História Under a Paper Moon - Capítulo 1


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Categorias Voltron: O Defensor Lendário
Personagens Allura, Coran, Hunk, Keith, Lance, Matt, Pidge Gunderson, Takashi "Shiro" Shirogane
Tags Boyxboy, Keith (voltron), Klance, Laith, Lance (voltron)
Visualizações 40
Palavras 17.593
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Ficção, Fluffy, LGBT, Romance e Novela, Sobrenatural, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


olá olá olá
queria começar dizendo que sim, essa história é um universo alternativo baseado em stranger things. na verdade, apesar de nem tudo aqui ser exatamente como na série, queria recomendar que se você pretende assistir e não quer spoilers, é melhor não ler essa história ainda.

enfim, fiquei uns quatro dias escrevendo até decidir que deveria separar em partes. eu iria postar como uma oneshot, mas até agora (estou bem na metade do plot), já tem mais de 23 mil palavras, e sei que fica cansativo em uma história de um capítulo só. enfim. serão duas partes, e irei postar a parte dois o mais rápido possível.

não posso dar uma data certa, mas esperem mais ou menos até o fim de junho/julho. espero conseguir terminar até lá, mas isso não é oficial ainda.

bom, o título veio da música do all time low, e a história se passa em 1983. outra coisa é que, como avisei ali em cima, a linguagem é bem forte aqui (em relação com palavrão e essas coisas) e tem algumas cenas de violência. se você for sensível á esse tipo de conteúdo, por favor, cuide de si mesmo e não leia <3

boa leitura!

Capítulo 1 - Parte I


O cômodo estava escuro.

As sombras eram levemente ofuscadas pela pequena fonte de luz logo no canto. Era uma luz amarela, meio obscura por si mesma; mas ainda era o suficiente para iluminar alguns dos detalhes mais próximos.

O som também não marcava uma presença de muito significado. O silêncio era coberto apenas pelo som de suas respirações, em tons diferentes. Calmo, estável, turbulento. Não era possível discernir á quem cada um pertencia, e não parecia importar.

O cômodo estava escuro, o silêncio era parcial, e ela não poderia esconder por muito tempo.

“Algo... Algo está vindo.”

Todo o ambiente mudou com aquelas simples palavras. Havia certa inquietação no modo como as pessoas se mexiam nas cadeiras. O rapaz de pele pálida coçou nervosamente o arco da sobrancelha esquerda. Seus olhos corriam sobre o conteúdo em sua frente, como um homem durante seu último movimento em uma batalha de xadrez. Ele procurava fundo em suas memórias por algo que pudesse o ajudar, mas a adrenalina do momento o privava de todas suas experiências.

“O que... O que está vindo?” o sussurro quebrou o silêncio de um modo seco. A voz ecoava facilmente.

As pessoas olharam com certa esperança e receio em sua direção. Era uma pergunta não verbalizada. Todos estiveram pensando, e alguém acabara de levar um ataque pelo time.

A responsável pela inquietação tinha um pequeno sorriso estampado no rosto. Era afetado, no canto dos lábios, mas perceptível perante o comportamento das outras pessoas presentes. Ela arriscou um rápido olhar para a mesa, então se inclinou para trás em uma postura misteriosa.

“Vocês não conseguem ouvir...?” indagou no mesmo tom baixo, causando certo suspense. As outras três cabeças ao redor da mesa se inclinavam para frente inconscientemente. “Boom! Boom! Boom!”

“Estamos ferrados! E se for-”

“Não pode ser!”

“Lance! Faça alguma coisa!”

A tensão aumentava á cada segundo, e a troca de palavras certamente não ajudava em diminui-la. A moça continuava sorrindo, observando o diálogo com atenção. Enquanto isso, o rapaz de cabelo curto segurava nervosamente um objeto entre seus dedos, esperando pelo momento certo de deixa-lo atingir a mesa.

“Não sei se é o que-”

“O som fica mais alto, algo está se aproximando!” dessa vez, o seu tom de voz sobressaiu todos os outros. A garota olhou para as imagens em sua frente, escondidas do olhar de todos os três rapazes ao seu redor. Então, ela levou sua mão para trás do bloqueio, segurando um objeto algumas vezes menor que sua palma. Ela o levou para o centro da mesa, o batendo abruptamente sobre o tabuleiro. “O Demogorgon!”

Os rapazes grunhiram, mas era um som mais assustado do que qualquer outra coisa. O garoto com uma faixa laranja sobre a cabeça virou-se com rapidez para Lance, segurando a borda da mesa com certa urgência.

“Você tem que usar um feitiço de proteção!” exclamou apressado, olhando com expectativas para o amigo, que apesar do novo olhar assustado, ainda girava o objeto nos dedos; apreensivo. “Rápido, proteção!”

Aquilo foi o suficiente para o garoto de cabelo negro balançar a cabeça em negação.

“Não, você tem que atacar antes que nos mate!” disse, o que ganhou a discórdia do outro. “Lance! Não tem outro jeito!”

Proteção!” repetiu em um tom severo. “Atacar é muito arriscado!”

“Vamos morrer de qualquer forma!”

“O Demogorgon marcha em sua direção!” a voz da garota se destacou mais uma vez. Ela bateu duas vezes na mesa. “Segue para o ataque!”

“Lance, ataque!”

“Eu não sei! Vou precisar de muita sorte-”

“É melhor nos protegermos do que nos arriscarmos!” opinou. “É mais fácil acertar o feitiço de proteção!”

“Ele ruge de raiva!”

“Ah!”

Lance fechou as mãos em uma concha, as chacoalhando exasperado antes de abrir sobre a mesa, soltando o objeto que esteve segurando por tanto tempo. O dado rolou com rapidez debaixo do olhar dos adolescentes, quicando sobre a mesa e seguindo para algum canto pelo carpete.

Os olhos se arregalaram em sincronia, e logo todos estavam deixando suas cadeiras para procurar pelo objeto.

“Que número deu?!”

“Estamos todos mortos?”

“Shay!”

A garota balançou a cabeça, engatinhando como os garotos em uma tentativa de encontrar o dado perdido – mas seus resultados não tinham sucesso. Aquilo acabava trazendo certa inquietação que parecia mais intensa do que antes, durante o silêncio.

E então um som adicional perfurou o ambiente, os alarmando de imediato; ao que as cabeças se inclinaram ao mesmo tempo. Ao reconhecerem o som, o rapaz de cabelos negros fora o único á se levantar, seguindo na direção em que o telefone tocava enquanto os outros continuavam procurando.

Ele tirou o telefone do gancho e o levou até encostar levemente na orelha.

“Alô?”

“Olá, é a mãe do Hunk. Ele está?”

Keith assentiu levemente até lembrar-se de que estava falando ao telefone.

“Está sim, Sra. Garrett. Gostaria de falar com ele?”

“Sim, por favor.”

“Só um minuto.” informou Keith, então afastando o telefone para virar o rosto na direção em que seus amigos insistiam na busca pelo dado. Ele aumentou o tom da voz para chamar sua atenção. “Hunk! Sua mãe no telefone!”

A parte de trás da bandana balançou quando Hunk se levantou com rapidez. Ele apontou para algum canto perto do sofá antes de seguir na direção em que Keith continuava segurando o telefone. A luz havia se estendido em algum momento para que sua busca se facilite.

“Acho que caiu por ali!” exclamou, então olhando para Keith com um sorriso enquanto este o entregava o telefone. Hunk o levou para perto da orelha e Keith voltou para onde estava na cozinha. “Oi, mãe!”

Ele iria checar no canto onde Hunk havia apontado, mas Lance já estava engatinhando ali perto. Ele tentava abaixar a cabeça para checar debaixo do sofá. Logo, ele levava a mão para aquele estreito espaço com um pequeno sorriso.

Mas então Shay estava se levantando, olhando para Hunk com certa curiosidade. O rapaz ainda estava no telefone quando ela ficou de pé, mas desligou logo após, olhando para ela de volta.

“Achei! Achei!” disse Lance animado, esticando os dedos para alcançar.

“Teremos que continuar outro dia, de qualquer forma.” informou Hunk em um tom tímido. Lance olhou para o amigo com confusão. “Já passou do horário. Precisamos ir ‘pra casa.”

Keith franziu as sobrancelhas.

“Como assim? Não está tão tarde assim...”

“São nove horas, cara.” respondeu Hunk, algo que fez Keith se interromper de imediato. Ele arregalou os olhos com a surpresa. “E o irmão da Shay não vai deixa-la vir aqui de novo se ela voltar mais tarde do que isso.”

“É verdade.” concordou Shay. Ela havia começado á organizar a mesa quando Keith resolveu ajuda-la, apesar de estar desanimado com a informação de que eles estariam prestes á irem embora. “Podemos marcar outro dia! Lance, você achou o dado?”

“É, achei.” respondeu, então se levantando com o olhar sobre o dado em sua mão. Ele entregou para Shay, que o guardou com a interrogação no olhar. Lance deu de ombros com uma careta. “Fui pego pelo Demogorgon.”

Shay espelhou sua careta enquanto Keith e Hunk suspiraram em exasperação, sincronizados mais uma vez. Lance balançou a mão no ar, desconsiderando suas próprias palavras como algo não tão importante quanto faziam parecer.

Eles terminaram de organizar a mesa em apenas alguns segundos com a ajuda de todos. Quando o jogo estava dentro da caixa; descansando no centro da pequena mesa com suas bordas desgastadas e levemente amassadas, Hunk e Shay deram as mãos e seguiram para a porta principal.

Os quatro adolescentes esperaram por Keith até este destrancar a porta e deixar o vento gelado do lado de fora entrar.

“Você vem com a gente, Lance?” indagou Hunk enquanto Shay seguia com ele até o carro estacionado logo na frente da casa. “Podemos dar um jeito de colocar sua bicicleta dentro do carro.”

Shay assentiu, o encorajando. Ela havia tirado as chaves de dentro do bolso do casaco, e estava apenas esperando pela resposta de Lance para então destrancar o carro e entrar com Hunk.

Keith olhou curiosamente para Lance, percebendo que ele havia permanecido ao seu lado, no topo dos degraus. Lance parecia tentar ignorar seu olhar, as bochechas e orelhas vermelhas enquanto ele balançava a cabeça para o melhor amigo em resposta. Era difícil dizer se o rosto rosado era culpa do frio ou de algo a mais.

“O Keith iria terminar de me ajudar com a lição. Vou de bicicleta mesmo.”

“Tem certeza? Está bem frio e já é tarde.” disse Hunk, a testa franzindo. “A Sra. McClain não vai ficar preocupada...?”

“Já estou indo ‘pra casa. É só mais um exercício.” explicou Lance. Hunk olhou desconfiado para o amigo mais uma vez, e então deu de ombros e virou para o carro. Shay soltou sua mão para dar a volta para o lado do motorista. “Vejo vocês amanhã!”

Shay girou a chave no carro e abriu a porta. Ela acenou para os dois antes de entrar.

“Até amanhã, meninos!”

“Tchau, Shay. Tchau Hunk!” disse Keith, abraçando o próprio corpo após reparar que o frio estava sendo mais efetivo do que a fina camada de um sweater vermelho.

Lance havia acenado de volta, então descendo os degraus com rapidez para abraçar Hunk. Shay riu e entrou no carro, sumindo do campo de visão de Keith. Então, Lance se despediu de Hunk e voltou correndo para onde estava antes, no topo dos degraus.

“Até amanhã, Keith!” respondeu Hunk, antes de acenar mais uma vez e entrar. Shay ligou o carro e então dirigiu para longe da visão dos dois adolescentes sobre os degraus.

Keith virou-se para dentro da casa quando não conseguia mais ver o carro de Shay na rua. Ele viu Lance entrando logo depois, então fechou a porta e passou a chave na porta. Keith se perguntou brevemente por que Shiro não havia voltado do trabalho ainda, mas a resposta veio em mente logo em seguida. Não era incomum que ele perdesse a noção do tempo enquanto estava trabalhando, mesmo quando tudo parecia tedioso demais. O que realmente deixava Keith incomodado era o fato de que ás vezes ele não o ligava avisando que chegaria mais tarde do que deveria.

Depois de certificar-se de que a porta estava propriamente trancada, ele virou em seu calcanhar para encontrar Lance, logo em sua frente, com o rosto corado e um sorriso nervoso no canto dos lábios. Sua reação para aquilo havia sido inevitável: Keith sentiu seu rosto queimando imediatamente.

Ele não pode deixar de se lembrar do que havia acontecido antes de Hunk e Shay chegarem a sua casa há algumas horas. Novamente, era inevitável. Lance parecia tímido de um modo que espelhava sua expressão mais cedo; tão fora de personalidade, mas tão bonita ao mesmo tempo. Lance era uma pessoa que não tinha vergonha de nada. Era simplesmente isso, mas mesmo assim...

“Hm... Sei que já terminamos todos os exercícios, então o que você queria...” começou Keith, a voz baixa pelo medo de ser ouvido por alguém. Ele queria gritar o que estava pensando, mas estava ciente de que ninguém mais poderia ouvir.

Lance o interrompeu quando seus braços envolveram o corpo de Keith. Este arregalou os olhos e manteve as mãos no ar, sem saber como reagir. Lance estava o segurando com força, o rosto enterrado em seu pescoço e o nervosismo em sua aura. O coração de Keith batia com rapidez contra seu peito, ameaçando sair.

