1. Spirit Fanfics >
  2. Unnamed >
  3. O demônio do passado e o fantasma do futuro

História Unnamed - Capítulo 14


Escrita por: mariedu453

Notas do Autor


Olha só quem resolveu dar as caras depois de quase um ano,sim,euzinha.Bem,eu fiquei um tempão escrevendo esse capítulo e foi muito divertido.

Espero que gostem❤

Capítulo 14 - O demônio do passado e o fantasma do futuro


Pov Eren

Já estava na estrada a um dia e meio,o tempo que me fora estipulado para chegar ao porto, no entanto tinha acabado de entrar na floresta de transição.O nome já dizia tudo realmente,ali existiam tanto árvores secas e esparsas,quanto grupos de árvores úmidas,no chão já começava a aparecer o famoso aleija-tonto,que não era nada mais que um musgo extremamente escorregadio,mais um obstáculo a ser evitado.

Suspirei,não me incomodando em não parecer derrotado,afinal a estrada,se é que você pode chamar isso de estrada,estava deserta.Um ponto positivo já que era extremamente satisfatório viajar sozinho,por pequenos trajetos pelo menos.

Seria ainda mais prazeroso se os insetos me dessem um pouco de sossego,pois além de incontáveis picadas e coceira incontrolável também tinha as coxas esfoladas por cavalgar demais.E por mais que me doesse admitir,estava claramente atrasado.Nesse ritmo a viagem duraria dois dias ou mais,e agora que já me encontrava atrasado não tinha muita pressa em me adiantar.

Levando tudo no meu próprio ritmo,mas ainda ciente do problema dos insetos resolvi procurar um repelente natural.Na correria não tive tempo de pegar um e era impossível achar alguma coisa entre a vegetação morta,mas agora que era possível ver alguma vida isso era uma prioridade.

Um pouco mais a frente avistei uma mata que parecia promissora,desci do meu cavalo e entrei cuidadosamente por entre as folhas,galhos e vegetação rasteira.Olhava esperançoso a procura de alfazema,alecrim,citronela ou boldo,mas não vi nada além de flores puídas e frutinhas tóxicas,pelo menos pareciam,o tom de vermelho delas gritava veneno e eu sinceramente não queria descobrir.Ponderei minha situação e resolvi avançar mais um pouco,pois sabia que seria uma noite infernal se não conseguisse nada.

Ainda mantendo um ritmo cuidadoso e lento cheguei em uma área com menos árvores e algumas flores do campo,junto com elas um pouco de alecrim selvagem.O fato de que eu não seria comido vivo aquela noite me encheu de alegria,e um sorriso enorme se espalhou pelo meu rosto antes mesmo que eu percebesse.

Enquanto colhia o alecrim,meus ouvidos acostumados com o habitual silêncio,captaram o farfalhar de algumas folhas e depois de uma rápida procura avistei a fonte do barulho.Era um pequeno coelho branco.

Apenas a possibilidade de comer alguma coisa que não fosse carne seca me fazia salivar,estava decidido a pegar aquele coelho.Me abaixei e segui furtivamente até a base da arvore em que ele estava,porém momentos antes de pegá-lo,acidentalmente pisei em um galho e o espantei.

Segui seu trajeto frenético com os olhos,decidindo que era uma questão de honra jantar aquele coelho.Ainda no modo furtivo,já que infelizmente não tinha trazido meu arco,segui o pequeno pilantra.Ele estava dentro de um tronco meio apodrecido,cercado por capim dourado,esgueirei-me até lá e me preparei para a emboscada,ele não poderia escapar,não fechado por um lado e encurralado por outro.Já sorria com a iminente vitoria. 

Meu cerco durou apenas alguns momentos,pois assim que a criaturinha me notou tentou fugir pelo lado bloqueado,mas logo percebendo seu erro resolveu sair para fora em uma tentativa de fuga relâmpago.

Abri os braços tão rápido quanto pude e os fechei na mesma velocidade,tentando pega-lo.No calor do momento tinha fechado os olhos e esperava encontrar o coelho quando os abrisse,mas tudo o que vi foi o animal atravessado por uma flecha a um ou dois metros de mim.Quem quer que fosse era inexperiente ou sádico,pois o animal ainda vivo se debatia na crescente poça escarlate de sua própria vida,a cor doentia se espalhando por seus pelos nevados e lhe tirando o brilho dos olhos.

Me levantei devagar,ainda escondido pelo capim tentei ter um vislumbre de quem era,o mais discretamente possível,afinal não sabia de quem se tratava e muito menos de sua índole.A no máximo vinte metros de mim estava uma garota de cabelos negros,meio escondida atrás de uma rocha,ela me parecia estranhamente familiar e nem um pouco hostil,pelo contrário,parecia nervosa com a situação,reforçando a questão da inexperiência.

Ela se endireitou e seguiu hesitante até a sua caça,mas a medida que se aproximava ficou claro para mim quem era a garota,esperei que ela se aproximasse mais e saí da moita para confronta-la.

-Alteza.Disse firme,me curvando em um tom irônico.

Ela se assustou,instintivamente apontando uma faca em minha direção mas a abaixando,depois de me encarar por alguns momentos.Seus olhos naturalmente grandes se tornaram enormes e ela correu como se sua vida dependesse disso.

Ela se enfiou na mata e eu me pus a correr também,no início ela tinha uma grande vantagem mas depois de tropeçar e se levantar a cavacos pude me aproximar mais,a medida que os minutos passavam adentravamos ainda mais na floresta,tinha os pulmões ardendo como o inferno,meu corpo todo esfolado por bater em galhos secos e as pernas já vacilantes ameaçando me trair.Mas mesmo assim não podia me dar ao luxo de desistir.

Na segunda queda consegui alcança-la,e a agarrei pelo braço para que não escapasse,a possibilidade de outra perseguição fazia meu corpo gritar.

-Me solta!Exclamou ofegante,tentando me agredir.

-Não antes de conversarmos.O silêncio foi tão intenso por alguns momentos que podia escutar toda a vida presente naquele local,jorrando como uma cascata por dentre as pedras.Ela ponderou e por fim decidiu falar comigo.

-Está bem...Eren.

