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História Verbotene Liebe - Capítulo 11


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Capítulo 11 - Sensível Lua


Seu ódio era tamanho que pegou seu carro, no meio da noite, e dirigiu por quarenta minutos até chegar na casa de Kaidou. Doflamingo estava cansado: havia passado o dia inteiro na escola, discutindo com o vice-diretor e tentando "enfiar na cabeça dele" — como pensava. — que a demissão de Shanks tinha fundamento. Kaidou, entretanto, recusava-se a aceitar o ponto de vista dele.

Somente por este motivo levou o temível diretor a ir até o bairro de Jacaré, onde Kaidou morava em uma casa pequena e sem muita proteção ao redor. Kaidou acreditava que "proteção demais" faria as pessoas se afastar dele, assim como no poder da amizade.

E, muito embora Kaidou não acreditasse em xingamentos, naquele momento estava a ponto de deixar suas crenças de lado. Doflamingo estava tocando a campainha dele tão insistentemente que quase a quebrou. A campainha, por outro lado, somente não quebrou por medo de irritá-lo após sua morte.

— Q-Que foi, meu Deus do céu... — Kaidou murmurou, saindo de sua casa e trajando pijamas de patinhos, junto a uma pantufa de tartaruga. Logo viu Doflamingo em sua porta e levou um susto. — Doflamingo?!

— Oi — Doflamingo disse, sem emoção alguma. — Por que você tá de pijama? Volta pra casa e bota alguma roupa. Como você espera que eu te leve pra sair assim?

Kaidou nunca ficou tão confuso em toda sua vida.

— Sair? — indagou, até mesmo surpreso. — Quem? Eu? Sair? Tipo... quando? Agora? À noite? Eu? Com quem? Por quê? Quando?

— Eu vou te levar pra sair. Não ficou óbvio, quando eu estacionei o meu carro em frente à sua casa?

Kaidou ficou ainda mais confuso. Realmente pareceu óbvio depois Doflamingo afirmou, mas não tinha certeza se era uma ação que as pessoas geralmente faziam. Até gostava de ter amigos, mas não era comum, para ele, sair de casa para lugares que não fossem seu local de trabalho.

Doflamingo viu que ele havia ficado paralisado, sem saber o que fazer. Bufou, mas resolveu explicar:

— Eu queria te convidar pra sair comigo. Só que eu não sabia como fazer isso, então resolvi ignorar a parte do "convite" e pular pra ação.

Levou alguns minutos para Kaidou sair de seu choque e realmente acreditar que alguém estaria disposto a sair com ele. Por mais feliz que pudesse parecer, não tinha uma autoestima muito boa.

No mais tardio, convidou Doflamingo a entrar em sua casa e foi trocar de roupa. Kaidou estava nervoso por não saber, exatamente, o que vestir, ainda mais quando o outro não lhe havia permitido ter a chance de se preparar antes. 

Doflamingo tentou ser o mais paciente possível, mas ficar esperando eternidades e ter que ficar encarando àquela sala de estar terrivelmente alegre e motivacional, o estava deixando enjoado. Também pensou que Kaidou tinha "gatos demais" e era alérgico à animais fofos.

Adentraram o carro, onde Doflamingo começou a dirigir no mais completo silêncio. No mais completo silêncio mesmo, sem dizer uma palavra ou se importar em explicar o motivo daquela visita tão inesperada. Kaidou estava sentado no banco da frente, olhando a janela e batendo os dedos uns nos outros, ansioso.

Esperou Doflamingo abrir a boca, mas isso não aconteceu. Nervoso, o próprio indagou:

— Pra onde a gente tá indo, exatamente?

— Ah, não é óbvio? — Doflamingo disse. — Eu vou te levar pra jantar.

— Ok — Kaidou disse, voltando a encarar a janela fixamente. Não aguentou e voltou a perguntar: — Por quê?

— Sei lá, me deu vontade. Vamos pra Lapa, tem vários restaurantes pela Mem de Sá. Você pode escolher algum legal, se quiser.

— Isso fica terrivelmente longe, vai modificar totalmente meu relógio biológico.

— Relógio biológico... — Doflamingo soltou um riso debochado.

— É sério! Eu tenho hora pra dormir, é saudável!

Doflamingo seguiu viagem até chegar em uma rua bem popular e com bastante movimentação, coisa que deixou Kaidou retraído à primeira vista, ainda mais devido à todas as luzes. Tinham muitos restaurantes e bares, e os dois foram olhando pela janela enquanto decidiam aonde parariam.

— Que tal aquele ali? — Doflamingo disse, apontando para um restaurante grande, com música alta.

— Ahn, eu não gosto de lugares com música alta... — Kaidou murmurou. — Me dão um pouco de medo.

— Hã? Eu não teria vindo pra Lapa se eu soubesse disso! Qual é o problema com aquele lugar?

— Poxa, mas você disse que ia me deixar escolher.

— Então escolhe — Doflamingo disse, continuando a dirigir — Eu vou aceitar qualquer um que você quiser.

— Ah, aquele ali parece bom — Kaidou disse.

— Nem pensar! É no meio da rua. Se for pra comer na rua, eu peço delivery em casa.

— Mas você tinha acabado de dizer qu—

— Que tal aquele? — Doflamingo disse. — Culinária mexicana, tem uns tacos muito bons.

— Eu não gosto de comida mexicana... meu estômago é sensível.

— Urgh — Bufou, mas passou perto de uma pizzaria. — Pizza! Pizza é a comida universal, não tem como negar.

— Pizza no jantar? — Kaidou disse, duvidoso.

— É, ué.

— Ain...

— Urgh.

— Ah! — Kaidou exclamou. — Aquele ali! Parece ser bem amigável e caseiro.

— Blérgh, não, adolescentes demais. Se for pra ver pirralho, a gente janta na escola.

— E aquele? — disse, apontando para um que servia comida em cone.

— Nah, geomátrico demais. E aquele?

— Gente demais, até transborda... eu tenho fobia social.

— Tá. E aquele?

— Ah, aquele parece bom.

— Então vam... ah, não. Esquece. — Doflamingo disse. — Deixa pra lá.

— Qual o problema?

— O chão daquele lugar era quadrado e as paredes eram listradas. Você jura que não sabe qual é o problema?

— Tá... — Kaidou murmurou. — E aquele?

— Pequeno demais, impossível. E que tal aquele?

— Grande demais! Eu iria me perder.

— Tsc.

— E aquele ali?

— Nah, não fui com a cara dele — Doflamingo disse.

— Por quê?

— Sei lá. Agora não importa, já passou. E aquele?

— Ah! Aquele é vegetariano! — Kaidou falou com um sorriso.

— Cruzes, obrigado por me avisar — Doflamingo disse, correndo com o carro. — E aquele?

— Barulhento demais. E aquele?

— Vazio demais, deve ser péssimo. E aquele?

— Parece caro...

— Parece bom.

— Eu me sinto mal comendo em lugares caros — Kaidou disse. — Ainda mais na situação atual do Brasil, onde muitos têm pouco e poucos tê—

— Chaaaaatooooo....

— Mas, Dof—

— Agora não adianta mais. Já passou.

Levaram mais tempo para escolher o restaurante do que para chegarem no local. Acabaram optando por parar em uma espécie de bar gourmet, onde as pessoas poderiam beber à vontade ou comer. Estava com uma quantidade razoável de pessoas e não tinha música alta, somente um som ambiente com ar condicionado.

— Ah, não — Kaidou murmurou quando Doflamingo foi direto para o bar — Eu não bebo álcool...

— Foda-se — respondeu já com raiva.

— Mas o que eu vou fazer num bar?!

— Tem comida aqui também.

— Tá, mas—

— Fooooda-se.

— M-Mas você disse que—

— Fooooooda-seee...

Kaidou ficou recluso, sentado à mesa do bar e olhando para baixo. Doflamingo pediu uma porção de batata-frita com queijo derretido para ele e água; escolhendo, para si, um whisky sem gelo. Ao ver que o outro estava desconfortável, Doflamingo disse:

— Tá. Eu digo.

— Dizer o quê? — Kaidou indagou, olhando para ele.

— O motivo de eu ter te convidado pra vir jantar comigo.

— Quer dizer, você não me convidou...

— O substantivo é irrelevante, Kaidou. É que eu não queria mais ficar discutindo contigo lá na escola sobre o lance da demissão do Shanks, ainda mais que eu tirei um tempo pra refletir sobre isso.

