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História Unleash - Capítulo 13


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Capítulo 13 - As consequências


Kevin não era nem um pouco impulsivo, não quando ele estava em seu estado mental normal como estava naquele momento. Após um ato de impulsividade, beijou os lábios rosados do albino. Para sua surpresa, Isaac não reagiu mal. Ao invés disso, sorriu e o beijou novamente. O mais novo não tinha experiência como o outro, apenas havia escutado outras crianças na escola falarem sobre como isso funcionava, mas tentou adentrar sua língua e recebeu uma resposta positiva. Ambos tocaram suas línguas dentro de suas bocas, envolvidos demais para notar quem os olhava da porta.

 

O coração de Hsiao doeu ao assistir aquela cena, seus sentimentos por Kevin eram muito fortes e vê-lo beijar outra pessoa foi muito doloroso. Não queria mais olhar, então silenciosamente saiu para chorar em sua cama até adormecer. Acordando no meio da noite quando todos já estavam dormindo, o rapaz se levantou e saiu, se sentando no mesmo lugar em que aqueles dois haviam se beijado mais cedo. Olhando com um olhar vazio para as luas, ele riu.

 

– Elas parecem seios tortos. – Ouviu uma risada. Era Kevin, ele conhecia muito bem a maneira com que sua risada saía de sua boca quase como um suspiro, como se ele estivesse sempre tentando o máximo para segurá-la. O rapaz estava parado na porta, olhando para ele. – O que você faz aqui?

 

– Pesadelo. E você?

 

– Depressão.

 

– Por quê? – Hsiao não respondeu, então Kevin apenas sentou ao seu lado e quando tentou abraçá-lo como sempre fazia nesse tipo de situação, foi empurrado violentamente.

 

– Não me toque!

 

– Desculpe… – Seu rosto entristeceu. Hsiao olhou para ele, desesperado. Dominado pelo pensamento de que havia feito besteira novamente, pulou sobre o colo de Kevin e o beijou com lascívia, rebolando como um cão no cio. – O que você tá fazendo?

 

– Eu te amo, então por favor me escolha.

 

– Do que você tá falando?

 

– Eu vi você e Isaac. – Rastejou, levando seu rosto à virilha do outro. – Eu vou te dar prazer, se você quiser. – Quando suas mãos tentaram tirar a calça do outro, Kevin as segurou para fazê-lo parar e o empurrou. Hsiao começou a chorar. – Por quê? Você não me quer?

 

– Não é bem assim, eu não posso fazer isso enquanto você está se sentindo dessa maneira.

 

– Mas você gosta de mim, não gosta?

 

– É claro que gosto.

 

– Então me escolhe.

 

– Eu… Eu não posso…

 

– Por quê? Você gosta mais dele?

 

– Eu não sei! – Kevin se encolheu, escondendo a cabeça entre seus joelhos. – Coisas como amor, pra mim é muito difícil de entender. Eu não sei como identificar, tenho medo que acabe não sendo isso e… – Ouviu o barulho de algo caindo. Olhando para frente, viu Hsiao tremendo em outra convulsão. – Hsiao?! – Tentou ajudar, tentou fazer os procedimentos que Borg havia feito antes, mas logo agora não conseguia lembrar de nada. Sua mente e nervos pareciam explodir. Ele estava em pânico. – Merda! O que foi que eu fiz?!

 

Por sorte, os dois Jasih na cabine superior já haviam acordado momentos atrás, ao ouvir a conversa dos dois. Eles correram para ajudar Hsiao e também Kevin, que estava se balançando em posição fetal. Gertrude, Hugh e o Peter ruivo também haviam acordado e saíram para ver o que estava acontecendo. Gertrude e Primula levaram Kevin para a sala de estar e os outros ficaram lá fora até que Hsiao parou de convulsionar, então Borg o levou para a cabine superior para vigiá-lo enquanto ainda estava inconsciente. Kevin já havia se acalmado e Primula voltou para a cabine.

