História Uma Corte de Fúria e Névoa - Capítulo 38


Escrita por:

Visualizações 33
Palavras 4.936
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Crossover, Hentai, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Universo Alternativo

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 38 - Capítulo 38


Encarei Percy.

Ele me encarou.

As bochechas de Percy estavam coradas devido ao frio, os cabelos pretos caíam embaraçados, e ele realmente parecia estar congelando parado ali, com as asas recolhidas. E eu sabia que, com uma palavra minha, Percy sairia voando noite fria adentro. Que, se eu fechasse a porta, ele sairia e não insistiria. As narinas de Percy se dilataram, sentindo o cheiro da tinta atrás de mim, mas ele não deixou de me encarar. Esperando.

Parceiro.

Meu... parceiro.

Aquele macho lindo, forte, altruísta... Que se sacrificara e se destruíra pela família, pelo povo, e não achava que era digno, que ele não era digno de ninguém. Saí da frente, segurando a porta aberta para ele. Podia jurar que senti um pulso de alívio que lhe fraquejou os joelhos por meio do laço. Mas Percy observou as pinturas que eu fizera, absorvendo as cores alegres que agora davam vida ao chalé, e falou:

— Você nos pintou.

— Espero que não se importe.

Percy avaliou o portal para o corredor do quarto.

— Jason, Rachel, Thalua e Leo — listou Percy, observando os olhos que eu havia pintado. — Sabe que um deles vai pintar um bigode sob os olhos de quem o irritar primeiro.

Segurei os lábios para conter o sorriso.

— Ah, Rachel já prometeu fazer isso.

— E quanto aos meus olhos?

Engoli em seco. Tudo bem. Sem enrolação. Meu coração batia tão incontrolavelmente que eu sabia que Percy conseguia ouvi-lo.

— Tive medo de pintá-los.

— Por quê?

Percy me encarou de frente e repetiu a pergunta.

— Por quê?

Nada de jogos, nada de provocações.

— A princípio, porque eu estava muito irritada com você por não ter me contado. Depois, porque temia gostar demais deles e descobrir que você... não sentia o mesmo. E, depois, porque eu tinha medo de pintar e começar a desejar tanto que você estivesse aqui que simplesmente os encararia o dia todo. E parecia uma forma patética de passar meu tempo.

Ele contraiu os lábios.

— De fato.

Olhei para a porta fechada.

— Você voou até aqui.

Percy assentiu.

— Rachel não quis me dizer onde você estava, e existe um número limitado de lugares tão seguros quanto este. Como eu não queria que nossos amigos de Hybern me rastreassem até você, precisei fazer isso à moda antiga. Levou... um tempo.

— Você está... melhor?

— Completamente curado. Rapidamente, considerando o veneno de sangue. Graças a você. Evitei seu olhar, me virando para a cozinha.

— Deve estar com fome. Vou esquentar alguma coisa.

Percy esticou o corpo.

— Você... faria comida para mim?

— Esquentaria — esclareci. — Não sei cozinhar.

Não parecia fazer diferença. Mas o que quer que fosse, o ato de oferecer comida a ele... coloquei sopa fria em uma panela e acendi o fogão.

— Não conheço as regras — comecei, de costas para ele. — Então, precisa explicar para mim.

Ele ficou no centro do chalé, observando todos os meus movimentos. Percy falou, rouco:

— É um... momento importante quando uma fêmea oferece comida ao parceiro. Desde o tempo de quaisquer que fossem as bestas que nós fomos, há muito tempo. Mas ainda importa. A primeira vez importa. Alguns pares de parceiros tornam isso uma ocasião especial, dão uma festa só para que a fêmea possa formalmente oferecer comida ao parceiro... Isso em geral é feito entre os ricos. Mas significa que a fêmea... aceita a parceria.

Encarei a sopa.

— Me conte a história... conte tudo.