— "Refletir sobre isso"? Você? — Kaidou ficou surpreso.

— Eu sei que não é a coisa mais normal do mundo, mas esse lance todo me incomodou mais do que o usual.

Doflamingo tocava ao copo de whisky meio retraído, coisa que não era de seu feitio. Kaidou ficou curioso, e falou:

— Algum motivo específico pra isso?

— Eu tava em dúvida se eu te contava isso ou não, mas... — Doflamingo disse e fez uma pausa. — Quer dizer, você tá completamente enganado sobre querer readmitir o Shanks. Então, eu decidi que o justo seria eu te explicar o porquê.

— Você falando assim, até me deixa assustado. É alguma coisa grave?

— É pessoal — disse, bebendo o whisky inteiro de uma vez para conseguir falar. Kaidou ficou mais assustado. — Uns anos atrás, na minha primeira escola, quando eu era só um professorzinho de merda, eu passei por uma coisa parecida.

Kaidou ficou sem saber como reagir, ainda mais por nunca ter visto Doflamingo com uma face de... vergonha? Mesmo assim, o temível diretor continuou, depois de inspirar uma grande quantidade de ar para ter coragem de dizer:

— Eu tive um caso com um aluno meu.

— O quê? — Kaidou reagiu de imediato, em um choque visível.

— Foi uma coisa estúpida. Eu era estúpido, tinha vinte e quatro anos, praticamente acabado de me formar... ele tinha dezesseis.

— Mas, mesmo assim...

— Eu sei! Eu não tô tentando justificar — Doflamingo disse. — Não é como se tivesse sido ideia minha. O Law era um moleque estranho, ele ficou, praticamente, um ano inteiro vindo pra cima de mim. E eu fiquei o tempo todo evitando, o máximo possível, qualquer interação com ele, mas... sei lá. Ele tem uma energia sexual forte demais, não dá pra explicar. Ele era do mal, mesmo.

— "Do mal"? — Estranhou. — Você, falando que alguém é do "mal"?

— Pois é. Eu acabei cedendo, e foi uma péssima escolha. Ele filmou e ameaçou mostrar pra direção, caso eu não aprovasse ele na matéria.

Kaidou ficou em um choque momentâneo. — E o que você fez? — indagou.

— É óbvio que eu aprovei ele, né. Eu não queria ser preso. Só que não acabou por aí, ele usou esse vídeo pra me chantagear mais vezes, até que eu cansei. Disse pra ele mostrar o vídeo pra quem ele quisesse.

— Que situação horrível.

— Pois é. Mas, pelo menos, naquela época não tinha redes sociais, nem nada do tipo. Ele mostrou pro diretor e eu fui expulso, mas o assunto morreu por aí. Fizeram o máximo possível pra serem "discretos" e não levantar suspeitas na escola.

— É por isso que você não quer readmitir o Shanks?

— Eu sei que são casos diferentes, Kaidou — pontuou. — Mas, ter sido demitido daquele colégio e ficado longe daquele garoto, foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Depois disso, eu nunca fiz nenhuma besteira desse tipo, nem outras besteiras.

— Mas, o Shanks não foi o verdadeiro culpado...

— Isso pouco importa. O problema do Shanks é que ele não tem muita responsabilidade, nunca vê o perigo de fazer coisas "tolas" como ir ao aniversário dos alunos. Ele é inconsequente, e essa inconsequência deu no que deu. Se eu readmitir o Shanks agora, ele não vai tirar nenhuma lição com tudo isso, e a coisa pode se repetir. De um modo mais grave, dessa vez.

— Bom... — Kaidou murmurou. — Quer dizer, eu sei que o Shanks pode ser meio infantil às vezes...

— "Meio" não, ele é infantil e inocente. O único modo dele tomar jeito e não agir tão irresponsavelmente, é ficando longe da escola, por um tempo, pra refletir mais sobre isso. Não é passando a mão na cabeça dele e readmitindo ele, que ele vai mudar.

— Talvez você tenha razão — disse, de cabeça baixa.

(...)

