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História Undead to Me - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Linkin Park foi minha banda favorita durante toda a minha adolescência e até hoje eu escuto as músicas quando elas tocam na minha playlist. Por isso eu fiquei extremamente mal quando o Chester morreu.

Eu escrevi essa história no início de 2018. Não é minha melhor obra nem nada mas eu reli ela essa semana e acho que vale a pena publicar.

Boa leitura.

Capítulo 1 - Capítulo Único


Lá estava eu, parada sob a luz de um poste. Meus pelos da nuca se arrepiaram, mesmo no calor precedente de uma tempestade naquele inicio de madrugada. Confesso que eu estava com medo. Mas quem não estaria numa situação como na que me encontrava? Sozinha, à meia noite, numa rua residencial de um bairro afastado do centro da cidade, sem chance de pedir ajuda se algo desse errado.

Peguei meu celular do bolso e o desbloqueei. O relógio indicava exatamente a hora que eu disse que estaria no local combinado. Abri o aplicativo de mensagens e cliquei no contato que havia me enviado o endereço para conferir se estava no lugar certo. Olhei a placa que estava instalada na esquina não muito longe de mim e para o número da casa na qual eu havia parado em frente. Era ali.

Ao voltar minha atenção para o celular, acabei prendendo minha atenção para a foto do tal contato. "Mike" era o nome que estava salvo, mas não havia Mike na foto. Apenas um fundo preto representando seus sentimentos.

Aquilo me fez me afundar em memórias que eu gostaria que não fossem reais. Haviam alguns meses que o melhor amigo de Mike havia cometido suicídio. Voltou mais cedo para casa, amarrou uma corda em seu pescoço e, completamente lúcido, se enforcou. Morreu sozinho, vítima de uma doença invisível, que mata sua felicidade e tudo o que você mais ama, até não sobrar nada.

Foi como uma facada no coração de todos. A família ainda não se conformou, muito menos a Viúva. A outra família, a banda de agora cinco integrantes – incluindo Mike, seu irmão mais próximo –, criou rumores de sepação que ainda não foram calados. Os que o conheciam e o amavam de alguma forma o perderam sem poder ajudá-lo. E eu perdi um amigo. Um amigo que cantou meus sofrimentos e angústias sem me deixar saber que também as tinha. Eu queria tê-lo visto de verdade, mas nunca tive a chance e nunca mais terei.

Limpei as lágrimas que começaram a correr desenfreadas pelas minhas bochechas e solucei alto. O silêncio me reproduziu em forma de eco, que contou para toda a rua minha tristeza, mas o sono impediu qualquer pessoa de ouvir. A noite talvez tenha me visto e se comovido, pois começou a chorar uma fina garoa sobre mim.

Pensei no Mike. Em como ele havia emagrecido. Em como ele parecia radiante nas fotos mas o fundo dos seus olhos revelavam uma alma quebrada. Seus companheiros de banda quase nunca vinham à público para dizer se estavam bem no processo de "seguir em frente". A Viúva era quem mais se pronunciava, tentando ajudar quem possuia a mesma doença do marido. Mike também aparecia com certa frequência, mas claramente não era a mesma pessoa de um ano atrás.

Eu o conheci por acaso, na cafeteria onde eu costumava trabalhar, poucos meses após o ocorrido. Quando fui levar o pedido até mesa, eu o reconheci quase imediatamente. Porém ele não parecia muito bem. Perguntei se havia algo de errado e ele disse a mesma coisa que todos nós dizemos quando não queremos incomodar alguém com nossos problemas: "Não é nada". Insisti; disse-lhe que era dia 20 e que nós dois sabíamos o que os vigésimos dias significavam. Ele me encarou com seus olhos castanhos marcados por olheiras que revelavam sua exaustão, e me convidou para sentar junto a ele enquanto tomava seu café. Conversamos; ele se abriu comigo e pediu para que eu falasse um pouco sobre mim e minha perspectiva sobre o ocorrido, já que eu o tinha reconhecido e sabia o que estava acontecendo. No fim, trocamos números de telefone e passamos a conversar via mensagens.

Nas primeiras conversas, ele me provou que sempre fora genuíno e jamais agira de uma forma nas mensagens e de outra na web. Porém, quanto mais conversávamos, mais ele confiava em mim para mostrar no que a perda e o luto o haviam transformado. Seus momentos de lucidez eram registrados na web, mas, fora dela e dentro das nossas conversas, ele estava enlouquecendo. Anos e anos ao lado de uma pessoa que parte de forma repentina é um choque muito forte. E um choque desses pode estourar seus miolos. Mike começou a me contar detalhes sobre algumas visões que tinha e fantasiava um mundo no qual seu amigo estava vivo. Eu tentava puxá-lo de volta para a realidade e o aconselhei a procurar algum profissional que pudesse fazer isso, mas, a cada dia que passava, ele piorava. Ele simplesmente não queria voltar para a realidade pois seria insuportável para ele viver nela sem seu amigo.

