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História Veredicto, interativa - Capítulo 22


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Notas do Autor


༐•ᄔ Boa leitura!

Capítulo 22 - Quebrada está a tigela dourada


Fanfic / Fanfiction Veredicto, interativa - Capítulo 22 - Quebrada está a tigela dourada

— Sabe o que é consideração? Pois é, tá em falta — Adalet gesticulava rápido com as mãos, olhando para Nefertiti em uma expressão alarmada. — A gente ia sair naquela hora, mas ele inventou de falar com o maldito do Kai, aí meu pai viu tudo.

Nefertiti sabia o motivo, mas não tinha certeza se podia ou não partilhar com a amiga. Claro, sentia culpa por isso, mas não podia arriscar, sabia como Adalet era impulsiva e acabaria tentando dar jeito por si mesma em algo bem maior.

— E pra completar aquele otário nanico ainda ficou enchendo o saco.

— Espera, que otário?

— Um tal de Fábio, Fred, Flores, sei lá,  aquele que tava com o Jano — Adalet falava rápido, estreitando os olhos e fazendo uma careta. — Saco!

— Fica calma, tudo ocorreu bem. — Nefertiti sabia bem que falar para ficar calma não ajudava em nada, arrependeu-se de ter dito na mesma hora. — Pelo menos você está bem depois de tudo aconteceu por aqui. 

Demir olhou com repreensão para a amiga, franzindo os lábios. Aquilo era verdade, estava aliviada por não ter sido a sorteada do que atingiu Edwards.

— Você ao menos dormiu essa noite? — Nefertiti perguntou, segurando o rosto de Adalet, colocando os polegares abaixo dos olhos da amiga e puxando um pouco.

— Como um bebê.

— Bebês geralmente acordam a noite toda. — Nefertiti bufou, revirando os olhos e soltando o rosto de Adalet.

— Exatamente.

— Você está horrível. Deveria ir descansar mais um pouco. Não dormiu por quê?

— Eu talvez esteja ficando maluca. — Adalet havia sonhado várias vezes com aquele vulto que perseguiu na noite da morte de Edwards, e aquela figura a assustava, era simplesmente irreal a rapidez e o quão fácil se esquivava. — Não se preocupe.

— Claro que me preocupo — Lazuli franziu os lábios, ela sabia bem estar certa em se preocupar. Balançou a cabeça, também sabia ser inútil discutir com Adalet, infelizmente. — Não pode pegar a lança agora de jeito nenhum?

— Não. Meu pai me chamou de irresponsável e depois carregou. Agora ele anda pra todo canto com ela como se fosse um enfeite. — O tom de voz dela era de resmungo, estava frustrada. — Que droga.

— Bom, já era dele…

— Mas eu deveria ao menos honrar meu sangue e saber usar direito, sem falhas — Adalet dizia rispidamente, cerrando os punhos.

Nefertiti pousou uma mão no ombro dela, apertando-o. Sabia como ela se sentia, não poderia julgar. Adalet precisava de tempo para processar as informações, tempo para simplesmente deixar ir, tempo que provavelmente ela não teria. A filha de Miguel então desviou o olhar, dando mais espaço para a amiga. Ela olhou ao redor, podendo ver o clima do lugar estar tenso, pesado. Edwards ressecado ainda estava fresco da memória da maioria.

— Eu preciso só falar com o Zek, depois disso vamos comer e você vai descansar mais um pouco, suas olheiras estão terríveis — Nefertiti disse para a filha de São Jorge, essa apenas assentiu quando a amiga indicou que iria até Rowan. Provavelmente depois compraria para Adalet algum combo de vitaminas, quem sabe seu corpo só estivesse sentindo falta disso.

Ele estava mais à frente com Hades, pelo visto Morningstar estava com uma disposição bem melhor. Rowan parecia rir de algo, provavelmente de fofoca, Hades às vezes competia com Hórus no quesito fofoca. As duas garotas se aproximaram dos rapazes, Adalet já imaginando estarem falando porcaria inútil.

— Nef, Nef! Escuta só isso — Rowan falou assim que a prima chegou mais perto, indicando Hades em seguida. — Conta.

— Eu não vou sair espalhando assim, cara — Hades estreitou os olhos enquanto proferia as palavras, recebendo um olhar triste vindo de Zekram.

— O que houve? — Lazuli alternava o olhar entre os dois, claramente confusa, como sempre. Achava incrivel a habilidade deles de fazê-la se sentir assim.

— Ele ganhou uma cunhada, nada de novo, mas agora é oficial — Rowan adiantou-se.

— Não é bem assim — Hades o repreendeu, continuando —, elas não assumiram nada, é que fui chamar a Ophis porque o tio Gabriel mandou, entrei no quarto pra chamar ela, eu pensei que ela dormisse na forma de cobra, mas… — ele coçou a cabeça, seus cabelos pareciam que não viam um pente há uma semana — ela estava como gente, abraçada na Luna, acordou na hora e ameaçou me morder como cobra.

Assim como Rowan, Nefertiti não conteve o riso, nem ela nem Adalet. Hades ainda corria o risco de ser mordido, mas achavam engraçado o quanto ele não levava a sorte em nada. O ruivo continuava a rir, recebendo um tapa no braço vindo do moreno.

— Olha o lado bom, Luna é legal.

— Ela é doida.

— Você que é a doida aqui, Adalet — Rowan foi quem respondeu, para o espanto de Hades. — Luna é fofa.

— Ela dorme com uma cobra — era visível a interrogação e espanto nos olhos da Demir. — Quem em sã consciência faz isso?

— Até iria dizer que meu pai também dorme com uma e até hoje tá vivo, mas não vou dizer nada disso porque prezo minha pele ainda cobrindo meus órgãos vitais. — Rowan tinha um tom de voz até tranquilo, deixando Adalet e Hades boquiabertos.

— Ela deu muito esporro em você quando chegamos? — Nefertiti fazia uma careta, conhecia a tia muito bem.

— "Muito esporro" é apelido, minha querida. Minha mãe desceu o cacete em mim. — Nesse momento sim ele fez também uma careta, passando a mão pelo ombro. — Ela realmente sabe gritar, meu pai ficou rindo, sobrou pra ele também,  mas o safado sabe como dobrar ela quando tá com raiva, acho que agora devem estar fodendo.

Os três que ouviam a história não sabiam se ficavam chocados pela declaração feita ou se simplesmente riam de nervoso. Adalet falou um "uau" inaudível enquanto Hades colocou uma mão na cabeça sem ter certeza do que pensar. Nefertiti preferiu rir de nervoso, ao menos sabia que depois a tia voltaria mais calma.

— Ainda bem que o tio Gabriel não é… — Hades procurou a palavra certa, não achou. — Assim.

— Mamãe também não foi assim, ainda bem. Na verdade ela até me parabenizou — Nefertiti coçou a própria testa, dando uma pequena pausa. — Ela notou o cheiro do Hórus. 

— Mas também depois de ter feito nós dois de tocha olímpica ontem, você queria o que? — Rowan apontava para ele e Hades, este último balançou a cabeça, concordando.

— Meus pêsames pelo péssimo gosto — Hades comentou.

— Dessa vez tenho que concordar com o emo — Adalet indicou Hades também, ela até queria rir, mas a vontade naquele momento era de enfiar a cara de Hórus no chão. 

— Nenhum de vocês tem moral pra falar de mim, nenhum.

__________

Em todos os anos que morou no Paraíso, nunca vira nada igual. