tivesse chance de me manter com ela. Mas eu era o símbolo de tudo o que ele desprezava.


— Mas você não tinha culpa de nada do que sua mãe decidiu — protestou Hermione, mas ela estava tão cansada do pensamento incompreensível de seu avô que nem sua defesa foi veemente como ela gostaria que tivesse sido. Marlene sorriu um pouco e recomeçou a explicar, um pouco mais objetiva:


—Henry me odeia porque eu sou a lembrança de algo que ele perdeu para um mundo que ele considera perverso, distorcido e errado — Marlene pausou e seus olhos se elevaram para se fixarem mais uma vez em Hermione, tão intensos quanto antes — mas amou você porque conseguiu te salvar desse mundo antes mesmo que você nascesse. É assim que ele vê, pelo menos.


— Você é muito observadora — comentou Hermione e Marlene sorriu minimamente antes de agradecer o elogio com um aceno de cabeça. Hermione, no entanto, já estava farta de conversar sobre Henry. Ela queria saber o que iria acontecer de agora em diante. O futuro, incerto como estava, começara a atormentá-la — O que você vai falar para Sirius quando se virem de novo depois de tanto tempo?


— A minha primeira preocupação em relação ao seu pai é fazê-lo me ouvir — disse Marlene colocando uma mexa do cabelo atrás da orelha com um brilho preocupado no olhar enquanto tentava sorrir sem muito sucesso. Era óbvio que estava com medo da reação dele — Sirius é teimoso. Eu não sei se vai realmente me ouvir depois de tudo o que aconteceu. Ele se magoou para valer, qualquer estúpido sabe disso. 


— Ele vai te ouvir — disse Hermione com confiança, atraindo o olhar de Marlene sobre si e percebeu que a intensidade deles diminuíra junto com a tristeza melancólica que tomara sua mãe por causa de todos aquelas anos perdidos — ele não gostava muito de mim no começo, agora eu sei o motivo, mas acho que meu pai desconfiou que algo estava errado quando eu mencionei para ele que nunca soube nada da minha mãe. Acho que ele sabe que alguma coisa está errada.


Os olhos de Marlene faiscaram de surpresa em sua direção e elas ficaram em silêncio por vários minutos, ouvindo a suave conversa das outras três pessoas na mesa até que Hermione perguntou como Sirius fora para ela quando ainda estavam juntos.


— Seu pai era uma pessoa bem doce — respondeu Marlene em voz baixa, os olhos brilhando de paixão — quando éramos adolescentes, ele passava quase todos os dias na minha escola para me levar em todos os lugares da cidade antes que eu voltasse para casa. E estava sempre com um sorriso na cara, mesmo com toda a situação difícil com a família dele. Quando eu fugi... nós nos casamos uma semana depois, minha mãe me deu o vestido na época e todos os que importavam estavam lá. A banda, minha mãe e o Jeremy, que era o motorista, e todos os filhos dele, iclusive minha prima, Bellatriz.


— Bellatriz Rosier? — perguntou Hermione arregalando os olhos para Marlene, que riu um pouco da expressão surpresa da filha e assentiu, perguntou em um tom de brincadeira:


— Como você acha que Alice conheceu a namorada?


— Pensei que havia sido depois que você fugiu do manicômio — sugeriu Hermione, corando ligeiramente por sua falta de sensibilidade ao falar de um momento que deveria ter sido bastante delicado para a mulher mais velha. Marlene, no entanto, apenas sorriu e disse:


— Elas se reencontraram lá, mas se conheceram e se apaixonaram muito antes disso, na verdade, foi na noite em que eu conheci seu pai.


— Ah, eu me lembro disso — disse Alice, rindo suavemente enquanto se inseria na conversa com cuidado, os olhos azuis como o céu limpo brilhando na direção das duas — eu estava sendo assediada por aquele imbecil. Bellatriz e Marlene foram em meu socorro, mas Sirius, que estava cantando naquela noite, parou o show e o envergonhou o suficiente para que ele fosse embora com o rabo entre as pernas e só restou que elas se apresentassem e Bellatriz deu em cima de mim todo o tempo em que ficamos juntas. Lucius estava no banheiro e não teve a oportunidade de conhecer pessoalmente Marlene até o dia em que ela apareceu com Sirius no circo exigindo ver uma apresentação.


— E o que aconteceu com vocês depois de se conhecerem? —perguntou Hermione, instigada pela voz suave de Alice, que parecia ainda mais como um travesseiro macio para uma pessoa com sono quando ela estava narrando.


