História Uma dose violenta de qualquer coisa - Capítulo 37


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Adolescente, Amizade, Assassinato, Colegial, Drama, Lgbt, Romance, Tragedia
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Palavras 2.275
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 37 - Loba


15 dias antes.

Marina tentava desesperadamente resolver uma equação quando seu celular começou a tocar. Por um segundo pensou em ignorar a ligação, tinha que terminar essa tarefa até o final da noite, mas quando viu o nome de Eli na identificação não pôde resistir.

-O que você quer comigo à essa hora da noite? – perguntou rindo assim que atendeu o celular.

-Sinto muito – ele disse com uma voz forçadamente arrependida –Não pude esperar, tive uma ideia genial e acho que era minha obrigação compartilhar isso com você nesse exato momento...

-E o que seria essa ideia genial? – a loira estava curiosa, se inclinou na cadeira enquanto esperava uma resposta.

-Ora, é uma ideia bem simples, na verdade: Eu, você, próximo final de semana, sítio. O que me diz?

-Seria ótimo – ela sorriu segurando o aparelho –Mas não vejo como convencer meus pais a me deixarem ficar sozinha com um garoto por alguns dias a vários quilômetros de distância...

-Eles não precisam deixar se você for escondida – Eli sugeriu com malícia na voz.

-Que horrível, me incentivando a mentir para os meus pais! – ela fingiu estar indignada mas escutou a risada dele do outro lado da linha e sua tentativa de escondê-la.

-Como se você nunca tivesse feito isso, certo? Uma filha tão perfeita que nunca saiu no meio da noite para fazer algo ilegal ou secreto, não é? Sinto muito por sugerir que você manche sua reputação mas eu prometo um final de semana incrível com comida, piscina, sol, risadas e alguns beijos...

-Ok, você me convenceu com a parte da comida – a loira o interrompeu –Mas só alguns beijos?

A garota escutou Eli suspirar:

-Quantos beijos você quiser, Nina, sabe disso.

***

14 dias antes.

-Então, meu pai vai sair no final de semana e pensei que poderíamos fazer alguma coisa lá em casa – Luana disse na hora do almoço sentada com Marina e Rafaela no refeitório da escola –Podemos fazer uma festa, destruir minha casa e nos arrependermos depois...

-Parece tentador – Marina riu entre uma garfada e outra –Mas eu... Meio que já tenho planos...

Luana deu um sorriso malicioso e concentrou toda a sua atenção na outra loira:

-E quais seriam seus planos? Teria alguma coisa a ver com seu namorado secreto de cabelos brancos? Meu Deus, aposto que vocês vão para um motel... Vocês vão para um motel? Eu e a Rafa poderíamos aparecer pra fazer vocês dois ficarem sem graça...

-Nós não vamos para um motel! – Marina a interrompeu envergonhada mas logo sentiu-se mais envergonhada ainda ao perceber o quanto falara alto, algumas pessoas sentadas ao redor a encararam e a loira logo abaixou a cabeça e fingiu que nada tinha acontecido enquanto continuava –Vamos para o sítio.

-Ah, que pena... – Luana fingiu decepção mas logo sorriu e virou-se para Rafa –Parece que vamos ser só nós duas, muita bebida e bastante arrependimento...

-Parece perfeito pra mim – Rafaela respondeu para a surpresa de Luana.

A loira apenas deu um meio sorriso enquanto se concentrava na batata frita no seu prato.

***

12 dias antes.

-Desse jeito não vai sobrar nada quando ficarmos com fome de madrugada! – Eli brincou, Marina estava na cozinha fazendo o lanche da tarde. Tinham chegado ao sítio há poucas horas, um acidente na estrada os atrasara um pouco mas, apesar de terem ficado chateados por perderem algumas horas do final de semana perfeito, estavam decididos a não deixar mais nada atrapalhá-los.

-Claro que vai, o porta-malas está cheio de comida, Eli – Marina respondeu rindo –Você quer é ficar com toda a comida pra você...

-É um absurdo você pensar isso – o garoto se aproximou e abraçou a loira por trás –Só estou tentando cuidar de você.

Marina se virou e jogou os braços em volta do pescoço dele. A loira sorriu enquanto o beijava carinhosamente.

-Você é uma graça às vezes... – ela riu, os lábios a centímetros dos dele. Eli sorriu e se afastou com velocidade assim que conseguiu pegar o sanduíche que a loira preparava alguns segundos antes –Seu filho da puta, eu sabia!

A loira saiu correndo atrás do garoto enquanto as risadas dos dois ecoavam pela casa vazia.

***

-Uau, isso foi intenso – Luana comentou quando o filme acabou. Rafa estava calada tentando processar o final onde o protagonista, depois de abrir mão da família e amigos, havia fugido para uma floresta qualquer e morrido sozinho no meio do nada sem conseguir voltar para casa.