Ele havia parado de responder minhas mensagens há alguns dias, o que me deixou preocupada. Porém mais cedo naquele dia ele me mandou uma mensagem com um endereço e um adendo: "Venha aqui, quero te mostrar uma coisa que eu fiz". Fiquei feliz ao receber a mensagem, mas seu conteúdo me assustou. Essa "coisa" poderia seriamente me colocar em risco. Fazia tempo que não o via na web, então não sabia de seu estado físico, muito menos mental. Decidi ir até o endereço, que não ficava muito longe de onde eu moro. Levei apenas meu celular e um canivete, por precaução.

Ao olhar a casa mais atentamente, percebi que haviam flores murchas e fitas negras amarradas no muro de ferro. Meu sangue esfriou quando percebi que estava defronte à casa na qual o cantor havia cometido suicídio e que teve sua fachada transformada num memorial pela Viúva. Nunca tido ido até ali por não me sentir pronta para encarar o fato. Afinal, havia sido um choque grande para mim também e tudo ainda soava como uma notícia falsa de algum site sedento por cliques.

Paralisada e com a respiração ofegante, me assustei ao sentir meu celular vibrar no meu bolso com a chegada de uma nova mensagem. Mike havia mandado: "Entre. Siga as setas".

Li a mensagem e olhei para a casa. Não pude ver nenhuma movimentação ou indício de que ele sabia que eu estava ali. Guardei o celular no bolso e me aproximei do muro. As grades do portão eram altas, porém fáceis de escalar. Meu único problema seria o arame farpado que coroava o muro e o portão.

Com um pouco de dificuldade, consegui entrar nas dependências do terreno sem me machucar ou alarmar alguém. Caminhei até a porta e parei quando cheguei. Não sabia o que me esperava atrás daquela porta nem se voltaria a passar por ela. No entanto respirei fundo, virei a maçaneta e abri a porta. Estava escuro e eu precisei ativar a lanterna do meu celular para ver aonde eu estava indo. Entrei na casa e fechei a porta atrás de mim. A residência havia sido esvaziada. O chão estava empoeirado e as paredes tinham marcas de infiltração de água.

"Siga as setas" lembrei da instrução que havia lido na mensagem. Procurei com a lanterna do celular por qualquer coisa que pudesse lembrar uma seta. Acabei encontrando uma no chão, desenhada com giz branco. Fui até ela e me dirigi para a direção que apontava. Logo após, outra seta apontava outra direção; e assim por diante. Segui o caminho que as setas indicavam, parando para marcar as que já tinha percorrido a riscando com a sola do meu sapato. Quem me garantia que não estava entrando em um labirinto naquela casa enorme?

Percebi, após andar um pouco, que estava fazendo um "tour" pela casa onde uma pessoa havia se matado, o que me deixou muito desconfortável. Subi as escadas e caminhei até um grande quarto no fim do corredor. No centro do cômodo havia uma vela repousando no assento de uma cadeira. No momento em que terminei de processar a imagem na qual eu me deparei, um raio cortou o céu, iluminando o quarto, e a miragem de um corpo enforcado surgiu na minha mente. Era o quarto onde o homem que eu uma vez idolatrei havia dado seu último suspiro.

Eu fiquei zonza com a visão e tive que me segurar à porta para não desabar inconsciente. Era um sinal que dizia claramente que eu não devia estar ali. Aquela casa ainda guardava uma aura terrível dentro dela. Saí do quarto e desci as escadas às pressas. Não ficaria ali dentro nem mais um minuto sequer. Me desculparia ao Mike depois. Corri em direção à porta de entrada, porém, ao chegar, não consegui abrí-la imediatamente. Tentei forçá-la a abrir de todo jeito, mas percebi que estava muito bem trancada.

Achei isso muito estranho. Como a porta havia se trancado? Mas então percebi que havia sido ingênua. Era muito provável que Mike estava na casa comigo e devia ter trancado a porta enquanto eu estava no andar de cima para que eu não pudesse sair da casa de maneira nenhuma, já que as janelas também estavam seladas. Sozinha e assustada, não tive escolha a não ser continuar o tour macabro pela residência.