“Uh- desculpe. Eu só te vi e...” explicou Lance á falta de reação física de Keith, começando á se afastar quando Keith resolveu quebrar a camada de gelo que o mantinha imóvel. Ele abraçou Lance de volta, tentando o apertar com a mesma intensidade para mostrar que não queria que ele fosse embora tão cedo. “Oh. Okay.”

“É... Uh- isso é... Bom.” murmurou Keith, sem saber se teria sido mais inteligente não falar nada. Lance riu fraco para seu comentário, e Keith sentiu algo em seu peito aquecer com o som; com o movimento do corpo de Lance contra o seu graças á risada.

Keith ainda iria morrer por culpa de Lance.

Eles ficaram daquele modo por um tempo. Parecia um ato culposo, pelo menos para o que Lance pensava. Ele sentia que estava tomando vantagem das informações que tinha agora que não tinha antes. Embora, ele não conseguia se forçar á deixar aquilo de lado – ele estava abraçando Keith e nada mais parecia importar.

Honestamente, Lance poderia fazer aquilo para sempre. Ele tinha se esquecido do que havia pensado em primeiro lugar quando Keith o abraçou de volta e se manteve daquele modo, pois agora que tinha uma ideia do modo como o cabelo negro dele cheirava (era tão doce), Lance duvidava que pudesse fazer sentido sobre qualquer outra coisa que ele resolvesse dizer em algum futuro próximo.

Mas ele ainda tinha planos, e o pensamento voltou com rapidez quando ele estava prestes á descarta-los com o objetivo de apenas ficar ali, abraçando Keith pela eternidade. Se os seus planos fossem bons afinal, ele teria a eternidade para fazer isso.

“Hey, Keith?” indagou levemente. Keith demorou a responder. Lance ficaria preocupado se não o sentisse respirando, pelo modo como seus corpos estavam tão grudados. Então, Keith ajeitou seu rosto sobre seu ombro e murmurou algum som ininteligível, em tom de pergunta. Lance respirou fundo e continuou. Sua voz soava rouca por motivo nenhum. “Posso te beijar...?”

Keith segurou a respiração por um momento, e então ele afastou a cabeça a uma distância suficiente para que ele possa olhar Lance nos olhos. Aquilo fez Lance repensar muitas outras coisas. Keith sempre teve os olhos daquela cor? Será que Lance havia notado antes que havia um brilho violeta naqueles olhos negros? Ele logo amaldiçoou á seu próprio eu do passado.

Lance estúpido. Pensando nos olhos dele o tempo inteiro, mas na sua cabeça não tinha aquele tom colorido sendo rodeado por todo o resto.

Aquilo poderia ser seu eu bobo e apaixonado, mas ele não achava que havia visto um violeta tão bonito quanto aquele nos olhos de Keith.

“Você pode.” respondeu Keith, o tom cuidadoso. Ele levantou um ombro levemente, forçando certa indiferença, embora o resto de sua linguagem corporal dissesse outra coisa sobre como ele deveria se sentir. Lance quase havia se esquecido novamente, mesmo que tenha feito a pergunta em voz alta. Parecia há anos de distância. “Uh- se quiser. De boa ‘pra mim.”

Era peculiar, de certa forma. Tão poucas palavras, mas ainda não soava como Keith. Já o nervosismo havia sido ouvido antes – então Lance logo o relacionou para o modo como ele estava tentando ir para um estado estoico que simplesmente não estava dentro de si.

Lance se forçou a soltar para ocupar suas mãos com o rosto de Keith, ao invés. Ele estava quente contra suas palmas. Era de se imaginar, com o modo como ele esteve vermelho desde que Hunk e Shay haviam ido embora.

“Você tem certeza...?”

Era uma fachada, na verdade. Lance podia parecer estar frio o tempo inteiro; que tinha tudo sobre controle, mas era tudo uma mentira. A verdade era que ele poderia derreter apenas com o modo como Keith havia o olhado enquanto assentia freneticamente em resposta. A verdade era que embora Lance pudesse dirigir sorrisos e olhares para várias meninas, nada realmente o fazia se sentir do modo como Keith conseguia.

E aquilo era quase como magia.

“Sim, Lance, eu tenho certeza.” e com aquelas palavras estáveis, como se Keith tivesse reunido coragem para dizê-las ao invés de apenas assentir, Lance soube que estava perdido.

Para começar, suas pernas viraram geleia quando seus lábios tocaram os de Keith.

Lance nunca havia beijado outro garoto antes, mas de alguma forma, ele sabia que nada seria igual ao modo como as borboletas no seu estômago estavam sendo levadas á insanidade graças aquele simples toque. Parecia que seus lábios foram feitos para tocar os de Keith, e Lance não sabia como se sentir diante daquela informação.

Na realidade, havia durado no máximo dois segundos. Já na cabeça de Lance, era como uma eternidade; aquela explosão de sentimentos e todas as reações em todo o resto de seu corpo – reações químicas, ele diria, e então Hunk iria seguir com uma longa explicação sobre o que acontece com o corpo humano quando se estava feliz –, coisas que ele não se lembrava de experienciar antes. Ele se lembrou das aulas na escola, de que diziam sobre a explosão de quando dois certos produtos químicos eram misturados, e ele não podia deixar de comparar o que sentia àquilo.

Suas mãos continuavam segurando o rosto de Keith, enquanto as mãos deste estavam sobre seus pulsos. Eles estavam bem próximos, e as testas se encostavam de um modo afetuoso que fazia Lance sentir todo tipo de coisa quente em seu peito. Keith tinha o cheiro leve de couro. Era bom. Bem diferente do seu cabelo, mas tão semelhante ao modo afiado como ele era.

Caramba, Lance. Você está bem no fundo do poço que era amar Keith Kogane.

Ele não conseguia segurar o sorriso, e abrir os olhos para ter uma ideia de como Keith estava não havia ajudado. O rapaz tinha um sorriso tão suave, e as bochechas ainda estavam vermelhas e os olhos ainda estavam bem fechados quando Lance olhou para ele. Keith os abriu, e aquele tom violeta parecia brilhar e tirar sarro do modo como Lance se sentia.

“Eu acho...” começou Lance, sua voz soando algumas vezes mais fina do que o normal. Ele engoliu em seco e pigarreou, sentindo certa vergonha pelas consequências físicas do que Keith estava fazendo com ele. “Eu acho que quero fazer isso ‘pra sempre.”

“Eu também.” respondeu Keith no mesmo tom baixo. Ele abriu um sorriso que mostrava duas fileiras de dentes brancos, e chame Lance de dramático, mas ele tinha certeza de que havia morrido por um segundo e sido levado para o paraíso. “É para ser assim...? Tão esquisito e... E quente?”

“Não sei. Acho que- Acho que nunca me senti assim antes.” Lance não costumava mentir, mas aquela confissão parecia com um peso tirado de seus ombros. Como se apenas o fato de ele ter sido honesto sobre o que havia sentido durante o beijo devesse ter ficado dentro de sua cabeça. “Caramba Keef, olha o que você está fazendo comigo.”

Keith riu fraco, e Lance riu junto porque ele estava muito feliz porra. Aquilo estava mesmo acontecendo? Será que um ser humano poderia ser tão adorável quanto Keith era?

Ele parecia prestes á dizer alguma coisa quando o telefone tocou abruptamente, os assustando até darem um pulo para longe um do outro. Lance sentiu sua alma sair do corpo por um segundo, mas então a compreensão o atingiu ao que ele percebeu que era apenas o telefone. Keith parecia sentir o mesmo, então respirando fundo antes de eventualmente olhar na direção em que o telefone tocava.

“Eu provavelmente deveria...” começou, apontando para trás. Lance assentiu, limpando sua garganta.

“Claro, sem problemas.”

Então Keith seguiu em passos largos para o som, pegando o telefone e o levando á orelha, ainda de costas para Lance.

“Alô... Oh. Tudo bem. Uh...” ele parou, virando levemente o corpo, olhando para Lance sobre o ombro. “Não! Todos já foram embora. Ok, te vejo daqui a pouco então. Tchau, Shiro!”

Ele levou o telefone de volta para o gancho, soltando a respiração com certo alívio antes de virar-se para Lance por completo. Ele caminhou tímido em sua direção, como se não soubesse exatamente o que dizer.

Então Lance levou as mãos ao bolso e se desesperou para formar frases coerentes.

“Acho que eu-“

“O Shiro já-“

Eles pararam, então rindo nervosamente. Lance fez um sinal para ele continuar falando, mas Keith balançou a cabeça, apontando em sua direção. Ele resolveu continuar, ou ficariam naquilo por um tempo longo demais.

“Meus irmãos- Uh, bom, hoje é noite de histórias, então...” começou Lance, então coçando a nuca. “Pulei semana passada, então acho que deveria ir...”

Keith franziu a testa, então assentindo com entusiasmo.

“Oh! Sim, claro! Quero dizer...” parou, continuando em um tom mais estável. “O Shiro está chegando, então... Bom, ele não- Ele não pode saber, não é? Não sabemos o que... O que nós somos.”

Lance estava de acordo com a ideia até as últimas palavras de Keith. Ele franziu as sobrancelhas.

“Ah...” começou, pensando com rapidez. Seus olhos se arregalaram levemente. “Amanhã! Uh, vamos conversar sobre isso amanhã... Se você estiver... de... acordo.”

Aquilo parecia ter sido o suficiente para levar um pequeno sorriso de volta para o rosto de Keith. A tensão em seus ombros parecia dissipar, e quando ele cruzou os braços, era algo mais genuíno do que poderia parecer em qualquer outra ocasião.

“Tudo bem por mim.”

Eles ficaram alguns segundos apenas olhando um para o outro, o clima com certa vergonha pairando. Não era necessariamente desconfortável, mas Lance conseguia pensar em outras coisas que ele preferia estar fazendo com o silêncio.

“Ok, então! Escola e conversa amanhã!” exclamou, batendo palmas uma vez para dar ênfase á sua tentativa de demonstrar animação. Keith assentiu mais uma vez, então Lance olhou sobre seu ombro por um segundo antes de apontar para a porta. “Estou indo agora! Uh- até amanhã!”

“O-Ok!”

Keith seguiu em sua direção e passou por ele para abrir a porta. A situação era estranha ao extremo, mas Lance reconhecia que não havia muito á ser dito para que eles possam voltar ao normal.

Então, é claro, Lance tinha que fazer a situação ficar ainda mais esquisita.

Quando Keith destrancou a porta e virou-se para Lance, este já estava próximo demais, o que fez seus corpos quase colidirem. Eles riram com certo nervosismo e Lance passou por Keith, saindo da casa com o coração disparado. Lance virou para Keith ao estar do lado de fora.

“Posso- Uh, será que podíamos...”

Ele não precisou continuar, o que era um alívio. Keith o puxou pela parte da frente da blusa até Lance estar dentro da casa novamente. Então, ele grudou seus lábios juntos mais uma vez, e Lance percebeu que a sensação ainda era a mesma.

Com certa esperança de mais daquilo acontecer no futuro, ele duvidava que a sensação não fosse mudar tão cedo.

Havia durado tanto quanto na primeira vez, mas Lance sentia como se tivesse sido ainda mais rápido. Ele não pode evitar a decepção ao que eles se afastaram logo quando ele estava começando á tentar compreender o que era aquilo em seu peito mexendo com sua cabeça.

Keith o dirigiu aquele sorriso – aquele sorriso, em que ele parecia saber de tudo que você está pensando – e o coração de Lance fez uma pirueta. Ele estava ficando cada vez mais patético.

“Amanhã, então.”

Dessa vez, Lance quem havia assentido freneticamente, com um entusiasmo que quase não cabia dentro de si.

“Amanhã!” exclamou, abrindo um grande sorriso. Ele aproximou-se hesitante, oscilando entre ir e voltar até decidir deixar um beijo rápido no rosto de Keith antes de virar em seu calcanhar e descer os degraus rapidamente.

Ele viu Keith dando alguns passos para fora da casa com a mão sobre o ponto onde Lance havia beijado, sua expressão de surpresa e choque. Lance não conseguia apagar o sorriso de seu rosto, então ele apenas tentou focar em pegar sua bicicleta e sair dali o mais rápido possível – ou ele desconfiava que não fosse mais querer fazê-lo.

Keith havia fechado a porta quando Lance começou a guiar sua bicicleta pela rua. Ele olhou para a porta fechada e parou por alguns segundos, como se quisesse ter certeza que estivesse realmente trancada. Então, Lance deu socos no ar com entusiasmo, dando gritinhos abafados de animação e sorrindo tanto que seu rosto começava á doer. Havia bolinhas de gude em seu estômago, e Lance sentia os cabelos curtos em sua nuca levantando quando ele se lembrava do modo como os braços de Keith ao seu redor e seus lábios sentiam.

Ele tentou acalmar-se respirando fundo, mas o sorriso não iria deixar seu rosto tão cedo. Lance olhou para a casa mais uma vez antes de subir na bicicleta e pedalar pela rua na direção de sua casa.

Lance esteve pensando e repassando a imagem do que havia acabado de acontecer por um milhão de vezes quando ele lembrou-se de que não havia checado o horário uma última vez antes de ir embora. Ele estava sendo honesto quando disse que tinha algo para fazer em sua casa. Segunda-Feira era o Dia de Histórias, e Lance não havia participado na semana anterior por culpa das avaliações em sua escola. Seus irmãos não haviam ficado felizes, mas ele ainda havia prometido que iria participar na semana seguinte, então tudo havia sido perdoado.

