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História Uma noite - harlivy - Capítulo 1


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Notas do Autor


A inspiração veio antes de harlivy canon, mas aqui vamos nós muito felizes.

Usei de cast mental a margot como Harley (por razões obvias), Selina minha zoe kravitz, nossa nova mulher gato e, o Clark é o meu bebê Henry Cavil único homem possivel. A dianna é a Gal.

A Pamela, nossa querida poison ivy, vocês imagem como quiser, mas minha atriz fav aqui é a Bridget Regan (vide gif abaixo).


Boa leitura

Domingo que vem tem o final. Talvez, até antes ;D @laurenutts

Capítulo 1 - 1: narcisos


Fanfic / Fanfiction Uma noite - harlivy - Capítulo 1 - 1: narcisos

I once was poison ivy, but now I’m your daisy

– don’t blame me

 

one shot. (parte um)

1.                                                

— Eu ainda não sei o que estou fazendo aqui.

Harley tem seus coturnos verdes erguidos no mezanino, quase em altura suficiente para os assentos abaixo verem as manchas pretas de cada sola. Selina quase ri com a ironia, sentada com a graça oposta ao seu lado:

— Que bom que a sua memória é bastante seletiva e consegue esquecer dos seus escândalos de imagem tão facilmente. Gostaria muito de ter a mesma facilidade. — A morena então se volta as suas costas quase caindo no assento — Por favor, tente não se portar como um garoto de doze.

Fingindo não ouvir a repreensão, Harley tenta encontrar o garçom do camarote para pedir alguma bebida descente. Só mascar chiclete a noite toda não combinava muito com a proposta de uma noite no teatro. Ainda uma que você nunca quis vir para começar.    

— Mas você é minha empresária. Eu te pago muito bem para se preocupar por mim, Kitty.

— Infelizmente paga.

— Então você precisa admitir que o que aconteceu com a minha imagem foi uma grande injustiça.

O sorriso nada sútil de Selina a faz ter a exata atitude madura de um garoto de doze anos ao apontar sua língua emburrada por ser contrariado. Por vezes, Harley ignorava como se portar devidamente sendo uma mulher no auge do cancelamento virtual aos trinta.

— Eu não vou admitir nada. — Rebate sem alterar seus olhos do programa de apresentação. Maldita noite de músicos clássicos.  — Quando te apontam como a razão do termino do casal número um da América minha opinião não vai mudar as suas ameaças de morte no twitter.

Ok. Aquilo era um pouco demais.

Como se ela tivesse mesmo tendo um caso com Clark Kent de todos os homens da terra. Ok, ele era muito gostoso. O tipo sarado de ombros largos, peitoral de aço no melhor estilo do Kansas e, uma personalidade que a fazia lembrar como nem todos os homens eram puro lixo.

 Mas ele era um enorme bebê homossexual embaixo daquela geladeira de músculos definidos.

A única razão de porque toda e qualquer publicação de fofoca daquele país a acusava de fazer Diana Prince sofrer por uma cruel traição era pela maldita festa de aniversário dele em Metrópoles. Merda. Uma festa logo na casa de Lex Luthor nunca podia dar em algo muito bom.

—  As pessoas são tão dramáticas. Era muito mais fácil eu ter sido pega beijando a Diana. Aqueles braços dela, porra.

Selina responde com um olhar ameaçador quando a vê de fato tentando se embebedar com o champanhe caro que o garçom trazia. Nada de álcool depois de beijar homens publicamente comprometidos, os engravatados da gravadora disseram.

Não importava se ela já era uma estrela reconhecida do rock and roll, com anos de carreira consolida e, 12 prêmios grammy. Era sempre sobre com quem você dormia.

— Você não vai beijar os braços de ninguém agora que está exilada em casa. Você tem a porra de um álbum para terminar e não vai sair daqui bêbada como um palhaço de circo.

Sua risada por fazer a morena perder alguma paciência com ela é um tanto contagiante. Quase a faz rir também. Mas Selina parecia no seu modo de negócios a noite toda por nenhuma razão aparente. Era um tanto frustrante.

Principalmente, pela parte de terminar um álbum.

Para isso, ela precisava começar primeiro. Mas ela não fala essa parte ou tem certeza que Selina a jogaria de cima daquele camarote.

— Tá. Mas pra que o concerto? Tudo aqui é tão... pomposo.

Harley se orgulhava de ser uma cantora das ruas de Gotham. Essa parte da sua fama a fazia durona. Era sua origem, mas até ela, uma moradora local pela metade da vida, só havia entrado naquele  teatro uma vez antes. Por uma excursão obrigatória das freiras do Orfanato Cyrus Pinkney.  

— Pode te dar alguma inspiração. Floyd me disse que você não consegue compor nada por semanas. E não era eu reclamando que não tinha nada para fazer na minha enorme mansão estupidamente cara.

— É porque eu achava que sair para ver música era sua forma de dizer show das Aves de Rapina. Não... isso....

— Agora entendo sua escolha peculiar de roupas para o teatro. — Comenta sem esconder o julgamento por sua jaqueta de couro da sorte ser a única parte com  aparência de nova naquela roupa. A camiseta da Madonna e os shorts desfiados, pareciam ambos surrados à primeira vista.

— Ei, esse é o meu estilo!

— Se é o que você diz. — Harley se faz de ofendida. Claro que era estilo, não era culpa sua se ele se perdia em algum lugar entre o de um  morador de rua e uma completa vadia.

— Vamos manter a noite clássica. Harls. Você pode se surpreender.

Desta parte, Harley duvidava muito.

Não era por qualquer desprezo idiota por música erudita no geral. Os violinos eram legais e, piano era seu instrumento favorito quando  estava compondo. Mas há uma grande diferença entre sair para ouvir Dinah Lance cantar como se o mundo fosse acabar e uma orquestra com algum arranjo de 1800. Ela esperava uma noite muito mais animada.

Expectativas sempre arruinavam tudo.

Selina não liga para sua cara de tédio e, alterna sua atenção entre o folder dourado dentro da capa de couro com a programação da noite e o próprio celular. Sempre trabalhando. Então, não é culpa sua se ela se ocupa com a mesma coisa.

Ver os memes que estavam fazendo sobre Clark era a única parte boa do seu cancelamento furioso. Era tão engraçado. Tudo podia ser manipulado, pensou. Até pessoas online se achando donas da razão por erguer seu amigo ao posto de maior pegador heterossexual do planeta, quando, era muito provável que ele estivesse fodendo o empresário no sigilo. Ela dormiu com mais mulheres do que ele jamais iria. As ironias da vida.

— Vamos. É hora de respeitar o teatro, garota.

As luzes todas diminuem ao ponto de a única fonte vir do palco. Os lugares do camarote são excelentes, com a vista panorâmica toda limpa e contando quase com uma elevação natural do tablado para diminuir a percepção de distância. Não dava para esperar menos das reservas para Selina Kyle.

Sem melhorar tanto assim a postura, mas o suficiente para suas costas voltarem a parecer as de um adulto normal, Harley observa a abertura com algum entusiasmo. De novo, violinos eram mesmo legais. Só que a percussão seguinte não a interessa tanto e ela diminui o brilho do celular para o mínimo para não dar tanto na cara sua falta de interesse.

Selina não a repreende mais. Seja por já esperar, ou por estar de fato imersa no espetáculo, o camarote se mantém silencioso todo o ato de entrada. Então, algo muda radicalmente o curso daquela noite quando a provável estrela do show faz o teatro explodir de aplausos.

A reação do público abaixo afasta a loira do celular por um momento, com um olhar duvidoso para o palco. Até ela entender. E, nossa, como ela entende. Era como se uma deusa literal tivesse tomado seu lugar de direito no centro do teatro com um violoncelo e, fosse, literalmente, impossível não olhar para ela.

Uau.  

Harley tinha certeza que estava babando. Porra. É um milagre completo que Selina não jogue isso na sua cara de imediato com o tanto de saliva que ela estava produzindo agora.