Fiquei chocado por alguns instantes,tinhamos nos conhecido de vista mas não esperava que ela soubesse o meu nome.

-Por que fugiu?Comecei pela pergunta mais óbvia e ela me olhou e suspirou cansada.

-Eu não aguentava mais,não quero me casar,desde que eu nasci outras pessoas tem tomado todas as decisões por mim,dizem que eu tenho que ser uma pessoa que eu não sou,eu quero liberdade,tomar as minhas próprias decisões e ser quem eu realmente sou.Disse com um olhar determinado.

-Você não é a única que não tem essa escolha,Erwin não tem,Marco,Jean e os outros também não,é egoísmo sumir desse jeito sabendo que isso coloca a vida das pessoas em risco.Retruquei com certa indignação.

-Não sou como eles,não consigo viver presa desse jeito,eu só quero seguir a minha vocação e ajudar as pessoas.Sei que é egoísta,mas todo mundo tem o direito de ser egoísta as vezes.E você,nunca se sentiu preso?Nunca quis explorar o mundo?Perguntou em um tom acusador,como se já soubesse a resposta.

-Bem,já.É por isso que eu sempre quis ir para concórdia,um novo começo,longe de minhas amarras.Respondi hesitante,me sentia vulnerável.-Mas não coloco ninguém em perigo fazendo isso.Completei.

-Não vejo porque essa decisão não se aplica a mim,é hipocrisia me julgar pela mesma coisa que você fez.Ela tinha rugas de irritação quando terminou.

-É diferente,vocês nobres vivem uma vida cercada de luxo,mandam e desmandam em todos,condenam as pessoas decidindo se elas vivem ou morrem como se fossem deuses,e a única coisa que vocês não tem controle é com quem se casam,parece "justo" para mim.

-Ah,é disso que se trata,rancor,eu não escolhi nascer nessa posição,e além do mais você não é um camponês Eren,você também teve privilégios,talvez não tanto quanto um nobre,mas teve.Ela segurava sua capa cinzenta com nervosismo.

-Não se trata só de privilégios,eu tive que aguentar calado todas as agressões físicas e verbais possíveis,uma pior que a outra e agir como se estivesse agradecido,o que você sabe sobre isso princesa?Aposto que nada.Minha voz era marcada por desprezo.

-A minha vida não foi um mar de rosas como você pensa,coloque-se no meu lugar,já se imaginou casando com um desconhecido?

-O Príncipe Erwin é bom,as pessoas sempre dizem que o amor vem com o tempo,não me importaria em casar com alguém de igual caráter.Tentei entoar com convicção.

-Sejamos sinceros,não há como saber se ele é realmente tão bom ou crer cegamente no sucesso dessa união,do contrário seu pai não teria traído Dina e nenhum nobre teria amantes,se você não consegue se colocar no meu lugar imagine então o casamento entre Levi e Petra,eles são lindos juntos,aposto que daria certo.Disse a ultima parte com ironia.

-O que?Perguntei confuso e visivelmente abalado.

-Então você não sabe mesmo,bem,tinha quase certeza de que ele não te contou.

Era possível que Levi tivesse falado sobre mim?Parecia tão improvável.

-E porque ele me contaria?Eu só fui o servo dele por algum tempo.Tentei fingir indiferença.

-Não precisa fingir,não para mim,eu sei que vocês ficaram próximos,ele me contou que vocês tiveram um momento de intimidade e que você estava chateado com isso,ele disse que iria te procurar e pedir desculpas.

-Não,eu não estava chateado,só estava fazendo outras coisas...aí meu Deus,é por isso que ele estava tão bravo comigo,ele achou que tinha feito algo de errado e eu fazendo aquelas coisas.Disse ainda surpreso.

-O que você fez?Ela levantou uma sobrancelha,interrogativa.

-Ele me pegou dormindo com uma garota e depois gritou comigo,ele insinuou que eu queria...fazer isso com o Max,e que tinha tentado com ele também.Cocei a nuca envergonhado.

-Eu nunca pensei que ele fosse do tipo ciumento.Disse risonha.

-Hã?E-ele não estava com ciúmes,só frustrado.

-Bem,talvez um pouco dos dois.Ela deu de ombros.

-Por que ele teria ciúmes de mim?Perguntei com as bochechas em rouge. 

-Ele tem sentimentos por você,óbvio.Eu conheço aquele nanico a anos e ele raramente pede desculpas,ou tem momentos de intimidade com as pessoas.A ultima parte estava carregada de insinuações.

-Ele disse isso?Minha voz saiu esperançosa.

-Não com todas as letras,mas tenho certeza,então gosta dele também?Ela levantou as sobrancelhas sugestivamente.

-Sim.Por fora foi simples e direto,mas por dentro estava em festa.

-E gostaria de perde-lo para outra?

-Não.

Ela sorriu com a certeza de que havia ganhado a argumentação e passou a mão pelos cabelos tingidos.

-Vai me entregar?Perguntou ainda um pouco receosa.

-Você pode prometer que vai conseguir ajudar as pessoas?Seja lá o que você estiver planejando.

-Bem,não posso prometer mas estou confiante de que sim,se tudo der certo vamos ajudar milhares de doentes.

-Doentes...hanahaki suponho.

-Sim,é um problema muito sério em minha terra natal,a doença não escolhe classes já perdi pessoas queridas para ela e não quero perder mais ninguem.É uma morte horrível,lenta e muito dolorosa,os espinhos descem da garganta até os pulmões,alguns morrem de inanição nos estágios iniciais,e tem aquelas flores sangrentas,me arrepio só de lembrar,mas o estranho é que algumas pessoas sobrevivem e a doença regride totalmente,zero sequelas.Eu vou descobrir o que essas pessoas tem em comum e vou achar uma cura,espera só até eu chegar até concórdia,vou revirar todos aqueles registros e...Ela parecia bizarramente excitada enquanto falava,gesticulando,pulando e tudo mais.

-Você fala bastante né,vai ser uma viagem complicada.Disse desanimado,apesar da súbita empatia por aquela estranha.

-Espera,isso significa que não vai me entregar?Perguntou esperancosa,contendo os pulinhos.

