História Uma dose violenta de qualquer coisa - Capítulo 27


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Adolescente, Amizade, Assassinato, Colegial, Drama, Lgbt, Romance, Tragedia
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 27 - Tenta ver meu coração


83 dias antes.

O toque do celular acordou Rafaela. Conferiu rapidamente o horário e amaldiçoou quem quer que estivesse ligando às 4 da manhã de um domingo mas, ao ver no identificador de chamadas que era Luana, a raiva foi logo esquecida e a curiosidade veio à tona.

Tossiu para limpar a voz mas, ao falar no aparelho, viu que não tinha adiantado:

-Luana...

-Boa noite, linda! – ouviu a loira dando risada do outro lado da linha e teve vontade de bater nela –Dormiu bem?

-Teria dormido melhor se meu celular não tivesse me acordado – alfinetou Rafaela.

-Estou vendo que o seu bom humor da manhã está impecável hoje, não? – ouvia um barulho ao fundo, concluiu que a amiga estava dirigindo e torceu para que não estivesse bêbada ou a caminho de alguma coisa que pudesse encrenca-la.

-O que você quer? – Rafa não estava com humor para as brincadeiras da loira então torcia para que ela dissesse logo o que queria.

-Sabe, estava pensando ontem – ela começou e, pelo jeito com que falava, Rafaela percebeu que ela não tinha a menor intenção de explicar porque tinha ligado de forma rápida e direta –Fazia muito tempo que não brigávamos desse jeito e não comemoramos a nossa reconciliação. Acho isso um absurdo! E você? O que acha disso?

-Acho que estamos a ponto de brigar de novo – Rafa tentou soar irritada mas ao ouvir a amiga rindo do outro lado da linha não conseguiu segurar seu riso.

-Uau, você acaba comigo desse jeito... – fez-se uma pausa um pouco longa demais mas Luana enfim continuou com a voz um pouco mais séria –Então, Rafa, que tal irmos dar uma volta? Só nós duas, pra nos certificarmos que está tudo bem e para eu me redimir por... Bem, você sabe.

Rafaela sentou na cama e esfregou os olhos, sentia-se totalmente desperta agora. O tom de voz da loira era aquele que ela usava quando algo a estava incomodando.

-Não tem nada pra você se redimir... E sim, eu adoraria passar o resto da minha noite sem graça com você.

-Perfeito! – Luana comemorou do outro lado da linha e Rafa quase pôde enxergar o sorriso dela na sua mente.

-Mas com algumas condições! – a garota acrescentou.

-Pode falar, é você que manda aqui!

-Nada de festas, nada de álcool, nada de pegadinhas, nada de garotos, nada de drogas...

-Merda! – ela escutou a loira rir –Você acabou de estragar a noite que eu tinha planejado...

Rafa sorriu enquanto caminhava em direção ao guarda-roupa e procurava algo para vestir.

***

Marina desligou o celular e encarou o teto do seu quarto exausta. Acordara com uma ligação do pai, ele fora chamado no hospital depois de outro surto da sua mãe e disse que passaria a noite lá caso os médicos precisassem de ajuda com alguma coisa ou autorização para algum procedimento. Ele ainda disse que tudo bem se ela chamasse Guilherme para passar um tempo com ela, não gostaria que a filha ficasse sozinha e desprotegida em casa mas, quando começou a procurar o nome do namorado na sua lista de contatos, acabou ligando para Eli e era o garoto de cabelos brancos que estava indo de madrugada passar o resto da noite com ela.

Marina sentia-se uma idiota. Além de ter chamado um garoto cujo namorado odiava para ficar com ela sozinha em casa, ainda tinha soado como uma garotinha indefesa ao telefone falando para o Eli como “não queria ficar sozinha” e como ”sua mãe estava mal de novo”. Claro que o garoto havia sido compreensivo e prometera chegar o mais rápido possível mas ela tinha uma sensação esquisita no peito, parecia algo errado de se fazer. Logo agora que Guilherme parecia estar relaxando em relação a tudo ela começava a dar motivos para ele ficar irritado. Nem poderia imaginar o que aconteceria caso o namorado descobrisse o que estava fazendo...

Assustou-se quando a campainha tocou, ele chegara mais rápido do que pensava ser possível.

-Marina, sou eu!