Ali estava uma mulher que nunca viu antes na vida e, assim, tão simples quanto a visão do seu vestido verde profundo seu cérebro já a queria nomear como a mais bonita de todas; Ok, não era tão absurdo assim era? Segundo a sua reputação, se havia alguém que conhecia modelos e mulheres bonitas, esse alguém era ela. Harley. Freakin. Quinn.

Mesmo sem ter um tipo especifico em mente quando o assunto era atração, é difícil imaginar que dona dos cabelos ruivos no palco fosse qualquer coisa além do tipo de todo mundo. Especialmente, dos fracos de espirito como ela.

Harley não pode fazer nada, além de tentar não piscar muito quando o dedilhar do celo começa.    

Era bom o maldito garçom ter água.

Sua garganta já estava seca.

(...)

No primeiro intervalo, Selina sai do camarote sem qualquer explicação e Harley sequer percebe de imediato.

Era a vez dela de examinar como uma psicopata toda a descrição do concerto no index da apresentação. A capa de couro quase desliza pela sua mão. De fato, ela precisava se hidratar.

Com o garçom servindo sua amada água com gás, a pesquisa em seu celular corre solta por qualquer informação sobre a musicista principal do espetáculo.

Pamela Isley.                                                                                                                    

Muitos outros programas de shows aparecem, datas, prémios, titulação em belas artes, até um curso sobre composições, mas, nada, nenhuma mesmo, maldita rede social à vista. Isso dificulta seu plano inicial de mandar uma DM com o seu endereço imediatamente e contratar uma apresentação particular.

Ok, ela não era esse tipo de famosa estúpida. Talvez, só um pouco estúpida, mas sem qualquer relação com a fama. Ela só queria alguma informação sobre a ruiva bonita para além do nome e enorme talento latente. E, claro, achar um Instagram com fotos dela naquele vestido encrustado de pontos brilhantes, como esmeraldas, também não ia ser um castigo terrível.

— Então, interessada na apresentação agora?

— Muito inspiradora. — Diz esperando não entregar suas intenções de bandeja para Selina. A primeira reação que ela ganharia seria uma viagem de volta para casa, com um aviso verbal gigante sobre preservar sua imagem.

Por sorte, sua empresária parece mais interessada no champanhe. Não era tão incomum suas atitudes estranhas de interesse quando relacionadas à música. Nessas horas, até a faziam parecer inspirada.

As luzes então voltam a enfraquecer e Harley se senta, pela primeira vez, ereta como uma flecha no meio da poltrona de camurça.

O refletor agora centraliza tanto um cara de traços orientais no piano, quanto a ruiva com rosto quase relaxado, ao girar o violoncelo com a mão esquerda. Seu controle parece absoluto. Os aplausos não parecem suficientes.

O primeiro conjunto de acordes intricados vem com o tipo de facilidade que faz Harley querer sorrir. Sim, isso era puro talento. Quase como se Vivaldi houvesse composto o inicio daquela peça pensando nela. A peça clássica de Bach vem em seguida, então, uma mistura com um grande solo autoral.

Embora nunca tenha estudado, a loira gostava de pensar em si mesma como uma autodidata de desenhos velhos com excelente gosto. Uma boa maratona de Tom e Jerry conseguia passar por pelo menos metade de todos os compositores clássicos. E assim, ela foi aprendendo sobre música.

O arranjo volta a ser como uma corrida de obstáculos, primeiro acelerando, depois suavizando com o acompanhamento. A habilidade dela a permitia brincar com o instrumento como bem entendia, indo desde o dedilhar de Michael Jackson e Beyonce, até um giro de 360° e a finalização com um leve som grave de guitarra.

Harley arregala os olhos ao ver que esse ainda não era o ápice da apresentação. Não, o pico só parece ser atingindo quando seus movimentos arrebatadores conseguem ser mais rápidos, então mais rápidos, até chegar à sensação de a agarrar pela mão e a conduzir até o palco.

Em contrapartida, a musicista parece continuar inabalável.

Sim, contaminada com a música, mas sem nunca sair do controle. Sempre comandando as pausas. Ora, deixando o público respirar com a calma da melodia, ora escalando para o próximo nível. Como se contasse uma história impossível de parar de ouvir.

A impressão de que a apresentação era praticamente algo privado, direcionado apenas para ela, não era uma sensação só de Harley. Ela sabe. Aquela era a mágica de uma performance incrível. Fazer cada pessoa de cada canto do teatro sentir como se cada nota fosse direcionada apenas para si.

Ainda assim, antes do segundo intervalo, sua decisão impulsiva da noite estava tomada. Ela vai falar com aquela mulher depois da apresentação. Ela precisava.

Tanto quanto precisava de mais água com gás.

(...)

Ainda dava para ouvir o entusiasmo dos aplausos quando Harley consegue fugir para os bastidores.

Graças a presença de Lucius Fox, com seus sempre muitos assuntos da gravadora para tratar com Selina, sua desculpa para escapar não parece tão maltrapilha quanto suas roupas hoje. A perspectiva de ir encontrar com uma semi deusa vestida como um milhão de dólares a deixa um pouco mais autoconsciente da própria aparência. Pelo menos, ela ainda cheirava bem.

Usando seu passe de pessoa famosa com tatuagens no rosto muito características, o assistente no limite da entrada de funcionários a deixa passar sem perguntas. Na sequência, depois de uma extensa área de figurinos e cenários desmontados, as portas dos camarins eram separadas por uma fita vermelha de reservado e uma garota com óculos baixos de plantão.

— Com licença, preciso da sua identificação.

Harley pisca algumas vezes pensando na forma menos babaca de dizer que não precisava de uma. Só então, a menina arruma os óculos e quase derruba o próprio celular ao reconhecê-la.

— Cacete. Harley. Quinn. É você. — A euforia genuína no seu tom de voz faz Harley entender a situação fã, antes que a garota explique — Nossa eu tenho todos os seus álbuns, tipo, cada um deles, até o EP do Esquadrão Suicida.

O sorriso fácil vem aos seus lábios ao perceber que aquela entrada também estava garantida. A garota a conhecia desde os tempos da sua antiga banda.

— Sim, sim, querida, posso tirar uma selfie depois. Posso passar logo?

A garota ainda tem a maior cara de fã emocionada possível quando informa: — Não. — O sorriso de Harley morre. — Desculpe, tipo, desculpa mesmo, mas você não tem um passe e esses camarins são de acesso restrito.

Malditos jovens com ética de trabalho, pensa aborrecida. Claro, ela não seria vencida assim tão fácil.

— Tenho certeza que você pode abrir uma exceção pra mim. Só quero cumprimentar o show de outra colega de profissão, vai ser super rápido. Promessa.

— Eu entendo. — Concorda empolgada.  — Mas não posso deixá-la passar.

Harley olha sem entender para a garota de crachá torto de sobrenome Gordon. Porque diabos uma fã havia resolvido fazer a sua noite mais difícil? Ela era uma pobre rockstar com necessidades de flerte com mulheres mortalmente bonitas. Alguém precisava subornar aquela garota.

— Quanto você quer, criança? Eu não trouxe carteira, mas posso te transferir via paypal.

Harley estava prestes a puxar o celular da jaqueta para garantir a transação, quando a garota começa a negar, já com o rosto completamente vermelho:

— Sério. Eu super deixaria, mas, eu juro, que não é um bom momento. A senhorita Isley pediu para não ser incomoda por ninguém. — A cantora analisou a menina de óculos tentando ler se era uma mentira para se livrar dela. Ainda um tanto vermelha, completa: — Mesmo se eu te deixar passar ela ainda vai estar ocupada lá dentro. 

— Eu poderia esperar. — Rebate.

— Não é mesmo um bom momento.

Bom. Parecia verdade. A garota parecia desesperada para que Harley acreditasse, então, ela não questiona mais. Com os braços semi cruzados, a cantora pensa na maneira alternativa mais prática de fazer aquilo acontecer.

Ela vê um cara com um depósito de muitas, muitas flores mesmo, passando com uma porção de presentes sobre um carrinho de bagagem. Seu crachá diz Ozzy e, ele parece meio desligado do mundo, mas a faz perceber o óbvio.

— Parece que eu não sou a única encantada com a apresentação dela. — Conclui em voz alta.