-Sim,não vou.Suspirei e andei até um pequeno córrego a alguns metros,lavei meu rosto e esperei em vão que os pensamentos fossem junto.

-Agora somos parceiros!Exclamou mais animada que o necessário.

-Suponho que sim.Retruquei derrotado.-Devíamos voltar pelo coelho,não gosto de matar em vão.Completei e ela fez um sinal positivo com a cabeça.-Mas antes temos que esclarecer algumas coisas,sei que teve ajuda em sua fuga,e também sei que não vai me contar de quem,eu sinceramente não me importo,mas se formos pegos você vai assumir total responsabilidade,você e seu cúmplice,pode me prometer isso?

-Sim,é claro que sim.Ela disse como se fosse óbvio.

Começamos o trajeto de volta e ela não calava a boca,mas era divertida,tenho de admitir.Eu só não sabia como alguém tão falante havia feito amizade com alguém tão ranzinza quanto o Levi.O pensamento me fez rir,mas o sorriso morreu quando me lembrei da condição dele.

-Acha que ele vai ficar bem?

-Eu não acho,tenho certeza.Ele é osso duro de roer,e cá entre nós acho que ele é teimoso demais até para morrer.Respondeu bem humorada.

-É,eu acho que sim.Respondi com certo desânimo e o silêncio se instaurou.

Não demorou muito para chegarmos até onde o coelho estava,bem,não se parecia tanto com um coelho mais,não inteiramente coberto por moscas bicheiras,não tinha dúvidas de que em algumas horas as larvas começariam a aparecer,e honestamente me sentia mal por isso,aquele pobre animal havia morrido em vão.

-Sinto muito.Hange disse para o animalzinho,o encarrando cheia de tristeza.

-Não foi sua culpa.Respondi simplista,tentando oferecer algum conforto.

-A natureza é mesmo cruel.Ela tinha um tom inconformado.

-Nós também,a humanidade quero dizer.Encarrava as moscas com certa fascinação,era o ciclo da vida no fim das contas.

-Bem,também somos criações da natureza,logo também somos cruéis.Constatou,tirando sua capa cinza e a colocando em uma trouxa que levava nas costas,por baixo trajava uma blusa de lã,calças brancas de algodão,botas simples e luvas de couro.Era um disfarce até que convincente,mas a maior diferença era no cabelo,antes castanho-avermelhado e agora negro como a noite.

-É,acredito que sim,bem,é melhor voltarmos para a estrada.

-Sim,é melhor nos apress-Espera,você ouviu isso?

-Ouvir o que?Perguntei,confuso.

-Achei rastros,duas pessoas pelo menos,estão frescos Capitão.Gritou uma voz não muito distante vindo de trás.

-Ora,então siga o rastro Anthony,e vá rápido.Respondeu uma voz mais contida que imaginava ser do capitão,não tinha duvidas de que aquelas pessoas estavam procurando pela princesa.

Estava em pânico,meu corpo todo entrou em estado de alerta,Hange não estava melhor,seu rosto estava pálido como o de um cadáver e suas mãos tremiam um pouco.Olhei para ela e tomei a decisão mais óbvia e sensata.

-Corre,vamos até o meu cavalo,não está longe daqui.Disse e imediatamente começamos a correr,cientes de que seria o fim se fôssemos pegos.

Pov Zeke

O velho não parava de falar a um tempo,honra,dever e qualquer outra merda que ele mesmo não exercia,sinceramente não sabia como alguém conseguia ser tão hipócrita,não é como se ele pudesse esconder os erros dele por aí,Eren é uma prova disso.

-O clima já está suficientemente tenso,não quero você brigando com ninguém,especialmente com Jon e Pablo.Jon será o herdeiro das terras vizinhas e é de uma casa aliada tanto na parte militar quanto econômica,aliança essa que dura a séculos,não vou deixar que destrua isto,e Pablo será rei algum dia,o que significa que terá de ter uma boa relação com ambos,faça amizade com o maior número de pessoas que puder é isso que faz um governo forte,não se governa sozinho Zeke,lembre-se disso.Grisha andava de um lado para o outro em seu escritório ricamente decorado,o verde e o escarlate estavam por todos os lados representando as cores de seu estandarte,os móveis eram centenários e feitos de freixo,nas paredes cabeças de cervos,lobos e ursos,estes dos quais também eram feitas as tapeçarias.

-Se ele for rei,não há de ter tanta certeza nisso pai.Apontei o cerne da questão.

-Elabore.Disse,balançando a mão em minha direção.

-Essa é a questão não?Não sabemos se a família dele é leal,temos a carta e tudo mais.

-A família dele não está sendo investigada e as cartas estão sendo trocadas entre Ackerman e Reeis,não acuse o garoto se não tem provas.

-Bem,eles são próximos,talvez a família real devesse ser investigada também.

-A família Azumabito era tão proxima quanto e eles não sabiam o que os Ackerman estavam fazendo.Ele bateu os dedos impacientemente na superfície da mesa.

-Talvez,imagino que só o tempo dirá,pelo menos em algo concordarmos,os Ackerman são traidores.Não pude deixar de dar um pequeno sorriso.

-Algum motivo em particular para apontar isso?Ele levantou uma sobrancelha em tom inquisitivo.

-Não,estava apenas contando fatos.Dei de ombros.

-Bem,me pareceu uma questão pessoal,ainda mais vindo de você que é tão indiferente a tudo.

-Impressão sua,garanto.

-Tudo bem,mas lembre-se de que sou seu pai e lhe conheço,pense bem antes de fazer as coisas Zeke...Ele se aproximou e colocou suas mãos em meus ombros.-Ou pode acabar se arrependendo pelo resto de sua vida.Disse com algumas lágrimas nos olhos.

-Pai, do que o senhor está falando?Perguntei genuinamente confuso.

-Nada,não é nada.Se afastou recompondo-se.-Vamos,temos de ir ao pátio nos despedir dos Kirschtein.Lembre-se do que te falei,peça desculpas a Jon.Ele endirreitou sua túnica azul e sua capa de pele de lobo e se pôs a andar.

No caminho ficamos em silêncio por algum tempo,ainda estava confuso.O que tinha sido um erro?Talvez a traição,ou o próprio casamento...talvez fosse eu.

