1. Spirit Fanfics >
  2. Valentine's Day - As palavras ditas em 14.02 (Jihan) >
  3. Falling For U

História Valentine's Day - As palavras ditas em 14.02 (Jihan) - Capítulo 1


Escrita por: MashiroHanabi

Capítulo 1 - Falling For U


  Não importa quanto o tempo passe… Eu nunca vou me esquecer da primeira vez que eu te vi.

 

 Em 2013, aos 18 anos, tinha acabado de sair do meu país.

  Minha amada L.A. ficara para trás, e lá estava a bela e misteriosa Seoul. Eu havia sido descoberto pela Pledis num festival de rua, meses atrás, e ia finalmente realizar meu sonho de ser pago para fazer o que mais amava: cantar.

  Nem bem havia descido do avião, e lá estava o pequeno Josh colocando suas malas dentro de um dormitório minúsculo, que sabia que dividiria com mais 16 rapazes. Apenas um banheiro. Um único banheiro para 17 homens, imagine onde estavam minhas expectativas.

  Mas e se eu te disser que mesmo assim estava animado e otimista? Não sei, era o que eu sentia...

  Mal coloquei as malas no lugar, e já seguia meu caminho até a empresa. A versão mais jovem de mim mesmo trajava roupas casuais e simples, enquanto esperava atrás de uma grande porta de madeira. Quando a mesma se abriu, uma figura desconhecida me agraciou com seu sorriso inspirado, que mostrava suas rugas e disfarçava sua cara de casado. Aquele era o nosso empresário, a pessoa que cuidaria de nós durante todo o tempo, nosso querido manager.

  — Hong Jisoo-ah? Muito prazer, me disseram que você viria hoje!  — Meus ouvidos estranharam ser chamado daquele jeito por alguém que não fosse da minha família.  — Venha, vou te levar para conhecer os outros.

  Em poucos minutos, estávamos em frente à outra porta. Atrás dela, 16 jovens conversávem e se divertiam enquanto aprendiam os mais variados passos de dança. Fui deixado lá sem maiores apresentações, e sem conhecer ninguém. O frio na barriga fazia-se presente, assim como o suor em minhas mãos.

  Era como o primeiro dia de aula. Não conhecia ninguém e me sentia sozinho, com saudade de casa e vontade de correr para os braços da minha mãe. O manager havia me informado sobre a existência de Vernon, outro membro americano no grupo. O identifiquei de cara. Também, pudera! Cabelos ondulados e num tom escuro de castanho, e olhos não tão puxados quanto os outros orientais. Hansol, porém, estava se divertindo com os outros, se mostrando muito mais extrovertido do que era esperado. Vendo aquilo, descartei a ideia de fazer amizade com ele primeiro. Resolvi tomar meu lugar encostado à parede, num lugar onde não havia mais ninguém.

  Tirei o celular do bolso e comecei a mexer. Havia uma mensagem dos meus amigos americanos, um foto onde todos tinham o punho levantado e sorrisos nos rostos, com a legenda “Você consegue, Josh!!!”

  “Que saudade de casa” pensei, suspirando pesadamente, deixando os fios negros caírem sobre meus olhos. Senti um medo fora do comum, depois de mais de uma hora sentado ali. Com certeza era um exagero da minha parte, mas naquele momento nada me tirava da cabeça que eu não seria aceito, não faria amizades e que era melhor voltar logo para a América antes que as coisas dessem ainda mais errado.

  Naquele momento, onde eu me via completamente perdido e inundado de insegurança, uma sombra fez-se presente, bloqueando parte da luz que vinha das muitas lâmpadas existentes naquela sala. Mal sabia eu que aquela sombra era, de fato, a luz que eu mais precisava.

   — Olá! Você chegou hoje?  — Quando me atrevi a olhar para cima, vi um ser dotado de tamanha beleza, tamanho brilho e uma aura tão pura, que pensei que estivesse na presença de um verdadeiro anjo. Os cabelos negros um pouco mais longos que os meus, o rosto fino, o nariz pequeno e gracioso e um sorriso radiante… Tudo aquilo me fez questionar o fato de não tê-lo notado antes.

   — Oh. S-Sim… Eu… Olá!  — Sorri, sem jeito. Cocei a nuca e vi o sorriso do outro aumentar, enquanto ele se agachava na minha frente, abraçando as pernas.

   — Eu sou Yoon Jeonghan. Sou novo também.  — Sem perceber, mudei minha postura, tomando por endireitar-me e cruzar as pernas.

   — Meu nome é Josh-Hong Jisoo.  — Apressei-me em corrigir o erro, já levemente constrangido pela cara confusa que o outro fez. Ri, sem graça.

   — Muito prazer, Josh Hong Jisoo. — Ele sorriu abertamente, rindo de sua própria piada. Sua risada era infantil e inocente, e combinava com seu rosto. Fiquei constrangido por notar que realmente, ele tinha percebido meu deslize, mas me apressei para desfazer o mal entendido.

   — É-É que eu sou americano, então estou acostumado a usar o nome pelo qual eu era chamado na minha cidade natal, desculpe.  — Ri forçadamente.

   — E qual era esse nome?  — Jeonghan mantinha aquele sorriso gentil no rosto, parecendo genuinamente curioso. Eu me lembro daquela expressão como se fosse ontem. Era a mesma expressão que ele sempre mostrava quando queria saber sobre minha cidade natal e minha cultura.

   — Joshua.  — Falei num fio de voz. Depois de alguns segundos, o outro alargou o sorriso, encarando o nada e escrevendo no ar usando Hangul.

   — Jo-shu-a. Joshua… Que nome bonito.  — Sorri em felicidade genuína, com o peito cheio por alguém gostar do meu nome e ser tão gentil comigo logo de primeira.  — Seu sorriso também é bonito… Combina com o nome.  — As palavras dele continham sinceridade e logo de início eu me senti acolhido pelo meu novo amigo.

  Os dois anos que passamos como trainees foram difíceis. Tanto para mim quanto para Jeonghan, que não éramos tão habilidosos dançando, e apesar de sermos bons cantores, não éramos os melhores dali. Mas eu me senti bem só por estar com ele. E talvez tenha sido já naquela época que eu me apaixonei pelo garoto com apelido de anjo.

  Talvez, só talvez, eu tenha pedido que meu stage name fosse Joshua por causa daquele episódio da primeira vez em que vi o mais velho. Talvez, só talvez, eu sentisse falta dele me chamando assim, já que o mesmo pegou o costume de me chamar apenas de Jisoo.

    

 

                                                                

 

  A cada ano que passava, eu via os casais coreanos comemorando o Valentine’s Day, entupindo-se de chocolate e amor. E o Josh aqui? Eu ganhava chocolate do Jeonghan. Quer dizer, não do jeito que todo mundo ganha, seguido de vários “eu te amo”, “vamos namorar”, “be my valentine” e etc. O mais velho nunca gostou muito de doces, e embora apreciasse um pouquinho o amargor de alguns chocolates, ele simplesmente não conseguia consumir todos que ganhava, e acabava dividindo conosco (principalmente comigo).

