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História Verão, Outono, Inverno, Primavera, Verão. - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Prometo que em breve farei uma capa bonita, eu apenas achei esta história nos meus arquivos, escrevi há três anos atrás e já nem me lembrava mais do conteúdo. Porém, achei-a hoje e decidi postar, para não esquecer.
A capa não faz diferença, não é?

Ouçam a música "Fall" do Crush depois, antes, durante. Vocês escolhem.

Capítulo 1 - Fall


 

Junho de 2011, Verão.

 Conheci o sol pela primeira vez. Era como jamais ter saído no verão, na primavera ou qualquer que fosse a estação em que o sol era forte e marcante na Coréia. Estava tudo quente e abafado ao nosso redor, mas nada tão aquecido quanto meu coração.

Era minha décima ou vigésima audição para fazer parte de um grupo de Hip-Hop/Rap, desistir não combinava com meu estilo, mas estava muito perto de o fazer. Porém, sempre que pensava em tal coisa, me lembrava que ninguém jamais alcançou seus sonhos desistindo na primeira queda.

Por isso, lá estava eu, vestindo minha camisa listrada, entupi o cabelo de gel para impressionar. Naquela época eu era apenas uma criança, mas já tinha muito o que dizer, quem pensa que adolescentes não possuem visão de mundo completa e absoluta, se engana redondamente. Eu já sabia exatamente o que eu queria alcançar.

O mundo.

A Billboard.

Queria ser reconhecido pelas minhas palavras, queria que todos soubessem que eu não era apenas um garoto estúpido que escrevia letras tortas sobre indignação social e amor, que inclusive, nunca tive.

Queria que eles soubessem a diferença entre um cantor e um rapper, eu não estava apenas cantando uma música, eu estava contando uma história, a minha história. E de mais um monte de Min Yoongi’s que sacrificaram o conforto do conhecido de suas paredes, porque sabiam que, independente do que estar longe de casa significa, o que se busca é mais valioso.

Saí de casa aos dezesseis anos, não definitivamente, mas foi minha primeira experiência morando longe dos meus pais. Eu vivia em um daqueles albergues onde estudantes estrangeiros e adolescentes de todos os cantos do mundo, vão morar, para gastar menos e poderem aproveitar mais.

Queria dizer que não entendia por que um jovem saía de sua casa com uma mochila nas costas sem quase nenhum dinheiro no bolso, almejando conhecer o mundo, mas eu entendia muito bem, eu tinha feito aquilo.

Um garoto sem dinheiro e nenhuma perspectiva, saiu de sua casa para buscar conquistar um espaço entre as grandes pilastras do mundo. Aquele era o começo da minha história.

O problema era que, por mais letras que eu fizesse e vendesse, nunca parecia ser recompensado o suficiente. As pessoas não me pagavam o suficiente para me alimentar e ter sucesso, eu não conseguia me estabelecer no mundo da música, sequer saía do lugar, dava apenas alguns passinhos e morria na praia.

Quando fiz minha primeira audição para a BigHit, do começo ao fim parecia um sonho, quer dizer, um garoto que nunca teve nada, que sempre lutou até mesmo pela camisa que vestia, mesmo que minha intenção não fosse, nem que por um momento, parecer bem vestido e supimpa, qualquer pequena garagem é um estádio inteiro.

Eu tinha dezenove anos quando saí de Daegu e finalmente me desvencilhei de minha família de verdade, fui para Seul. O sentido de toda essa história foi o que veio depois, para falar a verdade.

Na primeira vez em que entrei na sala de audição, encontrei aquele pequeno grupo de rostos novos, alguns mais novos que o meu até, com sorrisos radiantes e pensando que o mundo era apenas uma caixinha de surpresa e uma surpresa feliz. Minha mente deu um nó, e tudo o que eu conseguia pensar era, por que eu não conseguia me sentir vivo daquela forma?

Quando eu estava em Daegu mas fora de casa, era quase a mesma coisa, o problema sempre foi mais específico, não estar com eles e não ter eles para estar era uma diferença bem tênue.

Quando fui aceito pela empresa Kim Namjoon já estava lá, ele era o meu melhor amigo. Não foram poucas as vezes que as pessoas nos pegaram sentados nos corredores, no soalho de madeira fina e amarela, com a cabeça encostada na parede e se perguntando: “E agora?”.