-Pesado – a garota disse por fim –Triste saber que ele queria voltar pra casa mas acabou não tendo a chance, pelo menos ele foi feliz por um tempo... Mas se isolar desse jeito? Quando tem pessoas que poderiam ter ajudado ele, pessoas que se importavam... Pesado.

Algo na expressão de Luana era indecifrável para Rafaela mas ela sabia que algum pensamento importante estava dentro da cabeça da amiga.

-Cada um tem seus motivos, talvez ele não quisesse incomodá-los, talvez ele pensasse que eles não se importavam de verdade... Vai saber. Mas não deixa de ser triste, tem razão nesse sentido, Rafaela.

Rafa balançou a cabeça concordando enquanto afundava cada vez mais no sofá da sala de estar da Luana. A loira levantou e perguntou com um sorriso no rosto:

-Que tal um brigadeiro?

-Perfeito – ela concordou e seguiu a loira até a cozinha.

Luana começou a separar os ingredientes enquanto Rafaela a observava sentada na bancada da cozinha. A regata usada pela loira deixava transparecer grande parte da sua tatuagem de lobo na escápula. Rafa sempre se perguntou quão forte seria a dor de tatuar aquele lugar, era um lugar com a pele tão fina e com tantos ossos, deveria doer tanto quanto a costela. Mas o resultado de toda aquele dor acabou se tornando uma coisa linda, talvez tivesse valido a pena no final das contas...

-Rafa, algum problema? – a loira perguntou com um sorriso irônico no rosto.

-Ah, nada... – Rafa desviou o olhar encabulada –É que... Eu estava olhando a sua tatuagem e me dei conta de que você nunca contou o porquê dela e eu nunca cheguei a perguntar porque achei que você contaria quando quisesse... O negócio é que você acabou não contando e sabe que eu sou uma pessoa curiosa.

Luana deu uma gargalhada e sentou na bancada ao lado de Rafaela.

-Você deve estar esperando uma história toda sentimental e poética sobre o porquê de eu ter decidido fazer essa tatuagem, né? – a loira encarou a amiga com uma sobrancelha erguida, Rafa ficou em silêncio parecendo um pouco constrangida o que fez Luana rir novamente –Sinto muito te decepcionar mas a explicação é extremamente sem graça...

A loira começou a examinar a lata de leite condensado que tinha nas mãos, não parecia ter pressa em contar o motivo da tatuagem e isso deixava Rafaela ainda mais apreensiva, todo esse mistério que a garota fazia questão de provocar o tempo todo era bastante inquietante às vezes.

-Então? – Rafa tentou encorajá-la.

Luana ergueu o olhar da lata e encarou a parede do outro lado. Sua expressão estava concentrada mas Rafa não saberia dizer exatamente em que. Não havia risos ou olhares cheios de ironia no rosto da amiga, apenas uma concentração perturbadora.

-Lealdade – a loira disse por fim.

-Lealdade – Rafaela repetiu como se fizesse todo o sentido mas, se essa fosse a resposta definitiva da amiga, ela aceitaria esse motivo sem questionar. Felizmente, não era parecia ser o caso pois a garota logo continuou:

-E astúcia também. Lobos são inteligentes e, quando entram em uma alcateia, costumam morrer por ela.

-Como você morreria por mim e Marina? – Rafa perguntou sorrindo.

-Exatamente como isso – Luana respondeu com um princípio de riso –Mas eles também podem ser muito solitários às vezes, eles podem se separar da alcateia por acidente e acabarem condenados a ficar sozinhos pra sempre. E, talvez, isso os torne agressivos porque vão ser obrigados a sobreviver por conta própria então, quando encontram a alcateia de novo, correm o risco de espantá-los e perde-los...

Rafaela não soube o que dizer apesar das centenas de coisas que se passavam pela sua cabeça. Queria dizer que ela não ficaria sozinha, que Luana nunca teria que se preocupar em acabar sem ninguém pois ela e Marina nunca iriam embora mas não conseguiu abrir a boca para dizer as palavras, apenas se manteve em silêncio enquanto a outra garota finalizava:

-E, acima de tudo, você pode fazer amizade e até mesmo conseguir dobrar um lobo mas ninguém nunca pode verdadeiramente domá-lo.

Luana se levantou e foi em direção ao fogão para fazer o brigadeiro, Rafa ficou sentada pensando em tudo que havia sido dito. A garota logo se levantou e caminhou lentamente até a amiga que estava de costas, voltou a encarar a tatuagem agora consciente de todo o seu significado. Enquanto Luana remexia a panela, Rafa se aproximou e beijou as costas da amiga, bem no focinho do lobo. Sentiu a loira ficar paralisada e, por um momento, sentiu-se envergonhada pelo que fizera, não entendia porque se deixara fazer aquilo, mas antes que algo pudesse ser dito, ela disse:

-Essa loba nunca vai ter que ficar sozinha... E, pelo menos eu e Marina, adoramos você do jeito que é, ninguém vai tentar te domar.