Percy entendeu minha oferta: contar enquanto eu cozinhava, e eu decidiria no fim se ofereceria ou não aquela comida. Uma cadeira arranhou o chão de madeira quando Percy se sentou à mesa. Por um momento, houve apenas silêncio, interrompido pelo raspar de minha colher contra a panela. Então, Percy falou:

— Fui capturado durante a Guerra. Pelo exército de Gaia.

Parei de mexer, meu estômago se revirou.

— Leo e Jason estavam em legiões diferentes, então, não faziam ideia de que minhas forças tinham sido feitas prisioneiras. E que os capitães de Gaia nos detiveram durante semanas, torturando e matando meus guerreiros. Eles colocaram parafusos de freixo em minhas asas e tinham aquelas mesmas correntes da outra noite para me segurar. Aquelas correntes são um dos maiores trunfos de Hybern: pedra extraída das profundezas de suas terras, capaz de anular os poderes de um Grão-Feérico. Até mesmo os meus. Então, me acorrentaram entre duas árvores, me espancaramquando tinham vontade, tentaram me fazer dizer a eles onde estavam as forças da Corte Noturna, usando meus guerreiros, a morte e a dor deles, para me fazer ceder.

“Mas não cedi — continuou Percy, a voz áspera. — E eles eram burros demais para saber que eu era illyriano, e tudo que precisavam fazer para me obrigar a me curvar era tentar cortar minhas asas. E talvez tenha sido sorte, mas jamais as cortaram. E Gaia... Ela não se importava que eu estivesse lá. Era mais um filho de Grão-Senhor, e Jurian tinha acabado de assassinar a irmã dela. Gaia só se importava com chegar até ele, com matar Jurian. Não fazia ideia de que, a cada segundo, a cada fôlego, eu planejava sua morte. Estava disposto a tornar aquilo minha resistência final: matar Gaia a qualquer custo, mesmo que significasse destruir minhas asas para me libertar. Observei os guardas e aprendi os turnos de Gaia; então, sabia onde ela estaria. Marquei um dia e um horário. E estava pronto, estava tão pronto para acabar com aquilo e esperar por Leo e Jason e Rachel do outro lado. Não havia nada além de meu ódio, e o alívio por meus amigos não estarem ali. Mas no dia anterior àquele que eu mataria Gaia, em que faria minha resistência final e chegaria a meu fim, ela e Jurian se enfrentaram no campo de batalha.”

Percy parou, engolindo em seco.

— Eu estava acorrentado à lama, fui forçado a assistir enquanto eles batalhavam. Assistir Jurian dar meu golpe mortal. Mas... Gaia o matou. Observei quando ela arrancou o olho de Jurian, e, depois, o dedo, e, quando Jurian estava caído de costas, eu a observei carregá-lo de volta ao acampamento. E ouvi Gaia, devagar, ao longo de vários dias, esquartejar Jurian. Os gritos eram intermináveis. Ela estava tão concentrada em torturá-lo que não detectou a chegada de meu pai. Em meio ao pânico, matou Jurian, para não o ver em liberdade, e fugiu. Então, meu pai me resgatou e disse a seus homens, disse a Jason, para deixar o freixo em minhas asas como punição por ter sido pego. Eu estava tão ferido que os curandeiros me informaram: se eu tentasse lutar antes de as asas se curarem, jamais voaria de novo. Então, fui obrigado a voltar para casa e me recuperar, enquanto as batalhas finais eram travadas.

“Eles fizeram o Tratado, e a muralha foi construída. Tínhamos libertado nossos escravos na Corte Noturna havia muito tempo. Não confiávamos nos humanos para guardar nossos segredos, não quando eles se reproduziam tão rápida e frequentemente que meus ancestrais não conseguiam conter todas as mentes ao mesmo tempo. Mas nosso mundo estava mudado, mesmo assim. Todos mudamos com a Guerra. Leo e Jason voltaram diferentes; eu voltei diferente. Nós viemos até aqui... para este chalé. Ainda estava tão ferido que me carregaram. Estávamos aqui quando chegaram as mensagens com os termos finais do Tratado.