Essa era sempre a nossa pergunta, ele, um pouco menos sucinto do que eu, mas sempre essa confusão e questionamento: O que fazer depois do próximo passo?

Me lembro até hoje da primeira conversa que tivemos. Estávamos sentados no telhado do prédio da empresa, aproveitando todas as árduas sessões que ser trainee exigia, e refletindo sobre o ambiente.

— Você sabe o que quer? — Lembro de Namjoon ter me perguntado, olhando para nenhum lugar em específico, além dos prédios.

O céu estava em uma perfeita mescla de laranja e púrpura.

— Eu não sei sequer o que estou fazendo aqui, Namjoon. — Aquilo era uma exagero. Eu sabia que estava ali porque queria ser rapper e alcançar o mundo com a minha música, mas fora isso, eu não era capaz de chegar a qualquer outro lugar. Tinha certeza de que não.

— Quando vamos descobrir o que fazer?

Ele costumava me perguntar aquelas coisas e eu não conseguia me irritar de fato porque, na maioria das vezes, eu não explanava, mas também queria saber. Namjoon me perguntava como seu hyung, mas a verdade era que me sentia tão perdido quanto ele.

— Provavelmente quando alguém virar a página desse livro ridículo que é a nossa vida.

E é aí que ele entra.

Jung Hoseok foi o terceiro de nós a entrar na empresa. Sabe quando é sábado e você precisa acordar cedo, então você puxa as cortinas e o sol queima seu rosto? Foi basicamente como eu me senti quando ele chegou.

Hoseok chegou sorrindo e dançando pelo local, com jeito espevitad, que o fazia parecer engraçado e cheio de vida. Inicialmente, era para sermos um grupo de Hip Hop puro, mas com o tempo mudamos o direcionamento.

O foco não é o que eu me tornei com o grupo, é o que eu me tornei com ele e por ele. E eu digo isso porque pensar nos momentos em que Hoseok esteve ao meu lado, é refletir sobre todos os momento em que ele, genuinamente, salvou a minha vida.

Me lembro de já terem perguntado para mim o que o Hoseok significava para mim e, provavelmente não com essas palavras mas, eu disse que ele fazia o meu dia melhor. Que quando eu estava com ele, me sentia incapaz de estar triste.

Isso era quase que uma verdade universal, era sobre essa coisa romântica e que não faz nem um pouco o meu tipo, e nunca entendi exatamente de onde veio, mas se manifestou por ele. Eu era uma nuvem negra, e ele era o sol que esquentava o paraíso de pedra abaixo de nós.

Éramos totalmente opostos, isso eu já tinha observado desde o começo, eu pensava em A e ele vinha com a opinião B. Toda vez que eu queria ficar sozinho, escrevendo o que quer que fosse, ele se deslocava de onde estivesse para se deitar ao meu lado, achando que seu falatório sem parar me ajudava em algo.

Me ajudava, mas não a progredir em trabalho. Ele me ajudava a fugir de mim mesmo.

Quando fui embora de Daegu, desenvolvi uma fobia social muito pesada, era muito difícil ficar perto das pessoas até mesmo dos membros do grupo no começo, mas eu que não tinha mão para tentar alcançar a deles, tinha para segurar a de Jung.

 

Agosto 2013, Outono.

 

— Está tudo bem? — Ouço a voz de Hoseok perguntando aquilo ainda hoje em meus ouvidos.

Eu estava sentado na varanda do dormitório, todos os outros garoto estavam reunidos numa espécie de acampamento, mas eu queria ficar sozinho.

Geralmente quando eu estava perto das pessoas, tinha a terrível sensação do estar passando minha tristeza para elas, então eu evitava.

— Está. — Menti.

Eu era um pouco preguiçoso, levaria tempo explicando tudo o que se passava em minha mente, por isso apenas disse que estava tudo bem e me virei no chão, ficando de costas para ele.

Já naquela época eu não gostava de aproximação demais, por isso, quando ele se sentou ao meu lado no chão, fiquei surpreso.

— Então eu vou ficar aqui. Só para o caso de você não ficar “bem” por tempo o suficiente.

 

E eu me lembro de ele ter ficado. Ele ficou ao meu lado o resto da tarde, a noite chegou, os garotos se retiraram e ele simplesmente ficou lá, mexendo no celular e treinando uns movimentos com as mãos e corpo, que eu desconhecia mas pareciam ser de dança.