— Sim. A senhorita Isley era a solista mais esperada da temporada. Temos todos os ingressos esgotados há meses. — Justifica ainda com o rosto quente. — Posso tirar uma selfie com você agora? — pergunta ainda esperançosa.

— Você vai me deixar passar?

— Não.

— Então quem sabe amanhã.

(...)

Na noite seguinte, Harley volta.

Ela tem um buquê cheio das rosas mais caras da floricultura — ao menos segundo Nygma, seu assistente, e lugares para o espetáculo quase tão bons quanto a noite anterior. Ainda entre os camarotes. O pobre garoto quase fez milagre para conseguir os ingressos, pensou.

Consciente das próprias intenções, Harley veio o oposto da noite anterior no quesito moda. Agora com suas calças pretas de couro fosco e uma blusa branca de seda, com o decote quase indecentemente aberto, havia fogo nos seus olhos. Até Bud e Lou pareciam saber que ela estava tramando alguma coisa. Seus cachorros eram muito sensitivos as vezes.

— Seu coquetel, madame.

Ninguém a estava vigiando hoje, então, nada como margarita para animar o espírito era seu mantra pessoal. Com uma gorjeta alta para o garçom garantir seu corpo cheio, a loira de cabelos meticulosamente bagunçados aguarda o show começar com uma postura impecável. Ah, se Selina pudesse vê-la...

... provavelmente ia apontar sua hipocrisia de apenas ser eficiente quando o assunto era impressionar mulheres. Bom, sim, mas era um esforço natural. Não era culpa sua se ela era tão boa na preparação, ao contrário do seu eu desleixado de sempre. Ela só precisava de motivação.

Pamela Isley era um motivo dos bons. Uma musicista tão talentosa merecia ser impressionada à altura do quanto afetava seu público. Sim, motivos genuínos, nada relacionado ao quão atraente aquela mulher era.

Desta vez sua pesquisa também era um pouco melhor. Mesmo sem as redes sociais, qualquer entrevista gravada, ou fotos pessoais, os sites da crítica especializada adoravam Pamela. Ela sempre teve muito da atenção deles, embora aquele espetáculo  parecesse um nível acima nos comentários de todos. Dava para entender o porquê.

Sobre a vida pessoal, não havia sequer migalhas. Sinceramente, parecia que ela morava em alguma caverna quando não estava se apresentando, sendo de fato impossível mandar uma DM para a sua assessoria inexistente. Não era muito fácil descobrir se existe algum atração recíproca por mulheres a esperado, embora também não havia sinal contra. Era uma aposta de 50, talvez, até 70%. Pois ninguém do meio musical era tão hetero assim.

De certa forma, o mistério aumentava ainda mais a vontade de Harley encontrá-la. Até as fotos na entrada do teatro pareciam intensificar essa sensação.

Notando agora todos os posters que havia ignorado na noite anterior, Harley demora um momento a mais na enorme imagem dela com vestido preto de gala ao lado do violoncelo invernizado. Uau. Aquela tinha de ser a mulher com o olhar mais magnético que ela já viu na vida. O universo ia ser um desgraçado, se a tivesse feito uma heterosexual estrita.

Hoje, um pouco menos tomada pela euforia hipnótica da primeira apresentação, pode-se notar melhor os detalhes. Para além do vestido luxuoso, o dedilhar ágil, o puro talento parecia exalar dela. Alguém também precisava lhe explicar como aquela mulher parecia tão bem depois de tanto esforço prolongado. Ela nem suava! Como isso era possível?

Selina precisava contratar o técnico de luz do teatro, pois ela nunca saiu de um show inteiro tão bem assim, mesmo quando ela não pulava como uma maluca no palco, sempre acabava toda banhada de suor.

Hoje o figurino também era outro. O vestido dela era vermelho da cor encorpada de um vinho caro, o que fazia um contraste interessante com seu cabelo preso com as ondas da frente soltas e o instrumento sobre suas pernas quase atingindo a mesma cor de tão polido.

Harley observa por quase uma hora completa o extenso repertório da musicista e, desta vez, aplaude por longos instantes como todo o resto do público. Havia sido outro show para não se esquecer.

(...)

— Boa noite, senhorita Quinzel. Ou, Harleen Quinzel se preferir.

Ah, merda. Essa era coisa irritantes dos fãs, eles sempre sabiam a droga do seu nome real.

— Harley é o suficiente, Gordon. Pode me chamar assim.

A garota parece tão feliz de poder chamar a cantora pelo nome, que a loira tem um pouco de medo que ela desmaie de tanto sorrir. Bom, pelo menos se ela desmaiasse alguém a ia deixar passar, certo? Era preciso olhar o lado positivo sempre, pensa com malícia.

— Então, posso passar agora?

O enorme buquê vem dentro de uma cesta ainda maior e é carregada pelo próprio Nygma na direção do carrinho de presentes do tal Ozzy. Parecia um pouco menor que ontem, mas ainda cheio.

— Não. — Repetiu com um entusiasmo irritante.

Harley a olha quase de forma psicopata.

Notando a falta de tato para dar péssimas notícias, a garota de crachá ainda mais torto hoje, tenta explicar: — A senhorita Isley não desceu para o camarim desta vez. Ela não costuma sair com o vestido da apresentação, mas... ocorreu algo eu suponho. Ela não sai sem casaco.

Percebendo que falou demais, a garota Gordon suspira nervosamente. Harley também suspira, mas de frustação.

 — Posso dar um conselho para a senhorita?

— Claro. — Ironiza.

— Não traga um buquê. Traga as flores ainda plantadas num jarro.

Antes pronta para ignorar, Harley se volta com o semblante mais interessado. A garota parece saber do que estava falando se prestava tanta atenção assim em Pamela Isley. Afinal, embora o seu buque fosse o mais caro e, o maior, do carro de presentes, ainda era ordinariamente parecido aos demais. 

— Mais alguma dica?

— Rosas são bonitas, mas... Senhorita Isley prefere sempre algo mais verde.

— Todas as plantas são verdes, Gordon.

— Sim, mas ela sempre prefere as plantas. — Rebate como se fosse a resposta de um mistério muito difícil.  — As únicas flores que ela mantém no camarim são as mais claras, tipo, como as brancas e amarelas sabe. Acho que são as favoritas dela.

— Agora sim você disse a coisa certa.

(...)

Harley não é nada além de persistente.

Ela gosta de pensar nisso como uma grande qualidade, mas, de fato, era outra daquelas características de dois gumes afiados. Seu assistente não deve ficar muito contente em precisar arrumar ingressos esgotados outra noite seguida, mas hoje não importa. Ela quer ver Pamela Isley de qualquer maneira.

Acontece que Selina, mesmo se estivesse a par dos seus planos de conquista, não se importa em estragar sua noite.

Vou te esperar no bar do Iceberg Lounge às onze. Consegui convencer a mãe de Diana a fazer algum controle de danos. — Harley nem consegue retrucar ao telefone. — Não se atrase. Ou juro que quebro você inteira. Depois disso a agenda dela é só filmagem na Grécia e eu não vou poder mais limpar essa merda.

Droga.

Aquilo tornava as coisas bem mais complicadas.

Mas não impossíveis, pensa ainda imperturbável com a ideia de manter seus planos de antes. O concerto acabava perto das dez. Se o horário dos preparativos se mantivesse, nem o seu atraso clássico ia precisar existir hoje.

E, ao invés de se jogar no sofá novamente e ligar para Nygma, Harley decide agir por conta própria. Ela procura o nome de alguma floricultura famosa no centro da cidade e parte para as compras pensando nas dicas sobre plantas.

Mesmo sem entender nada de flores, vasos, ou até mesmo do ato de ir até uma floricultura (era sua primeira vez), a atendente foi boa o suficiente para a guiar pelas prateleiras das mais diversas cores. Com uma profunda dúvida do que comprar, Harley só tomou uma decisão ao ver as delicadas flores amarelas bem vivido com a parte interna ainda prestes a desabrochar. Eram lindas.

