História Verdade ou Resistência - Capítulo 9


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Categorias Naruto
Personagens Chouji Akimichi, Gaara do Deserto (Sabaku no Gaara), Hinata Hyuuga, Ino Yamanaka, Kankuro, Karura, Kiba Inuzuka, Matsuri, Naruto Uzumaki, Neji Hyuuga, Rock Lee, Sakura Haruno, Sasuke Uchiha, Shikamaru Nara, Shino Aburame, Temari, TenTen Mitsashi, Yondaime Kazekage
Tags Ação, Drama, Fanfic, Gaalee, Gaara, Mortes, Mpreg, Naruto, Tragedia, Yaoi
Visualizações 36
Palavras 6.861
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Festa, Ficção, Lemon, Mistério, Orange, Romance e Novela, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Estupro, Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Intersexualidade (G!P), Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Espero que esse capítulo acalente ao menos um pouco, o coração de quem tanto se angustia com minhas derrotas e está sempre desejando que "tudo fique bem". Apesar de toda a carga emocional e dramática da situação, eu imagino que pelo menos um ou outro sorriso vocês consigam abrir ao longo dessa leitura...

Capítulo 9 - Quem é ele


_ Então foi só isso? – Perguntei ainda receoso e preocupado, mesmo que já estivesse me sentindo um pouco melhor. 

Agora eu já estava de volta à minha "cela"... Quero dizer, meu quarto. Em minha humilde opinião, dava no mesmo no fim das contas... 

O sangramento finalmente tinha sido controlado, apesar de ter me dado um trabalho considerável, que incluiu no final “falhar em me fazer de forte" e acabar vomitando pelo nojo da situação, só para logo em seguida ficar tão tonto, que precisei do amparo da minha mãe para ir até onde agora estava. Consequências que ela também disse serem “normais”.

Esse foi o período da minha vida em que eu aprendi que “normal”, nem sempre quer dizer “agradável”.

Esse definitivamente não foi um dos meus "dias de glória", então resolvi poupar vocês dos detalhes de como essa parte se desenrolou. Nem precisam agradecer...   

_ "Só"!? Não tem nada de "só" nisso, Gaara! Ter pressão alta em si já é ruim, "no seu caso" é umas três vezes pior! Quantas vezes eu já não te expliquei sobre o tanto que isso é perigoso? Seu pai é hipertenso, ou seja, tem toda uma questão de "predisposição" envolvida e... – Minha mãe começou a esbravejar em disparada, mas não a deixei que se estendesse muito.   

_ Eu sei de tudo isso mãe, não grita como se a culpa fosse minha! "Quantas vezes eu vou ter que explicar”, que não planejo as coisas que dão errado na minha vida!? Acha que eu não estou preocupado? Estou me esforçando muito pra fazer isso dar certo, não é “à toa”! Ninguém está mais interessado nisso do que eu. Só estou tentando me acalmar, afinal não era isso que eu deveria fazer? – A interrompi rebatendo no mesmo tom exasperado que ela usou, tomando inclusive a liberdade de reformular uma de suas frases. 

_ Gaara tem razão Karura, devemos deixá-lo sossegar, a pressão dele ainda não se estabilizou completamente e nem vai, se continuar tão nervoso... – Meu tio que estava sentado de frente pra mim na ponta da cama, ponderou com seu típico olhar doce.

_ É verdade... Ah meu filho, me desculpa... – Ela enfim parou de caminhar de um lado para o outro pelo quarto e veio até mim. Ainda suspirava preocupação, mas passou a tentar ignorar, considerando o alerta de Yashamaru. Colocou-se junto de nós na cama e me puxou para si, praticamente "pondo no colo", mais uma vez, naquele dia que já me parecia excessivamente longo. – Eu sei que você não tem culpa de nada querido, eu sei o quanto está se esforçando, por favor, não pense que estou duvidando disso, de jeito nenhum! – Começou a se retratar, acariciando meu rosto de uma forma rápida e bruta, o que indicava o quanto ela estava brava. – Não falei nada disso "por você", a verdade é que estou muito irritada com seu pai...

Bem no momento em que ela disse isso, percebi meu tio virar o rosto de lado, tentando em vão disfarçar sua expressão de "eu avisei que ele não presta...".

Não importa o quão certo ele esteja, Yashamaru sempre evitava ao máximo contrariar ou confrontar minha mãe. Por isso, tomou a palavra direcionando-a a mim, buscando quebrar o silêncio tenso que se formou após a fala dela, onde nem eu, nem ele queríamos começar a falar mal do meu pai, chateá-la ainda mais e piorar a atmosfera do ambiente.

_ Bom Gaara, por enquanto é isso. Sei que foi assustador, mas já fizemos tudo o que podia ser feito, tenta descansar um pouco agora, “ok”? Liguei pra o seu médico no caminho daqui e informei o que aconteceu. Ele acha melhor você passar essa semana em repouso, para monitorarmos isso e tentar descobrir se esse foi só um "episódio esporádico" devido ao estresse, sem muita chance de se repetir longe desse fator, ou se essa vai passar a ser uma "preocupação frequente". O que como você com certeza já sabe, é bem mais grave e vai exigir toda uma série nova de cuidados. Vou conversar com seu pai e pedir que ele transfira minhas funções na empresa para outra pessoa nesse período, quero cuidar disso pessoalmente. – Uma ressalva para a bondade dele em ao menos tentar, me explicar às coisas em termos mais “acessíveis”, digamos assim...   