 

– Ah, a juventude. – Ela disse. – Deveria ser bom vê-los se preocupando com esses assuntos pra variar, se não fossem por esses pequenos problemas.

 

– Isso é sério, amor.

 

– Eu sei. Emoções fortes são difíceis pra ele.

 

– Ele é jovem demais pra estar assim…

 

– Qual a idade dele mesmo?

 

– Dezoito. – Seus olhos se arregalaram.

 

– Dezoito…? Você disse que ele foi consorte recreativo por dois anos…

 

– Sim, desde que ele tinha dezesseis. Mas quando Voyc o comprou, ele já tinha dezoito.

 

– Ai Deus… Nós realmente precisamos trabalhar naquela lei.

 

– Os aliados da capital estão fazendo o melhor que podem, mas você sabe como é lutar contra os ricos e a realeza. – Hsiao se mexeu, acordando. Após um tempo olhando para o teto, começou a chorar. Primula se sentou ao seu lado e acariciou sua cabeça.

 

– Ele não me ama…

 

– Não, querido, tenho certeza que ama. Ele só está confuso, dê um tempo a ele.

 

– Mas ele beijou o Isaac mesmo sabendo o que eu sentia.

 

– Ah, então você já tinha se declarado antes?

 

– Eu o beijei antes de fugir.

 

– Oh. Pra ser sincera, querido, isso é difícil de considerar uma declaração. Podia ter sido um beijo de despedida ou agradecimento.

 

– Você acha que ele entendeu dessa forma?

 

– É bem provável. Ele é muito inteligente, mas parece ser meio lento quanto a sentimentos.

 

– Ele disse que pensa demais nas coisas…

 

– Muito racional. Acho que você deve dar um tempo pra ele processar.

 

– Tempo, é?

 

– Vamos tentar essa estratégia, se não funcionar a gente muda. Eu vou te ajudar.

 

– Obrigado, Primula. – Ele se sentou. – Vou voltar lá pra baixo.

 

– Ok. Tenha uma boa noite. – Hsiao foi para a cabine inferior e deitou em sua cama. Kevin, que estava na cama próxima à dele, segurou sua mão.

 

– Você tá se sentindo melhor? – Kevin sussurrou.

 

– Sim. Desculpa por ter feito aquilo.

 

– Tudo bem, eu…

 

– Não diga nada. – Hsiao beijou sua mão. – Apenas pense em mim.

 

– Eu vou. – Logo após isso, o Peter loiro andou entre  os dois, forçosamente separando suas mãos.

 

– Ele é…

 

– … sonâmbulo?

 

– Eu finalmente acordei, porra. Voltem a dormir, filhos da puta.

 

– Eita. Quem é você? – Kevin perguntou.

 

– Vai se foder. – Ele andou até a porta. – Meu nome é Lector. – Saiu.

 

– Esse é novo. – O Peter ruivo disse.

 

– Voltem a dormir, todos vocês. – Gertrude brigou.

 

– Vocês podem dormir, eu vou atrás dele. Não conheço esse, então não posso confiar nele andando por aí por conta própria. – Peter disse, se levantando. – Boa noite. – Ele saiu e começou a procurar pelo outro, mas foi fácil. As luzes do banheiro estavam acesas, então ele apenas entrou. Uma cabine estava fechada e ele podia ouvir o som de alguém urinando, então esperou perto da pia até que ele terminasse. – Lector, não é?

 

– Por que caralhos você me seguiu, você é um tarado ou algo assim?

 

– Eu só estou cuidando do Peter.

 

– Você só se importa com ele? Acha que somos apenas "outras pessoas" usando o corpo dele, só por que você conheceu ele assim? Deixa eu te contar uma coisa, o Peter que você conhece foi o último a aparecer. Esse corpo não é "dele", é "nosso" então não se preocupe, eu não sou burro.

 

– Oh… Isso é… Chocante, na verdade.