Mas ele também estava ciente de que tinha um horário certo para chegar em casa e para começar a encenar as histórias de um modo dramático com seus irmãos, afinal, dois ainda eram mais novos e precisavam descansar ainda mais do que ele para ir á escola no dia seguinte. Luís, seu irmão mais velho, era o responsável pelos mais novos enquanto sua mamá trabalhava até mais tarde. Lance precisava voltar logo para ajuda-lo ou sua mãe talvez não o deixasse mais sair em dia de semana.

Lance imaginou que já estivesse tarde demais para ele conseguir chegar a tempo de dizer que havia apenas pedalado mais devagar, e ele não queria que Luís ficasse irritado e o delatasse á sua mãe. Com isso, Lance viu uma janela de oportunidade quando passou pela floresta da cidade; escura e assustadora rodeando a estrada.

Ele não gostava de passar por ali puramente por ter medo de perambular sozinho por aquelas árvores, mas não havia formas de esquecer o fato de que o caminho pela floresta ainda era o melhor atalho para evitar os discursos de sua mãe e sua própria raiva pelo irmão mais velho que iria demorar a diminuir.

Com isso, Lance respirou fundo e desceu da bicicleta, a guiando pelas árvores com uma sensação esquisita em seu estômago; muito diferente do modo como ele se sentia há alguns minutos enquanto estava com Keith.

Lance detestava aquela floresta quando estava de noite. Tudo era escuro demais e qualquer barulho subia aos seus nervos, embora ele soubesse que noventa por cento do tempo tudo estava apenas em sua cabeça.

Ele tentou andar o mais rápido que podia e olhar o mínimo possível para seu redor, mas a sensação estranha aumentava á cada passo; chegando a um ponto de fazer Lance questionar se era apenas porque ele estava com um medo geral de estar ali, ou por algo a mais.

Foi no momento em que ele começou á prestar atenção na sensação para tentar identifica-la em que ele ouviu o barulho.

Não era o vento. Ele esteve ouvindo o frio batendo contra as folhas durante todo seu trajeto até o momento atual, e aquilo não soava nada como o simples ruído que o vento causava. Lance não tinha certeza se era o som de alguém pisando em um galho ou apenas de um ruído que ele não conseguia identificar, pois nunca havia o ouvido antes.

Ele preferiu pensar na ideia de ser o galho. Talvez algum animal estivesse passando, e o silêncio absoluto acabou por ampliar o som. Ou talvez o próprio Lance tenha sido quem produziu aquele som, e sua paranoia o fez acreditar que havia vindo de outro lugar; próximo o suficiente, mas não bem ali.

“Ok Lance, foi só um animalzinho.” murmurou Lance para si mesmo, respirando fundo e tentando se acalmar, sem muito sucesso. “Não estou com medo não estou com medo não estou com me- O que foi isso?!”

Ele se interrompeu para um grito assustado, também parando em seu passo para olhar sobre seu ombro com os olhos arregalados. Dessa vez (Lance não era louco), ele havia visto um vulto passando por entre as árvores.

(Mas talvez ele estivesse ficando louco, afinal)

Sua respiração ficou desregulada, e ele continuou andando, com intenções de ignorar por completo o que havia acabado de ver. Era mais (racional) fácil fingir que estava tudo bem e estava tudo na sua cabeça e meu Deus o vulto não era de um animal ou de um ser humano e o que é aquilo no chão na sua frente?

Lance poderia apontar o exato momento em que ele havia perdido a cabeça, se alguém perguntasse.

Algo parecia empurrar o chão de baixo para cima, o fazendo parecer com o relevo causado por um corpo debaixo de lençóis. Lance largou sua bicicleta de imediato, dando meia volta e correndo o mais rápido que conseguia, se esquecendo completamente da direção que estava seguindo.

Ele poderia se preocupar em estar perdido depois que estivesse bem longe do que diabos fosse aquilo.

Os sons pareciam ficar cada vez mais altos ao seu redor; era como se agora que ele tivesse reconhecido por completo de que era algo que fugia de sua compreensão, não havia mais motivos de mais suspense. Lance continuou correndo, querendo encontrar algum lugar para se esconder, ou apenas outro ser humano que pudesse ajudar.

Lance tropeçou e quase caiu algumas vezes, mas seu terror havia sido o suficiente para mantê-lo de pé. Logo, Lance conseguia ver a estrada novamente, e aquilo havia causado certo alívio que quase não era perceptível por baixo de todo o desespero.

Ele chegou á rua e continuou correndo, fazendo o caminho de volta para Keith. Ele sabia que a distância da casa do rapaz era mais curta daquele ponto do que para sua própria casa, e Lance só queria estar na presença de alguém que o dissesse que ele só viu coisas que não estavam realmente ali.

Mas Lance não chegou tão longe.

Ele havia conseguido alcançar o suficiente até ver a sequência de casas da vizinhança onde Keith morava, mas então, o som que havia ouvido na floresta parecia próximo o suficiente para ensurdecê-lo. Lance gritou mais uma vez e tentou continuar correndo, vendo as luzes que estavam acesas das casas oscilarem por um momento enquanto ele passava por elas.

Lance estava vendo o telhado da casa de Keith quando um ruído perturbador surgiu do seu lado, correndo em sua direção. Então tudo que havia restado de Lance naquela rua havia sido a lembrança de que algum dia ele havia perambulado por ali antes.

E a rua estava escura.

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Era difícil para Keith se recordar de algum dia em que havia acordado tão entusiasmado para ir para a escola.

Ele havia ficado acordado por um tempo depois de que havia se deitado no dia anterior, incapaz de esquecer os acontecimentos daquele dia. Keith não conseguia deixar de lado o modo como seu coração não aquietava em seu peito, nem o modo como seus lábios pareciam formigar com o ponto onde Lance havia encostado os próprios. Era como se seu corpo soubesse que havia algo faltando agora que havia provado do que nunca esteve ali antes.

Ele havia corrido pela mesa e Shiro tinha um olhar surpreso para sua energia, mas não havia dito nada além de um simples comentário sobre quão feliz Keith parecia. Já era um alívio o fato de que seu irmão não havia o pressionado á dizer o que estava em sua mente, então Keith apreciou aquele pequeno momento enquanto durava.

Quando Keith estava pronto para ir para a escola, Shiro ainda estava bebendo de uma xícara de café, com um olhar vazio para o horizonte. Keith não comentou sobre sua aparência, pois Shiro sempre parecia cansado, e com isso ele apenas se despediu do irmão enquanto colocava a mochila nas costas, para, então, sair de sua casa. Ele pegou sua bicicleta e deixou a rua pedalando.

A entrada da escola não estava diferente de qualquer dia normal de aula, mas Keith sentia seu coração acelerar de ansiedade para o que ele esperava acontecer naquele dia. Ele deixou sua bicicleta no apoio com as outras, e então segurou a alça de sua mochila com certo nervosismo antes de caminhar até a porta principal.

Era inevitável. Ele olhou para as pessoas ao seu redor, esperando encontrar um rosto conhecido, embora soubesse que quem ele queria encontrar não havia chegado ainda. Keith não havia visto sua bicicleta nem a de Hunk no apoio, o que significava que ambos estavam um pouco mais atrasados do que o normal.

Ele tentou não pensar muito sobre isso, pois não sabia dizer se eles quem haviam demorado em chegar ou se ele mesmo estava presente mais cedo do que costumava chegar. Keith seguiu para seu armário quando entrou na escola, mantendo sua cabeça nas aulas que teria naquele dia ao invés de pensar demais no que havia combinado com Lance no dia anterior.

Uma conversa. Era só isso que eles fariam. Eles iriam conversar sobre o que diabos havia entre eles agora que ambos sabiam sobre o modo como o outro realmente se sentia.

Keith não havia parado para processar a informação, não de verdade. Ele havia tentado entender – e ele havia tido tempo no dia anterior, enquanto encarava o teto e se sentia incapaz de apagar o sorriso bobo em seu rosto – o que Lance queria dizer sobre tudo que ele dizia, mas não havia obtido sucesso. Era difícil acreditar que Lance realmente se sentia do mesmo modo. Parecia algo surreal, e Keith preferia continuar nessa fantasia que se parecia muito com a realidade do que voltar á realidade de verdade que não envolvia nada do que estava acontecendo. Sem Lance com sentimentos recíprocos, sem abraçar Lance de um modo diferente, sem beijar Lance.

Ele havia conseguido manter o pensamento longe por um curto segundo, mas agora havia retornado á sua mente. Keith havia beijado Lance, e Lance havia o beijado de volta. Havia durado um tempo muito rápido, ele estava ciente, mas ainda era melhor do que qualquer coisa que havia esperado. Aquele segundo havia sido o suficiente para manter a mente de Keith limpa de ansiedade, e ele apreciava o momento mais do que provavelmente deveria ser considerado saudável.

Keith havia passado tanto tempo apaixonado por Lance que ele já não sabia dizer se ainda havia alguma coisa que fosse saudável no modo como ele se sentia em relação á ele.

Ele não pode esperar para ver seus amigos chegando, pois faltavam apenas alguns minutos para o sinal de sua primeira aula tocar e eles ainda não haviam aparecido. Keith preferiu pensar que eles haviam apenas se atrasado do que imaginar que algo preocupante houvesse acontecido, e com isso, ele finalmente fechou o armário e subiu as escadas para sua primeira aula no segundo andar.

O dia parecia seguir mais lento do que o usual. Keith estava ciente de que era porque estava ansioso para o momento em que as aulas iriam parar por alguns minutos para o intervalo; para quando encontraria seus amigos nos corredores, mas o pensamento não era reconfortante. Ele não tinha aulas com nenhum deles no primeiro período, então de qualquer forma, teria que esperar para descobrir se eles ao menos haviam vindo á escola.

Quando o sinal tocou para o intervalo, a maioria dos alunos havia levantado em um pulo e logo estavam se juntando na porta, desesperados para sair da sala de aula. Keith também havia se levantado de imediato, mas preferia esperar todos saírem ao invés de ficar entre aquela multidão. Após a sala estar quase vazia, Keith saiu, andando em passos largos até o pátio com intenções de encontrar quem queria.

Ele havia passado na cafeteria da escola primeiro, e ao chegar ao pátio com a bandeja de comida, ele não pode evitar o sorriso ao encontrar Hunk com Shay na mesa em que costumavam se sentar todos os dias. Keith aproximou-se e deixou a bandeja sobre a mesa antes de olhar ao redor, franzindo as sobrancelhas.

Hunk olhou para ele e sorriu.

“Bom dia, Keith!”

“Ah- Bom dia, Hunk. E Shay.” cumprimentou Keith, se sentando. Sua cabeça não estava no presente, ao invés, girando para encontrar certo alguém. Ele parou, olhando na direção do casal em sua frente. “Uh, o Lance veio hoje?”

“Não. Acho.” respondeu Hunk, dando de ombros. “Bom, eu não vim com ele, pelo menos. Fiquei esperando, mas ele não apareceu.”

Aquilo havia servido como absolutamente nada para aliviar as preocupações irracionais de Keith. Não significava que algo estava errado, e ele sabia disso, mas ele ainda não conseguia livrar-se do sentimento estranho em seu estômago. Talvez fosse decepção por Lance não estar ali.

Ele sentiu-se egoísta imediatamente após o pensamento passar por sua cabeça.

“Ele... Ele não disse nada?” indagou Keith, sentindo-se tímido de repente.

“Não vejo ele desde que saímos da sua casa.” ele parou, então olhando para cima, contemplando. “Pra falar a verdade, agora que mencionei... Acho que ele pode estar doente. Ele estava esquisito quando fomos embora. O rosto dele estava bem vermelho.”

“É verdade!” concordou Shay, o garfo de plástico na mão e um pequeno sorriso compreensivo no rosto.

Keith tentou lembrar-se de algo no comportamento de Lance que coincidisse com o que Hunk havia dito, mas então ele se recordou do que o amigo estava dizendo. Logo após ele ir embora, Lance e ele haviam se abraçado e então... Se beijado. Hunk não sabia disso, então talvez apenas pensasse em outra coisa que pudesse explicar o modo como Lance estava agindo.

“É, assim mesmo!” exclamou Hunk de repente, chamando a atenção de Keith. Ele olhou confuso para o amigo com a sensação de ter sido exposto subindo em seu pescoço. Hunk apontou rapidamente para seu rosto. “Ele estava vermelho assim, igual você agora.” ele franziu as sobrancelhas. “Você está doente também? Talvez seja uma gripe.”

Caramba, ele era bom nisso.

Keith tentou não mostrar o quão surpreso estava, ou Hunk iria descobrir de imediato o que ele estava tentando esconder. Ele já havia encontrado uma relação entre o rosto vermelho de Lance e agora, aparentemente, de Keith – ele realmente sentia o rosto queimando –, então não seria difícil para Hunk descobrir toda a verdade.

“É. Talvez.” concordou Keith vagamente, tentando focar em sua comida para evitar o olhar de Hunk. Talvez ele estivesse certo; estava bem frio quando Lance foi embora no dia anterior, e era possível que ele tenha ficado doente quando acordou.

Estava tudo bem, Lance precisava de um descanso se não estivesse se sentindo muito bem. Além do mais, Keith sabia que mesmo que ele estivesse apenas espirrando, sua mãe iria o fazer ficar em casa de qualquer forma. Talvez ele nem estivesse tão doente, e, além disso, era só um dia. Lance ficaria bem.

Eles iriam conversar amanhã.

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“Você realmente precisa parar de fazer isso.”