Ele não disse nada o tempo inteiro e parecia não estar incomodado com o silêncio.

— Você não tem nada melhor para fazer? — Perguntei, na intenção de ser rude.

Ele tirou seus fones e me mostrou seu celular, estava no episódio dois de Boys Over Flowers.

— O que é isso? — Eu não era burro, claro, mas romance não era bem o meu forte.

— Meu dorama favorito. Quer assistir comigo? Você também parece não ter nada melhor para fazer.

 E então Hoseok sorriu, depois de ter dito aquilo como se fosse óbvio e, mesmo que eu fosse o mais grosseiro dos anfitriões quando incomodado, ele não se importaria em mudar sua postura.

Então eu fui. Min Yoongi apenas deu de ombros e se sentou para assistir uma droga de um dorama, como se fosse o filme de terror mais interessante que eu já tinha visto. À partir daquele momento eu sabia que tinha começado a escorregar ladeira abaixo.

 

Me lembro de alguns relances de sua existência, quer dizer, eu me lembro de cada momento que vivi desde que ele apareceu, eu não diria todos os momentos marcantes porque todos os momentos com ele foram marcantes.

Esse era o problema de se apaixonar por Jung Hoseok, você nunca saberia dizer qual dia você o amou mais para registrar na memória como um dia especial, para ser contado para seus futuros filhos ou algo assim, porque todos os dias era como se apaixonar por ele pela primeira vez.

Todos os anos que passamos com o grupo foram apenas a preparação para tudo o que viria. No começo eu não fazia ideia do que estava fazendo, eu pensava que era apenas a presença dele que era reconfortante, um pouco de fanservice aqui, umas lágrimas para as fujoshis.

Mas, em algum momento a ficha realmente caiu, me lembro de ter sido algum momento entre quando ele riu para mim, com aquela máscara de beleza ridícula no rosto e colocou os cabelos para trás, e quando, num dia em que eu me sentia totalmente derrotado, ele foi até o meu estúdio e disse que me amava.

Era amor de irmão, mas sempre que ele dizia que me amava, era como se eu renascesse.

 

Em Setembro de 2017 fizemos um debut com uma música que me inspirou a escrever tudo isso. Isto é, na verdade o desabafo de amor mais sincero que eu já fiz em minha vida.

Na altura que escrevi a letra de Outro: Her eu ainda nem fazia ideia do que sentia por ele, quer dizer, quando eu via Hoseok meu coração disparava, e era algo bonitinho de se ver, mas era só. Era só isso que eu via na música, um jeito bonitinho de olhar para ele.

Mas, quando apresentei a música pela primeira vez em um programa que na época se chamava BTS Countdown, ele estava lá, olhando para mim e sorrindo daquele jeito que sempre fazia para me dar apoio. Para eu saber que, independente do que acontecesse, ele estava ao meu lado.

Foi quando eu me dei conta, Jung Hoseok virou a minha página e eu passei demasiado tempo com isso bem expresso, sem perceber.

Eu era um homem totalmente destruído na altura que ele me conheceu, rancoroso, bagunceiro, desinteressado, sem esperança, e Hoseok simplesmente fez jus ao seu nome, e me salvou do poço ao qual eu mesmo me afundava.

Eu não me afundava apenas, todas as vezes em que sentia meu corpo na lama, eu só queria descer mais, uma parte de mim queria a Billboard, a outra só queria ser alguém, eu não me sentia mesmo alguém. Uma pessoa, com corpo físico.

Mas, Jung foi a esperança da minha vida, ele sorria para mim e segurava minha mão, me contava aquelas piadas tolas e jogava seus cabelos para trás, e tudo me enlouquecia em um nível que eu não conseguiria colocar em palavras. Eu olhava para Hoseok e eu tinha porquê continuar.

Eu continuaria por ele. E apenas em prol dele.

Então ganhamos o Billboard.

Entramos pro HOT100.

E a cada novo comeback, nós conquistávamos mais um pedaço do mundo, e ele, conquistava um pouco mais de mim.

No dia do aniversário de vinte e cinco anos de Hoseok, eu não aguentava mais esperar, observar ele de longe, vê-lo sem poder tocá-lo de verdade. Fiz uma surpresa no dormitório para ele.

