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História Vargach ihk Iejir - Batalha pelo Sangue. - Capítulo 16


Escrita por:


Notas do Autor


Olá, tudo bem?
Aproveitando antes de tudo, estou imensamente grata pelas 400 e poucas views. Para muitas pessoas isso não deve ser nada, mas pra alguém como eu, que apenas queria compartilhar de uma história original, é um feito enorme e me deixa muito feliz. Cada um dos que doam uma parte de seu tempo para dar atenção a essa minha aventura, merece um abraço. haha, obrigada de coração ♥

Enton, vem mais gente por ai. Senta que lá vem história.

Cassandra Hildrit - Ladino (Essa é especial, fiz pra um amigo meu que com toda certeza vai amar essa peste. Marinho, o que dizer de você. O infeliz que quase me matou de susto porque teve covid e sumiu por quase um mês. Conheço faz muito tempo, nem lembro mais o tanto, mas a gente ta tão véio que nem importa. Depois de muito tempo do lolzinho, a gente já é brother kkkkkkk. O melhor mestre de rpg com seus personagens malucos, incluindo um Mickey de Chernobyl. Se eu ficar falando demais nem vai sobrar espaço. Obrigada por ser um baita amigo, que me ouviu nas horas mais difíceis e me apoiou em bobagens, incluindo a última merda que eu fiz que nem preciso dizer. Enfim, obrigada de verdade Marinho, sem tu na minha vida ela não teria graça. ♥)

Ralliedrell Nehlid - Bárbaro (Essa é tão especial quanto. Mari, sua doida de cabelo colorido. Cara, tu é muito maravilhosa. A gente se conhece basicamente quase no mesmo tempo que conheci o Marinho, contigo veio o Vini pra formar o grupinho, hahaha, nossa, não tenho como descrever os momentos que a gente passa juntos. Vocês são incríveis pra mim. Tu também muito que me apoiou e ficou junto quando eu tava chorando por "n" problemas e sempre me apoiando. Vocês são especiais demais pra mim. Uma amigona e tanto que espero que fique pra toda a vida. Nunca vou me esquecer de quando tu queria a fanfic da fanfic na época que era do Ognar e o Arian kkkk pena que não rolou. Nossa, só tenho a agradecer, de verdade. ♥)

Era só isso mesmo.
Boa leitura.

Capítulo 16 - Quanto mais pessoas, melhor.


Fanfic / Fanfiction Vargach ihk Iejir - Batalha pelo Sangue. - Capítulo 16 - Quanto mais pessoas, melhor.

 

– Então o que faremos primeiro? – Perguntou Dairt animada ao inspirar o ar recheado de especiarias que vinha do Grande Mercado. Suas narinas felinas conseguiam sentir os aromas e distingui-los muito bem apesar de não conhecer grande parte dos temperos ali vendidos.

Eu estou com fome. – Murmurou Nirstum com uma careta. Juliare concordou com a cabeça, também cabisbaixo.

– Parece que não comemos a dias. – Comentou Kithri.

– Credo, vocês só pensam em comida? – Disse Arian com uma gargalhada, ao mesmo tempo que sua barriga roncou audivelmente. Todos o encararam. – Bom, eu não estou pensando em comida, meu estômago sim.

Juliare revirou os olhos.

– Você é um idiota. Vamos, precisamos comer antes de começar as compras para a viagem. – E dito isso, começou a caminhar na frente, guiando o restante.

Tarhun permanecia calado, mesmo depois de já terem saído do Castelo. Caminhava um pouco mais distante do grupo e mesmo com sua cabeça ligeiramente abaixada, ainda conseguia visualizar o caminho e quem estava na frente. Soltou um suspiro inaudível, sentindo-se cansado. Seu olhar estava fixo em um ponto específico. Arian havia enfaixado sua mão. As ataduras tinham algumas manchas de sangue. Apesar da cura do elfo ser muito útil, parecia que em alguns momentos ela era falha e demorava mais que o normal. O meio draconato não entendia exatamente o que estava sentindo, mas a culpa ainda o assolava. Lembrou-se do momento em que recobrou sua consciência, percebendo que Arian segurava a lâmina de sua arma. O corte na lâmina da glaive havia sido profundo, um pouco mais e Arian perderia os dedos. Mesmo assim, agia normalmente, como se nada tivesse acontecido. Tarhun parou junto com o grupo em uma das tendas do mercado, ainda suspirando e preso em seus próprios pensamentos, franzia o cenho, formando um relevo entre suas sobrancelhas. Nada ouvia da conversa dos companheiros. Seus braços estavam cruzados sobre o peito, até o momento que sentiu algo encostando em seu cotovelo. Levantou sua cabeça, encarando o motivo do toque estranho. Arian segurava um sanduíche em sua mão esquerda, enquanto mordia outro na direita. Tarhun continuava encarando sem entender.

– Se continuar com essa expressão emburrada, vai ficar com uma careta irreversível. – Murmurou o elfo.

– O que quer dizer com isso? – Perguntou Tarhun ao segurar o sanduíche.

– Quero dizer que se continuar assim, não vai aproveitar de uma ótima refeição com seus amigos, ora, que dificuldade você tem de compreender as coisas mais básicas. – Arian mordeu outro pedaço do seu próprio sanduíche e ao ver que Tarhun continuava imóvel, soltou um suspiro. – Eu pedi para ela não colocar carne, eu sei que você ama sanduíche com salada.

Tarhun observou Arian por mais alguns segundos e virou seu olhar para a tenda. Não percebeu antes, mas estavam na tenda da senhora que o havia servido alguns anos atrás, quando o meio draconato teve seu último passeio com Medrash. A senhora continuava trabalhando da mesma forma, na mesma tenda. Tarhun deu uma mordida no sanduíche, saboreando-o, sentiu seus olhos arderem, era realmente sua comida favorita e estava uma delícia.

Obrigado. – Sussurrou Tarhun. Apesar de pensar que ninguém ouviria seu agradecimento, Arian abriu um sorriso contagiante, a cicatriz que tinha em seu lábio se esticou com a pele.