Boa Hancock estava em casa, em seu quarto, reunida com algumas amigas e até mesmo Robin, ainda que esta preferisse ler seu livro durante as aulas e não interagir com as demais pessoas. Era mais fácil, para ela, interagir à noite.

— Ótimo, vamos aos planos! — Hancock exclamou, com um papel e caneta no colo. — Como a gente faz pro Shanks voltar pro Sweet Piece?

— A gente podia fazer um protesto bem em frente à escola — Marigold sugeriu.

— Protesto grande só vai fazer as pessoas voltarem a tocar no assunto — Robin disse. — O Ace ainda não voltou a aparecer na escola. Se continuarem falando sobre isso, você acha que ele volta?

— Mas a gente não tá discutindo do Ace — a loira insistiu. — A gente quer o Shanks! Infelizmente, a demissão do Shanks envolve ele, mas não tem nada que a gente possa fazer.

— Sim, mas, não podemos deixar de lado que o Shanks é o adulto na situação. Não vejo como seria justo envolver mais o Ace nisso, devido ao bullying.

— Ninguém tá fazendo "bullying" com ele, só tavam rindo da foto. E de qualquer maneira, todo mundo já viu a foto, agora não faz mais diferença voltar a tocar no assunto.

— Se não fizesse, ele não teria parado de ir à escola.

— Ei, ei, ei... — Hancock interviu. — Não briguem. Tá, então protesto tá fora de questão. O que a gente faz?

— Reúne o Doflamingo e o Kaidou e conversa com eles diretamente, em privado — Robin sugeriu. — Explicar a situação tentar chegar em uma conclusão amistosa.

— Até parece que explicar vai adiantar alguma coisa — Sandersonia disse. — Eu concordo com a Marigold e acho que a gente tinha que fazer alguma coisa grande, pra chamar a atenção.

— Por que você não pergunta pro Ace se ele ia gostar de ter um protesto envolvendo ele? — Robin disse, já irritada.

— Mas não é sobre ele, que coisa! É sobre o Shanks!

— É sobre uma foto que os dois aparecem juntos. Como não é sobre ele também?

— A gente vai ficar a noite toda nisso... — Hancock murmurou.

(...)

Ace estava apoiado com as costas na cabeceira e deitado em sua cama, no quarto que dividia com o irmão, mexendo no celular. A luz já estava apagada e o quarto, escuro por conta da noite. Ainda assim, Sabo fingia que estava olhando o celular, mas observava o irmão mais velho.

Eventualmente, Ace deitou de lado e de costas para o irmão. A luz do celular ainda permitia que Sabo visse a silhueta do mais velho, e o fato de Ace estar de costas para ele, somente serviu para Sabo não precisar tomar tanto cuidado para o ficar olhando.

Soava estranho, e tampouco Sabo entendia o porquê de não conseguir desviar seu rosto do outro. Assumia que era por preocupação, tanto por Ace ter faltado à escola mais uma vez, quanto por ele ter, de fato, começado a fumar e a beber com mais frequência. Assumiu que deveria ser somente um receio, mas também afirmou para si próprio que sentia vontade de abraçá-lo.

E foi isso que ele fez.

Sabo se levantou e foi até a cama do irmão, tirando o cobertor dele e se deitando ao lado, exatamente em forma de conchinha. Ace percebeu que o braço dele o abraçava e achou estranho.

— O que você tá fazendo? — indagou, sem sair da posição.

— Eu vou dormir com você.

— Por quê?

— Sei lá. Deu vontade.

Ace até pensou em perguntar, mas o ignorou e voltou a ficar no celular. Não era como se fosse a primeira vez que Sabo fazia algo do tipo, apesar dele achar que "dividir o quarto" já era interação suficiente. Somente voltou a mexer no celular até pegar no sono.

— Você vai na escola amanhã? — Sabo perguntou.

— Eu disse que eu ia.

— Você disse a mesma coisa ontem.

— Mas amanhã eu vou mesmo... — resmungou.

Sabo somente o abraçou mais forte.

— Eu tô preocupado, real, contigo.

— Não precisa... — Ace disse, meio respondão.

— Você é o meu irmão, não é culpa minha.

— Irmão mais velho. Eu é que deveria me preocupar contigo, não o contrário.

— Cala a boca, só me deixa ficar preocupado — Sabo disse, deitando com o rosto encostado às costas dele e colocando uma de suas pernas entre as de Ace.