 

– Para de ser pretensioso, não somos a porra de um bebê que você tem que tomar conta, sabemos nos cuidar.

 

– Mas e quanto ao cachorro?

 

– Coloca ele numa coleira ou algo assim, eu não tô nem aí! – De repente, ele começou a chorar. – Para com isso, idiota! – Sussurrou para si mesmo, tentando segurar as lágrimas. – Esquece a coleira. Agora eu vou voltar e se eu acordar de novo e te ver cheio de frescura, juro que te meto a porrada. – Se encostou na parede e ficou lá por um tempo.

 

– Então…?

 

– Que?!

 

– Você não ia voltar pra cama?

 

– Quem disse essa merda?! Eu vou voltar pra dentro!

 

– E?

 

– Eu tô esperando, caralho!

 

– É assim que funciona?

 

– Porra! Essa merda nunca funciona do jeito que eu quero! – Ele voltou para o quarto. Peter o seguiu e logo todos já estavam dormindo novamente. Na manhã seguinte, o loiro acordou, ainda irritado com tudo. Ele andava pelo barco batendo portas e empurrando pessoas, e isso estava deixando todo mundo irritado.

 

– Você pode parar com isso?! – Gertrude brigou com ele.

 

– Parar com o que?!

 

– Por que você tá assim hoje?!

 

– Por quê?! Como eu vou saber?!

 

– Ainda é você, Lector? – O ruivo perguntou. O loiro ficou parado por um momento, pensando.

 

– Caralho! O que eu to fazendo aqui?! – Gertrude suspirou.

 

– Deixa pra lá, só… Não incomode as outras pessoas.

 

– É. – Peter disse. – Não tem problema em você ser você, desde que você trate todo mundo bem. – O rosto do loiro estava completamente vermelho, ainda franzindo a testa.

 

– Então me deixem em paz!

 

– Nós vamos.

 

Assim, todos voltaram para suas rotinas, mesmo com a atmosfera estranha à sua volta. Mas o loiro não foi o único a incomodar, Kevin estava quieto demais. Se fechando em seus pensamentos, ele acabou evitando todo mundo, incluindo Isaac e Hsiao. E assim ele ficou pelos próximos dias, Lector já não estava mais lá e Peter voltou, mas Kevin ainda estava pensando tanto que começou a ter dores de cabeça, até que ele decidiu se distrair.

 

Começou a dar aulas para as crianças e também para Hugh, que não sabia ler, e assim pôde ocupar sua mente com coisas objetivas. Sua eficiência na pescaria também aumentou, mas todos estavam preocupados, não apenas com ele como também com os outros doi rapazes que começaram a ficar deprimidos por serem evitados.

 

– Leon, posso falar com você? – Isaac perguntou, se aproximando de seu irmão.

 

– Claro. Você tá meio chateado ultimamente, o que houve?

 

– Como é o amor? Como isso funciona?

 

– Oh… Você tá gostando de alguém?

 

– Eu não sei.

 

– Bem, os sentimentos de cada um sobre o amor são diferentes, mas pra mim é quando eu fico feliz sempre que vejo o rosto da pessoa que amo. Meu coração bate mais forte e eu quero ficar perto dessa pessoa o tempo todo. – Isaac pensou um pouco sobre isso. Não era como se ele quisesse ficar ao lado de Kevin o tempo todo, mas ficaria feliz se pudesse. Também se sentia feliz ao ver seu rosto e seu coração batia mais rápido às vezes, especialmente quando se beijaram.

 

– Se alguém te beijar, significa que essa pessoa gosta de você?

 

– Beijar?

 

– Sim, na boca. Usando a língua.

 

– Acredito que exista quem consiga beijar sem gostar, mas… Acho que depende da pessoa e da situação. Eu não acho que consigo, por exemplo.

 

– Ah…

 

– Você foi beijado por alguém, não foi? – Isaac corou.

 

– Não, não foi bem isso! – Gaguejou.

