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História Universo em conflito - Capítulo 36


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Capítulo 36 - Tudo é uma questão de equilíbrio


Penha escondeu seus cabelos da melhor forma que pode com um véu preto simples. A regra de obrigar as garotas a cortarem os cabelos ainda não tinha chegado à sua escola graças a Agnes, mas ela sabia que não ia dar para segurar por muito tempo.

- Isso incomoda muito! – resmungou ajeitando o véu. Estava calor e aquele tecido extra só piorava a situação. Já Sofia não precisava daquilo, bastando somente ter tingido os cabelos.

- Tem que usar, senão eles vêm e cortam seu cabelo. – A outra falou em voz baixa.

- Eu sei disso, assombração. Mas não aguento mais, isso é horrível!

Ela procurou não se importar com a grosseria da Penha, pois sabia que era seu jeito de ser. A amiga estava a salvo de ter os cabelos cortados e era isso que importava.

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- Que absurdo! Por que as garotas desse colégio ainda não tiveram os cabelos cortados? Isso é regra! – o velho feio de barba branca exclamou injuriado.

- A Srta. Duister disse que não era necessário porque a escola permite o uso do véu junto com o uniforme. – O diretor tentou explicar. – Elas têm a opção de usar o véu ou cortar os cabelos. A maioria prefere o véu e acho que é melhor assim porque ficam bem mais discretas. 

O velho fez um gesto impaciente.

- Elas podem fazer as duas coisas, não podem? Mulher nem devia ter cabelo nenhum, elas foram feitas pra cuidar da casa e dos filhos, não pra serem vistas!

- Seja como for, Sr. Malacai autorizou por escrito a opção pelo véu. Eu não posso passar por cima das ordens dele. 

Aquilo o fez bufar de contrariedade. Por mais que estivesse com raiva da Srta. Duister, ele não se atrevia a contrariar uma ordem do presidente da Vinha. A não ser que... Um plano foi surgindo em sua cabeça. Exigia tempo e paciência, mas podia valer a pena.

- Está certo então. – disse mais afável. – Se o Sr. Malacai permitiu, irei respeitar sua decisão. Ainda assim vou instruir os inspetores para ficar de olho. Se alguma aluna com cabelos fora das regras não estiver usando o véu, tomarei providências muito sérias!

- Sim senhor. Compreendo. – o diretor respondeu aliviado por aquela conversa ter acabado. Era pouco provável que as alunas fossem desobedecer as regras, então ele não ia ter problemas.

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Mônica e Cebola andavam pela praça, cada um com uma casquinha na mão. Ele se sentia um pouco estranho porque se lembrava de ter visto a mesma cena quando a Mônica original foi àquele mundo.

- Você vai mesmo tentar entrar no escritório do Sr. Malacai?

- Vou. O cofre deve estar lá e eu tenho que investigar de qualquer jeito.

- Não seria mais seguro ele deixar o cofre na casa dele? – Cebola balançou a cabeça.

- Pelo que eu... investiguei... – na verdade foi Paradoxo quem conseguiu essa informação. – o Sr. Malacai chega bem cedo e sai tarde da noite. Ele passa o dia inteiro lá e quase não sai.

- Credo, ele não faz mais nada na vida não?

- Pois é. Se ele passa a maior parte do tempo na organização, então é normal que prefira manter o cofre por lá mesmo onde pode ficar de olho. Sem falar que o lugar é muito bem guardado.

Os dois se sentaram num banco.

- E você vai tentar mesmo assim?

- Vou ver se dou um jeito. É difícil, mas não impossível.

Eles terminaram o sorvete em silêncio e o rapaz reparou em como ela tinha mudado desde que a viu pela primeira vez. Sua palidez deu lugar a uma pele corada e saudável. Ela ganhou um pouco mais de peso e seus músculos pareciam mais fortes e definidos. Até sua postura mudou, seu olhar e jeito de falar. Mônica não tentava mais ser a menina delicada e meiga que as pessoas esperavam dela e ele achava isso ótimo.

- Acho que eu devia ir com você. – ela falou.

- Tenho que passar desapercebido, quanto menos gente melhor. Fica tranqüila que eu dou um jeito.