— Nos vimos mais algumas vezes graças à nossa ligação com sua mãe e eu acabei me apaixonando, mas Bellatriz era mais complicada, claro. Ela sempre ficou com garotos, mas ficou comigo algumas vezes, era confuso porque Bellatriz sempre enfatizou que não queria ser rotulada. Ela era... uma bagunça para mim, mas uma bagunça da qual eu nunca, nem em um milhão de anos, conseguiria me afastar — ao notar a testa franzida de Hermione, Alice rapidamente explicou — não me leve a mal, nosso relacionamento na maior parte do tempo era de amizade. Mas às vezes passávamos dos limites da amizade. Foram poucas as vezes e depois que partimos da cidade, nos falávamos pelo celular. Até que nos encontramos na Espanha antes de tudo acontecer. Ela tinha um torneio com seu grupo de motoqueiras na cidade onde estávamos montando o espetáculo e acabou sabendo que o circo estava ali, claro. Quando ganhou o torneio, veio direto até o circo e me beijou na frente de todo mundo. Passamos a noite juntas.


— Descobrindo o relevo do corpo humano — acrescentou Marlene de brincadeira, rindo enquanto tentava disfarçar com um gole em seu suco de laranja. Hermione se juntou a ela quando Alice corou lindamente e bateu de leve no braço da amiga.


— E depois que nos distanciamos, voltamos a conversar por mensagens e video-chamadas, mas não era o suficiente. E, pela primeira vez na vida, senti vontade de deixar o circo — Alice suspirou um pouco, olhando para baixo — então marquei um encontro com ela em Galátas e fui até lá. Ficamos juntas por um ano antes que sua mãe aparecesse com a ideia de casar alguém com Henry e eu me voluntariei.


— Deve ter sido bem difícil deixá-la — murmurou Hermione com tato, observando com cuidado enquanto a expressão de Alice mudava de estoica para uma leve tristeza junto a bastante apreensão.


— Eu não sei se vou ser perdoada por isso algum dia.


— Bellatriz provavelmente vai ficar puta por você ter se colocado em tanto risco sem ter contado a ela, mas vai entender eventualmente, Cin — Marlene acalmou a amiga com um abraço lateral e um afago contínuo nas costas — eu conheço a prima que tenho.


Ninguém falou uma palavra depois disso, porque todos sabiam que não era bem como Marlene havia falado. Ela conhecia o antigo eu de todos eles — com exceção, é claro, de Hermione — mas a história sempre carrega mudanças. E Marlene não conhecia todas aquelas mudanças. Mas todos eles continuaram calados, porque falar aquilo, de qualquer modo, mesmo sendo delicado, seria cruel demais, seria como jogar na cara da mais velha tudo o que ela havia sofrido e perdido nos últimos dezesseis anos.


E dezesseis anos eram uma vida inteira, Hermione sabia disso. Erguendo os olhos, ela encontrou Dorcas fitando-a com interesse. A advogada, no entanto, não disse nada mais do que uma pequena sugestão:


— Por que não levantamos nossas bundas inúteis dessas cadeiras confortáveis e vamos falar com Diego, como precisamos fazer com urgência?


Hermione viu a tensão retornar aos ombros de Marlene, mas a mulher apenas sorriu sarcasticamente e disse com um brilho irreconhecível nos olhos azuis


— Como eu disse, ele vai me matar — ela repetiu com uma voz serena e falsa — espero que algum de vocês esteja bem de grana o suficiente para me comprar um caixão decente e um mausoléu no cemitério Highgate, em Londres, porque, doce Jesus, se existe um cemitéiro bonito, é aquele.


Hermione riu e foi acompanhada por todas da mesa, mesmo que todas aquelas risadas fossem forçadas. Mas pareceram acalmar um pouco Marlene, que se levantou dali, disposta a encarar a situação de cabeça erguida.


——— ∆ ———


— Eu vou te matar — declarou Diego, praticamente se jogando no sofá de sua sala, o rosto muito sério enquanto ele encarava Marlene. A mãe de Hermione o encarava, o rosto impassível, mas deveria ter alguma emoção ali, algo que ela ainda não conseguia identificar, porque o rosto do prefeito se suavizou e ele suspirou, a sombra de um sorriso passando por seu semblante — mas eu não deveria estar surpreso, na verdade. Eu não sei onde estava com a cabeça quando acreditei que Alice realmente gostaria de casar com Henry. Acho que pensei que ela queria proteger Hermione.


— Homens veem o que eles querem ver, afinal — murmurou Isis, parecendo acanhada, mas ela ganhou confiança quando uma gargalhada estrondosa escapou dos pulmões de Diego — sinceramente, Diego, eu não te ensinei nada?