-Já estou indo! – ela respondeu e correu até a porta. Quando abriu, lá estava ele com os olhos cheios de sono, os cabelos emaranhados e o meio sorriso na boca –Desculpa ter te chamado a essa hora mas não queria ficar sozinha...

-Relaxa – ele a abraçou casualmente, como dois amigos se abraçariam mas ela ficou surpresa pelo toque e sentiu seu corpo inteiro ficar tenso –Não fui eu quem disse que era pra chamar caso precisasse de alguma coisa? Fico feliz que tenha feito isso...

Ela sorriu e se afastou do abraço dele. Tinha algo de perturbador em estar sozinha com Eli nessa casa que só agora sentia, a incerteza sobre o que queria chamando ele ali... Mas não teve tempo para processar direito o que estava sentindo pois ele a pegou pela mão e a puxou porta afora.

-Ei, o que você está fazendo? – ela perguntou meio rindo e meio tentando se desprender dele.

-Vamos dar uma volta, vai fazer você se sentir melhor... – então ele sorriu, aquele sorriso que era tão diferente do que ele dava habitualmente e Marina compreendeu que quando Eli sorria assim não conseguiria negar nada a ele.

***

-Uau, se arrumou desse jeito pra mim? – Luana provocou quando parou o carro na frente da casa de Rafaela e a garota saiu para encontra-la. Rafa se encolheu ao ouvir o comentário da amiga, não gostava de chamar atenção e tinha se esforçado para escolher uma roupa que não fizesse isso mas sentia-se desconfortável agora que os olhos cinzentos da garota a analisavam. Luana pareceu perceber isso pois logo riu e continuou –Vamos, entra logo, eu estava brincando! Você tem que parar de ser tão preocupada com como você se parece. Seu corpo é incrível, Rafa! Principalmente a sua bunda...

Rafa corou mas entrou no carro mesmo assim e respondeu tentando afastar a vergonha:

-Quer dizer que você fica reparando na minha bunda?

A garota viu quando Luana travou mas logo a loira pareceu normal novamente com aquele sorriso meio irônico e meio debochado no rosto.

-Essas suas respostas inesperadas acabam comigo – a loira comentou rindo baixinho e ficaram em silêncio pelo resto do caminho.

Rafaela encostou a testa no vidro da janela do passageiro e se permitiu relaxar pela primeira vez em muitos dias. Era reconfortante o frio que sentia através da janela, a música que tocava baixinho no rádio e a voz de Luana cantarolando baixinho a música ao seu lado. A noite não parecia tão escura nesse dia, era quase como se as estrelas estivessem iluminando o caminho para ela junto com os postes nas ruas vazias e Rafaela adorou isso. Adorou a sensação de que ela e Luana eram as únicas pessoas no mundo.

***

Marina estava sentada no banco do passageiro enquanto Eli atirava pedrinhas no lago. Gostou do fato do garoto tê-la levada para lá, era o melhor lugar para fazê-la se sentir melhor, tinha muita história ali. Muitas histórias boas.

-Você devia desistir, sabe que nunca vai fazer essas pedras quicarem na água! Isso é coisa de filme, não acontece de verdade... – Marina gritou colocando a cabeça para fora da janela, Eli se virou e riu.

-Você vai morder essa língua, Marina. Isso é física, é completamente real! E quando eu conseguir, vou te jogar no lago.

-Fechado, mas se você não conseguir eu que vou te jogar! – ela abriu a porta e caminhou até o lado do garoto. Ele continuou jogando as pedras enquanto conversavam.

-Veio me ver vencer uma aposta de perto?

-Não, vim aqui pra você não ter tempo de correr quando eu te empurrar – ela respondeu, o que fez Eli rir.

-Não devia falar com tanta certeza, às vezes coisas surpreendentes acontecem – ele comentou sorrindo.

-Isso não quer dizer que sejam coisas boas, entretanto – Eli encarou a loira no meio de um arremesso, o sorriso havia sumido do seu rosto.

-É da sua mãe que estamos falando? – o garoto perguntou com cautela.

-Nem tenho mais certeza do que eu estou falando – Marina respondeu encarando os próprios pés –E eu costumava ter tanta certeza de tudo, sabe? Sabia o que queria fazer da minha vida, sabia que amava meu namorado, sabia que meus pais estariam sempre bem e presentes pra mim, sabia tudo sobre a vida mas agora percebo que não sei de nada e isso está me deixando mais assustada do que eu achava ser possível...