- Mas toma cuidado, viu?

O dia estava relativamente bonito apesar do céu triste e desbotado. As plantas da praça pareciam malcuidadas e a grama tinha secado. Mesmo assim era muito agradável estar ali com ela. Ele sabia que aquela não era a Mônica original, mas seu coração parecia não entender. Para piorar, ela tinha o mesmo cheiro, que ele aspirava sempre que ela lhe abraçava ou dava um beijo no rosto ao cumprimentá-lo.

E como se isso não fosse difícil o bastante, Cebola percebeu que ela ainda gostava dele. Como resistir a tamanha tentação? Ele se sentia sozinho, carente e triste por ter perdido a Mônica original. E agora tinha outra Mônica que gostava dele, tanto que terminou com o idiota do DC por sua causa!

- Você tá tão calado... – ela falou suavemente olhando para ele com aqueles olhos castanhos que o hipnotizavam.

- Estou meio preocupado. – mentiu. – Se a coisa é tão grande quanto o diretor falou, fico com medo de não dar conta.

- A gente vai dar conta sim, seu bobo. Não se preocupe. Você não vai fazer isso sozinho.

- Puxa, valeu mesmo!

Ela entrelaçou seu braço no dele e apoiou a cabeça no seu ombro, fazendo o coração dele bater como um tambor. O rapaz engoliu ruidosamente, mordeu o lábio inferior, engoliu de novo e por fim fechou os olhos e apoiou sua cabeça na dela. Aquilo foi demais para resistir. A moça se aconchegou mais junto a ele e os dois ficaram ali, só aproveitando o momento de intimidade que eles não tinham há muito tempo.

O toque do celular da Mônica fez com que os dois dessem um sobressalto, como se estivessem em outro mundo e voltado bruscamente.

- É a Magali. Ela falou que a tia dela veio visitá-la e quer falar... com a gente? Não entendi!

- Acho que tô sacando. A tia dela manja dessas paradas sobrenaturais e acho que deve ter alguma coisa a dizer.

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Normalmente Lili não gostava quando Magali trazia os amigos para casa. Eram jovens mal encarados, parecidos com delinqüentes e deixavam uma bagunça enorme quando iam embora. Mas daquela vez era diferente e ela estava feliz ao ver que sua filha estava se tornando uma garota normal como as outras, ainda que lentamente. Ela colocou bolo e refrescos na mesa de centro da sala para os jovens e também tia Nena.

- Não está tão bom quanto os da senhora, mas...

- Tudo bem, Lili. Sei que deve estar delicioso!

- Vocês podem ficar à vontade. Eu preciso fazer algumas compras, mas não demoro.

Quando a mulher saiu, Nena resolveu ir direto ao assunto.

- Vocês passaram um perigo muito grande naquele dia! – ela falou se referindo ao incidente do porão. – Se aquela escuridão tivesse pego vocês...

- Então você acredita na gente? – Magali perguntou surpresa.

- Claro que sim, menina! Só falei daquele jeito no telefone porque tinha medo de que alguém estivesse ouvindo.

- A vinha tem muitas ramificações. – Cebola falou repetindo o que Boris tinha falado antes.

- Isso tá muito louco! Que parada é essa que tá rolando? – Cascão perguntou após se servir de bolo e refresco.

A mulher suspirou de tristeza.

- Tem a ver com um erro muito grave que alguém cometeu há muitos anos.

- Tá falando do tecido que separa esse mundo do espiritual? – Cebola interrompeu.

- Tecido, barreira, acho que o nome não importa muito.

- Que barreira, tia?

- Existe uma barreira que separa o mundo físico do mundo espiritual. Essa barreira impede que os dois mundos se misturem porque isso causaria um grande caos na Terra.

- Mas se essa barreira ficar forte demais, os dois mundos ficam totalmente separados e isso também não é bom.

- Exato. – ela concordou com o Cebola. – É do mundo espiritual de onde vêm os elementais que cuidam da terra, os bons espíritos que protegem as pessoas e a energia divina que alimenta o planeta e todos que habitam nele. Sem isso, a Terra está morrendo aos poucos.