— Claro que ensinou — Diego se levantou e foi seguido por basicamente todos os outros ocupantes da sala, inclusive Hermione, que estava incerta de como agir ou do que falar agora que todos os ânimos haviam se acalmado. Seu corpo estava tenso e suas mãos não paravam de se mexer com a ansiedade e a incerteza do que aconteceria a partir dali. O prefeito, no entanto, não parecia sofrer do mesmo mal, porque caminhou até Isis com segurança e determinação em sua expressão e a abraçou com força — claro que ensinou.


Lentamente, Isis relaxou dentro daquele abraço e devolveu o carinho, erguendo os braços devagar. Eles ficaram assim por um longo tempo, apenas se abraçando e se segurando até que a mãe de Hermione murmurou com a voz abafada pelo aperto:


— Eu sinto muito não estar aqui quando ela se foi.


Hermione pôde ver quando as costas de Diego ficaram tensas diante da menção à falecida esposa dele, mas o prefeito não fez mais do que assentir, ainda dentro do abraço e murmurar:


— Obrigado por estar aqui agora — e então ele se separou de Marlene, fungando e limpando alguma lágrimas fujonas de seu rosto antes de suspirar e perguntar, objetivo como sempre — então, como nós vamos acabar com Henry?


Por um momento, Marlene pareceu surpresa com a pergunta do antigo amigo, mas não demorou a sorrir como se tivesse acabado de ganhar o mundo. Ela estremecia o ar com sua paixão e sentimentos à flor da pele, percebeu Hermione com um estranho orgulho ao observá-la sentando-se novamente para discutir com Dorcas sobre os próximos passos do processo contra Henry.


— Nós já temos o caso praticamente ganho, na verdade — revelou a advogada profissionalmente, retirando de uma pasta verde uma série de papéis que Hermione ficou tentada a pegar também para ver do que se tratava — nós temos depoimentos da doutora Wright, a psiquiatra chefe da instituição, que consultou Marlene e percebeu que ela não estava em condições mentais debilitadas depois que chegou ao novo cargo há alguns anos. Ela nos ajudou a distrair Henry para mantê-lo preocupado com outro processo enquanto nós fazíamos nossas investigações. Temos aqui a avaliação de outros dois psiquiatras renomados além daquele que diagnosticou Marlene com esquizofrenia, chamado Walter Menkes, cuja vida financeira já foi investigada e notamos um crescimento de quase cinquenta mil euros desde o ano em que Marlene foi internada.


— Isso é grave e vai ser o suficiente para que ele perca sua licença para exercer — disse Diego, suprimindo um pequeno sorriso satisfeito enquanto Marlene suspirava, aliviada. Ele passou a mão pelas costas da mãe de Hermione, em um gesto claramente feito para acalmá-la — nunca mais vai poder internar ninguém.


— Com certeza não, porque temos depoimentos de outras mulheres que ele aceitou no manicômio e que, aparentemente, estão totalmente sãs — disse Dorcas seriamente, olhando em volta para que todos entendessem a gravidade da situação — e denúncias de assédio por parte delas.


Isso mudou a atmosfera da sala e Hermione soube imediatamente que todos eles estavam pensando na mesma coisa. Se aquele homem havia assediado as pacientes que ele internara, era muito provável que Marlene também tivesse sofrido o mesmo e a constatação daquilo arrasava as pessoas a sua volta. Hermione suprimiu a emoção estranha que ameaçava tomar seu coração ao perceber o quanto todas aquelas pessoas amavam e se importavam com sua mãe para se concentrar na mulher mais velha, que havia ficado muito parada, os olhos no chão.


— Há quanto tempo você sabia? — foi tudo o que Marlene perguntou, se dirigindo a Dorcas mesmo que não olhasse para ela. A advogada não hesitou ao responder, sua expressão era como uma pedra de gelo:


— Desde que contratei uma detetive particular para ir até o manicômio para fazer algumas perguntas. Elas me contaram e relataram tudo isso minuciosamente e era tão recorrente em todas as mulheres que eu imaginei que também havia acontecido no nosso caso — Hermione moveu os olhos criticamente de Marlene para Dorcas, observando na linguagem o quanto a advogada realmente se importava. Ela falava com a mesma voz de sempre, plana e dura, mas havia algo nas palavras de Dorcas que denunciavam que ela se importava, e se importava muito mais do que deixava transparecer. 