Shiro sorriu de um modo culpado. Ele inclinou o corpo para trás, afastando a cadeira da mesa para conseguir virar-se para Keith, que se encostava à borda da mesa de braços cruzados. Ele havia acabado de deixar o saco de papel sobre os papeis de Shiro e seguido direto ao ponto principal. Talvez ele pudesse tê-lo cumprimentado primeiro, mas ele precisava reconhecer o problema antes de qualquer outra coisa.

“Acabei esquecendo.” fora a resposta de Shiro. Ele arrastou-se sobre a cadeira para perto da mesa novamente, as mãos seguindo para o saco de papel. “Você não precisava vir até aqui. Eu poderia comprar alguma coisa na cafeteria no fim da rua.”

Keith arqueou as sobrancelhas em incredulidade. Ele fez um som indignado, ganhando a atenção de Shiro, que tirava uma maçã de dentro do saco.

“É sério?” indagou Keith com uma risada sem humor. “Você fica reclamando sobre minha alimentação, mas “poderia comprar alguma coisa na cafeteria”. Aqui é uma via de duas mãos, Takashit.”

 “Cala a boca.” disse Shiro, mas não havia um sentimento verdadeiro por trás de suas palavras. Seu sorriso agora acompanhava a leve risada. Ele deu uma mordida na fruta e levou o saco de papel para o lado enquanto mastigava. “Você ainda parece feliz. Como foi a escola?”

“Com certeza não é por causa da escola.” respondeu em um tom sarcástico, embora ainda tenha dado uma risada fraca para a insinuação implícita do irmão. “Foi ok. Tive duas aulas com o Coran. Ele parecia mais... Fora do normal do que o normal.”

Eles riram. Coran Smythe era o professor de química de Keith, e ele era parente da parceira de trabalho de Shiro, Allura Fala. Com isso, eles sempre acabavam o encontrando mais vezes do que o necessário; embora, não seja tão ruim quanto podia soar. O homem podia parecer não ter a cabeça no lugar, mas era uma pessoa legal e divertida de se ter por perto.

“Isso significa que ele está ótimo.” comentou Shiro, e Keith não pode deixar de concordar.

“E então... Qual é o crime de hoje?” perguntou Keith, olhando ao redor da delegacia. O lugar parecia vazio, com apenas alguns policiais aqui e ali. Keith sentiu-se entediado apenas ao perceber o quão parado tudo parecia, e ele não podia imaginar como estava sendo para Shiro – nem o que diabos ele ficava fazendo até tarde se não havia nada interessante para se preocupar.

Shiro terminou de mastigar novamente antes de responder com um sorriso.

“Oh, verdade! Tive esse caso enorme hoje, e é bem legal porque resolvi bem rápido! Acho que bati um recorde pessoal ou algo assim.” disse Shiro, algo que trouxe o interesse á Keith. Ele virou-se propriamente para Shiro, os olhos arregalados de animação pelo irmão.

“Sério?! O que aconteceu? Envolveu muito sangue?! Não me poupe dos detalhes!”

“Ok, escuta... Uma senhora veio aqui hoje de manhã, parecendo aterrorizada. Parecia que ela tinha visto um fantasma; estava com os olhos arregalados e tudo mais. Perguntei o que tinha acontecido, e ela sussurrou, como se estivesse com medo de alguém ouvir...” explicou, a voz diminuindo em um tom sério que fez Keith se inclinar levemente para ouvir melhor. “Então ela me disse que alguém havia roubado seus óculos do rosto sem ela ao menos ver o assaltante.” os ombros de Keith caíram com a decepção. Ele olhou sem diversão para Shiro, que agora sorria enquanto encostava-se ao encosto da cadeira. “No fim, seus óculos estavam em cima da cabeça. Mais um crime resolvido para a pilha do detetive Shirogane!”

“Impressionante.” disse Keith, em um tom de voz não impressionado.

Eles continuaram conversando por mais alguns minutos até o tempo de pausa de Shiro acabar e Keith resolver que não iria atrapalhar seu irmão e voltaria para casa, ao invés. Ele decidiu no caminho que iria terminar a lição de casa e então, visitaria Lance para ver se estava tudo bem com o rapaz.

Ou assim ele esperava que fosse.

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Era impossível esconder a verdade: trabalhar na delegacia nas últimas semanas não havia sido a coisa mais excitante na vida de Shiro.

Ele estava ciente de tal fato há muito tempo, mas ouvir seu irmão comentar seus pensamentos exatos em voz alta ainda havia servido como uma chamada para ele acordar. Shiro sabia que nem sempre, em trabalho algum, os eventos sempre seriam interessantes, mas ainda assim, era decepcionante para ele ficar sentado em uma cadeira o dia inteiro, apenas organizando arquivos e arquivos.

Shiro havia terminado de catalogar mais um arquivo quando resolveu que precisava de um café. Havia passado algumas horas desde que Keith havia o trazido comida, mas Shiro ainda precisava de cafeína para mantê-lo animado pelo tempo que precisaria ficar assim.

Ele levantou-se e seguiu até os fundos para pegar uma xícara de café. Por sorte, alguém já havia feito mais cedo, o que significava que o café estaria um pouco frio, mas que Shiro não precisaria esperar mais um pouco para ferver a água. Ele ouviu uma movimentação na entrada da delegacia, então pegou sua xícara cheia na metade e seguiu de volta até sua mesa.

Havia uma mulher baixa de cabelo castanho e levemente grisalho chorando perto da mesa do detetive Thace. Ela segurava a mão de uma garotinha de pele morena, que tinha um olhar confuso e preocupado enquanto abraçava um ursinho de pelúcia. Ao lado da menina, havia outro garoto que fisicamente era muito parecido, apesar de ser mais alto e parecer um pouco mais velho. Este tinha uma mão sobre o ombro da garotinha enquanto a mãe continuava a chorar, secando as lágrimas com um lenço na mão livre.

“Não! E-Eu liguei para a escola hoje de manhã e eles disseram que ele não foi hoje!” exclamou a mulher, a voz tremida e desesperada. “Eu estou com tanto medo... E se ele estiver com problemas?!”

“Senhora, por favor, se acalme. Qual o nome do seu filho?” perguntou Thace, procurando por algo em sua primeira gaveta.

Foi naquele momento em que Shiro resolveu deixar a xícara sobre sua mesa para se aproximar daquela família; uma sensação de preocupação se formando em seu estômago.

“Senhora McClain! Está tudo bem?” indagou Shiro como rotina. Ele não iria agir como se soubesse o que estava acontecendo, nem que havia ouvido parte da conversa alguns momentos antes.

O olhar perdido da mulher seguiu para ele. Ela tinha os olhos azuis como os de um adolescente que Shiro conhecia, e dessa vez estavam marejados e pareciam tomados pelo desespero e receio.

Aquela era Isabel McClain, mãe de Lance McClain – um dos melhores amigos de Keith.

“Shiro, querido! O Lance sumiu! Por favor, me ajude á encontrar meu hijo...” ela parou em um soluço, fechando os olhos enquanto mais lágrimas rolavam por suas bochechas.

A sensação no estômago de Shiro estava cada vez pior.

“Espera, o que aconteceu?! Como assim o Lance sumiu?” questionou. Ele tentou não deixar a emoção transparecer na voz, mas devido ao choque, havia sido um trabalho mais difícil do que o usual. Ele conhecia Lance, e aquilo tornava a informação ainda mais aterrorizante.

“Ele não voltou ‘pra casa depois de visitar a sua! Por favor, me diga que você sabe onde ele está...”

Shiro não tinha palavras. Ele não se lembrava de Keith mencionar algo sobre Lance ter passado a noite em sua casa, e aquilo não poderia ser algo bom.

“Uh- senhora... Se seu filho for um adolescente, pode acontecer de ele apenas não ter ido á escola... Já aconteceu muitas vezes antes. Talvez ele tenha passado a noite na casa de um amigo, ou...” começou Thace em um tom calmo, tentando transmitir tal confiança para a mulher. Mas Shiro havia virado para o companheiro, balançando a cabeça.

“Não Thace, o Lance... Ele não é assim. Eu o conheço, ele é amigo do meu irmão.” explicou, então um pensamento havia cruzado sua mente. Ele olhou novamente para uma Isabel McClain parecendo perdida. “Espera- Talvez o Keith saiba onde ele está. O Hunk também estava lá, a senhora ligou para a mãe dele?”

Isabel assentiu, tentando controlar sua respiração enquanto secava as lágrimas que não paravam de vir com o lenço branco. As crianças continuavam quietas, apenas observando as interações.

“Eu liguei, mas a Tamah disse que o Hunk contou para ela que quando ele foi embora, o Lance ainda estava na sua casa. Ele não o vê desde então!” exclamou exasperada. “Você pode, por favor, perguntar para o Keith se ele sabe onde meu garoto está?!”

“Claro, com certeza! Irei perguntar o mais breve possível, Sra. McClain! Mas por enquanto, tenho que recomendar que a senhora espere, talvez ele volte para casa.” explicou Shiro, então comprimindo os lábios, a voz diminuindo. “Irei preencher o formulário de desaparecimento, de qualquer forma. Sinto muito, senhora. Farei tudo que puder para encontra-lo!”

Ela assentiu mais uma vez, e embora pareça menos histérica, era possível perceber que ela não estava nem um pouco menos preocupada.

“Muito obrigada, querido.” disse. “Só estou muito preocupada, o Lance nunca fez algo parecido antes...”

“Eu sei. Mas a senhora precisa manter a calma. Vai ficar tudo bem. Talvez ele tenha dormido em casa e o Keith tenha o escondido. Eles já fizeram isso antes, lembra?”

A mulher pareceu conseguir produzir um pequeno sorriso com a lembrança. Era quase imperceptível, mas parecia o suficiente para nenhuma lágrima ser derrubada naquele segundo.

“Lembro sim. Eu espero, por el amor de Dios, que seja isso que tenha acontecido.” disse, então, em uma voz mais baixa: “Eu só quero que ele esteja seguro.”

“Irei fazer com que assim seja.”

Isabel McClain virou com suas crianças e foi embora depois disso, levando os sons e soluços melancólicos de choro com ela, junto com a capacidade de Shiro de se manter despreocupado em relação ao que estava acontecendo. A situação não era boa, e ele não tinha tanta certeza se Lance estava realmente seguro, como havia dito para a mulher. Ela havia dito que ligou para a escola e que o rapaz não estava lá – e Keith havia o trazido comida há algumas horas sem mencionar nada sobre Lance não ter ido á escola.

Shiro resolveu acabar com suas dúvidas sobre uma das possibilidades do paradeiro de Lance ao tentar ligar para seu irmão. Ele sabia que ele estava em casa, ele deveria estar, então pegou o telefone sobre sua mesa e discou o número de sua casa, esperando que Keith atenda o mais rápido possível para dizê-lo que Lance estava com ele e estava bem.

Que tudo estivesse bem.

Ele esperou, e esperou, e esperou, mas Keith não estava atendendo. Shiro havia desenvolvido um tique na perna enquanto imaginava o que o irmão possivelmente estaria fazendo que o impedisse de ouvir o telefone tocando.

Paciência gera foco, Shiro costumava dizer. Era como um mantra; e Keith estava sempre o provocando sobre como aquela era a frase que ele dizia com mais frequência em toda sua vida. Paciência gera foco paciência gera foco

(e tocava)

paciência gera foco

(e continuava tocando e por que diabos ninguém nessa casa atendia a droga do telefone)

paciência gera foco paciência gera foco paciência gera

Shiro colocou o telefone de volta no gancho com mais força do que o necessário. Sua cabeça havia começado a doer; logo abaixo das sobrancelhas. Ele levou os dedos para a região, apertando os olhos e a mão contra a testa, esperando que aquilo o ajudasse á aliviar a dor.

Keith não estava trabalhando, disso Shiro tinha certeza. Ele havia coberto turnos demais nas semanas anteriores, e agora deveria ter alguns dias de folga até o chamarem de volta. Se ele não estava trabalhando, cabia á Shiro tentar imaginar quais outras possibilidades de ocupação estariam o privando de atender ao telefone.

Ele tentou mais uma vez, dessa vez mexendo nos papeis no canto da mesa para tentar manter o foco (e a paciência) sobre como Keith costumava agir. Shiro chegou a conclusão de que Keith só poderia não estar em casa, afinal. Talvez tivesse percebido que Lance não havia ido á escola e decidido checar para ver se estava tudo bem.

Mas então, isso iria os levar ao problema principal: se Keith não sabia onde Lance estava, então quem diabos sabia?

Shiro deixou tocar mais algumas vezes até decidir que Keith simplesmente não podia atender porque estava longe de casa.

E Shiro esperava profundamente que o irmão estivesse se encontrando em algum lugar secreto com Lance McClain. A opção em que o pior não estava acontecendo naquele exato momento era a única viável.

Ficaria tudo bem.

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Havia apenas um objetivo em mente quando Keith pegou sua bicicleta após terminar a lição de casa. Ele iria para a casa de Lance para checar se ele estava muito doente e, só de precaução, o avisaria sobre as lições que ele havia perdido da escola. Não havia nada de estranho em checar se seu amigo estava se sentindo bem nem em avisá-lo sobre a matéria importante das aulas. Era algo normal. Apenas um amigo se preocupando.

Embora, suas intenções foram interrompidas quando ele havia passado pela casa de Hunk. Keith colocou o pé no chão enquanto olhava para a porta da frente, e então havia decidido que iria chama-lo para ir junto se quisesse. Afinal, Hunk também parecia preocupado mais cedo e Lance era seu melhor amigo desde sempre. Eles poderiam ir juntos para ver se ele estava bem, e então teriam sua confirmação de que era apenas uma gripe fraca e toda a preocupação iria esvanecer.

