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História Vence a Subjetividade - Capítulo 9


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Notas do Autor


Muito obrigada a quem vem apoiando a história <3
Tem angst, mas angst não pode durar pra sempre, certo?
Boa leitura!

Capítulo 9 - Capítulo 9


Capítulo nove Separação em sequência

 

Era o fim daquele extenso capítulo de minha vida.

Recobrada a minha razão e a minha calma, eu estava pronto para executar o plano que havia definido no último mês. E eu precisava dele, ou não poderia suportar o que esta relação estava virando e para quê a minha vida estava convergindo.

Não quer dizer que agora eu estivesse bem e estável, pois estas palavras constituem um ideal que penso ser impossível de alcançar. O que é a estabilidade? Certamente não era a minha tão bem conhecida inércia, assim como também não era simplesmente alcançar uma meta. E o que significa estar bem? Não ter preocupações? Não estar emocionalmente destruído? Ter condições de viver em paz? Ou simplesmente... estar feliz?

Também não poderia ser. Afinal, confesso, com muita relutância... Encontrar Fênix Veríssimo foi uma das melhores surpresas que a vida poderia ter-me destinado.

 

 

Quando Eduardo saiu, eu não conseguia me mover. Estupidamente abraçado com a maleta de trabalho, eu parecia uma criança covarde num corpo desproporcionalmente mais velho. Meu olhar se vidrara em algum ponto aleatório, e as lágrimas desciam mecanicamente. Além de infantil, eu parecia muito pouco humano.

No momento não cheguei a pensar nisto, mas acredito que Gaspar e Sheila estavam trocando olhares de curiosidade e preocupação, quando me viram. Mesmo Mauro, que sempre está aéreo a qualquer coisa senão suas namoradas, percebeu que havia algo de errado; eu não cobraria nenhum apoio da parte dele, até porque conhecer o assunto poderia fazê-lo entrar em conflito consigo mesmo, em relação ao nosso trio e a sua amizade com Eduardo. Também não me lembro se Alice estava indignada ou chocada com os meus olhos inchados e o rosto vermelho, mas sei que foi ela quem tratou de me livrar de uma explicação que todos estavam ansiosos para pedir.

Fomos para o escritório andando, mesmo que ela normalmente não gostasse de caminhar. Em silêncio o tempo inteiro, ela deveria estar avaliando meu humor ou apenas as minhas expressões. Também não me lembro se estive triste o dia inteiro, ou se simplesmente me senti cansado demais para fazer qualquer coisa; fato é que Alice se demorou em análises o suficiente para que chegássemos a nosso destino sem trocar uma única palavra.

Por que eu estava ali, e não em casa? Meu local de trabalho definitivamente não seria utilizado para tal, no restante daquele dia. Porém, qualquer coisa minimamente associada a um lar me despertaria o choro. Até mesmo a presença de Alice era determinante, mas eu não a mandaria embora. Acredito que eu precisasse estar sozinho para refletir, mas de alguma forma sei que ela faria questão de estar comigo, talvez por saber como eu me sentia, ou talvez por ter presenciado todo o nosso drama.

– Olha, Vero, o Promotor Spada... – não tenho certeza se ela estava falando tão pausadamente por causa da delicadeza ou porque estava hesitando. Sua voz fora brevemente interrompida pelo som das chaves abrindo a porta. De lá, eu via a mesa que ficava ao lado da planta Carlota. Antes de sairmos, Alice e eu a organizamos porque eu havia espalhado todos os documentos em busca de um papel. Ela devia estar apenas com uma pilha pequena de documentos na ponta, mas... havia um envelope.

– Espera. – pensei que meu tom sairia firme e concentrado, mas pareceu mais como um apelo desesperado. O envelope era vermelho, e isso já explicava muito.

Eu não sabia, mas aquele seria o último dos poucos bilhetes que recebi “anonimamente”. Meu remetente fora óbvio desde o começo, ele apenas não assinava suas mensagens. De quem mais eu poderia esperar um contato tão único?