— Não precisa ficar tão colado assim, comigo.

— Mas é que você é tão bom de apertar — disse, o abraçando mais forte, o que fez Ace rir devido às cócegas.

— Você é estranho.

— Se você quiser que eu saia, eu saio.

Ace se virou para deixar o celular no criado-mudo, mas depois voltou à mesma posição e Sabo o pôde abraçar.

(...)

Doflamingo estava tão bêbado que sequer se deu conta de que ainda estava com Kaidou no mesmo lugar, mesmo depois de horas. Kaidou estava do mesmo jeito: não bêbado, por óbvios motivos, mas divertindo-se tanto que nem se lembrou de seu relógio biológico, ou hora para dormir.

— Então, no dia seguinte ele voltou pra escola, né — Doflamingo disse, baixo, em um tom de suspense. Kaidou prestava muita atenção em suas palavras.

— E o quê? O que aconteceu?

— Bom, ele foi suspenso por duas semanas, batendo o record em todos os colégios. O que você acha que aconteceu?

— Ele aprendeu a lição? — Kaidou disse, completamente vidrado na história. — Nunca mais fez besteira? Começou a estudar de verdade? Passou de ano, direto? Não... melhor ainda, ele pulou dois anos? Virou presidente da república?

— Quê? Não precisa xingar o garoto, né, ele só esfaqueou alguém acidentalmente.

— Eu desisto, Doffy. O que aconteceu?

— Foi uma pergunta capciosa. Obviamente os pais do garoto mataram ele.

— Oh. Ah... — Kaidou murmurou, triste, e voltou a se sentar com as costas na cadeira. — Nem sei por que eu achei que uma história sua teria um bom final.

— Não foi um bom final? Eu devo estar muito bêbado.

Kaidou ouviu seu celular tocando e o atendeu. Enquanto ele prestava atenção no aparelho, Doflamingo, tomando mais de seu whisky, o ficou observando de um modo "curioso". Não estava prestando atenção à conversa dele, até porque era um assunto terrivelmente chato de se escutar, mas uma coisa o havia chamado a atenção durante aquela noite.

Não para menos, visto que era a primeira noite dos dois saindo juntos, ou realmente tendo uma conversa de verdade. Quando Kaidou encerrou a chamada, logo notou que Doflamingo o estava encarando.

— O que foi? — indagou. — Tem alguma coisa no meu rosto?

— Posso te perguntar uma coisa pessoal? — Doflamingo disse. — Quer dizer, eu te contei uma coisa pessoal sobre mim, acho que você me deve essa.

Kaidou ficou profundamente agoniado com aquilo, ainda mais por ter alguns problemas devido à ansiedade. Respondeu, mas gaguejou:

— C-Coisa pessoal? Q-Que... q-que coisa pessoal?

— Por que você parece feliz o tempo todo?

— "Por que eu parece feliz o tempo todo"? — repetiu, receoso. — Ah, entendi, você tem alergia à felicidade.

— Também, mas não só isso. Sei lá. Você diz que gosta de ter amigos, mas também me disse que não sai de casa por nada. Até naquela festa que eu te levei, você agiu como se tivesse sido a primeira vez que alguém te convidava pra sair. Mas, você não tem, tipo, milhares de amigos?

Kaidou pareceu recluso e desconfortável.

— Acho melhor a gente ir agora — disse. — Tá tarde, já.

— Por quê? Foi uma pergunta pessoal demais? — Doflamingo disse, nervoso. — Ai meu Deus, foi pessoal demais. Eu me interessei pela vida pessoal de alguém? — Surtou de vez. — Não acredito. O que deu em mim? O que aconteceu, Kaidou, eu tô doente? Eu pirei? Eu preciso ir no hospital? Eu vou morrer?!

— Não, calma... você tá bem.

— Eu não acho que eu esteja bem. Da última vez que eu me preocupei com alguém eu era uma criança, e eu só me preocupei com a minha mãe porque ela tava doente e eu não queria ir morar com os meus avós, caso ela morresse — disse, e depois resmungou: — Urgh... avós.

— Vamos só pra casa, tá bom? Já tá tarde e eu moro longe.