  Era 2015 e nós ainda não tínhamos debutado. Faltava apenas três meses para a nossa estreia oficial, e nossos cuidados com a pele e cabelo tinham triplicado desde o começo do ano. Era importante estar bonito e apresentável para as câmeras, e claro que isso não era dificuldade nenhuma para Jeonghan, que esbanjava beleza.

  Naquele dia, que continua tão fresco em minha memória, naquele Valentine’s Day, foi quando a minha relação com meu melhor amigo (até então) mudou de figura.  

  O Yoon tinha acabado de sair do banho, e esfregava os cabelos, que já ultrapassavam a linha dos ombros, com uma toalha felpuda. Dediquei dois segundos para admirá-lo vestindo aquelas roupas largas, confortáveis e quentes, com aqueles fios molhados que o deixavam ainda mais delicado. Não o apelidamos de “Anjo” atoa.

  Depois de tirar o excesso de água, o outro pôs-se a pentear os fios, com muita dificuldade aliás. Apesar de lhe cair muito bem, o visual dava muito trabalho, principalmente pela quantidade de nós que apareciam. Eu, que estava sentado no canto do quarto, tocando violão, levantei-me rapidamente para ajudá-lo. Isso acabou se tornando um costume entre nós, porque Jeonghan era muito preguiçoso, e o que não me faltava era a vontade de penteá-lo. Juntávamos o útil e o agradável, por assim dizer.

   — Sua ex-namorada nem devia pentear o cabelo, tenho certeza que você fazia isso por ela.  — Disse o mais velho, rindo do próprio comentário. Fiquei confuso à princípio, pois não me lembrava de tê-lo dito que tive uma namorada.

   — Que namorada, Jeonghan?  — Continuei a escovar seus cabelos, mesmo com o cenho franzido e com a minha memória sendo revirada atrás daquela informação.

   — Você me disse que namorava quando estava na América.  — E então me lembrei de ter dito exatamente aquilo, num dia em que estávamos no mercado, comprando mantimentos. Era uma coisa tão boba, e naquele momento o outro parecia bem indiferente à tal informação. O que eu não esperava era que ele fosse guardá-la tão bem na memória. Suspirei pesadamente, jogando aquele ruído no meio do quarto vazio e silencioso, que já beirava o constrangimento pela falta de palavras.

   — Sim… Eu namorava… Mas nunca disse que era uma garota.  — Os cabelos se desprenderam da escova, mostrando que o mais velho se afastava para poder me encarar de frente. Novamente, estava tudo silencioso, e meu coração falhou uma batida enquanto encarava aquelas íris escuras e confusas.

   — Jisoo… Você…  — Nossa, como eu odiava que ele me chamasse assim. Jeonghan só me chama de Jisoo quando está bravo ou quer falar sério.  — ...V-você namorou um rapaz?  — Sua voz tremia, e eu podia apenas imaginar que era uma complexa mistura de sentimentos. Raiva, repulsa, medo, nojo…

   — Sim, eu namorei apenas rapazes.  — Disse sério e sem rodeios. E sim, fiz questão de colocar no plural, e revelar, de uma vez por todas o quanto eu já estava ferrado por estar num grupo de k-pop e ser gay assumido (pelo menos para meus amigos próximos e familiares). A respiração do Yoon começou a acelerar, e seu rosto empalideceu.

   — Mas… I-isso não é errado?  — Naquela hora eu já não sabia mais o quê sentir e menos ainda o quê pensar.

  Yoon Jeonghan era o “heterossexual” mais feminino que já vi na vida. Além dos cabelos longos, da risada infantil e do rosto delicado, ele nunca havia demonstrado interesse por nenhuma mulher, e adorava imitar meninas de grupos femininos. Parecia ter um tipo de apreço por tudo que era adorável, e seu jeito de ser era muito mais delicado e gentil do que muitas mulheres que já convivi na América. Com certeza, se apresentado para ocidentais, será taxado como gay, mesmo que jure por sua alma se afeiçoar apenas pelo sexo feminino. Eu mesmo, dentro dos meus pensamentos diários, mantinha fortemente a ideia de que Jeonghan gostava de rapazes no topo da minha lista de suposições loucas. Para ser bem sincero, esperava um dia me confessar para ele e não ser enxotado como estava quase sendo naquele momento. Sim, naquela hora, eu tive certeza de que o mais velho nunca mais me veria da mesma forma, e que nunca mais seria tão afetuoso e adorável comigo. Arriscava dizer que talvez nunca mais fôssemos amigos, e que talvez até ele contasse aos outros sobre a minha orientação sexual e que eu fosse tirado do Seventeen faltando pouco mais de três meses para o debut.

   — Não, Jeonghan-ah. De onde eu venho, as pessoas não escondem a sua sexualidade e tentam o seu melhor para serem felizes com quem amam. Na América já é possível que pessoas do mesmo sexo sejam legalmente casadas.  — Diante do seu silêncio, fui incentivado a continuar.  — Nenhuma forma de amor é errada, Jeonghan. Na verdade, a única coisa que pode salvar esse mundo cruel em que vivemos, é o amor. Não tenho vergonha de amar alguém como eu… Na verdade, sinto que o amor que existe em mim apenas se multiplica quando isso acontece. Então eu sou feliz por ter nascido assim, já que não é uma escolha.  — Eu sorri, e o outro desviou seus olhos para baixo, constrangido por algum motivo totalmente desconhecido.

   — Os outros… O manager… Eles sabem?  — Falou, num fio de voz. Meu coração estava quase se despedaçando, estava claro que ele nunca poderia saber sobre os meus sentimentos.

   — Não, e não podem saber.  — Ele levantou os olhos para me encarar, o cenho franzido e a expressão semelhante a de uma criança assustada.

   — Mas se não é errado, por que não podem saber?  — Sua voz saiu mais alta, e felizmente estávamos sozinhos no dormitório naquele dia, pois se tivesse algum outro membro, em algum outro canto, certamente estariam ouvindo as lamúrias do Yoon.

   — Porque a Coréia é um país homofóbico. Homossexuais são visto como pessoas inferiores e defeituosas aqui. Mas veja bem: somos amigos muito próximos desde 2013, e se até agora, depois de tudo, eu ainda não te provei ser o contrário do que os coreanos acham sobre os gays, então todas as palavras gentis que você me disse até hoje são falsas.  — Continuei sereno vendo o rosto do outro se contorcer em uma carranca pensativa. Devo dizer que até assim ele era adorável, sentando-se no chão encarando os próprios pés envoltos por meias grossas, enquanto corria os olhos fisicamente por todo o cômodo, mas mentalmente por todos os cantos de sua memória.

   — Talvez… Talvez você tenha razão.  — Suspirou pesadamente.  — E não adiantaria, também. Nós não podemos namorar ninguém, de qualquer forma. A empresa nos colocaria na rua se isso acontecesse.  — Agachei-me e sentei à sua frente, espelhando seus movimentos, porém, com um sorriso calmo no rosto.