Meu tio e minha mãe odiavam o "meu médico", era nítido, não conseguiam disfarçar. Sempre que podiam evitar de me fazer ter contato com o Orochimaru, eles davam um jeito. A atitude deles fazia com eu também acabasse sentindo receio daquele homem e me mantivesse constantemente "em alerta" com o tal "doutor". 

Não que seja muito relevante ao nosso enredo, mas confesso, que me sentia muito "desconfortável" em chamá-lo de "homem". Às vezes eu tinha vontade de perguntar "como ele queria ser chamado ou como ele se identificava", porque a aparência dele era muito "andrógina". 

_ Tudo bem... – Apenas assenti simplista, num misto de cansaço e tristeza.

Queria ter dito mais, como por exemplo, que sentia muito todo esse transtorno e agradecer pelo cuidado, no entanto, eu sabia que eles me repreenderiam por falar tais coisas com um monte de "não precisa disso" e similares.

E acima de tudo, eu estava verdadeiramente tentando evitar, qualquer coisa que me fizesse "mergulhar em emoções muito densas".

A última coisa que eu queria, era piorar e ter que ir ao Orochimaru...

A última coisa que eu queria, era a consequência que “piorar” poderia trazer.   

"Ninguém nunca me disse que ia ser fácil", essa frase pode até ser um clichê de tentativa de superação, entretanto era tão real pra mim, que eu costumava repeti-la mentalmente como um mantra. Não posso negar que de fato, ela me ajudava a não “perder a cabeça” ou esmorecer, diante de dificuldades como aquelas.

E não acredito que vou dizer isso, mas também admito que o Lee tem lá sua razão, ao dizer que provérbios podem ser de “grande utilidade estimulante”.

Em resumo, eu não via mesmo outra escolha, além de dar o meu melhor, torcer pela alternativa "menos grave" e esperar que tudo ficasse bem. 

_ Yashamaru, não é melhor você levar essas amostras logo? – Minha mãe questionou encarando os três tubinhos com sangue que ele tinha coletado, ainda que eu tivesse veementemente reprovado a ideia.

Não gosto de agulhas, todo o meu "tratamento" ao longo da vida, me fez tomar uma espécie de "ranço" delas... 

_ Tem razão. – Ele concordou se pondo de pé com certa pressa. Devia estar viajando em seus pensamentos, pois parecia que ela o havia "despertado" ao se pronunciar. Aproximou-se de mim o suficiente para "chacoalhar" meus cabelos com a mão e se despedir. – Tenho que entregar isso rápido para o Orochimaru, antes que o material se comprometa, mas vai ficar tudo bem, ok? – Ele insistia em reafirmar, como se realmente esperasse me convencer e me despreocupar. – Eu instruí a sua mãe, ela vai saber lidar com qualquer coisa até eu chegar. Prometo que não vou demorar. Por favor, escute o que ela diz... 

_ Sempre. – Me referi ao seu pedido final, para só então arrematar. – Pode ficar tranquilo... 

Que irônico, logo "eu" pedir pra alguém "ficar tranquilo", como se estivesse esbanjando calma... 

Bom, não dava pra dizer que eu não estava tentando. 

Minha mãe se levantou claramente intencionando levá-lo até a porta, porém ele recusou o ato. Apenas a tomou num abraço apertado por uns segundos e lhe deu um carinhoso beijo na testa, antes de enfim começar a se afastar enquanto falava. 

A beleza e a força da relação deles, nunca deixará de me parecer comovente. 

_ Não precisa, é melhor continuar aqui com ele. Daqui a alguns minutos já deve aferir a pressão novamente. Me manda uma mensagem assim que estabilizar, promete? 

Ela assentiu com a cabeça, sorrindo amorosa para ele, que devolveu um gesto idêntico. Confesso que também jamais conseguirei deixar de me assustar, com como a semelhança entre eles era tão absurda, a ponto de se estender até a pequenos trejeitos. Como por exemplo, esse modo "quase iluminado" de sorrir. Se algum dia eles se vestissem iguais, talvez desse mesmo pra confundir de relance.

Eu sempre tinha vontade de parar tudo e tirar uma foto, desses momentos deles dois. Era a relação entre irmãos mais bonita que conhecia, queria eu poder ter o mesmo com os meus. 

Não que eu julgasse minha relação com Kankuro e Temari ruim, porém era nítido que ainda faltavam alguns passos para nos tornarmos assim tão "conectados" e devotados. Ajudaria se meu pai parasse de me colocar como algo “a parte” da família.

Ele partiu, porém minha mãe mal teve tempo de se virar de costas e retornar ao meu lado, antes de ser surpreendida. A porta se abriu novamente segundos depois, de forma abrupta e Matsuri passou por ela praticamente correndo, pulou na cama e me abraçou tateando tudo o que conseguiu de mim com desespero, como se quisesse conferir se eu estava vivo ou então salvar minha vida. 

_ Kankuro me contou o que aconteceu. Pelo amor de Deus, me diz que está tudo bem com eles... – Se direcionou a minha mãe, enquanto eu tentava me soltar de seu "amor bruto", mas sem conseguir me conter em rir.

"Lá vai ela de novo... Sempre pronta para lutar uma guerra e me defender", pensei agradecendo mentalmente a dádiva de tê-la em minha vida. Isso era algo que eu costumava fazer com regularidade quase religiosa.

