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História Uma rua de camélias tóxicas e dois malandros - Capítulo 1


Escrita por: BabyStayZone e doctorhye

Notas do Autor


Devidos agradecimentos e mais algumas coisinhas estarão nas notas finais. Até lá, boa leitura! ꒰⑅ᵕ༚ᵕ꒱˖♡

Capítulo 1 - Uma síndrome estranha e uma aposta decadente


Existem zonas de camélias falantes por toda a Rua Mal-Sentou-Já-Levantou. Elas começam a falar quando o Sol, às vezes bem humorado e outras nem tanto, começa a aparecer no horizonte, tímido e sonolento porque não conseguiu dormir direito – as estrelas costumam falar alto demais, principalmente quando a Lua está de bucho cheio –, e só calam a boca quando a Lua aparece, justamente quando ela não pode dormir.

Na Rua Mal-Sentou-Já-Levantou, as coisas são bem assim: você nunca consegue dormir porque sempre vai ter alguém botando o papo em dia com qualquer um que apareça, e ainda tem esse negócio de você saber tudo sobre a vida de qualquer um. Talvez sejam as paredes que cheiram a sabonete velho, sem exceção, ou as camélias que podem ser mais fofoqueiras do que todos imaginam, mas todos, de alguma forma, sabem sobre o que os seus vizinhos falam, seja no almoço preguiçoso de um sábado ou na madrugada inevitável de uma sexta-feira verde – e tem, também, esse costume de dar cores aos dias da semana, aos meses e aos anos. É, a Rua Mal-Sentou-Já-Levantou é bem estranha e não há quem curta morar por lá não – os que têm segredos, então –, tanto que ela recebeu esse nome porque é comum ter gente se mudando em um período de dois a quatro meses.

Contudo, Christopher Bang é uma (quase) restrição a esse fenômeno que batizou de Boca-Que-Coça-Não-Fica-Parada-Por-Nada. Ele mora na casa de janelas azuis perto do supermercado da madame Haseul – que por sinal andou comprando muito brócolis enlatado – desde os seus quatro aninhos, época que as paredes com cheiro de sabonete ainda tinham um cheiro suportável. Ele e seu pai são as pessoas que mais aguentaram ficar por aquela área – quase que sua mãe conseguiu, mas teve que ir morar com as estrelas um pouco mais cedo que o planejado – e, surpreendentemente, não se sabe muito sobre eles. Sabe-se que Chris gosta de pirulito de menta, aquele que na cantina da escola, custa apenas cinquenta centavos.

Han Jisung, amigo entre várias aspas de Christopher, já morou na Rua Mal-Sentou-Já-Levantou, mas se mudou quando algo sobre ele guardar comida dentro das bochechas vazou por uma camélia sádica demais. Isso aconteceu há quatro meses, mais ou menos, mas ainda há quem o chame de esquilo, principalmente na escola, mas não é como se ele desse muita bola para isso – ele gosta de ficar com a bola no lugar, na verdade. Na escola, ele é o tipo de garoto que come escondido dos outros, lá no campinho cheio de ervas daninhas atrás do ginásio. Geralmente ele vai até a cantina e compra sanduíches sabor flor, mas quando a flor em questão é camélia, ele opta por uma minipizza de arco-íris. 

Eles são bons amigos, ou quase isso. Chris já passou o recreio com ele várias vezes e Jisung já emprestou cinquenta centavos para ele várias vezes, e o problema está aí: Christopher nunca pagou qualquer um dos cinquenta centavos que Jisung o emprestou – ele pagou um, para falar a verdade, mas Jisung gosta de ignorar isso para deixar tudo mais dramático – e Christopher, bem, ele sempre fala que vai pagar na próxima vez. 

É 1980 e o ano não poderia estar mais laranja. Acredita-se que Hwang Hyunjin, o pintor legal que mora perto da praia, andou subindo até o céu e jogou um pouco de aquarela, mas isso é algo que as camélias ouviram da madame Haseul enquanto ela contava as latas de brócolis. Hoje é sexta-feira e ela, meio roxa, está fazendo um contraste legal com o céu laranja. O Sol está lá no alto e Christopher e Jisung estão jogando tempo fora na praia.