“Eles ficaram comigo quando urrei para as estrelas que Gaia, apesar do que tinha feito, de cada crime cometido, sairia impune. Que o rei de Hybern sairia impune. Muitas mortes tinham ocorrido dos dois lados para que todos fossem levados à justiça, disseram eles. Até mesmo meu pai me deu a ordem de esquecer, de construir com vistas em um futuro de coexistência. Mas jamais perdoei o que Gaia havia feito com meus guerreiros. E jamais esqueci também. O pai de Luke... era amigo dela. E, quando meu pai o matou, eu fiquei convencido de que talvez Gaia tivesse sentido uma pontada do que eu vivenciara quando ela assassinou meus soldados.”

Minhas mãos estavam trêmulas enquanto eu mexia a sopa. Jamais soubera... Jamais achei...

— Quando Gaia voltou para esses lados, séculos depois, eu ainda queria matá-la. A pior parte era que ela nem mesmo sabia quem eu era. Nem mesmo lembrava que eu era o filho do Grão-Senhor, aquele que mantivera cativo. Para Gaia, eu era apenas o filho do homem que matara seu amigo... era apenas o Grão-Senhor da Corte Noturna. Os outros Grão-Senhores estavam convencidos de que Gaia queria paz e comércio. Apenas Luke desconfiou dela. Eu o odiava, mas ele conhecia Gaia pessoalmente, e, se não confiava nela... Eu sabia que Gaia não tinha mudado.

“Então, planejei matá-la. Não contei a ninguém. Nem mesmo a Thalia. Deixei Gaia pensar que eu estava interessado em comércio, em aliança. Decidi que iria à festa Sob a Montanha para que todas as cortes celebrassem nosso acordo de comércio com Hybern... E, quando Gaia estivesse bêbada, eu entraria em sua mente, faria com que revelasse cada mentira e crime que cometera, e depois lhe transformaria o cérebro em líquido antes que alguém pudesse reagir. Eu estava pronto para ir à guerra por aquilo.”

Eu me virei, encostada no balcão. Percy olhava para as mãos, como se a história fosse um livro que ele pudesse ler entre elas.

— Mas ela pensou mais rápido, agiu mais rápido. Fora treinada contra minha habilidade em particular e tinha diversos escudos mentais. Eu estava tão ocupado trabalhando para abrir um túnel através deles que não pensei na bebida em minha mão. Não queria que Leo, Jason ou mais ninguém naquela noite testemunhasse o que eu estava prestes a fazer, então ninguém se deu o trabalho de cheirar o líquido.

“Quando senti meus poderes sendo arrancados por aquele feitiço que Gaia colocou na minha bebida durante o brinde, disparei-os uma última vez, apagando Velaris, os feitiços, tudo que era bom da mente dos feéricos da Corte dos Pesadelos, os únicos que tiveram permissão de me acompanhar. Projetei o escudo sobre Velaris, atando-o a meus amigos para que precisassem permanecer, ou arriscariam que aquela proteção desabasse, e usei as últimas gotas para contar a eles, pelas mentes, o que estava acontecendo, e para avisar que ficassem longe. Em alguns segundos, meu poder pertencia completamente a Gaia.”

Os olhos de Percy se ergueram para os meus. Assombrados, tristes.

— Ela matou metade da Corte dos Pesadelos bem ali. Para me provar que podia. Uma vingança pelo pai de Luke. E eu soube... soube, naquele momento, que não havia nada que eu não faria para evitar o escrutínio de Gaia sobre minha corte de novo. Evitar que olhasse por tempo demais para quem eu era e o que eu amava. Então, disse a mim mesmo que aquela era uma nova guerra, um tipo diferente de batalha. E, naquela noite, quando Gaia voltou a atenção para mim, eu sabia o que ela queria. Eu sabia que o objetivo não era trepar comigo, mas se vingar do fantasma de meu pai. Mas, se era isso o que ela queria, então, era o que conseguiria. Eu a fiz implorar e gritar, e usei meus poderes restantes para tornar aquilo tão bom para Gaia que ela quis mais. Desejou mais.

