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História Uma ode ao astronauta solitário. - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Sete.



A rotina parece diferente quando se almeja conquistar algo, e a sensação é estranha. Há tempos não desejo nada, e assim, repentinamente, me percebo desesperada por isso. Por algo que não sei nomear. Seokjin continua dizendo que perdi a noção das coisas e que eu não deveria fazer chantagens emocionais para conseguir o que quero, o que é verdade, seja ela bonita ou não. De um jeito ou de outro, depois de quase uma semana o perseguindo pelos corredores e tocando no assunto sempre que a chance aparece, ele finalmente parece ceder. Não que ele tenha mudado de ideia, porque ele mesmo faz questão de deixar claro que ainda acha isso tudo uma grande loucura, mas ele parece ter se cansado de minha persistência incessante para conseguir aquilo que quero. E penso que, talvez, seja justamente isso que o faça se dar por vencido: notar que quero algo.


— Você esqueceu tudo que disse sobre ser jogada dentro de uma cápsula no espaço, não é? Tudo bem que as condições aqui não são as melhores, mas qualquer coisa parece melhor do que ficar sozinha lá fora, no espaço, sem ninguém.


            É explícito o quanto a ideia o aterroriza.


— Claro que não esqueci, Jin… Você faz questão de me lembrar disso a cada cinco segundos. Isso ainda vai demorar muito? — Eu pergunto, me afastando da porta para espirar por cima do ombro de meu amigo, que continua mexendo em meu celular conectado em seu notebook. Ele disse que teria sido bem mais prático se pudesse utilizar o sistema inteligente da estação, mas que alguém poderia rastrear nossas atividades ilegais o que resultaria, novamente, em sermos jogados no espaço.


            Eu duvidava muito dessa teoria, no entanto. Ser lançado no espaço dentro de uma cápsula era mais como um presente do que como um castigo. Era para isso que todos trabalhavam incessantemente, dia e noite, noite e dia, não importava. O horário era um só, interminável. Quanto mais cedo descobrissem para onde ir, mais cedo fariam exatamente isso: nos jogariam lá fora, lançados a própria sorte. A ideia de ficar era assustadora, mas a de partir era ainda pior, e Seokjin, sem dúvida, nutria do mesmo sentimento.


— Vai demorar menos se você continuar lá na porta, tomando o cuidado de não deixar ninguém entrar aqui… — Ele protesta, sem desviar os olhos do aparelho. Sua concentração é invejável. Seus dedos longos continuam pressionando tecla atrás de tecla, criando uma sinfonia cibernética, e parece que estamos trancados em seu escritório a horas. Suspiro cansada e me afasto outra vez, voltando a encostar minhas costas contra a porta de metal frio. Ninguém parece interessado em descobrir o que estamos fazendo.


— Você acha que vão me responder? 


— Eu espero muito que não. Isso é tão errado… — Ele repente. De novo. Pela quinquagésima quarta vez, ou mais, porque tenho certeza de que perdi a conta por mais o relacionamento mais duradouro no qual já me envolvi seja justamente com os números, sendo estes meus aliados — Por que é que você quer tanto tentar estabelecer contato com outro planeta? Não basta saber que já tem alguém tentando fazer isso, e que esse alguém é seu melhor amigo aqui? 


— Eu já expliquei… Você me deixou curiosa, e não é todo mundo que pode dizer que conversou com alguém de outro planeta — Dizer isso em voz alta faz com que a coisa toda pareça realmente absurda, mas há alguma coisa dentro de mim que fala mais alto. A vontade, o desejo, o querer. A ânsia de algo novo, ainda que tudo indique que a ideia é arriscada, insensata. Ignoro todos os alertas que Jin e meu cérebro insistem em emitir — Não vai acontecer nada… Sua equipe não precisa descobrir que também estou usando o aplicativo, e você mesmo disse que não há como acessar nada que vá direto para o meu celular, não é? Então vai ser como se eu tivesse, sei lá, hackeado vocês? Sem que vocês pudessem descobrir isso, né? Algo assim… 


— A diferença é que no caso sou eu quem está hackeando minha própria equipe pra satisfazer um desejo idiota de uma amiga que não tem absolutamente nada a ver com essa missão… E se você conseguir realmente falar com alguém de B612 e isso acabar gerando uma guerra? Você já pensou nisso? — A voz de Jin começa a se tornar mais aguda e suas palavras escapam mais depressa, e sei que ele está ficando nervoso, porque me sinto da mesma forma.