-Sei que não quer dobrar o orgulho e pedir desculpas,sei também que Jon não é um santo,a pobre Mikasa que o diga,Jeor me garantiu que deu uma bronca no rapaz mas isso não anula a atitude indecorosa dele,Mikasa veio me contar o que aconteceu e pediu desculpas por bater nele,eu não a culpo e também não culpo você mas as vezes é necessário engolir alguns sapos para garantir um bom futuro.

-Já entendi meu pai,lhe garanto meu pedido de desculpas.Disse a contragosto.

-Assim espero,fico feliz por ter compreendido.Grisha sorriu.

Sorri de volta e um silêncio confortável se estabeleceu até chegarmos ao pátio.Lá estavam todos os membros da nobreza que ainda permaneciam no castelo,totalmente espalhados ao redor das mesas fartas que eram oferecidas como cortesia,pode se dizer que a maioria estava mais interessada nos porcos assados com tomilho e mel e nas mais variadas guloseimas do que nos Kirschtein.

Olhei ao redor e comecei a procurar por Jon e Pablo,ainda pouco satisfeito com a situação.Começando pela mesa de bolos,vi Jean e Marco sorrindo um para o outro e notei que o de Marco tinha uma conotação diferente,eles se abraçaram e me perguntei se Jean sabia o efeito que aquelas ações aparentemente inocentes,tinham em Marco,cheguei a conclusão de que era muito provável que estivesse alheio.

Passando para o lugar na mesa onde estavam meus adorados pães de creme,vi George e Jeor com uma expressão demasiada seria para uma ocasião supostamente descontraída,a poucos metros estava Pablo que conversava animado com Petra.Suspirei e fui até os dois.

-Bom dia,Pablo.Estendi minha mão e ele a apertou com uma careta.-Você também senhorita.Disse,dando um beijo em uma de suas mãos.Pablo aprofundou sua careta depois disso.

-Você poderia nos dar licença Petra?Perguntou em tom educado.

-Claro.A moça deu uma breve saudação e foi falar com Kuchel,que estava triste em um canto.

-Petra é uma moça muito bonita.Disse,tentando tirar alguma reação de Pablo.

-Sim,o Ackerman tem sorte.Franziu as sombracelhas ruivas,claramente descontente.

-Com certeza,pelo menos a desgraça dele pode beneficiar alguém,não é.

-Eu compreendi muito bem o que você está insinuando e não gosto nem um pouco disso.Seu rosto se fechou como uma tempestade de verão.

-Ora,não estou insinuando nada,garanto.Apenas afirmando que caso o pior aconteça a senhorita Petra não ficaria desamparada.Disse forçando simpatia.

-Sabe o que eu acho Jaeger?Que você fala demais para alguém que foi diretamente beneficiado pela condição do Levi.Ele retrucou,em um tom tão cortês quanto o meu.

-Não fui beneficiando,não existe honra em vencer de um moribundo.Respondi,o tom era tão afiado quanto uma faca.

-Não existe?Pensei ter visto você receber todas as honrarias,estava delirando?Creio que é possivel depois de passar tanto tempo nessa terra abandonada pelos deuses.Ele esbanjava escárnio.

-Receber honrarias e vencer com honra são coisas diferentes,mas não espero que você entenda,afinal nem olhando esta terra abandonada pelos deuses você consegue perceber que só o rio que circunda este castelo guarda mais riquezas que todas as suas terras floridas e com cheiro de morte,ouvi falar que sua mãe morreu pela doença das flores,qual era o nome mesmo...nahaki? 

-Hanahaki,e só um aviso,seu eu fosse você não mencionaria a minha mãe tão levianamente,do contrário posso não responder por mim.Disse cerrando os dentes.

-Oh,peço desculpas se te ofendi,não vim falar com você para te atacar,muito pelo contrário.

-Bem,não foi o que pareceu Jaeger.

-Sim,peço desculpas pelo tom também,você deve ter me interpretando mal.Sorri para ele que me devolveu um olhar desconfiado.

-Está tudo bem,acho...Disse incerto.

-Também tenho que pedir desculpas por ontem,estava nervoso e falei algumas besteiras.

-Sinto muito também,agora se você me der licença.

-Claro,foi bom esclarecer as coisas.Acenei educado.

-Igualmente.Ele balançou a cabeça em afirmação e foi para o outro lado do pátio,ainda visivelmente confuso.

No fim pedir desculpas não havia sido de todo mal,ainda era um pouco humilhante mas as reações confusas de Pablo e a descoberta de um interesse dele por Petra tinham válido a pena,se usada no momento certo tinha certeza que essa informação valeria ouro.Agora só restava falar com Jon.

Não foi difícil encontrá-lo,ele sempre se destacou na multidão,em parte por sua aparência mas principalmente por sua personalidade espalhafatosa.Agora,no entanto,ele chamava atenção por sua postura triste e por uma marca vivida em sua bochecha palida,se não soubesse melhor poderia até pensar que a forma dos cinco dedos de Mikasa eram permanentes.

-Kirschtein!Falei alto de propósito,já esperando uma reação assustada por parte de Jon.No entanto,ele apenas me olhou com uma expressão vazia e voltou a encarar suas mãos ridiculamente finas.

A decepção foi instantânea,Jon sempre fora fácil de irritar,e a raiva caia como uma moldura fina em seu rosto bonito,a indiferença,por outro lado,o tornava sem graça,e os deuses sabiam que Jon Kirschtein não foi feito para ser sem graça,ele era tudo no mundo,menos isso.

-Ah vamos lá,eu só quero conversar um pouco.Disse me sentando ao lado dele e pegando um pêssego dentre a infinidade de frutas da mesa.

-Não quero conversar com você.Ele virou o rosto de forma dramática para o outro lado.

-Não seja assim,está começando a soar como o seu pai,a parte rabugenta dele.Disse divertido e Jon bufou em resposta.

-Pelo amor dos deuses,fale o que tiver de falar,recite o seu discursinho pronto e corte o mal pela raíz.Ele terminou,olhando enfurecido para mim.

-Que discurso?Não sei do que está falando.Dei de ombros.