Cebola abriu a boca e fechou de novo. Era por isso que tantas coisas ruins estavam acontecendo ao planeta. Como que lendo seus pensamentos, Nena continuou.

- O equilíbrio foi danificado. Sem os elementais para cuidar de tudo, o clima ficou descontrolado, a terra não tem mais nutrientes para alimentar as plantas, os animais quase não vingam. Dentro de pouco tempo, haverá fome no mundo inteiro.

Mônica ficou indignada.

- Por que alguém iria fazer uma coisa dessas? Isso tá prejudicando todo o planeta!

- Sr. Malacai achava que o mundo moderno estava um caos e resolveu mudar as coisas. – Cebola respondeu lembrando das informações que a Magali original tinha dado. – Só não entendo porque ele fez isso fortalecendo a barreira.

- Ele disse que o sobrenatural trazia caos e destruição ao planeta, por isso resolveu bloqueá-lo de vez.

- Mas agora tá avacalhando o planeta todo! – Cascão disse. – Que burro, dá zero pra ele!

Magali deu um pequeno soco no braço dele e falou para a tia.

- Ele não tá vendo que isso tá acabando com tudo? Por que não desfaz a barreira?

- A barreira não pode ser destruída, apenas restaurada ao seu equilíbrio.

- E como a gente faz isso? – Cebola foi direto à questão mais importante.

A velha senhora abaixou a cabeça.

- Venho tentando fazer isso a anos, mas com o fim do sobrenatural, minha magia também se foi. A minha e de todas as bruxas, feiticeiras, magos...

- Ué, a senhora tinha poderes de verdade? – Magali se surpreendeu, assim como Cascão e Mônica.

- Sim. Mas com a barreira tão forte, não tenho mais poderes. Muitas bruxas morreram por causa disso.

Cebola levantou-se e ficou andando de um lado para outro.

- Engraçado que a Agnes parece ter algum tipo de poder pra sugar as pessoas. E a Penha deixa todo mundo perto dela zangado e com vontade de quebrar tudo. Como elas conseguem driblar essa barreira?

- Do mesmo jeito que você, menino. Com a marca de IOR. – Nena apontou para o braço dele.

- Ué, por que elas têm poder e eu não?

- Isso eu não sei responder. – ela escondeu o rosto com as mãos e soluçou baixinho. – Muito do meu conhecimento foi herdado das bruxas que vieram antes de mim. Sem o sobrenatural, eu não tenho mais acesso a esse conhecimento. É tão horrível perder as memórias assim!

Ele entendia aquilo muito bem, pois estava passando por um problema parecido. Era preciso lutar todos os dias para se manter acordado naquela dimensão. A senhora procurou se recompor e enxugou as lágrimas.

- Talvez haja uma forma de reequilibrar a barreira se encontrarmos o local exato onde ela começou a ser alterada.

- Essa barreira deve ser enorme! – Cascão falou. – A gente vai ter que procurar nela toda? E como faz isso?

- Esse lugar deve ficar na tal da torre inversa, não é? – Magali disse, deixando Nena surpresa.

- Como vocês sabem da torre inversa?

- O Cebola falou pra gente. – Mônica respondeu. – Ele disse que os membros da Casa de Asclépio a construiu pra servir de passagem pros seres que vivem no universo inferior.

- Tipo um pessoal das trevas que viveu aqui na Terra e foi expulso. – Cascão completou.

A mulher ficou bastante desconfiada por aquele rapaz saber de tantas coisas. De onde ele tirou aquelas informações? Somente um bruxo ou alguém da casa de Asclépio poderia saber daquilo. Sem falar que a explicação que ele deu para ter adquirido aquela marca de IOR não a convenceu nem um pouco. Ainda assim ela decidiu não fazer perguntas por enquanto. Havia outras coisas importantes a tratar.

- Vocês sabem como chegar até a torre inversa?

- A Mônica conseguiu um mapa dos esgotos que mostra como chegar até a parte de baixo da instituição. De lá a gente acha a torre. Mas antes eu quero investigar uma coisa no escritório do Sr. Malacai. – Cebola tirou um papel do bolso e mostrou para Nena a combinação de um cofre.