   — Exatamente. É só um detalhe, e não faz a menor diferença no profissional e no amigo que eu sou pra você.  — Mas a verdade é que fazia diferença sim. Minha vontade era de aproveitar o clima romântico de dia dos namorados e dizer pra ele o quanto eu estava apaixonado pela sua pessoa, tomá-lo em meus braços e beijá-lo até o ar dos meus pulmões acabar. No entanto, me contentei em esticar o braço e tocar-lhe o joelho dobrado.  — Continuamos numa boa?  — Perguntei com um meio sorriso e olhos cheios de expectativa pela resposta positiva do outro. Ele suspirou pesadamente e abriu lentamente um sorriso.

   — Quer saber? Acho que sim.  — Soltou uma risada soprada, pegando minha mão e apertando-a firmemente, como se quisesse confirmar a veracidade de suas palavras.  — Eu não vou dizer aos outros, e tudo vai continuar como sempre. Eu gosto muito de você, Joshua.   — Sorriu abertamente, trazendo luz para toda aquela conversa difícil de se ter.

   — Então… Você quer que eu seque seu cabelo?  — Ri, já desviando do assunto para não nos complicarmos mais.

   — Sim! Por favor!  — Jeonghan levantou-se como um foguete, pegando o secador e pondo-o na tomada, enquanto eu tirava o excesso de cabelos da escova, de cabeça baixa e tentando normalizar as batidas desnecessariamente aceleradas do meu coração.

  Daquele dia em diante, ninguém mais soube sobre a minha orientação sexual e menos ainda sobre os meus relacionamentos anteriores. A confiança entre eu e meu melhor amigo apenas aumentou, enquanto tentava esconder à sete chaves os meus sentimentos por ele.



 

                                                            


 

  Enquanto eu lhes conto essa história, um detalhe que não pode passar despercebido é o de um fatídico episódio que aconteceu em Setembro de 2016. O Seventeen estava em época de promoção, e eu preciso dizer que não é possível: O UNIVERSO SHIPPA JIHAN! É, Jihan, eu pesquisei na internet e descobri que é assim que nos chamam. Risos.

  Voltando ao desastre, antes quero lembrar do primeiro Weekly Idol que participamos, onde brincamos de passar o papel boca-a-boca. Adivinha onde me colocaram? Exatamente! No começo da fila, antecedendo Jeonghan.

  Sentir a respiração da pessoa por quem você é apaixonado tão perto do seu rosto, e ficar pressionando a boca dela na sua, sendo separados apenas por um pedaço de papel, me parece uma excelente ideia, não é mesmo? Claro que é, claro que é. Risos de nervoso. Nunca suei tanto em toda minha vida.

  O mais irônico é que aquele episódio de Weekly Idol pareceu ser apenas um teste, um sinal que previa o acontecimento do ano seguinte. Sim, aquele que eu mencionei agora pouco. Vou lhes contar a comovente e nada catastrófica história daquela tarde/quase noite de Setembro.

  Estávamos todos os treze sobre o palco, durante o Fanmeeting de Taipei, nos divertindo e passando aquela vergonha que já éramos acostumados a passar. Todos felizes e alheios aos problemas externos, simplesmente por estarmos brincando e entretendo as fãs. Absolutamente nada podia dar errado até chegar no Pepero Game.

  Para você, que nunca ouviu falar dele, é um jogo onde duas pessoas comem as duas extremidades de um palitinho de biscoito coberto com chocolate, ao mesmo tempo e se aproximando. O objetivo é deixar o mínimo de biscoito possível sobrando entre as duas bocas, e em algumas versões do jogo, aquele que quebrar o biscoito primeiro, perde. Uma ótima desculpa para adolescentes japoneses e coreanos roubarem um beijo de alguém. E, claro, um ótimo fanservice!

  Parecia tão divertido e inocente até chegar em mim.

  Adivinha quem colocaram para jogar comigo? Isso mesmo...Yoon Jeonghan.

  Naquela hora, eu posso garantir que comecei a rezar e pedir para Cristo perdoar meus pecados, pois tinha certeza que morreria de ataque cardíaco no meio da prova. Minhas pernas tremeram e eu nunca fiz tanto esforço para fingir indiferença na vida. Logo eu, o cavalheiro mais dissimulado de todo o Seventeen. Meus cabelos tingidos de ruivo, que nunca me incomodaram, começaram a atrapalhar minha visão, e cheguei a sentir inveja do Yoon por estar usando os seus na altura do maxilar e penteado para um lado só, pois a minha franja ia começar a grudar na testa.

  Jeonghan sorriu para mim. Um sorriso bonito que dizia “Tudo bem, é só um jogo. Vamos fazer bem”, calmo e completamente alheio ao caos que aquela insinuação estava fazendo dentro de mim.

  Respirei fundo e umedeci os lábios, pegando o pepero e posicionando entre os lábios do maior. Eu só pensava em fazer aquilo rápido, então me apressei em morder o outro lado, nem percebendo que apertava firmemente o ombro do moreno. Nos aproximamos o máximo possível, e quando vi que não dava mais, me separei rapidamente. Jeonghan pareceu bravo, pois sabia que conseguíamos fazer melhor. Me fiz de louco e apenas sorri, fazendo sinal de positivo para as fãs, mal registrando os elogios de Seungkwan e Jun.

  O que eu não esperava é que o outro pediria outra chance, e pior, antes de fazê-la, chegar pertinho do meu ouvido para sussurrar “Pode vir sem medo, Shua”. Esse garoto estava me testando?!!! Parece que sim.

  Dessa vez ele já me esperava com o pepero na boca, e os olhos cheios de determinação. Competitivo? Nem um pouco.

  Respirei fundo, mais fundo que da outra vez, e fui em direção ao outro procurando apenas cumprir o que este me pedira. Inclinei minha cabeça para o lado, mordendo a outra extremidade e seguindo em frente, centímetro por centímetro. Tudo pareceu estar em câmera lenta. Quanto mais próximo, mais sentia a respiração de Jeonghan contra a minha bochecha. Fiz menção de tocá-lo, mas estava tão perto da boca dele que tive medo de me perder e agarrá-lo de uma vez. E quando menos esperava, já podia sentir aquele ar úmido em volta da minha boca e o hálito de chocolate que ele tinha naquele momento. Eu estava gritando por dentro, e quando nossas peles se tocaram sutilmente, me permitindo sentir a lateral dos lábios do outro, quase que como um beijo de verdade, ambos nos afastamos.

  Eu, que sempre me orgulhei de fingir que não tem nada acontecendo, e que não é comigo que estão falando, acabei me afastando bruscamente e dando na cara que alguma coisa ali tinha encostado. Já Jeonghan… Bem… Ele parecia bem feliz em vencer a competição. O suficiente para não se importar com o quase beijo que demos na frente de todos os membros e de um número considerável de fãs.