— Aconteceu — foi o que Marlene disse apenas, sem parecer querer alongar o assunto e, antes que Diego falasse qualquer coisa, Dorcas pigarreou, deixando que Alice lançasse a ele um olhar de aviso, e continuou:


— Como hoje em dia uma denúncia de assédio é o suficiente para afundar a carreira de qualquer um, já temos provas suficientes para condenar o psiquiatra, mas nosso alvo não é ele, nosso alvo principal é Henry e ele vai arrumar um jeito de se retirar da culpa de ter pago Menkes para manter Marlene lá. A conta que transferia o dinheiro para Menkes é privada, então eu só conseguiria acessá-la depois que o caso viesse a tribunal, mas eu não tenho dúvidas que Henry usaria a conta de alguém mais para transferir o dinheiro, ele não seria burro.


— Ele vai tentar incriminar mais alguém — disse Alice com um suspiro suave e cansado, bebendo um gole do chá que a governanta de Diego trouxera e agradecendo-a com um sorriso doce — precisamos saber quem?


— Não no momento, temos mais o que trabalhar contra Henry, então podemos nos concentrar depois em quem ele vai tentar incriminar — respondeu Dorcas com um gesto da mão para indicar que não queria tomar nada enquanto Marlene agradecia a xícara de café com um sorriso educado — considerando tudo o que temos, o doutor Menkes vai entregar Henry para não ir para a cadeia, ou para reduzir sua sentença, então poderemos fazer um acordo com ele.


— Então quais são os outros pontos em que podemos atacar Henry? — perguntou Diego olhando para todas as mulheres em sua sala de estar ao tentar se situar naquele comitê de guerra.


— Primeiro, em sua carreira — foi a resposta de Dorcas, sempre prática — provavelmente vamos reabrir o caso de Sirius para isso, então teremos que falar com ele antes de todo esse processo estourar na imprensa, e vai estourar.


— No mínimo isso vai ser o escândalo nacional do ano, isso se não for mundial — disse Diego com um suspiro e Hermione sentiu o cansaço se abatendo sobre ela só de pensar em tudo o que ela teria de enfrentar com esse processo, mas a vontade, não, a necessidade de ver Henry pagando por tudo o que fizera fazia com que todo esse cansaço valesse a pena dentro da cabeça da morena — a imprensa vai cair de boca nesse caso, como abutres procurando carniça. Podemos nos aproveitar disso. Infelizmente a justiça raramente é parcial quando à pressão popular, mas para isso nós precisamos conseguir que a imprensa jogue do nosso lado.


— Vai jogar — disse Marlene com segurança, as mãos em punhos apertados de forma veemente, o olhar ainda no chão, mas a expressão agora estava extremamente séria e Diego suspirou, ainda tentando acalmá-la — eles não têm escolha realmente, precisarão anunciar os diversos crimes de Henry. Mesmo que tentem de tudo para não condená-lo, o público vai se revoltar.


— Talvez sim, talvez não — disse Dorcas com um suspiro, olhando fixamente para os documentos em sua pasta — as pessoas são egoístas e fechadas demais às vezes.


Todos se entreolharam com apreensão. Hermione suspirou também, franzindo a testa com as palavras da mulher, mas reconhecendo uma verdade cínica. Dorcas era uma pessoa que se dava muito bem com a realidade, considerou a morena distraidamente, não era como a maioria dos outros, que evitava tudo o que tinha a ver com o real e preferiam se entreter com fantasias irreais. Era interessante, porque poucas pessoas eram assim. Por experiência própria, Hermione sabia que lidar com a realidade era complicado e violento, não havia muitos que podiam viver em meio ao caos tendo ciência deste e mesmo assim não se sentir tentado a escapar, seja pelo vício ou pela cultura.


— Se reabrirmos o caso de Sirius, teremos que avisar a ele antes — disse Marlene, quebrando o silêncio que se instalara pela sala e despertando todos de seus pensamentos sombrios — não podemos simplesmente mandá-lo por todo aquele tormento de novo sem a expressa autorização dele.


— Se ele recusar, nós vamos perder uma força considerável nas nossas provas contra Henry — observou Dorcas com a testa franzida ao encarar a mãe de Hermione, que não vacilou em seu olhar ao encarar a advogada e amiga antiga — é um risco que não deveríamos correr.


— Mas vamos — Marlene falou lentamente, mas firme, para que não restasse dúvidas de que aquilo iria acontecer, não importava a insistência da outra — Dorcas, é a escolha de Sirius. E outra, podemos explorar outros casos de Henry, tenho certeza que ele não foi parcial apenas nesse.