 

– Ah, foi sim! Quem? Espera! Foi o Kevin? – Isaac corou mais ainda. – Bingo! Só podia ser o Kevin ou o Hsiao mesmo.

 

– Você considerou o Hsiao?!

 

– Claro, vocês três tem ficado muito próximos! – Isaac ficou muito envergonhado com as palavras de seu irmão. Hsiao, por outro lado, não estava ouvindo. Ele estava na cabine superior com Primula e Borg.

 

– Quanto tempo mais eu tenho que esperar? Não aguento mais isso! – Chorou. – Ele nem conversa mais comigo!

 

– Eu também acho que isso não tá indo a lugar nenhum. – Primula disse. – Ele parece ter se cansado de pensar e começou a se distrair, não parece que ele vai dar nenhum passo se não dermos um empurrãozinho.

 

– Então eu vou fazer isso!

 

– Você não, tem que ser alguém de fora. Eu posso tentar…

 

– Não acho que essa é a melhor forma. – Borg interrompeu, da cabine de comando. Outro barco havia acabado de pegar os peixes e trazer suprimentos e eles já estavam se movendo novamente, após três dias ancorados em um só lugar. – Se ele continuar assim, quando for pressionado a tomar uma decisão, pode acabar fazendo só por pressão e não por realmente ter pensado.

 

– Mas ele não tá mais pensando… – Hsiao reclamou.

 

– A gente induz ele.

 

– Que excitante. – Primula disse. – Isso está se tornando um romance adolescente.

 

– Não. – Borg falou, parando o barco. – Nossos problemas não acabaram. Primula, esconda tudo da OL embaixo do chão do banheiro e me traga os falsos documentos. Hsiao, se ajeite e chame todos para a sala de estar. A fiscalização marítima chegou. – Ele correu para ancorar o barco e foi para a sala de estar. Todos já estavam lá, até as crianças. – Chamei todos vocês aqui pois vamos encontrar com pessoas que não sabem o verdadeiro propósito desse barco, eles vão avaliar tudo e se descobrirem alguma coisa, estamos ferrados. Por isso, precisamos que vocês finjam ser servos. Até eles irem embora eu não sou mais seu amigo, sou seu mestre. Vocês conseguem fazer isso?

 

– Sim, senhor!

 

– Podem fazer isso, crianças? Vocês lembram de como agir como servos?

 

– É só fingir, né? – Igor perguntou.

 

– Sim, mas finjam bem.

 

– Vocês ouviram ele, finjam bem. – O mais velho entre as crianças os instruiu.

 

– E você, Peter? – Borg olhou para o loiro. – Você lembra da sua vida como servo?

 

– Ele não lembra. – Respondeu, sério. – Mas eu, Haven, lembro.

 

– Mas eu vou ter que te chamar de Peter.

 

– Sim, senhor. Isso não será um problema.

 

– Certo, então se alinhem todos no deck! Isaac, fique ao meu lado como meu mordomo e Peter ruivo, ao lado de Primula como o dela. – Assim o fizeram. O outro barco se aproximou do deles e parou ao seu lado. – Hugh, coloque a ponte.

 

– Sim, sinhô. – O fez, e logo um trio de homens Jasih entraram no barco junto com seus mordomos e dois seguranças.

 

– Senhor…? – Um deles, o mais alto com seis olhos completamente negros que estava parado no meio, falou.

 

– Hadueh. Borg Hadueh. E esta é minha namorada, Primula Gueryr.

 

– Sua namorada? Isso é um barco de pesca ou não?

 

– É, sim. Ela me ajuda a olhar os servos, temos três crianças e eu, como um capitão responsável, não posso perder meu tempo com elas.

 

– Hm… – O homem não disse nada por um instante. Ninguém sabia exatamente para onde ele estava olhando, mas todos se sentiram observados. Ele segurou o rosto de Isaac, analisando-o. – Esse é seu mordomo?

 

– Sim.

 

– Por que ele não está vestido de acordo?