Segurei o balcão para evitar deslizar até o chão.

— Então, ela amaldiçoou Luke. E meu outro grande inimigo se tornou a brecha que poderia libertar todos nós. Todas as noites que eu passava com Gaia, sabia  que ela estava se perguntando se eu tentaria matá-la. Não podia usar meus poderes para feri-la, e ela tinha erguido proteções contra ataques físicos. Mas, durante cinquenta anos, sempre que eu estava dentro dela, pensava em matá-la. Gaia não fazia ideia. Nenhuma. Porque eu era tão bom em meu trabalho que ela achava que eu também gostava. E começou a confiar em mim, mais do que nos outros. Principalmente quando provei o que podia fazer com seus inimigos. Mas eu ficava feliz em fazê-lo. Eu me odiava, mas ficava feliz em fazê-lo. Depois de uma década, parei de esperar ver meus amigos ou meu povo de novo. Esqueci como eram seus rostos. E parei de ter esperanças.

Os olhos de Percy brilharam prateado, e ele piscou para afastar a umidade.

— Há três anos — disse Percy, baixinho —, comecei a ter esses... sonhos. A princípio, eram lampejos, como se estivesse vendo pelos olhos de outra pessoa. Uma lareira crepitando em um lar escuro. Um rolo de feno em um celeiro. Uma toca decoelhos. As imagens eram turvas, como olhar por vidro embaçado. Eram rápidas, um lampejo aqui e ali, a cada poucos meses. Não pensei muito nelas, até que uma das imagens foi a da mão de alguém... Uma linda mão humana. Segurando um pincel. Pintando... flores em uma mesa.

Meu coração deu um salto.

— E, nesse momento, mandei de volta um pensamento como mensagem. Do céu noturno, da imagem que me levava alegria quando eu mais precisava. O limpo céu noturno, estrelas e a lua. Não sabia se a mensagem tinha sido recebida, mas tentei mesmo assim.

Eu não tinha certeza se estava respirando.

— Aqueles sonhos, os lampejos daquela pessoa, daquela mulher... Eu os cultivava. Eram um lembrete de que havia alguma paz lá fora no mundo, alguma luz. Que havia um lugar, e uma pessoa, que tinha segurança o bastante para pintar flores em uma mesa. Eles se prolongaram durante anos, até... um ano atrás. Eu estava dormindo ao lado de Gaia e acordei sobressaltado de um sonho... esse era mais nítido e mais claro, como se aquela névoa tivesse sido limpa. Ela... você estava sonhando. Eu estava em seu sonho, observando enquanto você tinha um pesadelo sobre uma mulher cortando sua garganta, enquanto era perseguida pelo Bogge... Não a conseguia alcançar, falar com você. Mas você estava vendo nosso povo. E percebi que a névoa provavelmente era a muralha, e que você... você estava agora em Prythian.

“Vi você por meio de seus sonhos e guardei as imagens, selecionando-as diversas vezes, tentando localizá-la, identificá-la. Mas tinha pesadelos tão horríveis, e as criaturas pertenciam a todas as cortes. Eu acordava com seu cheiro no nariz, e aquilo me assombrava o dia todo, cada passo. Mas, então, uma noite, você sonhou que estava de pé em meio àquele verde, vendo fogueiras apagadas para o Calanmai.”

Havia um silêncio profundo em minha mente.

— Eu sabia que havia apenas uma comemoração tão grande; conhecia aquelas colinas... e sabia que você provavelmente estava lá. Então, contei a Gaia... — Percy engoliu em seco. — Contei a ela que queria ver a Corte Primaveril para a comemoração, para espionar Luke e ver se alguém tinha aparecido, desejando conspirar com ele. Estávamos tão perto do prazo da maldição que Gaia se sentia paranoica, inquieta. Ela me disse para voltar com traidores. Eu prometi que o faria.