A maneira como ela falava sobre mim no plural às vezes, tão espontânea, apesar de eu ainda sentir um pouco de estranheza nisso, evidenciava o quanto ela estava comprometida e determinada com “a causa". Ela era a única pessoa que falava com clareza sobre o assunto, o que consequentemente me ajudava a encarar melhor o mesmo. A naturalidade assertiva com que lidava comigo em todos os aspectos, era muitas vezes a melhor parte dos meus dias. 

Eu provavelmente já dissertei com vocês sobre isso, mas me desculpem, simplesmente não consigo evitar de exaltá-la. Para quem passou tanto tempo na solidão, ter uma amiga como ela era sem sombra de dúvida, uma das melhores coisas do mundo. 

_ Devagar crianças, por tudo o que é mais sagrado, não se machuquem. Já chega de ocorrências médicas por hoje. – Minha mãe nos alertou sacudindo as mãos, porém estava rindo tanto quanto eu e estendendo a Matsuri um olhar de admiração muito carinhoso. 

_ Relaxa tia, a última coisa que eu faria é machucar “esses bebezinhos”... – Disse com aquela voz de "tatibitate" que ela sabia que eu detesto, segurando meu rosto e beijando repetidamente minhas bochechas. Tão esfuziante, que estava quase me deixando tonto. – Me passa o relatório dos detalhes que perdi e eu te passo o meu. – Só mesmo ela para falar com a minha mãe desse jeito tão "objetivo/ousado" e sair ilesa. 

Nossa matriarca revirou os olhos num suspiro sorridente, engolindo a "pequena afronta", tornou a se sentar na cama e gastou alguns minutos explicando o que aconteceu enquanto Matsuri estava ausente. Em troca, ela lhe disse que acalmou e aconselhou meu pai, mas precisou preparar uns dois drinques para conseguir tal feito.

Minha mãe claramente não gostou muito dessa parte, ela não gostava de vê-lo bebendo, porém a estratégia de Matsuri em "amolecê-lo" como só ela conseguia fazer, com aquele seu jeito confiante de "anjo da guarda", criou uma boa brecha. Quando obviamente eles fossem conversar mais tarde, seria bem "menos pior" do que se poderia esperar, porque ela já havia "preparado o terreno".

Enquanto elas falavam eu me permiti divagar meus pensamentos, praticamente fiquei ausente da conversa. Encostei minha cabeça na parede atrás de mim e me pus a tentar "limpar" minha mente e controlar minha respiração de forma sutil, como se meditasse. 

Por mais que tudo já tivesse se "acalmado", ainda me sentia muito tenso e sabia que precisava desvanecer isso ou os valores da próxima vez que checasse minha pressão continuariam ruins. 

Até demorei para perceber quando elas se calaram, mas quando por fim estranhei a falta do barulho, ergui o rosto para olhá-las e tentar procurar um motivo nisso. 

_ Por que está me encarando assim? – Perguntei desentendido, vendo que minha mãe me observava meio "abismada" apesar de estar sorrindo com um orgulho que eu não fazia ideia da razão. 

Matsuri analisava a situação com sua postura de "contenção" ativada. Ao notar isso entendi o que estava para acontecer. 

"Ah não, de novo... Logo hoje...", lamentei mentalmente, uma vez que já tinha adivinhado aonde minha mãe queria chegar. 

_ Estou admirando sua força... – Ela respondeu tentando parecer despretensiosa. 

Não que ela estivesse mentindo, era só que havia uma intenção "a mais" por trás de sua iniciativa de puxar esse assunto... 

_ Do que está falando? Eu me deixei levar completamente pela emoção, o que causou tudo isso e depois só Deus sabe o quanto eu fiquei com medo... – Rebati, mesmo sabendo que minhas chances de "desconversar" eram poucas. 

_ Como consegue passar por tudo isso, ignorando que existe alguém de quem claramente gosta e que deveria estar aqui com você agora? – Ela perguntou claramente, sem rodeios, levando minhas poucas chances de escapar do tema a zero.

Eu já estava tão exausto depois de todo o peso daquele dia, que não tive estrutura para me esquivar. Fui bem sincero ao expressar meu pesar sobre esse assunto, tornando a deixar minha cabeça se encostar a parede, dessa vez com mais força do que o necessário, quase chegou a machucar. Fechei os olhos para que ela não os visse revirar, pois sabia que minha mãe odiava quando fazíamos essa “pequena pirraça” para ela, porém já não pude me impedir de soltar o ar de forma exagerada e exasperada, antes de devolver irritado:

_ Mãe... Já fazem quatro meses que eu venho dizendo que não quero falar nesse assunto, quando a senhora vai desistir? Por que quer me torturar com isso? Até parece que eu tenho outra escolha. O trato que eu fiz com meu pai foi bem claro, não foi? Pra que vou ficar falando e me lamentando por algo impossível? Tenho coisas mais importantes para dar atenção. – Iria encerrar minha fala por aí, mas depois de uma pausa razoável para não deixar minha respiração desregular muito e assim perder a calma que devia manter, acabei por confessar. Afinal, estava na frente das duas pessoas que mais confio no mundo... – E se querem saber, mesmo que não tivesse essa questão do “trato”, eu creio que não contaria e me afastaria dele da mesma forma...

Abaixei a cabeça depois disso, fugindo do olhar comovido e empático delas, que no momento só me fazia sentir ainda pior.