Algo ainda dizia para Keith que eles estavam longe disso, mas ele decidiu ignorar tal sensação.

Ele segurou a bicicleta e a guiou pelo guidão até a porta principal. Keith bateu algumas vezes e então olhou para os próprios pés, esperando por uma resposta. Ele estava se entretendo com as barras dobradas da calça jeans quando a porta havia sido aberta, revelando um rapaz com uma bandana amarela por baixo do cabelo castanho.

A expressão de curiosidade de Hunk havia mudado para confusão quando ele havia reconhecido Keith em sua porta da frente. Uma de suas mãos ainda segurava a maçaneta do outro lado.

“Keith! Eu estava prestes á te ligar...” disse, murmurando a última frase como se fosse apenas um pensamento que ele dizia de volta á si mesmo. “É sobre o Lance.”

“Oh- Eu vim te perguntar se você queria ir comigo visita-lo. Vou checar ‘pra ver se ele está bem e levar a matéria de hoje.” disse. Hunk assumiu um olhar esquisito após suas palavras, e aquilo havia intrigado Keith. Ele franziu as sobrancelhas. “O que foi? Você já falou com ele? Ele está muito doente?”

“Uh- Droga, cara, por favor, me diga que você...” começou, então parando, levando a mão para o cabelo enquanto parecia mais preocupado á cada segundo. Keith estava começando á se desesperar também apenas á visão do amigo parecendo tão aflito. Hunk respirou fundo e virou-se para Keith novamente. “Keith. Quando que o Lance foi embora ontem?”

Keith segurou a respiração. Ele não queria parecer suspeito ao evitar dizer mais do que o necessário, mas sabia que não estava sendo nem um pouco sutil.

“Ah, um tempo depois que você. Ele não ficou muito. Só- Só terminamos um exercício em uns cinco minutos e ele foi.” explicou, a voz tremendo levemente enquanto ele tentava inventar uma desculpa que coincidisse com os verdadeiros fatos. Ele mordeu o lábio inferior enquanto o nervosismo tomava conta de si. “Por quê? O que aconteceu?”

“A mãe dele ligou aqui há umas horas e disse que ele não voltou ‘pra casa ontem.”

Alguma coisa em Keith soava familiar, mas ele não conseguia apontar o quê. Talvez fosse o fato de que, de alguma forma, ele já sabia o que estava acontecendo – mas a sensação que seguia após os fatos serem confirmados nunca iria ser párea á simples ideia do que poderia ser.

Um milhão de pensamentos cruzaram a mente de Keith sobre as diferentes possibilidades daquela situação. Lance não havia voltado para casa no dia anterior, e também não havia ido á escola; o que significava que ele não teria dormido em algum outro lugar ou apenas chegado tarde demais e saído muito cedo no dia anterior; de um modo que sua família não tivesse o visto.

Keith estava pensando no pior do que poderia ter acontecido com Lance quando Hunk levou uma mão ao seu ombro, o trazendo de volta á realidade.

“Eu não sei onde ele está.” concluiu Keith, sem muita utilidade. Hunk tinha um olhar compreensivo por trás da preocupação, e aquilo fez Keith pensar em como as informações deviam estar agindo dentro da cabeça do rapaz. Lance e ele eram melhores amigos desde o jardim de infância. Seu desaparecimento deveria estar o matando.

“Vamos encontra-lo.” afirmou Hunk, os lábios se contraindo. “A Sra. McClain já deve ter procurado a polícia agora, mas vamos procurar também. Temos que fazer isso.”

Keith apenas conseguiu assentir vagamente para o que ele dizia, apesar de concordar de modo pleno. Eles não poderiam fazer qualquer outra coisa – ninguém sabia onde Lance estava e eles jamais o deixariam ficar perdido por muito tempo. Era o mínimo que podiam fazer como seus amigos.

“Quando?” indagou Keith, forçando as sílabas pelo nó em sua garganta. Aquilo era ruim, muito ruim. Ele sabia que apenas algumas horas sem ter informação do paradeiro de uma pessoa não podia dizer nada sobre sua situação, mas aquele era Lance, droga. Lance não sumia assim. Ele era medroso demais para andar sozinho á noite em lugares que não conhecia. Keith queria chorar com o pensamento retornando á sua mente. “Tem que ser hoje. Não podemos deixar passar um dia inteiro.”

“Sim. Vou chamar a Shay, e então começamos á procurar. Um par de olhos extras pode ajudar.” informou. Keith assentiu de novo. “Pode entrar se quiser. Meus pais estão trabalhando.”

Keith não entrou. Ele esperou segurando as manoplas da bicicleta até os nós de seus dedos ficarem brancos. Ele estava dando tudo de si para não socar qualquer superfície sólida ao seu redor, e em sua cabeça, estava tendo um grande sucesso. Normalmente, ele já teria perdido o controle nos primeiros segundos. Dessa vez, estava durando um minuto inteiro.

Hunk voltou um curto tempo depois. Ele havia colocado sapatos e estava saindo da casa com as chaves nas mãos, já se virando para trancar a porta logo ao estar do lado de fora.

“Ela vem?” perguntou Keith, observando um ponto perto dos tênis de Hunk. Ele estava tentando manter seus pensamentos racionais.

“Sim. Vamos esperar perto da Avenida Lion. Ela vem sem o carro, assim podemos procurar melhor na floresta.” explicou, e então havia sido isso.

Os dois seguiram em silêncio com as bicicletas para a avenida, ambos os pensamentos perdidos em suas próprias cabeças.

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Eles estavam apenas saindo do cinema quando Keith reparou que parecia ser mais tarde do que esperado.

Lance e ele tinham quinze anos, e a mãe de Lance havia finalmente o deixado sair após as seis horas da tarde para assistir um filme que havia estreado recentemente no cinema. Hunk não podia ir naquele dia, e Shay sempre havia sido mais próxima dele do que de seus amigos, então ela também havia recusado o convite. Havia restado Keith, então Lance discou seu número e eles combinaram de se encontrarem na frente do cinema.

Keith havia prometido para Shiro que voltaria antes das oito horas, assim não acabaria o preocupando demais sobre seu paradeiro. Shiro nunca o incomodava muito sobre horários, e a cidade era bastante calma para contrariar argumentos, então Keith costumava poder sair quando quisesse desde que não voltasse muito tarde. Ele nunca havia encontrado um motivo para negar o único pedido do irmão, então os dois tinham um acordo pacífico.

Naquele dia, embora, ele não havia previsto que o filme teria quase duas horas de duração. Talvez estivesse escrito no ingresso, mas Keith não se lembrava de ter lido. Estava feliz de poder ver aquele filme com Lance, e isso havia acabado por deixa-lo menos atento aos detalhes ao seu redor.

Os dois estavam deixando Os Caçadores da Arca Perdida quando Keith tentou pensar no que Shiro faria ao voltar para casa e ver que o garoto não estava lá, como deveria.

Ele não chegou tão longe em ideias, pois logo Lance havia interrompido seus pensamentos com um grunhido direcionado ao céu estrelado.

Mamá nunca mais vai me deixar sair de novo.” comentou. Keith e ele pegavam suas bicicletas e seguiam para a rua, passando entre os adultos que deixavam o cinema no mesmo momento. “E o Luís vai me ferrar de novo, aquele dedo-duro.”

“Você pode falar que o filme durou mais do que você achava.” sugeriu Keith, pensando em sua própria desculpa para quando encarasse Shiro. Ele não conseguia ver o irmão ficando verdadeiramente irritado com sua demora, mas ainda assim ele não podia evitar, mas pensar no pior. “Não é sua culpa.”

Lance fez um som de concordância, e então eles subiram e começaram a pedalar, as bicicletas lado a lado enquanto seguiam a mesma direção.

“Acho que não iria querer sair tarde assim de qualquer forma.” disse Lance após um tempo. Ele estava encarando o chão de um modo vago, como se estivesse perdido em pensamentos apesar de acabar de dar voz á um deles. Keith olhou em sua direção por um momento antes de voltar á dirigir sua atenção á rua escura.

“Por que não?”

Ele deu de ombros, levantando o olhar para o horizonte.

“O caminho é outro ‘pra casa e as ruas são diferentes quando está de noite.” respondeu. Antes que Keith questionasse, ele continuou. “Tenho muito medo de andar onde não conheço quando está escuro.”

“Por quê?” questionou Keith novamente.

“Não sei. É esquisito.” disse. “Nunca se sabe quando um fantasma vai sair das sombras e tentar te pegar.”

Havia sido apenas após alguns segundos processando suas palavras junto com seu sorriso no canto dos lábios em que Keith havia finalmente entendido que ele estava brincando. Ele revirou os olhos, mas ainda não conseguia evitar o sorriso.

“Há há. Muito engraçado.” disse, ao que Lance começou a rir. “Espero que seja o fantasma das piadas engraçadas, talvez te ensine alguma coisa.”

“Mas eu sou hilário, você sabe disso.” respondeu. Eles haviam ficado um momento quietos, apenas rindo sozinhos, quando Lance adicionou, em uma voz mais baixa e mais séria: “Mas eu estava falando sério, sobre ser medroso.”

“Olha só, você está mesmo admitindo...?”

Lance riu mais uma vez.

“Cala a boca.” comentou. “É só que... Bom, pelo menos eu admito, sabe? Eu sei que fico com muito medo e não consigo levantar de noite ‘pra pegar um copo d’agua ou ir ao banheiro. Acho que saber disso faz a paranoia ficar menos real. Sei lá.”

Keith queria ter feito uma piada sobre quão sério Lance parecia enquanto falava sobre coisas assim, mas ele ficou em silêncio. Talvez ele concordasse, em seu subconsciente.

Os dois chegaram á casa de Lance primeiro, e então Keith pedalou para a própria. Ele não pode deixar de pensar nas palavras de Lance enquanto estava ali, no canto da rua deserta e escura que poderia vir direto de seus pesadelos.

Quando ele chegou em casa, Shiro não gritou com ele, nem o proibiu de sair de novo. Ele apenas havia o dito que o deixara preocupado, e então os dois se sentaram na sala e Keith o contou sobre o filme que havia assistido e Shiro o contou sobre seu dia no trabalho. As coisas pareciam melhorar ultimamente entre eles, e isso era algo bom.

As palavras de Lance haviam seguido Keith para a cama até ele adormecer.

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O céu havia escurecido no tempo em que eles encontraram Shay e seguiram para a casa de Keith, com intenções de tentar traçar o caminho feito por Lance até seu desaparecimento. Havia começado á chuviscar em algum momento, e a chuva parecia ficar mais forte a cada segundo, mas nenhum dos três tinham intenções de pararem sua busca.

Keith esteve pensando demais enquanto eles pedalavam pela rua deserta. Ele estava ciente de que Hunk e Shay estavam trocando algumas palavras baixas no caminho, mas ele ainda não conseguia juntar-se á eles. Sua cabeça era uma bagunça de pensamentos e era impossível livrar-se deles.

Novamente, os acontecimentos antes de Lance deixar sua casa estava rodando em sua mente. Dessa vez, não traziam uma luz positiva; uma sensação agradável no corpo de Keith que o fazia desejar repetir aquele momento para sempre. Não, dessa vez, havia o feito sentir como se fosse um momento há anos-luz de distância, como se fosse algo que jamais poderia se repetir. Como se aquela fosse a última vez em que Keith veria Lance.

Havia algo por cima de tudo, e ele também podia reconhecer aquele sentimento. Culpa. De alguma forma, ele sabia que não era realmente sua culpa sobre o que quer que esteja acontecendo com Lance. Ainda assim, ele não podia deixar de pensar que se ele tivesse insistido para ele ir embora; se ele não tivesse o puxado para beijá-lo uma última vez antes de ele ir embora... Talvez ele ainda estivesse aqui.

Eles haviam começado á gritar o nome de Lance logo ao chegarem ao ponto em que a floresta rodeava a estrada ao invés de casas, embora, todos sabiam que não iriam encontra-lo se não pressionassem mais fundo. Com isso, a decisão havia sido silenciosa. Eles entraram na floresta, guiando as bicicletas com as mãos enquanto tentavam enxergar qualquer coisa que os dissesse onde seu amigo estava.

A chuva havia ficado forte com a rapidez de uma piscada, mas eles continuaram andando pela floresta, gritando o nome de Lance com esperanças de que ele apenas respondesse aos seus chamados; mesmo sabendo a rara possibilidade de isso acontecer.

Eles tinham o capuz da blusa sobre as cabeças, mas não era o suficiente para evitar que a chuva os atinja. Estava frio, e Keith não saberia dizer se ele apenas havia saído de casa quando já era tarde, ou se o céu só estava escuro por culpa da chuva. De qualquer forma, ele sabia que precisava se apressar em procurar por Lance, pois assim que ficasse de noite, eles não iriam conseguir ver mais nada – ainda menos na floresta, onde tudo já parecia ser escuro mesmo durante o dia.

“Não vamos encontrar nada com essa chuva!” exclamou Shay em um grito para ser ouvida sobre o som da chuva caindo. Ela havia dado voz aos pensamentos de Keith, mas ele ainda não queria ir embora. Lance ainda estava por aí, e ele poderia estar precisando de ajuda.

“Precisamos encontra-lo!” gritou Keith de volta, então olhando ao seu redor novamente, se afastando do grupo para alcançar um campo maior. “Lance! Lance!”

