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História Uma nova oportunidade - Capítulo 4


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Notas do Autor


Oi, galera! Bem-vindos a mais um capítulo dessa fanfic! Dessa vez, vim em comemoração aos aniversários de Neville Longbottom e de Harry Potter, nascidos respectivamente em 30 e 31 de julho, e que estão completando seus 40 anos!
Meus parabéns aos dois, que são incríveis, leais, corajosos e honraram aos pais da melhor forma possível todos os dias.
Agora, vamos ao capítulo!

Capítulo 4 - As cartas de ninguém


    Fizeram apenas uma pequena pausa para beber água e ir ao banheiro, e continuaram a leitura. Severo se ofereceu para ler.

    As cartas de ninguém.

    -Como assim “de ninguém”? –perguntou Lice, curiosa.

    -Harry já deve estar para fazer 11 anos –respondeu James –A carta de Hogwarts deve ter chegado.

    -Sim, concordo –afirmou Lily –e o “de ninguém” deve ser por Harry não saber de quem veio.

    A fuga da jiboia brasileira rendeu a Harry o seu castigo mais longo. Na altura em que lhe permitiram sair do armário, as férias de verão já haviam começado e Duda já quebrara a nova filmadora, acidentara o aeromodelo e, na primeira vez que andara na bicicleta de corrida, derrubara a velha Sra. Figg quando ela atravessava a rua dos Alfeneiros de muletas. Harry ficou contente que as aulas tivessem acabado, mas não conseguia escapar da turma de Duda, que visitava a casa todo dia. Pedro, Dênis, Malcolm e Górdon eram todos grandes e burros, mas como Duda era o maior e o mais burro do bando, era o líder.

     -É um ótimo jeito de ver a situação –riu James.

     -Ele é muito parecido com você, Prongs, até mesmo no senso de humor –disse Sirius.

    Lily suspirou. Claro que gostava que seu filho parecesse tanto com o pai, mas queria também que ele tivesse algumas caraterísticas suas também.

     -Ei –chamou James –Harry também tem muitas qualidades suas, só que não tão claras assim. Daqui a pouco vai ter algo seu bem nítido nele, tenho certeza.

     Lily sorriu agradecida, se apoiando nele. Era uma sensação gostosa, não ter que falar o que sentia para que James percebesse. Pelo visto, ele a conhecia muito melhor do que ela pensava.

     Os demais ficavam bastante felizes de participar do esporte favorito de Duda: perseguir Harry. Por esta razão Harry passava a maior parte do tempo possível fora de casa, perambulando e pensando no fim das férias, no qual conseguia vislumbrar um raiozinho de esperança. Quando setembro chegasse ele iria para a escola secundária e, pela primeira vez na vida, não estaria em companhia de Duda. Duda tinha uma vaga na antiga escola de tio Válter, Smeltings. Pedro ia para lá também. Harry, por outro lado, ia para a escola secundária local. Duda achava muita graça nisso.

     – Eles metem a cabeça dos garotos no vaso sanitário no primeiro dia de escola – contou ele a Harry –, quer ir lá em cima praticar?

      – Não, obrigado – respondeu Harry. – O coitado do vaso nunca recebeu nada tão horrível quanto a sua cabeça, é capaz de passar mal. – E correu antes que Duda conseguisse entender o que dissera.

    -Não há dúvidas de que ele é seu filho, James –Alice disse enquanto todos gargalhavam da resposta de Harry.

     -Filho de Maroto, Marotinho é –riu Remus. Lily fez uma careta.

     Certo dia de julho, tia Petúnia levou Duda a Londres para comprar o uniforme da Smeltings e deixou Harry com a Sra. Figg. A Sra. Figg não estava tão ruim quanto de costume. Afinal, fraturara a perna porque tropeçara em um dos gatos e não parecia gostar tanto deles quanto antes. Deixou Harry assistir à televisão e lhe deu um pedaço de bolo de chocolate que pelo gosto parecia ter muitos anos.

    -Eu amo bolo, mas precisa mesmo ser um estragado? –Sirius fez uma careta.

     -Harry está pagando todos os nossos pecados –disse James, apontando para ele próprio e os melhores amigos.

     -Está mesmo –concordou Lily –Viu o que eu disse todos esses anos? Se vocês não andassem explodindo tudo por aí, e colocando fogo no cabelo alheio, talvez Harry não tivesse uma vida tão sofrida.

     Lily sabia que não era justo culpá-los, já que o filho está sofrendo nas mãos da irmã dela, mas eles deram a deixa, e ela iria aproveitar para repreendê-los.

     -Eu já te disse que foi um acidente –James reclamou –Nós tínhamos 12 anos, Lily, não tem como você esquecer isso?

     -Você diz isso porque não foi você quem teve que cortar o cabelo no ombro depois –Lily o olhou com raiva.

     -Mas foi um acidente! Eu nem percebi que tinha tacado fogo na sua cabeça, eu só estava te olhando nervosinha e relacionando com o seu cabelo vermelho, e pensando que parecia que iria sair fogo de você! Não foi por querer! –Lily bufou.

     -Já chega vocês dois –Alice interrompeu –Eu ouço essa discussão há cinco anos! James já pediu desculpa, então pare de ser tão rancorosa, Lils –a ruiva revirou os olhos e ficou quieta.

    Naquela noite, Duda desfilou para a família reunida na sala de estar vestindo o uniforme novo da Smeltings. Os alunos da Smeltings usavam casaca marrom-avermelhada, calções cor de laranja e chapéus de palha.