Ela as leva plantada no jarro branco um pouco maior que suas duas mãos juntas. Dessa vez é ela quem carrega e entrega nas mãos da garota de óculos em frente a linha vermelha dos camarins. Tudo antes do show. Harley queria se certificar que a musicista as recebesse antes.

Até a selfie ela tira com a garota, que tem a sorte de a pegar um pouco mais arrumada que o usual. Se hoje era noite de fingir ser flagrada com Diana, como boas amigas, ela não queria parecer uma criança órfã. Ela era uma adulta órfã, com vários milhares de dólares na conta. As vezes tinha de tentar parecer com uma.

Após outra apresentação impecável, com mais vontade do que nunca de conhecer Pamela, a loira se dirige até lá com suas calças vermelhas coladas e blusa preta aberta novamente pelo decote de botões. Sua jaqueta da sorte, talvez, cairia bem, mas ela estava tentando não parecer a garota má hoje.

Desta vez, ela não espera nem de longe encontrar com Selina nos bastidores do teatro, desfilando no seu macacão vermelho Gucci.

— O que você faz aqui? — pergunta com sua melhor cara de inocente. Como se ela não tivesse vindo três noites seguidas para tentar falar com uma mulher quase inacessível.

— Eu poderia perguntar o mesmo, Harls. Achei que você estivesse mais interessadas em assistir as Aves de Rapina.  

— É... sim, mas só... resolvi mudar um pouco. E passar para cumprimentar após o show. — Desconversa querendo evitar a parte constrangedora. Selina era uma boa amiga, mas uma excelente empresária e ia a desossar ali mesmo se soubesse das suas intenções para a noite.

— Se eu não te conhecesse melhor poderia jurar que está interessada mesmo na música e não em Pamela.

— Você a conhece? — Responde de pronto e, só então percebe seu erro. — Quer dizer... não sabia que você tinha contatos até aqui.

— Nessa altura da vida, Harls, você deveria saber que eu conheço todo mundo e tenho contatos em todos os lugares. — A pele oliva dela parece brilhar mais quando sabe que tem razão: — Guarde esse sorriso bobo, ela não vai cair nele como você espera. E não ouse se atrasar nem um minuto.

Ok, talvez, Selina a conhecesse um pouco bem demais. E era ótimo, que ela fosse sua empresária e não sua inimiga, ou sua carreira estaria muito ferrada agora.

— Deixe a garota entrar, Barbara. — Finaliza antes de seguir na direção da saída dos bastidores. A garota de óculos parece satisfeita ao tirar a fita vermelha e apontar com o dedão para a camiseta preta dela com uma das suas músicas mais famosas grafitadas.  

— É, valeu, Barbara. — Agradece seguindo, enfim, para os camarotes. A terceira vez parece ter tido alguma sorte de fato. Não ia ser um sábado perdido.

Com uma respiração profunda, Harley caminha decidida. Mais próxima do que nunca, sem parar para olhar o homem de terno que tentava fazer o mesmo e era barrado por Barbara por trás da linha.

A placa preta com letras douradas traz: Pamela Isley. Era um nome lindo para uma mulher tão bonita quanto. Ela só espera que coisas clichês como essa não saíssem da sua boca em voz alta. Seria perder feio antes de ao menos tentar.

Ela bate duas vezes na porta para anunciar a própria entrada e abre a porta:

— Com licença. — Diz limpando a voz.

— Oh. — Reage virando-se para a porta. —  Você não é Harvey Dent.

Harley deseja que seu cérebro funcione minimamente agora, mas algo parece congelado ao ouvir a musicista falar com ela pela primeira vez.

Ok, talvez, não no sentido mais romântico da coisa.

Era menos pela sua voz muito impressionante e mais como seu cabelo parecia o próprio pecado em ondas suaves sob o colo daquele vestido preto luxuoso. Era idêntico aos posters lá fora.

Uau.

Ela era ainda mais gostosa pessoalmente.

Harley se repreende por ser uma fraca superficial. Mas ela amava a beleza em todas as suas curvas. Alguém podia a culpar?

— Desculpe, você esperava por alguém? — Comenta escondendo uma mão no bolso. Não, ela não estava nervosa. Mas se estivesse, era uma boa maneira de parecer no controle.

— Nem de longe, querida, sua visão é muito mais prazerosa aos olhos. — Sorri. É a primeira vez, que Harley nota o tom sedutor natural da sua voz. — Achei que Barbara não ia ser capaz de evitar outra pessoa. Mas não me oponho nem um pouco a recebê-la.

O camarim é espaçoso, com todo o espelho clássico cercado de luzes no fundo e um biombo para trocas de roupa. Harley percebe o instrumento da apresentação já guardado na capa e como havia mesmo plantas por todo lado. Valeu mesmo, Barbara, pensa, se aproximando do sofá ali disposto.

— Eu sou apenas uma fã, pode-se dizer assim. — Nossa ela soava tão formal. Argh. Fale como uma pessoa normal porra, repreende Harleen na sua cabeça.  — Vi o espetáculo duas noites seguidas e estava tentando passar para te parabenizar.

Era a terceira noite. Mas ela não precisava saber desse detalhe. Ela queria ser uma fã, não uma maluca obsessiva.

— E qual seria o nome da minha fã?

— Harleen. — Responde quase contente demais por não ser reconhecida.  — Harley. — Corrige logo em seguida.

— Parece que alguém está em dúvida aqui.

Harley. — Reafirma. —  Pode me chamar assim, é como todo mundo me chama.  

— Tudo bem, Harley. Eu sou Pamela. — Comenta indo na direção de uma mesa com o vaso branco no centro. — Mas você já sabe disso, ou não teria deixado essas preciosidades no meu camarim mais cedo. Obrigada pelo cartão. Muito atencioso da sua parte.

— Eu disse que era uma fã.

Pare de dizer isso sua idiota! Argh. Tão. clichê.

— Bom, obrigada pela atenção. Embora eu suponho que você não saiba que flores como essa tem um significado interessante.

Harley pisca devagar por um momento. Merda, ela tinha visto isso há muito tempo em um filme sobre uma florista. Mas a sua memoria tendia a ser uma porcaria.

— Hm, bem, eu vi imagine me and you a muito tempo. — Sim, era esse o maldito filme. — Então, não tinha nenhum deles em mente quando fui escolher.

— Então não nega que as escolheu?

Isso por alguma razão parece importante. Harley dá de ombros, mas responde da mesma maneira:

— Nem um pouco. Eu queria te dar algo tão bonito quanto a forma como você toca. Pena que não sei se flores assim existem.

Ok, ela espera que aquilo soe tão bom quanto na sua cabeça. Ao menos, na parte da sua cabeça que não a chamava de idiota chapada agora mesmo.

Por um momento, Harley realmente acha que a deixou sem palavras, ou estragou tudo. Todas ótimas possibilidades para se tomar um fora espetacular em minutos. Só, que, Pamela Isley nunca fica sem o que dizer. Harley perceberia isso muito rapidamente.

— Narcisos. — Aponta para o jarro. — Uma escolha muito peculiar sem dúvida. É uma flor sempre muito interessante, com muito a dizer. Vejo que você conseguiu encontrar uma dúzia das mais bonitas.

— Muito a dizer como mais de um significado? — pergunta debilmente. Qual é, Harley, você já foi mais inteligente. Como você compra algo sem saber o mínimo? Isso que dava se guiar só pela beleza.

— Oh, vários deles. — Harley precisava se lembrar de procurar no google qual o significado de narcisos. Será se eles serem amarelos importava? Vai ver sim.  — Mas receio que não possa contar todos agora, a hora não está a meu favor.

Harley fica estática um momento. Garota, você está sendo dispensada! Sua voz interior claramente gostava de tripudiar. 

— Sim, claro, você deve querer ir embora. Desculpa mesmo pela a intromissão.

— Você não se intrometeu. — Corta antes que Harley possa sentir pena de si mesma. — Só realmente, tenho esse compromisso em alguns minutos e ainda não me troquei. Um jantar. Eu não costumo chamar fãs para me acompanhar, mas acredito, que não vá ser necessário. Você vai achar seu caminho, não é mesmo, Harley?