- Você acha mesmo que tem algo importante ali?

- Acho, e alguma coisa me diz que preciso olhar ali primeiro.

- Se sua intuição lhe diz, então faça isso mesmo.

Eles conversaram mais um pouco, comeram bolo e quando Mônica, Cebola e Cascão estavam indo embora, Nena deu um abraço em cada um lhes parabenizando pela coragem de lutar contra algo tão poderoso para salvar o planeta. Quando foi abraçar o Cebola, ela colocou um pedaço de papel no bolso da sua calça sem que ninguém mais visse.

Assim que o rapaz chegou em casa, pode ler o bilhete e entendeu que ainda tinha mais coisas para falar com a tia Nena.

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Fazia quase uma hora que Denise estava de plantão em frente a sede da Vinha e nada de Toni aparecer. Será que o rapaz ficava preso lá dentro o dia inteiro? Que situação triste!

- Porcaria, não vou conseguir nada desse jeito! – ela resmungou andando de um lado para outro, mas decidiu esperar por mais um tempo.

Sua paciência foi recompensada quando ela o viu sair apressadamente com uma pasta debaixo do braço. Ela deu um grande sorriso e o seguiu por um tempo até tomar uma boa distância da Vinha.

O rapaz andou um quarteirão e entrou no banco. Provavelmente havia fila, o que lhe dava mais tempo para conversar com ele.

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Toni pegou a senha e deu um suspiro cansado ao ver que ia demorar para ser atendido. Ele até que não importava muito, pois era melhor ficar ali do que na presença desagradável do Sr. Malacai. O problema era que o velho parecia não entender o significado do termo “esperar na fila” e achava que o rapaz tinha que fazer tudo em poucos minutos.

Alguém cutucou seu ombro e ele se deparou, surpreso, com Denise toda sorridente com aquela cara atrevida.

- E aí, seu sumido? – ela perguntou com seu jeito debochado.

Primeiro ele ficou em choque, depois feliz em vê-la, em seguida quis lhe dar uma bronca por ter ido atrás dele e no fim acabou só perguntando.

- O que você tá fazendo aqui?

- Não tá dando pra falar com você no colégio.

- Eu acho que Sr. Malacai mandou os inspetores me vigiarem. Ele desconfia que eu andei abrindo a boca sobre o Manuel.

- Também queria saber como ele tá. A família dele não para de perguntar e eu tô sem saber o que fazer.

- Ele tá bem, não se preocupe. Já se recuperou e começou os estudos. Contanto que mantenha a boca fechada e a cabeça abaixada, ele não terá problemas.

A fila andou um pouco e Denise perguntou.

- Por que ele não foge e volta pra casa? Eles não podem tirá-lo de lá a força, podem?

- Acho que de certa forma, podem. Ele foi parar numa instituição para menores porque roubou um carro e bateu com ele num poste.

- Quê? – ela falou um pouco mais alto, atraindo olhares dos demais clientes.

- Fala baixo, sua tonta!

- Nhé! – ela mostrou a língua e Toni procurou ignorar sua infantilidade.

- Ele disse que foi uma aposta besta que fez com os amigos.

Pelo que Manuel tinha lhe falado, seus amigos apostaram que ele não seria capaz de roubar o carro de um vizinho e levá-los para dar uma volta. Ele pretendia devolver o carro depois, mas ainda não sabia dirigir muito bem e acabou causando um acidente. Então ele foi preso e levado para uma instituição para menores. Com isso, a Vinha acabou tomando-o sob custódia e ele nunca mais viu sua família.

- Que coisa! Tinham falado pro pai dele que ele fugiu!

- Não sabia disso. – ele falou surpreso. – Obviamente mentiram.

- É bem capaz de eles estarem fazendo a mesma coisa com muita gente.

Pensar assim lhe dava uma angústia muito grande e ele resolveu afastar aquele pensamento. Primeiro ele tinha que cuidar de Manuel, depois ver o resto. Finalmente ele foi atendido e após fazer o que tinha de fazer, foi embora junto com Denise.

- É melhor a gente ter cuidado, não podem nos ver juntos ou teremos problemas.