     -Uniforme adorável –falou Remus, irônico.

Carregavam também bengalas nodosas, que usavam para bater uns nos outros quando os professores não estavam olhando.

    -Tenho a impressão de que Duda voltará pior dessa escola –murmurou Frank.

      Isto era considerado um bom treinamento para o futuro. Ao contemplar Duda nos calções laranja novos, tio Válter disse com a voz embargada que aquele era o momento de maior orgulho em sua vida. Tia Petúnia rompeu em lágrimas e disse que não podia acreditar que era o seu Dudinha, estava tão bonito e adulto. Harry não confiou no que poderia dizer. Achou que duas de suas costelas talvez já tivessem partido só com o esforço para não rir.

     -Não podemos te culpar, filho –disse James, rindo com os outros.

     Havia um cheiro horrível na cozinha na manhã seguinte quando Harry entrou para o café da manhã. Parecia vir de uma grande tina de metal dentro da pia. Ele se aproximou para espiar. A tina aparentemente estava cheia de trapos sujos que boiavam em água cinzenta.

     -Eu espero que isso não seja algum tipo de comida estranha trouxa –Sirius arregalou os olhos.

     -Não é –Lily revirou os olhos –apesar de não duvidar que Petúnia o faça comer isso –todos fizeram uma careta de nojo.

      – O que é isso? – perguntou à tia Petúnia. Os lábios dela se contraíram como costumavam fazer quando ele se atrevia a fazer uma pergunta.

     – O seu uniforme novo de escola – respondeu. Harry espiou para dentro da tina outra vez.

     – Ah – comentou –, eu não sabia que tinha que ser tão molhado.

     -Petúnia está tingindo o uniforme de Harry, mudando a cor dele –explicou Lily, enxugando as lágrimas de tanto rir. –Claro que ele não permanecerá molhado.

     -Harry às vezes é um pouco sonso –disse Remus, levando um golpe de uma almofada jogada pelos pais do garoto.

    – Não seja idiota – retorquiu tia Petúnia com rispidez. – Estou tingindo de cinzento umas roupas velhas de Duda para você. Vão ficar iguaizinhas às dos outros quando eu terminar.

     -Claro que o filho dela pode ganhar mais de 20 presentes de aniversário e meu filho não pode ter nem um uniforme decente –resmungou Lily, escrevendo mais formas de humilhar a irmã mais velha.

     Harry tinha sérias dúvidas, mas achou melhor não discutir. Sentou-se à mesa e tentou pensar na aparência que teria no primeiro dia de aula – como se estivesse usando retalhos de pele de elefante velho, provavelmente.

     Duda e tio Válter entraram ambos com os narizes franzidos por causa do cheiro do novo uniforme de Harry. Tio Válter abriu o jornal como sempre fazia e Duda bateu na mesa com a bengala da Smeltings, que ele carregava para todo lado. Ouviram o clique da portinhola para cartas e o som da correspondência caindo no capacho da porta.

      – Apanhe o correio, Duda – disse tio Válter por trás do jornal.

     – Mande o Harry apanhar.

     – Apanhe o correio, Harry.

      – Mande o Duda apanhar.

     -Isso seria realmente engraçado se eu não estivesse com medo do que farão com ele –disse Sirius, recebendo murmúrios de concordância.

     – Cutuque ele com a bengala da Smeltings, Duda.

     Harry se esquivou da bengala da Smeltings e foi apanhar o correio. Havia três coisas no capacho: um postal da irmã do tio Válter, Guida, que estava passando férias na ilha de Wight,

     -Eu realmente odeio Guida –Lily fez uma careta –Ela anda para todos os lados com os cachorros nojentos dela.

     -O que você tem contra cachorros? –Sirius a lançou um olhar acusatório.

     -Nada –Lily respondeu rapidamente, enquanto James e Remus riam –Mas os dela são horríveis. Babam em tudo, comem sapatos, mordem –todos fizeram uma careta imaginando como isso seria.

um envelope pardo que parecia uma conta e – uma carta para Harry. Harry apanhou-a e ficou olhando, o coração vibrando como um elástico gigante. Ninguém, jamais, em toda a sua vida, lhe escrevera. Quem escreveria? Ele não tinha amigos, nem outros parentes – não era sócio da biblioteca, de modo que jamais recebera sequer os bilhetes grosseiros pedindo a devolução de livros. Contudo, ali estava, uma carta, endereçada tão claramente que não podia haver engano. Sr. H. Potter O Armário sob a Escada Rua dos Alfeneiros 4 Little Whinging Surrey.

     -Chegou! A carta de Hogwarts chegou! –exclamou James, animado com a perspectiva de Harry sair da casa daqueles trouxas maldosos.

     -Sabemos disso, James –respondeu Lily, carinhosamente.

     Snape desviou os olhos da cena.

     O envelope era grosso e pesado, feito de pergaminho amarelado e endereçado com tinta verde-esmeralda. Não havia selo. Quando virou o envelope, com a mão trêmula, Harry viu um lacre de cera púrpura com um brasão; um leão, uma águia, um texugo e uma cobra circulando uma grande letra “H”.

      -Quando será que receberemos as nossas? –perguntou Frank, pensativo -Normalmente é mais ou menos nessa época do mês.

     -Dumbledore deve nos entregar quando sairmos –James deu de ombros –Só espero continuar a ser Capitão do time.