A refeição demorou mais do que o esperado, afinal, todos estavam cansados e famintos. Depois de muita conversa jogada fora e com as barrigas finalmente cheias, decidiram começar com as compras. Dairt e Kithri pareciam mais ainda serem irmãs, já que ambas ficavam animadas com cada brilho ou objeto curioso que os mercantes mostravam em suas mesas. Um velhote muito exótico com cabelos longos manchados de grisalho por cima do castanho e enormes olhos verdes levantou uma cota de malha na altura dos olhos de Dairt.

– A mocinha não quer levar essa maravilhosa proteção contra qualquer inimigo? Consigo um preço bom para você. 100 moedas de ouro, que tal? – Perguntou o homem com um sorriso.

– Druidas não usam nada que contenha metal, ou que seja associado com exploração num geral. Prefiro materiais naturais como couro. Obrigada. – Respondeu a tabaxi aparentando seriedade por um momento. Nirstum a encarou curioso.

– Mas o que acontece se um Druida usar metal? – Perguntou ele com uma estranha expressão.

Ele explode. – Respondeu Arian se enfiando na conversa. Movimentou sua mão imitando uma enorme explosão enquanto de sua boca saía um ruído. – Boooom!

Se os olhos de Dairt pudessem revirar mais do que reviraram, eles estariam presos atrás de sua cabeça.

Não explodimos. Só não gostamos de nada que use metais. – Comentou a tabaxi suspirando.

Antes que percebessem já estavam na frente da tenda dos dois vendedores mais extrovertidos e brigões de toda Envalur. Por sinal, G’yr e Odhur estavam brigando como sempre. Rolavam pelo chão da tenda de G’yr, puxando um o cabelo do outro. Juliare estava com as mãos na cintura quando pigarreou alto o suficiente para que ambos escutassem.

– Seu idiota! – Gritava G’yr. – Eu juro que ainda coloco um queijo fedorento na sua cama.

– E eu coloco… coloco uma… eu não sei, mas encontro algo pior pra colocar no seu travesseiro. Idiota é você! Seu idiota! – Respondeu Odhur enquanto se levantava com dificuldade. Seus narizes sujos de sangue mostravam o quão feia tinha sido a briga.

– Qual o problema de vocês? – Perguntou Dairt.

Antes que qualquer um pudesse falar algo, os olhos de G’yr brilharam como duas joias. Ele rapidamente se levantou, tirando a sujeira das calças e passou o dorso da mão direita em seu nariz, limpando parcialmente o sangue. O peito nu estava estufado e as tatuagens aparecendo mais do que nunca enquanto ele fazia uma pose vergonhosa, mas que em sua cabeça parecia máscula o suficiente. Segurou a mão de Dairt e estava pronto para dar-lhe um beijo quando a Tabaxi enfiou suas garras no rosto de G’yr que soltou um ganido de dor. Seu ajudante estava um pouco atrás copiando a pose vergonhosa.

– Que audácia é essa? Me solta! – Gritou Dairt.

– Uau, você é intensa, gostei. Quer casar comigo? – Perguntou G’yr de forma animada.

– Solta logo ela ou eu quebro o seu braço. – Murmurou Tarhun. O meio draconato havia se enfiado no meio da discussão e segurava o antebraço de G’yr com certa força. O homem por uns instantes tinha um brilho mortal em seus olhos dourados. Mesmo assim, Tarhun não movimentou um centímetro sequer, muito pelo contrário, apertou ainda mais forte, até a pele de G’yr ficar avermelhada. Todos pensaram que sairia dali uma briga entre eles, mas G’yr abriu um enorme sorriso, desculpando-se.

– Foi apenas uma brincadeira. Espero que não tenha o ofendido. – G’yr forçou seu braço até Tarhun o soltar e então continuou sorrindo, não ligando para o hematoma em sua pele. Odhur que observou a cena de forma curiosa também sorria, levantando-se.

– Em que podemos ajudar vocês hoje? – Comentou Odhur.

– Vamos entrar em uma Dungeon, precisamos de todos os recursos necessários. – Disse Nirstum ao colocar a mão no queixo, copiando inconscientemente a forma de Donnavan.

Odhur pareceu pensativo por uns instantes, até que finalmente saiu da tenda de G’yr, indo para a sua própria. De dentro da tenda, Odhur soltou um grito.

– Podem vir aqui! Tenho exatamente o que… precisam! – Sua voz falhou ao final da frase, fazendo com que se engasgasse. O grupo caminhou até a sua tenda, todos curiosos para entender o motivo de tanta afobação. Odhur bisbilhotava fervorosamente debaixo de sua mesinha, em busca de algo. De repente, Odhur apontou para Arian que estava na frente do grupo.

– Ei, você! – Gritou Odhur. Arian se sentiu confuso com a súbita chamada. – Você é um Bárbaro, não é?

– Sim. – Respondeu o elfo.

– Então eu tenho algo perfeito para você. – Odhur levanta em suas mãos uma tanga de couro coberta por uma pelagem marrom.

– Que porcaria é essa? – Perguntou Arian com uma careta.

– Se você é um Bárbaro, sabe que fica muito mais forte quando não usa uma armadura. – Odhur suspirou. Seu rosto aparentava verdadeira seriedade em cada palavra.

– Eu sei, mas não vou usar isso. – Comentou Arian ao perceber que atrás dele, seus amigos se contorciam em risadinhas abafadas. – Ei, parem de rir de mim! – Gritou o elfo ao dar um tapa em Juliare que particularmente gargalhava de forma espalhafatosa. Por incrível que fosse, inclusive Tarhun estava rindo. Seu rosto virado para o lado contrário não escondia as bochechas vermelhas e as risadas que saíam cortadas por seus lábios.

– Isso vai ser incrível. – Disse Nirstum tossindo. Havia se engasgado com sua própria saliva e Juliare o ajudava, dando tapinhas nas costas do Clérigo ao mesmo tempo que continuava a se desmanchar em risadas. Odhur levantou mais uma vez a tanga, deixando Arian nervoso.

– Olha só, é feito de couro pelo menos, seria pior se fosse uma tanga metálica. – Murmurou Dairt.