Iluminando meu caminho com a lanterna, segui olhando para o chão, à procura de outras setas que eu não havia marcado. Ao encontrá-las, continuei a seguir a direção que cada uma apontava, sem tirar os olhos do chão. Até que cheguei na última seta, que apontava uma porta embaixo da escada. Nesta havia sido pregado um bilhete, que continha as palavras "Pode entrar. Tenho uma surpresa pra você".

Então era aquilo. Tudo o que eu havia passado tentanto ajudar Mike parecia se resumir àquele momento. Eu não tinha escolha, precisava entrar ali se quisesse sair. Mas mesmo assim eu estava receosa. Eu não tinha ideia do que a "surpresa" que Mike havia preparado se tratava. Parece bobo falar isso, até porque é assim que surpresas funcionam, mas se tratava de alguém que estava emocionalmente abalado de forma tão extrema que sua sanidade estava sendo afetada. "Não deve ser tão mau assim". Fixei essa frase na minha mente, enchi os pulmões com o ar poeirento da casa e passei pela porta.

Atrás dela havia uma escada que levava até um cômodo abaixo da casa, o que presumi ser o porão. Conseguia ouvir o eco de um murmúrio baixo vindo de lá. Vagarosamente, desci a escada degrau por degrau até chegar na base. O cômodo era maior do que eu esperava, devia cobrir toda a área da casa. Como não haviam setas no chão, tive que seguir os murmúrios que ecoavam e agora tomavam um tom melódico. Andei rapidamente pelo porão – que, como o resto da casa, estava vazio – procurando pela fonte do som e levantando poeira do chão de terra.

Foi quando vi uma luz fraca saindo de uma pequena esquina no canto do porão. De lá vinha a canção murmurada que eu estava seguindo. Comecei a correr, ansiosa para ver a surpresa que Mike havia preparado e finalmente dar o fora daquele lugar que já começava a sugar minhas energias.

Não devia ter corrido. Não devia ter me rendido à tentação da liberdade. Eu não contava que o que veria ao dobrar a pequena esquina poderia ser tão chocante. Nunca, em toda a minha vida, eu achei que presenciaria aquilo. Cercado de velas e flores, sentado num colchão forrado por um cobertor, Mike segurava em seus braços o cadáver do seu melhor amigo.

Eu congelei. Meus olhos se arregalaram e meu celular escorregou da minha mão. O barulho da queda do dispositivo alertou Mike, que levantou o olhar. Ele abriu um sorriso ao me ver ali. 

– Surpresa! – disse ele.

As palavras dele foram como um soco tão forte no meu estômago que senti a minha última refeição subindo pela minha garganta. Minha adrenalina subiu à níveis altíssimos ao ver a serenidade no olhar de Mike diante daquilo tudo, o que quase me fez desmaiar. Ao invés disso, saí correndo para o canto oposto do porão. Me apoiei com as duas mãos na parede, me curvei e vomitei.

Era demais. Demais para processar. Demais para aguentar. Quando não havia mais nada para colocar para fora, cuspi a saliva com gosto desagradável, limpei a boca com uma mão e as lágrimas com a outra. Tentei respirar fundo para me acalmar mas foi inútil. Arranjei forças para me afastar do meu próprio vômito e chegar mais perto do local onde Mike estava.

Mesmo andando apenas alguns metros, fiquei exausta rapidamente. Apoiei as costas numa parede e sentei no chão, com os joelhos contra meu peito e as mãos na cabeça. Comecei a pensar num jeito de processar corretamente o que havia visto. 

– OK... OK... – eu dizia mentalmente a mim mesma – Tá tudo bem... Não, é claro que não tá tudo bem! Ele está guardando o cadáver do seu melhor amigo no porão, pelo amor de Deus! Eu sei que ele faria qualquer coisa para tê-lo de volta, mas isso já é demais!

Finalmente consegui me levantar e ir até Mike. Porém parei antes de virar a esquina. Espiei pelo canto e o vi com o cadáver em seus braços. Ele cantava enquanto acariciava o rosto pálido do amigo morto. Parecia uma criança brincando com um boneco. O vi ajeitando a roupa, afagando sua cabeça e beijando-lhe a testa. Ele achava que o amigo estava apenas dormindo.

Eu sentia felicidade e repulsa ao mesmo tempo. Vê-lo beijar o corpo sem vida era belo e repugnante. Minha mente sem filtros fantasiou imagens dos seus momentos de privacidade, o que quase me fez vomitar outra vez.