Hunk e Shay também estavam separados, cada um com pelo menos dois metros de distância um do outro para que conseguissem ter mais espaço para procurar. Eles gritavam o nome de Lance como Keith fazia, mas era necessário admitir que não estava funcionando; pelo menos não com a chuva forte cobrindo suas vozes.

Fora enquanto Keith estava no meio de sua incontável tentativa de encontrar Lance aos gritos em que ele virou de encontro com um garoto.

O nome morreu em sua garganta para dar espaço á um som de surpresa com o outro corpo colidindo com o seu por acidente. Por estar andando devagar, Keith logo recuperou a postura após o susto, mas o garoto, que vinha correndo em sua direção sem olhar por onde andava, havia caído para trás com o encontro.

“Oh! Desculpe!” exclamou Keith, semicerrando seus olhos enquanto gotas de água passavam por seus cílios. Ele ofereceu a mão para o menino, que continuava caído, olhando para o chão enquanto parecia procurar por algo. “Deixe-me te ajudar á levantar! Pegue minha mão!”

“Keith?! Está tudo- Oh.” começou Hunk, aproximando-se. Logo, Shay estava por perto também, ambos olhando confusos para a cena em sua frente.

Keith continuava com a mão estendida, mas o garoto passava freneticamente as mãos pelo chão. Com isso, Keith resolveu olhar para baixo, talvez em uma tentativa de ajuda-lo á encontrar o que quer que procurasse, ou talvez apenas pela curiosidade do que havia o deixado tão desesperado. Ele encontrou algo que parecia com um par de óculos á alguns centímetros atrás de seus pés. Keith abaixou-se e os pegou, então levando com lentidão para o garoto.

Ele parou ao que os óculos entravam em sua linha de visão. O garoto olhou com cuidado para Keith, que estava agachando em sua frente para conseguir sua atenção, e levou a mão com a mesma lentidão para os óculos. Ele os pegou com certa rapidez, comparado ao modo como havia demorado em pegar o objeto de volta, e os colocou no rosto.

Ao se certificar de que o garoto sabia que Keith não iria o atacar ou fazer algo parecido, ele levantou-se e ofereceu sua mão. Embora, o garoto levantou por si mesmo, dando passos para trás assim que estava de pé novamente; mas ele não havia dado meia-volta, ou continuado á correr como fazia antes. Era quase como se ele estivesse esperando que Keith dissesse algo.

E então Keith notou o sangue escorrendo de seu nariz.

Havia algumas coisas comuns sobre o garoto, o que acabou por ser um dos motivos pelos quais Keith havia sido tão rápido em descartar sua aparência física. Ele também nunca havia sido o melhor em reconhecimento facial, de qualquer forma.

Parecia um garoto jovem, talvez quase de sua idade. Debaixo da chuva e do escuro da floresta, era difícil para Keith discernir qualquer outra coisa. Seu cabelo estava escuro por culpa da água que havia o empurrado para baixo, grudando em seu rosto; mas o comprimento parecia passar da linha da mandíbula. Os óculos pareciam fora de lugar debaixo do cabelo ensopado, mas aquilo não havia sido o que havia chamado a atenção de Keith.

“Minha nossa, você está bem?! Seu nariz está sangrando!”

Keith olhou para o lado, vendo Shay aproximar-se do garoto com um olhar preocupado. Mais uma vez naquele dia, Shay havia dado voz aos seus pensamentos. O garoto pareceu assustado ao ser reconhecido por mais uma pessoa, e seu olhar mudou rapidamente para o rosto de Shay enquanto ele parecia prestes á dar outro passo para trás.

As palavras de Shay pareciam processar na mente do garoto apenas após ele olhar em sua direção, pois logo após reconhecê-la como quem estava falando com ele no momento, sua mão voou para o nariz, encostando a ponta do dedo sobre o sangue antes de afastá-lo, o olhar caindo sobre o vermelho se esvaindo com rapidez debaixo da chuva. Ele olhou para Shay mais uma vez, como se estivesse perguntando o que fazer.

Mas foi apenas quando Hunk se aproximou o suficiente para ver o garoto em que Keith soube que eles teriam que adiar a busca por Lance.

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“Não podemos deixa-la ficar aqui.”

Hunk respirou fundo, olhando por cima do ombro de Keith para a garota atualmente sentada no sofá velho em seu porão.

Garota, de acordo com ela mesma. Aquilo havia sido tudo que ela havia dito. Abriu a boca apenas uma vez na viagem de volta para a casa do Hunk apenas para corrigi-los em relação aos seus pronomes.

“Está chovendo muito. Não posso deixa-la sozinha lá fora!” exclamou Hunk em um tom baixo após ele desviar o olhar da garota. “Escuta, eu vou dar um jeito nisso. Vou descobrir quem ela é e depois... Depois falamos com minha mãe e a levamos ‘pra assistência social, ou sei lá.”

“Nem sabemos o nome dela!” argumentou Keith, cruzando os braços com certa irritação. Ele olhou para a garota, querendo encontrar algo em sua aparência física que pudesse usar em seu favor em fazer Hunk mudar de ideia. Shay estava oferecendo roupas limpas e secas para a garota, em um tom baixo e simpático. “É sério, Hunk! Você não pode deixar uma estranha ficar em seu porão!”

“E eu também não posso deixa-la sair! Olha ‘pra ela, Keith. Ela parecia estar fugindo de alguma coisa. Não posso simplesmente manda-la para onde ela estava tentando escapar.” explicou Hunk, indicando a garota vagamente. Keith costumava achar que a bondade de Hunk algum dia iria acabar sendo seu fim.

“Exatamente! Fugindo do quê?”

“Não sei, do pai? De alguém tentando levar ela que nem fizeram com o La-” ele se interrompeu bruscamente. Keith olhou para ele de imediato, sentindo um aperto no coração quando se lembrou de que Lance ainda estava desaparecido, e eles não estavam fazendo nada para tentar encontra-lo. Hunk cerrou a mandíbula e fechou os olhos por um segundo. “Olha, você não precisa concordar. A garota fica se ela quiser. A Shay e eu iremos tentar descobrir quem ela é e o que está acontecendo. Você pode ficar, ou ir embora. A escolha é sua.”

Eram raros os momentos em que Keith via Hunk parecer tão duro, mas era compreensível. Todos estavam frustrados com o fato de que havia alguém faltando entre eles, mas aquilo não era motivo para começarem á serem rudes uns com os outros. Keith ainda estava aprendendo.

Ele apenas assentiu, dando um passo para trás.

Você quem quis trazê-la.” afirmou Keith, como um último lembrete para o caso de as coisas darem errado no final. Ele sabia que não estava tendo sucesso na ideia de ser agradável para as pessoas ao seu redor, mas agora ele não conseguia se preocupar com isso.

Keith passou por Hunk e foi embora, sem olhar para trás.

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Quando Keith chegou em sua casa, ele não estava esperando ver Shiro parecendo tão preocupado.

Mais uma vez, ele não havia se preocupado em checar o horário, e o fato de que havia um adolescente desaparecido não fazia nada mais além de apenas deixa-lo irritado com o fato de que, bom, havia um adolescente desaparecido. Ele não se importava com o que poderia acontecer consigo. Ele só queria Lance seguro.

“Por onde você esteve?” havia sido a primeira pergunta de Shiro. Sua voz estava estável, como sempre, o que era um bom sinal. Havia poucas coisas que faziam Shiro perder o controle sobre sua paciência, e Keith só havia alcançado aqueles limites duas vezes durante todos os anos em que conhecia Shiro. “Está chovendo bastante.”

Ele não soava acusatório. Era uma afirmação casual, talvez um modo de começar uma conversa. Keith podia dizer desde que havia entrado que Shiro tinha algo em mente e queria conversar com o irmão o mais breve possível sobre o assunto.

“Estava na casa do Hunk.” respondeu Keith, impassível. Ele se apoiou na porta para tirar as meias molhadas, as segurando perto do corpo para não molhar o resto da casa. “Não sabia que iria chover. Teria levado um guarda-chuva.”

Keith tirou o casaco de cima e então seguiu para a lavanderia com as roupas molhadas. Ele as deixou sobre o tanque, esperando deixa-las ali até a chuva parar para que então ele possa as estender debaixo do sol. Quando ele voltou para dentro da casa, os dedos dos pés se encolhendo pelo frio, Shiro estava perto do sofá, ainda com aquele olhar preocupado e levemente perdido em pensamentos.

Ele olhou para Keith, que diminuiu o passo com curiosidade ao ver a expressão do irmão. Keith esperou que ele dissesse alguma coisa, mas ainda havia ficado surpreso quando Shiro havia o dito o que estava passando por sua cabeça.

“Hm, Keith? Quando que o Lance foi embora ontem?”

A reação havia sido imediata. Keith congelou em seu passo antes mesmo de pensar em qual deveria ser sua reação física, mas então já era tarde demais. Ele deveria saber que Shiro sabia sobre o desaparecimento, claro que ele sabia, ele era um policial, mas ouvi-lo dirigir uma pergunta tão direta trouxe a sensação de culpa novamente.

Pelo modo como a expressão de Shiro havia mudado, Keith soube que havia cometido um erro ao deixar suas emoções transpareceram de forma tão óbvia. Ele tentou pensar no que fazer, pois não sabia se deveria ser honesto com Shiro ou não.

Ele acabou decidindo enfim que não havia motivos para não lhe dizer a verdade, então era isso que faria.

“Uh- Ele..”

“O que vocês fizeram depois que o Hunk foi embora?” questionou, sendo rápido diante da indecisão evidente de Keith. “Sei que ele ficou um tempo depois. A Sra. Garrett me informou.”

Keith percebeu que havia se denunciado muito cedo. A pergunta que Shiro havia acabado de fazer era acusatória, e Keith não pode deixar de sentir como se o irmão já soubesse da resposta. Ele sabia o que Lance e ele haviam feito depois que Hunk e Shay foram embora, e agora estava o confrontando sobre isso.

Ele tentou raciocinar. Será que deveria lhe dizer a verdade sobre Lance e ele e então, consequentemente, ajudar melhor Shiro á encontra-lo, ou será que ele mentia e dizia que Lance havia esquecido alguma coisa e a única razão por não ter ido com Hunk era que teria voltado para buscar?

Shiro parecia cada vez mais com alguém que sabia exatamente o que ele estava escondendo, e Keith não sabia como escapar sem revelar mais do que o necessário. Especialmente quando o mais era o que Shiro estava esperando que ele dissesse.

Mas Keith não conseguia forçar as palavras por sua garganta.

“E-Eu não sei onde o Lance está.”

Parecia com a resposta correta. Ele havia decidido ser honesto sobre outro fato, assim sua expressão facial não revelaria que ele estava tentando esconder alguma coisa.

Embora, Shiro apenas suspirou, soando cansado. Ele apertou a ponte do nariz de olhos fechados, e Keith sentia-se como uma criança sendo pega fazendo algo proibido.

“Keith, não dificulte isso ‘pra mim, nem ‘pra você. Fale a verdade.”

“Eu não estou mentindo! O Hunk foi embora com a Shay e o Lance foi embora depois!” respondeu, a voz elevando sem que ele perceba. Ele abaixou o tom e a posição defensiva quando percebeu. “Eu não sei onde ele está. Eu juro.”

Ele sabia que havia soado honesto, pois realmente estava falando a verdade. Seu nervosismo havia sido substituído pela angústia durante a última frase; e talvez tenha sido o que fez com que Shiro decidisse desistir em pressioná-lo á falar uma verdade específica.

Embora, ainda havia uma ponta de suspeita no olhar de Shiro que Keith não podia ignorar.

“Tem certeza?” indagou. Ele havia indagado com tanta convicção que Keith quase se perguntou se estava realmente certo de que Lance havia ido embora. Talvez ele estivesse escondido em sua casa, em algum lugar aonde ele não havia visto. “Vamos lá, Keith, você pode dizer a verdade. Não vou ficar com raiva. Acredito que você já saiba a gravidade da situação.”

“Eu...”

“Seja honesto, o Lance dormiu aqui ou não?”

A pergunta havia feito Keith parar e olhar confuso para Shiro. Esteve esperando tanto por outras palavras que aquilo havia sido o suficiente para desestabilizá-lo.

“Espera, o quê?”

Shiro pareceu cansado de novo. Naquele ponto, Keith estava lentamente se lembrando de que o irmão sempre parecia cansado, mas que no momento atual, parecia algo mais profundo do que apenas a falta de sono necessário.

“Olha, eu sei que da última vez eu fiquei bravo, mas isso foi porque o Lance não avisou a mãe dele e ela ficou muito preocupada, mas agora eu só quero-”

Keith suspirou, em parte de alívio e a outra parte de frustração. É claro que Shiro não sabia sobre Lance e ele e o que diabos estava acontecendo entre eles antes disso tudo acontecer. Shiro estava se referindo á possibilidade de Keith ter escondido Lance em seu quarto pela noite, como já havia feito uma vez antes.

Ele logo se sentiu envergonhado quando pensou que quase havia contado para Shiro coisas que não precisavam ser ditas.

“Ah- Não, Shiro. Ele não dormiu aqui.” respondeu Keith, o interrompendo com a percepção. “E de qualquer forma, ele não foi ‘pra escola hoje, e ontem não disse... nada... sobre isso.”

O silêncio que se seguiu era a prova absoluta de que agora Shiro acreditava nele, mas Keith não se sentia bem com isso.

