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História Universo em conflito - Capítulo 10


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Capítulo 10 - Divirta-se no fundo do poço


Comer das latas de lixo não era tão ruim. Pelo menos não chamava muita atenção. Se bem que comida quente era melhor. Um vendedor de churros passou não muito longe dali e o cheiro era bem convidativo. Chocolate ou doce de leite? Talvez os dois? Mas seu aspecto não estava nada bom e se chegasse perto, acabaria assustando o homem antes que ele pudesse rechear os churros.

Uma mulher se aproximou, disse algumas palavras e o vendedor lhe providenciou quatro churros, dois de chocolate e dois de doce de leite. Antes que pudesse entregar os doces e receber o pagamento, ele sentiu uma dor de cabeça muito forte que o fez cair no chão e se contorcer. A mulher não teve tempo para socorrê-lo e acabou desmaiando. O pacote ficou caído no chão e logo foi pego.

- Hum... ainda estão quentes! – e saiu andando e comendo, ignorando a pequena multidão que se formou ao redor do carrinho.

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Era o último dia de aula, dia de alegria para os alunos que iam ficar um mês livres daquele campo de concentração. Quando viu que DC tinha faltado, Cebola mal acreditou em tanta sorte e resolveu aproveitar para falar com a Mônica.

- Olha, o DC pode achar ruim da gente ficar conversando. Não quero arrumar confusão pra você.

Ele segurou uma careta. Se o DC tentasse fazer isso com a Mônica original, ia levar um chute forte o suficiente para fazê-lo dar a volta ao mundo três vezes.

- É que só queria fazer uma pergunta. – ele falou disfarçando o desagrado ao ver aquele duplo tão fraco e sem personalidade. – Ontem eu tava no centro e te vi entrando naquela organização com aquela mulher que todo mundo tem medo... só fiquei curioso.

- Você deve estar falando da Srta. Duister. Eu trabalho com ela como assistente.

- Ué... não tô entendendo... você nem precisa trabalhar!

O rosto dela entristeceu e ela encostou na parede, contando as razões daquele trabalho.

- Minha mãe quer que eu fique dócil e meiga de qualquer jeito, sabe? Eu já pedi várias vezes, mas ela nem me escuta!

O rapaz ficou surpreso, pois não imaginava que ela estivesse passando por tantas coisas em sua casa. Talvez fosse por isso que sua personalidade tão forte e independente estava sendo apagada.

- É... se sua mãe tá te obrigando aí fica complicado mesmo. E deve ser muito ruim trabalhar praquela tia caretona. Ela deve ser chata demais!

- Até que nem tanto. Ela me dá uns trabalhinhos sem importância, me manda comprar coisas, servir o café... de vez em quando me dá uns conselhos e só. 

- Engraçado, achei que ela fosse difícil demais porque o pessoal morre de medo dela.

- Aí é que tá! – a moça voltou a falar sentindo-se mais animada pela atenção dele. – Ela nem é brava, é até bem educada e tudo. Só que tem alguma coisa nela que dá um medo danado!

Eles conversaram mais um pouco e Cebola foi fazendo umas perguntas aqui e ali sem levantar suspeitas. Em determinado ponto da conversa, ela o surpreendeu ao dizer que o Tonhão estava trabalhando com o presidente da organização. Era muito difícil imaginar um Tonhão civilizado que não saia por aí quebrando os dentes dos outros.

- O Tonhão mudou tanto que quase não reconheci! Só que agora as pessoas o chamam de Antônio.

- Sério? Nem dá pra acreditar!

- Mas pode acreditar sim. Ele até me pediu desculpa pelo ano passado!

- Sério? Tempos estranhos...

O sinal tocou e eles foram para a sala de aula. Cebola ficou pensando no que a moça disse. Nada de suspeito ou que indicasse que eles poderiam ser responsáveis pelo desequilíbrio.

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Sentada à mesa da cozinha, Nena estudava seus antigos livros em busca de uma resposta. Nada. Aquelas palavras não faziam o menor sentido e às vezes ela sentia como se sua mente estivesse atolada em um lodaçal.

Lá fora o céu estava cada vez mais cinzento e as plantas perdiam a vida pouco a pouco. A terra parecia não ter mais condições de lhes fornecer alimento e a chuva que caía do céu não matava mais a sua sede. Era uma água estéril, sem vida, que apenas molhava e não refrescava.