Mas admito, no fundo eu sentia inveja. Sentia inveja da loucura dele porque ela trouxe seu amigo de volta. A insanidade o fazia acreditar que o cadáver apenas dormia. A perda de seus sentidos deu vida aos mortos. Se isso traria o homem que eu amava de volta, eu também queria ser louca. Por isso era uma surpresa destinada a mim. Mike tinha encontrado uma pessoa aparentemente louca como ele para compartilhar seu segredo sombrio.

Decidi aparecer para Mike. Este me olhou e sorriu outra vez.

– Está melhor?

– Eu... acho que sim...

– Bem, aqui está a surpresa. – disse ele me mostrando o corpo. – Diga oi para ele!

Minha respiração ficou pesada outra vez. Mike estava me apresentando ao meu ídolo morto. E, por algum motivo, eu entrei na brincadeira psicótica dele.

– O-oi... – eu balbucei acenando com a mão.

– Você disse uma vez que queria tê-lo conhecido, então pensei que você iria gostar de ter seu desejo realizado.

– Bem... Sim... – eu respondi pausadamente – Mas eu... não achei que... você iria tão longe... por mim.

– Oh não. Eu não tirei ele de lá por você. Eu já cuidava dele antes de te conhecer.

– Desde... Mas como você...?

– No dia em que enterraram ele, depois que todos foram embora, eu voltei de madrugada e escavei o buraco. Eu não podia deixá-lo lá. Era frio e solitário. Então o trouxe de volta para casa. Aqui eu posso cuidar dele, ficar com ele e lhe dar atenção. Até descobri um jeito de deixá-lo bonito. Aposto que se tivesse deixado ele lá, a pele dele ia apodrecer rapidinho. Agora sou eu quem cuida dele. Já que todos o abandonaram, eu me comprometi a dar a ele tudo o que ele quiser.

Eu fiquei quieta, ouvindo atentamente aquela insanidade. Minha mente gritava para que eu saísse de perto dele.

– E... como você sabe o que ele quer?

– Ele fala comigo – Mike respondeu olhando para o cadáver – É só eu colocar uma vela na cadeira do quarto que ele vem.

Foi quando a imagem do quarto retornou à minha mente. Aquilo era de fato proposital.

– E o que ele quer? – perguntei sem pensar.

– Quer a esposa. Quer os filhos. Quer a banda... E a mim. – ele disse e sorriu ao citar-se.

– C-como assim... você? – minha voz tremia. Já não sabia mais o que eu estava falando.

– Ele me quer para fazermos as coisas que fazíamos quando estávamos sozinhos, sem ninguém para ver ou ouvir...

Coloquei a mão sobre minha boca para me impedir de berrar o que minha mente havia precipitadamente concluído, o que me impediu de ouvir as últimas palavras que ele havia dito.

– O quê?

– Ele me quer para desabafar – Mike repetiu.

Soltei a respiração que não sabia que havia prendido.

– Desabafar?

– É. Ele gostava de desabafar comigo e tirar o peso dos ombros. Nós passamos muito tempo juntos, então temos essa confiança um no outro. Podemos ficar horas e horas falando de várias coisas diferentes também.

– E... o que ele vem desabafando nesses últimos tempos? – eu disse. 

Um estalo tinha me ocorrido. Eu poderia usar esse fato para tentar mostrar ao Mike que nada daquilo era real. Porém talvez isso arruinaria nossa relação e, sabendo que ele confiava em mim e precisava de ajuda, eu não poderia deixá-lo. Eu tinha que tomar uma decisão: deixar essa insanidade em segredo e preservar a confiança que ele tinha em mim ou tomar uma atitude que acabaria com tudo isso.

– Ele diz que está arrependido. Diz que fez algo que não deveria ter feito. Também disse que esse foi o pior erro que ele cometeu e não tem como reparar isso. Não sei de que erro ele está falando, mas eu vou dar um jeito de ajudá-lo a...

– Mike – eu o interrompi. Já tinha me decidido, agora era apenas uma questão de achar as palavras certas. – Acho que ele tem razão. Ele não pode reparar o erro que cometeu.

– Como assim?

– Esse erro não pode ser reparado... porque é totalmente impossível reparar um erro desses.

– Eu não entendo. Que erro ele cometeu?

Era a pergunta que eu temia que ele fizesse. Como eu ia dizer a ele que seu amigo estava morto sem que ele surtasse? Toda cautela era pouca naquela situação.

– Ele dormiu. Dormiu tão profundamente que não poderá mais acordar.

Mike observou o corpo que repousava em seus braços e logo voltou-se para mim com um olhar confuso.

– Mas... dormir não é um erro. O sono não é um ato irreparável.

– O dele é, Mike. Ele não irá acordar. Por isso acharam que o melhor para ele era descansar sem perturbações. E embaixo da terra é o lugar perfeito para isso.

