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História Uma noite para se inspirar - Capítulo 1


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Notas do Autor


Minha terceira (e acredito que última) história escrita para o Desafio Ima(gem)nation, criado por @LadyHawk e @Endora_. A imagem que me inspirou a escrever isso, entretanto, veio do jornal da @Brave_Princess, cujo o link vai estar na descrição.

Capítulo 1 - Capítulo único


Sob os olhos estava a folha de papel em branco. De cabeçalho apenas um título, algumas palavras-chave e mais nada. Haveria de conseguir produzir algo hoje se se concentrasse bastante, talvez, embora parecesse improvável.

Já havia passado horas nesse mesmo estado de admiração do papel, conhecia todos os pequenos borrões e manchas da folha, onde havia uma pequena falha numa linha e onde uma mosca defecou. Também conhecia muito bem a história que queria passar, tinha todos os cenários em mente, os acontecimentos e ações estúpidas que desencadeariam o fim catastrófico. Adorava finais trágicos, os preferia ao lugar do felizes para sempre, pois achava que isso se tratava apenas de mais uma mentira, um pensamento até bem comum hoje em dia. 

Tinha tabelas com os personagens, nas quais os descrevia e gostava de admirar quando o silêncio não era suficiente. Tudo parecia tão bonito, tão bem amarrado, tão perfeito... mas ela não conseguia o essencial. 

Pensava em talvez criar outra coisa, mas a maioria de suas ideias não a agradava, e as que o faziam ela também não se sentia capaz de escrever.

Havia alugado um quarto num hotel de beira de estrada para ficar sozinha com sua história, mas agora isso havia se tornado sua tortura. Ela iria sem dúvidas regredir para casa na manhã seguinte, mas por essa noite decidiu sair para a varanda e fumar um pouco.

- Me tornei mesmo uma escritora fracassada - disse para si mesma a encarar o vazio dos arredores sob o céu das seis da tarde. - Tentando ficar chapada pra conseguir "inspiração".

- Isso pode ser perigoso - disse uma voz pelas costas dela.

Ao se virar percebeu ao seu encalço um homem de calça cáqui, camiseta polo branca e um colete marrom claro com botões amarelos por cima, desabotoado. Sapatos surrados, barba por fazer, parecia um pouco abatido.

- Por que sempre calça cáqui? - perguntou ele se aproximando da escritora e parando na estreita varanda ao seu lado, bem debaixo da placa luminosa do hotel que indicava ainda haver vagas. - Nunca vejo gente usando isso. Será que estou fora de moda?

- Com licença, mas como entrou aqui? - questionou a escritora recuando com apreensão. - A porta estava trancada à chave.

- Eu já estava dentro.

Ela pensou em correr de volta para o quarto e se fechar, mas não achava que daria tempo.

- Tem razão, não daria - disse o homem erguendo os braços e se espreguicando, como se tivesse acabado de acordar.

Encarou a escritora por alguns segundos, fitando seus olhos e sua boca. Foi se aproximando milímetro por milímetro, enquanto ela recuava. Mas não não demorou a se ver cercada por ele e sem poder mais se afastar.

 Conseguiu notar mais detalhes de seu rosto de perto. Não era bonito, mas tinha alguma coisa nele que a agradava, como se já o conhecesse. De fato até a pinta sobre a sobrancelha rasgada e a tatuagem com o símbolo Yin e Yang na mão ela reconhecia.

- Pare de fazer isso - disse ele ainda a encarando sem desviar o olhar ou se afastar. 

- Fazer o quê? Você quem está perto demais de mim. É um tarado, é isso? Pois saiba que eu luto capoeira.

- Ah, disso eu já sabia.

- É um stalker, então.

- Muito bem, ficou mais interessante essa narrativa. Prefiro quando tem uma sequência de diálogos sem muita descrição - disse passando a mão no cabelos bagunçado e grande demais, e depois ajeitando o colete. - Ah, qual é? Estava indo tão bem sem detalhar... 

- Por favor, senhor, me deixe em paz. Eu não quero ter de feri-lo.

- Não poderia, eu acho. Bom, na verdade poderia sim... - ele parecia pensar sobre uma questão profunda demais para ser resolvida em um minuto. - Ok, vamos lá. Acho que isso pode ficar um pouco explicativo demais, e detesto quando é assim, tanto em livros quanto em filmes. Mas facilita as coisas. Eu sou um personagem da sua história, da que ainda quer escrever. Quando disse que já estava aqui dentro, falava dentro de sua cabeça. Engraçado, não é? Pensei por duas horas nessa.

Ela sacudiu a cabeça, incrédula. Com certeza havia fumado além da conta.

- Talvez seja isso mesmo - disse o homem se virando de costas. - Ah, e eu posso te ouvir descrevendo tudo, sabia? Se consegue fazer isso agora qual o problema em escrever?

- É diferente, eu preciso criar todas as coisas, inventar cenas, filtrar momentos irrelevantes, fazer toda ação soar justificável... Ah, é um saco.

