História Uncovering The Secrets Of The Universe - YM - Capítulo 3


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Categorias Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo
Personagens Personagens Originais
Tags Adaptação, Angst, Bangtan Boys (BTS), Gay, Lemon, Longfic, Minimini, Romance, Suji, Universo, Yoonmin
Visualizações 19
Palavras 4.252
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Fluffy, Lemon, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


oiee mais um capítulo pra vocês, espero que gostem assim como eu 💛💛

boa leitura ♡

Capítulo 3 - Dois


Eu precisava tomar uma ducha antes de entrar na piscina. Era uma das regras.

Pois é, regras. Odiava tomar banho com um bando de estranhos. Não sei por quê, simplesmente não gostava. É aquilo, alguns caras falam sem parar, como se fosse normal entrar no chuveiro com um monte de gente e contar da professora que você odeia, do último filme que você viu ou da garota de quem você está a fim. Eu não gostava; não tinha nada para falar.

Caras no chuveiro. Não era minha praia.

Caminhei até a piscina, sentei na beirada da parte rasa e botei os pés na água. O que você faz numa piscina quando não sabe nadar? Aprende. Acho que essa era a resposta. Eu tinha ensinado meu corpo a boiar na água. Sem perceber, aplicara um dos princípios da física. E o melhor é que tinha feito a descoberta por mim mesmo.

Por mim mesmo. Estava apaixonado por essa expressão. Eu não era muito bom em pedir ajuda, um mau hábito herdado do meu pai. E, além disso, os instrutores de natação que se consideravam salva-vidas eram uma droga. Não tinham o menor interesse em ensinar um pivete raquítico de dezessete anos a nadar. Estavam mais interessados nas garotas que começavam a ter peitos. Eram obcecados por peitos. Essa era a verdade. 

Ouvi um dos salva-vidas conversar com outro enquanto deveria estar de olho num grupo de crianças pequenas.

ㅡ Uma garota é como uma árvore. Dá vontade de escalar e arrancar todas as folhas.

O outro salva-vidas riu.

ㅡ Você é um babaca ㅡ disse.

ㅡ Não, sou um poeta ㅡ reagiu o primeiro. ㅡ Um poeta do corpo.

E os dois caíram na gargalhada.

Sim, claro, aqueles dois eram os novos Walt Whitman. Pois é, meu problema com garotos é que eu não fazia a menor questão de ficar perto deles. Quer dizer, me causavam desconforto. Não sei por quê, exatamente. É que… Sei lá, eu não fazia parte daquele mundo. Acho que o fato de eu ser um deles me deixava absurdamente envergonhado. E a possibilidade de crescer e virar um daqueles babacas me deprimia. Uma garota é como uma árvore? Sim, e um cara é tão inteligente quanto um toco de madeira infestado de cupins. Minha mãe diria que era apenas uma fase. Logo teriam seus cérebros de volta. Ah, claro.

Talvez a vida fosse mesmo só uma série de fases ㅡ uma depois da outra. Talvez em alguns anos eu passaria pela mesma fase em que os salva-vidas de dezenove anos estavam. Não que eu acreditasse na teoria da minha mãe sobre fases. Aquilo não parecia ser uma explicação ㅡ estava mais para uma desculpa qualquer. Acho que minha mãe não entendia a fundo os garotos. Nem eu. E eu era um.

Tinha a sensação de que havia algo de errado comigo. Acho que eu era um mistério até para mim mesmo. Que saco. Eu tinha sérios problemas.

Uma coisa era certa: pedir para um daqueles idiotas me ensinar a nadar estava fora de questão.

Melhor sofrer sozinho. Melhor morrer afogado.

Então fiquei boiando no canto. Não que fosse muito divertido. Foi então que ouvi uma voz meio esganiçada.

ㅡ Posso ensinar você a nadar.

Fui até a lateral da piscina e fiquei de pé, os olhos quase fechados por causa do sol. Ele estava sentado na beirada. Encarei-o com desconfiança. Um cara que se oferece para ensinar alguém a nadar com certeza não tem nada melhor para fazer da vida. Dois caras sem nada para fazer da vida? Quão divertido poderia ser?

