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História Uptown Girl - Capítulo 9


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Capítulo 9 - Nove


Já em casa, Beatriz resolveu tomar um banho enquanto esperava por Priscila. Quando saiu, verificou que havia duas ligações perdidas de Jake. O coração acelerado já estava virando rotina na vida dela. Retornou a ligação, e ainda assim o corpo suava frio, as mãos tremiam, o coração batia tão forte que parecia que sairia pela boca. Quando ele atendeu, o simples “alô” na voz dele invadiu seu ser, atingindo até seu último fio de cabelo de alegria. A sensação era tão esquisita e não havia quem no mundo conseguisse explicá-la. Jake estava curioso em saber se a entrega da matéria estava acertada com Fabio e se ela já tinha conseguido entender com Priscila como ela havia conseguido as informações. Beatriz não se importava com o motivo da ligação, mas o fato é que Jake tinha um motivo para ligar e isso já a alegrava. Ela contou tudo o que havia acontecido e também perguntou como estava o andamento do artigo dele, já que esse devia ser o motivo da viagem tão repentina. Beatriz estava tão focada no Desafio Uptown e nos mistérios da família que havia se esquecido de que Jake também era jornalista e tinha seus próprios projetos.

— Está indo tudo bem — ele respondeu. — O Brasil é tão grande e esconde tantas histórias curiosas que até Deus duvida! Eu conto pessoalmente sobre o meu projeto, quando voltar.

Nova disparada no lado esquerdo do peito. Beatriz mal podia esperar para estar ao lado de Jake e ouvir as histórias dele.

— Onde você está agora? — ela perguntou.

— Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros.

—  Sério? — ela indagou, empolgada. —  Ouvi dizer que tem lindas cachoeiras por aí.

—  Sim, é verdade — ele disse com a voz mudando um pouco de tom. —  Mas estou a trabalho. Não tive tempo de visitar nenhum ponto turístico. Poderíamos voltar aqui juntos em uma outra oportunidade. O que acha? — ele estava dando em cima dela de novo? — Minha linda — sim, com certeza estava.

— Claro — respondeu, tentando parecer tranquila. — Por que não?

— Maravilha — a voz dele estava mais grave, mais safada. — Adoraria ver você em traje de banho.

Ela riu, nervosa. Já fazia alguns anos desde que alguém a vira em traje de banho. Beatriz não malhava, tinha algumas gordurinhas em lugares indesejados, não tomava sol há séculos e a pele estava desbotada. Queria conseguir dizer algo impactante, continuar a jogar o jogo de Jake, mas foi ele mesmo que continuou:

— Ou completamente nua.

Nossa. Ele não perdia tempo.

— Você não me conhece.

— Precisamos mudar isso, minha linda. Assim que eu voltar.

A cabeça dela caiu para o lado, estava paralisada. Era tudo o que mais queria e estava atônita, sem palavras. Conhecer Jake. Conhecê-lo por inteiro, cada parte dele, cada toque dele. Tudo. Ok. Talvez já estivesse avançando demais nos pensamentos. Jake esperou dois anos para falar com ela. Dois anos! E já foi tão atirado que Beatriz não sabia o que esperar. Estava feliz e receosa, não sabia o que esperar. Podia ser só ele e seu charme, que muitas outras do Clarim deviam conhecer. Ou não. Jake não era como Shun. Ao menos, não no Clarim, onde todos sabiam que Shun era um mulherengo de carteirinha. Jake não tinha essa fama, não no Clarim, mas era bonito, inteligente, gostoso... Todas as mulheres sabiam disso. Todas as mulheres olhavam para ele querendo arrancar um pedaço.

— O que você quer de mim? — ela achou prudente perguntar.

— Quando eu voltar, vou dizer exatamente o que quero. Minha linda — e desligou.

 

Beatriz preparou o jantar em meia hora, pensando em cada palavra de Jake. O papo telefônico estava começando a esquentar e ele desligou antes que ficasse intenso demais. Ela o agradeceu mentalmente por isso. Estava começando a ficar estranho sentir-se excitada dessa forma. Era muito desconfortável.

Estava terminando de temperar a salada, quando Priscila finalmente chegou.

— Oi, Bia. Que cheiro gosto...

— Finalmente, Pri — Beatriz interrompeu às pressas, sem dar tempo de a amiga respirar. — Estou aqui quase puxando os cabelos. Preciso de respostas e preciso para agora. Now! Vamos jantar e você vai me contando. Rápido.