Shiro assentiu lentamente.

“Tudo bem. Acredito em você.” disse, então se virando com os ombros tensos, a mão sobre a boca. “Isso significa... Bom. A polícia e alguns voluntários formaram um grupo de busca, e amanhã vamos procurar pela floresta. Vamos encontra-lo.”

Keith queria dizer que eles já tinham procurado por aquela floresta estúpida e ele não estava lá, mas ele decidiu engolir sua aflição. Ele espelhou o movimento de Shiro e assentiu também, decidindo que precisava de um momento sozinho.

Ele conseguia ver que Shiro estava agindo com cuidado ao seu redor. Lance era seu amigo, claro que Shiro teria a sensibilidade de não falar em voz alta o que os dois sabiam. Lance estava oficialmente desaparecido, e não era uma brincadeira. Ele estava em perigo, perigo real, e ninguém fazia ideia de onde ele poderia estar. Nada assim acontecia naquela cidade. Nunca houve motivos para eles se preocuparem com algo tão sério quanto um desaparecimento.

O que significava que o que quer que tenha acontecido com Lance não era simples; não era algo seguro de forma alguma. Keith sentiu uma vontade de vomitar com o pensamento.

Ele foi para seu quarto depois de uma conversa rápida com Shiro sobre o jantar. Deitou encolhido virado para a parede e não saiu mais da cama naquele dia.

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Hunk não estava na escola no dia seguinte.

Sua ausência fora percebida primeiramente quando Keith chegou à escola e viu que a bicicleta de Lance ainda não estava ali, e nem mesmo a de Hunk. O fato havia feito pouco para aliviar sua preocupação, pois Keith logo começou á imaginar cenários terríveis em que algo teria acontecido com Hunk também. Ele percebeu que estava com os dedos tremendo apenas quando tentou abrir seu armário e ele parecia não conseguir acertar a combinação.

Shay havia o encontrado durante o intervalo e dito que Hunk havia pedido para avisá-lo que diria que estava doente para ficar em casa com a garota. Keith sentiu uma leve irritação subindo em suas veias quando Shay o disse que Hunk queria descobrir quem ela era antes de fazer qualquer coisa, e além do mais, aparentemente a garota havia dito que não queria falar com um adulto ainda. Com isso, não havia formas de Hunk apresenta-la aos pais sem revelar que havia a deixado dormir em seu porão sem mesmo saber seu nome.

Keith sabia que estava exagerando ao mostrar-se tão irritado com o fato de que seu amigo havia abrigado uma estranha. Ele achava que era uma ideia estúpida, ainda que não o envolvesse por completo; não de verdade. Mas ele estava tentando manter o amigo seguro, de alguma forma, e deixar que uma garota que eles não conheciam dormisse em seu porão certamente fugia do que “seguro” significava.

Além do mais, eles não deveriam esquecer que Lance ainda estava perdido por aí, provavelmente precisando deles – e o que eles estavam fazendo? Tentando ajudar uma estranha que se recusava em falar com um adulto que poderia realmente ajudar. Se ela nem queria dizer seu nome, porque ela deveria ser tratada como prioridade tão de repente?

Nos últimos minutos do intervalo, Shay havia sugerido que eles visitassem Hunk naquela tarde. Talvez a garota tivesse visto Lance, ou algo que pudesse os dizer o que havia acontecido de verdade, e de qualquer forma, eles precisavam descobrir quem ela era antes de fazerem qualquer outra coisa. Keith respondeu que iria conversar com Shiro para ver se conseguia descobrir algo que os levassem á localização de Lance. Ele disse que iria encontrar um tempo para visitar Hunk, e Shay assentiu antes de se levantar e seguir para sua sala de aula.

O dia passou devagar. Keith queria ir embora logo, assim poderia passar na delegacia e perguntar para Shiro se eles haviam encontrado alguma coisa importante. Ele não sabia se o irmão iria lhe dizer alguma coisa – ou se ele ao menos pudesse dizer alguma coisa –, mas a tentativa não seria em vão. Keith precisava de alguma coisa, qualquer coisa, que ajudasse; que servisse de dica para o paradeiro de Lance, e o no momento, ele não tinha nada.

Ele só queria ter a confirmação de que Lance estava bem e vivo. O pensamento havia causado uma sombra sobre suas especulações, e foi naquele momento em que Keith percebeu que ainda não havia considerado a possibilidade de Lance não estar mais vivo. Ele odiou aquele momento mais do que tudo, pois Lance morto simplesmente não era uma opção em sua cabeça. Poderia até ser um modo de explicar seu desaparecimento, mas ele se recusava em acreditar que um garoto forte como Lance iria morrer assim. Não agora, não sem uma despedida significante e digna.

Keith tentou se livrar do pensamento logo quando começou á criar outros. Seus olhos estavam enchendo de lágrimas com a ideia breve, então ele esfregou o rosto com punhos cerrados para limpar as lágrimas que ainda não haviam saído e se distraiu com a lição que a professora passava no quadro negro.

Quando o sinal tocou, Keith havia sido um dos primeiros alunos á sair da sala. Ele seguiu correndo até sua bicicleta e pedalou o mais rápido que conseguia para casa. Talvez ele estivesse exagerando de novo, mas havia uma pessoa desaparecida; uma pessoa com quem ele se importava muito, e ele não podia gastar nem mais um segundo.

Ele pegou o saco de papel com o almoço de Shiro da geladeira sem muita surpresa e colocou na mochila. Keith estava passando as alças pelos ombros enquanto seguia para a porta principal novamente quando seu olhar parou no telefone na sala de estar.

Uma ideia havia cruzado sua mente, mas ele não tinha tanta certeza se era uma boa ideia. Queria tentar ligar para os McClain para saber como eles estavam, mas honestamente, Keith não sabia no que diabos isso iria ajudar. Seu estado de espírito? O deles?

Ele balançou a cabeça e deixou o assunto de lado. Keith saiu, trancou a porta, e pedalou até a delegacia. Aquele caminho trazia certa nostalgia, e era o tipo de lembrança que ele não reconhecia nos primeiros minutos até ele passar por certo ponto, e então tudo vir á tona. Sempre havia sido assim. Ele não sabia por que havia ficado surpreso quando aconteceu mais uma vez.

Ali estava: a árvore alta e atualmente quase vazia de folhas. Sua cor estava desbotada por culpa do clima, e as folhas que haviam sobrado nos galhos eram castanhas, combinando com o tom de seu tronco. Parecia combinar perfeitamente com o clima da cidade.

E em seu tronco, bem no meio, virado do lado onde Keith passava para chegar á delegacia, estavam as iniciais “L + J” marcadas. Keith olhou para o detalhe de relance, então resolveu manter sua atenção focada no horizonte ao invés. Ele não queria pensar no que aquelas letras acabaram de trazer em sua mente.

Quando Keith chegou á delegacia, ele se sentia entorpecido.

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Era um dia nublado quando Lance o deu aquela mixtape.

A semana inteira havia sido repleta de cautela, pois havia quase um mês que o céu esteve cinza e ameaçando chover, mas não caía mais do que algumas gotas d’agua. Keith esteve saindo menos, e em pouco tempo, seus únicos destinos haviam se tornado a escola, delegacia e trabalho. Ele havia sido contratado no cinema há duas semanas, e apesar de ser revigorante o fato de ter seu próprio dinheiro, ele ainda se sentia desanimado com mais frequência do que gostaria de admitir.

Naquele dia, Lance estava dirigindo o carro da mãe. Ele havia ficado encarregado de buscar seus primos em outra cidade no fim de semana, mas sua mãe estava muito doente e não poderia sair da cama de acordo com ordens médicas. Com isso, Lance havia se oferecido para dirigir até a cidade vizinha, alegando que era próximo e ele poderia busca-los sem problemas. Ele havia aprendido á dirigir há seis meses, mas ainda não havia praticado além das ruas estreitas da pequena cidade.

Isabel McClain havia concordado com a ideia do filho buscando seus três primos desde que alguém o acompanhasse. Ela não gostava de pensar em Lance indo sozinho até outra cidade, mesmo que sua falta de companhia durasse até ele chegar á cidade vizinha. Então, Lance havia suplicado para seus amigos para que um deles pudesse acompanha-lo.

Hunk e Shay estavam ocupados com um jantar em família. Haviam começado á namorar oficialmente há dois meses e os pais de Hunk estavam pedindo para conhecer Shay há um tempo. Eles haviam marcado aquele dia, o que restava Keith para ser o companheiro de viagem de Lance.

Keith não tentou inventar alguma desculpa para não ter que ficar duas horas dentro de um carro com Lance, principalmente pelo fato de que Lance o conhecia melhor do que ninguém e sabia quando ele não tinha planos e como usar isso para sua vantagem. Ele havia avisado Shiro antes de ir e então ali estavam os dois; dentro de um AMC Gremlin que não funcionava muito bem, com a tinta azul descascando e as rodas gastas.

Logo quando Keith entrou no carro, ele havia sido cumprimentado com a surpresa. Lance segurava uma fita cassete com um sorriso enorme no rosto e, de alguma forma, ilegível – algo que acabou por frustrar Keith em níveis altos, na época. Ele segurava a fita na direção de Keith, tentando entregar em suas mãos, e foi naquele momento em que Keith havia reparado em seu nome escrito no lado A, na caligrafia bagunçada e obnóxia de Lance.

Para Keith, dizia. A tinta da caneta parecia mais saliente no “i”, como se Lance tivesse começado á escrever seu nome de um modo diferente antes de decidir que faria do jeito certo. Keith imaginava se ele estivera escrevendo “Keef” antes de mudar de ideia, para fazer com que seja mais sério.

Keith havia pegado a fita com certa curiosidade, e então Lance havia virado para frente, levando as mãos vazias para o volante. Era difícil não reparar em como ele parecia mais inquieto do que o normal, como se não tivesse certeza de como agir. Keith colocou o cinto enquanto ainda segurava a fita e depois continuou a encarando, esperando que Lance explicasse.

Ele o fez alguns segundos depois.

“’Pra você.” e havia sido tudo, como se o nome de Keith na fita não fosse o suficiente. Lance não tirava os olhos do horizonte, apesar de não ter ligado o carro ainda. “Escolhi todas as músicas que você – me dói dizer isso – aparentemente nunca ouviu falar. Coloca aí se quiser.”

Ele colocou no rádio do carro. Quando a fita havia começado á rodar, Lance começou á dirigir. Keith tentou manter-se calmo com a ideia de que Lance havia feito uma mixtape para ele, mas estava sendo difícil dizer á si mesmo que não significava nada quando as músicas tinham letras que cantavam sobre amor.

Lance cantarolava algumas canções, e Keith acabou se interessando mais por ouvi-lo do que pelo que tocava no carro. Ele parecia feliz. Relaxado. Diferente de como parecia quando havia entregado a fita para Keith mais cedo.

Eles estavam seguindo para fora da cidade, e para isso, Lance havia feito o mesmo caminho que Keith fazia quando visitava seu irmão na delegacia. A música que tocava era um pouco mais lenta do que as outras, e Keith não se lembrava de ter ouvido algo parecido antes, apesar do ritmo cantado soar familiar. Com alguns segundos na música, Keith percebeu que Lance estava cantarolando em um tom de voz mais baixo do que das outras vezes. Era uma canção que falava sobre duas pessoas que haviam crescido juntas e se apaixonado juntas. Keith não havia descoberto mais do que isso ainda, mas as primeiras partes estavam o fazendo sentir coisas estranhas em seu peito.

“Que música é essa...?” havia perguntado Keith após o primeiro refrão chegar ao fim. Ele não havia aguentado até o final da música, pois apesar de estar descrevendo um término eventual, ele não conseguia deixar de levar a parte de se apaixonar por alguém que se conhece desde sempre para o coração.

Lance parou de cantarolar por um segundo, mas seus dedos continuavam batendo no ritmo na música sobre o volante.

Love Will Tear Us Apart, do Joy Divison.” informou. Ele abriu um sorriso e abaixou um pouco a cabeça, parecendo tentar ver algo no horizonte além do que seu campo de visão permitia. “Ei, presta atenção naquela árvore ali! Você não vai se arrepender!”

Keith estava tentando memorizar o nome da música, mas ficou olhando para o ponto que Lance indicou. Quando eles passaram, Lance diminuiu a velocidade para Keith ter uma visão melhor sobre o que ele havia indicado; as iniciais “L + J” cravadas no tronco de uma árvore. Após alguns segundos passando por perto, Lance voltou á velocidade anterior.

“L e J... O que significa?” indagou Keith, se referindo mais ao fato do porque era tão importante do que os nomes aos quais as iniciais representavam.

Lance sorriu novamente, dessa vez daquele modo que ele costumava fazer; aquele sorriso afetado de assinatura.

“Lance e Jacqueline. Amantes eternos.” disse Lance em um tom divertido. Keith franziu as sobrancelhas, tentando entender se havia algum significado por trás. Com algum tempo pensando, ele havia concluído que Lance provavelmente estava tentando o dizer que havia arranjado uma namorada. Keith teve uma sensação nada agradável com a ideia. Lance deveria ter percebido sua expressão, pois ele logo adicionou: “Jacqueline Bisset! A atriz! Caramba Keith, você vive debaixo de uma pedra.”

Keith não sabia como havia escondido o alívio com a declaração, mas Lance não havia dito mais nada sobre sua expressão depois disso. Ou talvez Keith tinha sido óbvio como sempre, com o rosto vermelho como sua bicicleta, mas Lance havia apenas resolvido ignorar.