-O que Grisha lhe mandou fazer,está aqui para pedir desculpas não é?Peça de uma vez e suma de minhas vistas.Ele apontou para o portão de ferro no extremo oposto do patio. 

-Se é assim também não me deve um pedido de perdão?Foi você quem me provocou no fim das contas.Retruquei sorrindo de lado.

-Oh,por favor imploro humildemente pelo perdão de vossa graça.Jon fez questão de gesticular com as mãos no processo,mas por fim as depositou novamente em sua capa de cetim azul Claro.

-Vou lhe perdoar desta vez.Peguei seu rosto e o virei em minha direção.-Mas da próxima,suas transgressões não passarão impunes.Completei,apertando sua face até que a marca de meus dedos se fez presente.Se Mikasa tinha o seu próprio troféu exibido naquela vitrine cara porque eu,o senhor,não poderia?

-Tire essas suas mãos imundas de mim.Ele ordenou exasperado.

-Que indelicado,bem,tem minhas mais sinceras desculpas meu senhor,isso não passou de uma brincadeira.Afirmei,jogando o pêssego meio comido em um canto qualquer.

-As tem,agora se retire por favor.Disse,os olhos cor de jade cintilando em uma mistura de raiva,desprezo e despeito.

-Bem,é uma pena que você ainda está em minha casa,vou onde quiser.Sorri em desafio.

-Fique com ela então.Ele por fim se levantou,me olhando com ódio uma última vez,antes de sair das sombras em direção ao sol morno do fim da tarde,sol este que finalmente lhe tirou um pouco da palidez mórbida e devolveu a vida ao dourado de seus cabelos.

No fim foi uma surpresa ele ter percebido que fora meu pai quem me ordenara a pedir desculpas,talvez ele não fosse tão idiota,mas o mais provável é que era apenas improvável que eu fizesse uma coisa dessas por conta própria,tinha alguma consciência do próprio orgulho no fim das contas.

Me acomodei no banco amarelado e escorreguei no verniz ainda novo,mas logo recuperei a compostura e deitei minha cabeça na mesa,era gelado e um pouco desconfortável e eu realmente não sabia o que fazer naquele momento.Fechei os olhos e me pus a escutar o que acontecia ao meu redor.No início não conseguia distinguir nada dentre as inúmeras vozes que se embaralhavam,mas depois de adquirida alguma concentração começava a diferenciar e entender os barulhos.Ouvi Judith se juntar ao marido George e a Jeor e logo perder a paciência,chamando por seu filho Marco que ainda tagarelava com Jean,acho que jamais compreenderia de onde aqueles dois arranjavam tantos assuntos,ouvi também servos transitando com mais comida por todos os lados,era fácil saber pelo passo pesado que tinham,e por fim captei os resmungos de Lorde Zack próximos a mim.Bem,essa era a minha deixa.

Levantei-me da mesa e fui até Zack,que estava se servindo de uma quantidade generosa de torta de amora,direto das terras de Rod Reeis.O continente era um lugar infértil,e a maioria do que ali nascia não era comestível mas por alguma razão tudo parecia dar frutos naquele lugar,que infelizmente não era grande o suficiente para abastecer fak. 

-Gosta da comida senhor?Perguntei de súbito,e ele se virou assustado.

-Claro,todas as refeições são primorosas,verdadeiras obras de arte.Disse,enquanto colocava bolo de mel em seu prato farto,quase tão farto quanto o próprio Lorde que já havia passado do estado de obesidade,como o homem ainda conseguia andar por aí era uma incógnita.

-São obras do Boris,nosso chefe de cozinha,ele tem mãos mágicas.Respondi em tom cortês.

-Mande meus parabéns ao homem por mim.Pediu,se sentando com certa dificuldade e enrolando o bigode desbotado em seguida.

-Eu vou.

Uma serva passava por ali com vinho e hidrômel,fiz um sinal com a mão e a moça se aproximou,perguntando do que iria me servir,acabei por pegar uma taça de tinto seco e Zack ficou com uma caneca de hidrômel mas pediu para a moça deixar a jarra também,ela o fez desconcertada. 

-E Levi,como vai?Perguntei,depois de um gole na taça de prata com o padrão de lobo dos Kirschtein.

-Se recupera bem,não sei quando acorda,só os deuses sabem,mas não perdi a esperança.Ele falou com certa indiferença,pelo jeito não era bom ator.

-E não deve,a esperança nunca deve morrer pois dela nos alimentamos da vontade de viver,não é?

-Creio que sim,jovem.Ele apoiou as mãos decoradas com anéis tão apertados que quase lhe partiam os dedos,na papada tripla de seu queixo,me olhando com curiosidade.

-É amigo do meu filho?Conversei com Pablo e ele me disse que você falou positivamente em relação a situação do Levi,quando toda aquela confusão aconteceu.Ele parou de comer e esperou pela minha resposta.

-Não somos amigos,mas o respeito muito,o desempenho dele nas justas foi espetacular.Respondi,tomando outro gole de vinho,a sensação do álcool queimando minha garganta era bem vinda no momento.

-Sem sombra de dúvidas,era com você a final,não é?Ele perguntou,mesmo já sabendo a resposta.

-Sim,foi uma pena não poder ter lutado com ele.Sorri de forma educada.

-Claro,meus parabéns pela vitória rapaz,tenho certeza que mereceu.Ele sorriu de volta em uma leve sugestão de escárnio. 

Não me sentia tão intocável e não gostava nada disso,talvez pudesse remediar a situação depois,mas falar agora era uma desvantagem,tudo poderia ser usado contra mim no futuro e isso era impensável.

No fim,Sor Pixis parecia ter adivinhado o estado miserável em que me encontrava,pois foi até a nossa mesa e solicitou minha presença,ordens de meu pai,e assim que nos afastamos de Zack ele me disse as seguintes palavras:

-O rei convocou uma reunião,senhor.É outra carta de Rod Reeis para a senhora Kuchel.

Pov Berthorldt 

Fazia dias que não comia,e o único resquício de sabor que permanecia em minha língua era o ferreo do sangue,sentia tanto frio que estava entorpecido,incapaz de mexer qualquer articulação sem dor e tinha os pulsos quase em carne viva,pois á muito tinha sido acorrentado.