- Eu não tenho medo. – Ela deu de ombros. – Não tô cometendo crime nenhum. E nem você!

- Não é tão simples! Eles não gostam que os internos tenham contato com pessoas de fora. E podem te perseguir ainda mais no colégio também. Não quero que isso aconteça.

- Own, então você se preocupa comigo? Que fofo! 

O rosto dele ficou vermelho. Sim, aquilo era verdade, mas ele não ia admitir assim tão fácil.

 - Deixa de ser boba, só não quero saber de encrenca. Melhor você ir pra casa. E tente não vir atrás de mim que pode ser perigoso para você. Quando for possível, eu te procuro.

- Tá bom, fofo. Já vou, beijomeliga! – ela piscou um olho e saiu dali rebolando.

Toni ficou olhando até ela sumir no meio da multidão e voltou para a Vinha pensando em como era possível alguém ser tão irritante e adorável ao mesmo tempo.

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Ele saiu de trás do poste e observou enquanto o rapaz voltava para a sede da Vinha, depois olhou para aquela garota desavergonhada que se afastava rapidamente. Sr. Malacai ia saber daquilo com certeza.

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No dia seguinte, à tarde, Cebola acompanhava Nena levando algumas sacolas enquanto a senhora levava apenas sua bolsa. Quando terminou de fazer as compras que precisava, ela o levou para um pequeno restaurante para almoçar e pediu lasanha a bolonhesa para os dois.

- Acha que tem alguém vigiando a gente? – Ele perguntou mastigando a lasanha. Um tanto sem gosto, mas ajudava a matar a fome.

- Mesmo que estejam, eles não tem condições de ouvir o que falamos. Para todos os efeitos você só está me ajudando a fazer compras porque Magali tinha outro compromisso.

- Beleza. O que a senhora queria falar comigo?

Ela o olhou muito séria e disse.

- Respostas. Eu quero respostas. Como é que você sabe tanta coisa? De onde tirou essas informações?

- Ué, eu já falei que...

- Sei que está mentindo. Seus amigos podem ter acreditado, mas eu não. Se vamos mesmo trabalhar juntos para resolver essa crise, eu preciso que você seja sincero comigo.

O rapaz ficou olhando para ela com a boca aberta mostrando parte da lasanha meio mastigada. Aquela mulher o pegou desprevenido e ele não sabia o que fazer.

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Magali tinha ido estudar com a Mônica, pois Cascão foi fazer sabe-se lá o quê com Cascuda e não pode estudar com ela. Na volta, ela ia pensando no que as duas tinham conversado no outro dia. Será mesmo que ela deveria arriscar? Se ele sentisse o mesmo, tudo ia dar certo apesar do receio que tinha da reação da Cascuda. Mas e se ele só a visse como amiga? Então sua amizade ia por água abaixo.

“Droga, o que faço?” ela passou em frente a padaria do seu Quinzão e viu Quim trabalhando atendendo os clientes. O rapaz não a viu e ela seguiu direto. Seu coração já não doía por causa dele. Talvez nunca tivesse doído de verdade, provavelmente era dor da rejeição ou apenas apego às lembranças que tinha de quando eram crianças. De qualquer forma, ela já não pensava mais nele.

Há tempos Magali percebeu que estava sentindo algo diferente pelo Cascão, mas nunca parou para pensar naquilo realmente. Ela estava muito ocupada tentando se ajustar à escola, fazer as pazes com as meninas e também ajudando o Cebola a resolver aquela crise planetária. E Cascão sempre esteve do seu lado, lhe apoiando e ajudando.

A ajuda da Mônica e do Cebola foi importante sim, mas Magali não sabia se teria conseguido superar tudo sem Cascão lhe apoiando o tempo inteiro, conversando e incentivando. Ela não desmoronava porque sabia que ele também contava com ela e um apoiava o outro.

“E agora ele já pode estar namorando a Cascuda. Porcaria, eu dei bobeira mesmo!” seria tarde demais? E o que fazer com a Cascuda?

Bem... ela não tinha medo de que a moça fosse lhe agredir, pois era capaz de se defender muito bem. O problema era estragar o pouco que tinha conquistado com as meninas por causa de picuinhas. Por outro lado, ela não achava justo se privar de ficar com quem gostava por causa da opinião dos outros. Desde quando ela se importava com isso?