     -Você vai ser –Lily revirou os olhos.

     -Quem serão os monitores chefes? –Alice indagou.

     -Lily, é claro –Sirius falou –e talvez Remus, ou Frank.

     -Ou Severo –Lily acrescentou, lembrando que o ex amigo estava presente e tinha sido monitor nos últimos dois anos.

     -Pode ser –murmurou Remus, fazendo um sinal para continuarem com a leitura.

      – Anda depressa, moleque! – gritou tio Válter da cozinha. – Está fazendo o quê, procurando cartas-bombas? – E riu da própria piada.

      Harry voltou à cozinha, ainda de olhos fixos na carta. Entregou a conta e o postal ao tio Válter, sentou-se e começou a abrir lentamente o envelope amarelo. Tio Válter rasgou o envelope da conta, deu um bufo de desdém e virou o postal.

     – Guida está doente – informou à tia Petúnia. – Comeu um marisco suspeito...

     -Bem feito –rosnou Lily –Se vocês acham que Petúnia e Válter são ruins, vocês nem imaginam como é essa irmã nojenta dele.

      Todos se arrepiaram, pensando no que poderia ser pior que esses tios.

      – Pai! – exclamou Duda de repente. – Pai, Harry recebeu uma carta!

      -Cala a boca, seu filhote de porco –rosnou Sirius.

     -Mas não é como se Dursley pudesse impedí-lo de ler, não é? –perguntou Lily, apreensiva.

     -A carta vai chegar a Harry de qualquer jeito –disse Frank –mas talvez os Dursley tornem isso um pouco mais difícil.

     Harry ia desdobrar a carta, escrita no mesmo pergaminho grosso que o envelope, quando tio Válter arrancou-a de sua mão.

      – É minha! – disse Harry, tentando recuperá-la.

     – Quem iria escrever para você? – zombou tio Válter, sacudindo a carta com uma das mãos para desdobrá-la e percorrendo-a com o olhar. Seu rosto passou de vermelho para verde mais rápido do que um sinal de tráfego. E não parou aí. Segundos depois ficou branco-acinzentado, cor de mingau de aveia velho. – P-P-Petúnia! – ofegou.

     Duda tentou agarrar a carta para lê-la, mas tio Válter segurou-a no alto fora do seu alcance. Tia Petúnia apanhou-a cheia de curiosidade e leu a primeira linha. Por um instante pareceu que ela talvez fosse desmaiar. Levou as duas mãos à garganta e produziu um ruído de engasgo.

     – Válter! Ah, meu Deus, Válter!

     -Não seja tão dramática, Petúnia –Lily revirou os olhos –Não é como se você nunca tivesse visto isso antes.

     -Na verdade, ela já deveria estar esperando por isso –disse Snape para Lily –ela sabe que a carta chega quando se tem 11 anos, ela te acompanhou.

     -Acho que ela tinha esperança de que Harry não fosse como eu –deu de ombros –Mas com um casal de bruxos como pais –olhou para James –é realmente difícil de não acontecer.

      Eles se encararam, parecendo ter esquecido que Harry e Duda continuavam na cozinha. Duda não estava acostumado a ser desprezado. Deu uma bengalada forte na cabeça do pai.

     – Quero ler esta carta – falou alto.

      – Quero lê-la – disse Harry, furioso –, porque é minha.

     – Saiam, os dois – ordenou com voz rouca tio Válter, enfiando a carta no envelope. Harry não se mexeu.

     -Acho que é agora que vamos ver algo seu em Harry –disse James para Lily –aposto que ele grita tão alto quanto você.

     Lily fez uma careta enquanto todos riam dela, menos, é claro, Severo.

     – QUERO MINHA CARTA! – gritou.

     -Não te disse? –perguntou James, com um sorriso maroto no rosto.

     -Quer que eu demonstre a raiva de Harry? –falou ela, com um sorriso sapeca –Eu não me importaria de dar uns gritinhos.

     -Não, acho que os seis anos que eu ouvi já foram o suficiente –disse James com uma careta.

     – Me deixa ver! – exigiu Duda.

      – FORA! – berrou tio Válter, e agarrando os dois, Harry e Duda, pelo cangote atirou-os no corredor e bateu a porta da cozinha.

     Harry e Duda na mesma hora tiveram uma briga furiosa, mas silenciosa, para saber quem ia escutar à fechadura; Duda ganhou, por isso Harry, os óculos pendurados em uma orelha, deitou-se de barriga no chão para escutar pela fresta entre a porta e o chão.

     -Inteligente –elogiou Alice.

     – Válter – disse tia Petúnia com voz trêmula –, olhe só o endereço. Como é que eles poderiam saber onde ele dorme? Você acha que estão vigiando a casa?

     -Petúnia parece ter apagado tudo da nossa infância da memória –disse Lily –é claro que ela sabe que Hogwarts não precisa de alguém vigiando uma casa para saber onde a pessoa dorme.

     – Vigiando, espionando, talvez nos seguindo – murmurou tio Válter enlouquecido.

     – Mas o que vamos fazer, Válter? Vamos responder à carta? Dizer a eles que não queremos...

     -Não! Eles não podem fazer isso! –exclamou James, de olhos arregalados.

     -Eles não vão –Lily assegurou –Dumbledore não deixaria!

      Harry via os sapatos pretos lustrosos do tio Válter andando para cá e para lá na cozinha.