  Isso era o que mais me deixava louco nele. Essa proximidade, que pareceu ficar até mais forte depois dele descobrir minha sexualidade. Para o Yoon parecia estar tudo ok, mesmo que já tivesse manifestado o quanto desgostava da ideia de se envolver romanticamente com outro homem. Para ele estava tudo bem me olhar nos olhos, me abraçar por trás e subir no meu colo. Estava tudo bem fazer sopa de algas no meu aniversário, me dar chocolate no Valentine’s Day e fazer cafuné na minha cabeça enquanto tentava pegar no sono dentro do avião. Para Jeonghan, todo carinho comigo e com as outras pessoas era inocente e verdadeiramente cheio de afeto.

  Não que com os outros membros do Seventeen não fosse assim. Não que Mingyu fosse menos homem por cozinhar para nós, que Jun fosse menos homem por andar abraçado com Minghao, e que Vernon fosse menos homem por bater na bunda de Seungkwan. Nada disso! Não estou aqui para julgar ninguém, e se todos dizem que são héteros, assim seja, até que provem o contrário. Não estou reclamando do carinho que recebo de qualquer um deles, afinal, somos praticamente uma família. Mas se considerar que Jeonghan é o único que sabe da minha sexualidade e ainda assim não se afastou, mesmo não gostando disso, é possível dizer que eu sou um sortudo por receber tal atenção.


 

                                                            


 

  E sabe o que é pior? Eu tentei. Eu juro que tentei tirá-lo da minha cabeça, dos meus pensamentos e sonhos ridículos, mas nada funcionou. Minha ideia era acompanhá-lo e tê-lo como o amigo mais próximo e mais querido. Fiz o meu melhor para que isso fosse possível, e sempre estive ao seu lado, sem verbalizar meu afeto, meu amor...mas estaria mentindo se dissesse que deixei de sentir aquilo.

  “Joshua...”

  A cada quatorze de Fevereiro, a cada Valentine’s Day me sentia mais feliz e mais triste. Feliz por estar ao lado dele e conseguir me conter quanto a isso, e triste por nunca poder mostrar o que eu sinto. Mais triste ainda por saber que para Jeonghan esse conceito de amor está errado, e por eu ter que entrar novamente no armário, depois de ter saído para toda minha família e amigos, antes de virar Idol.

  “Joshua...”

  A voz de Jeonghan parecia ecoar na minha cabeça, chamando meu nome e me tirando a sanidade. Como se fosse a trilha sonora daquele pensamento feliz e triste, enquanto eu olhava pela janela do carro, totalmente alheio à paisagem e ao mundo à minha volta.

   — JOSHUA! YAH!  — Virei meu rosto, assustado, encontrando um Jeonghan me encarando com uma expressão indecifrável, segurando a porta do carro aberta.  — Vai ficar aí o dia todo sonhando acordado?  — Me apressei em sair do veículo, vendo os outros membros andando em direção ao grande hotel enquanto o Yoon me esperava.

   — Me desculpe por isso.  — Coloquei a mochila nas costas e peguei minha mala no porta-malas. Meu rosto com certeza estava vermelho, e piorou depois que o outro começou a rir.

   — O que aconteceu? Você está perdido na sua própria casa?  — Nós estávamos em Los Angeles, tirando “férias”. Entre aspas porque faríamos ensaios fotográficos e daríamos entrevistas, além de trabalharmos em algumas músicas, mesmo que longe da Coréia. Era treze de Fevereiro e eu estava com a cabeça tomada por aquele friozinho gostoso e as decorações de coração em toda cidade. Provavelmente fora isso que me colocou para pensar na minha relação com o rapaz que sou apaixonado há uns cinco anos. Todo ano era a mesma coisa, afinal. Suspirei pesadamente enquanto fazíamos o check-in.

   — Eu só estou meio pensativo, sabe?  — Jeonghan me olhou confuso. Demorei tanto tempo pra responder que ele já tinha se esquecido que havia perguntado.  — Estava pensando em você, e em tudo que vivemos desde que te conheci.  — Confessei.

   — Eu também fico pensando nisso às vezes. Você era um estrangeiro adorável quando chegou. — Ele me deu o celular e os documentos para que eu os segurasse enquanto tirava as luvas. O rapaz, agora de cabelos castanhos avermelhados e curtos, tinha os olhos nas próprias mãos, mas sua mente parecia ir longe, e o que denunciava isso era o sorriso gentil em seu rosto.

   — E o que eu sou agora?  — Perguntei rindo. O outro riu de volta e pegou suas coisas das minhas mãos de maneira brusca, brincando comigo.

   — Um avoado que me deixa esperando com a porta do carro aberta!  — Rimos enquanto ele puxava sua mala e andava na minha frente. O rapaz virou-se para me olhar por cima do ombro, com o mesmo sorriso gentil estampado em sua face.  — Mas ainda é adorável.  — Era injusto alguém ter tanto poder sobre mim.

  Olhei para o chão, puxando minha mala e me dirigindo para o mesmo quarto que o outro. Dividimos esse com Soonyoung, que olhava no espelho do elevador com uma expressão de sono, pelo que se podia percebe0, sob a máscara preta.  — Essa criança parece cansada.

   — Eu? Nossa, nem me diga, hyung.  — Nós dois rimos da voz rouca de Hoshi. Olhei para o espelho e tentei encarar, ainda que discretamente, a imagem de Jeonghan com seu sorriso sincero enquanto trocava risadas com o menor.

  Durante todos esses anos, só o que fiz foi ficar olhando para ele, e sempre que chegava aquela época do ano, eu tinha vontade de bancar o príncipe encantado e levá-lo para conhecer o mundo nas minhas costas. O amor que nutria por ele se tornou tão grande que só queria vê-lo sorrindo, queria vê-lo saudável e muito feliz. Estávamos tão cansados durante a época de promoção que o brilho do Yoon estava levemente apagado, mesmo que finalmente tenhamos lançado nosso dueto.

  Ah, Falling For U… Uma música que continha parte dos meus fortes sentimentos pelo rapaz de sorriso angelical. Foi tão gratificante lançá-la oficialmente, foi tão bom gravá-la junto com ele, trabalhar na letra, na melodia… Aquela música fez de mim um homem mais apaixonado do que já era.

   —JOSHUA! DE NOVO?  — A porta do elevador estava aberta e Jeonghan a segurava, fazendo cara de bravo ao mesmo tempo que segurava o riso.  — Você está muito longe hoje, hein?

   — D-Desculpa.  — Saímos do elevador e entramos em nosso quarto, Jeonghan rindo da minha cara.

   — Caaaaaaaama!!!  — Hoshi pulou numa cama que julgou ser sua, que por sinal ficava entre as outras duas, e agarrou o travesseiro. -Não vou sair daqui nunca mais! Camas de hotel são tão confortáveis...

   — Yah, Soonyoungie! Você vai mesmo me separar do meu melhor amigo?  — Riu o moreno, sentando-se na cama da direita. Sorri com o comentário, colocando meus pertences sobre a cama da esquerda, abrindo a mala, em seguida.

   — Quero me sentir abraçado pelo amor de vocês, hyungs. Me ajuda a dormir melhor, eu sou uma criança carente, afinal.  — Ele disse enquanto retirava a máscara.