Luana balançou a cabeça concordando ainda de costas. Com a colher na mão da loira e o fogo ligado, as duas garotas ficaram em silêncio até o brigadeiro ferver.

***

11 dias antes.

Marina não queria admitir mas estava com um pouco de medo. Já era tarde e barulhos estranhos pareciam vir das árvores ao redor dela e Eli. O garoto achara uma ideia genial encerrarem o final de semana no sítio acampando mas, apesar da loira incialmente ter achado que poderia ser divertido e romântico, Marina estava morrendo de vontade de correr de volta para a segurança da casa.

-Consigo dizer, pelo jeito que você está me olhando agora, que se arrepende profundamente dessa ideia de acampar, certo? – Eli perguntou rindo enquanto montava a barraca.

Marina passou as mãos pelos cabelos mas acabou não conseguindo disfarçar seu nervosismo, Eli deu uma risada. A loira respondeu:

-Não é que eu esteja arrependida, é que agora que está escuro e estamos longe da casa eu percebo o quanto isso é assustador...

-Assustador? Você não tem motivos pra ficar assustada – o garoto retrucou enquanto lutava com as hastes de metal –Tem um namorado forte e corajoso pra te defender, não tem motivo pra ficar preocupada.

-Ah, claro – a loira revirou os olhos –Obviamente você vai me defender mesmo quando não consegue erguer uma barraca...

Eli conseguiu encaixar as estruturas de metal e a barraca foi erguida no momento em que a loira deixou a frase no ar. O garoto de cabelos brancos olhou para Marina com um sorriso irônico no rosto e sentou-se na grama ao lado da barraca que acabara de montar:

-Você precisa ter mais fé, Marina.

-Ok, ok, retiro o que eu disse – a garota sorriu e sentou ao lado de Eli –Enfim, queria agradecer pelo fim de semana apesar de estar aterrorizada nesse momento. Foi muito divertido, queria que pudéssemos fazer isso mais vezes...

-Quem disse que não podemos? – o garoto brincou e envolveu os ombros da loira com o braço.

-Tem razão, nós podemos... – Marina deixou a cabeça repousar no ombro de Eli e encararam o céu estrelado em silêncio. A loira sempre se surpreendia em como as estrelas ficavam mais brilhantes longe da cidade onde moravam mesmo que não fosse uma cidade poluída ou tão grande assim, talvez coisas bonitas só pudessem ser vistas longe de tudo...

-Queria tanto que essa não fosse nossa última noite aqui – Eli quebrou o silêncio, Marina balançou a cabeça concordando enquanto ainda continuava impressionada com o brilho do céu. A Lua saiu de trás das nuvens nesse momento e pareceu jogar luz sobre tudo, era como se nada mais pudesse ser escondido naquele momento.

-Não entendo como tem gente que não gosta da noite, é muito mais bonito do que o dia – o garoto comentou.

-Concordo.

-Sabe, quando eu era pequeno, o caseiro do sítio uma vez me contou uma velha história aqui da região sobre a lua – Eli sorriu timidamente como se temesse que fosse soar muito infantil, Marina virou o rosto para ele e procurou encorajá-lo:

-Eu adoraria ouvir, não faz ideia do quanto sou fascinada pela lua...

O garoto tirou os cabelos brancos da testa sem tirar os olhos do céu, Marina o imitou e voltou a encarar o espetáculo que se formava acima deles. Quase se assustou quando Eli começou a falar:

-Dizem que o sol e a lua se amavam, como você já deve ter ouvido falar em muitas histórias, mas as pessoas daqui acreditavam que ambos tinham personalidades muito diferentes e muito fortes então, por mais que se amassem e desejassem o bem um do outro, continuavam machucando-se e acabaram chegando a um ponto onde se feriram demais. Foi aí que se separaram. O sol passou a brilhar de dia para esconder suas cicatrizes e a lua brilha de noite porque não tem medo de mostrar as suas.

Marina não soube o que responder de imediato, era uma história bonita mas também bastante triste e algo dentro dela fez com que sentisse algo ruim, como se fosse um presságio ou algo do tipo. Abraçou Eli com mais força para afastar a sensação.

-Lembro de ter achado isso terrível quando era pequeno – ele continuou –Condenar duas pessoas que se amam a viverem separadas desse jeito.

-É muito cruel – Marina concordou com um nó na garganta.

Ficaram sentados encarando o céu por muito tempo até que o frio e o sono os levaram a finalmente entrarem na barraca.



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