Meu gesto não durou muito, porque minha mãe ergueu meu rosto, segurando meu queixo, forçando-me a lhe dar toda minha atenção as suas palavras. Ela tem uma certa “mania” de fazer isso, não sei se já repararam.

_ Não vou desistir porque eu te amo e te conheço. Fingir que não está sentindo, não te faz deixar de sentir Gaara. Na verdade, ficar “implodindo” as coisas é muito pior. E por que você acha que não tem outra escolha? Nem procurou! Firmou esse tal desse “trato” com seu pai muito cedo, sequer pensou em outra possibilidade, eu nunca concordei com isso. Eu teria lutado mais por sua causa meu filho, sabe que eu sempre o farei, em todas as suas decisões. Jamais quero permitir que essa família cometa os mesmos erros de antes com relação a sua vontade, mas dessa vez você aceitou e realmente tomou isso pra si, ainda que reclame dos “excessos” do seu pai com relação ao “isolamento”. Isso me deixa de mãos atadas e odeio assistir você sofrendo meu filho...     

_ Não precisa se preocupar comigo mãe, não estou “sofrendo”. – Menti tentando tirar meu rosto de suas mãos, pois mentir e sustentar olhar em seus olhos era impraticável.

_ Ah não? – Ela deu uma curta risada nervosa, voltando a insistir em seguida. – Então porque não consegue tocar no assunto? Nunca tivemos segredo algum Gaara, mas nem pra mim você consegue dizer sequer o nome dele. Se não consegue ao menos mencioná-lo, é porque ele muito difícil pra você. Se está sendo tão doloroso se afastar, porque está fazendo isso? 

_ O que a senhora está sugerindo afinal!? – Quase gritei de tão perturbado que falar naquilo me deixava. – Acha que seria “super normal” chegar contando toda a verdade? Ele tem sorte de não precisar conviver comigo e estragar a vida dele igual a vocês... – Cuspi as palavras com amargura. 

_ Ah... Então esse é o motivo... – Ela parecia finalmente ter conseguido arrancar alguma informação que julgava como “satisfatório”. – Não acredito Gaara, todos esses anos, depois de tudo o que já enfrentou sobre isso... Ainda se sente um “fardo” pra nós? Meu filho, como quer pedir que te retornem algo que nem mesmo você se concede? Você não é uma “aberração”, mas se começar a se portar como uma, as pessoas vão te tratar como tal. Não estou querendo “justificar” a maneira como seu pai lida com isso, só estou dizendo que ele não vai ter a mudança que esperamos, se você agir como se concordasse. O que está fazendo é desistir de lutar por si mesmo e por isso está perdendo a oportunidade de estar com alguém que ama...   

“Amor”... A menção disso me fez interrompê-la, isso ainda era confuso pra mim naquela época. Eu podia ter “evoluído” bastante desde que conheci o Naruto e todos os meus outros amigos, porém ninguém se “refaz perfeito” e totalmente sábio, assim “tão rápido”.

Não que eu não soubesse "em nada" o que é o amor. É que eu só o entendia como conhecia, o que estava restrito a forma "familiar", a maneira como eu via que minha família e principalmente o jeito como minha mãe me amava. Graças a isso, por fim em algum momento "daqueles quatro meses", eu fui capaz de entender e admitir que já amava meu filho, mesmo que ainda sequer pudesse ter visto o rosto dele. Eu já amava sua mera existência e era esse sentimento que me motivava a lutar por ela.

Mas sobre "o pai dele", eu apenas tinha conseguido confessar a mim mesmo e as poucas pessoas com quem mencionei isso, que se resumiam a meus irmãos e Matsuri, que "gostava". O que se poderia traduzir como "sentir algo forte".

Ainda não me sentia preparado para dizer que "o amava".

Eu não sabia se era "correto" dizer isso...  

_ “Amor” é uma palavra muito forte, pra usar com alguém com quem só dormi uma vez na vida...

Matsuri que até então estava calada, observando o discorrer da conversa em seu “modo alerta de análise”, tossiu debochada antes de comentar fingindo estar tentando ser “discreta”.

_ Falou o cara que tatuou isso na testa, porque “deu na telha”...

Minha mãe olhou dela pra mim numa concordância silenciosa. Na verdade até eu mesmo tive que me render ao realismo do que ela disse, no entanto fiquei calado, me recusando a admitir minha hipocrisia.

Só para deixar claro num parênteses, Matsuri também partilhava da opinião da minha mãe, de que eu devia “tentar mais” pelo Lee. Ela só não era tão insistente com relação ao assunto, porque como já citei antes, minha melhor amiga respeitava muito meus pedidos e limites.

Mas não existem limites que as mães não achem que possam cruzar, quando se trata de seus filhos, não é mesmo?

Deve ter sido por isso que a minha não se deu por vencida e aproveitando a deixa que Matsuri introduziu com sua frase, percorreu a tatuagem citada em meu rosto de forma delicada, com a ponta dos dedos da mão direita, enquanto dizia com aquela “voz angelical” que sempre acabava me fazendo ceder a seus pedidos.