Espalhei rosas pelo quarto, Sprite gelada por todos os cantos, uma porção daqueles filmes lamechas que ele tanto gostava e uma música. Eu sempre cantei mal, muito mal, pelo menos era o que eu achava, mas fiz uma demo minha cantando uma música chamada SOPE.

Era simplesmente uma mistura dos nossos nomes, mais um milhão de referências em cada verso.

Eu estava cantando, tocando violão e fingindo que sabia dar notas altas na música, no final ficou uma droga, mas ele amou. Hoseok simplesmente amou aquela droga mal feita que eu usei meus melhores equipamentos, mas eu que era um falhado, por isso não tinha dado certo.

Ele amou, porque ele era o ser mais puro e incrível que eu já tinha conhecido em minha vida.

Então, no dia 18 de Fevereiro de 2018 eu fui para cama com Jung Hoseok pela primeira vez, e se o céu fosse uma pessoa, com certeza era ele.

Por cima, por baixo, Hoseok foi o meu céu durante uma noite e durante todas as noites que se seguiram.

O grupo não durou para sempre, claro. Depois que o Seokjin hyung teve de ir para o Exército nós demos uma parada para esperarmos ele voltar, pretendíamos fazer um comeback sem ele, mas o Namjoon não quis, disse que sem a voz do Jin ficaria um desfalque. Conversa fiada, o Namjoon era mesmo um lamechas, estava magoado com o fato de Jin não estar entre nós e sentia que estávamos seguindo em frente, no literal, sem ele.

O problema foi que depois que o hyung foi, eu fui logo em seguida, depois Namjoon e o Hoseok foram. Enfim, só voltamos mesmo quando faltava o Jungkook ir, porque ainda teríamos dois anos até que ele fosse, então, ficamos quase quatro anos sem fazer absolutamente nada relacionado ao grupo.

Taehyung tinha começado uma brilhante carreira como fotógrafo, o Jimin e o Hoseok entraram para uma das melhores companhias de dança de Seul, o Jungkook e eu finalmente abrimos nosso restaurante de carne, o Namjoon seguiu carreira solo como rapper e o Seokjin quando voltou, se estabeleceu como ator, finalmente.

Eu nunca vi ninguém tão feliz em minha vida, nem no dia do nosso casamento eu mesmo estava tão feliz.

Na verdade, foi um dia extraordinário.

Eu pensei que os fãs fossem reclamar quando souberam, quer dizer, eu não queria desapontar nenhum deles, mesmo que já tivessem dez anos desde que o grupo fora formado, não queria que ficassem tristes, pensando que eu ou o Hoseok os tínhamos abandonado ou queríamos magoá-los. Mas, eu o amava, o amava tanto que às vezes era difícil respirar.

As paredes de meu quarto estavam tão repletas de letras sobre ele que tinha mais “Você” que nota “Dó” nas minhas composições. Era simplesmente surreal.

Então, eu pedi ele em casamento, e ele aceitou.

Como o Namjoon dizia, a felicidade não consistia numa eternidade e sim em pequenos momentos aos quais tínhamos de nos agarrar com força. Aquele foi um dos momentos mais felizes da minha vida, e foi ainda mais significativo porque todos os outros momentos felizes aconteceram por causa dele também.

Hoseok e eu casamos num lugar que mais parecia uma floresta. Não sei explicar, tinha umas flores bonitas por todos os lugares, estava cheio de pessoas, e mesmo com o hiatos do grupo há um tempo, a imensidão de paparazzis na entrada do local era absurda.

Provavelmente eles queriam “confirmar” o que todas as garotas diziam há anos e ninguém acreditava. Na altura eu tinha um conta fake no Twitter, onde eu ficava bisbilhotando as menções do meu nome com o Hoseok juntos, quando não estava dormindo. Histórias, vídeos, gifs, fotos... Até umas coisinhas mais obscenas, tudo isso sobre nós dois e eu ria, eu ria porque era verdade e mais ainda porque elas estavam certas.

Quem estava cantando no local era o Jimin e o Taehyung, pelo menos quando eu cheguei, o noivo mais pontual da história da Coréia. Na realidade eu estava nervoso, lembro como se fosse hoje do Namjoon curtindo com a minha cara.

 

— Yoongi, calma! O máximo que ele pode te dizer é um “não”.