— Hã, do que você tá falando? — Doflamingo disse, voltando ao normal — Você quer ir pra casa uma hora dessas?

— Já tá tarde, Doffy...

— Não foi isso que eu quis dizer. Eu tô de carro, a gente trabalha no mesmo lugar. Só dorme lá em casa logo, é muito mais fácil.

— Ah, não sei. — Kaidou murmurou. — Eu não me sinto muito confortável dormindo na casa dos outros.

— Viu só? Você fica desconfortável por qualquer coisa. Só faz mais sentido, Kaidou. Eu te dou as chaves do meu carro, já que eu tô bêbado demais pra dirigir...

— Que bom, eu achei que você ia me convencer a te deixar dirigir de novo.

— ... Daí você dorme lá em casa, a gente acorda e vai junto pra escola amanhã. Vai, deixa de besteira, vamos fazer isso.

(...)

Buggy estava se protegendo. Com medo de fazer, ou falar, alguma coisa que piorasse a situação, somente ficava observando a Shanks. Shanks havia perdido o controle: já rasgara duas almofadas e usava a terceira — e última — para bater com toda sua fúria no sofá.

A casa estava uma bagunça fenomenal. Shanks quebrara os copos da cozinha, todos os objetos de vidro da sala, o travesseiro do quarto de Buggy, um pedaço da estante de madeira, sua escrivaninha — que havia se tornado a escrivaninha de Buggy — e mais uma porção de coisas. O motivo? Ficara um dia inteiro sem ingerir qualquer substância alcoólica.

Ok, já chega! — Buggy gritou e foi até ele, tentando tirar a almofada da mão dele, mas sem sucesso.

— Eu não vou soltar! — exclamou, criando uma guerra para ver quem ficava com a almofada. — E me deixa em paz, Buggy! Você é a última pessoa no mundo que pode me falar isso!

— Hã? Como eu não posso? Eu tenho todo o direito de mandar você se acalmar!

— Não, não tem! — Shanks disse, puxando a almofada tão forte que conseguiu a ter — Você é o culpado disso! Você tirou a bebida de mim!

— Mas é lógico! Você me prometeu que iria ficar sem beber.

— Então não reclama se eu estiver um pouco estressado.

— Você tá completamente louco! Isso não é stress, Shanks, isso vai além dos limites da palavra stress!

— Me devolve o meu dinheiro, então! Se eu beber, eu vou me acalmar. É o único jeito de eu me acalmar!

— Eu não quero saber, eu não vou te deixar gastar todo o seu dinheiro em mais bebidas!

— Urgh! Você é impossível!

Shanks gritou e começou a andar pela casa, arrancando seus cabelos. Fez uma pausa para chutar o sofá algumas vezes, e soltou alguns gritos preocupantes. Quem estava estressado agora era Buggy, que voltou a ficar parado na frente dele para o impedir de continuar a destruir a si próprio e o resto do apartamento.

— Ei, ei, ei! Calma! — disse, pegando os ombros de Shanks.

— Vai se foder, não me manda me acalmar! — resmungou, empurrando Buggy para se soltar — O único jeito de eu me acalmar é bebendo, e você tirou isso de mim! Parabéns. Era isso que você queria, né? Me deixar mal.

— Hã? Não fala uma coisa dessas! Tudo o que eu fiz, até agora, foi pra te ajudar!

— É? Porque eu sei muito bem qual é o meu problema. Você! — gritou, o que deixou Buggy com raiva. Continuou: — Você é o meu problema! A minha vida tava ótima até você ressurgir.

— Como você acha que isso é culpa minha?!

— Se você não estivesse aqui, eu estaria bebendo! E aí...

— E aí, o quê? O álcool ia, magicamente, solucionar todos os seus problemas? Urgh, talvez até faça o Doflamingo te readmitir lá na escola.

— Não, mas ia me deixar menos merda! Eu ia me sentir melhor, e ia conseguir esquecer tudo. É isso que eu preciso! Esquecer tudo! Será que você não entende?

— Não, Shanks, eu não entendo. Eu não entendo como esta merda iria te fazer sentir melhor, eu não entendo porque você se prende tanto nisso... eu não entendo porra nenhuma! Você acha que o problema sou eu? Ótimo! Então amanhã mesmo, eu me mudo pra fora daqui e você nunca mais vai precisar me ver.