  Depois de alguns minutos, Jeonghan se levantou e começou a desfazer a mala, assim como eu. O silêncio estava confortável, e eu estava concentrado nas minhas coisas, mas simplesmente não pude reclamar do que veio em seguida, e acredito que um meio dormido Hoshi ao meu lado também não. A voz de Jeonghan preencheu o quarto lindamente.

   — Geureon sarami eodienga itgil baratneunde yeogi itne...  — Ele estava cantando Falling For U. O sorriso que abri não pôde ser contido.

  Virei-me e comecei a acompanhá-lo, justamente na parte da música onde harmonizamos.

   — Mareul geolkka malkka hancham gomindeuri mak meorissoge jakku eongkyeo...  — Caminhamos em volta da cama até nos encontrarmos. Cantávamos sorrindo e olhando apenas nos olhos um do outro, costume que temos desde que éramos trainees. Meu coração se aqueceu quando Jeonghan colocou os braços sobre meus ombros, num convite silencioso para uma dança, que foi prontamente atendido enquanto terminávamos aquele trecho.  — Gachi mashiryeogo haetteon keopineun beolsseo imi du janjae biwo...  — Assim que terminamos, começamos a rir sem motivo algum.

  Talvez estivéssemos levemente constrangidos, e a dúvida quanto a isso foi embora assim que desviamos os olhos para a cama, onde Soonyoung nos olhava com um sorriso travesso no rosto, enquanto tinha a cabeça apoiada sobre o punho. Logicamente não tivemos coragem de abrir a boca.

   — Vocês são fofos.  — Ele riu, e nós apenas fizemos o mesmo.

  Felizmente bateram na porta. Eu a abri, e fomos contemplados com um Mingyu mais animado do que nós três juntos.

   — Hyungs, vocês viram a piscina?  — Ele veio entrando com uma toalha no ombro e mais algumas tralhas na mão, já usando chinelos, bermuda e camiseta.

   —Piscina, nesse frio?  — Jeonghan disse, já voltando para perto de sua cama.

   — É uma piscina aquecida, e cabe a Coréia do Sul inteira lá dentro!  — Os olhos do maior brilhavam, e ele mais parecia uma criança de tão empolgado.

   — PISCINA AQUECIDA? ME ESPERA!  — Hoshi levantou como um foguete, abrindo a mala e pegando uma troca de roupas.

   — Você não disse que não ia sair da cama nunca mais?   — Em menos de um minuto o outro já estava pronto para ir.

   — Não sou louco de perder essa, Shua-hyung.  — Logo os dois já tinham nos deixado sozinhos no quarto, num silêncio levemente constrangedor depois daquela performance.

  Jeonghan se aproveitou disso para tomar um banho enquanto eu terminava de desfazer a mala e confirmava, por mensagens, o compromisso que havia marcado, de visitar um amigo meu. Depois que o mais velho saiu do chuveiro, tratei de tomar meu próprio banho e saí do banheiro praticamente pronto.

   — Vai sair?  — Perguntou o outro, já deitado, mexendo no celular.

   — Vou visitar um amigo. Quer ir junto?

   — Não. Estou cansado da viagem, não dormi nada no avião, diferente de alguém que eu conheço. — Olhou-me por cima do aparelho que tinha em mãos. Ri do comentário.

   — O nome disso é inveja.

   — Não. O nome disso é Lee Seokmin roncando como uma serra elétrica do meu lado.  — Nós rimos mais alto do que deveríamos, esquecendo totalmente que era um hotel. Peguei meus pertences, e antes de ir, sentei-me ao lado de Jeonghan na cama.  — Você vai demorar?

   — Não sei. Faz muito tempo que não vejo Gerard. Temos muito que conversar.  — Sorri. Jeonghan estava com uma expressão indecifrável e me puxou pela manga da blusa para me deitar ao seu lado. Assim o fiz, enquanto o olhava intrigado.

   — Você está tão distante hoje… Eu fiz alguma coisa, Jisoo?  — Ah, me chamando pelo nome coreano… Ainda não gosto quando ele me chama assim.

  Eu estava deitado de barriga para cima, e o Yoon, como estava de lado, apoiou a cabeça no meu ombro, abraçando-me pela cintura sem me encarar. Tombei a cabeça para o lado, encostando a minha na dele. Tive medo que ele pudesse escutar meu coração acelerado pelo contato tão íntimo, mas não consegui prestar atenção nas outras coisas enquanto sentia o cheiro maravilhoso do seu cabelo.

   — Não, você não fez nada. Eu nem reparei que tinha me afastado. Você me desculpa?  — Abracei-o de um jeito bagunçado.

   — Claro que sim. Mas você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?  — Suspirei pesadamente com a pergunta do outro.

   — Sei sim, Jeonghan. Sei sim.  — Levantei-me e fui em direção à porta.  — Até mais tarde.

   — Até!  — Sorrimos um para o outro e eu saí.

 

                                 

 

  O Uber me deixou em frente à um belíssimo prédio residencial, e o relógio marcava pouco mais de 19 horas. Uma cara conhecida apareceu, vindo até mim de braços abertos.

   — Jooosh! Há quanto tempo!  — Abracei meu amigo de infância, que parecia mais alto e mais forte do que a última vez em que nos vimos.  — Ou será que eu deveria te cumprimentar com “Annyeonghaseyo”?

  — “Hello” está ótimo, Gerard. — Ri suavemente.  — Como tem passado? — Ele me abraçou pelo ombro e foi me levando para dentro.

  Chegando no seu apartamento, pedimos pizza do mesmo lugar que costumávamos pedir no Ensino Médio. Gerard tinha se formado na faculdade de publicidade e propaganda e agora estava trabalhando para uma ótima agência. Conversamos sobre isso por um longo tempo, e ele disse que estava namorando uma moça há mais de um ano, e que os dois pretendem se casar logo.

  — E como vai o coração, Josh? Ainda apaixonado pelo garoto-garota? — Ele chamava Jeonghan assim desde que começou a acompanhar o nosso trabalho. Gee disse que cantaria o outro na rua caso o visse, pensando que era uma mulher. Eu sempre revirava os olhos para esses comentários de masculidinade tóxica dele, mesmo que não adiantasse muita coisa.

  — É… O de sempre. — Suspirei, pegando mais uma fatia de pizza de peperone.

  — Cara, por que não ficou com esse cara ainda, mesmo?

  — Ele é hétero.

  -E eu sou o presidente dos Estados Unidos! Josh, aquele cara não gosta de garotas nem aqui e nem na China! Ou melhor, na Coréia. -Rimos da afirmação o outro.

  -Eu também acho sinceramente que ele não é hétero. Mas pros coreanos é tão errado ser gay que a maioria se força a seguir “o padrão”. Sem falar que sendo Idols, não podemos namorar outras pessoas e nem nada do tipo, a empresa acabaria conosco.

  -Você não tem vontade de fazer uma loucura? -Ele abriu a garrafa de Coca-Cola e encheu os dois copos. Olhei-o, intrigado.

  -Que tipo de loucura?

  -Levar o cara pra sair sem a sua equipe ver, tentar despertar algo nele, entende?