     – Não – disse ele, decidido. – Não, vamos ignorá-la. Se não receberem uma resposta... É, é o melhor... não vamos fazer nada...

     -Melhor –James suspirou aliviado.

     Lily sorriu para ele, achando muito fofa a preocupação do maroto com o futuro do filho.

     – Mas...

     – Não vou ter um deles em casa, Petúnia! Nós não juramos quando o recebemos que íamos acabar com aquela bobagem perigosa?

     -Perigoso mesmo é não permitirem que Harry aprenda a usar magia –disse Remus.

     -Realmente, -concordou Sirius –já sabemos que ele é muito poderoso, não saber como controlar isso pode realmente ser perigoso.

     -Acho impossível que alguém consiga negar a magia –concordou Alice –é poderosa demais para ser deixada de lado.

     Aquela noite, quando voltou do trabalho, tio Válter fez uma coisa que nunca fizera antes; visitou Harry no armário.

      – Cadê minha carta? – perguntou Harry, no instante em que tio Válter se espremeu pela porta. – Quem me escreveu?

     – Ninguém. Endereçaram a você por engano – disse tio Válter secamente. – Queimei a carta.

     -Isso realmente não pode ser bom –murmurou Frank. –Nunca ouvi falar em alguém que simplesmente não leu a carta.

     – Não foi um engano – retrucou Harry com raiva –, tinha o endereço do meu armário.

     – CALADO! – gritou tio Válter e algumas aranhas caíram do teto. Ele inspirou algumas vezes e então fez força para produzir um sorriso que pareceu bem penoso. – Hum, sim, Harry, sobre este armário. Sua tia e eu estivemos pensando... você realmente está ficando grande demais para ele... achamos que seria bom se você se mudasse para o segundo quarto de Duda.

     -Aquele verme tem um segundo quarto e deixaram meu filho dormir no armário? –gritou Lily.

     -Eu vou matá-los –gritou James.

     -Acalmem-se –pediu Remus –não vamos deixar isso acontecer com Harry.

     Contudo, o casal estava bem longe de estar calmo ao saber dos maus tratos sofridos pelo filho. Resolveram que a melhor forma de controlarem o ódio era continuar a escrever no “Pergaminho da Vingança”.

     – Por quê? – perguntou Harry.

     – Não faça perguntas – disse com rispidez o tio. – Leve essas coisas para cima agora.

     A casa dos Dursley tinha quatro quartos: um para tio Válter e tia Petúnia, um para hóspedes (em geral a irmã de tio Válter, Guida), um onde Duda dormia e um onde Duda guardava todos os brinquedos e pertences que não cabiam no primeiro quarto. Harry precisou de apenas uma viagem para mudar tudo o que tinha do armário para o quarto no andar de cima.

     Lily segurou as lágrimas. Não conseguia acreditar que sua irmã pudesse tratar seu filho daquela forma. Ela não sabia exatamente como se sentir a respeito de tudo isso. Era um misto de ódio e decepção, que a deixavam de coração partido.

     James se aproximou dela, e a abraçou.

     Sentou-se na cama e deu uma olhada à sua volta. Quase tudo ali estava quebrado. A filmadora com apenas um mês de uso estava jogada em cima de um pequeno tanque com que certa vez Duda atropelara o cachorro do vizinho; no canto estava o primeiro televisor de Duda, no qual ele enfiara o pé quando seu programa favorito fora cancelado; havia uma grande gaiola de pássaros, antigamente habitada por um papagaio que Duda trocara na escola por uma espingarda de ar de verdade, e que estava guardada numa prateleira com a ponta dobrada porque Duda se sentara em cima dela. Outras prateleiras estavam cheias de livros. Eram as únicas coisas no quarto que pareciam nunca ter sido tocadas. Lá de baixo veio o barulho de Duda gritando com a mãe:

     – Eu não quero ele lá... eu preciso daquele quarto... mande ele sair.

    -Ele precisa do quarto? –Alice revirou os olhos –Não consigo acreditar que exista alguém tão mimado no mundo.

     -O Potter é –falou Snape, em tom ácido.

      -OH, calma lá, Ranhoso! –começou James, se corrigindo ao ver o olhar de Lily –digo, Snape. Eu posso sim ser um riquinho mimado, mas isso não significa que a minha família não me ensinou a ter empatia.

     -Claro, Potter, porque você tinha muita empatia quando me humilhava na frente de toda a escola, não é mesmo?

     -Você fala como se fosse vítima –bufou Sirius, se intrometendo.

     -Eu sei que fiz coisas horríveis das quais me envergonho, Snape, mas não venha você me atacar e me fazer entender o que é ter empatia, porque todos nós sabemos que você é incapaz de sentí-la. Você me provocava e me azarava tanto quanto eu o fazia, a diferença é que você é mais...discreto, porém, eu te garanto que isso não te torna melhor que eu –falou James, tentando controlar o ódio que sentia daquele idiota.

     Lily olhou espantada para James...era a primeira vez que o ouvia dizer algo maduro a respeito das peças que pregava em Severo.

     -Eu não preciso me esforçar para ser melhor que você, Potter –bufou Severo –Você é arrogante, prepotente, acha que é o dono do mundo só porque é capaz de se equilibrar em uma vassoura...-Sirius o interrompeu com uma grande gargalhada.

     -Só faltou você terminar com “você me dá náuseas” pra roubar a fala da ruiva. Podia pelo menos ser um pouco original, né? –Lily se mexeu desconfortável.