— Sirius não vai se opor a abrir o caso — disse Hermione, falando pela primeira vez desde que o grupo havia entrado na casa de Diego e todos se voltaram para ela, ouvindo com atenção — eu passei as últimas semanas no circo e, acreditem, não existe pessoa na terra que quer ferrar com Henry mais do que Sirius. Ele vai aceitar reabrir o caso para conseguirmos condenar o meu avô.


— Está tão ruim assim? — perguntou Marlene, fitando a filha com o rosto tão inexpressivo quanto o de Dorcas, mas seus incrivelmente brilhantes olhos azuis estavam queimando com intensidade, deixando Hermione incomodada, mas a morena assentiu sombriamente, se encolhendo um pouco, e falou:


— Ele perdeu tudo por causa do meu avô... é mais que natural que ele queria vingança.


— Certo — Dorcas não parecia nada satisfeita com aquela trêmula certeza de Hermione, mas assentiu e baixou o olhar de volta para seus papéis como se pensasse que todo aquele sentimentalismo era estressante — também vamos processá-lo por não cumprir as leis trabalhistas de Dinda e Kenji, já conversei com os dois sobre isso há alguns dias, apesar de não ter revelado nada sobre isso.


— Acho que foi melhor assim — resmungou o motorista, bebendo o resto do whysky que a governanta de Diego havia colocado para ele, Dorcas e Diego antes de sair dali — eu não aguentaria encarar Henry sem rir da cara dele pelo que o esperava se soubesse de tudo.


Marlene torceu a boca para o lado em um meio sorriso ao ver o velho motorista brincando e olhou para ele com carinho antes de voltar a se virar para Dorcas, que continuava a encarar seus documentos, examinando-os com atenção.


— Tirando isso, a agressão de Hermione vai ser um bom peso para o nosso lado — disse ela assim que sentiu os olhares em si e suspirou — mesmo assim, ele vai poder alegar insanidade, o que garantiria a ele certa isenção, tirando que ele seria mandado para um manicômio.


— Uma justiça poética, sem dúvidas — disse Marlene em um murmúrio sarcástico e revirou os olhos ao tomar mais um gole de seu café — mas seria preferível que meu pai fosse preso. Não vou viver a minha vida com medo de que ele escape de um manicômio por bom comportamento ou melhora de quadro clínico.


— O que, considerando que ele só machucou Hermione e nunca matou ninguém, é bem fácil de acontecer se ele for mandado para lá — disse Alice com um outro suspiro, deixando-se encostar na poltrona em que estava sentada com certo cansaço. Hermione se encolheu, passando as mãos pelos hematomas roxos que Henry havia deixado nos braços dela. Mesmo com toda a raiva, ela ainda estava um pouco chocada que o avô realmente tivera a coragem de agredi-la da forma como fizera.


— Então nosso maior objetivo é trancá-lo na cadeia — resumiu Dorcas, erguendo os olhos para Diego — e precisamos conversar sobre o seu filho mais velho.


— Vitor — suspirou o prefeito como se o nome lhe causasse espanto, mas Hermione sabia que não era assim, o homem só não estava esperando que Dorcas fosse tão direta em suas acusações. Diego se virou para Marlene com uma expressão de calma aceitação e perguntou com a voz trêmula. Talvez não tão calmo assim, considerou Hermione — ele foi cúmplice de Henry, não foi?


— Sim — admitiu Marlene a contragosto, tentando alcaçar a mão do amigo, mas Diego a afastou com os olhos descendo para um ponto específico da parede a sua frente. Hermione observou atentamente a mãe, que tinha seus olhos queimando com tantos sentimentos diferentes em um espaço tão pequeno de tempo que a morena mal podia ler. Culpa, no entanto, era o que estava impressa na voz dela quando Marlene finalmente disse — Diego...


— Eu não tenho dúvidas de que meu filho foi culpado de cada uma das acusações que vocês vão jogar contra ele — disse Diego em uma voz apertada — mas ainda é o meu menino.


— Seu filho seria uma testemunha formidável para o nosso caso — disse Dorcas com um suspiro, a voz um pouco mais baixa patra disfarçar sua dureza — mas considerando que Marlene parece ser movida pelos sentimentos, o que eu acho uma estupidez, ela queria que perguntássemos a você. O que você quer fazer a respeito de Vitor?


Hermione observou com preocupação a sombria tempestade de insegurança passar pelos olhos de Diego enquanto ele pensava. A morena soube naquele momento que, independente de qual fosse o destino de Vitor, o pai dele nunca pararia de se culpar pelo modo como o filho escolhera ser. O prefeito suspirou tristemente e esfregou os olhos, preparando-se para decidir. Agora, era Marlene quem esfregava suas costas, apoiando-o enquanto o amigo precisava.