Os olhos de Percy se ergueram para mim de novo.

— Cheguei lá e consegui sentir seu cheiro. Então, segui aquele cheiro, e... E láestava você. Humana, completamente humana, e sendo arrastada por aqueles porcos de merda que queriam... — Percy sacudiu a cabeça. — Pensei em matá-los bem ali, mas então eles a empurraram, e eu apenas... agi. Comecei a falar sem saber o que estava dizendo, apenas que você estava ali, e que eu a estava tocando e... — Ele expirou, estremecendo.

Aí está você. Estava a sua procura.

As primeiras palavras de Percy para mim — não era mentira alguma, nem uma ameaça para manter aqueles feéricos longe.

Obrigado por encontrá-la para mim.

Tive a vaga sensação de que o mundo escorregava por baixo de meus pés como areia se afastando da praia.

— Você me olhou — disse Percy —, e eu soube que você não tinha ideia de quem eu era. Que eu podia ter visto seus sonhos, mas você não tinha visto os meus. E era apenas... humana. Era tão jovem e frágil e não tinha qualquer interesse em mim, e eu soube que, se eu ficasse por tempo demais ali, alguém me veria e relataria de volta, e ela encontraria você. Então, comecei a recuar, pensando que você ficaria feliz por se livrar de mim. Mas depois você me chamou, como se não conseguisse me deixar partir ainda, caso soubesse ou não. E eu sabia... Sabia que estávamos em território perigoso, de alguma forma. Sabia que jamais poderia falar com você, ou vê-la, ou pensar em você de novo.

“Não quis saber por que você estava em Prythian; não quis sequer saber seu nome. Porque vê-la em meus sonhos era uma coisa, mas pessoalmente... Naquele momento, bem no fundo, acho que eu sabia o que você era. E não me permiti admitir, porque, se  havia sequer a mínima chance de você ser minha parceira... Eles teriam lhe feito coisas tão inomináveis, Annabeth.

“Então, deixei que desse as costas. Disse a mim mesmo depois que você se foi que talvez... talvez o Caldeirão tivesse sido bondoso, e não cruel, por me permitir vê-la. Apena uma vez. Um presente pelo qual eu estava passando. E, quando você se foi, encontrei aqueles três porcos. Invadi suas mentes, remodelei suas vidas, as histórias, e os arrastei perante Gaia. Fiz com que confessassem ter conspirado para encontrar outros rebeldes naquela noite. Fiz com que mentissem e alegassem que a odiavam. Observei Gaia dilacerá-los enquanto ainda estavam vivos, alegando inocência. E gostei daquilo, porque sabia o que queriam fazer com você. E sabia que aquilo teria sido banal em comparação com o que Gaia teria feito se a encontrasse.”

Levei a mão ao pescoço. Tive meus motivos para estar fora naquela noite, dissera Percy certa vez, Sob a Montanha. Não pense, Annabeth, que não me custou.

Percy continuou olhando para a mesa ao dizer:

— Eu não sabia. Que você estava com Luke. Que estava na Corte Primaveril. Gaia me enviou naquele dia depois do Solstício de Verão porque eu fora tão bem-sucedido no Calanmai. Estava pronto para debochar de Luke, talvez começar uma briga. Mas, então, entrei naquela sala e o cheiro era familiar, mas parecia oculto... E depois vi o prato, senti o encantamento e... Ali estava você. Morando na casa de meu segundo pior inimigo. Jantando com ele. Fedendo a ele. Olhando para ele como... Como se o amasse.

Os nós dos dedos de Percy ficaram brancos.