     -É claro que o Potter precisa de alguém para defendê-lo, ele é fraco demais para o fazer sozinho. –o tom ácido era nítido na fala de Severo.

     -Eu não preciso de alguém para me defender, Snape, mas eles me defendem mesmo assim, e sabe por que? Porque isso é amizade, e se você soubesse o real significado disso, não teria feito o que fez aquele dia no lago. –olhou rapidamente para Lily ao seu lado.

     -AGORA JÁ CHEGA! –gritou a ruiva –Não estamos aqui para discutir o passado, estamos aqui para mudar o futuro, então vamos deixar de lado as diferenças e continuar a leitura, sim?

     Todos sabiam que ela estava certa, então suspiraram, mordendo a língua para não retrucar e continuaram a ler.

     Harry suspirou e se esticou na cama. Ontem ele teria dado qualquer coisa para estar ali. Hoje, preferia estar no seu armário com aquela carta a ali em cima sem ela.

     Na manhã seguinte, no café, todos estavam muito quietos. Duda estava em estado de choque. Berrara, batera no pai com a bengala, vomitara de propósito, dera pontapés na mãe e atirara sua tartaruga pelo teto da estufa de plantas e nem assim conseguira o quarto de volta.

     -É sério isso? Ele tem o que, dois anos? –murmurou Remus –E mesmo que tivesse, essa atitude também não seria justificável.

     Harry pensava no dia anterior àquela hora, desejando com amargura que tivesse aberto a carta no hall. Tio Válter e tia Petúnia se entreolhavam, ameaçadores. Quando o correio chegou, tio Válter, que parecia estar tentando ser agradável com Harry, fez Duda ir buscá-lo. Eles o ouviram bater nas coisas do corredor com a bengala da Smeltings. Então ele gritou:

      – Chegou outra! Sr. H. Potter, O Menor Quarto da Casa, Rua dos Alfeneiros 4...

     -As cartas não vão parar de chegar até Harry ler –disse Sirius. –Muito mais esperto eles acabarem logo com isso e se livrarem de Harry.

     -Eles querem tirá-lo de lá –disse Snape, para a surpresa de todos. Ele decidiu ignorar o rancor dos Marotos e aproveitar a oportunidade de mudar o mundo bruxo, finalmente –mas não aguentariam ter que conviver com um bruxo. Válter é preconceituoso, e Petúnia, invejosa. Ela não consegue suportar ter que passar por isso mais uma vez.

    Lily abaixou a cabeça, sabendo que ele tinha razão.

     Com um grito sufocado tio Válter saltou da cadeira e saiu correndo pelo corredor, Harry logo atrás dele. Tio Válter teve que lutar e derrubar Duda no chão para lhe tirar a carta, o que foi dificultado por Harry, que agarrara o pescoço do tio Válter por trás. Depois de um minuto confuso de luta, em que todos levaram várias bengaladas, tio Válter se endireitou, ofegante, com a carta de Harry apertada na mão.

     – Vá para o seu armário, quero dizer, para o seu quarto – chiou para Harry. – Duda, saia, saia logo.

     Harry deu voltas e mais voltas no novo quarto. Alguém sabia que ele se mudara do armário e parecia saber que ele não recebera a primeira carta. Isto significava com certeza que ia tentar outra vez? E desta vez ele tomaria providências para que desse certo. Tinha um plano.

     -Aposto que o plano dele será como os do pai: que dão errado toda vez –disse Sirius, rindo.

     -Ei, isso não é verdade –brigou James.

     -Prongs, você sabe que ele tem razão –zombou Remus.

     -É isso mesmo? Meus dois melhores amigos contra mim? -dramatizou James –Estou profundamente magoado!

     -Deixa de ser idiota –falou Remus, levantando para dar um tapa na cabeça do amigo.

     O despertador consertado tocou às seis horas na manhã seguinte. Harry desligou-o depressa e se vestiu em silêncio. Não podia acordar os Dursley. Desceu as escadas sorrateiro sem acender nenhuma luz. Ia esperar pelo carteiro na esquina da Alfeneiros e receber primeiro as cartas endereçadas ao número quatro. Seu coração batia com força quando atravessou sem ruído o corredor escuro até a porta de entrada.

      – AAAAARRREE!

     -Viu, Prongs? Ele te puxou! –gargalhou Sirius, recebendo um olhar raivoso de James.

     Harry deu um salto no ar – pisara em alguma coisa grande e mole no capacho – uma coisa viva! As luzes se acenderam no primeiro andar e, para seu horror, Harry percebeu que a coisa grande e mole tinha a cara do tio. Tio Válter estava dormindo junto à porta de entrada em um saco de dormir para impedir que Harry fizesse exatamente o que estava tentando fazer.

      -Será que ele não consegue ver o absurdo da situação? –perguntou Frank, inconformado.   

     Gritou com Harry quase meia hora e depois lhe disse para ir preparar uma xícara de chá. Harry foi para a cozinha arrastando os pés, infeliz, e quando conseguiu voltar o correio tinha sido entregue, bem no colo de tio Válter. Harry viu três cartas endereçadas em tinta verde.

     – Quero... – começou, mas tio Válter estava rasgando as cartas em pedacinhos bem diante dos seus olhos.

     Tio Válter não foi trabalhar naquele dia. Ficou em casa e pregou a portinhola para cartas.

     -Ele está ficando louco –resmungou Alice.