Buggy disse, e, rapidamente, foi até seu quarto, batendo a porta bem forte. Shanks ainda continuou na sala, apesar do forte barulho da porta ter sido suficiente para a culpa que sentiu ao ouvir àquelas palavras, ser maior do que a raiva que sentia pela abstinência. No fundo ele sabia que Buggy estava certo, e havia dito coisas, no decorrer da noite, que se arrependia.

— Ei — Shanks disse, baixo, batendo à porta. Tentou ficar mais calmo. — Posso entrar?

O apartamento é seu — Buggy respondeu.

Shanks entrou e viu que Buggy estava sentado na cama. Foi até ele, olhando para baixo graças à vergonha que sentia. Sentou-se ao lado de Buggy, levemente mais calmo.

— Vai conversar comigo normal, agora? — Buggy disse.

O outro não conseguiu responder com palavras, visto que a vontade de chorar lhe era mais forte. Shanks desabou em lágrimas, soluçando e não conseguindo pensar com clareza alguma. Apoiou o rosto nas pernas e o escondeu.

Buggy apoiou sua mão na cabeça dele e fez um leve afago por entre os fios de cabelo, até Shanks ter forças para levantar sua coluna e o abraçar. Abraçou-o forte, deitando seu rosto no ombro de Buggy, que retribuiu. Shanks ainda soluçava aos prantos, mas tentava ficar mais calmo.

Desculpa... — Shanks murmurou. — Desculpa, eu... eu só faço merda o tempo todo, eu não mereço alguém como você...

Não fala uma coisa dessas...

Você vai embora amanhã?

— É claro que não — disse, e o abraçou com mais forças — A gente é amigo, eu não vou a lugar nenhum.

Shanks se afastou, eventualmente, para limpar seu rosto. Olhou para Buggy, meio cabisbaixo, mas tentando forçar um leve sorriso. Não conseguiu, entretanto, porque a dor que sentia era mais forte. Buggy, sim, sorriu para ele, amigavelmente, e aquilo o havia deixado, minimamente, mais feliz.

Shanks o ficou olhando; dessa vez, diretamente, em seus olhos. Não disse nada, mas agradeceu por ter um amigo como ele. Ainda guiado pelo misto de sentimentos que sentia, Shanks inclinou seu corpo e fechou seus olhos para o beijar.

— Ei, calma... — Buggy disse, baixo, afastando seu corpo antes que o outro pudesse completar a ação. Shanks deixou uma mistura de vergonha com raiva aparecer em seu rosto.

— D-D-D-Des-Desculpa, e-eu... — Gaguejou, desviando sua face. — D-Desculpa! E-Eu não sei porquê eu tentei fazer isso, foi mal, desculpa, foi muito inconsciente.

— Tá, tudo bem, esquece — Buggy disse. — Pelo menos isso foi melhor do que você tacar outra almofada em mim, eu acho.

— Que droga! Eu sou tão idiota...

— Esquece isso, deixa pra lá — disse, apoiando a mão no ombro de Shanks — Você só tá emocional, eu entendo, relaxa. Não vai perder a cabeça de novo por causa disso.

Posteriormente, Buggy deitou Shanks na cama e o cobriu, ficando ao lado dele até que o outro adormecesse.

Em seguida, foi para a sala. Pegou seu telefone e ligou para Kaidou, o psicólogo do colégio, imaginando que ele tivesse uma resposta para sua pergunta:

— Alô? — Kaidou o respondeu.

— Oi, Kaidou. Perdão por te ligar tão tarde...

— Ah, tudo bem, eu tava acordado. Aconteceu alguma coisa?

— Mais ou menos. Escuta, eu voltei pro Rio de Janeiro há pouco tempo, então eu não sei, exatamente, com quem falar sobre isso. Eu tava só imaginando... você conhece algum psicólogo? Ou psiquiatra. Não sei, algum médico bom, que trate de alcoolismo.


Notas Finais


Pra quem gosta de Shaggy: eles vão tirar uma pausa agora, visto que Shanks entrará em uma remissão profunda pelo alcoolismo.

Mas não temam! Muitos personagens queridos entrarão nos próximos capítulos, inclusive teremos el trisal KidLawLu


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