Quando ele disse aquilo eu quis mata-lo. Com as minhas próprias mãos, até que não sobrasse nada, principalmente porque aquele era o meu maior medo.

Não é como se eu fosse a melhor opção do mundo, tinha medo de ele dizer não porque eu não era o melhor do mundo justamente, quem já cogitou a possibilidade de se casar com Min Yoongi com certeza não tem mais jeito.

Quando Hoseok entrou no salão, ah, eu tenho que descrever aquela cena.

Seus cabelos estavam ruivos, aquele laranja que eu adorava, partido ao meio como quando éramos mais novos, caído um pouco sobre os olhos, usava um terno preto comum, mas tinha uma chocker. Quando ele usava chocker era com certeza a minha morte.

Jung Hoseok era provavelmente a pessoa mais linda que eu já tinha visto em minha vida, as curvas dos seus lábios, as covinhas que adornavam seu sorriso, a forma como seus dentes eram perfeitos e brancos e pareciam uma paisagem de tão bonitos quando ele sorria. Tudo isso, o conjunto da obra, me faziam sentir como se eu estivesse casando com uma escultura, e não com um ser humano.

Jung Hoseok nem era humano, a beleza dele desafiava as leis da física.

 

04 de Dezembro de 2028, Inverno.

Mesmo sendo aniversário do Seokjin hyung, claramente ele e o Namjoon foram nossos padrinhos, não tinha como ser diferente na realidade, Namjoon era o meu melhor amigo desde sempre e o Seokjin da mesma forma para nós dois. E também, eu tinha certeza que eles dois tinham algo e ainda não tinham dito nada, há quinze anos que eu e todos do grupo tínhamos a certeza disso, mas eles não afirmavam e nem negavam nada.

Eu entendia o Seokjin hyung porque o Namjoon sempre fora um falhado como eu, mas o Namjoon sempre foi um romântico completo, provavelmente devia estar esperando o mundo parar para anunciar o que seria, provavelmente, “O casamento do ano”.

Você está nervoso? — Me lembro de Hobi perguntar ao pé de meu ouvido, um pouco antes do cerimonialista chegar, e só de ouvir a voz rouca dele em meu ouvido, já fazia tudo parecer menos sonho e mais real.

Balancei a cabeça afirmativamente e ele agarrou minha mão. Suas mãos grandes que aqueciam as minhas pequenas sempre foram meu porto seguro. Assim como ele.

Não se preocupe, eu não vou a lugar algum sem você. — Hoseok afirmou e sorriu. Sorriu como se o seu sorriso não abalasse o mundo inteiro e fizesse de mim, provavelmente, o homem mais sortudo e ridiculamente apaixonado.

E eu sorri de volta, porque era tudo o que eu podia fazer quando ele sorria daquela forma para mim: Sorrir e agradecer aos céus pela sua existência.

O casamento foi maravilhoso e a Lua de Mel, mais ainda.

Na realidade já tínhamos viajado sozinhos uma porção de vezes, desde a época do grupo que Hoseok tinha vontade de viajar comigo, e nossa primeira viagem foi para a África. Eu ficava pedindo para o Bon Voyage ser para lá e acabou nunca sendo, então, numa das férias nós fomos.

Tenho todas as fotos num dos nossos primeiros álbuns de viagem. Hoseok no safari, alisando uma girafa (A qual tenho de comentar que ele sentiu uma nostalgia, como se estivesse encontrando uma velha amiga), fingindo que tocava na juba de um leão e em todas, todas as fotos, eu conseguia capturar as nuances de sua existência e o quão feliz ele parecia. Me senti grato por Hoseok se sentir confortável comigo, o suficiente para não conseguir parar de sorrir, pois quando eu estava com ele, sentia que era impossível querer estar em outo lugar.

Nossa lua de mel foi em Paris. Sim, completamente clichê, mas Hobi era romântico e bobo e eu, completamente apaixonado por ele, o que eu podia fazer? O que ele me pedisse sorrindo, eu certamente faria chorando.

As coisas mais bonitas da viagem nem foram as paisagens, o lugar, o entorno, nada disso, nada banal como isso, a beleza era simples e tão somente ele. Ele e todas as fotos que tirei em todos os lugares, com todas as roupas e posições possíveis.