– Igual um cinto de castidade? – Perguntou Nirstum antes de se engasgar novamente. Juliare batia as mãos nos joelhos, sem conseguir respirar. Kithri não entendia as piadas, então permanecia distraída com outros itens da loja, manejando alguns cristais opacos nas pequenas mãos.

– Acho que um cinto de castidade seria útil. – Comentou Tarhun sem entender que colocava mais lenha na enorme fogueira da desgraça que estava se tornando a honra de Arian.

– UM CINTO DE CASTIDADE! – Repetiu Juliare ao se deixar levar e perder o fôlego, suas pernas falharam e o meio elfo caiu de joelhos no chão, ainda gargalhando. As pessoas que por ali passavam não entendiam a cena, outras apenas riam justamente por ser engraçado rir da risada alheia.

– Se vocês não pararem de rir, vão cruzar metade de Alyndra a pé, porque Argane não vai levar nenhum de vocês! – Gritou Arian.

Em instantes, todos pararam de rir, sabendo da real seriedade de cruzar toda aquela parte de Alyndra e dar de cara com muitos e muitos inimigos. Viajar nas costas de Argane era bem mais prático.

– Eu faço por 20 moedas de ouro. – Comentou Odhur com um sorriso.

– CALA ESSA BOCA! – Berrou o elfo, seu rosto tão vermelho quanto seus cabelos.

– Ei Odhur! Seu maldito! Essa tanga é da minha tenda! Me devolve! – Gritou G’yr ao enfiar sua cabeça entre os tecidos coloridos que separavam os dois estabelecimentos.

– Não é mais! – Respondeu Odhur virando o rosto.

– Ei, vocês não vão comprar nenhuma arma dessa vez? – Perguntou G’yr. Arian revirou os olhos. Queria realmente mudar de assunto para não lembrarem da vergonhosa tanga, mas enquanto caminhava até a mesa de G’yr, viu a vestimenta ousada ser jogada por cima de sua cabeça. G’yr a resgatou bravamente antes que caísse no chão. O grupo ainda ria quando encararam G’yr.

– Consegui fazer muitas coisas boas nesse meio tempo que estiveram fora. O que precisam? – Perguntou G’yr ao colocar as mãos no queixo, se apoiando na mesa com um enorme sorriso voltado para Dairt.

– O que você tem para Druidas? – Perguntou a tabaxi.

– Ah, ótima pergunta, deixe-me ver. Vocês Druidas não usam metal, não é mesmo? – Perguntou ele de forma retórica. Mesmo assim, Dairt bufou balançando a cabeça de forma positiva. G’yr perambulou pelo interior de sua tenda, procurando algo suficientemente interessante para agradar a tabaxi atraente.

Ele pode vir com outra tanga. – Sussurrou Juliare para Nirstum. Ambos se remoeram com risadinhas.

– Fui em uma aventura uns dias atrás, encontramos alguns animais e aproveitei pra retirar o seu couro, dilaceramos vários deles e no meio do processo acabamos por desmatar uma certa parte da floresta, aproveitamos os corpos mortos e as carcaças para fazer este belíssimo escudo. – Em suas mãos, um escudo médio de couro, aparentando boa resistência, mas com toda a história dramática, não conseguiam entender se era piada pelo fato de Dairt não usar nada de metal ou se era sério. – Ele ainda é mágico. – Comentou G’yr.

– Não tem nada de metal mesmo? – Perguntou a tabaxi.

– Nadinha. – Respondeu G’yr.

– Então eu quero, a natureza adora. – Comentou a garota ao pegar a ponta do escuro e puxá-lo para perto. Colocou sua mão na faixa dentro da arma de proteção e a experimentou, balançando-a com vigor. Ninguém conseguiu rir naquele momento, de tão aleatória que havia sido aquela cena, então a ignoraram, respeitando a forma estranha de Dairt pensar.

– Você precisa de alguma arma Kithri? – Perguntou Arian com um pigarro forçado.

– Uma adaga seria bom. – Murmurou a garota com um sorriso, suas pequeninas presas aparecendo. G’yr prontamente foi atrás de algo, entregando nas mãos da menina, uma adaga simples com arabescos dourados ao redor da lâmina e também na empunhadura, a bainha era de couro com um cordão preto nas laterais, para que pudesse levá-la no pescoço. Enquanto Kithri observava a sua nova arma em potencial, G’yr encarava Arian com certa curiosidade.

– O que foi? – Perguntou o elfo sentindo certo nervosismo.

– Quando que vai me vender esse machado? – Perguntou G’yr.

– Já disse que nunca vou vender ele. – Respondeu Arian revirando os olhos.

– Caso queira um dia, ainda aceito. Mesmo que esteja quebrado, o metal dos Bárbaros é incrível. – Comentou o vendedor com uma risadinha.

Ele não vai se quebrar. – Disse Arian com sua voz ligeiramente irritada. Lembranças lhe vieram a mente, mas logo foram afugentadas por um movimento involuntário de sua cabeça. G’yr começou a rir, provocando Arian e enquanto ria percebeu que Tarhun estava com a glaive especial que havia vendido para o elfo na antiga visita que lhe fizeram.

– Vejo que gostou dessa glaive, não é mesmo? – Perguntou G’yr.

– Ela é muito boa. – Respondeu Tarhun, tentando ser educado.

– Claro que é, fui eu quem a forjou. Ela é feita com o ferro dos Anões, que como dizem por aí, tão forte que pode rasgar um Draconato ao meio. – G’yr então deu uma gargalhada, divertindo-se com seu próprio comentário. Tarhun o encarou, se perdendo em pensamentos. Lembrou-se da dor que sentiu quando Arjhan lhe cortou um dos chifres. Seus lábios estavam cerrados, evitando continuar com o assunto. Um olhar perspicaz de G’yr fez com que Arian indiretamente se aproximasse, entreouvindo a conversa.

– Vejo que você é um Guerreiro, já escolheu seu Arquétipo? – Perguntou o vendedor ao enrolar a ponta de sua comprida trança verde em um dos dedos.