Estava no convés inferior de um navio,junto dos barris de água,vinho e dos ratos.Esse era um navio a serviço dos Yeager,eram eles os responsáveis por garantir o exílio ou executar o sacrifício em nome de Mortem,eu mesmo tinha escoltado prisioneiros para essas embarcações uma vez,quando ainda treinava para ser um cavaleiro.

Não tinha visão externa,por isso não sabia com certeza quanto tempo havia passado,se era noite ou dia,ou mesmo em que parte do mar estava,mas pelo balanço irregular do navio,podia supor que estavam perto do confim das guerras,um canal muito utilizado nas passadas guerras intercontinentais.Meu pai era um comerciante de peles e tecidos, viajava com frequência para os portos rochosos dos Ackerman ou para as praias litorâneas dos Arlet,fui com ele algumas vezes,então reconhecia a vibração familiar do trajeto.

Porém,se meu palpite estivesse correto,significava que ainda faltavam muitas águas para percorrer e como consequência muitas semanas,talvez um mês ou mais se não tivesse sorte,não tinha certeza se podia aguentar muito mais tempo sem comida.Não tinha forças e o estomago doera tanto que já nem o sentia,a tripulação não me deixava morrer de sede,de tempos em tempos uma figura borrada pela falta de luz trazia uma concha de água,a pessoa nunca me dirigia a palavra,e se dirigisse não tenho certeza se seria capaz de lhe falar de volta,mas nunca me trouxeram comida.

Nesse meio tempo infernal e de aparência eterna,tinha muito tempo para pensar,pensava no passado e na glória que já tive,nas viagens que fiz com meu pai,no sol que aquecia minha pele nos dias frios e no sorriso da minha mãe,sentia falta deles,sabia que estavam preocupados,pensava também no presente,na condição deplorável em que me encontrava e o que me trouxe até aqui,em minhas escolhas erradas,quais foram?Merecia isso?No entanto,nunca pensava no futuro,porque não achava que tinha um,e parte de mim esperava que eu não tivesse,afinal era melhor morrer aqui e agora do que passar pelas provações que sabia que viriam se sobrevivesse.Mas talvez fosse o destino passar por essas provações,precisava de redenção?Não sábia e me incomodava não saber.

Num ínterim de pensamentos frenéticos senti meu corpo amolecer,minha corrente sanguínea corria tão selvagem dentro de mim que podia escuta-la,juntamente com meu coração que batia rápido e irregular,a visão que já era prejudicada pela penumbra agora não via nada além de escuridão pura e simples.Tentei movimentar o meu corpo em uma tentativa de voltar ao normal,mas este estava muito pesado e eu tinha cada vez mais sono,por fim cansei de lutar e fechei os olhos,parte de mim temia que fosse a última vez que o faria. 

Acabei por dormir,ou melhor,permanecer inconsciente por um tempo,não sabia em exato quanto,mas sentia que era muito.Comecei escutando a maré calma e suave,o que indicava que havíamos atravessado o confim e logo depois abri os olhos,com certeza prévia de encontrar as sombras com quem vivia.No entanto,quando olhei para a escuridão não foi ela quem me olhou de volta.

Lá cercado por negro estava um rapaz,um fantasma do meu passado que me encarrava ferroz.Era magro,quase tão magro quanto eu,a pele cor de ébano tinha as mesmas manchas de sujeira de quando o vi pela primeira e última vez,e seus cabelos brilhavam dourado,refletindo uma luz inexistente,apenas reafirmando o irreal da situação,começava a ter certeza de que estava louco.

-Você...Tentei falar,mas falhei,minha voz estava rouca pelo desuso e minha garganta muito seca.

Ele se aproximou minimamente e seu olhar era tão intenso que sentia como se penetrase minha alma,a sensação beirava o místico era como se de alguma forma ele pudesse sentir minha existência e comprende-la de tal forma que nem eu mesmo compreendia.

A experiência do desconhecido acabou por sobrecarregar minha mente já cansada,e me dei por fechar os olhos fatigados,logo sendo transportado para uma tarde de verão,onde o sol brilhava imponente e ainda assim a floresta era escura e intimidante,ouvia até mesmo as cigarras com seu barulho estridente e irritante.Era espectador de um momento já vivido,percebi.Não havia como não perceber,esse dia me marcara tanto que grudou em minha minha mente como melado nos dentes,era o dia de minha provação,o dia em que provaria estar apto a ser um cavaleiro.E lá estava,espreitando por entre as árvores,punhal na mão e inconfundível expressão de desespero,eu,o meu eu mais jovem,o eu que não sabia que iria acabar aqui,o eu daquele fatídico dia.

Lembrava de estar muito nervoso,a provação exigia de um candidato a cavaleiro perseguir e matar um prisioneiro,era necessário para distinguir os garotos dos homens,dizia meu comandante,um homem desagradável que fedia a morte,era também simbólico,para dedicar a vida a honra e ao dever para com os outros,era como renascer e para isso era necessário pagar com outra vida.Não concordava com isso na época,pensava que não era possível uma vida carregada de desonra pagar pelo contrário,mas bem,eu não era o mesmo no fim daquele dia.

Minha visão da memória era limitada a proximidade do meu antigo eu,o que fazia certo sentido,por isso pude ver claramente o pequeno pulo que deu ao ouvir o barulho de galhos quebrando,significava que a presa estava por ali.

O assisti puxando uma respiração lenta e sôfrega e seguir cauteloso pelas pedras lodosas,segurava o punhal de prata com a mão direita e o broche de lápis-lazule com a esquerda,o impedindo de fazer qualquer barulho que o denunciasse.Trajava luvas de veludo negro,capa de seda verde escura com padrões em fios de ouro,um gibão de lã pouco mais escuro que a capa,botas de couro com a sola revestida de um material que o vendedor prometera que não faria barulho e carregava uma bolsa bege surrada.Muitos de meus colegas preferiram adotar estratégias mais diretas ou nenhuma,matando o infrator com força bruta,eu havia escolhido cautela.