     – Entende – explicou à tia Petúnia por entre os lábios cheios de pregos –, se eles não puderem entregar então terão de desistir.

      – Não tenho muita certeza de que isto vai dar certo, Válter.

      -Pelo menos ela sabe disso –Lily revirou os olhos.

      – Ah, a cabeça dessa gente funciona de maneira estranha, Petúnia, eles não são como você e eu – disse tio Válter tentando bater um prego com um pedaço de bolo de frutas que tia Petúnia acabara de lhe trazer.

     -Ainda bem. Merlin me livre de parecer com vocês –rosnou Sirius.

     -Merlin livre todo mundo de parecer com eles –concordou Alice.

     Na sexta-feira chegaram nada menos de doze cartas para Harry. Como não passavam pela portinhola da correspondência tinham sido empurradas por baixo da porta, metidas pelos lados e algumas até forçadas pela janelinha do banheiro no térreo. Tio Válter ficou em casa de novo. Depois de queimar todas as cartas, apanhou martelo e pregos e fechou com tábuas as frestas em volta das portas da frente e dos fundos, de modo que ninguém pudesse sair. Cantarolou “Pé ante pé no campo de tulipas” enquanto trabalhava, e se assustava com qualquer ruído.

     No sábado as coisas começaram a fugir ao seu controle.

     -Mais ainda? –James arregalou os olhos –Isso é possível?!

 Vinte e quatro cartas acabaram entrando em casa, enroladas e escondidas nas duas dúzias de ovos que o leiteiro, muito confuso, entregara à tia Petúnia pela janela da sala de estar. Enquanto tio Válter dava telefonemas furiosos para o correio e a leiteria tentando encontrar alguém a quem se queixar, tia Petúnia picava as cartas no processador de alimentos.

     – Mas quem é que quer falar tanto assim com você ? – Duda perguntou espantado a Harry.

     -Até esse filhote de porco está pensando de forma mais clara –Remus girou os olhos.

     Na manhã do domingo, tio Válter sentou-se à mesa do café parecendo cansado e um tanto doente, mas feliz. – Não tem correio aos domingos – lembrou a todos, contente, passando geleia nos jornais –, nada de cartas idiotas hoje...

     -Não tem correio trouxa aos domingos –disse James, sorrindo. –Mas o bruxo...

      Alguma coisa desceu chiando pela chaminé do fogão enquanto ele falava e bateu com força em sua nuca. No instante seguinte, trinta ou quarenta cartas saíram velozes da lareira como se fossem tiros. Os Dursley se abaixaram, mas Harry deu um salto no ar para apanhar uma...

     -Ele vai ser apanhador! –exclamaram James e Sirius, animadamente.

    -Não tem como vocês saberem –disse Lily, confusa.

     -Ah, Lils, ele definitivamente tem um dom –disse James, piscando para a ruiva.

     – FORA! FORA!

      Tio Válter agarrou Harry pela cintura e atirou-o no corredor.

     -Nojento –xingou Sirius, rabiscando mais azarações no pergaminho.

     Depois que tia Petúnia e Duda tinham corrido para fora protegendo o rosto com os braços, tio Válter bateu a porta. Eles podiam ouvir as cartas disparando para dentro da cozinha, ricocheteando nas paredes e no chão.

     – Já chega – disse tio Válter, tentando falar com calma, mas, ao mesmo tempo, arrancando tufos de pelos dos bigodes. – Quero vocês aqui de volta em cinco minutos prontos para sair. Vamos viajar. Ponham apenas algumas roupas nas malas. Não quero discussão!

     -Ele definitivamente enlouqueceu –disse Alice, encarando o livro –e é claro que as cartas vão alcançar Harry, onde quer que ele esteja.

      Ele parecia tão perigoso com metade dos bigodes arrancados que ninguém se atreveu a discutir. Dez minutos depois eles tinham retirado as tábuas para passar nas portas e estavam no carro, correndo em direção à estrada. Duda fungava no banco traseiro; o pai tinha lhe dado um tapa na cabeça por atrasá-los tentando empacotar a televisão, o vídeo e o computador na mochila esportiva.

     Eles viajaram no carro. E viajaram. Nem tia Petúnia se atrevia a perguntar aonde iam. De vez em quando tio Válter fazia uma curva fechada e seguia na direção oposta por algum tempo.

     – Para despistá-los... despistá-los – resmungava sempre que fazia isso.

     -Ele bateu a cabeça feio –disse Lily, assustada. –Nunca vi alguém tão paranoico.

     -Eu espero que nada aconteça com o Harry –James segurou a mão de Lily com força, tentando demonstrar com aquele gesto a sua preocupação.

     -Não vai –a ruiva assegurou, o puxando para mais perto.

     Não pararam para comer nem beber o dia inteiro. Quando a noite caiu Duda estava uivando. Nunca tivera um dia tão ruim na vida. Estava com fome, sentia falta dos cinco programas de televisão a que queria assistir e nunca levara tanto tempo sem explodir um alienígena no computador.

     -Explodir o que e aonde? –perguntou Sirius, confuso.

     -Alienígena é um ser criado pela imaginação trouxa que mora em outro mundo –Lily explicou –é algo que eles vêem como sobrenatural. E computador é um aparelho tecnológico destinado ao processamento de dados. Pode ser uma forma de pesquisa, de comunicação e de jogar. No caso de Dudley, ele o utiliza para jogar online como alienígena.

     Eles se entreolharam, confusos.