Eu tinha uma regra: melhor se entediar sozinho do que acompanhado. E quase sempre seguia essa ideia. Talvez por isso não tivesse amigos.

Ele me encarava. Esperando. Então, repetiu:

ㅡ Posso ensinar você a nadar, se quiser.

Por algum motivo, gostei da voz dele. Soava como se estivesse gripado, meio rouco.

ㅡ Você fala de um jeito esquisito ㅡ comentei.

ㅡ É alergia ㅡ ele disse.

ㅡ Alergia a quê?

ㅡ Ao ar ㅡ respondeu.

A resposta me fez rir. 

ㅡ Meu nome é Jimin ㅡ ele disse.

Seu nome me fez rir ainda mais.

ㅡ Desculpe ㅡ eu disse.

ㅡ Tudo bem. As pessoas costumam rir do meu nome.

ㅡ Não, não ㅡ acrescentei. ㅡ É que o meu é Yoongi.

Seus olhos brilharam. Tipo, o cara estava disposto a escutar cada palavra que eu dissesse.

ㅡ Min Yoongi ㅡ repeti.

Então ambos perdemos o controle. De tanto rir.

ㅡ Desculpe, é que eu não encontro muitos coreanos por aqui. Acho que estou aliviado. ㅡ eu disse, enxugando as lágrimas no canto dos olhos.

ㅡ Tudo bem. Meu pai é professor de inglês em uma faculdade, ele queria que meu nome fosse Dante como o poeta. Mas eu gosto como Park Jimin soa ㅡ ele disse.

ㅡ Dante? Nossa, pode parecer estranho agora mas o meu pai queria que o meu fosse Aristóteles. É o nome do meu avô.

E então pronunciei o nome do meu vô, caprichando no sotaque mexicano:

Aristotiles. E, na verdade, meu primeiro nome deveria ser Angel. ㅡ Emendei em espanhol: ㅡ Angel.

ㅡ Seu nome seria Angel Aristóteles?

— Sim. No início fui planejado assim se eu tivesse nascido aqui no Texas.

Rimos de novo. Não conseguíamos parar. Perguntava a mim mesmo do que estávamos rindo.

Era só dos nomes? Ou ríamos por estarmos aliviados? Felizes? O riso era outro mistério da vida.

ㅡ Eu costumava dizer às pessoas que meu nome era Dan. Sabe, só tirando duas letras de Dante pra não chamar atenção quando cheguei da Coreia com a minha mãe. Mas parei de fazer isso. Não era verdade. E, no fim das contas, fui descoberto. Me senti um mentiroso idiota. Tive vergonha de mim mesmo por ter tido vergonha de mim mesmo. Não gostei de me sentir assim ㅡ explicou, dando de ombros.

ㅡ Às vezes me chamam de Yoon.

ㅡ Prazer, Yoon.

Gostei do jeito como disse “Prazer, Yoon”. As palavras soaram sinceras.

ㅡ Tudo bem ㅡ eu disse ㅡ, me ensine a nadar, Park Jimin. 

Acho que pronunciei as palavras como se estivesse fazendo um favor a ele. Mas ele não percebeu ou não se importou.

Jimin era um professor detalhista. Sabia nadar muito bem, entendia tudo sobre o movimento dos braços e das pernas e a respiração. Entendia como o corpo funcionava na água. Ele amava e respeitava a água. Compreendia suas belezas e perigos. Falava de nadar como um estilo de vida. Ele tinha dezesseis anos. Quem era aquele cara? Parecia meio frágil, mas não era. Era disciplinado, rígido e inteligente; e não fingia ser burro e comum. Não era nem um nem outro. Era engraçado, focado e impetuoso. Quer dizer, podia ser impetuoso. E não tinha nenhuma maldade. Eu não entendia como alguém podia viver em um mundo mau e não absorver um pouco dessa maldade. Como um cara era capaz de viver sem um pouco de maldade?

Jimin se tornou mais um mistério em um mundo cheio de mistérios.

Durante todo aquele verão, nadamos, lemos quadrinhos e livros e conversamos sobre eles.

Jimin tinha revistas do Super-Homem que eram de seu pai. Ele adorava. Também gostava de Archie & Veronica. Eu odiava aquela merda.