Ela não entende o que a mulher quer dizer até seu celular tocar. Era Selina. A mensagem a manda parar de tentar foder Pamela Isley, pois a sua convidada não podia se atrasar.

Convidada?  

Ah, não.

(....)

— O que ela está fazendo aqui?

É um pouco difícil não soar mesquinha, mas Harley se sente enganada. Aquele jantar até podia ser sobre limpar sua imagem, mas era muito mais sobre Diana Prince ficando com tudo. Provavelmente, prevendo problemas com o excesso de drinques, Selina a acompanhou até o bar do Lounge.  

— Você acha mesmo que Diana ia vir de graça pra ver você? Você é engraçada, Harls, mas péssima para a reputação. Não. Ela adora a Pamela e sua música dos deuses e tava louca para ter uma conversa privada. Eu fiz acontecer.

— E eu achando que você apreciava música clássica no seu tempo livre. — Ironiza. Ela pede para o bartender trocar a próxima margarita por um dry martini. Era preciso Gim e vermute para aceitar que Diana mal havia chegado e, já tinha toda a atenção que ela lutou três dias para tentar conseguir. As boas garotas sempre estragavam tudo.

— Quem me dera ter tempo livre, meu bem. Todo momento é hora para bons negócios. — Beberica um gole do uísque como uma vencedora. — E Fox recebeu ordens de por ela no time. Eu me antecipei.

—  Você está tentando fazer ela assinar com Bruce?

— Claro.

— É, mas... como? Não parece o tipo do que ele assina normalmente.

Bruce Wayne era dono de quase toda Gotham e da gravadora que a lançou na música. A DC Records era toda voltada aos gêneros dominantes do grande público como as demais concorrentes, embora tivesse seus projetos especiais. Pelo visto eles tinham muito mais negócios do que qualquer parte da sua cabeça se preocuparia em adivinhar.

— Sempre é o momento de expandir horizontes, Harls. — Harley revira os olhos com a resposta pronta. Selina tinha a expressão de triunfo, que só um de seus planos brilhantes trazia, era obvio, como havia muito mais. — Um foco bom para um talento como o dela não é o comercial dos CDS. Embora muitos dos seus fãs fervorosos ali poderiam apreciar um spotify dela dedilhando pela eternidade, a nossa ruiva é uma mina de prêmios.  

A loira vira o martini jogando a azeitona de lado ao ver o quanto Diana ri na mesa de jantar, com ninguém menos do que Pamela Isley a sua frente. Nossa, como ela se sente amarga, tal como a bebida.

— Não. Nós a queremos para feitos maiores. Para os filmes, para os jogos, pra quem pagar mais. Com um talento desses vamos garantir um Oscar na próxima temporada e um contrato vantajoso com algum estúdio grande. Diana se for esperta está pensando a mesma coisa que eu e vai se agarrar nela.   

Harley ri com a ironia. As coisas que ela estava pensando não eram muito diferentes.

(...)

— c te apelidou de rotten tomato de homens?

O tom incrédulo de Pamela a impede de revirar os olhos, embora o comentário anterior de Selina mereça. Alguém podia impedir sua empresária de relembrar a cada cinco minutos como todo o país agora a conhece como uma legitima fura olho. Não ajudava com seus planos de flerte.

— Eu avisei que essa tatuagem era ótima para linchamentos futuros, vocês acham que ela me ouviu?

— O coração em cima dá um certo apelo, não?  — Defende Diana. 

— Tá bom, mulher maravilha, agora você pegou pesado.

Selina brinca como Diana passou da cota de champanhe, algo que Harley agradece. A noite estava passando rápido e, se a atenção continuasse nela, não ia sobrar nada para ela conversar propriamente com Pamela.

— Então, é por isso que eu tive a impressão de já ter visto minha fã antes?

Pamela volta a perguntar. Novamente, Diana não perde a oportunidade:

— Ela quebrou meu coração, sabe. Mal consegui superar.

— Por favor, eu sei que você não tem um coração partido desde o último filme de Mera. — Ironiza Selina. A preferência dela por ruivas não era nenhum segredo. — Clark nem era mais tão bom partido assim. Você sabe que eu posso te arrumar coisa melhor.

Conseguindo o feito inédito da noite, o de tirar a atenção de Diana de Pamela, Harley se volta para a musicista ao seu lado da mesa. Era um bocado mais difícil se concentrar com uma mulher daquelas cheirando tão bem, tão perto, mas era uma tortura valiosa. Havia uma resposta pendente entre elas:

— Então, você lembrou de mim. — Retoma. — É uma fã dos canais de fofoca?

— Não. Desculpe a decepcionar, querida, mas só há uma fã entre nós duas.

Harley pode jurar que a vê morder de leve o lábio. Sim, olhar descaradamente para aquela boca carnuda também era muito difícil.  

— Então você nunca ouviu uma música minha?

— Eu deveria ter? — Rebate. — Temo não ser a melhor representante do meu ramo para esse tipo de pergunta. Ao contrário dos meus colegas, meu gosto musical é mesmo predominante entre os compositores mortos e atormentados. Às vezes eu faço uma exceção por Beyoncé. Mas ela é uma lenda viva.

— Essa é uma fama e tanto para se ter depois de morrer.

— Se você é mesmo bom a música não morre com você.

— Isso é uma constatação ou um conselho? — pergunta com falsa preocupação.

— Quando eu ouvir seu trabalho poderei responder propriamente. Não gosto de ser uma crítica as cegas.

Ela responde colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha. Com o braço agora apoiado sobre a mesa, Harley lê o quanto a linguagem corporal dela mostrava interesse. Diga algo inteligente pelo amor de deus! Harleen grita no seu consciente.

— Você parecia me conhecer mais cedo. — Pamela ergue uma sobrancelha questionadora. Harley explica: — Você já sabia que eu viria até aqui. Para o jantar. — O comentário é certeiro.

A ruiva umedece os lábios e olha de soslaio para as duas mulheres a frente delas, bastante ocupadas na própria conversa.

— Conheço Selina a um tempo considerável. — Justifica breve. — Minha assistente no teatro pode ter mencionado muito sobre você quando trouxe o jarro com os narcisos. Então, eu liguei os pontos.

— Espero que só os positivos.

— Você tem uma primeira impressão marcante. Barbara só sabia falar sobre ter te conhecido. — Responde com uma pausa para um gole do próprio champanhe. Ela mal havia tomado uma taça inteira até agora.  — Acredito que o seu presente fala por si só.

Harley considera esse um ponto a seu favor. Como consequência, a conversa flui muito bem entre elas, até Diana voltar as provocações. A loira pede mais um dry martini.

— Você faz coisas que eu nunca vi com um instrumento de corda.

O seu revirar de olhos com o rumo da conversa não passa despercebido por Selina. A morena quase a chuta por baixo da mesa. Tecnicamente, ela não podia bancar a ingrata quando a atriz estava ali de boa vontade tentando flertar com a ruiva que ela viu primeiro.

— Tocar um violoncelo é sempre sobre tensão e alivio. De certa forma, é quase intuitivo. É o instrumento mais próximo em alcance e em capacidade de expressar a voz humana. — Harley tenta não babar muito pela forma apaixonada dela falar. — Mas eu vou entediar todas vocês até a morte com minhas curiosidades sobre instrumentos de corda. Por favor, voltemos aos tópicos quentes.

— Certeza que não há nada mais quente na noite do que te ver tocar, Pam.

Selina provoca de propósito.  É quase um aviso para Harley se controlar.

— Nem mesmo os meus shows semi nua? Assim você me deixa com ciúmes, Kitty. — Contraria a loira apenas pelo prazer de retrucar com pouca classe.

Por sorte, todas na mesa riem.

Até o fim da noite, a cantora tem muitos dry martinis na corrente sanguínea do que seria aconselhável. Isso a faz começar a rir demais e, Selina encerrar a conta. Todas poderiam seguir para casa após os flagras finais dos paparazzis.

Harley tem certeza de como as fotos delas chegando ao Iceberg Lounge já haviam gerado confusão pela internet. Quase a cansa por antecipação ter de repetir a farsa. Selina sabia como ninguém usar esse tipo de atenção para trabalhar com a limpeza de imagem, só não deixava de ser chato.