- Eu sei - ele se voltou para ela e de repente agarrou seu rosto, forçando um beijo repentino demais que foi repreendido com  um chute no estômago, um soco no rosto e uma joelhada nos... - Nos países baixos - disse ele abaixado, com as mãos no lugar e a fazer caretas até engraçadas no meio daquela situação. - Isso não é engraçado. Eu sinto dor, caramba!

- Isso é estranho, não deveria. Não é produto da minha mente?

- Mas você pode fazer o que quiser comigo, não?! Até me fazer sofrer. 

- Acho que sim. No entanto, não te criei pra ser um assediador.

- Ah, isso... - ele levantava já recuperado, a escritora havia acelerado a passagem da dor por seu corpo. - Oh, obrigado.

- Ainda vai se culpar um bom tempo por isso. 

- Bem, eu só estava tentando te inspirar.

- Sério? - ela riu e fez que não com a cabeça rapidamente. - Desculpas esfarrapadas.

- Ah, qual é? As vezes você tem que... Bem, que fazer sexo com os seus personagens.

Ela arregalou a boca, surpresa com o tom de casualidade que ele usava para falar aquilo.

- Não tenho que fazer isso não!

- É claro que tem. Faz bem pro processo criativo.

Ela não podia acreditar no que estava ouvindo. Voltou para o quarto disposta a trancá-lo lá fora. No entanto, não teve tempo nem espaço de reagir. Se viu no meio de uma festa com duas dúzias de pessoas que lhe eram familiares, das quais havia criado os rostos, talvez, embora não conseguisse reconhecê-los de imediato. Se perguntava como coube tanta gente no diminuto quarto. 

- Ah, ela chegou, pessoal! - gritou um senhor de mais de sessenta anos com um sobretudo escuro e um chapéu de festa na cabeça.

- Muito bem!

- Chega mais.

- A festa é sua. 

- O Romeu te mandou o convite à tempo, então.

Ela não conseguia falar nada, apenas se perguntava o que estava acontecendo em seu apartamento.

- Quem é essa gente toda aqui?

- Você os conhece - disse o homem que havia tentado beijá-la à força, Romeu, entrando e trancando a porta para o terraço. - Sabe disso, acabou de dizer que criou os rostos. Agora pode focar melhor, não é mesmo?

- Ah, falando nisso - disse um jovem se aproximando com um copo na mão, tinha o cabelo colorido e roupas da moda. - Eu gostaria de ser um pouco mais simples, se puder. Não sinto que esse estilo combina com a minha personalidade.

- Mas essa foi a intenção - rebateu a escritora ainda incrédula. - Você não se encaixar num molde.

- Poxa, acho que vai ter que colocar uma terapia na minha linha de desenvolvimento.

- Pelo menos ela não tirou toda a sua família de você - disse uma mulher alta, na faixa dos vinte e cinco anos, de cabelo, esmalte e unhas pretas, repleta de tatuagens pelo corpo. - E ainda me fez adotar esse estilo de emo.

- É gótico.

Ela revirou os olhos, voltando para um canto da festa onde ficava isolada. Os demais se divertiam e colocaram uma música para tocar, uma animada demais para as circunstâncias de poucos minutos atrás da vida da escritora.

- Tudo bem, você agora só precisa relaxar - falou Romeu a puxando pela mão para o meio da festa.

Ao perceber que ela não queria dançar, ele começou, rodopiando e rebolando na frente dela, de um modo quase obsceno. 

- Não sabia que tinha te feito tão festeiro assim. 

- Vocês pode usar a outra palavra.

- Não sei do que está falando.

- Ah, manda brasa. Stripper, gogo boy... É assim que queria me descrever, né?

- Nunca disse isso - ela acabou perdendo a paciência quando ele lançou olhares maliciosos e começou a beijar os outros personagens. - Ah, escutem, todos vocês! Sei que são atores, podem parar com isso. Foi a Bernadete que mandou vocês, não foi? Aquela vaca vai me pagar! 

- Não, não foi sua irmã, minha jovem - disse uma velhinha com óculos escuros e uma bengala. - O jovem louco ali tem razão no que lhe falou. Somos seus personagens, e viemos para alegrar sua noite.

- Isso - disse um homem de meia idade, acima do peso, com uma garrafa de uísque numa mão e uma de vodca na outra. - Vamos festejar hoje.

- Isso aí! - gritaram todos em uníssono.

A escritora pensou que poderia só sair dali e chamar alguém para expulsar aquelas pessoas à força, deixar as autoridades agirem sobre aquele monte de esquisitos. Mas ela ficou com medo de que fosse verdade, de que aquilo realmente estivesse acontecendo. 

No entanto, se eles fossem falsos e quando alguém chegasse desaparecessem, restaria apenas se afundar no restante de solidão e auto piedade enquanto encarava a  mesma página em branco de novo. 

- Bom, talvez uma noite de festa me faça bem - e começou a dançar, beber e curtir com seus personagens. 


Notas Finais




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