ㅡ Não é merda nenhuma ㅡ ele reclamava.

Já eu gostava de Batman, Homem-Aranha e Hulk.

ㅡ Sombrio demais ㅡ Jimin disse.

ㅡ Falou o cara que gosta de Coração das Trevas, do Conrad.

ㅡ É diferente ㅡ ele rebateu. ㅡ Conrad escreveu literatura.

Eu sempre defendia que histórias em quadrinhos também eram literatura. Só que literatura era coisa séria para alguém como Park. Não me lembro de ter ganhado uma discussão com ele. Ele argumentava melhor. E lia melhor. Li o livro do Conrad por causa dele. Quando terminei, disse que tinha odiado.

ㅡ Apesar de que é verdade. ㅡ comentei. ㅡ O mundo é um lugar sombrio. Nisso Conrad tem razão.

ㅡ Talvez o seu mundo, Yoon. O meu não.

ㅡ Pois é ㅡ eu disse.

ㅡ Pois é ㅡ ele responde.

A verdade é que eu tinha mentido para Jimin. Amei o livro. Achei a coisa mais linda que já tinha lido. Quando meu pai viu o que eu estava lendo, me contou que era um de seus livros prediletos. Tive vontade de perguntar se ele tinha lido antes ou depois do Vietnã. Mas não adiantava fazer perguntas ao meu pai. Ele nunca respondia.

Assumi que Jimin lia porque gostava. Já eu lia porque não tinha nada melhor para fazer. Ele analisava as coisas. Eu apenas lia. Acho que precisava procurar mais palavras no dicionário do que ele.

Eu era mais escuro do que ele. Uma vez ele disse que eu tinha uma visão trágica da vida.

ㅡ É por isso que você gosta do Homem-Aranha.

ㅡ É que eu tenho sangue mexicano, sabe? O povo mexicano é trágico.

ㅡ Pode ser ㅡ ele falou.

ㅡ Você é o americano otimista.

ㅡ Isso é uma ofensa?

ㅡ Talvez ㅡ respondi.

Rimos. Sempre ríamos. 

Jimin e eu não éramos parecidos. Mas tínhamos algumas coisas em comum. Para começar, nenhum de nós tinha autorização para assistir TV durante o dia. Nossos pais não gostavam do que a TV fazia com a cabeça dos garotos.

Ambos crescemos com discursos mais ou menos assim: “Você é um menino! Saia daí e vá fazer alguma coisa! Tem um mundo inteiro lá fora à sua espera…”. Jimin e eu fomos os últimos garotos dos Estados Unidos a crescer sem TV. Um dia, ele me perguntou:

ㅡ Você acha que nossos pais estão certos? Que tem um mundo inteiro lá fora à nossa espera?

ㅡ Duvido ㅡ foi minha resposta.

Ele riu.

Então, tive uma ideia.

ㅡ Vamos pegar um ônibus e ver o que tem lá fora.

Park sorriu. Nós dois adorávamos andar de ônibus. Às vezes, passávamos a tarde inteira fazendo isso.

ㅡ Gente rica não anda de ônibus ㅡ falei para Jimin.

ㅡ É por isso que a gente gosta.

ㅡ Talvez — eu disse. ㅡ A gente é pobre?

ㅡ Não ㅡ ele respondeu, abrindo um sorriso. ㅡ Mas, se fugíssemos de casa, nós dois seríamos pobres.

Achei a ideia muito instigante.

ㅡ Você teria coragem? ㅡ questionei. ㅡ Teria coragem de fugir de casa?

ㅡ Não.

ㅡ Por que não?

ㅡ Quer ouvir um segredo?

ㅡ Claro.

ㅡ Sou louco pela minha mãe e pelo meu pai.

Abri um sorriso sincero. Nunca tinha ouvido alguém falar assim dos pais. Quer dizer, ninguém era louco pelos pais. Exceto Jimin.

Então ele cochichou no meu ouvido:

ㅡ Acho que aquela mulher dois bancos à frente está tendo um caso.

ㅡ Como você sabe? ㅡ cochichei de volta.

ㅡ Ela tirou a aliança assim que entrou no ônibus.

Concordei com a cabeça e sorri.