– O que é isso? – Perguntou Tarhun, em seus olhos a real dúvida, ele não estava mentindo, já que aquilo era algo fora de seu conhecimento, afinal, Tarhun apesar de ser dotado de conhecimentos de batalha por ter sido alguém que precisou crescer se defendendo, pouca coisa sabia sobre estudos ou etiqueta. Só havia aprendido a ler algumas palavras, graças à sua mãe. Tarhun não sabia escrever nem seu próprio nome. Aquilo de maneira alguma o envergonhava, ele entendia perfeitamente sobre sua deficiência intelectual, todo o conhecimento dos Yarjerith foi passado para Arjhan, que desejava se tornar um diplomata desde muito novo. Enquanto um dos filhos era inteligente e astuto, o outro, não passava de um selvagem que lidava melhor com sua própria intuição.

G’yr encarou Tarhun com certa surpresa, mas o que menos esperava era que Arian também não soubesse o que eram os Arquétipos, já que o elfo demonstrou curiosidade. Apesar de Arian ser estudado e muito mais culto do que aparentava, viveu longe da grande sociedade por muitos anos, não compartilhando dos mesmos interesses. O vendedor largou a trança que ainda estava enrolando nos dedos e abriu um sorriso empolgado, parecia que G’yr se satisfazia em explicar as coisas para os “novatos”.

– Arquétipos são os caminhos que vocês podem escolher, seria como uma personalidade de sua Classe. Ela vai contribuir para o seu crescimento e a sua força, trazendo também, novos conhecimentos de magia ou estilos de luta. Uma vez por ano as inscrições são abertas junto à Arena e com isso, vocês podem receber a orientação de um Especialista. Existiam 85 Especialistas no total, um de cada Arquétipo.

– Existiam? – Perguntou Arian ao levantar uma das sobrancelhas.

– Sim, existiam. Faz alguns anos que eles começaram a morrer misteriosamente, ninguém consegue explicar se é por conta dos próprios poderes, se tem alguém perseguindo os Especialistas ou se é algo muito pior. Caso a pessoa descubra que é de um Arquétipo que não tem mais Especialista, ela vai precisar aprender com sua própria força de vontade e garra, mas isso não a faz mais fraca ou mais forte, apenas dará mais trabalho. – G’yr soltou um suspiro. Arian e Tarhun se entreolharam por segundos, afinal, nenhum dos dois havia descoberto a qual Arquétipo pertenciam.

– Então acha que podemos fazer isso? – Perguntou Tarhun.

– Quando começam as próximas inscrições? – Perguntou Arian ao mesmo tempo que o meio draconato. G’yr soltou uma risadinha com a empolgação de ambos.

– Sim, vocês podem, inclusive qualquer um do grupo que não tenha descoberto ainda, pode tentar. Normalmente a idade que se começa a busca pelo Arquétipo é quando se completa 15 anos, mas existem exceções. – G’yr cruzou os braços em cima do peito. – E sobre quando começam as inscrições… Serão só daqui 5 meses lunares.

– Teremos pouco tempo então. – Comentou Arian também cruzando os braços. – Quanto acha que demoramos para explorar uma Dungeon inteira?

– Depende muito. Tem várias circunstâncias que podem atrapalhar vocês. – Disse G’yr. Os tecidos que separavam as duas tendas foram novamente abertas e Odhur colocou o rosto entre eles.

– Vocês precisam se cuidar com as armadilhas. – Comentou o vendedor de cabelos brancos. – Ou vocês podem ficar presos e nunca mais voltarem.

– Vamos nos lembrar desse aviso. – Murmurou Arian.

– Então, vão levar tudo o que compraram até agora? – Perguntou G’yr.

– Não, vamos deixar aqui, só viemos conversar mesmo. – Respondeu Tarhun ao revirar os olhos.

– Você é sempre tão agradável assim? Sinto que quero ser seu melhor amigo a cada vez que abre essa boca cheia de veneno. – G’yr deu uma gargalhada afetada. – Então, no total de itens são: Um escudo de couro, uma adaga…

– Ei, não se esqueça de contar o que compraram aqui também. – Disse Odhur.

– Pare de ficar me atrapalhando. – Resmungou G’yr. – O que eles compraram aí afinal? – Perguntou enquanto anotava tudo em um pergaminho.

– 2 frascos de antídoto, um kit de primeiros socorros, 6 pacotes de explorador… – Começou Odhur.

– Pacote de explorador? Que porcaria é essa? – Perguntou G’yr ao encarar o outro vendedor com suas sobrancelhas levemente arqueadas.

– Eu inventei isso semana passada, fica mais fácil vender tudo junto do que em separado. – Disse Odhur com o nariz empinado, claramente satisfeito de sua ideia genial. G’yr revirou os olhos.

– E o que tem dentro desse pacote? – Perguntou mais uma vez ao voltar seu olhar para o pergaminho.

– Uma mochila de couro, um saco de dormir, um kit de refeição, uma caixa de fogo, 2 tochas, 10 dias de ração, um cantil e 15 metros de corda de cânhamo. – Respondeu Odhur ao contar cada coisa em seus dedos cobertos de anéis.

– Nossa, vão levar a tenda de Odhur inteira pelo visto. – Disse G’yr com uma gargalhada.

– Ei, eu ainda tenho muito para vender, seu idiota. – Murmurou Odhur ao largar os tecidos. De repente ele voltou a colocar sua cabeça entre eles, com um sorrisinho. – No meu total ficam 165 peças de ouro.

– Contando com o que compraram comigo, fica um total de 177 peças de ouro. E para a sorte de vocês, como um brinde, podem levar uma bugiganga qualquer. – Comentou o vendedor, sorrindo ao ver suas anotações com letras caprichadas.

– Uma o que? – Perguntou Arian.

– Bugiganga. Anda logo, escolhe aí. – Disse G’yr ao fazer um movimento estranho com a mão.

– Certo, certo, me dá aquele ali. – Disse Arian ao apontar o dedo para um saquinho de couro, perto de uma das mãos de G’yr.

– Isso daqui? – Perguntou o vendedor. – Credo, que azar… – Ele deu um pigarro. – Quero dizer, uau, você conseguiu algo ma-ra-vi-lho-so.