Mas uma coisa lhe deixava inquieta: um sonho com Magali que vem se repetindo há várias noites. Era como se o bairro do Limoeiro a puxasse de forma irresistível e a mulher entendeu que sua sobrinha tinha que voltar para casa de qualquer jeito. Foi por isso que ela conversou com os pais dela para adiantar sua volta ao invés de esperar o fim do ano. Magali tinha uma missão importante e a hora estava chegando.

- Oi, tia, cheguei. O que foi? A senhora tá tão abatida... – Magali perguntou entrando na cozinha.

- Nada não, filha. Só as mesmas coisinhas de sempre. Como foi na escola?

- Tranqüilo, foi o último dia e muita gente faltou. Agora tô de férias. 

- Que bom! Seus pais devem chegar amanhã e vamos passar uma semana inteira juntos. Vai ser bom ter a casa cheia novamente!

- É... vai...

Ela percebeu que a sobrinha não estava exatamente animada.

- Você ainda está preocupada em voltar, não é?

- Estou, tia... acho que devia ficar até o fim do ano e...

- Não, de jeito nenhum! Seu lugar é com seus pais.

- Ué, a senhora não queria que eu ficasse?

Nena deu um abraço nela e falou com pesar.

- Mais do que tudo, acredite. Se pudesse escolher, ia querer você aqui comigo.

- Mas por que...

Ela a segurou pelos ombros e falou olhando-a em seus olhos.

- Magali, eu sei que é muito complicado, mas preciso que você confie em mim.

- Hã... eu confio...

- Você precisa voltar, é importante.

- Importante por quê?

- Você irá descobrir por si mesma. Quando eu puder, irei visitá-la para lhe dar mais detalhes. Por enquanto, apenas confie em mim e volte para casa. Há muita coisa em jogo.

- Tá bom... mas ainda não tô entendendo nada!

Nena a abraçou de novo, suspirando ao pensar no quanto a vida de sua sobrinha ia mudar nos próximos meses.  

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Quando o sinal tocou, Cebola correu para não se atrasar. Todos estavam felizes com as férias, exceto ele. Desde que chegou àquele mundo, ele passou a detestar fins de semana, feriados e mesmo as férias da escola porque significava mais tempo de trabalho escravo.

Ele estava tão distraído que não percebeu três rapazes suspeitos lhe seguindo discretamente.

- É aquele otário ali? – um deles perguntou.

- Sério mesmo que você precisa da nossa ajuda pra bater naquele mané? – o outro deu risada.

DC zangou-se.

- Aquele “mané” enfrentou a gangue da Magali no ano passado, esqueceu? A gente não pode facilitar com ele.

- Beleza então, mas e se ele nos dedurar?

- Vamos cobrir nossos rostos e ele não vai ter como provar que foi a gente. Qualé, vai ser divertido!

Os dois concordaram, pois queriam mesmo um pouco de diversão e espancar otários estava sempre no topo da sua lista. DC deu para cada um deles uma touca ninja e ficou com a terceira, só esperando uma oportunidade que logo chegou quando Cebola entrou numa rua deserta e sem movimento.

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Ela ia embora com as amigas quando percebeu DC e dois rapazes seguindo Cebola de forma suspeita. Anos andando com Magali e sua gangue lhe ensinou que aquilo não era nada bom. Droga, se o Cebola tivesse um celular, ela poderia avisá-lo. Como não podia fazer nada, ela resolveu segui-los à distância e chamar ajuda se fosse preciso.

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Cebola percebeu que havia pessoas andando atrás dele, mas achou que apenas estavam tomando o mesmo caminho e só viu que estava muito encrencado quando um sujeito encapuzado correu e parou na sua frente.

- Vai passando a grana maluco!

- Que grana, eu não tenho nada não! – ele falou dando um passo para trás e foi detido por dois sujeitos, cada um segurando em cada braço. O terceiro voltou a falar.

- Se não tem grana, então vai virar saco de pancada!

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Terra alternativa - vinte anos no futuro

Paradoxo via, com grande pesar, a atmosfera terrestre sendo incinerada começando nos pólos e indo em direção ao equador. Era desesperador ver as pessoas morrendo queimadas, toda a vegetação e vida animal sendo devastadas, tudo sendo aniquilado enquanto a atmosfera terrestre ia sendo consumida.