  -Levar o Jeonghan pra sair sem a empresa no meu pé… Acho que é o meu maior sonho. -Ri, apoiando a lateral do rosto sobre minha palma aberta.

  -Por que não faz isso hoje? Aproveita que estão aqui, sai de madrugada com ele. -Gee tinha os olhos brilhando como se fosse ele quem estava vivendo uma paixão como aquela.

  -Que jeito? À pé? De Uber? Se a empresa não pode saber, eles nunca emprestariam o carro. E não podemos nos arriscar a andar por aí de transporte público. -Suspirei frustrado, limpando as mãos e vendo pelo relógio que era mais de dez horas da noite. Gerard se levantou, indo até o móvel que tinha ao lado da porta e então voltou ao sofá.

  -Aqui. Use isso. -Ele sorria enquanto me oferecia as chaves do seu carro. Levantei de supetão.

  -Você é louco? Quer me emprestar o seu carro pra fugir com Jeonghan? -O outro se aproximou e pegou meu braço, me obrigando a aceitar as chaves.

  -É só devolver limpo e abastecido e eu não me importo se levar ele até o México e voltar. Não aguento mais você suspirando por essa paixão mal resolvida!

  -Você sabe que não vou fazer nada com ele, não sabe? -Ri soprado, ainda desnorteado com a ideia, que pra ser sincero, era muito atraente.

  -Eu sei, você é muito cagão. Mas pelo menos faça alguma coisa junto com ele, uma vez na vida. Alguma coisa pra se lembrar e contar pros netos. -Deu um sorriso bobo.

  Fiquei alguns segundos cogitando a ideia na cabeça, pensando sobre o quanto queria um momento só nosso. Um momento para encher o Jeonghan de carinho e agradecer por tudo que ele me proporcionou até hoje. Suspirei pela milionésima vez naquele dia e abracei meu amigo com força.

  -Obrigado! Muito obrigado! -Ele me abraçou de volta e depois daquilo ficamos mais um tempo conversando, até eu resolver ir embora.

  O carro de Gerard era uma BMW branca, cheirando a limpeza e muito confortável. Que sorte eu ainda ter a carteira de motorista.

  Quando voltei para o hotel era quase meia-noite, e eu entrei super escondido. Precisei deixar o carro do lado de fora, e entrar no quarto na ponta dos pés. Jeonghan e Soonyoung dormiam feito pedra e eu me aproveitei disso para colocar uma roupa mais quente e pegar roupas quentes para o mais velho também. Coloquei tudo numa mochila e deixei perto da porta.

  Fiquei um tempo enrolando, entrando nas redes sociais até ter certeza de que os outros membros e staffs tinham desconectado e ido dormir. Vou deixar uma nota mental para dar um belo tapa na cabeça de Woozi, pois esse pintor de rodapé só desconectou depois das duas da manhã.

  Assim que tive certeza que o território estava seguro, caminhei na ponta dos pés até a cama de Jeonghan, me deitando ao seu lado. Ouvi aquela respiração de quem acaba de acordar e um gemido enquanto ele se espreguiçava.

  -Sou eu. -Sussurrei. Ouvi uma risada baixinha, seguida de braços na minha cintura. Arrepiei por completo.

  -Eu sei que é você. Demorou muito Shua. -Aquela vozinha rouquinha e sussurrada era uma afronta contra o meu coração.

  -Desculpe… -Estava tão confortável ao seu lado na cama que quase desisti de sair para ficar ali, com Jeonghan aninhado entre meu queixo e peito. -Vamos sair? Quero te levar num lugar.

  -Sair? Agora? -Disse num muxoxo.

  -É, você já está dormindo desde às sete, não é?

  -O problema não é esse. A staff sabe?

  -Não, e nem vai saber. -Num movimento rápido Jeonghan colocou a mão embaixo do travesseiro e pegou seu celular, acendendo a tela do mesmo perto da minha cara. Eu podia ver uma expressão muito engraçada em seu rosto, com os olhos semi-cerrados e o cenho franzido.

  -Está tentando nos colocar na rua? -Ri da sua pergunta.

  -Não, fica tranquilo. Se perguntarem, fomos só tomar um café. -Ficamos em silêncio por alguns segundos. Quando vi que Jeonghan nada falaria, numa tentativa de me fazer desistir, voltei a pedir. -Por favor, Jeonghan! Eu quero muito que você veja um lugar. -Ele respirou fundo.

  -Ok, você espera eu escovar os dentes e passar um cosmético?

  -Claro! -Falei alto, quase berrando, fazendo-me ganhar um “shhhh” logo depois.

  Levantei e esperei perto da porta. Em cinco minutos o outro já havia se juntado a mim. Saímos do mesmo jeito que entrei: na ponta dos pés. Quando o peguei pelo pulso e comecei a arrastá-lo para fora do hotel, ele finalmente acordou e estranhou.

  -Espera...pra onde vamos? -Levantei as chaves, apertando o alarme e mostrando-o a BMW branca. -De onde veio esse carro? -Jeonghan fez uma expressão confusa.

  -É do Gerard, ele disse pra eu pegar e te levar pra passear de madrugada. -Ri, vendo-o cruzar os braços, abrir a boca e levantar as sobrancelhas.

  -Você planejou tudo? -Caí na gargalhada, pegando novamente seu pulso e puxando-o para entrar logo no carro.

  -Vamos, vai ser legal! -Liguei o carro e saímos pelas ruas de L.A. Jeonghan se soltou aos poucos, enquanto ouvíamos música e cantávamos alto, sem medo que alguém pudesse ouvir. -Você não jantou, né?

  -Não. Eu dormi da hora que você saiu até agora.

  -Está com fome? -Olhei-o pelo canto dos olhos e o vi sorrir.

  -Você não faz ideia do quanto! O que tem aberto agora?

  -Vou te levar num lugar ótimo, isso se ainda estiverem funcionando. Faz anos que não vou lá. -Depois de quase vinte minutos chegamos numa praça com um foodtruck até que bem cheio. Estacionei e saí do carro seguido pelo outro. -Nem acredito que ainda existe! Isso é tão nostálgico...

  -O quê tem aqui? -Caminhamos até o caixa, onde faríamos nosso pedido. -Meu Deus, que cheiro bom!

  -O melhor hambúrguer que você vai comer na vida. -Nós passamos um pouco mais de meia hora ali.

  Jeonghan simplesmente amou a comida, e não sei como, mas ele deixou que eu mordesse seu hambúrguer várias vezes. Não peguei um pra mim porque tinha me entupido de pizza mais cedo, e ainda queria passar em outro lugar.

  -Nossa, realmente foi o melhor hambúrguer de todos. Estou feliz em ter saído. -Entramos no carro e eu me apressei em ligar o aquecedor.

  -Não fale como se estivéssemos indo embora. Ainda vamos à outros lugares. -Dito isso, o outro sorriu, mexendo-se no banco alegremente. -Ora, ora, ora, você parece muito alegre pra quem não queria sair! -O Yoon encheu o carro com uma risada infantil e gostosa de ouvir. Aquela de sempre. Lógico que eu o acompanhei.