– Que é isso? – Arian havia aberto o saquinho e de dentro dele escorregou um dente animal.

– E eu sei lá, é uma bugiganga, não precisa ter significado… e eu não me recordo desse dente. – Murmurou pensativo. – Deve ser de Dragão.

– Dragões foram extintos há milênios, todos sabem disso. – Retrucou Nirstum ao se meter na conversa.

– Agora você virou um Especialista em Dragões? – Perguntou G’yr com uma careta.

– Não, mas… – Começou Nirstum.

– Então não se meta nas minhas vendas, é um verdadeiro dente de Dragão. – Disse G’yr ao balançar a cabeça.

– Eu vou ter que pagar por essa porcaria? – Perguntou Arian ao levantar o dente que era do tamanho de seu indicador.

– Não, eu já disse que é uma bugiganga. Só quero o dinheiro que eu disse antes, 177 peças de ouro. – G’yr estava com a mão direita em forma de concha, esperando seu pagamento ansiosamente. Arian já estava com as mãos dentro dos bolsos das vestes, mas se lembrou que quem estava com o dinheiro era Juliare. Arian caminhou até o meio elfo e com um sorriso no rosto estendeu a mão esquerda.

– Preciso do dinheiro que recebemos hoje. – Disse.

– Quanto que vai sair? – Perguntou Juliare ao colocar a mão no bolso da veste.

– 177 peças. – Respondeu Arian.

Juliare estava demorando tempo demais para mostrar o dinheiro, o que deixou Arian ligeiramente impaciente.

– Qual o problema? – Perguntou Arian ansioso. – Eu vi você guardando no bolso.

– Eu sei, mas não estou achando, será que deixei cair quando compramos os sanduíches mais cedo? – O meio elfo parecia muito preocupado com a situação, perder uma quantia tão grande de peças de ouro era um enorme problema para eles. Enquanto Juliare tirava partes das vestes e abria todos os bolsos, Arian percebeu que o cajado que o meio elfo havia colocado em cima da mesa de G’yr, havia sumido.

– Ei, o que foi isso? – Perguntou Arian.

– Isso o que? – Perguntou Juliare ao levantar seu olhar para o elfo. Ambos se encararam e Juliare enfim olhou para onde Arian apontava. – Ué, meu cajado sumiu?

– Eu o vi desaparecendo. – Comentou o elfo. – Acho que estou ficando maluco.

– Maluco você sempre foi, como assim desaparecendo Arian? – Perguntou Juliare em desespero.

– Ei, me devolve isso! – Gritou Kithri. Alguém a havia empurrado, pois a menina estava atirada no chão. Arian correu até ela, levantando-a.

– O que aconteceu? – Perguntou ele com preocupação na voz.

– Uma mulher, ela roubou a adaga que estava no meu pescoço. – Disse a garota ao passar a mão pelas roupas. Apontou para frente, mostrando o núcleo do Grande Mercado.

– Vamos, ela não deve ter ido longe. – Disse Arian. – Depois voltamos para pegar nossas compras.

E assim Arian e o restante do grupo saiu correndo, deixando G’yr e Odhur extremamente curiosos sobre o ocorrido, suas cabeças para fora das tendas e suas sobrancelhas arqueadas.

– E agora o que vamos fazer? – Perguntou Tarhun com a voz falha, haviam corrido por entre várias pessoas que caminhavam pelo Mercado, perdendo enfim, o rastro da ladra.

– Podemos procurar ajuda no Castelo… – Começou Nirstum.

– Não. – Disse Juliare. – Teremos problemas… – O meio elfo encarou Tarhun que ainda estava ofegante.

– Olha lá! – Gritou Arian ao apontar para cima de um telhado. Todos rapidamente se viraram, mas ninguém conseguia enxergar tão bem quanto o elfo, ficando confusos sobre o que seria. Arian bufou, sentindo-se irritado e correu em disparada para o tal telhado, onde havia enxergado um brilho suspeito. Seus pés ligeiros como os de um animal feroz foram o suficiente para alcançar a casa em alguns passos e com uma habilidade sem igual, Arian pulou sobre caixotes e barris de madeira, chegando ao topo da residência. Observou ao redor e conseguiu ter um vislumbre da ladra. A mulher virou para trás em sua corrida, encarando o elfo com um sorriso debochado. Assim que deu seu primeiro passo, pronto para ir atrás dela, uma pancada violenta acertou a lateral de seu corpo. Arian foi jogado longe, caindo vários metros de onde estava, quebrando alguns caixotes. Sentia suas costelas doendo, mas levantou a cabeça o suficiente para se assustar. Em cima dele estava parada uma outra mulher, completamente diferente da ladra. Usava uma armadura média com couro e metal e por cima, um imenso casaco de pele marrom, parecido com um urso da montanha. Seu cabelo era branco como uma nuvem e as laterais estavam raspadas. Tinha uma enorme cicatriz no canto do olho esquerdo que descia da sobrancelha até a sua bochecha. A pintura tribal com tintura preta na região dos seus olhos, faziam com que seu olhar cinzento fosse ainda mais duro. Apesar de tudo aquilo, era uma mulher muito bonita e sua força brutal parecia condizer com os músculos aparentes. Arian se perdeu por alguns segundos, encantado com a estranha, o que não era nada diferente do normal, já que Arian se encantava por todas as raças, mas o elfo não teve muito tempo para aproveitar a sua vista. A humana o agarrou pelo pescoço, apertando com toda a força que conseguia. Arian sentiu seu corpo ser levantado e com os olhos arregalados, se mantinha preso no aperto feroz daquela mulher.

– Onde está a minha joia? – Perguntou ela com uma voz irritada. Arian tentou responder, mas sentia seu pomo de adão sendo esmagado pelos dedos fortes. Uma lágrima escorria de seu olho enquanto ele observava seus companheiros se aproximando. Nirstum estava assustado, sua voz um tanto quanto esganiçada.

– E-Ei, vocês não vão ajudar ele? – Perguntou o Clérigo.