— Vocês podem processá-lo — disse Diego com alguma dificuldade, os olhos fechados e a voz apertada denunciando o quanto aquilo estava sendo realmente difícil para ele — e podem mandá-lo para a cadeia. Eu não... eu não posso... ser conivente com isso.


— Eu não queria punir você com tudo isso, Diego — disse Marlene em um murmúrio tão baixo que mal se ouvia além do tique e taque do relógio preso na parede — não queria que sofresse dessa maneira, mas eu não podia tomar essa decisão por você.


— Eu... sei, Marlene — disse ele depois de certa hesitação, mas não olhou nos olhos da amiga, em vez disso, encarou Dorcas e completou — eu posso procurar nas coisas dele o que você precisa para provar os crimes do meu filho. Sou... eu quem precisa fazer isso, apesar de tudo.


A advogada assentiu em silêncio e Alice, sempre a mais sensível do grupo, levantou-se e disse com suavidade: 


— Talvez seja melhor nós irmos embora agora, deixar que Diego pense um pouco.


Todos concordaram com aquilo e se despediram rapidamente. Hermione observou enquanto o prefeito e Marlene se abraçavam, em como os olhos de Diego pareciam desfocados e perdidos, decididamente sofridos e solitários. Ela não havia notado antes como o pai de Mater estava quebrado, provavelmente estava assim desde a morte de sua esposa, mas não havia ninguém para apoiá-lo. Ela sentia muito por ele ter de enfrentar tudo isso.


— Sabe que você vai ter uma amiga em mim para sempre, não é? Mesmo com tudo isso acontecendo — Hermione conseguiu ouvir Marlene murmurar em meio ao abraço e fingiu estar distraída com observar a sala enquanto todos se arrumavam para sair e davam privacidade aos dois amigos. De alguma forma, ela sabia que custava a Marlene ter tanta emoção presenta na própria voz — mesmo que você me odeie pelo que eu vou fazer com o Vitor.


— Você não fez nada — respondeu Diego com veemência, mas uma breve pausa foi o suficiente para que Hermione duvidasse do que o prefeito falava. Não que ela não confiasse em Diego, mas aquilo tudo era pessoal demais para que ele não tivesse sentimentos mal direcionados para a mãe dela — Vitor escolheu o próprio caminho e vai arcar com as consequências disso querendo ou não. Eu até gostaria que fosse diferente, gostaria de ter feito mais por ele. Ela saberia o que fazer com ele desde o início.


— Diego, ela estaria tão perdida quanto você se estivesse aqui — disse Marlene com um carinho gentil no rosto do amigo ao se separar dele — Vitor pode ser inocentado, você sabe. Por causa do diagnóstico dos psicólogos.


— Dorcas pesquisou sobre isso também? — perguntou Diego com um pingo de amargura na voz e então suspirou, apertando a mão de Hermione — mesmo que ele seja inocentado, Marlene. É meu dever como pai garantir que ele seja tratado por isso. E ele me odeia tanto, Mac.


Mac. Era a primeira vez que Hermione ouvia um apelido tão inusitado assim, tirado do sobrenome de solteira de sua mãe. MacGyver. Mac. Era bonito se ela pensasse bem sobre o assunto. Depois disso, Hermione pôde dar um abraço em Diego, que lamentou com os olhos ao ver os roxos em sua pele, mas deixou que ela se fosse sem mais palavras. Ele parecia cansado demais para falar qualquer outra coisa e a morena não duvidava que ele fosse cair morto na cama daqui a pouco antes de pensar com mais calma sobre todas aquelas questões.


Todo o grupo estava se dirigindo à porta quando passos foram ouvidos batendo na madeira do chão e Mater surgiu no hall de entrada, deslizando pela madeira até Hermione com uma expressão séria.


— Mater, que bom te ver — disse Hermione oferecendo o melhor sorriso que podia oferecer para o garoto naquele momento, mas ele não olhou para ela e sim para a blusa Dorcas, que o encarou com certa curiosidade.


— Eu tenho que falar uma coisa — disse o garoto, mordendo o lábio com o nervosismo, parte do cabelo castanho escuro caindo na testa enquanto ele mexia as mão avidamente, sem saber o que mais fazer.


— Pode falar, estamos todos te escutando — assegurou Hermione com um suspiro cheio de cansaço. Mater hesitou, mas abriu a boca lentamente e disse:


— Henry, o avô da Hermione — disse ele, fazendo o coração da morena parar com o susto de ouvir o nome do homem que ela tanto odiava nos lábios do garoto a sua frente — ele vai mandar os homens de preto matarem um outro homem.