— Nossa. Pra que a pressa? — Priscila tirava a mochila das costas e a pendurava no suporte de entrada.

Beatriz explicou rapidamente o motivo da pressa.

— Vou lavar as mãos e já volto.

Beatriz fez uma careta, mas não podia reclamar. Mas foi só Priscila colocar o pé para fora do banheiro, que já foi exigindo explicações.

— Como você conseguiu as informações e como conseguiu tudo tão rápido? — Beatriz perguntou de boca cheia.

— Eu tenho meus contatos — Priscila brincou, já pegando o prato e os talheres. — Falando sério, eu tenho um amigo que é fera em descobrir essas coisas.

— Um amigo?

— Na verdade, não sei se é homem ou mulher.

— Como não sabe?

— Não sei. Nunca vi pessoalmente, nem em foto. Nem nome eu sei — o semblante de Priscila era tranquilo. Era algo já bem corriqueiro na vida dela. — Eu faço parte de uma comunidade de hackers, e ninguém sabe o verdadeiro nome de ninguém.

— Viu? Eu sempre falei que você é hacker.

— Estou longe de ser hacker. Lee que me adicionou nessa comunidade há alguns anos — ela estava pensativa. — É... acho que estou nessa comunidade faz uns dois anos. Mas minha participação é praticamente nula.

— Lee?

— É. Meu amigo que passou sobre as informações do Uptown. Mais conhecido como Lee.

A conversa mais trazia dúvidas do que esclarecia.

— Eu sei que não estou respondendo suas dúvidas, Bia — Priscila conseguia ler as expressões no rosto da amiga. — Mas é Lee que entra em contato comigo, nunca o contrário. Eu nem sei como entrar em contato com ele. Ou ela. Pelo jeito que escreve, eu diria que é homem, mas a gente sempre pode se surpreender com as pessoas, não?

— E quanto ele é confiável?

— Para mim, cem por cento — Priscila respondeu com convicção. — Como eu disse, ele que entra em contato comigo, nunca o contrário. Quando Lee me procurou esta manhã ele já sabia que eu estava interessada no Uptown. Como isso é possível, juro que não sei, mas ele sabia.

— O que é estranho, porque nem conta no Uptown você tem.

— Pois é! — um grão de arroz voou pela boca de Priscila, tamanha a empolgação da conversa. — E ele me garantiu de que não compartilhou essa informação com mais ninguém, só comigo.

— Por que, se sabe tanto assim sobre o Uptown, Lee não vende a informação para emissoras de televisão, ou jornais e revistas? Com certeza faria uma boa grana.

— Já questionei. Ele diz que tem seus motivos, e que dinheiro não é um deles. Acho que tenho que esperar cenas dos próximos capítulos para conhecer os verdadeiros motivos — Priscila estava pensativa. Conversar sobre Lee em voz alta era algo novo para ela e trazia diversas dúvidas à tona, coisas que ela não se questionava quando as ideias permaneciam apenas em sua massa cinzenta. — É a primeira vez que Lee e eu conversamos sobre o Uptown.

— E você disse que se conheceram há dois anos? — era uma pergunta afirmativa.

— Deixe-me ver... — Priscila tentava lembrar qual era a circunstância para o primeiro contato. — Acho que a primeira vez que Lee falou comigo foi logo que me mudei para São Paulo.

A mente de Beatriz estava em um turbilhão de ideias. Tentou organizá-las rapidamente. Lee contatou Priscila naquela manhã para falar sobre o Uptown especificamente, e ele tinha mais informações do que qualquer um. Ele sabia que ela foi a primeira pessoa a receber o convite do Uptown, e o pai dela, a segunda. Como ele sabia? Seria ele o criador do Uptown? Se sim, ele e Beatriz deveriam ter alguma ligação também. Lee começou a conversar com Priscila há cerca de dois anos, quando ela se mudou para São Paulo e isso foi...

— Quando começamos a morar juntas! — as duas falaram, ou melhor, gritaram em uníssono.

As duas amigas se entreolharam, assustadas com a conclusão, e Priscila se levantou da mesa, pegou a mochila pendurada no suporte da entrada e voltou a se sentar. Afastou o prato de comida, abriu o laptop e começou a digitar nervosamente.

— O que você está fazendo? — Beatriz perguntou.

— Um minuto, Bia. Você já vai saber.

Foi mentira dela. Não foi só um minuto. Foram vários. De repente, Priscila parou e olhou para a amiga.

— Lee é o criador do Uptown — falou meio boquiaberta. Priscila tinha os mesmos questionamentos em sua mente.