– Agora que começou a ficar divertido? – Comentou Tarhun ao cruzar os braços sobre o peito, um sorriso maligno estava em seu rosto. Arian lembraria daquele sorriso quando precisasse salvar Tarhun de outro problema.

Oquevocêquer…? – Arian falou com extrema dificuldade.

– Minha joia, você a roubou. – Repetiu ela ao apertar mais.

– Er… – Começou Juliare. – Sinto muito em interromper esse momento ligeiramente agradável para a maioria de nós… – Arian deu uma olhada furiosa para o amigo. – … mas ele não roubou nada de você.

– Eu o vi fugindo no telhado depois de me roubar. – Murmurou a mulher.

– Não foi ele. – Disse Juliare. – Talvez tenha sido a mesma ladra que nos roubou. – O meio elfo levantou suas mãos em forma de uma trégua. – Vamos conversar, não quero que seja culpada por matar esse idiota.

A estranha mulher largou o elfo. Arian caiu com uma batida no chão, tossindo para recuperar seu fôlego.

– Droga… – Suspirou Arian ao dar uma última tossida. Encarou a casa onde estava a ladra e sentiu-se irritado por estar tão perto e agora, ter perdido o rastro.

– Meu nome é Ralliedrell Nehlid, vim das montanhas de Lorh. – Disse ao abaixar a caneca de cerveja. Após perderem o rastro da ladra, decidiram por seguir até uma Taverna, precisavam recolher informações para encontrar o dinheiro e a suposta joia de Ralliedrell.

– Meu nome é Arian. – Disse o elfo ao abrir um sorriso.

– Sinto muito pelo ataque de antes, acredito que por não ter visto direito quem ela era, confundi vocês dois. Mas é que você é bem… – Murmurou Ralliedrell.

– Bonito? – Arian deu uma risadinha. – Eu sei.

– Eu ia dizer afeminado, mas, bonito serve… – Continuou ela. Tarhun estava escondendo a vontade de rir, já Juliare e Nirstum claramente se desmanchavam em risadas. Dairt concordava, rindo junto e Kithri devorava uma torta de maçã, não ligando para a conversa dos adultos.

– Vocês não valem nada. – Disse Arian ao revirar os olhos.

– Não temos culpa que você é um idiota. – Comentou Tarhun ao balançar a cabeça negativamente.

– Mas então, porque vocês estão procurando a mesma ladra que eu? – Perguntou Ralliedrell.

– Ela roubou nosso dinheiro e os equipamentos dos meus amigos. Estávamos comprando itens para uma aventura. – Disse Arian. – Mas e você, o que quis dizer com joia? É algo de valor?

– Para mim é. – Murmurou a mulher. – Eu era líder de uma tribo de Bárbaros bem ao norte de Alyndra, difícil de se aproximar por conta do frio e da altura das montanhas. – Disse por fim ao encarar o elfo.

– Era? – Perguntou Tarhun.

– Meu único filho foi morto por criaturas que nunca vi em toda a minha vida. Pareciam almas-perdidas. Além dele, quase toda a tribo foi morta, apenas restou algumas pessoas e eu. Vim aqui em busca de ajuda do Rei, mas ele pouco se importou. Estava me preparando para voltar, quando a ladra roubou meu colar. Foi o último presente que ganhei de Isaac. – Seus olhos estavam fixos na caneca. Mesmo falando sobre um assunto tão tocante, Ralliedrell não chorou uma vez sequer, seus olhos firmes e queixo duro mostravam a força de uma guerreira, de uma mãe. – Antes de vir para cá, recebi ajuda de um elfo, muito parecido com você. – Comentou ela ao apontar para Arian.

Arian e Tarhun se levantaram em um solavanco, batendo suas mãos na mesa, gritando ao mesmo tempo.

– Você conheceu Naeqen? – Ambos se olharam, com raiva da frase repetida, mas curiosos sobre a resposta. Ao mesmo tempo que Ralliedrell parecia confusa, tanto Dairt quanto Kithri também entraram na conversa.

– Vocês conheceram o elfo loiro? – Perguntou Dairt. – Foi por causa dele que vir parar aqui. – Mencionou em seguida ao colocar a mão no queixo.

– Eu também, depois que minha… depois que Marlin morreu. Encontrei Naeqen assim que saí de onde eu vivia e ele me disse para seguir rumo à capital, onde eu encontraria…

– O elfo de cabelos cor de fogo. – Dairt falou seriamente ao encarar Arian. Todos olhavam intensamente para ele.

– E-Ei, eu não tenho nada a ver com isso, não sei porque ele mandaria vocês aqui.

– Tem certeza? Pelo visto, todos nós fomos mandados aqui, para encontrar você. – Disse Tarhun ao bebericar de sua própria caneca, colocando mais lenha na fogueira daquela discussão.

– Olha só, temos outros assuntos a resolver, depois podemos conversar sobre isso, certo? – Murmurou Arian ao tentar fugir do assunto. Em sua mente apenas pairava o fato de que todos ali estavam unidos por uma única causa, que ele ainda não entendia qual era.
O mais importante naquele momento era encontrar uma pista qualquer que os levasse para a ladra. Arian bebericou de sua cerveja e por alguma ajuda divina, conseguiu entreouvir uma conversa muito útil.

– Ei, você ouviu falar que os ladinos estão roubando novamente aqui no Mercado? – Comentou um velho ao se aproximar do dono da Taverna que secava algumas canecas com um pano branco.

– Sim, pensei que eles estivessem escondidos, os guardas reais já tentaram prender o grupo, mas eles sempre fogem. Conhecem as ruas e becos de Envalur como a palma da mão deles. – Disse o dono.

– Mas fiquei sabendo que a sede deles fica pro sul. – Disse mais uma vez o primeiro, seus olhos estavam arregalados.

– Por via das dúvidas, não temos como saber disso. – O dono continuava a secar as canecas, não percebendo que Arian e seus companheiros já haviam saído da Taverna. Juliare deixou as únicas 3 moedas de ouro que tinha nos bolsos e assim, seguiram o caminho até os becos do sul de Envalur, na esperança de encontrarem algo.

– E cá estamos, perdidos mais uma vez. – Resmungou Tarhun ao olhar para Arian. – Tudo culpa sua.