“Oh.” Keith havia dito, inutilmente. Então Lance havia começado á rir.

“Oh!” repetiu, e Keith realmente não sabia o que era divertido sobre isso, mas ele gostava da risada dele. Keith lembrava-se de que, naquele dia, Lance havia esperado que ele acabasse quebrando e rindo fraco também, empurrando seu ombro de leve com a provocação. Então, ele havia dito, em um tom de voz estável e calmo; “Ou talvez fosse Lance e James. James Dean. Tem sempre essa possibilidade.”

E então ele havia feito uma curva. Keith estava grato por isso, pois naquele único segundo em que havia sido jogado para o lado com a surpresa, ele havia conseguido manter o grito incrédulo em sua garganta. Ele não sabia se havia ouvido certo, ou se havia interpretado certo – ele costumava não ser bom em entender as coisas implícitas –, mas Lance havia feito a mesma comparação. Ele havia até explicado para Keith que se referia á James Dean para não haver confusão novamente, mas era difícil entender se ele estava falando sério ou não.

Será que Lance...

Será que Lance era queer?

“Você acabou-” disse Keith após um tempo. Ele não sabia como começar, e agora outra música estava tocando. O ritmo rápido e animado combinava com o coração acelerado de Keith. Ele engoliu em seco e tentou estabilizar a voz. “Você realmente acabou de sair do armário ‘pra mim?”

Muito sutil, Kogane.

Ele estava começando á se preocupar sobre ter ofendido Lance quando este começou a rir novamente, quebrando o terrível silêncio de três segundos de duração. Foi durante aquela risada em que Keith também percebeu o quanto era tremida, e que Lance na verdade estava nervoso com sua revelação e as reações á vir, apesar de parecer tão calmo enquanto a dizia em voz alta.

“É... É, acho que sim!” exclamou. Sua voz não soava como a própria e o sorriso em seu rosto era aterrorizante. “Mas queria que você falasse rápido se não quer mais ser meu amigo! Eu sei o que as pessoas falam.”

O coração de Keith parecia ser apertado um pouco com aquela declaração. Ele também sabia o que as pessoas falavam, droga, ele era alvo de muitas daquelas palavras, daqueles olhares, daqueles dedos apontando, daquelas mães puxando os filhos para perto quando ele passava na rua.

O que doía era o pensamento de que isso ocorria com Lance também. Lance, de todas as pessoas. Lance, que chorava quando pisava sem querer em uma formiga quando era mais novo. Lance, que era uma das pessoas mais bondosas que Keith conhecia, debaixo daqueles olhares nocivos e das palavras duras.

Ele percebeu que havia ficado muito tempo sem responder quando Lance começou a bater no volante com o dedo de novo, e dessa vez, não era o mesmo ritmo da música que tocava. Era algo mais repetitivo, mais inconsciente. Era o fruto de sua ansiedade, de sua aflição para o modo como Keith esteve em silêncio por muito tempo para uma revelação grande como aquela.

Mas Keith não sabia o que dizer. O que alguém deveria responder para algo como aquilo? Keith queria que Lance soubesse que ele o apoiava não importava quem ele decidisse amar. Mas Keith nunca havia sido o melhor com palavras.

“Uh, eu...” começou, mas os murmúrios eram cortados e terminavam em nada. Ele respirou fundo, olhando para Lance de canto de olho. A letra da música ainda não encaixava o modo como ele se sentia. “Acho que eu preferiria um James. No seu lugar.”

Lance olhou em sua direção imediatamente. Keith não estava o vendo de modo direto, mas ele ainda conseguiu ver um vislumbre de sua expressão em choque; os olhos arregalados, os lábios separados. Talvez Lance também não fosse bom em esconder suas emoções.

“Espera- É sério?! Dios mío, eso cambia todo...” exclamou, surpreso. Ele havia murmurado a última parte, e Keith achava que estava ouvindo mal antes de perceber que Lance falava sua língua nativa. Era como se ele estivesse apenas pensando em voz alta, então Keith não pediu para que ele repetisse. “Keith! Nós somos queer!”

“É- Acho que somos.” concordou. Ele não conseguiu não sorrir após dizer tais palavras em voz alta. Parecia libertador poder dizer isso para alguém; pois mesmo que as pessoas sempre assumissem sua sexualidade como um modo de tentar provoca-lo, ele nunca havia, de fato, admitido o modo como se identificava para ninguém. Dizer aquilo para Lance era algo totalmente novo, e ele gostaria de saber se era assim que Lance também se sentia.

A viagem seguiu com Lance cantando as outras músicas da mixtape e tagarelando sobre James Dean nos tempos entre canções e instrumentais – e Keith não podia ficar mais feliz do que naquele momento.

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Shiro não estava em sua mesa quando Keith chegou, mas ele apareceu apenas alguns minutos depois.

Era uma surpresa que ele não estivesse em sua cadeira como todas as outras vezes em que Keith o visitou durante aquele horário, mas aquilo também significava que ele estava ocupado com um caso. O caso do desaparecimento do Lance, para ser mais específico.

Ver a mesa de Shiro vazia quando ele chegou à delegacia apenas fazia as coisas parecerem mais reais, e aquilo aterrorizava Keith. Talvez ele finalmente tenha entendido o que Lance quis dizer naquele dia a anos atrás; apenas em um contexto diferente.

Shiro apareceu com uma postura tensa, mas quando viu Keith, sua expressão havia suavizado para a leve preocupação e simpatia. Keith não sabia como se sentir em relação á isso, mas ele não gostava da parte em que alguém sentia simpatia por ele. Ninguém deveria estar com dó de como ele deveria estar se sentindo. Eles deveriam pensar em como Lance deveria estar: sozinho, com medo, possivelmente machucado. Keith entendia que era difícil pensar nisso, mas era necessário para fazê-lo continuar seguindo em frente.

“Você não parece muito bem.” disse Keith logo quando o irmão se sentou, grunhindo enquanto soltava lentamente o peso do corpo sobre a cadeira. Shiro abriu os olhos com as sobrancelhas franzidas, mas ele logo sorriu fraco.

“Eu poderia dizer o mesmo de você.”

Keith permitiu-se sorrir para o comentário. Ele puxou a mochila para ficar em sua frente e então, abriu seu zíper, puxando de dentro um saco de papel. Ele o deixou sobre um espaço livre na mesa de Shiro.

“Eu juro por Deus, Shiro. Vou mudar minha dieta para nada mais, nada menos do que Fonzies todo dia, toda hora.” comentou Keith, balançando a cabeça em desaprovação enquanto via Shiro alcançar o saco de papel com culpa. Ele parecia culpado daquela forma todas as vezes, mas sempre acabava esquecendo a droga da comida no final. “E bebendo Kool-Aid, para complementar.”

“É o seu funeral.” disse, dando de ombros. Keith o olhou com certa indignação, para o que Shiro riu, levantando as mãos em redenção. “Se você quiser comer isso pelos próximos dez anos da sua vida – porque é só isso que irá te restar –, fique á vontade. Mas depois que virar um salgadinho de queijo, não me culpe quando eu começar á te chamar de Fonzeith.”

Keith grunhiu em suas mãos, enterrando o rosto nas palmas. Ele conseguia ouvir Shiro rindo, parecendo orgulhoso de sua própria piada, e Keith queria morrer.

“Essa foi terrível. Honestamente- Você pode fazer melhor, cara.”

“Não sei, acho que essa foi ótima.”

Era peculiar como as preocupações de Keith pareceram se esvanecer apenas com uma conversa tão simples como aquela com Shiro. Por um momento, ele havia se esquecido completamente de um dos principais motivos de ele estar ali, além de trazer a comida de seu irmão que, para ser honesto, estava ficando velho cedo demais.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos e Shiro fazia o mesmo; ambos apenas aproveitando o momento sereno enquanto durava. Embora, a tranquilidade não podia durar. Keith desconfiava que Shiro também sabia disso.

“E então?” perguntou ele, em uma voz baixa e receosa. Ele não queria quebrar o momento pacífico com um assunto tão trágico. Mas ele também não queria continuar rindo enquanto Lance ainda estava perdido. “Alguma coisa?”

Shiro parecia saber exatamente do que ele falava apenas pelo modo como o clima mudou; parecendo mais obscuro. Uma sombra de frustração passou pelo rosto de Shiro, e foi naquele momento em que Keith soube que não havia como voltar atrás. Seu momento feliz com o irmão havia acabado.

“Encontramos a bicicleta dele.” respondeu Shiro. Suas palavras não combinavam com seu tom de voz impassível, mas Keith imaginou que fosse pelo fato de que eles não podiam começar á ter muitas expectativas ainda; boas ou ruins. “Entregamos hoje cedo para os McClain. Isso foi tudo.”

“Como eles estão?”

Era uma pergunta que esteve rodeando a mente de Keith naquele dia. Ele conhecia Lance desde o ensino fundamental – para ele era muito tempo; era como se eles se conhecessem desde sempre. Com isso, o fato de ter crescido com Lance sempre ao seu lado havia tornado sua ausência ainda mais insuportável. Aquilo fazia Keith imaginar como deveria estar sendo para sua família, que sempre fora muito unida ao seu ponto de vista e pelo que Lance costumava dizer.

O desaparecimento do rapaz deveria estar os matando aos poucos.

“Bom... Não estão tendo o melhor momento da vida deles, com certeza.” disse. “Isabel McClain apareceu outras vezes aqui desde que... Você sabe. Ela parece- Ela parece com uma mãe que perdeu um filho. Não sei mais o que te dizer.”

Ele não compreendia o tipo de dor que Isabel McClain devia estar sentindo, pois Keith não tinha filhos. Era novo demais até mesmo para começar á pensar em formar uma família, e de qualquer forma, estava feliz do jeito que sua família atual era (após tanto tempo). Embora, ele podia imaginar que deveria ser algo devastador, como se não houvesse mais chão onde se segurar, onde se estabilizar. Keith não conseguiria dizer como a mulher devia estar se sentindo, e ele nem tentaria fingir que sabia como era perder um filho, mas ele imaginava que deveria ser uma dor excruciante e inimaginável.

“Você viu os irmãos do Lance?” indagou Keith, resolvendo mudar de assunto. Ele lembrou-se de que Lance sempre dizia que apesar dos problemas usuais de irmãos, eles também sempre foram muito unidos. Deveria ser terrível para eles também.

“Sim, a Sra. McClain geralmente os traz com ela.” disse. Shiro balançou a cabeça. “O mais velho... Como é o nome dele, mesmo...?”

“Luís.” era estranho dizer o nome dele assim, Keith havia percebido. Ele não sabia dizer o porquê, apenas não parecia certo.

“Isso mesmo. Ele esteve aqui sozinho algumas vezes também. Acha que é culpa dele.” informou, e sua voz adquiriu um tom exausto que Keith reconhecia como aquele que Shiro usava após chegar á um beco sem saída em relação á alguém. Ele se perguntou se Shiro tivesse conversado bastante com Luís. “Preciso encontrar esse garoto. Jurei para essa família que faria isso.”

Ele olhou de um modo estranho para Keith, como se esperasse que ele dissesse algo relacionado. Keith imaginou que fosse porque Lance era um de seus amigos mais próximos, e ele ainda não havia falado com Shiro sobre como ele esteve se sentindo sobre tudo isso. Ele esperava que o irmão soubesse que a conversa não chegaria tão cedo.

“Nós vamos encontra-lo.” afirmou Keith, e Shiro pareceu intrigado pelo uso de pronomes, mas ele não disse nada. “Acho que vou visitar o Hunk. Ele está bem mal com tudo isso, mas acho que está tentando não mostrar. É estranho, ele nunca faz isso.”

“O sentimento deve ser muito forte.” sugeriu Shiro.

“É.” disse, e com isso, Keith havia passado os braços pelas alças da mochila de novo, se preparando para deixar a delegacia. “Te vejo depois, então. Acho que só vou voltar de noite.”

“Volte ‘pra casa antes das oito, tudo bem?” pediu Shiro. “O delegado está pensando em impor um toque de recolher. Só tivemos um... Desaparecimento, mas ainda assim, não podemos arriscar até sabermos o que aconteceu.”

Nada acontecia naquela cidade, e na primeira vez em décadas em que algo além de brigas entre vizinhos acontecia, a polícia estava agindo com rapidez para garantir a segurança de seus cidadãos. Keith não tinha muito que dizer contra o que estava sendo feito, então ele apenas assentiu para Shiro e deixou a delegacia.

Apesar de ter dito que iria para a casa do Hunk, Keith passou direto e seguiu até o ponto em que eles haviam encontrado a garota no dia anterior, debaixo da chuva. Ele seguiu empurrando a bicicleta até o ponto mais próximo que ele se lembrava de estar no escuro enquanto procurava por Lance. Então, quando encontrou nada mais do que árvores e pedras, ele decidiu deixar a bicicleta apoiada em um tronco para sentar-se no chão.

E então ele começou á desferir socos no chão e nas superfícies sólidas ao seu redor enquanto chorava até suas juntas começarem á sangrar e seus pensamentos se misturarem em tragédias.

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Notas Finais


link do wattpad - https://www.wattpad.com/story/148617223-under-a-paper-moon-%E2%9C%A7-klance

de novo, não tenho previsão para quando irei postar a segunda parte. nos meus planos, é pra que eu consiga terminar até o final de junho/julho, mas vamos ver.

espero que tenham gostado! estou amando escrever essa história, e espero que seja boa para outras pessoas lerem também!

até breve!


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