  Fiz questão de levá-lo para centros comerciais que ficavam abertos de noite. Ruas 24 horas cheias de vida, cheias de neon, músicas e pessoas. Nós parecíamos um casal andando por ali, até fizemos compras. Tiramos fotos usando chapéus engraçados numa máquina de foto e concordamos em deixá-las guardadas no fundo da carteira, onde ninguém as encontraria. Estávamos vivendo uma vida noturna clandestina, proibida, e absurdamente divertida. E posso dizer? Foi a melhor regra que eu já quebrei.

  -Vamos? Eu ainda quero ir à mais dois lugares. -Fiz uma pausa, e olhei-o. Jeonghan tinha os olhos brilhantes e um sorriso que parecia que partiria seu rosto ao meio. Novamente fazendo com que eu me apaixonasse. -Isso se você quiser, é claro.

  -Vamos! Lógico! Essa é a melhor noite de todas e você ainda pergunta se eu quero continuar? -Abracei-o pelos ombros e o puxei novamente até o carro. Entramos no veículo e colocamos uma música bem alta, e nada de Seventeen. Cantamos alto até ficarmos ficarmos quase roucos e em poucos minutos eu estacionei novamente.

  -Espere aqui, por favor. Eu não vou demorar. -Peguei a carteira e baguncei os cabelos de Jeonghan antes de sair do carro. Minutos depois, quando voltei, o outro mexia no celular e no som do carro, escolhendo outra música, e sem um pingo de sono. Ansioso era pouco. Coloquei o que eu tinha trazido em cima do capô do carro e abri a porta, dando um susto no maior. - Sabe que dia é hoje?

  -Quatorze de Fevereiro? -Ele disse, simplesmente, pousando o celular no colo e virando-se para mim.

  -Que é? -O outro olhou de um lado para o outro, procurando a resposta em algum lugar da sua mente, fazendo-me rir.

  -Valentine’s Day! -Ele praticamente berrou. Incrível como Jeonghan era a imagem da felicidade naquele dia.

  -Exatamente!  -Peguei o suporte com os cafés e dei em sua mão, entrando no carro em seguida. -Happy Valentine’s Day!

  -AAH! QUE COISA LINDA! -Jeonghan tinha em suas mãos um frapuccino rosa, todo especial.

  -Tem um frapuccino secreto no Starbucks, que só tem no Valentine’s. Achei que você ia gostar. -Peguei o meu, que era idêntico, mexendo o canudo levemente constrangido.

  Tinha noção do quanto aquilo era gay e se quer saber, eu era exatamente isso! O outro parecia tão feliz, tirando fotos do drink, que valeu a pena encarar o frio que estava fazendo lá fora, já que era quase de manhã.

  -É maravilhoso! Sério, é o melhor presente de Valentine’s Day que eu já ganhei. Obrigado! -Eu sorri, abaixando o olhar até o meu colo. Estava sendo tão bom e ao mesmo tempo tão difícil aguentar aquela proximidade com o mais velho, que esboçava sorrisos sinceros e me deixava tão feliz apenas com a sua existência. -Que café é esse? -Perguntou, se referindo à terceira embalagem de café, que era comum e bem embalada para a viagem.

  -Como eu te conheço muito bem, sei que uma bebida como essa te enjoaria depois e você ficaria resmungando “Nossa, isso foi tão doce mimimimi”. Então caso você queira, trouxe um Hot Americano sem açúcar. -Sorri ladino.

  O Yoon ficou absurdamente vermelho enquanto tomava sua bebida, abrindo a boca apenas para proferir as palavras seguintes.

  -As fãs estão certas em te chamarem de Prince Joshua. Você é definitivamente um príncipe. -Nós demos uma pequena risada, e depois de um silêncio constrangedor, tendo apenas o barulho da bebida passando pelos canudos como trilha sonora, Jeonghan colocou a música de novo, e eu liguei novamente o carro.

  -Estamos indo para a última parada de hoje, está bem?  -Ele apenas balançou a cabeça positivamente.

  Poucos minutos depois, eu estacionei o carro em um lugar deserto, no meu lugar favorito de uma praia de Los Angeles. O lugar era tão afastado do comércio e das outras coisas que todos que o conheciam estavam apenas de passagem. Peguei a mochila atrás do banco e saí do carro com o Yoon me seguindo.

  -Vou te levar pro meu lugar secreto. -Contei.

  - “Lugar secreto”? -Assenti, caminhando até algumas pedras que ficavam perto do mar, felizmente o céu estava começando a clarear, então nós não tropeçamos muito.

  Iluminei o lugar onde íamos sentar com a lanterna do celular, e depois de ter certeza que era seguro, abri a mochila e coloquei as toalhas que “roubei” do hotel (eu as devolveria depois), e um cobertor grande. Sentamos ali e começamos apreciar o nascer do sol, mesmo com a brisa fria que nos cercava.

  -Você deixou o Hot Americano no carro?

  -Eu não queria que esfriasse. -Ele riu, nos envolvendo no cobertor. -Eu vou tomar depois, eu prometo. Nem acabei esse ainda.

  -Eu acho bom mesmo que você tome. Foi cinco dólares aquilo lá. -Brinquei, fazendo o outro se dobrar e então colocar a cabeça no meu ombro.

  -Hoje foi tão divertido. -Suspirou olhando o sol que aparecia lentamente no horizonte.

  -Foi… Nunca fiquei tão feliz em quebrar uma regra. -Tombei minha cabeça sobre a sua. Quem nos visse ali teria certeza que éramos um casal apaixonado.

  -Nem eu. Eu sempre quis conhecer os lugares que você gostava de ir quando era mais novo. Sua vida é tão fascinante se comparada a minha... -Deu uma risada soprada.

  -Você acha? Nunca fiz nada de extraordinário, eu acho.

  -Ir pra Coréia e virar um Idol amado por gente do mundo inteiro não é extraordinário pra você? Que pessoa horrível. -Foi a minha vez de rir.

  -Claro que é. Mas eu quis dizer além disso… Eu sou uma pessoa meio tediosa.

  -Claro que não! Se fosse, eu não teria topado sair com você às duas da manhã. Você é simplesmente...Simplesmente… -Sua voz saiu num sussurro, e se eu não estivesse tão perto, não teria ouvido.

  -O que, Jeonghan? -Nossos copos de café estavam vazios enquanto o ar começava a ter uma aura diferente.

  -Ótimo. -Eu dei uma risada soprada.

  -Ótimo, é? -Indaguei.

  Ele desencostou do meu ombro e se encolheu, apertando o copo nas mãos.

  -Não. É mais que isso. Eu...Eu…

  -Você? -Ele estava agindo estranho. Sua aura inteira mudou, e ele já não me deixava ver o seu rosto.

  -Eu tenho uma coisa pra te dizer. -Endireitei minha postura, ficando tenso com o tremular de sua voz.

  -Lembra quando você me disse que gostava de rapazes? -Sua voz saiu como um sussurro.

  -Hm, como poderia esquecer? Eu nunca senti tanto medo na vida. -Olhei para os meus pés, nervoso. -Pensei que depois daquele dia você nunca mais ia ser meu amigo como antes. Sou tão grato por ter me provado estar errado. - Ele encolheu mais a cabeça e os ombros.