Ele já tinha visto esse fenômeno em outros mundos e sabia que era uma morte dolorosa, pois os pulmões eram queimados por dentro. Levava alguns minutos até criaturas carbonizadas caírem no chão.

Antes que tudo fosse consumido, ele viu um homem ajoelhado no chão com as mãos no rosto e chorando desesperadamente.

- Meu Deus, me perdoa! Eu não queria nada disso, não queria! Eu juro que não queria!

Mas era tarde demais. Encontrar aquele robô poderosíssimo nas ruínas de marte foi a pior coisa que poderia ter acontecido àquele planeta. O objetivo inicial era apenas científico, mas em pouco tempo ele se transformou em uma arma de guerra sem que Cebola, Franja e Astronauta pudessem fazer algo para evitar.

Quando conseguiram ativar e controlar o robô, Astronauta e Franja foram mortos sob circunstâncias misteriosas. Cebola escapou por um milagre e só pode assistir, impotente, pessoas gananciosas usarem o robô para subjugar exércitos e nações. O grande erro, no entanto, foi tentarem dominar outros mundos com tecnologia mais avançada.

E agora Paradoxo via o resultado de toda essa ganância: a Terra sendo fulminada pouco a pouco sem que ninguém pudesse fazer nada. Ele fechou os olhos para não ver o Cebola sendo consumido e percebeu que precisava fazer algo ou não haveria mais nenhum futuro para a Terra.

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Mesmo a voz sendo um tanto abafada por causa do capuz, Cebola soube quem era o agressor.

- Na boa, eu não tô afim de confusão... – ele falou tentando contemporizar.

- Mas eu tô, seu babaca. Segura ele, galera! – ele ordenou e desferiu um soco que acertou seu estômago em cheio, fazendo-o uivar de dor e dobrar o corpo. – Seu frouxo, você não é de nada! Cadê o grande herói que derrotou a Magali?

Os dois fizeram que Cebola levantasse e DC acertou seu rosto, fazendo sair sangue do seu nariz.

- Vou te arrebentar todinho, seu lesado! Você vai ver só uma coisa! – outro soco foi desferido e Cebola nem conseguiu gritar por causa da dor.

- Quebra os dentes dele, DC... ops... – um deles acabou falando demais.

- Seu burro! – o rapaz gritou. – Ah, tanto faz. Esse lesado não vai ter coragem de contar pra ninguém mesmo!

Ele se preparou para dar um terceiro soco quando ouviram alguém gritar.

- O que vocês estão fazendo? – um sujeito usando sobretudo com capuz cobrindo a cabeça correu na direção deles, deixando-os assustados.

- Sujou, vambora!

O trio deixou Cebola caído no chão e saiu correndo. O rapaz estava bem machucado e mal conseguia se levantar.

- Você tá bem? – perguntou ajudando-o a se levantar. – Espera, seu nariz está sangrando. Tome. – ele lhe deu um lenço que Cebola aceitou agradecido.

- Valeu, moço! Se você não tivesse chegado, eles teriam me arrebentado todo!

- Quer que eu te leve ao pronto-socorro? Você tá machucado.

Ele não pode aceitar a oferta, pois teve medo de faltar ao trabalho e ter problemas com Rosália. Ainda assim seu salvador quis lhe ajudar.

- Tome, deve dar para comprar curativos. Tem que por gelo rápido ou vai ficar roxo.

- Poxa, valeu mesmo! Obrigado!

Como não podia se atrasar, Cebola agradeceu mais uma vez e despediu-se. Sem que o rapaz visse, o desconhecido tirou o sobretudo e foi embora dali rapidamente deixando algumas penas negras de tamanho pequeno para trás. 

- O que aconteceu? – seu chefe perguntou quando ele chegou ao trabalho.

- Três caras tentaram me assaltar, mas como eu não tenho grana eles me deram uma surra.

- Minha nossa, está cada vez mais difícil andar tranquilamente por essas ruas. Mas por que você não foi a policia? – o rapaz deu de ombros.

- Não adianta mesmo, eles estavam encapuzados.

- Que seja. Vá botar um gelo nisso aí. Hoje a Cristina vai atender os clientes, você pode lavar os pratos e fazer a limpeza. 