     -Eu não entendi exatamente –Remus falou –mas acho que dá para imaginar mais ou menos.

     Tio Válter parou finalmente à porta de um hotel de aspecto sombrio na periferia de uma grande cidade. Duda e Harry dividiram um quarto com duas camas iguais e lençóis úmidos que cheiravam a mofo. Duda roncou, mas Harry ficou acordado, sentado no peitoril da janela, espiando as luzes dos carros que passavam enquanto pensava... Comeram cereal velho e torradas com tomates enlatados frios no café da manhã do dia seguinte. Tinham acabado de comer quando a proprietária do hotel aproximou-se da mesa.

     – Com licença, mas um dos senhores é o Sr. H. Potter? É que eu tenho umas cem dessas na recepção.

     -Agora que o Dursley vai ficar louco mesmo –riu Sirius, com uma espécie de latido.

      E ergueu uma carta para eles poderem ler o endereço em tinta verde: Sr. H. Potter Quarto 17 Railview Hotel Cokeworth. Harry tentou pegar a carta, mas tio Válter afastou sua mão. A mulher ficou olhando.

      – Eu recebo as cartas – disse tio Válter, levantando-se depressa e seguindo a mulher que se retirava do salão de refeições.

     – Não seria melhor simplesmente irmos para casa, querido? – tia Petúnia sugeriu timidamente horas depois, mas tio Válter não parecia ouvi-la.

     -Para ele não ouvir Petúnia, a coisa está realmente séria –murmurou Lily –Sei que ele é nojento, mas se importa de verdade com ela. Meus pais teriam impedido o casamento se não fosse assim.

     Exatamente o que andava procurando ninguém sabia. Ele os levou até o meio de uma floresta, desceu do carro, espiou à volta, sacudiu a cabeça, tornou a embarcar no carro e partiram outra vez. A mesma coisa aconteceu no meio de um campo arado, no meio de uma ponte pênsil e no alto de um edifício garagem.

      – Papai enlouqueceu, não foi? – Duda perguntou, cansado, à tia Petúnia no fim daquela tarde.

     -Até esse acéfalo percebeu –Frank disse, preocupado.

     Tio Válter estacionara no litoral, passara a chave no carro com todos dentro e desaparecera. Começou a chover. Grandes gotas batiam no teto do carro. Duda choramingou.

     – É segunda-feira – falou à mãe. – O Grande Humberto vai se apresentar hoje à noite. Quero estar em algum lugar que tenha televisão.

     -É com isso que ele está preocupado? O pai dele está ficando doido, levando-os para vários lugares sem se preocupar com a segurança deles, e ele está querendo voltar para assistir tevelisão? –disse James, inconformado.

     -Eles o criaram para não se importar com nada a não ser as próprias vontades, James –disse Lily calmamente –Mesmo que seja o pai dele, ele simplesmente não se importa. E não podemos culpá-lo por isso. Ele é só uma criança que não recebeu limites.

     -Igual ao Potter –murmurou Snape de forma audível.

     -Snape –Lily disse em tom ríspido –já chega. James realmente não se importou com o sentimento de várias pessoas ao redor dele um tempo atrás, mas isso não significa que ele não tenha mudado. Eu estou vendo essa mudança, e você só não a enxerga porque sua birra é maior. E eu verdadeiramente entendo isso. Eu entendo o seu lado, mas não vou admitir que você continue soltando esse tipo de comentário enquanto estamos tentando fazer a diferença aqui. Chega de ser tão infantil. Se você não tem nada relevante para acrescentar, fique calado. Estamos entendidos?

     Todos olharam para Lily de olhos arregalados. Era a primeira vez que defendia James de Snape, ao invés do contrário.

     -Sim –murmurou Severo, trincando os dentes.

      Segunda-feira. Isto lembrou a Harry uma coisa. Se era segunda-feira – e em geral podia-se confiar que Duda soubesse os dias da semana, por causa da televisão – então o dia seguinte, terça-feira, era o décimo primeiro aniversário de Harry. Naturalmente seus aniversários não eram lá muito divertidos – no ano anterior, os Dursley tinham-lhe dado um cabide e um par de meias velhas do tio Válter. Ainda assim, não se fazia onze anos todos os dias.

     -Não mesmo –Remus sorriu –principalmente sendo um bruxo.

     Tio Válter voltou sorrindo. Carregava um pacote comprido e fino e não respondeu à tia Petúnia quando ela perguntou o que comprara.

     – Encontrei o lugar perfeito! – falou. – Vamos! Saiam todos!

     Fazia muito frio do lado de fora do carro. Tio Válter apontou para o que parecia ser um grande rochedo no meio do mar. Encarrapitado no alto do rochedo havia o casebre mais miserável que se pode imaginar. Uma coisa era certa, ali não havia televisão.

     -Não acredito que ele vá levar meu filho para um lugar assim –gemeu Lily, apavorada.

     – Estão anunciando uma tempestade para hoje! – disse tio Válter alegre, batendo palmas. – E este senhor teve a bondade de concordar em nos emprestar seu barco!

     -Ele vai andar de barco no meio de uma tempestade? –os olhos de Lily se arregalavam mais a cada segundo.

     -Filho da puta –xingou Sirius, igualmente preocupado.

     James puxou Lily para mais perto, passando a mão delicadamente pelos longos cabelos rubros, tentando acalmá-la e se acalmar também.