Nós inventávamos histórias sobre os outros passageiros. Quem sabe eles não imaginavam histórias para nós.

Nunca fui muito próximo de ninguém. Eu era um solitário. Tinha jogado basquete, beisebol e passado pelos lobinhos e tentado ser escoteiro. Sempre mantendo distância dos outros garotos. Nunca, jamais me sentira parte daquele universo.

Garotos. Observava-os. Estudava-os.

No fim das contas, sempre achei a maioria dos caras desinteressante. Na verdade, os desprezava. Talvez me sentisse um pouco superior. Não sei se “superior” era a palavra. Só não sabia como falar com eles, como ser eu mesmo perto deles. Andar com outros caras não me dava a sensação de ser mais inteligente. Andar com outros caras me dava a sensação de ser burro e deslocado. Era como se todos fizessem parte de um clube do qual eu não era sócio.

Quando cheguei à idade de entrar para os escoteiros, disse a meu pai que não queria. Não aguentava mais.

ㅡ Tente por um ano ㅡ meu pai falou.

Meu pai sabia que eu era meio briguento. Sempre me passava sermões sobre violência física. Ele queria me manter longe das gangues. Queria evitar que eu fosse como meu irmão e acabasse na cadeia. Assim, por causa do meu irmão, de cuja existência ninguém parecia se lembrar, eu precisava ser um bom escoteiro. Que saco. Por que precisava ser um bom menino só por ter um irmão maloqueiro? Eu odiava essa lógica dos meus pais.

Fiz a vontade do meu pai. Tentei por um ano. Odiei tudo, com exceção das aulas de primeiros-socorros. Quer dizer, eu não gostava nem um pouco da ideia de assoprar dentro da boca de alguém. Me dava desespero. Por algum motivo, porém, aquilo tudo me fascinava. Aprender como fazer o coração de alguém voltar a bater. Eu não entendia muito como era possível. Assim que ganhei uma insígnia por saber reanimar alguém, desisti. Voltei para casa e entreguei a insígnia para o meu pai.

ㅡ Acho que você está cometendo um erro ㅡ foi tudo o que ele disse.

Não vou acabar atrás das grades. Era isso que eu queria dizer. No entanto, apenas falei:

ㅡ Se você me obrigar a voltar lá, juro que começo a fumar maconha.

Hyungsik me lançou um olhar estranho.

ㅡ A vida é sua ㅡ disse.

Como se fosse verdade. Outra característica do meu pai: ele nunca dava sermões. Não sermões de verdade. E isso me deixava louco. Ele não era mau. Também não era estourado. Soltava frases curtas: “A vida é sua” ; “Tente” ; “Tem certeza de que é isso que você quer?”. Por que não podíamos simplesmente conversar? Como eu o conheceria, se ele não deixava? Eu odiava isso.

Sobrevivi bem. Tinha colegas na escola. Mais ou menos. Não era popular. Como poderia ser? Para ser conhecido, era preciso fazer as pessoas acreditarem que você era divertido e interessante. E eu simplesmente não era um bom fingidor.

Havia dois garotos com quem eu costumava andar, os irmãos Gomez. Só que eles se mudaram. E duas garotas, Gina Navarro e Susie Byrd, tinham como passatempo infernizar minha vida.

Garotas. Também eram um mistério. Tudo era um mistério.

Mas não sofri tanto. Talvez não fosse amado por todos, mas tampouco era um daqueles garotos que todos odiavam.

Eu era bom de briga. Por isso as pessoas me deixavam em paz. Eu era praticamente invisível. Acho que gostava de ser assim.

Até que surgiu Park Jimin.


☀️🌑


Depois da quarta aula de natação, Jimin me chamou para ir à casa dele. Ele morava a menos de uma quadra da piscina, em uma casa grande e velha do outro lado do parque.

Ele me apresentou ao pai, que era professor universitário. Nunca tinha conhecido um americano de família mexicana que fosse professor do departamento de inglês em uma faculdade. Nem sabia que existiam. Para falar a verdade, ele nem parecia acadêmico. Era bonito e tranquilo; parecia que parte dele ainda era jovem. Tinha cara de ser um homem apaixonado pela vida. Muito diferente do meu pai, que sempre se manteve afastado do mundo.