_ Lembra da justificativa que me deu para ter feito isso? – A encarei na intenção de responder, porém senti meus olhos marejarem então me mantive em silêncio, receando que o modo como minhas palavras soariam embargadas pelo enorme nó que se formava em minha garganta, traísse minha postura. Em vista disso ela prosseguiu respondendo por mim, sua própria pergunta. – Você me disse que resolveu fazer algo que te lembrasse o que mais gostaria de entender na vida, o que achava que precisava mais e que te parecia muito distante no momento em que fez esse símbolo. Depois daquilo você realmente começou a realizar seu desejo, não foi? Conheceu e conquistou o amor dos seus amigos, entendeu melhor o amor da sua família... – Ela deu um suspiro longo, num sorriso acalentador antes de enfim completar. – Acontece Gaara, que nunca vai entender o tipo específico de amor que nos faz selecionar uma pessoa no meio de todas as outras no mundo, para ser o primeiro a quem damos “bom dia”, se não se permitir a isso. Meu filho, eu conheço você bem o suficiente para saber que jamais confiaria qualquer coisa, principalmente seu corpo, a alguém que não fosse no mínimo digno de “admiração”. Você é muito “rígido” com o limite que concede aos outros e com motivos, é claro. Mas se já foi tão longe, não devia parar agora. Sei que não escolheria alguém que não fosse ser capaz de te entender e imagino também que esse tipo de pessoa, mereça saber sobre algo tão importante quanto o que está passando agora. Não acha? Se considera minha opinião, está cometendo o que pode ser o maior erro da sua vida. E esse não é o tipo de erro que afeta “só você”, me entende?

Ela finalizou e pela primeira vez desde que voltamos do hospital com aquela notícia que virou tudo o que já era tão bagunçado naquela família de cabeça pra baixo e nos fez chegar até ali “daquele jeito”, eu não a impedi de “me tocar”, quando vi sua intenção de fazê-lo. O sorriso vitorioso de gratidão dela que recebi em troca foi tão bonito, que não consegui evitar de deixar escorrer uma lágrima única pela face. Disfarcei enxugando o rosto na manga da roupa, acabando por sorrir também, vencido e meio quebrado, me perguntando quantas vezes mais eu ainda iria chorar só naquele dia.

Parecia que a família inteira tinha tirado aquelas vinte e quatro horas para testar a “nova resistência mais curta do meu emocional", de todas as maneiras possíveis.

Pelo amor e pela dor...

_ Está defendendo alguém que nem conhece mãe... – Comentei ainda sorrindo um pouco “sem graça”, achando admirável a forma como ela concedia votos de confiança às pessoas.

_ Então me apresenta. – Rebateu parecendo muito contente por enfim ter encontrado a deixa que tanto queria.

Bom, depois de toda a carga emocional daquele dia, depois de toda aquela conversa... É obvio que eu já estava quebrantado o suficiente para ceder.

Parabéns mãe, foi de fato uma bela vitória...  

Suspirei como se me livrasse de um peso esmagador e me virei para Matsuri, que já esperava ansiosa e animada pelo meu aval.

_ Ache algo sobre ele que possa mostrar a ela. – Sei que tom soou “presunçoso”, como uma ordem. Mas esse era o nosso jeito “habitual” um com o outro, a relação cúmplice e devotada que tínhamos, permitia tranquilamente esse tipo de liberdade.

_ “Algo”? Querido não me subestime, eu tenho praticamente um "dossiê inteiro"! – Ela rebateu petulante quase dando uma gargalhada maléfica.

Deixei escapar um “que?”, mas na verdade não devia estar espantando com isso. Era bem típico dela...

Seu primeiro ato foi levantar correndo até uma pequena estante de livros e puxar de lá o anuário do ensino médio. Ela já o entregou aberto na página certa, apontando a foto dele.

_ Ah sim! Me lembro desse rapaz, é o que fomos visitar no hospital... Parando bem pra pensar, agora faz muito sentido... – Retorci a expressão estranhando a reação da minha mãe, o que a fez logo se apressar pra explicar. – Você nunca se esforçou tanto para compensar ter machucado alguém, sem que nós te obrigássemos, além desse menino. Se me recordo direito, você chegou a pagar o tratamento dele depois daquela luta horrível que tiveram, não foi? Acho que lembro de você ter me pedido o dinheiro...

_ Ele não sabe até hoje, que eu fiz isso. – Completei a informação depois de ter assentido sua pergunta, num aceno com a cabeça.

_ Como conseguiu dar uma quantia tão expressiva, sem ele saber “quem” fez isso? – Ela retrucou intrigada.

_ Simples... – Matsuri tomou a palavra explicando por mim. – O Naruto sugeriu que todos os amigos se juntassem para tentar arrumar a quantia que ele precisava e depositassem na conta do pai dele, ninguém precisou dizer “quanto” estava colocando, na verdade nem sabemos se todo mundo ajudou mesmo ou não.

_ Vocês são assustadoramente “engenhosos”... – Minha mãe comentou ainda analisando a foto no anuário. – Ele tem um sorriso bonito...

Revirei os olhos aproveitando que ela estava de cabeça baixa e não poderia ver isso, rindo contido de forma cúmplice com Matsuri, que naquele dia resolveu que queria colocar quanta “lenha na fogueira” fosse possível.

É incrível o quanto ficamos constrangidos com coisas simples, quando estamos mostrando alguém que já tivemos ou queremos ter "contato íntimo", para a nossa mãe, não acham? 

_ Tia você não viu nada! Precisa ver uma foto dele sem camisa! – Se levantou mais uma vez saltitante, indo atrás da bolsa que jogou de lado por ali logo que chegou e vasculhando nela até encontrar seu celular.