Mas agora estávamos quebrados, estilhaçados e sem força para continuar ao redor, distantes quando queremos aproximação. Hoje foi a prova disto. Eu, do meu jeito sentimental e extravasante, consegui lhe dizer coisas que estava tentando há semanas; e ele, com sua introspecção reservada, externada por meio de pequenas ações, também me fez entender uma mensagem: ainda estamos conectados.

O que ele poderia querer em mais um bilhete? Eu acreditava que nosso momento anterior havia deixado claro que nos entendíamos. Aparentemente, ainda haviam assuntos não resolvidos.

“Estamos bem?” era como começava o bilhete. Ele finalmente usara sua caligrafia perfeita e redonda (como eu sabia que o era) e continuava por mais algumas palavras: “Espero que estejamos. Não se preocupe. Ainda não acabou.” A primeira era uma afirmação de algo que eu também sentia. A segunda, um pedido que eu também gostaria de lhe dizer. Mas a terceira... o que aquilo significava? Não havia nada para acabar, já que nosso reencontro foi a prova de que nossa relação não acabou.

Eu achava que ele estava sendo subjetivo demais, que em um tão curto espaço havia conseguido se dispersar e me notificar de algo que não tinha a ver comigo, mas sim com seus problemas pessoais. Se eu tivesse parado para pensar mais um pouquinho, talvez tivesse descoberto...

– Vero?

Contudo, Alice me puxou de volta para o plano material da coisa. Queria saber do bilhete, e queria saber se eu estava bem. Eu mostrei o conteúdo do papel e tentei tranquiliza-la, mas não creio que tenha funcionado porque, apesar de ela não ter tocado no assunto pelo resto do dia, estava claramente concentrada nele.

O que me leva à primeira separação. Alice iria embora no dia seguinte sem me avisar, e imaginava que estava atrapalhando, não sendo útil ou algo assim. Tenho certeza de que não queria me deixar sozinho, e que isso era muito mais sobre ela do que sobre mim, mas não pude deixar de me culpar por sua ida. Ela via em mim um caso perdido, que não podia ajudar, e queria ir para treinar e se tornar uma médium melhor. Como eu poderia lhe pedir que não fosse? Seria egoísta e, além do mais, era uma decisão dela para o futuro dela. Não era justo.

– Alice! Espera aí! – mas é claro que eu fui até lá assim mesmo. E foi uma despedida, de fato, com uma pontinha de dor. Nós nem mesmo pudemos conversar direito antes de ela ir, e fiquei admirado com o assunto que resolveu falar sobre. Depois, é claro, tivemos o tão dramático abraço e os olhos marejando. Mas eu sabia que não era para sempre, e foi isso que me fez conseguir focar no que ela falou:

– Vero, eu quero que você saiba de uma coisa, tá bom?

– Sim?

– Ontem eu queria te dizer, mas não consegui. É sobre você e o Promotor Spada...

– ...Sim?

– Vocês tem uma relação linda, Vero.

Nem preciso dizer que não consegui responder. Ela sorriu quando viu o meu rosto, disse adeus e embarcou no trem. Passei o caminho inteiro para casa refletindo sobre esta frase, e cheguei à conclusão de que as pessoas não tem nenhum filtro de conteúdo na boca quando se trata de mim e do Eduardo. Não tive certeza de se isto era algo ruim.

Também não tive certeza da intenção dela com aquilo, digo, eu já não estava confuso o suficiente? Tinha certeza de muitas coisas, mas tinha dúvidas sobre o dobro. Mesmo que ela quisesse apenas dizer algo inspirador, por que escolher aquelas palavras?

Uma relação linda? De que forma? Estávamos sempre em conflito, uma harmonia, de fato, mas que não entendíamos. Uma ressonância estranha em que, se um se desviasse, o outro também sofria consequências. Será que aquilo seria considerado bonito? Era pessoal, subjetivo ao extremo, sim, além de profundo e cheio de raízes e subsegmentos. Mas... lindo?

Talvez ela estivesse olhando através do agora. Definitivamente Alice não romantizaria o nosso recomeço problemático, então sobre o que ela estava falando?!

Será que ela vira a cena do dia anterior? Eu e ele finalmente nos entendendo... Aquele era o verdadeiro recomeço?