Naquele tempo ainda era um iniciante ,era necessário passar desta etapa para prosseguir com o treinamento,e eu não gozava da mesma sede de sangue de meus companheiros,apenas da vontade de uma vida confortável e alguma justiça.Apesar do cuidado em cada passo,vez ou outra pisava em um galho,as árvores eram grandes,tinham pouco espaço entre si e não era temporada dos insetos,ou seja,muitas folhas e pouca visibilidade.

Não era bom em rastrear,confiava inteiramente nos sentidos e instinto,sabia que não corria grandes riscos,o prisioneiro provavelmente estava desarmado e bastante debilitado,mas sentia que tinha sido um erro dar-lhe tanta vantagem,talvez houvesse um motivo para o uso de estratégias mais diretas.

Viu de relance um vulto branco e dourado,ouvindo logo em seguida barulhos de respiração pesada,tremeu de leve e foi se esgueirando meio abaixado de árvore em árvore,o caminho guiado pela respiração cada vez mais audível de sua caça.

Não demorou em vê-lo,aparentava ser jovem e bastante subnutrido,tinha feno nos cabelos loiro areia que batiam na altura da orelha,e vestia um manto de linho que algum dia fora branco.Não o percebeu de imediato,parecia muito exausto para notar qualquer coisa,quase sentia pena.Estava a poucos metros,deu mais meia dúzia de passos e se preparou para o bote.

Pulou tão rápido no garoto que este permaneceu atordoado por alguns instantes,era notável que pensava em lutar,mas a posição era desfavorável,estava preso com as costas em uma sequoia gigante,estas se esfolavam na casca fibrosa da árvore,uma mão cercava um de seus lados e a outra pressionava a ponta do punhal sobre sua garganta.O menino arfou quando olhou para baixo e viu uma fina linha carmesim lhe escorrer pescoço abaixo,tinha aquele misto de expressões que só um homem que encarrava a morte poderia ter.

Não deveria demorar mais que instantes,um corte rápido e limpo,além de uma morte moderadamente indolor,no entanto,não o fez.Ficou lá,como que parado no tempo,incapaz de mover um músculo,com o canto dos pássaros sendo a única testemunha de que o tempo realmente corria.

O garoto abaixo dele se remexia desconfortável,sofria em antecipação.Por fim respirou fundo e pareceu voltar a si.

-Seu nome?Perguntou,a pressão ainda intacta na garganta do prisioneiro.

-Que importa?Retrucou,não parecia entender o ponto daquilo tudo,mas para ser justo eu também não entendia.Era provável que quisesse apenas postergar o aparente inevitável.

-Seu nome?Voltou a repetir em tom maquiado de ameaça.

-Reiner.O menino quase que sussurrou,confuso e certamente com medo.

-Reiner...Repetiu sem muita emoção.- O que fez para merecer isso?

Naquele momento sua expressão de medo deu lugar a indignação.

-Matei alguém,se quiser dar o troco ande logo.Ele inclinou o pescoço na direção da lâmina para provar seu ponto,sangue jorrou em pequenos fios direto para o tecido caro das roupas do outro.

-Matou por algum motivo vil,suponho.Disse,sem a devida convicção.

-Faz diferença?Vai me matar de qualquer jeito.Retrucou amargo.

Por mais estranho que fosse,pensou que seria melhor se Reiner implorasse,talvez assim tivesse uma desculpa para não cometer assassinato.

-Não,mas posso fazer isso pior para você.Entoou a frase pronta que não pertencia verdadeiramente a seus lábios.

-Não foi por capricho.Se mexeu agoniado na superfície irregular da árvore.

-Certamente não foi auto defesa,não estaria aqui se fosse este o caso.Constatou,com o suor frio lhe escorrendo pela testa.

-Não é verdade,me defendi.Falou exasperado,as mãos tentando empurrar em vão.

-Isso é impossível.Quase que gritou,e os pássaros que antes gorgeavam,empoleirados nos enormes galhos voaram em pânico.

-Não tive escolha,juro.Disse,em voz chorosa.

-Justiça,é isso que vou fazer...Murmurou mais para si mesmo que para o outro.

-Justiça?Rebateu incrédulo,os sulcos da testa foram franzidos com força.

-A justiça do rei,tirou uma vida e deve pagar por isso.

-Pois faça,o que está esperando?Reiner explodiu em mais um lapso de coragem.

-Quero saber o motivo antes de fazê-lo.

-Já disse,me defendi.Respondeu cansado,a essa altura o céu já abandonava os tons frios e brilhava em laranja,vermelho e púrpura.

-E já lhe rebati,ele não tentou te matar.

-Não...não tentou,mas...Terminou em um grunhido infeliz.

-Mas?Insistiu para que prosseguisse,afastando ainda mais o punhal.

-Tentava me tomar à força,já tinha o feito muitas outras vezes,não aguentava mais aquilo,não planejei nada mas na hora soube o que tinha de fazer.Falou,os olhos brilhavam em lágrimas,não ousou duvidar daquilo e comovido baixou a arma de vez.

-Quem era?Disse que era violado com frequência,não poderia ser um estranho.Concluiu.

-Era da família,um tio que se ofereceu para cuidar de mim porque minha mãe não tinha dinheiro na época.

-Contou para ela?Sabia que talvez fosse insensível,mas a curiosidade foi maior.

-Ela deixou a aldeia em que vivíamos e foi tentar a vida na capital dos Yeager,nunca mais a vi.As lágrimas correram rápidas quando a mencionou.

-Isso devia ter ao menos abrandado sua pena.Mexeu as mãos inseguro,não sabia se o libertava ou não.

-O Lorde não pensou assim,me julgou como um marginal qualquer,disse que meu tio era um homem ilibado.

Estava em choque,minha fé na justiça havia sido posta em cheque.Não podia matar o garoto por um erro de outras pessoas,ele nem deveria estar ali.Sentia raiva borbulhando por tamanha injustiça,sempre pensara que todas as pessoas condenadas eram bandidos,pessoas da pior estirpe,mas se matasse Reiner não seria eu a pessoa sem caráter?afinal se o matasse seria por motivos menores que os dele,me perguntava com que frequência isso acontecia,teriam meus amigos matado pessoas inocentes?Ficava arrepiado só de pensar.