— É? Você está afirmando? — Beatriz se levantou e foi olhar a tela do laptop. Eram só várias janelas abertas com fundo preto e várias coisas escritas.

— Sim, estou afirmando — Priscila tinha o semblante de satisfação, enquanto Beatriz estava perplexa. — Eu acho que Lee abriu uma brecha proposital para mim, para que eu pudesse descobrir essa relação. Consegui fazer algumas comparações dos servidores e tudo bate.

— Então ele está se entregando?

— De certa forma, podemos dizer que sim. Só para mim — ela falava cautelosamente. — E acho que é porque somos amigas. Nada indica que eu tenha qualquer relação com o Uptown. Sou só uma ponte entre Lee e você — apesar de tentar disfarçar, havia um pouco de desapontamento na voz dela.

Beatriz abraçou Priscila.

— Eu amo você, Pri. Você é a ponte mais que necessária na minha vida.

— Você é a irmã que escolhi, Bia — ela disse carinhosamente. — Estou sentindo tudo na pele como se fosse comigo mesma. Só espero que Lee não me descarte depois dessa. Não quero ficar de fora.

— Você não vai — Beatriz garantiu. — Você sabe que vou precisar muito de você com esse Lee aí. Caramba... Quanta informação para absorver!

— A pergunta que não quer calar é: Quem é Lee?

— Não só isso — Beatriz pontuou. — Eu conheço Lee?

 

Finalmente, conforme recomendação de Jake, Beatriz confirmou que mais nenhum veículo de informação, fosse televisão, rádio, jornal ou revista, tinha acesso às mesmas informações que ela. Lee só havia contatado Priscila e Lee era o criador do Uptown. Beatriz achou melhor não mencionar Lee em sua matéria, não ainda. Mas deu todos os créditos a Priscila Albuquerque. Terminou de escrever eram quase nove horas da noite e dirigiu por cerca de meia hora, diretamente para a casa de Fabio Ruiz. Para um bairro na capital, era um lugar tranquilo, bem arborizado, varandas gramadas. A maioria das casas possuíam grades e algumas mais novas já se escondiam atrás de grandes portas basculantes de madeira.

A casa de Fabio era de grade, com um quintal muito bem cuidado, com uma pequena varanda com um balanço de madeira. Muito aconchegante. Beatriz conseguiu enxergar tudo isso, pois a casa tinha sensor de presença, o que a assustou logo que chegou, mas depois trouxe até certo alívio. Ela tocou a campainha, ou melhor, o interfone e, alguns longos segundos depois, uma voz feminina atendeu:

— Não pedimos comida, obrigada.

— Eu não sou nenhum entregador — Beatriz disse, e riu baixo, pois, na verdade, ela estava indo entregar algo. Não era comida, mas, mesmo assim, era uma entrega. — O senhor Fabio Ruiz me aguarda. Sou Beatriz Rezende.

O portão deu um estalo, indicando que fora aberto. Beatriz empurrou e ficou imaginando quem poderia ser a mulher que estava com Fabio. Ele era muito discreto quanto à vida pessoal. Há quem dissesse que ele era gay, ou um tipo de monge, ou até mesmo hermafrodita. Beatriz sorriu para si mesma e concluiu que desvendaria mais um dos mistérios do Clarim.

A porta que dava para a pequena varanda com o balanço de madeira se abriu e emanou uma luz de dentro da casa. Fabio apareceu de jeans e camiseta e descalço, os cabelos desgrenhados.

— Desculpa atrapalhar — ela falou, provavelmente corando, mas o ângulo da luz não iluminava o rosto dela.

Fabio riu sem graça. Ele tinha acabado de transar e isso era óbvio.

— Eu que peço desculpas, Beatriz. Por favor, entre.

Ela se perguntou se precisava mesmo entrar. Não era só entregar o material e ir embora? Lógico que não. Fabio precisava ler o que iria publicar. Ainda mais vindo de uma novata como Beatriz. Ela entrou e não viu nenhuma mulher, só uma sala espaçosa, clara e bem masculina. Fabio guiou Beatriz até o sofá preto de couro, que se mostrou mais confortável do que aparentava. Ela só torceu para que ele não tivesse acabado de fazer sexo ali. A sala estava muito organizada, então ela concluiu que devia ter rolado no quarto – ou em qualquer outro cômodo da casa – e respirou aliviada.

Beatriz entregou o envelope contendo o artigo, mais o material de pesquisa.

— Uh-oh... O que temos aqui?