— Por que eu iria fazer com que uma guerra começasse se só quero saber coisas idiotas como, por exemplo, o que eles comem? Como é que alguém pode criar uma guerra falando sobre comida? — A brincadeira é nítida, mas não sei como responder de maneira séria, porque não quero aceitar que ele está certo e que não é certo me meter em assuntos de tamanha importância.


            Me sinto como uma criança mimada que não sossega até conquistar o que deseja, e me convenço de que a única coisa que me motiva a sustenta tal comportamento é a ideia de que já estamos condenados. Não há nada a perder.


— Eu sei que você não quer falar sério sobre isso porque sabe que tenho razão — Ele afirma, objetivo — E não importa se já falei isso uma centena de vezes, vou repetir... Você sabe que nós somos a última esperança, não sabe? — Sigo em silêncio, esperando que ele se explique — Não importa se há um bilhão ou cinquenta mil pessoas no mundo, todas elas dormem e acordam esperando pelo dia em que vamos aparecer com uma resposta.


— Eu sei, Jin — Respondo, esperando que isso seja o suficiente para que ele se cale, mas o modo como ele me encara, temeroso, me faz ter certeza de que seu sermão ainda está distante do fim.


— Eu sei que o B612 não é a solução. Não dá pra levar a população pra viver em um planeta anão que mais se assemelha a um asteroide. Você sabe disso também, mas as pessoas lá fora não vão ligar, porque em tempos de desespero qualquer faísca dá início a um incêndio. E você sabe que pior do que dar esperança pra alguém, é você acabar com ela. O B612 é um caso perdido e sabe-se lá porque resolveram reviver esse assunto agora... — Talvez porque em tempos de desespero, até mesmo um caso perdido possa parecer uma solução. Penso em responder, mas me mantenho calada, ciente de que não é isso que Seokjin quer ouvir — Então, por favor, vou te deixar fazer parte disso, mas você precisa me prometer que quando eu disser que acabou, acabou. Entendeu?


— Jin… Você precisa ser menos pessimista — A intensidade de seu discurso me deixa desconsertada.


— Isso é sério. Não vou deixar você participar disso se você não concordar que a última palavra aqui é a minha. É pro bem de todo mundo, e você sabe disso — Ele insiste, determinado, como se tentasse conseguir minha assinatura ao final de um contrato importante.


            Não há problema algum em concordar com ele, é claro. A racionalidade é uma constante fácil de ser atingida, e sei que é preciso ser racional em uma situação como essa. Sei que, para ele, deixar que eu faça parte de uma operação tão secreta assim é um agrave, e que qualquer deslize, por menor que seja, pode colocar tudo em risco. A cápsula solitária no universo é o menor dos problemas. E sei que é exatamente por conta disso que não devo hesitar e nem discutir quando Seokjin resolver que suas intenções em ser um bom melhor amigo não devem mais se sobressair a sua ética profissional. É claro que sei.


— Eu prometo, é claro... Não vou discutir quanto a isso, prometo.


            A promessa, no entanto, provoca um gosto amargo em meu paladar, ainda que eu não seja capaz de precisar o porquê disso. O mistério permanece ali, agarrado ao céu de minha boca. Resolvo que talvez o problema resida na amargura que é vivenciar o fim antes mesmo de se permitir um começo.


— Acabei — A palavra solitária faz meu coração acelerar e me controlo para não sair de perto da porta outra vez, mas agora é Jin quem se aproxima, deixando sua base de trabalho para trás e trazendo meu celular em suas mãos. Ele estende o aparelho em minha direção mas faz uma pausa antes de entregá-lo para mim — Me promete de novo que você não vai fazer besteira, por favor. Eu ainda não to convencido de que essa é uma boa ideia.
 
            — É o fim do mundo, Jin. Você acha mesmo que ainda há alguma distinção entre ideias boas e ruins?
 



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