 

– O clima fica muito quente durante essa época do ano, em mar aberto é pior ainda. Quero que meus servos fiquem confortáveis para que sejam mais eficientes. Além disso, não tem ninguém para ver. Em terra ele se veste de acordo, mas longe da sociedade não tem necessidade disso.

 

– Pode ser que você tenha razão. Me dê seus documentos.

 

– Aqui estão. – Borg o entregou uma pilha de papéis e ele leu todos, mas parou, checando dois deles.

 

– Dois servos com o mesmo nome?

 

– Um deles é o mordomo da minha namorada. Se você olhar bem, vai ver a assinatura dela.

 

– Ah, verdade. – Ele devolveu os papéis a Borg. – Comecem a inspeção. – Os dois Jasih e seus respectivos servos começaram a inspecionar o barco, se dividindo entre as cabines e a parte inferior, onde o freezer e o motor ficavam. Os que foram para o freezer logo voltaram.

 

– Tem equipamento de pesca, mas nenhum peixe.

 

– É porque acabamos de despachar um carregamento. – Borg disse, entregando um papel ao homem mais alto. – Aqui está a nota fiscal. – O homem a analizou.

 

– Ok. Continuem. – Os outros dois desceram novamente. Um pouco depois, o servo que estava na cabine inferior veio correndo, cautelosamente segurando uma arma.

 

– Senhor, encontrei isto no dormitório dos servos.

 

– Ah. – Borg disse, pegando a arma. – É do meu segurança.

 

– Quem? – O Jasih mais alto perguntou.

 

– Peter. O loiro. – O homem riu.

 

– Aquele magrelo afeminado? Mesmo sendo alto, ele parece um mordomo.

 

– O que importa é a eficiência. – Borg disse.

 

– Por que ele não está com a arma?

 

– Por que você não está com a arma, Peter?

 

– Desculpe, senhor. – O loiro respondeu. – Foi uma negligência minha.

 

– Negligência? – O homem disse. – Isso merece punição. O que você faz? Me mostre. – Borg olhou para ele, desprezando aquele sorriso sádico. Mas ele tinha que disfarçar, ou poderiam ser descobertos.

 

– Eu vou deixar ele sem comer. – Peter estremeceu. – É a forma mais eficiente.

 

– Sem comer? É isso que você faz? Mas por que ele tem tantas cicatrizes? Não só ele, mas esses dois e aquela garotinha ali, especialmente. – Ele se referiu a Hugh, Hsiao e Kacey. – Eles tem cicatrizes demais para humanos cuja punição é apenas passar fome. Me mostre seus métodos verdadeiros.

 

– Eles estão no passado. – Borg disse. – Dava muito trabalho cuidar de machucados no meio do oceano, gasta muitos recursos. Deixá-los com fome até ajuda nisso, economiza comida.

 

– É mesmo…?

 

– Sim. Eu vou deixar ele com fome até que me implore para comer. – Aquela frase foi o suficiente para fazer o loiro se ajoelhar. Ele se rastejou até os pés de Borg.

 

– Por favor, mestre, tudo menos isso. Não me deixe passar fome, por favor. Eu faço o que você quiser mas não faça isso comigo, eu imploro. – O loiro começou a lamber as botas de Borg enquanto este observava, espantado. – Por favor, eu imploro. – O homem de olhos negros riu ao ver aquela cena.

 

– Achei que você fosse um daqueles abolicionistas que vem traficando humanos para Barilla, mas ao ver isso, ficou claro que não. – Ele assobiou e todos os outros que estavam inspecionando o barco foram até ele. – Vamos embora. – Assim que eles voltaram para o barco e Hugh tirou a ponte, zarparam. Borg observou o barco se afastando e olhou para Peter quando já estavam longe o suficiente. O rapaz ainda estava lambendo suas botas.

 

– Foi uma boa atuação, desculpe por te fazer passar por isso mas você pode parar agora. – Mas ele não parou. Continuou ajoelhado, e segurou as mãos do Jasih para beijá-las. Borg recuou. – Haven?