Ele parou de falar e continuou encarando a blusa de Dorcas enquanto todos se entreolhavam, divididos entre o susto, o medo e a descrença. Hermione, que não duvidava da palavra do garoto, se apressou em perguntar, sabendo que Mater não responderia nenhum deles além dela.


— Como você sabe disso, Mat? E que homem ele vai mandar matar? — as perguntas rodopiavam na mente de Hermione e seu coração batia forte contra o peito. Ela sabia que não deveria ser diferente para nenhum dos outros que estavam ali — pode nos contar tudo?


— Eu estava no apartamento de Vitor — o garoto começou a contar, acanhado e hesitante, mas a voz de Diego, que denunciava o pânico do mais velho, soou pelo hall de entrada enquanto ele avançava em direção ao filho mais novo. Mater se encolheu sob o toque firme do pai em seus ombros.


— Mater, eu falei que você não podia ir até lá. Por que me desobedeceu?


— Eu queria que Vitor entendesse que nós somos uma família — disse Mater com certa dificuldade por causa do susto de ver seu pai tão desvairado daquela maneira, os olhos arregalados nos de Diego, que estavam tão arregalados quanto os do filho — e família deveriam ficar juntas.


A frase ressoou no ar, fazendo com que Diego arfasse e fechasse os olhos por um momento, puxando o filho mais novo para um abraço que Mater não correspondeu, mas aninhou o rosto à curva do pescoço do pai, inspirando levemente, como se gostasse daquilo. O prefeito não soltou o garoto por um longo tempo e Hermione olhou para a mãe com preocupação.


— O que você ouviu, Mater? — ela perguntou com delicadeza, fazendo com que Diego soltasse o menino, que olhou para ela por um momento antes de olhar com hesitação para o pai, que assentiu e colocou uma mão no ombro do filho de forma encorajadora.


— Vitor e seu avô estavam discutindo — disse ele com a voz trêmula — eu ouvi por trás da porta e eles estavam falando sobre um homem que era a causa de tudo aquilo e que ele era um maldito...


O olhar de Diego dizia que ele queria censurar o filho por repetir aquilo, mas a mão que Marlene colocou em seu ombro foi o suficiente para que ele se calasse e continuasse a ouvir Mater, que contava:


— Então Henry falou que queria matá-lo e Vitor respondeu que ele deveria matá-lo. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos até que Henry disse que tinha um grupo de pessoas que era ótima fazendo isso e que eles matariam o homem e ainda incriminariam um garoto chamado Draco.


— Eles vão matar Sirius — disse Hermione de uma vez, virando-se para Marlene ao sentir o coração retumbando dolorosamente quanto o próprio peito, tudo fazendo sentido agora — Henry contratou alguém para matar Lúcius e incriminar Sirius, agora ele vai fazer o mesmo com Draco.


— Mat, eles disseram quando iriam fazer isso? — perguntou Diego com a voz baixa, claramente aterrorizado de pensar que seu filho estivera exposto a tanto perigo, mas lutando para continuar em controle.


— Sim, disseram que iriam fazer isso assim que Hermione voltasse — disse o garoto em resposta e se virou para a morena, que quase não registrou as palavras dele por causa do pânico que estava subindo a sua cabela ao pensar no que diabos ela iria fazer sobre tudo aquilo — é por isso que eu precisava falar com você. Eu precisava te avisar.


— Você fez bem em avisar a Hermione, Mater, não guarde nada que pode ajudar os outros para você, tudo bem? — disse Diego firmemente — mas não se coloque em risco de novo, tudo bem? Vitor viu você?


— Não, eu saí antes que ele abrisse a porta — disse com garoto calmamente e Diego voltou a assentir e falar:


— Agora vá para o seu quarto, eu vou falar com você mais tarde, tudo bem?


O garoto assentiu e subiu correndo as escadas, deixando todos eles se encarando, ainda digerindo todas aquelas informações e o medo latente que veio diante da possibilidade de tudo aquilo ter realmente acontecido e do que Henry poderia fazer.


— Nós precisamos avisá-los — disse Marlene finalmente depois de minutos de silêncio, os olhos disparando para a janela, de onde apenas escuridão entrava — com tudo o que aconteceu hoje, eu não duvido que Henry se enfureceu o suficiente para ser imprudente e ordenar o ataque a Sirius. Nós precisamos salvá-lo.