— Você vai ao teatro amanhã?              

A pergunta a surpreende mesmo na sua semi embriagez.  Pamela havia esperado as outras duas levantarem primeiro.    

— Não perderia por nada. Eu disse que era uma fã.

— Veremos. — Desafia, antes de voltar aos gracejos de Diana. — Mas caso queira, Barbara saberá que você pode entrar depois do último ato, rotten tomato.

(...)

Harley volta no domingo.

Para uma quarta noite seguida no teatro, nenhuma parte da apresentação a faz sentir tédio, ou menos surpresa. A única diferença agora é o seu humor.  

Hoje ela estava feliz. Satisfeita, talvez, fosse um pouco mais descritivo. Se Pamela Isley esperava por ela, isso não podia gritar nada além de puro interesse — o fato dela ter recusado o convite de Diana a levar de volta ao hotel também.  

Tudo estava incrível. Era a noite delas.

Infelizmente, entender quem diabos é Harvey Dent também parece inevitável. Essa parte a deixa um tanto surpresa. Harley pode não ser a cidadã mais politizada daquela cidade, mas sabia reconhecer a cara do promotor geral quando estava bem na frente dele. Ou quase.

O segurança ao lado da garota Barbara e o rapaz com Ozzy no crachá pareciam muito ocupados em barrar sua passagem aos camarins. Quando a advertência de um escândalo começa a aparecer, graças a garota de óculos ameaçar abrir uma live no Instagram, o homem sai furioso.

Harley não perde tempo tentando entender o contexto. Com o aceno positivo de todos na linha vermelha, ela segue até a porta de Pamela.

— Ora se não é minha nova fã aparecendo outra vez.

A surpreende o quão bem a ruiva aparenta, mesmo com roupas muito menos sofisticadas as anteriores. Sequer era o vestido da apresentação daquela noite, apenas um novo modelo mais curto e, prateado liso, sem brilhos. O casaco branco à vista no cabideiro.

— Eu disse que voltaria.

Harley dessa vez abusava da pinta de roqueira, com a jaqueta de couro da primeira noite de volta, e um conjunto preto de grife estilizado por baixo. O cabelo bagunçado do jeito certo dava o toque final de despreocupação planejada. 

— Você parece pronta para ir embora. — Retoma um tanto contente demais.  

Não era o fim da noite ainda para as duas. Esse não era um mero palpite. Harley conseguia ler essa confirmação pela forma como Pamela a olhava agora, ou como seu jarro de narcisos parecia ainda mais em destaque no centro do camarim.

— Que performer eu seria se não te oferecesse algo para beber ou comer depois de um presente tão bonito quanto o que ganhei de você?

— Comer seria ótimo.

Pamela sorri com a insinuação.

— Você estava contando com isso, certo? — Aponta sem remorso pela sua obvia autoconfiança.

— Eu não vesti minha jaqueta da sorte à toa.

(...)

— Eu encontrei Harvey Dent desta vez. Acho que me arrependi de não ter ido votar no concorrente dele.

A caminho do estacionamento, Harley então apresenta a dúvida da noite:

 — Porque ele vem tanto atrás de você?

Parando por um momento — o suficiente para arrumar o casaco sobre o corpo, Pamela responde sem rodeios:

— Minha querida mãe. — Suspira, quase frustrada.  — Ela deu a entender por mais vezes do que fui capaz de impedir que eu estaria interessada nele.

— E você está?

A ruiva nem pisca quando a pergunta a atinge. Um sorriso diferente floresce entre as maçãs do rosto. Poderia ser fácil o favorito de Harley, só pelo toque claro de malícia.

— Considerado todo o meu amplo histórico de lesbianismo e rebeldia acredito que seja algo impossível. Você não acha?

Ora, ora. Parece que sua aposta com o destino teve 100% de retorno.

Harley não controla a pequena risada em resposta:

— Você é uma rebelde?

O contraste entre elas falava por si só. De um lado havia uma musicista clássica com um visual de uma estrela de cinema, enquanto a outra tinha a atitude e as roupas que faria qualquer pai impedir sua filha de se aproximar demais. Nem um fio de cabelo de Pamela Isley expressava rebeldia.

— Não se deixe levar pela minha aparecia atual. Tem muito de mim que você não sabe, querida, para o desgosto dos meus pais, bons cristãos hipócritas do Norte.

Harley nem precisa insinuar o quão mais interessante aquela conversa estava no momento. Quando ela abre a porta do tesla preto, o mais discreto da sua coleção, Pamela parece ponderar um momento antes de entrar:

 — A insistência dele só mostra que o interesse não é mim, é em conseguir uma esposa para mostrar aos eleitores. Se tem algo que nessa vida que me dá arrepios é me tornar apenas a esposa de alguém.

A forma como ela levanta o olhar, quase mortal, decidido, com toda certeza faz a loira se sentir um passo mais compelida a querer prensá-la contra o carro. Mulheres com falas tão decididas atiçavam esse fogo único nela.

— Quer saber? Eu não estou mais com tanta fome. Na verdade, eu quero dançar.

Harley demonstra absoluta diversão com a mudança de planos, se aproximando um pouco mais, com a porta aberta do carro sendo a única barreira entre as duas:

— Dançar? Agora? Essa é a Pamela rebelde falando?

— Não. — Completa nada além de um sorriso provocador. — Mas você me acompanharia assim mesmo?

— Bom eu sou sua maior fã agora. Achei que era obvio.

A forma como Pamela concorda a faz ter certeza de que ela sabe. Harley jamais perderia a oportunidade.

(...)

— Uma festa no subsolo de um hotel? Que conveniente.

— É alternativo. — Defende a loira. Não que suas intenções fossem muito diferentes das implicadas por Pamela. — A dona é uma amiga de muito tempo então sempre estou na lista.

— Você tem amigas em todos os lugares dessa cidade?

— Sim. Essa é a minha cidade. — Responde com o braço erguido para o garçom da área VIP. — Como minha convidada, eles são seus amigos também.

A ruiva não responde. Ambas pedem um Manhattan como drinque de entrada. Harley aprecia como as bebidas parecem tão vermelhas quanto o cabelo dela. Após mais uma rodada e uma longa conversa aleatória sobre instrumentos de corda, Pamela recusa o terceiro copo:

— Preciso maneirar no álcool, ou vou perder o ensaio de amanhã.

— Treinando para o próximo show?

— Sempre. Eu sou uma profissional sabe.

— Uma profissional que queria dançar. — Insinua.

— Acha que eu não vim aqui pra isso? — Rebate. — É só me seguir, Narciso.

Claro, a loira não precisa ouvir duas vezes. Se Pamela levanta, ela levanta também. Se a levasse até o inferno, Harley caminharia de bom grado. Sua alma estava perdida. Seguir Pamela até a pista de dança no piso inferior era só pura consequência.  

—  Então, você já tem um apelido novo pra mim?

A arrogância no seu sorriso deve ter sido demais, pois a ruiva rebate com uma sobrancelha desafiadora. Ela começa a dançar sem esperar pelo seu acompanhamento. Era preciso chegar muito, muito mais perto para se entender alguma coisa sobre toda a música pop eletrizante.

— Sempre posso chamar você de Harleen se for melhor.

A careta de Harley a faz rir muito mais abertamente. Talvez o álcool estivesse começando a afetar também.

— Assim está ótimo, Red.

É provável que ela quase grite a parte final do novo apelido para a ruiva, pois a mulher não parecia se importar com aumentar a distância dançando.  

— Sério? — Desafia em alto e bom tom. — Você pode fazer muito melhor que isso, Narciso.

— Eu gosto de manter as coisas simples!   

A forma como Pamela dançava acompanhando a batida de um clássico das Valquírias a faz perder pelo menos uns vinte pontos de QI. Nenhum dos neurônios conseguia a fazer pensar direito com tanto sangue indo para as suas pernas. Por isso pessoas com tesão não merecem direitos, mentaliza agitada.

— Claro, eu sempre posso te chamar de Red hot chili peppers.