— E decidi que precisava assustar Luke. Precisava assustar você e Ethan, mas, principalmente, Luke. Porque vi como ele a olhava também. Então, o que fiz naquele dia... — Os lábios de Percy estavam pálidos, contraídos. — Invadi sua mente e a tomei por tempo o bastante para que você sentisse, para que a aterrorizasse, a ferisse. Obriguei Luke a implorar, como Gaia me fizera implorar, para mostrar a ele o quanto era impotente para salvá-la. E rezei para que minha atuação bastasse para fazer com que Luke a mandasse para longe. De volta ao reino humano, para longe de Gaia. Porque ela encontraria você. Se você quebrasse aquela maldição, ela a encontraria e a mataria.

“Mas fui tão egoísta, tão estupidamente egoísta, que não pude sair sem saber seu nome. E você estava me olhando como se eu fosse um monstro, e, depois, disse a mim mesmo que não importava mesmo. Mas você mentiu quando perguntei. Eu sabia que havia mentido. Tinha sua mente nas mãos, e você teve a ousadia e a precaução de mentir descaradamente. Então, dei as costas a você de novo. Vomitei as tripas assim que saí.”

Meus lábios estremeceram, e eu os fechei com força.

— Verifiquei de novo uma vez. Para me certificar de que você tinha ido embora. Fui com eles no dia em que saquearam a mansão... para completar minha atuação. Disse a Gaia o nome daquela garota, achando que você o teria inventado. Não fazia ideia...Não fazia ideia de que ela mandaria os subalternos atrás de Clare. Mas, se eu admitisse minha mentira... — Percy engoliu em seco. — Invadi a mente de Clare quando a levaram Sob a Montanha. Tirei sua dor e disse para gritar quando fosse esperado. Então eles... eles fizeram aquelas coisas com ela, e tentei consertar, mas... Depois de uma semana, não conseguia deixar que continuassem. Que a ferissem mais. Então, enquanto atorturavam, entrei na mente de Clare de novo e acabei com aquilo. Ela não sentiu nenhuma dor. Não sentiu nada do que fizeram com ela, mesmo no fim. Mas... Mas eu ainda a vejo. E meus homens. E os outros que matei por Gaia.

Duas lágrimas escorreram pelas bochechas de Gaia, ligeiras e frias.

Ele não as limpou conforme disse:

— Achei que tivesse terminado depois daquilo. Com a morte de Clare, Gaia acreditava que você estivesse morta. Então, você estava segura, e muito, muito longe, e meu povo estava seguro, e Luke tinha perdido, então... havia acabado. Nós estávamos acabados. Mas, depois... Eu estava nos fundos da sala do trono naquele dia em que o  Attor a levou. E jamais conheci tal horror, Annabeth, quanto ao assistir você fazer aquele acordo. Terror irracional e estúpido, eu nem a conhecia. Nem mesmo sabia seu nome. Mas pensei naquelas mãos de pintora, nas flores que a vi criar. E em como ela sentiria prazer ao quebrar seus dedos. Precisei assistir enquanto o Attor e seus seguidores a espancaram. Precisei observar o desprezo e o ódio em meu rosto enquanto me olhava, me observava ameaçar destruir a mente de Ethan. Então... então, descobri seu nome. Ouvir você pronunciá-lo... foi como a resposta para uma pergunta que eu fazia havia quinhentos anos.

“Decidi naquele momento que lutaria. E lutaria sujo, e mataria e torturaria e manipularia, mas lutaria. Se havia uma chance de nos libertar de Gaia, era você. Pensei... Pensei que o Caldeirão estava me mandando aqueles sonhos para me dizer que seria você nossa salvadora. Salvadora de meu povo.

“Então, assisti a sua primeira tarefa. Fingindo... sempre fingindo ser aquela pessoa que você odiava. Quando se feriu tão gravemente contra o Verme... Encontrei o caminho até você. Uma forma de desafiar Gaia, de semear esperança para aqueles que soubessem ler a mensagem, e uma forma de mantê-la viva sem parecer suspeito. E uma forma de me vingar de Luke... De usá-lo contra Gaia, sim, mas... De me vingar dele por minha mãe e minha irmã, e por... ter você. Quando fizemos aquele acordo, você estava tão cheia de ódio que eu sabia que tinha feito meu trabalho direito.