Meu pai tinha um ar sombrio que eu era incapaz de compreender. O pai de Jimin não. Mesmo seus olhos negros pareciam cheios de luz.

Naquela tarde, encontrei o pai de Jimin de jeans e camiseta, sentado em uma poltrona de couro no escritório, com um livro nas mãos. Nunca conhecera alguém que tinha um escritório em casa.

Jimin caminhou até o pai e lhe deu um beijo na bochecha. Eu jamais faria isso. Jamais.

ㅡ Você não fez a barba hoje de manhã, pai.

ㅡ É verão ㅡ ele disse.

ㅡ Isso quer dizer que você não precisa trabalhar.

ㅡ Isso quer dizer que preciso terminar de escrever meu livro.

ㅡ Escrever não é trabalho.

O pai de Jimin caiu na gargalhada ao ouvir aquilo.

ㅡ Você ainda tem muito o que aprender sobre trabalho.

ㅡ É verão, pai. Não quero nem ouvir falar de trabalho.

ㅡ Você nunca quer ouvir falar de trabalho.

Jimin não gostou do rumo da conversa e tentou mudar de assunto.

ㅡ Você vai deixar a barba crescer?

ㅡ Não — ele riu. ㅡ Está calor demais. Além disso, sua mãe não vai querer me beijar se eu ficar mais um dia sem fazer a barba.

ㅡ Nossa, como ela é rígida.

ㅡ Aham.

ㅡ E o que você faria sem os beijos dela?

Ele deu um sorriso malicioso e se virou para mim.

ㅡ Como você aguenta esse cara? Você deve ser o Yoongi.

ㅡ Sim, senhor.

Fiquei nervoso. Não estava acostumado a conhecer os pais dos outros. E a maioria dos pais não tinha o menor interesse em falar comigo.

Ele levantou da poltrona e pôs o livro de lado. Então caminhou até mim e apertou minha mão.

ㅡ Meu nome é Sam ㅡ ele disse. ㅡ Sam Quintana.

ㅡ Prazer em conhecê-lo, sr. Quintana.

Prazer em conhecê-lo. Já tinha ouvido essa frase mil vezes. Ela tinha parecido real nos lábios de Jimin. Mas quando eu dizia, me sentia idiota e sem criatividade. Tive vontade de me esconder.

ㅡ Você pode me chamar de Sam ㅡ ele falou.

ㅡ Não posso ㅡ redargui.

Meu Deus, como eu queria me esconder. 

Sr. Quintana acenou com a cabeça.

ㅡ Que bonito ㅡ disse. ㅡ E respeitoso.

A palavra “bonito” nunca atravessara os lábios de meu pai.

Ele lançou um olhar para o filho.

ㅡ O jovem aqui é respeitador. Talvez você pudesse aprender um pouco com ele, Jimin.

ㅡ Quer que eu chame você de sr. Quintana?

Os dois se seguraram para não rir. Sam voltou novamente a atenção para mim.

ㅡ Como foi a natação?

ㅡ Jimin é um bom professor ㅡ respondi.

ㅡ Jimin é bom em várias coisas. Só não é muito bom em arrumar o quarto. Arrumar o quarto tem muito a ver com a palavra “trabalho”.

Jimin o encarou.

ㅡ É uma indireta?

ㅡ Você é ligeiro, filho. Puxou à mãe.

ㅡ Não banque o espertinho, pai.

ㅡ Do que você me chamou?

ㅡ Ficou ofendido?

ㅡ Não pela palavra. Pela atitude, talvez.

Park torceu o nariz e foi sentar na poltrona do pai. Antes, tirou o tênis.

ㅡ Não fique à vontade demais ㅡ frisou o pai. ㅡ O seu chiqueiro fica lá em cima.

Achei graça da situação. O jeito como eles se tratavam, a maneira fácil e carinhosa de conversar, como se o amor entre pai e filho fosse simples e descomplicado. Às vezes, o relacionamento entre mim e minha mãe era fácil e descomplicado. Às vezes. Mas meu pai e eu não tínhamos isso.

Comecei a imaginar como seria entrar em casa e dar um beijo no meu pai.