 

– Quem? – O loiro olhou para ele, confuso, então surpreso, e se arrastou para longe. – Você não é o meu mestre! Quem é você?! – Ele olhou em volta. – Onde eu estou?!

 

– Peter? – Borg chamou.

 

– Como você sabe o meu nome?! Onde está o meu mestre?!

 

– Se acalme, você está seguro. – O outro Peter disse, se aproximando dele.

 

– Não! – Ele chorou. – Eu preciso voltar pra casa ou o mestre vai me punir! Ele vai me colocar pra dormir com o Luther de novo, eu preciso voltar! – Peter o abraçou. – Eu preciso voltar, eu preciso voltar…

 

– Tá tudo bem, ninguém vai fazer isso contigo nunca mais.

 

– Eu quero a minha mãe!

 

– Eu vou chamar ela. – Ele olhou para Gertrude. Ela entendeu e se aproximou deles.

 

– Mamãe está aqui. Tá tudo bem agora, Peter.

 

– Você não é minha mãe! – Ele gritou.

 

– Como é a sua mãe? – O ruivo perguntou. – Eu vou achar ela pra você.

 

– Minha mãe… Ela… Ela tem pelo caramelo, curto. O rabo dela foi cortado mas ela é muito bonita… Ela sempre late pro Luther quando ele me trata mal. – Gertrude e Peter se encararam. Eles perceberam com aquelas palavras, sua "mãe" era um cachorro. Kacey, que estava meio chocada, teve uma ideia. A garota ficou de quatro e começou a latir.

 

– Kacey! – Gertrude brigou.

 

– Mamãe!

 

O loiro pulou nela, chorando. Todos olharam aquela cena, chocados. Isaac, que por muito tempo não via motivos para isso, começou a chorar. O Peter ruivo também, fungando enquanto secava suas lágrimas. Primula não conseguia olhar, ela apenas abraçava Borg e era confortada pelas suas mãos.

 

Logo todos estavam chorando, doía saber que a figura materna de alguém era um cão. Explicava muito, e era melhor do que alguns deles que não tinha nenhuma, mas muito doloroso saber que era resultado de punição. O loiro se acalmou e se levantou de repente, olhando para todos à sua volta e então para Kacey.

 

– Tá tudo bem, é Haven agora. – Ela disse. – Desculpa por ter feito isso, mas obrigado. Você nos ajudou a colocar ele pra dormir de novo. – Kacey sorriu, mesmo chorando. Gertrude se aproximou da pequena, a abraçando.

 

– Você fez bem, querida. Você fez bem. – Depois que todos se dispersaram, Borg foi puxar a âncora e continuou a navegar, e todos voltaram para as cabines. Hugh parou o Peter ruivo antes deles se aproximarem da cabine inferior.

 

– Aquele cão que ele falô...

 

– Sim, eu pensei o mesmo. É o cadáver que encontramos com ele na selva. Também me pergunto quem é Luther e o que ele fez com o Peter...

 

– Cadáver? – Gertrude perguntou, se aproximando deles. – Me expliquem isso.

 

– Quando achamo ele, ele tava dormino em cima de um cachorro morto.

 

– Já estava em decomposição e partes estavam faltando, como se tivesse sido comido. Pensamos que Peter também estivesse morto porque ele era só pele e osso e estava coberto de sangue, mas quando nos aproximamos ele tentou nos morder. Foi aí que conhecemos o cachorro pela primeira vez.

 

– É, a única fora de tempestade. A gente levamo ele pra cabana na selva e o cara da OL que tava ajudano a gente achou as informação dele. O nome, o mestre, essas coisa. Não foi difícil pruque ele tava sendo percurado. No dia seguinte ele já tava igual o Peter que a gente conhece.

 

– O mestre dele era uma pessoa importante, então tivemos que vir pro barco do Borg mais cedo por causa disso. Aquela cabana não era muito longe da capital, sabe? Fácil de achar quando você tá realmente procurando, ainda mais tendo recursos.