— Precisamos abastecer o carro — avisou Kenji com preocupação — estamos quase sem gasolina, somos muito pesados, isso sem falar na bagagem de todas vocês e o motor está fazendo um barulho esquisito desde que saímos do restaurante, o carro vai forçar demais e eu não estou totalmente certo que seja algo da mecânica.


— O que você quer dizer com isso? — perguntou Dorcas franzindo a testa para o motorista, que fitou-a seriamente.


— Você se lembra daquele flanelinha que nós encontramos perto do carro? — ele perguntou com cuidado e todos sentiram os corações gelarem — ele tinha duas cicatrizes, uma oposta à outra. Me diga um flanelinha que seja violento assim para conseguir um ferimento em um lado e outro do outro? Eu posso estar sendo paranóico, mas não estou gostando nada disso.


— Se meu carro for destruído, Henry vai pagar — rosnou Dorcas, profundamente irritada, abrindo a porta e indo em direção ao carro com uma marcha de passos duros, furiosos. Kenji, no entanto, foi mais rápido e agarrou-a pelo cotovelo, falando:


— Agora não é a hora, podemos chamar um mecânico mais tarde. O que precisamos fazer agora é decidir o que vamos fazer para alertar Sirius.


— Posso tentar ligar para algum deles, mas se eles avançaram de Atenas depois do que Henry fez, o que eu acho provável, não vai adiantar de nada — disse Hermione com o celular preparado — porque eles provavelmente vão parar no meio de uma reserva natural ou nas montanhas e lá não tem sinal, Draco me avisou.


— E ele tem razão, às vezes eu fico semanas sem falar com eles por causa disso. Também torna tudo muito mais fácil para um crime, podem fingir que foi um ataque de animal de primeira e depois, quando se descobrisse que foi assassinato, seria muito mais fácil concluir que foi alguém do circo, já que eles estariam isolados — declarou Alice, o vinco entre suas sobrancelhas ficando mais profunda. Ela estava aflita e Hermione apertou sua mão enquanto discava o número pessoal de Lucius e esperava que a ligação se completasse — precisaremos ir até eles se não conseguirmos falar.


— Mas como vamos fazer isso? — perguntou Marlene, parecendo tensa como um fio esticado, contendo todo o desespero que estava sentindo — não temos carro porque podemos morrer com esse aí...


— O meu é mais velho que eu mesmo, seria mais rápido pegar um cavalo — disse Diego quando todos olharam para ele, mas Alice respirou fundo, olhando para Hermione, que trocava o número para o telefone comercial do circo. Todos fitaram-na em um silêncio sepulcral enquanto Alice também tirava o próprio celular do bolso e discava o número de Draco.


— Não vai dar — disse Hermione quando a chamada caiu quatro vezes seguidas, sem nem mesmo tocar — eles estão fora de Athenas, provavelmente nos Montes Pindos.


— Lucius tem uma parada lá que ele adora, muito perto do monte Olimpo, se eles estiverem lá, eu sei encontrá-los — disse Alice com a voz tremendo ao apertar cada vez mais a mão de Hermione, mas a morena não se importava, estava tão anestesiada de medo que mal sentia o aperto.


— Mas não temos como chegar lá, Cin — disse Dorcas, tentando pensar, mas a loira parecia mais calma ao anunciar a bomba:


— Tem, sim — todos olharam para ela, surpresos — Bellatriz chegou na cidade ontem. Ela pode nos levar lá, posso ligar para ela e perguntar sobre isso, ela provavelmente vai querer ajudar.


— Ah, doce Jesus — disse Marlene parecendo branca como papel — Bellatriz vai te matar se tiver que perder o campeonato de amanhã a noite porque o meu namorado está prestes a ser assassinado. Coitado de quem Henry pagou para matar Sirius.


Marlene estava nervosa, aquilo era óbvio para qualquer um porque a mãe de Hermione era um péssima mentirosa. Suas mãos trêmulas mal podiam parar de sacudir-se por causa do choque e Hermione por um momento se perguntou se talvez, apenas talvez, o manicômio havia deixado uma marca psicológica muito mais profunda do que apenas alguns estremecimentos e humores escurecidos.


— Ah, é melhor que esse assassino se cuide — concordou Alice com o olhar azul resoluto enquanto pegava o celular do bolso de seu vestido cor de creme que ainda usava — porque Bellatriz vai realmente matá-lo se ele a fizer perder o torneio.


Elas precisavam dessa brincadeira para se acalmarem, percebeu Hermione, quieta. Precisavam porque discutir o assunto honestamente provavelmente faria com que desabassem.


Em silêncio, ela esperou, rezando para que Bellatriz Rosier estivesse de bom humor.



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