_ Pelo amor de Deus, me poupem... – Reclamei assim que ela sugeriu aquilo, porém logo que a vi mexendo no celular, achei outro motivo para me queixar. – Você ainda tem ele no “Facebook”? Sua traíra...

_ Calma, eu não estava de “papinho” com ele nas suas costas, que ofensivo você pensar assim de mim... Eu só tenho uma “conta fake” para “stalkear” algumas pessoas e incluí ele nisso... – Explicou calmamente, sem desviar os olhos do que estava fazendo. – Achei! – Declarou com um sorrisinho de vitória, mas me questionou antes de entregar o celular para minha mãe. – A gente pode "fofocar" sobre isso lá fora se te incomodar....

_ Tudo bem eu... Eu só acho que não quero "vê-lo". – Todo aquele tempo distante, não podia prever como me sentiria ao fazer isso e não queria arriscar a questão da pressão novamente. 

Matsuri me assentiu séria com a cabeça, porém desvaneceu isso em segundos se unindo a minha mãe em "fuxicar" as redes sociais inteiras do Lee. Confesso que nesse momento eu estava pensando algo do tipo: "Coitado, ele não faz a menor ideia do quanto está sendo julgado agora", e me referia ao olhar crítico de análise delas duas. 

Não sei como eu não me deixei morrer de rir, mediante aos comentários delas. Acho que na hora me pareceu mais "trágico" do que engraçado. 

"Meu Deus ele é forte! Me desculpa meu filho, mas como você conseguiu vencer esse menino naquela luta?". 

"Ah, ele nem era tão forte assim naquela época...", Matsuri rebateu, mas nem de longe isso poderia soar como uma defesa a meu favor. 

A verdade é que ele apesar de ser tão novato naquele maldito torneio em que nos metemos, quanto eu e todos os nossos outros amigos, Lee era de fato o mais forte de nós. Afinal teve uma vida inteira de treinamento como vantagem, por ser filho adotivo do Gai. Ele teria ganho de qualquer um que não estivesse tão cego de ódio quanto eu. Se tem uma coisa que deixa as pessoas mais fortes, essa coisa sem dúvida é a raiva.

Mas a despeito disso, o resultado desse dia é muito controverso. Em minha própria opinião, eu não ganhei a luta. Fui declarado vencedor porque o Gai interveio como treinador, o que acabou desclassificando-o, porém, Lee queria continuar mesmo que seu corpo já não aguentasse mais. Ele fez a proeza de se pôr de pé quando eu já até o tinha dado as costas, porque sequer devia estar consciente. Eu cheguei a dizer depois que o Gai apareceu que desistia da luta, então todas essas informações ao meu ver, tornam a credibilidade do resultado oficial muito pouco válida. E também tem o fato de que pela contagem de pontos, terminamos num empate.    

"Engraçado, ele não retirou das redes sociais o vídeo da luta de vocês, nem da página da academia. Nossa o número de visualizações é impressionante!", Matsuri comentou entre um sorriso espantado. "Não acredito que alguns dos alunos dele são tão fãs dessa luta, que fizeram “uma porrada” de versões com as músicas do Linkin Park...".  

_ Que mórbido, ele quase morreu nesse dia... – Resmunguei. 

_ Ah, também não é pra tanto... – A forma como Matsuri suavizava as coisas pra mim, chegava a ser assustadora às vezes. 

"Parece muito gentil, focado no trabalho e no pai... Faz tantas ações sociais que parece estar querendo concorrer ao Nobel da paz...", minha mãe sentenciou polida, nitidamente tentando não me expressar suas reais opiniões, enquanto não terminasse de formá-las. 

_ Podem revirar a internet inteira, isso nunca vai dizer quem ele realmente é... – Por fim não me contive em disparar meio amargo. – Pra começar que ele nunca foi muito "ligado" a redes sociais, isso provavelmente é "coisa" da Tenten. 

Não esperava que dizer algo tão simples, fosse chamar tanto a atenção delas, que pararam tudo para me encarar como se aquilo fosse tão importante quanto um pronunciamento presidencial. 

_ E você acredita que o conhece bem? Descreve para nós o que acha então... – Minha mãe sugeriu. 

Matsuri me deu um quase malicioso, sorriso encorajador. Puxei o ar como se precisasse "pegar fôlego", me resignando em responder. 

_ Eu queria saber mais detalhes. Como por exemplo, saber "porque" ele gosta tanto da "cor verde", ao invés de só saber que ele gosta por vê-lo usando sempre, só que infelizmente não tive tempo, nem coragem pra isso antes. Mas acho que posso dizer que conheço o suficiente... O suficiente pra gostar... – Admiti pesaroso, por estar falando sobre alguém que julgava ter perdido. 

_ E "do que" exatamente, você gostou? – “Ela está me entrevistando?", me questionei mentalmente, notando que minha mãe parecia estar querendo um "relatório completo". 

Por um lado eu até compreendia, me esquivei tanto do assunto até ali, que agora que havia dado uma brecha, ela queria aproveitar ao máximo antes que por acaso, eu desistisse. 