-Sabe o que a gente tem que fazer quando fica com medo? – Eli perguntou enquanto continuava arremessando suas pedrinhas.

-O que?

-Continuar mesmo assim – ele fez uma pausa esperando que a loira retrucasse mas quando ela não o fez, ele continuou –Tive medo minha vida toda mas isso nunca me impediu de fazer nada, não vai te impedir de fazer também. Só tem que se livrar de tudo que esteja fazendo seus ombros pesarem e ir em frente...

-Está falando do Guilherme? – Marina perguntou.

-Estou falando de qualquer coisa – ele a olhou rapidamente antes de voltar sua atenção para o lago novamente. E então aconteceu...

Eli arremessou uma pedrinha, ela era um pouco maior do que as outras mas foi jogada no ângulo certo e quicou quatro vezes na água antes de afundar. Eli e Marina encararam a água por alguns segundos querendo se certificar de que o que tinha acontecido era verdade e as ondulações nos lugares onde a pedra tinha tocado antes de afundar provavam que tinha sido real.

-Ai meu deus – Eli gritou com um sorriso enorme no rosto –Você vai ficar toda encharcada!

Então sem esperar uma reação da loira, ela a pegou pelos ombros e começou a caminhar lentamente em direção ao lago. Marina começou a se mexer violentamente tentando se soltar enquanto ria e implorava ao mesmo tempo:

-Não, Eli! Por favor, você sabe que eu falei aquilo da boca pra fora, não é pra você me jogar de verdade!

-Marina, você teria deixado de me jogar se eu tivesse perdido?

A loira ficou em silêncio.

-Foi o que eu pensei.

Então, sem dar chance de Marina recomeçar suas reclamações, o garoto pulou na água com a loira nos ombros. Ambos sentiram a água gelada parecer espetar suas peles e gritaram quando emergiram.

-Ai meu deus, eu vou congelar – Marina se debatia desesperada mas com um sorriso no rosto.

-Claro que não – Eli se aproximou rindo e a puxou para perto, foi tão automático que ele não percebeu o que estava fazendo.

Marina parou de se debater e se segurou no pescoço dele para não afundar enquanto as mãos de Eli seguravam sua cintura. Ela via a fumaça da respiração de ambos se misturarem no ar por causa do frio e ficou desconcertada com o quanto estavam perto um do outro. Eli não tinha expressão, o rosto congelado em indiferença. Ela desejou saber o que ele pensava, desejou poder ver se ele queria aquilo tanto quanto ela mas não havia nenhuma pista ali, ele tinha se fechado como era tão característico dele.

-Acho melhor a gente ir pro carro – ela falou baixinho mas não queria sair dali, queria continuar perto dele, queria que os braços dele ficassem em volta dela por mais tempo.

-Sim – então ele simplesmente a soltou e ambos nadaram até a beira do lago.

***

Luana parou o carro em frente a escola e Rafaela imediatamente sentiu medo do que poderia acontecer.

-Luana, eu disse que...

-Calma – a loira sorriu enquanto a interrompia –Não é pra escola que vamos, é para a torre de comunicação.

-O que nós vamos fazer lá em cima?

-Quero te mostrar uma coisa.

Luana simplesmente saiu do carro e não deu tempo para Rafaela fazer mais perguntas ou tentar pará-la. Ambas caminharam silenciosamente em volta do prédio principal, onde ficavam as salas de aula e a administração da escola, e foram em direção à torre. Não havia o menor ruído naquela noite e todas as luzes estavam apagadas o que deixava Rafaela um pouco amedrontada mas parecia ter o efeito contrário em Luana que sorria enquanto avançavam e vez ou outra se virava para ter certeza de que a amiga ainda a seguia.

-Tem uma escada na parte de trás da torre, vamos conseguir chegar ao topo sem problemas – a loira comentou enquanto se aproximavam.

-Só quero entender o que tem lá em cima que seja tão interessante assim – Rafa alfinetou –Sabe que podemos ser presas por invasão e até mesmo vandalismo, não sabe?

-Vai valer a pena, te garanto – a loira sorriu enquanto dava a volta na torre.

Deram de cara com uma escada enferrujada acoplada na estrutura do objeto de metal e, quando Rafaela olhou para cima, o topo parecia estar a mil metros de altura. Rafa olhou Luana rapidamente para ver se ela parecia estar com medo mas a loira já estava subindo a escada então Rafaela engoliu seus receios e subiu logo atrás da amiga.