Harley tem certeza de que a gargalhada de Pamela, perdida pelo barulho da pista de dança, é o seu primeiro ponto alto da noite. A forma como ela quase joga a cabeça inteira para trás, após sua péssima piada, a faz ter todos os pensamentos impuros de uma vez.

— É ótimo que você seja tão bonita e, tão boa cantando como dizem. — Consegue dizer com clareza, pois a distância entre as duas, volta a ser quase nula: — Porque o seu senso de humor não daria uma carreira, querida.

— Então, eu sou bonita?

As palavras são quase sopradas até a ruiva, muito, muito mais próxima do que nunca. Harley praticamente consegue encostar os lábios na pele da nunca dela para falar. A resposta é um sorriso sedutor bastante difícil de esquecer. A loira a sente respirar um pouco mais ofegante.

— Sim. — Admite sem rodeios. — Porque você acha que eu te chamei de narciso?

Harley não sabe se os narcisos significam algo além de beleza, até porque a parte de pesquisar no google permaneceu esquecida pelo seu cérebro inútil. Em sua defesa, a noite anterior havia sido muito movimentada.   

— Acho que preciso aprender mais sobre flores.

— Você precisa aprender sobre muita coisa, Narciso.

Quando Pamela a agarra pelos dois lados da sua jaqueta e a beija como se a droga do Alaska inteiro pudesse derreter naquela boca, Harley tem certeza que sua música favorita da Rihanna começou a tocar.

Foda-se, podia ser só na sua cabeça, não importava. Ouvir disturbia naquele momento era a única forma de explicar com palavras o quão delicioso era beijar Pamela Isley. O compositor daquela letra sabia do que estava falando.

Rapidamente, Harley aprende que as coisas entre elas duas escalavam como a explosão de um incêndio criminoso. Bastava uma fagulha e, pronto, tudo estava pelos ares. A forma quase indecente com que as duas se beijavam agora era uma evidência muito difícil de refutar. As suas mãos estavam cheias naquele cabelo sedoso. As mãos delas ocupadas com a parte de dentro da sua jaqueta.

Era provável, de uma forma inédita, que Harley tenha encontrado o tipo de mulher que a faria tirar a roupa inteira em público com um único beijo.

— Você não quer voltar lá pra cima? — Articula porcamente ao lado do ouvido esquerdo dela. Sua boca pode ter saído dos lábios carnudos da ruiva, mas já se demoravam na pele apetitosa do pescoço.

— Eu poderia montar nos seus dedos agora mesmo.

Com aquele vestido colado, Harley não duvida.

— É?

— Mas você não aguentaria. — Diz começando a puxá-la para longe da movimentação e barulho da pista. Nas escadas, a borda da área VIP completa: — Eu quero que você dure muito. Que bom que você por acaso nos trouxe até um hotel.

Um hotel com ótima suíte presidencial, pensa, ao pedir a reserva de quarto da sua conta. Harley tem certeza que por muito pouco não acaba sem blusa dentro do elevador. Pamela é insistente, selvagem, com um controle de primeira ao tirar e enrolar a língua por partes de fato profundas na sua boca. Uau. Ela precisa partir para medidas mais drásticas.

Quando a loira a empurrar contra a porta, com um baque quase forte demais, Pamela não parece nem um pouco surpresa. De fato, parece que até aquilo havia sido controlado por ela meticulosamente. O sorriso indecente em seu sorriso confirma tais suspeitas.

— Você vai me foder ou só ficar olhando? — desafia com a contrapartida de erguer o joelho o mínimo suficiente e ainda a deixar ofegante como se fosse um golpe no clitóris. Desgraçada. — Se você não me por pra dentro eu vou subir nos seus dedos aqui mesmo.

Aquilo era golpe baixo. Pamela parece ter muito daqueles para todos os momentos, em que, Harley jura a estar dominando de alguma forma. Isso inclui quando as duas entram na suíte a caminho de tirar a roupa. Mas até as fortalezas mais sólidas tem algum ponto fraco.

O dela ficava entre o fim do pescoço e um pedaço da garganta. Depois nos seios, em especial, os mamilos e o vale ao meio deles. Claro, para tantas descobertas, Harley havia puxado fora aquele vestido prateado a muito tempo e, de bônus, descobriu a ausência bem vinda de sutiã.

A ocorre o quanto Pamela poderia ter a situação muito mais sob comando do que supunha desde o começo. A forma como as duas se beijavam sempre reafirmava seu controle, pois Harley era fraca demais para não gemer. Acontece que, ao passar a boca do pescoço até a barriga dela, Pamela começa desmoronar.

Ir da porta aos lençóis luxuosos faz muito bem a toda a mobilidade que sua boca ansiava. A ruiva puxa seus cabelos com uma urgência maníaca quando a renda da calcinha dela dá lugar a língua furiosa de uma rockstar sedenta. Harley tem certeza que desconta toda a desidratação sofrida por ela na platéia, quatro noites seguidas, de uma vez só.

É provável que Pamela sangrasse suas contas, caso pudesse a arranhar como agarrava os lençóis naquele momento.

— Mais. Forte. — Comanda com pura rouquidão. Harley quase ri da voz rasgada de Pamela, agora que seus dedos haviam entrado em ação.

Assim que ela percebe que Pamela está movendo os quadris com mais vigor do que ela está empurrando, Harley parece entender exatamente o que ela precisa em tempo recorde. Ela fode Pamela com força e rapidez, apoiando-se no travesseiro para otimizar a mobilidade do braço e a permitir chupar com mais força. Mas no momento que a sua boca para e, vai ate uma das coxas e crava os dentes, Pamela geme como se pudesse desmaiar completamente.

Um momento ela está gritando, o prazer a percorre até a ponta dos dedos dos pés, e no próximo ela está ainda mais rouca e mole, Harley dando beijos por todo o caminho do estômago dela. Com um barulho suave, Pamela interrompe o caminho de Harley e a puxa para um beijo adequado. É profundo e lento, perfeito para a felicidade pós-coital da ruiva.

Quando os papéis se invertem, longe de ser a primeira vez da noite, os dedos de Pamela de fato parecem mágicos. A droga de todos os movimentos dela parecem quase tirar música do seu corpo, do jeito mais sujo e sensual possível. Como se agora fosse violoncelo no meio das pernas dela.

Bom, ela era.

A partir daí seu cérebro não consegue mais pensar em nada além da boca dela na sua boceta. Era o fim da racionalidade. O ritmo do seu coração parece a euforia crua de um show ao vivo, Harley quer gozar naquela boca o mais rápido possível, mas os planos de Pamela são um pouco diferentes.

A musicista parece a devorar com a calma obvia de quem já teve um orgasmo considerável. Harley quase rosna quando ela para na altura das suas pernas, até entender o que estava acontecendo naquela névoa de tesão e pura líbido.

Porque no momento em que Harley nota aqueles olhos verdes, parando e analisando cada uma das tatuagens desde o seu torso, o quarto praticamente muda para um novo extremo. A perversão pura toma conta dos olhos das duas. Isso faz a tão doce e concentrada musicista a agarrar de forma mais dura, visceral, como a ganância pura a controlasse. Depois de um ter um orgasmo digno, seu cérebro mal processa quando nada para até ela atingir o segundo.

— Eu só estou começando, Narciso. — Adverte caindo de bruços ao seu lado. O brilho das mãos úmidas cheirando como ela faz as pupilas de Harley pararem de existir. — Nada pode me parar quando estou faminta.

— Achei que você queria montar nos meus dedos. — Rebate sem mal conseguir mexer os braços. Mas não por muito tempo.

— Podemos resolver isso agora. Eu adoro praticar.

Os olhares trocados são claros. A adrenalina retorna.  

Harley não lembra de se sentir sóbria e tão excitada ao mesmo tempo. Era o tipo de desejo que não se esquece com facilidade.

Pamela Isley era inesquecível.

(...)

Não a surpreende acordar sozinha no quarto de hotel. Pamela havia repetido entre o terceiro orgasmo e, a pausa para o serviço de quarto, como não fazia ideia se ia acordar a tempo da prática matinal.