Não já bastava ter mais seu nome do que nota em minhas músicas, agora tinha mais foto dele do que foto da paisagem, em minha câmera. Se um dia eu quisesse ser fotógrafo, pela linha que eu estava seguindo, não ia conseguir, quer dizer, quem quer ter fotos de outra pessoa em sua casa?

Mesmo que esse homem fosse o mais lindo que já existiu. Um anjo mesmo.

 

25 de Abril de 2029, Primavera.

 

Minha primeira primavera com o Hoseok.

 

Quer dizer, a primeira primavera como casados. Se fosse outro casal qualquer, estariam planejando filhos e um monte de crianças para encher a casa, mas nós, mesmo que Hoseok quisesse duas meninas e um menino, e eu somente um menino, estávamos curtindo nossa presença mais do que tudo.

Ficávamos debaixo das árvores de cerejeira no parque de Seul, observando o pôr-do-sol e eu via ele sorrir e fechar os olhos, sentindo o cheiro das folhas e do vento, sabia que ele mentalmente estava tentando acreditar que era real, assim como eu.

Min Yoongi era apenas alguém que não tinha confiança, nem acreditava que alguém como ele um dia fosse amá-lo, mesmo depois de tanto tempo. Ele, porém, apenas não acreditava que amar fosse tão bom e tão mais profundo do que suas letras.

A verdade era que Hoseok era tão triste por dentro quanto eu e Namjoon, a diferença dele para nós é que Hoseok conseguia fazer com que a felicidade fosse muito mais constante do que a dor ou a tristeza. Esse foi um dos motivos pelos quais eu tenho certeza que ele me salvou de mim mesmo.

 

Era incrível como uma pessoa podia não mudar absolutamente nada de sua essência com o passar do tempo.

Era todo dia a mesma coisa, ele acordava primeiro do que eu e ficava debruçado sobre o braço observando-me dormir, e eu sempre acordava com seus olhos castanhos sobre mim. Me negando beijos por dizer que beijos pela manhã não são saudáveis e nem românticos, e eu não estava nem aí para as leis normais da natureza, ele só era o homem mais lindo ao acordar, e eu queria aproveitar aquilo.

Fazíamos amor uma, duas, às vezes até três, se eu não estivesse muito cansado ou dolorido, antes de eu ter de levantar mesmo para tratar do restaurante e da empresa de móveis planejados. E ele tinha que chegar cedo na companhia também, para ensaiar e arrasar, como ele sempre fazia.

Eu ia para todos as suas apresentações. Não só eu como os garotos, o Namjoon finalmente assumiu para nós que namorava o Seokjin desde 2015, e ainda contou mais, contou que se tinha apaixonado pelo garoto desde a primeira vez que se viram. Me lembro como se fosse hoje quando ele contou, numa das primeiras turnês que o Hoseok e o Jimin tinham feito, para dançar Lago dos Cisnes da Rússia.

Eles voltaram com um prêmio e fomos todos comer, como nos velhos tempos.

 

13 de Junho de 2030, Verão.

— Eu tenho algo a anunciar. — Me lembro de Namjoon ter dito exatamente assim e eu, segurando a mão de Hoseok, suspirando.

— Fala Namjoon. Eu quero ouvir isso saindo da sua boca.

— Então... Eu e o hyung vamos nos casar. — Eu juro que na hora engasguei com o Bibimbap.

— Mas, que merda... Você está falando sério, Joon? — perguntei e ele levantou as mãos grandes e de dedos finos de Jin, e o mais engraçado era que: Eles estavam usando a mesma aliança que eu me lembro de ter visto no dedo deles em 2015.

Há quinze anos atrás. Eu simplesmente não podia acreditar que eles estavam noivos há quinze anos.

— Sim. Na verdade nós namoramos desde 2015, oficialmente eu digo, que eu pedi mesmo. Mas eu me apaixonei pelo Jin desde a primeira vez que levei-o ao café. — Eu ri.

Me lembrava daquele dia. Eu dormia demais desde sempre, não tinha como não ter uma boa memória pela quantidade de tempo que eu passava dormindo, mas daquilo eu me lembrava nitidamente.

Tudo sobre o Namjoon não me escapava, nunca.

— Aquele dia daquela foto horrível? — Namjoon riu, daquele mesmo jeito de sempre, as covinhas aparecendo, recebendo um tapa no ombro de Jin e tendo Jungkook, Jimin e Taehyung se jogando uns sobre os outros, na hora de rir.