– Eu não fiz nada! – Retrucou o elfo.

Exatamente. – Disse o meio draconato com a expressão irritada.

– Ei, parem de brigar. – Começou Juliare ao se enfiar no meio dos dois grandalhões.

– Eles sempre foram assim? – Pergunta Ralliedrell.

– Sempre. – Responde Nirstum com um suspiro pesado, revirando seus olhos. Quanto mais o tempo passava, mais eles estavam acostumados com as loucuras dos dois.

O grupo estava absorto em suas próprias conversas, entre brigas e discussões. Ninguém percebeu quem caiu primeiro. Arian e Tarhun continuavam com sua briga idiota até o momento que olharam para os lados e viram o restante do grupo caído. Arian se desesperou, correndo até Juliare e Nirstum. Tarhun tentou ajudar as garotas, assustado ao pensar que teriam morrido, mas por sorte (ou azar) estavam apenas desacordadas. Arian observou que no pescoço de Nirstum estava cravado um pequenino dardo, provavelmente embebido em alguma poção sonífera. O elfo foi rápido o suficiente para se levantar e se posicionar, mas os inimigos eram mais rápidos e em maior número. Várias armas estavam apontadas para o seu peito e cabeça, assim como Tarhun, que havia levantado as mãos em forma de rendição. Pelo pouco que podiam compreender naquele momento, haviam caído em uma das piores armadilhas possíveis. A única coisa que Arian pode ver antes de cair e apagar por conta de uma pancada forte em sua cabeça, foi o sorriso da ladra que o encarava.

– Me larga seu idiota, me larga!

Arian podia ouvir uma voz feminina que ecoava em sua cabeça como um rugido. Dairt havia sido a primeira a acordar e estava em uma briga com outros dois homens. Apesar de tentarem amordaçá-la a tabaxi era mais forte, jogando-os longe com seus pés. Kithri continuava apagada ao lado de Nirstum e Juliare. Ralliedrell estava sentada, com seus braços e pernas amarrados e um tecido cobrindo sua boca, seu olhar feroz veio de encontro a Arian quando o elfo estava acordando. Arian ainda sentia seu corpo cambaleante quando conseguiu sentar. Seus braços também estavam amarrados, assim como suas pernas, mas não tinha nenhuma mordaça. Tarhun estava deitado ao seu lado, em sua cabeça, um ferimento que saía sangue. Por algum motivo, ele havia voltado a se transformar em meio draconato. Assim como seus chifres, sua cauda estava machucada, talvez, por tentativas de luta. Arian o encarou aturdido, sem entender o que estava acontecendo.

– Ah, não precisa se preocupar, o grandão aí vai sobreviver. – Disse uma mulher. Arian rapidamente se virou para onde vinha o som e percebeu quem era. A ladra estava sentada em cima de um caixote. Brincava com adagas em uma de suas mãos, jogando-a para cima e a recuperando antes da lâmina atingir qualquer coisa. Seu longo cabelo azul-escuro estava desgrenhado entre as variadas tranças. Os diversos cintos e adereços em seu peitoral e cintura estavam recheados de adagas e facas de arremesso. Apesar de aparentar ser uma humana comum, Arian podia perceber claramente que ela não era para se brincar, aquela mulher era perigosa.

– O que vocês querem conosco? – Perguntou o elfo, sua voz saindo mais rouca do que esperava.

– Eu é que pergunto, porque vocês estão nos perseguindo? São enviados do Rei? – Perguntou um garoto. Aparentava não ter mais do que 15 anos. Um sorriso macabro estampado em seu rosto.

– Não estávamos perseguindo vocês… – Arian foi interrompido por conta de uma das facas que cruzou a sala escura em um instante. Um filete de sangue escorreu do ferimento em sua bochecha. O elfo lambeu o lábio, sentindo uma estranha satisfação em ver um inimigo forte em sua frente. Seus olhos brilhavam como os de uma criatura selvagem, a raiva inflando em seu peito. Ainda assim, Arian permaneceu imóvel.

– Então como que chegaram até aqui? – Perguntou ela.

– Ouvimos uma conversa na Taverna perto do Grande Mercado, só queremos que devolva os nossos pertences e o dinheiro que roubou. – Arian virou seu olhar para Ralliedrell. – E o colar dela.

– E por causa disso, nos seguiram até aqui? – Disse o garoto ao dar uma risadinha e se aproximar de Arian. A ponta de sua bota acertou o rosto do elfo com tanta força que o sangue espirrou pelo chão. – Você não é muito esperto, não sabe do que os Ladinos são capazes, seu elfo estúpido. – Ele estava pronto para dar outro golpe em Arian, mas, de repente, seu grito ecoou dentro daquele cômodo pequeno. O garoto que antes estava tão satisfeito em infligir dor, chorava no chão, tentando se desvencilhar de Tarhun. O meio draconato havia acordado não fazia muito tempo e ao entender a situação, simplesmente abocanhou a perna desprotegida do fraco e pequenino humano. Seus dentes em garras, cravados na carne e o sangue escorrendo por seus lábios. Morderia com mais força se fosse preciso, podendo até arrancar a perna do garoto se nada fosse feito contra.

– Cassandra! – Gritou o garoto em desespero, agarrando a coxa, tentando puxar a perna para si.

– Eu avisei para não ficar dando uma de líder. – Murmurou a mulher ao se levantar, saltando do caixote. Os movimentos eram graciosos e bem treinados, talvez por isso encontrar seu rastro era tão difícil.

Cassandra encarou Tarhun, que ainda mordia a panturrilha do jovem. Com um sorrisinho afetado ela voltou seu olhar para Arian.

– Seu amigo parece querer te salvar. Se não disser para ele largar meu irmão, vou cortar a garganta de todos os seus companheiros. – Ela segurou uma de suas adagas. – Quer escolher qual vai ser o primeiro?

– T-Tarhun. – Começou Arian. – Solte o garoto. Viemos aqui para recuperar nossos pertences, não queremos os nossos companheiros mortos, certo? – Murmurou o elfo.