Fabio lia atentamente, sem pressa. Então, a mulher apareceu na sala. Beatriz não viu de onde ela veio. Uma mulher de estatura mediana, mas muito elegante. Tinha o cabelo loiro e curto e usava um conjunto de camisa e saia que acentuava suas curvas. Demorou alguns segundos para Beatriz reconhecer Christina Windsor, editora-chefe da revista Século, aquela de quem Priscila conseguiu pegar o artigo antes de ser publicado.

A mulher caminhou rebolando até Fabio e se sentou ao lado dele, puxando o rosto dele para si e enfiou a língua na boca dele, como se marcasse território. Fabio colocou uma das mãos da lateral do rosto dela e não teve pressa em finalizar o beijo, como se entregasse completamente a ela. Sem dizer uma palavra, Christina finalizou o beijo selando a boca de Fabio e se levantou, pegou suas coisas e saiu pela porta.

— Perdoe-me por isso — Fabio falou depois que a porta se fechou. — Ela sempre faz isso.

Christina Windsor e Fabio Ruiz. Isso sim era um furo de notícia dos grandes. Por isso que existia esse clima de rivalidade entre uma revista e um jornal, o que, na cabeça de Beatriz, não fazia muito sentido. Não até aquele momento.

— Não se preocupe — ela falou depois de pesar bem as palavras. — Não vou contar a ninguém.

Ele sorriu um meio sorriso. Fabio não esperava que Christina aparecesse em sua casa naquela noite, por isso falou para Beatriz passar lá para entregar a matéria. Mas Christina sempre aparecia nos momentos mais inesperados e ele não conseguia dizer não. Não conseguia não se entregar a ela até se ver perdido no cheiro dela. Christina também não conseguia se afastar de Fabio, mas uma relação mais profunda era sempre tóxica para ambos, então acabavam por parar um na cama do outro esporadicamente. E isso impedia que Fabio seguisse sua vida e tivesse um relacionamento normal, pois ele sempre voltava para Christina. Sempre.

Após longas batidas de coração, ele se lembrou o que estava fazendo.

— Obrigado — Fabio falou, finalmente. Ele não se importava com o que as pessoas pensavam. Na verdade, divertia-se em saber como as pessoas gostavam de cuidar da vida dos outros. Já diziam pelo Clarim que ele era gay ou até mesmo hermafrodita por nunca estar em um relacionamento. O fato de ele ser editor executivo de um grande jornal ainda o tornava praticamente o centro das fofocas. Mas Christina se importava com o que outros pensavam dela. Se fosse para ter seu nome circulando em rodinhas de fofoca, seria somente para falar de suas publicações, das quais ela tinha muito orgulho. Nada de relacionamentos com homens mais novos e com cargos superiores ao dela.

Tanto Fabio como Christina sempre foram muito competitivos. A competição entre eles começou na faculdade, quando trabalhavam no jornal da universidade. Ela era veterana, no penúltimo ano do curso de jornalismo, e presidente do jornal universitário. Fabio era calouro e, em menos de um ano, chegou à vice-presidência do pequeno jornal e já competia pelo cargo mais alto. A rivalidade os atraiu e, apesar de sempre brigarem, terminavam juntos na cama. Tentaram namorar no último ano dela, porém fora da cama o relacionamento deles era um desastre.

Christina se formou e logo se tornou editora-chefe da revista Século, enquanto Fabio ainda era um mero estudante. Essa foi a época em que conseguiram manter um relacionamento mais ou menos saudável por cerca de um ano e meio. Depois se afastaram, pois Fabio foi trabalhar em uma pequena revista bem longe de Christina. Ela permaneceu no cargo, enquanto Fabio foi de jornalista medíocre de uma revista medíocre a editor executivo do Clarim em um piscar de olhos. Desde então, a rivalidade só aumentou e, naquele dia em particular, Christina foi se gabar que teria uma matéria bombástica sobre o Uptown, que seria publicada no dia seguinte. Mal ela sabia o que Fabio escondia nas mangas. Quem ri por último, ri melhor.

— Bom... uh-oh! O que temos aqui? — ele mudou completamente o foco para o material que Beatriz trouxe. — Então você foi mesmo a primeira pessoa a receber o convite do Uptown? E seu pai o segundo? — ele jogou o corpo para trás. — Caramba. O criador do Uptown é brasileiro?

— Muito provavelmente, mas não vamos tomar conclusões precipitadas.

Uptown
Beatriz R. atualizou o status:
A vida é uma caixinha de surpresas.
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