Enquanto avançava degrau por degrau, tentou não olhar para baixo. Sabia que se olhasse corria o risco de começar a tremer e quem sabe até escorregar e cair. Manteve toda a sua concentração nos pés de Luana e em como eles pareciam firmes e seguros na subida, agradeceu mentalmente pela loira ter ido na frente, teria ficado com vergonha dos seus pés medrosos.

Uma rajada de vento bateu subitamente e pareceu congelar os ossos de Rafa enquanto a jogava para o lado. A garota se segurou firmemente no metal gelado enquanto torcia para seus músculos não falharem, lutou contra o impulso de olhar para baixo. Sentia seus dedos ficarem dormentes de tão apertado que se segurava, a estrutura gelada estava pressionado contra sua bochecha enquanto mantinha os olhos fechados. Inspirou profundamente e abriu os olhos devagar, olhou para cima e viu Luana subindo em uma plataforma a poucos centímetros dela.

-Vamos, Rafa. Só mais um pouco – a loira a olhou preocupada, isso pareceu dar à garota um pouco de coragem e forçou-se a subir novamente.

Sentia os braços e pernas fracos por causa da mistura de frio e medo mas continuou até Luana agarrá-la pelo ombro e puxá-la para cima. Quando se viu sentada na plataforma, as duas começaram a rir histericamente.

-Você tinha que ver a sua cara, nunca vi ninguém com tanto medo – Luana enxugava as lágrimas de riso do rosto, suas mãos ainda seguravam os ombros de Rafa.

-Olha quem fala! Parecia que você ia começar a chorar a qualquer momento – Rafaela retrucou fazendo a loira rir ainda mais.

-Que noite, hein? – Luana comentou enquanto parava lentamente de rir mas pareceu lembrar de alguma coisa e voltou a ficar séria –Vamos, você tem que levantar. Quero te mostrar uma coisa...

Luana estendeu a mão para Rafaela e a ajudou a se levantar. Ambas caminharam juntas até a beira da grade de proteção da torre e encararam a cidade.

-Vou te explicar uma coisa e eu quero que você só me escute, ok? É importante, de verdade – Luana disse e Rafa permaneceu em silêncio, havia uma urgência na voz da loira que a convenceu de que deveria levar isso a sério.

As duas olharam para a cidade que se estendia a distância. Apesar de estar tão tarde, a vida ainda podia ser vista. Algumas áreas estavam mais escuras do que outras que tinham luzes piscando incessantemente, ocasionalmente ouviam o barulho de um carro ao longe e luzes de faróis virando ou seguindo em frente. As estrelas e a lua pareciam compensar a falta de brilho de algumas regiões e se esforçavam para iluminar ao máximo a escuridão mas sem tanto sucesso.

-É por isso que às vezes sumo – Luana começou e Rafa a encarou.

A loira mantinha toda sua concentração nas luzes à frente delas mas devia sentir o olhar da amiga nela.

-Vocês devem pensar que eu estou em alguma festa ou com algum garoto qualquer mas na verdade eu só procuro um lugar quieto e fico pensando sobre as coisas, tentando entender o que acontece comigo e como posso fazer tudo passar ou não parecer tão importante.

Rafa viu um bando de pássaros sair de um amontoado de árvores e voarem sem rumo pelo céu noturno. Eles giraram em frente à lua por alguns segundos antes de se dirigirem determinadamente em direção ao sul.

-Quando fico mal de verdade, eu preciso ficar quieta, preciso ficar em um lugar como esse ou todos os meus medos e pensamentos ruins podem acabar me engolindo e sei que nenhuma de vocês quer que isso aconteça então sumo por vocês também, não apenas por mim. Enfim, só queria te mostrar isso, achei que você é a única que conseguiria entender...

Rafa continuou observando todas as casas e prédios que se estendiam à frente delas, todas as luzes que se apagavam e todas as luzes que se acendiam no lugar delas, os carros andando em direção a alguma coisa ou lugar nenhum, o barulho do vento castigando as árvores, seus sentidos pareciam perceber tudo e nada ao mesmo tempo.

-Agora eu entendo totalmente – Rafa disse baixinho e achou que a amiga não tivesse escutado mas, quando olhou para Luana, a outra garota estava sorrindo.



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