     Um homem desdentado vinha descansadamente em direção a eles, e apontava com um sorriso muito maldoso para um barco a remos velho que subia e descia nas águas cinza-grafite lá embaixo.

     – Já comprei algumas rações para nós – disse tio Válter –, portanto, todos a bordo!

     -Ele vai dar ração para o meu filho comer? –James fez uma careta de nojo –Ele não é o Pads que aceita qualquer coisa assim! –James e Remus gargalharam, sendo os únicos que entenderam a piada.

     -Vai a merda, Prongs –rosnou Sirius.

     -Eu não vou nem perguntar –suspirou Alice –Acho que eu não quero entender.

     Fazia muito frio no barco. Salpicos de água gelada do mar escorriam pelos pescoços deles e um vento cortante fustigava seus rostos. Depois do que pareceram horas, eles chegaram ao rochedo, onde Tio Válter, escorregando, levou-os até a casa em ruínas. O interior era horrível; cheirava a algas marinhas, o vento assobiava pelas frestas nas paredes de tábuas e a lareira estava úmida e vazia. Havia apenas dois quartos. Afinal as rações de tio Válter eram uma embalagem de cereal para cada um e quatro bananas. Ele tentou acender a lareira, mas a embalagem de cereal apenas fumegou e carbonizou.

     -Tudo isso por medo de Harry ir para Hogwarts? –murmurou Snape –ele é maluco.

     E, por incrível que pareça, todos acenaram em concordância. Lily sorriu para ele, vendo que ele ouviu seu conselho.

     – Aquelas cartas viriam a calhar agora, hein? – disse ele, animado. Estava de muito bom humor.

     Obviamente achava que ninguém teria chance de alcançá-lo ali, durante uma tempestade, para entregar cartas. Harry concordava intimamente, embora este pensamento não o animasse nem um pouco.

     -As cartas vão alcançá-lo em qualquer lugar, Harry –disse Frank, em tom carinhoso.

     Quando a noite caiu, a tempestade prometida desabou ao redor deles. A espuma das altas ondas chapinhava nas paredes do casebre e um vento ameaçador sacudia as janelas imundas. Tia Petúnia encontrou uns cobertores mofados no segundo quarto e preparou uma cama para Duda no sofá comido pelas traças. Ela e tio Válter foram se deitar na cama cheia de calombos ao lado e deixaram Harry procurar a parte mais macia do soalho e se enrolar no cobertor mais rasgado e ralo.

     -É claro que Harry tinha que estar na pior situação –sussurrou Lily, chateada. James a apertou mais contra si.

     A tempestade rugia cada vez com maior ferocidade à medida que a noite avançava. Harry não conseguia dormir. Tremia e revirava, tentando encontrar uma posição confortável, seu estômago roncando de fome. Os roncos de Duda eram abafados pela trovoada que começou por volta da meia-noite. O mostrador luminoso do relógio de Duda, que estava pendurado para fora do sofá em seu pulso gordo, informava a Harry que dentro de dez minutos ele completaria onze anos.

     Deitado, ele viu seu aniversário se aproximar, perguntando-se se os Dursley se lembrariam, perguntando-se onde estaria o remetente das cartas agora. Faltavam cinco minutos. Harry ouviu alguma coisa estalar lá fora. Desejou que o teto não caísse, embora quem sabe conseguisse se esquentar se isto acontecesse. Quatro minutos. Talvez a casa na rua dos Alfeneiros estivesse tão abarrotada de cartas que quando voltassem ele pudesse surrupiar uma. Três minutos. Seria o mar batendo tão forte na rocha? E (faltavam dois minutos) que barulho esquisito de trituração era aquele? Será que a rocha estava se desintegrando no mar? Mais um minuto e ele completaria onze anos. Trinta segundos... vinte... dez – nove – talvez acordasse Duda, só para aborrecê-lo – três – dois – um...

     -Eu acho que Harry merece uma música de parabéns –disse Frank, olhando para o pais do garoto.

     -Acho uma excelente ideia –sorriu James, puxando a cantoria. –Parabéns pra você, nessa data querida...

     “O menino já deve estar bem mais velho e nem está aqui. Ridículos, todos eles”, pensou Snape, em uma carranca, esperando a música acabar para continuar a ler.

     BUM. O casebre todo estremeceu e Harry sentou-se reto, arregalando os olhos para a porta. Havia alguém lá fora, que batia, querendo entrar.

     -Com certeza é alguém de Hogwarts. –disse Frank.

     -Deve ser o Hagrid –comentou Lily –ele faz tudo que Dumbledore pede, e se importa com Harry.

     -Faz sentido –concordou James –espero que eles se assustem com o tamanho dele. –completou com um sorriso malicioso.

     -Ah, isso eu tenho certeza que vão –riu Sirius, novamente parecendo um latido.

     -Mas, e aí?  Vamos dormir ou ler mais um? –perguntou Alice.

     -Acho melhor irmos comer alguma coisa e dormir –disse Remus –acho que lemos bastante hoje, levando em consideração que chegamos essa noite.

     Todos acenaram em concordância e se reuniram na mesa de jantar, comendo os pratos que apareceram magicamente. Logo após, cada um foi deitar em suas respectivas camas, e adormeceram, cansados.


Notas Finais


O que acharam? Eu amei escrever esse capítulo, e espero que tenham gostado dele tanto quanto eu. Gosto de ter umas interações maiores com o Snape, e vocês?? Não deixem de me contar o que acharam! Beijo e até primeiro de setembro!


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