— Sim. Eu me lembro de ter perguntado ao Jin se ele entendia que aquilo não era brincadeira, e se ele estava preparado para a vida que teríamos daquele dia em diante. E ele apenas sorriu para mim, segurou minha mão e disse que sim. Pode parecer não significar absolutamente nada para vocês, mas quando se tem uma mente conturbada como a minha, ter alguém que não pensa tanto, que está feliz apenas em fazer as pessoas felizes, e simplesmente... É o completo oposto a bagunça que você é, você se agarra a essa pessoa e não solta mais.

“Eu sei que sempre pareceu que eu e o Jin não nos dávamos bem, mas a verdade é que ele completava meus espaços vazios, e essas coisas bem clichês. Quando eu me sentia mal por não saber o que eu tinha de fazer em seguida, quando sentia que eu não era nada mais do que um rapper com um bom cérebro, ele vinha e me mostrava que cada um era especial pelas suas particularidades. Seokjin vinha e me mostrava que eu não precisava complicar o que era simples em sua natureza. Seokjin sempre foi o meu alicerce, desde aquele dia, até hoje.”

Eu me lembro de ter chorado. Mesmo, umas lágrimas caíram dos meus olhos e eu me levantei para abraçar Namjoon, parece ridículo mas era do mesmo jeito que eu me sentia em relação a Hoseok.

Eu sentia que ele simplesmente tinha dado tudo de si para me fazer uma pessoa melhor, simplesmente por ser ele e ser feliz em ser o que era. Por isso eu e Namjoon éramos tão amigos, porque tínhamos o coração partido no mesmo lugar, e por isso também que, perto dos quarenta anos, éramos tão felizes, porque tínhamos encontrado os homens das nossas vidas, bem debaixo dos nossos narizes.

Hoseok chorou também naquele dia, porque no caminho para casa eu disse tantas coisas bonitas para ele no carro que em casa, naquela mesma semana, recebemos uma notificação por barulho da vizinhança.

Valeu a pena os cento e vinte mil wons que paguei por barulho na madrugada. Aquela noite foi épica.

 

20 de Junho de 2030, Verão.

 

E é aqui que eu me despeço.

Me despeço da felicidade, do grupo e da minha vida pacata.

Pensando sobre isso agora, pensando em como as coisas aconteceram, se eu pudesse voltar atrás, se eu soubesse que aquele jantar em conjunto era o nosso último jantar, eu teria ficado um pouco mais. Quer dizer, eu teria perguntado mais sobre os garotos, nós teríamos tirado mais fotos para o álbum, e eu teria feito muito mais do que amor até o amanhecer com Hoseok.

Eu teria amado ele como se aquela fosse a nossa última chance. Se eu soubesse, eu não teria deixado ele ir.

Uma semana depois daquele jantar em grupo, Hoseok e Jimin viajaram para uma turnê pela América do Norte, para uma série de apresentações, minha empresa de móveis planejados tinha conseguido um cliente incrível e eu não podia perder a chance. Mesmo que eu e Hobi tivéssemos uma vida estável, eu não jogaria dinheiro fora daquela forma, e era eu quem desenhava todos os móveis, por isso não podia ir com ele para a América.

Levei-o para o aeroporto e os garotos também foram, nós sempre arranjávamos um jeito de estarmos juntos, o Jin Hyung nunca deixou que nos separássemos de verdade.

Abracei Hoseok forte e dei um longo beijo nele, disse que o amava e pedi que me ligasse quando chegassem em Nova York. Ele disse que me ligaria.

Mas ele não ligou.

O avião sofreu uma turbulência, uma das turbinas queimou e ele caiu antes que qualquer providência pudesse ser tomada. Caiu no meio do mar e explodiu, em um milhão de pedaços como uma supernova, uma câmera filmou.

Eu me lembro de estar sentado no sofá comendo um Rámen, esperando que ele me ligasse e com o Holly aos meus pés, outro cachorro que tínhamos adotado e eu coloquei o mesmo nome do antigo do meu irmão.

Quando eu vi o nome do vôo, saí correndo para o meu escritório e peguei a cópia da passagem de Hoseok que ele sempre deixava na gaveta, para o caso de algo dar errado; e li, cruzando os dedos para nada dar errado. Mas deu.