Subimos as escadas, e Jimin me mostrou o quarto dele. Era grande, com pé-direito alto, piso de madeira e várias janelas velhas que deixavam a luz entrar. Havia coisas por toda a parte. Roupas espalhadas no chão, uma pilha de álbuns velhos, livros jogados, blocos de papel com alguns rabiscos, fotos polaroide, um par de câmeras, um violão sem cordas, partituras e um mural lotado de fotos e papéis. 

Enquanto ele procurava sei lá o quê pelo quarto, me permiti observa-lo melhor e conclui que Jimin era muito bonito. Um homem pode elogiar um outro homem, certo? Certo. 

A luz do sol que entrava pela janela, caia sobre a pele bronzeada de Jimin fazendo com que ele parecesse um anjo. Ele usava uma regata branca que exibia seus poucos músculos dos braços e uma bermuda jeans simples de pescador. Os cabelos castanho-mel desordenados pareciam macios ao meu ver e reprimi a vontade de passar os dedos entre aqueles fios. O que eu estava pensando?

Talvez eu tenha ficado tempo demais olhando para ele.

Ele colocou uma música para tocar. Jimin tinha uma vitrola. Uma verdadeira vitrola dos anos 1960.

ㅡ Era da minha mãe ㅡ explicou. ㅡ Ela ia jogar fora, acredita?

Botou Abbey Road, seu álbum favorito. 

ㅡ Vinil ㅡ ele disse. ㅡ Vinil de verdade. Nada de fitas cassetes vagabundas.

ㅡ Qual é o problema com as cassetes?

ㅡ Não confio nelas.

Achei estranho ele dizer aquilo. Engraçado, mas estranho.

ㅡ Discos riscam fácil.

ㅡ Não se você tomar cuidado.

Corri os olhos pelo quarto bagunçado.

ㅡ Dá para ver que você toma cuidado mesmo.

Jimin não ficou com raiva. Ele riu e me deu um livro.

ㅡ Toma. Você pode ler isso enquanto arrumo o quarto.

ㅡ Então, talvez fosse melhor eu ir embora… ㅡ parei antes de concluir a frase, para examinar novamente aquele quarto bagunçado. ㅡ É meio assustador aqui.

Ele achou graça.

ㅡ Não, não vá. Odeio arrumar o quarto.

ㅡ Talvez se você não tivesse tanta coisa…

ㅡ São só as minhas coisas.

Não falei nada. Eu não tinha minhas coisas.

ㅡ Se você ficar, não vai ser tão ruim.

Por algum motivo, me senti um intruso, mas…

ㅡ O.k. — cedi. ㅡ Quer ajuda?

ㅡ Não. É minha função ㅡ ele disse, com ar resignado. — Como diria minha mãe, “É responsabilidade sua, Jiminie”. Responsabilidade é a palavra preferida dela. Ela acha que meu pai não me cobra o bastante. Claro que não. O que ela esperava? Meu pai não é de botar pressão. Ela casou com o cara. Será que não sabe como ele é?

ㅡ Você sempre analisa seus pais?

ㅡ Eles analisam a gente, certo?

ㅡ É a função deles, Jimin.

ㅡ Vai me dizer que você não analisa seus pais?

ㅡ Acho que sim. Mas não serve de nada. Continuo não entendendo os dois.

ㅡ Bom, eu já conheço bem meu pai, mas minha mãe não. Ela é o maior mistério do mundo. Quer dizer, ela é previsível enquanto mãe. Só que de resto é inescrutável.

ㅡ Inescrutável.

Eu sabia que ao voltar para casa teria que procurar a palavra no dicionário.

Jimin me encarou como se fosse minha vez de dizer algo. Os olhos dele de alguma forma me intimidavam.

ㅡ Eu conheço bem minha mãe ㅡ eu disse. ㅡ Mas meu pai também é inescrutável.

Me senti uma enorme fraude ao usar aquela palavra. Talvez fosse essa a questão: eu não era um garoto de verdade; eu era uma fraude.

Ele me passou um livro de poesias.

ㅡ Leia este ㅡ sugeriu.

Eu nunca tinha lido um livro de poesias antes; sequer sabia como ler um livro daqueles. Olhei para ele meio perplexo.

ㅡ Poesia ㅡ ele disse. ㅡ Não vai matar você.