“Então, conseguimos suportar aquilo. Eu a obriguei a se vestir daquela forma para que Gaia não suspeitasse, e fiz com que bebesse o vinho para que não se lembrasse dos horrores noturnos naquela montanha. E na última noite, quando encontrei vocês dois no corredor... Fiquei com ciúmes. Fiquei com ciúmes dele, e com raiva por ter usado aquela única chance de não ser notado não para libertá-la, mas para estar com você, e... Gaia viu esse ciúme. Ela me viu beijá-la para esconder a prova, mas viuo motivo. Pela primeira vez, viu o motivo. Então, naquela noite, depois que deixei você, precisei... satisfazê-la. Gaia me manteve lá por mais tempo que o habitual, tentando arrancar respostas de mim. Mas dei o que ela queria ouvir: que você não era nada, que era lixo humano, que eu a usaria e descartaria. Depois... quis ver você. Uma última vez. Sozinha. Pensei em contar tudo, mas quem eu tinha me tornado, quem você achava que eu era... Não ousei destruir aquele ardil.

“Sua última tarefa chegou, e... Quando ela começou a torturá-la, alguma coisa se partiu de uma forma que não pude explicar, apenas que ver você sangrando e gritando me devastou. Por fim, me destruiu. E eu soube, quando peguei aquela faca para matá- la... eu soube naquele momento o que você era. Soube que era minha parceira e estava apaixonada por outro macho, e tinha se destruído para salvá-lo, e isso... isso não importava. Se você morresse, eu morreria junto. Não podia parar de pensar nisso, de novo e de novo, conforme você gritava, enquanto eu tentava matar Gaia: você era minha parceira, minha parceira, minha parceira.

“Mas, depois, ela partiu seu pescoço.”

Lágrimas escorreram pelo rosto de Percy.

— E eu a senti morrer — sussurrou ele.

Lágrimas escorriam por minhas bochechas.

— E aquela coisa linda e maravilhosa que tinha entrado em minha vida, aquela dádiva do Caldeirão... tinha partido. Em meu desespero, eu me agarrei àquele laço. Não o do acordo, o acordo não era nada, o acordo era como uma teia de aranha. Mas me agarrei àquele laço entre nós, e puxei, e desejei que você se segurasse, que ficasse comigo, porque se pudéssemos ser livres... Se pudéssemos ser livres, então, nós sete estávamos lá. Poderíamos trazê-la de volta. E não me importava se eu precisasse dilacerar as mentes de todos para fazer isso. Eu os obrigaria a salvar você. — As mãos de Percy tremiam. — Você nos tinha libertado com seu último suspiro, e meu poder...envolvi meu poder naquele laço. O laço da parceria. Conseguia senti-la tremeluzindo ali, segurando.

Meu lar. Meu lar ficava na outra ponta da ligação, fora o que eu disse ao Entalhador de Ossos. Não Luke, não a Corte Primaveril, mas... Percy.

— Então, Gaia morreu, e falei com os Grão-Senhores, em suas mentes, convencendo-os a se apresentarem, a oferecerem aquela faísca de poder. Nenhum discordou. Acho que estavam chocados demais para dizer não. E... eu mais uma vez precisei ver Luke abraçar você. Beijar você. Queria ir para casa, para Velaris, masprecisava ficar, me certificar de que as coisas estivessem acontecendo como deviam, de que você estivesse bem. Então, esperei o máximo possível e lancei um puxão pelo laço. E você veio me encontrar.

“Quase contei naquele momento, mas... Você estava tão triste. E cansada. E, pela primeira vez, olhou para mim como... Como se eu tivesse algum valor. Então, prometi a mim mesmo que, da próxima vez que a visse, eu a libertaria do acordo. Porque era egoísta, sabia que se a libertasse naquele momento, ele a trancafiaria e eu jamais a veria de novo. Quando estava para deixá-la... Acho que transformar você em feérica fez o laço se encaixar permanentemente. Eu sabia que ele existia, mas me atingiu naquele momento, me atingiu com tanta força que entrei em pânico. Sabia que, se ficasse mais, ignoraria as consequências e a levaria comigo. E você me odiaria para sempre.