Eu me ajoelhei no chão e quando meu celular tocou eu joguei ele na parede com tanta força que quebrou não só ele, mas eu danifiquei a pintura.

Deitei no chão do escritório escuro, achando uma corrente que ele estava procurando há meses, debaixo da poltrona, e simplesmente fiquei ali, olhando para ela. Eu não conseguia chorar, não conseguia pensar e nem me mover, eu só conseguia olhar para a corrente e perguntar o que estava acontecendo.

A vida é uma coisa engraçada, quanto mais você tenta entendê-la, mais rapidamente você esquece os meios para chegar a uma explicação sensata.

Nós viajamos quase o planeta Terra inteiro de avião, toda semana um lugar diferente, pegamos tantos aviões, para tantos lugares, respiramos tantos ares, e nada aconteceu. Não que eu estivesse desejando que nós sete morrêssemos, o ponto era que, viajamos diversas vezes e nada nos aconteceu, então Hoseok viaja sem mim e de repente o avião cai, e eu perco ele para sempre.

Quantos números existem entre um e infinito, que são capazes de calcular o tamanho da dor que eu senti?

Hoseok não era apenas o meu marido, o meu primeiro namorado e o único amor da minha vida, ele tinha sido a diferença entre morrer e continuar vivendo, para mim.

Ele tinha sido tudo que tinha me feito seguir em frente durante muito tempo. Eu o amava mais que a mim mesmo, se eu fechasse meus olhos só conseguia enxergar ele. Eu só via ele, eu só falava sobre ele, meu coração tinha gravado o nome dele... Eu só amava ele. E agora eu não tinha nada.

Mais tarde naquele mesmo dia os garotos foram me ver, os olhos do Jungkook estavam tão vermelhos quanto os meus, e eu sabia o porquê ele estava chorando. Hoseok tinha cuidado dele juntamente com o Jin desde o nosso debut, isso há mais de dezessete anos atrás, eles eram quase como os pais do garoto.

Porém, depois que ele abriu a mão eu vi duas alianças rodando pelo chão da minha sala... O garoto ia pedir o Jimin em casamento.

Eu sequer sabia que eles estavam namorando. Era mesmo um desligado.

Jungkook perdeu um “pai” e um amor, eu perdi tudo. Aquele foi de longe o pior dia da minha vida.

Não acharam o corpo de nenhum dos dois, nada, nem uma mala, nem um pano, nada. Quando o avião explodiu, levou os destroços e todos que tinham dentro para a imensidão do nada com ele.

 

20 de Junho de 2031, Verão.

E aqui estou eu. Exatamente um ano após o ocorrido, depois de levar mais flores a um túmulo vazio do que qualquer outra pessoa viva. Depois de escrever mais letras mortas, tristes e febris, do que um poeta bêbado num bar na lua cheia.

Aqui estava eu, sentado na poltrona do mesmo escritório em que eu me deitei, durante quatro meses seguidos, olhando para o nada e esperando ouvir a voz de Jung Hoseok abrindo a porta da frente e dizendo “Hyung, cheguei!”.

 Mas, ele não veio. Ele nunca mais veio.

 

My reality is a cruel fall without you

I still can’t forget you

I live in your remaining scent

Although you may not know

I miss you so much

How are you?

How are you doing without me?

Crush cantava na sessão de músicas velhas que tocavam no rádio.

Ele falava sobre saudade, essa batia em minha porta e eu era o que apanhava. Tomava minha quinta caneca de café do dia, mesmo que estivéssemos no verão, por dentro eu estava frio, por dentro eu buscava o sabor de café dos lábios de Hoseok quando eu terminava o banho, e ele estava me esperando na cozinha.

Buscava seu gosto, mas eu não sabia mais distinguir o que era verdadeiro e o que era resultado da saudade.

Quando você perde o sentido da vida, o que te sobra para ir junto? Meu amor tinha ido e eu estava definhando. Eu não era mais eu, eu era apenas um reflexo da falta que sentia de Hoseok.

A caneca caiu no chão e se partiu, uma folha voou da mesa e o vento soprou pela cortina do espaço, meus cabelos negros estavam com diversos fios brancos, eu estava pálido, mas não me importava mais.

Eu não estava mais nem aqui, nem aí. Min Yoongi não estava mais em lugar algum, sem Hoseok.


Notas Finais


Onde está Min Yoongi?


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