Eu adoraria dizer que sim. Seria mais cômodo e mais digno, no futuro, dizer que nos reencontramos com questões não resolvidas de quinze anos atrás materializadas em um caso recente, mas não. Somos mais densos que isto, e a materialização de uma situação envolvendo a nós dois é realmente rara.

Eram tantas suposições. Não adiantava tê-las, se nada fazia para entende-las. Eu sabia disso. Eu sempre soube disso. Então...

Então eu deveria falar com o Eduardo sobre elas?

Não. Não, não, não... eu não conseguiria neste momento. Antes, quando tudo era sobre brigas bobas comigo estourando uma caneta dele, ou com ele me ignorando por birra, as coisas seriam muito mais fáceis. Eu não tenho orgulho algum para engolir, e nem tive naquela época. O que me diferencia do Fênix de nove anos é apenas o medo. E eu sabia disto. Sabia que não conseguiria falar com ele por causa da ansiedade.

Acontece que agora não era como nos últimos meses. Não era algo que eu podia deixar para o momento certo, quando nos reaproximássemos porque, no fim, isto definiria a nossa reaproximação. E eu também sabia disto. Mesmo se eu falasse sobre o que eu sinto... o que ele me responderia?

Em 2001, ele corava e gaguejava alguma desculpa para não falar sobre si mesmo. Perto do fim do ano, acho que consegui lhe fazer se abrir comigo, uma ou duas vezes, e foram os melhores momentos da nossa amizade. Até quando ele não dizia nada, tentando se esconder atrás do cabelo (que não cobria o seu rosto), ele sorria quando eu pedia desculpas. E sorria quando ele mesmo pedia desculpas, também.

Nós sempre fomos honestos um com o outro. Desde que ele acreditou cegamente na minha inocência, mesmo sem sermos amigos. Sim, ele sempre soube quem fora o verdadeiro “culpado” naquela história, porém não tinha nenhuma necessidade de me defender. E ele pode justificar com o seu senso de justiça e inspiração em seu pai o quanto quiser, massa sua timidez era muita para gritar “Protesto!” na frente de toda a sala sem um motivo.

Ele gostava de mim antes de sermos amigos. E, se ele tivesse-me deixado falar... talvez soubesse agora que eu sempre gostei dele, também. Além disto, mesmo que o assunto não seja sobre ele, sei que o Mauro teve influência naquela situação inteira (ainda mais do que ser literalmente o causador dela), porque o Eduardo não o dedurou.

Depois do dia de ontem, eu deixei de confiar no acaso, porque aparentemente ele só nos está machucando. Voltei a refletir sobre o fazer alguma coisa, e acabei descobrindo que o Eduardo também está com medo e ansioso. Somos igualmente intensos, é o que eu quero dizer.

O meu único problema é já saber de tudo isso, e continuar neste impasse. Não tenho mais a quem pedir conselhos, porque não consigo falar sobre nós dois, e agora a única pessoa que falava espontaneamente sobre o assunto foi embora.

Arriscar? Eu tenho medo desta palavra, mas não é como se não o tivesse de muitas outras.

O que acontece é que o meu cansaço chegava ao limite. Falar com o Eduardo ou desistir de tudo pelo que procurei por quinze anos, esta era a não tão difícil escolha que eu precisava fazer. E, assim como todos os outros fatores, eu já conhecia a resposta: Eu iria até ele.

Foi aí...

Quando eu tentei ir ao escritório dele (porque não sabia onde morava)...

Eu estava disposto a ouvir palavras frias, ou a aguentar o silêncio desconfortável que poderia surgir. Eu tinha certeza de que seria horrível e doloroso, mas que permanecer distante se tornaria ainda pior, exponencialmente falando.

Mas eu não estava preparado para o que realmente aconteceu.

De maneira alguma.

De maneira alguma eu poderia aceitar aquilo passivamente.

“Promotor Spada escolhe a morte”.

De maneira alguma eu poderia processar aquilo e continuar vivendo normalmente.

“Não é o fim”, foi o que ele me disse. “Escolho a morte”, foi o que disse ao restante do mundo.

E eu, apenas para mim mesmo, disse: Não.



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