Harley garantiu que o alarme do celular estivesse ligado, mas nada foi capaz de a fazer acordar antes das dez. Não depois de ter uma noite de sexo acrobático e um pedaço de torta de morango às três e meia da manhã.  

Com a mais pura satisfação irradiando pelos poros, a cantora pega as roupas jogadas próxima a porta e veste com muito mais dificuldade do que esperava. Parece que Pamela não tinha só a cansado, mas deixado várias das melhores partes do seu corpo doloridas.

Ok, você precisa ver essa mulher de novo, Harleen parece muito convicta a convencer o resto do seu cérebro a ficar de acordo com isso.

Mas ela pode não querer me ver! Vai ser estranho. Argumenta consigo mesma, começando o dia sendo uma completa maluca indecisa.

Só vai ser estranho se você deixar ser estranho.

E como diabos eu vou fazer isso? Interpela procurando pelo próprio celular. Estava na mesa de cabeceira. Sem chamadas perdidas, sem o número de Pamela em qualquer lugar. Vai ver era um sinal.

Leve café, um sorriso idiota, eu sei lá, tenha alguma autoestima garota! Você a fodeu com tudo ontem. É hora de acreditar que ela gostou ao menos um pouco. Ela gozou não foi?

Quatro vezes.  

Ok.

Tentar não custava nada.

(...)

— Bom dia, Barbara.

Harley espera estar apresentável o suficiente. É a sua primeira vez vindo ao teatro de uma forma casual que não a fizesse parecer uma menina de rua. Agora ela tinha tênis caros, calça de malha e uma camiseta com alguma arte abstrata na frente. Ela parecia gostosa, e esse era o objetivo.

— Bom dia, senhorita Quinn.

A garota carregava uma caixa pela entrada de funcionários e é o primeiro rosto conhecido à vista. Como Pamela não estava no palco, vai ver a prática já havia acabado.

— Hm, eu queria saber se Pamela ainda está por aqui. Ela disse que vinha treinar hoje.

A expressão confusa da garota de óculos a faz parar um momento. Algo estava errado?

— Ela não está mais aqui. — Adianta. — Achei que a senhorita soubesse.

— Que eu soubesse?

— O show dela era só até ontem. Hoje cedo havia uma prática de rotina, mas essa hora senhorita Isley já deve ter seguido para Metrópoles. A próxima apresentação é na arena municipal.

Ah.

Harley não sabia.

Ela estava em turnê? Isso explicaria muita coisa.                                                  

Entendi. — Murmura como uma idiota. —  Não importa, eu só queria devolver uma coisa. — Comenta sem nem saber porque. Não era da conta de ninguém o que aconteceu ou não para ela estar ali. — Pode ficar com o café, garota. Você trabalha bem.

De costas para o teatro, a situação parece quase engraçada. De tão ruim.

Era por isso que Harleen nunca tomava as decisões. Harley era muito melhor nas escolhas impulsivas. E, se ela tivesse sido um pouco mais esperta, teria lido nas entrelinhas o enorme sinal de só vamos foder desta vez, idiota. É uma coisa única.

Pamela havia sido divertida e uma excelente distração do real trabalho que ela deveria ter se empenhado todos aqueles dias.

O seu álbum novo.

Não havia nada para superar.

(...)

Talvez houvesse algo para superar.

Primeiro: seu cérebro era um inútil, meio obcecado por respostas e, um pouco mimado demais pelos anos de estrelato. Nenhuma mulher jamais a recusou. Tecnicamente você dormiu com ela, rebate Harleen. Mas não importava muito. Nada a fazia parar de pensar sobre suas recentes descobertas.

As flores.

Aparentemente, narcisos significavam mesmo beleza, mas não uma beleza boa. Era a beleza egoísta, superficial. Literalmente, a flor do egoísmo. Como diabos aquela florista não me avisou disso? Essas coisas deveriam vir descritas na embalagem.

Pamela havia a chamado de egoísta indiretamente, enquanto montava em cima dela. Isso era ridículo. E também era verdade, certo? Seu interesse era mesmo superficial. Todo o tempo em que ela achou que estava a conquistando, a musicista estava um passo muito à frente. 

Por isso nada a fazia parar de pensar nela.

Momentos de desilusão, até mesmo os mais superficiais, eram ótimos para criar música, certo? Ótimo para começar um álbum.

Bom, errado.

Harley também estava meio bloqueada.

Nem mesmo após os seus treinos diários na academia e, as práticas de ginástica que ela havia incorporado na rotina durante a reabilitação a faziam ter algo de produtivo na cabeça. Ok, as vezes ela até olha para o piano da sala. Mas a ideia de letra que havia surgido era muito idiota. Era o maior dos clichês compor uma música sobre uma mulher que nunca mais veria na vida.

Floyd vem alguns dias para acompanhar o progresso do álbum, mas continuava na mesma merda. Nenhum pico de inspiração. Eles ao menos maratonam Futurama juntos e falaram mal dos antigos companheiros de banda por várias horas.   

Ah, se os portais de notícia pudessem a ver agora. A dita quebradora de corações em série sonhando acordada com a mulher inalcançável. Tawny Young com certeza lhe daria um apelido engraçado durante o talk show dela.

Depois de quase duas semanas sem produzir nada, Selina aparece para uma intervenção criativa. Harley não menciona como foi a última intervenção na ida ao teatro que piorou tudo.

— Interessada naquele show das Aves de Rapina hoje? Tenho ingressos.

— É. Pode ser.

(...)

Bud e Lou correm um atrás do outro pelo quarto, enquanto Harley ainda não sabe o que vestir. A vontade de sair não era muita, mas ver Dinah, Helena e Renee quebrando tudo no palco sempre melhorava o seu humor. 

Seria uma noite para reiniciar.

Ela tenta achar sua jaqueta favorita, aquela que ela usou no dia da última noite com Pamela e encontra no começo do closet com as demais. Com um conjunto macacão dourado aberto na frente um top rosa, decide e ir com o cabelo preso.

Vai ver também era hora de pintar de novo. O verde e rosa das pontas não existia mais, embora ela estivesse pensando em inovar um pouco. Talvez, um pouco de vermelho. Talvez.

Quando vai por um dos cartões no bolso da jaqueta e, chamar Nygma, algo a faz parar. O bolso não estava vazio, tinha um pedaço de papel lá. Um guardanapo dobrado para ser mais especifico. 

Uma marca de batom e um número de telefone faz seus enormes olhos azuis abrirem como uma criança achando doce escondido. Era o telefone de Pamela. 

Ok.

Ok.

Ok.

Como aquilo foi parar ali? Então ela queria que ela ligasse? Sim, sua idiota, é por isso que o número dela tá aí. Harleen a repreende pelo estupor generalizado e a provoca a ligar de uma vez.

Mas Harley não liga.

Fazia quase um mês todo agora. Merda. Será que ela havia estragado tudo? Pamela deve achar que era mesmo um caso de uma noite e, agora a considera uma egoísta famosa ainda mais. Ela também podia ter deixado isso menos escondido!

Sem saber direito o que fazer, Harley olha para as horas no celular e percebe que quase está atrasada demais. Até mesmo para ela.

Então, decide pensar nisso melhor depois do show.

(...)

— Finalmente, Harls. Achei que ia desperdiçar meus ingressos.

O camarote na arena de Gotham é o favorito de Selina. Harley sabe pelo tamanho do bar.

— Eu vi por Dinah. Ela arrasa ao vivo.

Sem saber direito se coloca ou não a jaqueta outra vez, a loira nota como a banda de abertura ainda não havia encerrado. Seu atraso não era tão grande assim no fim das contas.

— Dinah Lance? Você também é a maior fã dela?

A terceira voz bem atrás dela, na entrada do camarote, a faz respirar fundo. Não. Não era ela. Exceto, que era Pamela.

— Não como eu sou a sua. — Responde com uma confiança automática. Quando Harley vira para olhar a ruiva fora dos vestidos caros, nada parece ter mudado no ultimo mês. — Ei, Red.


Notas Finais


E ai galera, alguma ideia do que vai acontecer? To com a ideia de surpreender todo mundo. Apostas?


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