“Aterrissei na Corte Noturna quando Rachel me esperava, e estava tão agitado, tão...descontrolado, que contei tudo a ela. Não a via em cinquenta anos, e minhas primeiras palavras para Rachel foram: Ela é minha parceira. E durante três meses... durante três meses, tentei me convencer de que você estava melhor sem mim. Tentei me convencer de que tudo o que eu tinha feito levara você a me odiar. Mas a sentia pela ligação, por seu escudo mental aberto. Sentia sua dor, sua tristeza e solidão. Sentia que lutava para escapar da escuridão de Gaia da mesma forma que eu. Ouvi que se casaria com ele,.e disse a mim mesmo que estava feliz. Eu deveria deixá-la ser feliz, mesmo que aquilo acabasse comigo. Mesmo que fosse minha parceira, havia merecido aquela felicidade.

“No dia do casamento, eu planejara cair de bêbado com Leo, que não fazia ideia do motivo, mas... Mas, então, a senti de novo. Senti seu pânico e desespero, e ouvi implorar a alguém, qualquer um, para que a salvasse. Perdi a cabeça. Atravessei até o casamento e mal me lembrava de quem deveria ser, que papel deveria interpretar. Só podia ver você, naquele vestido de casamento idiota... tão magra. Tão, mas tão magra e pálida. E tive vontade de matar Luke por isso, mas precisava tirá-la dali. Precisava cobrar aquele acordo, apenas uma vez, para tirá-la de lá, ver se estava bem.”

Percy ergueu os olhos para mim, desolado.

— Fiquei arrasado, Annabeth, ao mandar você de volta. Ao vê-la definhar, mês a mês. Fiquei arrasado por saber que ele compartilhava sua cama. Não apenas porque você era minha parceira, mas porque eu... —Percy abaixou o olhar e, depois, ergueu-o para mim de novo. — Eu sabia... sabia que estava apaixonado por você no momento em que peguei a faca para matar Gaia.

“Quando você finalmente veio para cá... decidi que não contaria. Nada. Não alibertaria do acordo, porque seu ódio era melhor que enfrentar as duas alternativas: que não sentia nada por mim, ou que... que talvez sentisse algo semelhante e, se eu me permitisse amá-la, você seria tirada de mim. Assim como minha família o foi, assim como meus amigos o foram. Então, não contei a você. Observei-a definhar. Até aquele dia... Aquele dia em que ele a trancafiou.

“Eu o teria matado se estivesse lá. Mas quebrei regras muito fundamentais quando a levei. Thalia disse que, se eu fizesse com que você admitisse que somos parceiros, manteria qualquer problema longe de nossa porta, mas... Não podia impor o laço a você. Não podia tentar seduzi-la para que aceitasse o laço também. Mesmo que isso desse permissão a Luke para que declarasse guerra contra mim. Você já tinha passado por tanta coisa. Não queria que pensasse que tudo que fiz foi para conquistá-la, apenas para manter meu território a salvo. Mas eu não conseguia... Não conseguia parar de estar com você, e de amar você, e de querer você. Ainda não consigo ficar longe.”

Percy se recostou, soltando um longo suspiro. Devagar, eu me virei, para onde a sopa agora fervia, e servi uma concha em uma tigela.

Percy observou cada passo que dei até a mesa, com a tigela fumegante nas mãos. Parei diante dele, olhando para baixo.

E falei:

— Você me ama?

Percy assentiu.

E me perguntei se amor seria uma palavra muito fraca para o que ele sentia, o que tinha feito por mim. Pelo que eu sentia por ele.

Coloquei a tigela diante de Percy.

— Então, coma.


Notas Finais


Capítulo com IMENSAS revelações! O que acharam?


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...