– Aqui também é sossegado. – ele disse aborrecido. – E porque ele quis dormir?

– Eu... Eu não sei, Mike. – eu respondi sentindo meu coração rachar.

– Eu não acredito em você. Ele não pode dormir para sempre. Eu vou ficar aqui com ele até ele acordar.

– Mas, Mike... Ele precisa descansar.

– Ok, ok. Já que te faz feliz, eu o deixarei descansar embaixo da terra.

Solteira um leve suspiro de alivio. Parecia que eu tinha o convencido finalmente.

– Mas ele ficará descansando exatamente aqui. E só até eu chegar à noite para cuidar dele.

Então era aquilo. Tudo o que eu havia dito, todo o estresse mental que tive que passar naqueles breves minutos para tentar trazê-lo de volta a razão não haviam adiantado. Ele ainda estava louco e continuaria assim. Eu não estava mais aguentando tudo aquilo.

Foi naquele momento que eu desisti.

– Mike...

– Acho que já está na hora de você ir. Você trabalha amanhã, não é? – ele disse sem olhar para mim.

– B-bem... S-sim, mas...

– Então pode ir. As chaves estão na janela da sala. É só abrir a porta e pular o portão.

– Certo... – disse num sussurro ao me abaixar para pegar meu celular do chão.

Ele voltou a acariciar os cabelos do cadáver enquanto eu me afastava lentamente, olhando para aquela cena. Decidi não deixar esse encontro acabasse num clima ruim.

– Mike? – o chamei.

– Sim?

– O-obrigada por... m-me a-apresent-tar a ele.

Ele me encarou e abriu um sorriso fraco.

– De nada. Se quiser voltar, sabe como chegar aqui. Eu te aviso quando ele acordar.

Eu sorri fracamente para ele antes de deixá-lo à sós. Levantei a lanterna do celular, cuja bateria estava quase no fim, para achar o caminho de volta até a escada e, por fim, à sala. Ao chegar nesta, fui até a janela, onde Mike disse que a chave da porta da frente estaria, e de fato estava.

Destranquei a porta e a abri. A chuva havia cessado e senti a brisa gelada que a havia mandado embora. Fechei a porta e caminhei até o portão. Antes de pulá-lo, voltei minha atenção para a casa. Eu não estava mais com medo. Eu estava triste. Triste pelo Mike. Triste pela casa. Triste por ter um vazio dentro de mim que jamais seria preenchido novamente.

Pulei o portão novamente, caindo de pé na calçada. Caminhei até o poste de luz onde comecei aquela madrugada, sentei na calçada sob sua luz e pus minhas mãos no rosto, processando tudo o que tinha acontecido e o que eu deveria fazer.

Sem pensar muito, desbloqueei meu celular e abri uma rede social. Tinha dado sorte. A Viúva tinha se conectado há poucos minutos. Com o pouco de bateria que ainda me restava, mandei uma mensagem a ela com os dizeres: "Eu tenho que falar com você em privado. É sobre seu marido e o Mike. Não é uma piada". Como eu queria que fosse uma piada.

Eu devia ter chamado a polícia, como qualquer pessoa sã faria. Mas depois de passar por tudo aquilo, eu provei para mim mesma que eu não era sã. Mike estava certo. Eu estava ficando louca.

Comecei meu trajeto de volta para casa perdida em pensamentos. A Viúva provavelmente iria me responder e eu teria que contar a verdade à ela. O que ela faria depois disso? Contar tudo à esposa de Mike e aos seus irmãos músicos para tomarem as providências necessárias para que Mike ficasse bem sem levar tudo isso à público era minha melhor aposta. Mas poderia ser diferente. Poderia ser algo que eu jamais poderia imaginar. Como naquele encontro.

Nada tinha saído como previsto e o dano já tinha sido feito. Foi a noite em que eu testemunhei a loucura fazer a morte viver. A noite em que algo em mim mudou, como se um novo sentimento tivesse sido plantado. Sem saber, eu havia começado minha jornada rumo ao abraço da minha própria loucura. Eu o via em tudo e em todos. Comecei a me viciar nele de novo, assim como Mike tinha feito. Percebi que não tinha volta. Desde que Mike desenterrou o corpo, este se tornou uma doença altamente contagiosa. Por isso não procurei ninguém para falar sobre isso. Por medo de contágio. Isso tinha que acabar. Por isso voltei lá. E é aqui onde estou agora, ao lado ele. Pronta para partir e ficar ao lado ele, para sempre.


Notas Finais


Centro de Valorização à Vida (CVV): 188

http://www.cvv.org.br


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