“Bah, que se dane!” – pensou decidida. Ela ainda não sabia o que fazer e nem como fazer, mas ia dar um jeito.

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Como não podia mais adiar, Cebola contou da melhor forma possível que tinha vindo de uma dimensão paralela enganado pelo seu duplo. Contou também que soube do desequilíbrio da Terra alternativa e que estava tentando resolver esse problema e também melhorar a vida do seu duplo para ter uma chance de voltar. Ele omitiu algumas coisas como o fato de ter vindo do mundo original imaginando que não ia ser bom ninguém daquele mundo saber disso. O efeito no seu duplo foi devastador.

Cebola também deu um jeito de não falar de Paradoxo, pelo menos não diretamente. Tirando essas restrições, ele também contou como tinha conseguido aquelas informações e de onde veio sua marca de IOR. Nena ouvia em silêncio, dando algumas garfadas no seu prato.

- Olha, se eu fosse contar tudo, a gente ia ficar horas aqui, mas acho que deu pra senhora entender, não é?

Vendo que a mulher só o olhava sem falar nada, ele deu de ombros exasperado.

- Eu falei que a senhora não ia acreditar.

Nena não sabia mesmo o que pensar. Por um lado, explicava muitas coisas. Por outro...era difícil acreditar que aquele rapaz tinha vindo de outro universo. Não que ela não acreditasse em universos paralelos, mas...

- Essa pessoa que te falou do desequilíbrio...

- Ele me pediu pra não falar dele pra ninguém. Já estou no fio da navalha. E ele também não tá podendo fazer muita coisa não, tô praticamente por conta própria mesmo.

- Certo.

Como sabia que eles não tinham muito tempo, Cebola resolveu ir direto ao assunto mais importante.

- A gente vai dar uma olhada debaixo da Vinha pra procurar a torre inversa, só que não sabemos como consertar a barreira.

- Tem um jeito sim, mas eu não quis falar na frente dos outros, especialmente da Magali.

Não foi difícil matar a charada.

- A Magali pode resolver isso com os poderes dela?

- Sim.

- Peraí, com a barreira tão forte, os poderes não vão funcionar.

Um garçom se aproximou perguntando se queriam mais alguma coisa. Nena pediu sobremesa para ambos, algo que ela sabia que ia levar tempo para preparar, e voltou a falar quando o rapaz se afastou.

- Há um dia no ano em que a barreira irá enfraquecer o suficiente para que a Magali tenha poderes para repará-la. – ele entendeu.

- É o dia das bruxas, não é?

- Isso mesmo. Felizmente o Sr. Malacai não conseguiu evitar que a barreira enfraquecesse nesse dia.

- Só que a Magali do meu mundo não sabe controlar os poderes dela. Acho que a daqui também não sabe. E se ela ficar descontrolada? A do meu mundo até desfez a trava mental.

- Inicialmente a barreira impedirá que uma quantidade muito grande de poder e conhecimento chegue a ela. Mas assim que o equilíbrio for restabelecido, você deverá dizer uma frase de bloqueio para que ela volte ao normal.

- “Pelo martelo e pela fogueira”, é essa?

A senhora sorriu. Aquele rapaz sabia mesmo de muitas coisas.

- Sim. Isso tem que ser feito rapidamente antes que ela saia do controle.

A sobremesa chegou e eles conversaram mais um pouco acertando outros detalhes do plano. Tia Nena não ia poder acompanhá-los, pois acabaria atrasando os jovens.

- Tem mais uma coisa. – ela falou quando eles terminaram a sobremesa. – A barreira ficará enfraquecida somente durante as 24h do dia trinta e um. Depois disso, ela voltará ao normal e vocês só poderão repará-la no ano que vem.

A conta chegou e eles foram embora antes que atraíssem suspeitas. Cebola foi para casa fazendo vários planos de como entrar no escritório do Sr. Malacai sem se encrencar todo. Nenhum parecia bom o suficiente. O jeito era esperar que Paradoxo voltasse com alguma forma de ajudá-lo.



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