Alguns segundos se passaram, mais lentamente que o normal, Tarhun depois de avaliar o que iria acontecer, abriu sua boca, sentindo a carne do humano desprender pouco a pouco de suas presas. O meio draconato cuspiu o sangue, odiava o gosto daquilo em sua boca. Uma náusea lhe percorreu o estômago.

– Então, só queremos nossas coisas… – Disse Arian, preocupado com seus amigos. – É só nos entregar o que roubou e vamos embora.

– E o que eu ganho com isso? Esse seu amigo irritado quase arrancou a perna do meu irmãozinho. O que vai me dar em troca da perna de Caleb? – Perguntou a mulher com sua voz um pouco mais grave e irritada.

– Olha só, temos um Clérigo. Ele pode curar os ferimentos do seu irmão, você nos devolve o que roubou, vamos embora e nunca mais nos verá. – Arian abriu um sorriso forçado. – Que tal?

Cassandra pareceu um tanto quanto pensativa, administrando a situação, mesmo com seu irmão se esvaindo em sangue. Algumas das outras pessoas que estavam por ali pareciam preocupadas. A mulher se aproximou de Arian, com a adaga levantada em uma de suas mãos. Com um movimento rápido ela aproximou a lâmina do elfo e Arian por instante acreditou que poderia morrer. Uma única lembrança veio em sua mente naquele instante. Uma lembrança que era a mais querida para ele. O momento onde Cashiy, Ognar e Yohrih, todos reunidos ao redor do elfo, conversando e rindo, apreciando uma bela refeição. Uma pontada de dor incomodou o coração de Arian, que acreditava que aquele poderia ser o seu momento final. Uma arfada pesada saiu de sua garganta, em desespero, mas quando abriu os olhos, Arian percebeu que não havia sido atacado, a mulher estava cortando as cordas de seus pulsos, desamarrando-o. Com seus olhos arregalados e a pulsação acelerada, o elfo encarou a mulher.

– Qual de vocês é o Clérigo? – Perguntou ela enquanto cortava a corda de cânhamo.

– O de cabelos brancos. – Disse Arian ao esfregar a pele dos pulsos, sentindo-os formigar. A mulher rapidamente cortou as cordas de Nirstum, levantando-se em seguida.

– Acorde ele, se você tentar algo, eu mato todos. Suas vidas, pela do meu irmão. – Murmurou ela ao passar o dorso da mão direita pelo rosto. Ao sinal dela, várias armas foram apontadas para o grupo. Bestas, machados e espadas, matariam qualquer um ali. Arian engoliu em seco, balançando Nirstum, tentando acordá-lo. Assim que o humano abriu os olhos, Arian sorriu.

– Que bom que acordou meu amigo, preciso da sua ajuda. – Disse Arian com a voz rouca.

– O que aconteceu? – Perguntou Nirstum. – Onde estamos? Nossa, minha cabeça…está explodindo.

– Preciso que use da sua magia para salvar um garoto. – Murmurou Arian ao apontar para o rapaz que ainda se remexia de dor, apertando a própria perna com pedaços de carne fora do lugar, o sangue que escorria manchava suas vestes e o chão. Nirstum estava assustado, era fácil de ver em seus olhos o medo que sentia, mas prontamente ao ver uma vida em risco, o Clérigo sabia qual era o seu papel. Tirou de dentro de suas vestes, um frasco transparente. Arrancou a rolha com os dentes e estava pronto para derramá-lo no ferimento, mas Cassandra o interrompeu.

– O que você vai usar nele? – Perguntou com a voz ríspida. Nirstum tremelicou, assustado.

– Isso é água benta, vai me ajudar a purificar o ferimento e fechá-lo por completo. – Respondeu. Seus dedos tremiam como folhas de árvore. Nirstum virou parte do frasco onde o ferimento parecia pior e enquanto escorria por todas as aberturas, uma fumaça leve subia, como se estivesse fazendo efeito. Ele proferiu algumas orações enquanto encostava no restante da pele do garoto com as mãos espalmadas. Aos poucos uma aura dourada começou a brilhar em seus dedos, e lentamente o ferimento foi se fechando, até nada restar, a não ser as manchas do sangue. Arian se sentiu aliviado e conseguiu ser rápido para segurar Nirstum. Aquele tipo de cura muito mais complicada, era cansativa e drenava parte de seus poderes. Cassandra observou tudo com extrema curiosidade, agora ela e o irmão passavam os dedos pela parte curada, não acreditando no que estavam vendo.

– O que vocês vieram fazer em Envalur? – Perguntou ela com a voz arrastada, talvez tentando se controlar.

– Viemos receber uma missão. Vamos entrar em uma Dungeon. – Respondeu Arian, seu medo de ter os amigos mortos, aparentemente o fez falar tudo o que era necessário, esperando que pudesse ser libertado.

– Vocês vão enfrentar uma Dungeon em um grupo tão pequeno assim? – Perguntou a mulher. Apesar disso, Cassandra tinha olhos brilhantes demais para ser uma pergunta ingênua.

– Sim. Vamos em um resgate. – Respondeu.

– E vão ter muitos tesouros lá? – Perguntou ela com uma voz estranha.

– Muitos. Vamos poder ficar com tudo, só precisamos salvar as pessoas que foram antes de nós. – Respondeu Arian com a voz tensa, não entendendo onde ela queria chegar.

– Pois bem, acho que vocês tem mais uma companheira nessa jornada. Onde há tesouros, há Ladinos querendo roubá-los. – E com um sorriso maligno, Cassandra encarou Arian, seus olhos intensos e provocativos, tentando saber se alguém iria contra sua vontade.


Notas Finais


*Uma curiosidade: A contagem de tempo realmente acontece em meses lunares, achei que seria um toque a mais, não sei se deu certo. UHASUHAUHS

Ansiosa para o começo da Dungeon!!
Um aviso para quem também está ansioso, os próximos capítulos vão demorar um pouco para sair, pois preciso organizar as fichas de personagem e as habilidades que vou usar.
Inclusive preciso definir algumas coisas em relação a própria Dungeon, pois quero entregar algo realmente memorável para vocês :D
Agradeço a compreensão e tenham uma ótima semana :3


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