O rapaz obedeceu sem falar nada e foi botar um gelo no rosto. Que sujeito mais desalmado aquele! Depois do que lhe aconteceu, o correto seria dispensá-lo do trabalho para que ele pudesse se recuperar. Mesmo assim ele procurou fazer tudo o que era mandado. Não havia outra alternativa.

Um ódio descomunal crescia dentro dele. Ódio do DC alternativo, que era o maior cretino que ele conhecia depois do Toni. Ódio do seu duplo que o colocou naquela roubada e especialmente ódio de paradoxo que permitiu que tal coisa acontecesse. E também ódio daquele mundo.

“Cansei disso aqui, não quero saber de mais nada! Essa porcaria de mundo que se exploda!” ele pensou com grande ressentimento por tudo. Pelo visto, a regra ali era as pessoas serem frias e egoístas. As almas generosas eram somente exceção. Não valia a pena lutar para salvar um mundo horrível como aquele. Dali por diante, ele ia cuidar só de si mesmo.

A única coisa que ainda o prendia era a esperança de ter a Monica de volta, mas do jeito que as coisas estavam ele sentiu que ia ficar se debatendo para resolver aquele problema pelo resto da vida e nunca mais ia vê-la. Talvez fosse melhor voltar para casa e resolver as coisas com ela de outro jeito sem a ajuda de Paradoxo. Não dava mais para continuar.

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DC e os dois rapazes davam muitas risadas.

- Cara, isso foi muito legal!

- Adrenalina pura!

- Pena que aquele cara apareceu. Eu queria ter dado um chute bem no meio das pernas dele! – DC lamentou. – Ah, deixa quieto. Depois eu faço isso.

- Vamos botar o terror naquele colégio! – os dois rapazes falaram ao mesmo tempo e DC aprovou a idéia. Era hora de mostrar para todo mundo quem mandava.

- Vocês conhecem mais alguém pra andar com a gente? Se tiver mais uns dois, aí sim ninguém nos segura!

- Eu conheço dois caras que vão gostar dessa idéia, mas a gente tá esquecendo daqueles inspetores. Eles vão cortar a nossa onda.

- Bah, vão nada! É só ter cuidado pra eles não pegarem e pronto. Qualquer coisa, meu tio protege a gente.

Mais risadas e a idéia foi aprovada com entusiasmo.

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Denise chegou em casa nervosa com tudo o que tinha visto. DC estava indo longe demais e ela começou a ficar com medo. E se aquele sujeito resolvesse virar a nova Magali do colégio? Enquanto ele estava sozinho não havia perigo, mas pelo visto ele estava reunindo alguns aliados e isso não era nada bom.

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- Creio que já dei minha palavra final. – o velho falou com aquela voz cavernosa e num tom de ameaça. – Limite-se apenas a dirigir o colégio do Limoeiro. Não pode ao menos fazer essa simples tarefa?

Ele ignorou o tom mordaz e continuou.

- O senhor sabe o que está acontecendo com o planeta e que a tendência é só piorar! Por que não voltar atrás só dessa vez? Pelo menos diminua a força...

- Eu não farei isso e você sabe muito bem das minhas razões! Continue insistindo nessa insanidade e sofrerá graves conseqüências. Esse assunto está encerrado.

“’Minhas razões’... velho arrogante!” o sujeito remoeu quando saiu da sala do seu superior. Aquele homem era tão teimoso e egocêntrico a ponto de condenar o mundo inteiro só por causa das “suas razões”? Ele não duvidava. O que mais lhe preocupava era aquele velho ser o único a saber como reverter aquilo. Ninguém mais na organização sabia.

E quando ele morresse? Então aquela crise não ia ser resolvida nunca. Arrepios gelados correram sua espinha quando pensou que ia passar o resto dos seus dias num planeta moribundo, com falta de água, comida e a população enlouquecendo cada vez mais.

“Eu devia fazer algo, qualquer coisa, mas o quê?” A não ser que aprendesse a ler pensamentos para entrar na cabeça daquele arrogante, não havia outra forma de resolver aquela crise. Ele guardava todo segredo e conhecimento muito bem. De fato, conhecimento era poder. Só que daquela vez, era poder de condenar a humanidade.  



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