“Você aposta quantos pirulitos de menta que o mundo acaba até 2000?”, Jisung pergunta enquanto tenta fazer uma carinha feliz na areia cor-de-rosa. “Quanto é que eu estou te devendo, mesmo?”, Chris questiona, e Jisung para de fazer uma carinha feliz para fazer uma carinha embravecida. “125 verdinhas, seu canalha”, responde. “Então eu aposto 250 pirulitos de menta que o mundo não acaba até 2000”, Chris disse, convencido e sorridente. De qualquer maneira, ele se livrou da sua dívida de 125 pratas, estava a salvo. O mundo nem tanto, mas ele estava, e Jisung também, mesmo que ele gostasse de admitir que a segurança daquele garoto não fosse tão importante.

Os dois tem as bochechas avermelhadas e Christopher um olho bem inchado – vai ficar roxo, provavelmente. Hoje foi um dia que eles brigaram, mas isso é bem comum, ninguém chega a estranhar quando eles se jogam no chão e se puxam os cabelos. Na verdade, é comum ter adolescentes descendo a porrada uns nos outros nessa época do ano, essa dupla de pirralhos são só mais uma entre centenas. Eles brigaram pelo último pastel de flores da cantina, mas no fim nenhum deles o conseguiu, pois Lee Felix, um sardento bem adorável, semelhante a um girassol, foi quem o pegou, e ele até mesmo riu na cara dos outros dois antes de ir para o canto do seu grupinho. 

A luta dos dois foi entediante e as moças da cantina nem aproveitaram o show. Um soco ali, outro lá e, para encerrar, uma cotovelada vindo de Jisung bem no olho direito de Christopher. No caminho para a praia, Chris soltou algo sobre “poderia ter sido pior” e Jisung concordou; “Eu poderia não ter te acertado”, ele disse e levou um empurrão do outro. 

“Eu aceitaria um cigarro”, Jisung solta enquanto se sentava na areia, olhando para o pôr-de-sol arroxeado, “Que nem nos filmes, sabe? E uma cicatriz no olho seria bem vinda, também. Nossa, imagina só isso e mais uma jaqueta de couro?!”. Chris ri e se senta ao lado dele, “Se você conseguir achar uma que caiba em você…”, fala, desenhando qualquer coisa na areia. “É, e eu quero ver você achar uma jaqueta que não rasgue nesses seus ombros de dinossauro”, o outro retruca, rindo. 

A vida deles é bem assim: entediante e sem graça. A cidade é um lugar cheio de cores vivas, mas tudo lá é chato e, segundo Jisung, broxante. Ele já disse, certa vez, que aquele lugar é tão colorido assim para disfarçar a verdadeira face do lugar, tão cinzenta quanto as pessoas que o habitam. Sabe, as camélias o ouviram falar sobre isso, mas não comentaram sobre, talvez porque até mesmo aquelas tagarelas tenham vergonha disso. 

“Você não tem idade para fumar”, Chris comenta, perguntando-se sobre o vício de seu amigo quando o assunto eram itens de filmes legais que nunca fariam parte das suas realidades. “Isso aí é o de menos”, ele responde, “Minha maior preocupação é ter o pulmão arruinado, em cinzas”. “Mas você já é cinza. Seria tão ruim assim ficar um pouco mais cinza?”, Christopher questiona sem saber o rumo que essa conversa irá tomar. “Você não sabia? Cinza demais fica preto, e eu não quero ser uma mancha escura nesse lugar”, Jisung responde.

“Essa merda é uma página em branco, não é?”, Chris pergunta, agora olhando para os barquinhos de papel que preenchiam o além aquático. Jisung concorda, meio desanimado. “É estranho dizer isso, há tantas cores por aí, mas ainda assim isso aqui não tem cor alguma”, disse. Ficaram em silêncio, o roxo do horizonte tornando-se mais escuro assim como a amargura que crescia do coração deles. 