_ Não tem “uma grande coisa só”, que tenha me “encantado” nele. Acho que gosto de um conjunto delas. Eu gosto de “quem ele é” basicamente. Gosto da forma pura e quase inocente com que ele é honesto e extremamente determinado... Gosto do jeito otimista e entusiasmado que ele vê a vida. Da sua “falta de escuridão”. Ele é incapaz de ter qualquer sentimento muito “trevoso” ou negativo por alguém, foi capaz até de me perdoar de verdade e passar por cima do que eu fiz sem nenhum rancor, nenhuma mágoa, nada. Eu quase o matei, quase acabei com os sonhos dele naquela luta, por puro egoísmo, quantas pessoas no mundo teriam a nobreza de esquecer isso e depois se permitir “gostar” de quem lhe foi um algoz? É muito oposto a mim, deve ser por isso que eu gosto, porque isso me faz sentir mais leve quando estou por perto. Gosto até das manias esquisitas que ele tem... Acredita que ele tem uma espécie de “código de honra” próprio, e fica seguindo em todas as ocasiões isso como se fosse a "máxima lei do Universo"? – Minha mãe estava rindo tanto nessa parte, que cheguei a parar por um instante e rir também antes de continuar. – É sério! Ele chega a andar com um bloco de notas e fica consultando isso toda hora e anota tudo o que acha válido se lembrar mais tarde. A pior parte são as “frases de efeito” que ele fica repetindo toda hora. Da pra fazer um livro de provérbios com no mínimo umas três edições se guardar tudo o que ele fala. No dia que tivemos essa tal luta que todo mundo fica falando, ele me fez esperar uns cinco minutos entre repetir essas bobagens e tentar anotar as instruções do pai, ainda que não fosse ter tempo de ler durante a luta. Na verdade, ele chegou a anotar até mesmo isso... – Fiz mais uma pausa tornando a regularizar a respiração e tentando voltar a ficar sério, mas falhando miseravelmente. – Eu poderia passar o dia inteiro aqui falando, mas acho que já deu pra entender. Ele é uma boa pessoa e eu gosto da forma como ele inspira todo mundo que olha pra ele a tentar ser também, quando consegue “se provar” acima de qualquer obstáculo que se coloque na sua frente, porque ele realmente acredita nos objetivos e filosofias que compra. E absolutamente, o Lee nunca, NUNCA, desiste do que acha certo. “Persistência” devia ser o sobrenome dele.   

Finalizei e Matsuri brincou fingindo que estava enxugando o rosto.

_ Se não for pra ficar com alguém que fale assim de mim pra mãe dele, eu fico solteira o resto da vida, assistindo Netflix contigo, meu irmão...

Me permiti rir do comentário bobo dela, enquanto balançava a cabeça numa negativa.

Minha mãe tinha um belo e tranquilo sorriso satisfeito quando se pôs de pé olhando para o relógio na parede e indo até o aparelho de pressão que meu tio deixou estrategicamente por ali. Ela puxou meu braço e o envolvia em meu pulso enquanto sentenciava.

_ Isso está bom pra mim, ele tem minha benção.

_Mãe! O que está dizendo? – Questionei abismado, enquanto Matsuri a envolvia num abraço vibrante e enchia seu rosto de beijos.

“O que ela pensa que está agradecendo e comemorando?”, eu me perguntava com a expressão franzida em dúvida encarando as duas.

_ Pensa se o que você realmente quer é passar o resto da vida sozinho. Que eu me lembre isso sempre foi seu maior receio... Se isso ainda for verdade, liga pra ele. A gente não esbarra em alguém que valha a pena desse jeito, o tempo todo Gaara, não perde essa oportunidade. – Ela me elucidou.

Senti o aparelho terminar seu serviço e ela sorriu pra mim ao retirá-lo, dizendo:

_ Parece que ele não é alguém que te deixa “nervoso”, pelo contrário. Sua pressão está finalmente estável.

Suspirei aliviado, mas não por muito tempo. Matsuri me estendeu seu celular, esperando que eu fosse seguir o conselho da minha mãe, porém eu recusei.

_ Meu pai vai criar uma guerra por isso, essa não é uma situação que vale a pena pra nenhum de nós enfrentar. Agradeço o apoio de vocês, mas não posso fazer isso. É justamente por “gostar”, que não posso “destruir” a vida dele... – Lamentei novamente fugindo meu olhar delas.

Nunca conter um gesto simples, como o de agarrar aquele celular e digitar uma sequência de números, havia sido tão doloroso e torturante. Como eu queria, do fundo da minha alma, ter feito exatamente o contrário do que fiz e disse.

Doía só imaginar o que elas estavam me oferecendo. Doía só pensar em ouvir ao menos a voz dele de novo, por um segundo que fosse. Era excruciante resistir a saudade e a vontade de implorar que me ele me ajudasse e aliviar o peso de ter que decidir e lidar sobre algo tão importante, sozinho. Principalmente, porque eu sabia que ele jamais me negaria conforto. 

Ele jamais me negaria nada, aliás...

Porque ele era uma das melhores pessoas do mundo e eu gostava de um jeito que jamais havia gostado de qualquer outro ser humano.

Por que eu tive que ser tão estúpido e demorar tanto para conseguir diferenciar e admitir isso?

Minha mãe que já tinha se afastado alguns passos de mim, voltou apressada e com a expressão séria como se fosse me repreender. Confesso que ela me assustou de verdade por um segundo, especialmente quando se abaixou ao meu lado e olhou de forma tão profunda em meus olhos, que parecia que ela podia enxergar até o meu espírito.