  -Depois daquela conversa, eu acabei mudando um pouco a minha cabeça, mas eu… E-eu não soube lidar com o que começou a acontecer depois. -Eu conhecia aquele tom. Minha intimidade com o mais velho era suficiente para saber que Jeonghan estava chorando, pela voz que saia de sua boca.

  Segurei seu ombro e o virei para mim para constatar aquilo que já sabia. Seus olhos derramavam por sua face uma cachoeira de lágrimas e seus ombros balançavam com os soluços. Ainda assim, o maldito continuava lindo como mais belo anjo dos céus.

  -O quê? O quê aconteceu? -Minha voz tinha desespero e tensão a ponto de tremular como a dele, mesmo que não tivesse a menor vontade de chorar.

  -Eu comecei a gostar de rapazes também. -Ele desviou os olhos para o chão, soluçando ainda mais.

  -Isso não é um problema. E eu já te disse o porquê.

  -Não, eu realmente não tenho mais problema com isso. O problema é que eu me apaixonei por alguém que não merecia que alguém como eu, que… Que o olhou com tanto desprezo no passado, o amasse. Eu sinto uma dor tão grande. Eu… Eu nunca me apaixonei por ninguém, e sempre me perguntei porquê. Sempre achei estranho que as garotas não me atraíssem de jeito algum, e que nem pornografia me interessasse. Acabou não sendo uma surpresa muito grande constatar que eu não gostava de meninas. -Ele suspirou, mas não parava de chorar, e limpar o rosto era inútil. Meu coração doía tanto em vê-lo assim, que nem me preocupei com minha satisfação pessoal em poder ter uma chance com o outro. -Mas eu desprezava tanto, eu achava tão errado e me odiava demais por ser assim. Eu sou como uma aberração, e só o que consigo fazer é me apaixonar ainda mais por essa pessoa.

  -Está tudo bem. Você não é uma aberração. Você é uma pessoa adorável que merece amor, como todo mundo. -Sorri, acariciando seus cabelos, tentando acalmá-lo.

  -Você não entende, Jisoo. Eu estou apaixonado… Por você. -Ele me olhou nos olhos, e o baque foi tão forte eu puxei meu braço de volta. Senti um enorme frio na barriga, e meu coração disparou loucamente. -Esse é o problema! Eu te amo. Eu te amo demais.

  -P-Por que isso é um problema? Você por acaso sabe como eu me sinto? -Sua expressão ficou em branco. Ele não esperava aquela resposta, da mesma forma que eu não esperava a sua declaração. Abri um sorriso sincero, segurei seu rosto entre as mãos e colei nossos lábios.

  Jeonghan soltou um arquejo e tencionou todos os músculos. O susto deve ter sido tão grande quanto o meu ao ouvir o seu “Eu te amo”, que demorou longos segundos para que ele relaxasse. Foi apenas um selar. Seus lábios eram macios e estavam molhados pelas lágrimas. Seu nariz era gelado e seu cheiro delicioso. Me separei dele lentamente, sorrindo e com os olhos brilhando. Encostei nossas testas, e quando ele abriu os olhos, esses estavam cheios de dúvidas e expectativas. Seu rosto ganhava um forte tom de vermelho.O Yoon já não chorava mais, mas eu estava quase.

  -Eu te amo, Jeonghan. Sou louco por ti desde que éramos trainees. -Sussurrei. Ele arregalou os olhos e deixou o maxilar cair em surpresa.

  -O que? C-Como assim? Por que nunca me disse?

  -Eu tinha certeza que você não me correspondia e não queria estragar tudo. -Soltei uma risada soprada -Que bom que você não pensava do mesmo jeito.

  -Eu pensava. Eu pensava exatamente isso, mas a tortura era tão grande, eu não pude aguentar. Pensei que escrevendo Falling For U e gravando com você as coisas ficariam mais fáceis de suportar, mas ficou muito pior quando lançamos a música. -Ele fechou os olhos e respirava fundo, se acalmando. Jeonghan ainda não sorria, estava absorvendo tudo lentamente.

  -É, Falling For U também era uma declaração em forma de música pra mim. Era tudo que eu sempre queria te dizer durante um Valentine’s Day como esse. -Acariciei seu rosto com os polegares.

  Jeonghan se aproximou um pouco mais, entreabrindo os lábios. Um pedido silencioso de um beijo que foi atendido imediatamente. Dessa vez o fiz como sempre sonhei. Foi muito bem pensado e correspondido na mesma medida.

  Acariciei levemente sua língua com a minha, mantendo um ritmo lento e intenso. Sua boca tinha gosto de frapuccino de morango. Tinha gosto de Valentine’s Day. Desci minhas mãos para suas costas, juntando nossos corpos enquanto as mãos alheias se perdiam no meu cabelo tingido de preto. Meu peito estava transbordando com aqueles sentimentos tão fortes e eu podia sentir naquele beijo que era recíproco. Perdi a noção de tempo na boca de Jeonghan, e quando parti o beijo, enchi seu rosto de selares que que iam do queixo às bochechas e das bochechas à boca novamente. Senti o outro sorrir e também o fiz, involuntariamente.

  -As fãs estão certas em te chamarem de Chonsa. Você é realmente um anjo. Meu anjo. Meu Jeonghan. -Ponturei minha frase com selares que arrancavam risadinhas infantis do outro. -Eu te amo.

  -Eu também te amo. Meu principe. Meu Joshua. -Ele fez o mesmo comigo, e então abriu o sorriso mais lindo que eu já vi.

 

  Naquele nascer do sol na praia, com as palavras ditas naquele 14/02, eu amei e fui amado como nunca antes. Jeonghan estava certo quando disse que aquele era o melhor dia de todos. Nós voltamos para o carro cantando Falling For U e dividimos o Hot Americano que eu comprei para ele. Foi mais perfeito do que se eu tivesse planejado cuidadosamente.

 

I’m falling for U

I’m falling for U

I’m falling for U once again

I’m falling for U

Falling for U

Ppajyeonaogin neujeosseo

 

(Estou me apaixonando por você

Estou me apaixonando por você

Estou me apaixonando por você novamente

Estou me apaixonando por você

Me apaixonando por você

Agora já é tarde para sair dessa)

 


Notas Finais


Eu gostaria de agradecer às pessoas que me ajudaram. @Flafsss, minha irmãzinha pela capa e por betar o texto pra mim. @Sassypotato por me apoiar e por dizer que a fic é minha e eu escrevo como eu quiser!
Obrigada aos amigos que me ajudaram e me encheram de amor pra terminar ela
E Obrigada à você que leu até aqui!
Tenha um Valentine's Day lindo e cheio de amor!!!

Ouçam Falling For U para comemorar esse dia e esse shippzão da porra que é Jihan: https://www.youtube.com/watch?v=5yNuWiyFA7k
Beijos e não se esqueça de ver o trailer da fic: https://www.youtube.com/watch?v=59isPzgsFP4&t=66s


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...