Talvez eles sejam bons amigos porque ambos compartilham de um buquê interior de flores venenosas, ou talvez porque a Estrela Destino quis brincar com a desgraça alheia, mas os dois não se importam muito com isso. No fim das contas, eles sempre vão pagar por algo, não é como a aposta que fizeram entre si sobre o mundo acabar até 2000, é a vida, e ela não se resume a pirulitos de menta, comidas florais e paredes com cheiro de sabonete.

Quando a Lua começa a escalar o horizonte, eles voltaram a falar. O clima entre Chris e Jisung é bem bipolar, quase uma paleta inteira de cores. 

“Você toparia fugir desse lugar?”, Christopher pergunta e Jisung questiona para onde iriam, “Sei lá, qualquer lugar que venda pirulitos de menta além desse cu aqui, eu estou dentro”, continuou. “Então, se você fugir, eu fujo também”, Jisung responde e encosta a cabeça no ombro bombado de Christopher, que acredita que o outro esteja meio sonolento. “Já sei! Se eu te levar comigo, nós vamos para as estrelas e você vai ser o meu burro de carga, seu otário”, Christopher diz, rindo, mas é uma risada triste.

“Tristeza tem cor?”, Jisung pergunta. “As camélias lá de casa disseram que ela é azul, mas eu tenho as minhas dúvidas quanto a isso”, Chris responde. “Jura? Porquê?”, Jisung questiona. “Ah, sei lá, elas já disseram que amarelo é a cor da felicidade, mas a minha mãe só usava amarelo e não era feliz”, ele responde. “E por que você acha isso?”, Jisung pergunta, curioso – as camélias já disseram que laranja é a cor da curiosidade, mas ele estava qualquer cor, menos laranja. “Uma estrela me contou”, Chris responde e o papo depressivo sobre cores acaba, nenhum deles gosta, realmente, de artes.

As camélias da Rua Mal-Sentou-Já-Levantou são flores traiçoeiras, não se sabe dizer quando elas são honestas ou não, mas todos sabem que elas são tagarelas, e o papo delas já acabou com muita gente, e quando essa gente não aguenta mais as ouvir, elas têm 99% de chance de se mudar para as estrelas, bem longe delas.

Pensando bem, Christopher e Jisung podem ser amigos por causa disso aqui: eles não aguentam mais as camélias – e olha que Jisung nem mora mais na mesma rua que elas estão – e querem fugir para as estrelas. O problema é que eles não tem coragem para tal e são cinzas como grande parte da galera, não são especiais e nem nada do tipo. As camélias até que querem comentar sobre a covardia deles, mas do que adiantaria comentar sobre isso se elas são tão covardes quanto eles próprios? Sinceramente, é uma baita palhaçada. Chris já as aguentou por tempo demais, e mesmo que ele não goste de admitir isso, ele está com Boca-Que-Coça-Não-Fica-Parada-Por-Nada.

Christopher torce para o mundo não acabar até 2000, mas no fundo, bem no fundo mesmo, ele quer que o mundo exploda de uma vez, chega de papo furado. Jisung quer isso, também, e para ele, apostas são um bom jeito de desviar desejos meio malucos. Talvez o mundo não acabe até 2000, mas é provável que as camélias e semelhantes acabem com as pessoas que o habitam até lá. 


Notas Finais


Gostaria de agradecer a @got2jae pela betagem impecável da fic, a @changaylix pela capa bela e magnífica e a você que chegou até aqui uwu.

As palavras obrigatórias que eu escolhi foram sabonete, pirulito e flores, e eu amei usar elas ao decorrer da narrativa. Paredes com cheiro de sabonete velho, pirulitos de menta por cinquenta centavos e flores que são a arruína de muitos, inclusive delas próprias. Eu as escolhi porque são palavras legais de se falar em voz alta e achei que ficaria interessante as tornar importantes em um enredo.

Eu gosto muito de fantasia e não pude perder a oportunidade de escrever uma para o debut do projeto. Queria ter feito algo melhor, mas foi isso aqui que eu consegui c: Prometo fazer algo melhor para o próximo ciclo 💪🐧💞

Enfim, espero que tenham gostado e façam suas apostas sobre quando o mundo vai acabar, realmente.

Até a próxima ( ◜‿◝ )♡


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