_ Gaara, que essa seja a última vez que eu repito isso, entendeu? Eu não te criei pra ser covarde. Acha mesmo que eu deixaria seu pai fazer tudo o que ele ameaça? Eu o mataria antes da metade disso e não estou brincando... – A severidade sincera no tom dela me fez engolir em seco, ela não estava blefando o que era muito assustador. – Tome seu tempo para pensar no assunto, mas se decida por você mesmo, pelo seu coração, não por medo do seu pai, nem de ninguém. – Só balancei cabeça numa concordância silenciosa e temerosa. Ela desvaneceu o tom sério em segundos mediante a isso, como se ele nunca houvesse existido, se levantando, me dando um beijo na testa e puxando Matsuri consigo pela mão.  Apavorante... Definitivamente ela é mãe da Temari, isso explica a minha irmã totalmente. Se bem que parando para pensar, eu e o Kankuro também temos esses “polos de humor”. – Aproveita esse momento de silêncio para descansar um pouco, sei que não tem dormido muito ultimamente, agora eu preciso ter uma conversa com seus irmãos e depois com seu pai.

Ela suspirou como se estivesse cansada só de pensar. Me senti assim também, só de tentar me colocar no lugar dela, eu admirava sua força em carregar a todos nós daquela maneira, mais do que qualquer outra coisa no mundo. 

_ Vou cumprir minha promessa e fazer alguma coisa decente pra você comer. – Matsuri declarou e eu só faltei me levantar para abraça-la em agradecimento.

Minha mãe finalmente deu uma boa olhada em volta encontrando a bandeja do almoço ainda intacta, que agora estava sendo pega por Matsuri.

_ Garoto, por que está o dia todo sem comer? – Reclamou com o rosto franzido em indignação. Ficar sem comer, era quase um pecado capital na visão da minha mãe.

_ "Prova"... – Desafiei apontando a bandeja.

Não achei que ela fosse mesmo fazer isso, afinal, aquilo já estava mais do que frio. Mas ela fez e eu não me contive em rir vendo a cara feia que ela retorceu, quando a comida lhe tocou os lábios.

_ Meu Deus, parece até que eu não ensinei nada pra essa garota... Vou acrescentar isso a minha lista de coisas para conversar com a sua irmã. – Resmungou exasperada.

_ Ah mãe, deixa ela. Não é só porque ela é uma garota que é obrigada a “levar jeito” na cozinha e isso é meio “opressor”, não acha? A senhora não cobra o mesmo de mim e do Kankuro. – Tentei interceder.

Ela ficou nitidamente “sem graça”, sem ter o que rebater, porém me olhava com orgulho.

_ Acho que ele te pegou dessa vez tia... – Matsuri implicou.

_ Vem, vamos logo... – Ela tornou a puxar Matsuri consigo, fugindo descaradamente do assunto. – Qualquer coisa não hesite em nos chamar, tudo bem?

Deixaram uma última ressalva e enfim partiram. Me ajeitei na cama, exausto, mental e fisicamente, ansioso por algumas horas de sono que fizessem minha cabeça parar de latejar.

Estava repassando tudo o que minha mãe dissera e todas as lembranças e emoções que se levantaram com isso, quando senti mais uma vez aquele “movimento” de algumas horas atrás. Sorri aliviado, afinal, esperei por essa “confirmação de que estava tudo bem”, desde que aquele caos todo havia começado.   

Sim, isso pode parecer estúpido e talvez seja mesmo. Confesso que me senti muito idiota naquele momento, mas estava sozinho então não liguei muito. E no fim das contas, é para isso que serve se trancar no quarto, não é? Poder se desfazer um pouco da postura habitual e fazer coisas que usualmente não faria em público. Agradeci ao meu filho internamente por ter me concedido a resposta que pedi aquele tempo todo e deixei uma de minhas mãos encontrar o lugar exato, no qual havia sentido o tal movimento.

Franzi os olhos ao fazer isso como se estivesse com medo e de fato, isso me deixava bastante nervoso. Eu vinha tentando levar tudo da melhor forma possível, porém ainda haviam inevitáveis partes minhas que estavam tensas com a “bagunça” que isso me causava.

Meu corpo era um assunto muito delicado pra mim, depois de tudo o que passei com ele e “por causa” dele ao longo da vida. Eu passei a evitar ao máximo “me tocar” com atenção desde que descobri "essa história" e logo na primeira mudança perceptível, voltei a deixar de conseguir olhar para os espelhos. Porém não tinha desabafado isso com ninguém, nem mesmo a Matsuri e principalmente a minha mãe, pois não queria preocupá-los, não queria que pensassem que eu podia “surtar” de novo.

Eu não “culpava” meu filho por nada, porque não achava que havia algo para culpar. Eram só as minhas velhas paranoias de sempre, um pouco piores porque eu já não podia mais ir a terapia, sequer podia sair de casa...

Mas acho que isso os fez entenderem melhor o quanto aquele momento soou um avanço significativo pra mim, não fez?

Permitindo-me finalmente relaxar um pouco, ainda sentindo a segurança que minha mãe e Matsuri me passaram, além do aumento da minha sintonia com a vida que tanto me esforçava para gerar, consegui acreditar por um segundo que talvez pudesse existir uma realidade onde as nossas chances para o futuro não fossem tão ruins assim.

E de posse dessa esperança, consegui ter o melhor sono que já havia tido em semanas.          


Notas Finais


E então, concordam comigo sobre esse capítulo ter sido "mais leve"?


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