Se afastou meio cambaleante,até bater com as costas em outra árvore menor,olhava para o garoto desconsolado sem saber o que fazer.

-Sinto muito.Resolveu dizer,se constrangia do quão pouco as palavras valiam,mas eram verdadeiras.

Reiner parecia avaliar a sinceridade de sua fala e o olhava intensamente,com os olhos cor de mel ainda brilhando em lágrimas.

-Não sei o que lhe dizer.Completou,por fim quebrando o contato visual.

-Não diga.Retrucou,simplista.

E assim eles ficaram,por longos minutos,em silencio completo.Reiner ainda estava alerta,mas parecia ter desistido de escapar.

Por fim decidiu pela escolha que lhe pareceu correta,pegou seu bolsão a muito esquecido e dele retirou uma maçã e um punhado de moedas de prata,com um par de olhos dourados sempre fixos nele.Se aproximou novamente,desta vez com cuidado para não assustar o garoto e estendeu os objetos que tinha pego,em um sinal de oferta mudo.

-Fala sério?Perguntou descrente.-Está mesmo me oferecendo isto?

-Sim,gostaria que aceitasse,não é muito mas deve ajudar.Continuou com as mãos estendidas e sentiu arrepios por todo o corpo,o tempo havia esfriado muito.

Reiner pegou primeiro a maçã e a comeu ali mesmo,com urgência,pelo estado de seu corpo não devia ser alimentado com frequência.Depois pegou as moedas,pensativo.

-Posso saber por quê?Tocou na ferida que tinha no pescoço e fez uma careta de dor.

-Sirvo a justiça do rei e para além dela a dos deuses,não faria sentido te matar,você não fez nada de errado no fim das contas.Admitiu,envergonhado de seus pensamentos anteriores.

-Vai desistir de ser um cavaleiro?

-Não,mas vou dar um jeito.Disse,confiante.

-Certo...para onde eu devo ir...deveria voltar para minha casa..ou-

-Não,vá para o mais longe que puder,Fibis,é isso.Estalou os dedos,simbolizando a ideia que teve.

-O continente dos exilados?Perguntou,as sobrancelhas franzidas em confusão.

-Sim,não é seguro ir para fergus ou concórdia,você foi marcado como um sacrifício,eles não te aceitariam e você seria mandado de volta para os calabouços.Reiner teve calafrios com a menção da última palavra.

-Não me marcaram fisicamente.Salientou,não muito animado com a ideia de Fibis.

-Não,mas o sistema de fluxo dos soldados e sua falta de identificação te denunciaram.O fluxo veio de um acordo relativamente recente entre Fak e Fergus,era uma troca de soldados de ambos os continentes para a patrulha de fronteiras e a identificação era uma talha de ferro com nome e cidade de origem,era preciso um para entrar em quase todos os lugares.

-Acho que sim.Soou derrotado.

-Vá pelo oeste até o porto,embarque em algum navio,se te perguntarem diga que é um aventureiro,eles não são assim tão incomuns.Disse,desabotoando o broche e tirando a capa,milagrosamente livre de sangue,por fim a pôs sobre os ombros de Reiner,que tremia de frio.

-Obrigado.Falou com sinceridade.

-Não precisa agradecer,considere um pedido de desculpas pelo pescoço,sei um pouco de primeiros socorros,mas não tenho nada aqui comigo.Limpe quando puder,certo?

-Tudo bem,posso me virar daqui...Ele se enrolou por alguns momentos e continuou.-E Fibis,sabe como é lá?Não sei o que fazer.E lá estava a vulnerabilidade de antes.

-Não,não sei,mas se você sobreviveu até aqui apesar de todas as adversidades,tenho certeza de que vai sobreviver a mais esta também.Tentou encoraja-lo.

-Espero que sim...uh,você não me disse seu nome.

-Berthorldt Hoover.

-Certo,é melhor eu ir Berthorldt.Ele pareceu experimentar a sensação do nome em sua boca.

Acenou brevemente com a cabeça em sinal de agradecimento e foi pela mata agora escura,a lua começava a aparecer,cintilante em sua cor leitosa,o céu voltando a suas cores tristes.Mas antes que Reiner pudesse desaparecer na imensidão da floresta,ele o chamou.

-Ei,não morra!Gritou,o eco soando pela grandeza sufocante do lugar.

-Não morra,você também.Respondeu,com o fantasma de um sorriso e foi,sem nunca olhar para trás.

Após isto lembrava de ter matado um pássaro,espalhando mais sangue sob as vestes e parecia tão doente ao fazê-lo que meus superiores não duvidaram.Passei os próximos anos pensando copiosamente neste dia,não me perguntava se tinha feito a coisa certa,ainda tenho convicção que sim,naquela época também me questionava da necessidade desses rituais tradicionais,mas hoje entendo a lógica por trás de tal exigência,é necessário sangue frio para esse tipo de trabalho,e as vezes temos de fazer coisas vis para um bem maior,não que fosse este o caso.

Mas também não me iludia pensando que se tratava apenas de compaixão,era principalmente covardia,meu desejo exacerbado por meu proprio bem estar,não fui egoísta o suficiente para matar Reiner,nem altruísta o bastante para salvar Erwin.Me sentia um fracasso.

Quando abri novamente os olhos,ainda estava lá,agora parado em minha frente.Desta vez usava a capa e segurava uma maçã,tentadoramente perto.

-Não morra.Sussurrou,como se tivesse medo de perturbar o silêncio inóspito do lugar e de súbito a maçã se transformou no punhal,rapidamente me rasgando a garganta.

Gritei assustado e me revirei no pouco espaço que tinha,até que percebi que não havia dor ou ferida,era mesmo uma alucinação.

Perguntava-me se ele sobreviveu,esperava que sim.Não pude deixar de soltar um riso amargo,afinal estava na mesma situação em que ele se encontrava.Mas não era tão forte quanto ele.

Nunca poderia ser...


Notas Finais


Bem,acho que a essa altura vocês já perceberam que a frequência de capítulos não é o meu forte,mas não pretendo abandonar a história.Agradeço por me acompanharem nessa jornada.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...