 

– Entendi. – Ela suspirou . – Nosso mestre era meio estrito, mas algo a esse ponto… Não consigo nem imaginar o quanto ele sofreu.

 

– Todos nós sofremos. Mas ele e aquele garoto, Hsiao, acho que pra eles foi bem pior. Eu realmente quero lutar para que nenhum humano tenha que passar por isso.

 

– Eu também. – Gertrude disse.

 

– Nós vai. Quero soltá meus colega da fazenda tamém, e os de outras fazenda pelo mundo. – Os três se juntaram em um abraço. Hsiao estava passando e notou, algo que ele não esperava ver.

 

– O que vocês tão fazendo? – Ele perguntou.

 

– Só conversano. – Hsiao olhou para eles, mas decidiu ignorar e ir fazer o que pretendia. Ele foi para a cabine superior e bateu na porta.

 

– Entra! – Primula gritou lá de dentro e ele entrou. – Hsiao? O que houve?

 

– Eu estava pensando… Eu tô me preocupando com coisas bobas.

 

– Como assim?

 

– Acho que depois de estar aqui por um tempo, eu esqueci como o mundo é lá fora. Eu não deveria estar me preocupando com amor e coisas do tipo, eu sei como é ser torturado a esse ponto e eu deveria estar focando em lutar contra isso. – Primula sorriu para ele.

 

– Querido, sente aqui. – Ele obedeceu, sentando-se na cama ao seu lado. Ela segurou suas mãos. – Você não precisa se culpar por estar se preocupando com os seus sentimentos, você passou por muita coisa e agora é hora de relaxar um pouco e aproveitar a vida que não pôde ter antes. Não tem nada que você possa fazer pelos outros até chegarmos a Barilla e mesmo assim, não desista do seu amor por causa disso.

 

– Mas é meio estúpido comparado com tudo.

 

– Não é estúpido. Olha pra mim, se eu tivesse desistido do meu amor por Borg, eu não estaria aqui agora. Nem Kevin, nem Isaac e sua família. O amor pode te fazer mais forte, ainda mais se vocês tem as mesmas coisas em mente. Vocês não precisam ser iguais, mas quando ambos lutam pela mesma causa o amor pode florescer lindamente. E eu tenho certeza de que todos vocês tem a mesma linha de pensamento, todos passaram por coisas similares  e estão dispostos a mudar isso, mesmo que por caminhos diferentes. Eu falei com Kevin e ele quer ser professor. Ele tem ensinado Hugh a ler e tem continuado a educação das crianças, sabia disso?

 

– Não, eu não sabia… É por isso que ele tem ficado mais tempo aqui em cima ultimamente…

 

– Sim. Imagine isso, um professor humano. Quase não existem. Quanto mais vocês ganham conhecimento, mais serão capazes de lutar por si mesmos, isso é uma forma de ajudar.

 

– Eu quero acabar com os bordéis.

 

– Isaac disse a mesma coisa.

 

– Isaac?!

 

– Sim, acho que isso foi algo que realmente chocou ele. Mas infelizmente, "acabar com os bordéis" da forma que o mundo é agora é quase impossível. O mínimo que você pode fazer é ajudar as pessoas que estão lá, seja ajudando-as a sair ou propondo leis para melhorar suas vidas.

 

– Propor leis…

 

– Mas você não precisa pensar nisso agora, temos tempo até chegar a Barilla. Quanto tempo, amor? – Ela perguntou a Borg.

 

– Um pouco menos que um mês. Deveríamos estar saindo daquela praia daqui a dez dias, mas tivemos que sair mais cedo. Nossos mariscos também não foram suficientes por causa disso, então… Venham aqui. – Os dois foram para a cabine de controle. – Tão vendo aquela ilha? – Ele apontou, mostrando uma pequena ilha logo à frente. – Vamos ficar ancorados lá por quinze dias.



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