ㅡ Mas e se matar? “Garoto morre de tédio ao ler poesia”.

Ele tentou não rir, mas não era bom em controlar o riso que vivia dentro de si. Ele balançou a cabeça e passou a juntar as roupas espalhadas no chão. Eu gostava da risada dele, era um som legal de escutar.

ㅡ Pode jogar aquelas coisas no chão e sentar ㅡ ele disse, apontando para a poltrona.

Peguei uma pilha de livros de arte e um caderno de desenhos e botei no chão.

ㅡ O que é isso?

ㅡ Um caderno de desenhos.

ㅡ Posso ver?

Ele fez que não com a cabeça.

ㅡ Não gosto de mostrar.

Interessante… Ele tinha seus segredos. Ele apontou para o livro de poesia.

ㅡ Leia. Sério, você não vai se arrepender.

Jimin passou a tarde toda limpando o quarto. E eu, lendo o livro de um poeta chamado William Carlos Williams. Nunca tinha ouvido falar dele, mas até aí nunca tinha ouvido falar de ninguém. E até que entendi alguma coisa. Não tudo, mas alguma coisa. E não odiei. Fiquei surpreso. O livro era interessante; não era idiota, bobo, pedante nem intelectual demais… nada do que eu pensava que poesia era. 

Alguns poemas eram mais fáceis que outros. Alguns eram inescrutáveis. Comecei a achar que talvez soubesse o significado dessa palavra.

Fiquei pensando que poemas são como pessoas. Algumas pessoas você entende de primeira. Outras você simplesmente não entende… e nunca entenderá.

Fiquei impressionado ao ver como Park Jimin era sistemático na organização do quarto. Quando entramos, estava um caos absoluto. Quando ele terminou, cada coisa estava em seu lugar.

O mundo de Jimin tinha ordem.

Ele tinha organizado todos os livros em uma prateleira ou sobre a escrivaninha.

ㅡ Deixo na escrivaninha os próximos que vou ler ㅡ explicou.

Uma escrivaninha. Uma escrivaninha de verdade. Quando eu precisava escrever, usava a mesa da cozinha.

Ele pegou o livro de poesia que estava comigo e começou a procurar um poema. O nome era

“Morte”. Jimin parecia tão em harmonia com seu quarto recém-organizado ㅡ o sol poente entrando pelas janelas e iluminando seu rosto, o livro em suas mãos como se ali fosse seu lugar: as mãos gordinhas de Jimin e somente as mãos de Jimin. Gostei de sua voz ao ler o poema; parecia que ele mesmo tinha escrito aqueles versos.

Ele morreu

o cão não mais terá

que dormir sobre as batatas 

para que não congelem

ele morreu

velho cuzão…


Jimin sorriu ao ler a palavra “cuzão”. Eu sabia que ele a adorava porque era uma das palavras proibidas de usar, uma palavra banida. Mas ali, em seu quarto, podia ler e se apropriar dela. Fiquei sentado na poltrona confortável do quarto de Jimin a tarde inteira, enquanto ele, estirado em sua cama recém-arrumada, lia poemas.

Não me preocupei em entender. Não ligava para o que queriam dizer. Não ligava porque o importante era que a voz de Jimin dava a sensação de ser real. E eu tinha a sensação de ser real.

Antes de Park Jimin, estar com alguém era a coisa mais difícil do mundo para mim. Mas, com ele, conversar e viver e sentir pareciam coisas perfeitamente naturais. No meu mundo não eram.

Voltei para casa e procurei a palavra “inescrutável”. Significava “o que não pode ser entendido facilmente”. Anotei todos os sinônimos em meu diário. “Obscuro” ; “insondável” ; “enigmático” ; “misterioso”.

Naquela tarde, aprendi duas palavras novas. “Inescrutável”… e “amigo”.

As palavras ficam diferentes quando passam a morar dentro de você.


Notas Finais


yoonmin pq tão fofos? 😔😔

aqui uma base pra vocês de como eu imagino a aparência deles nessa história:

JIMIN: https://images.app.goo.gl/RR5JFtrVLwuqQCr28

YOONGI: https://images.app.goo.gl/Kktw1oZaMJgLitks9


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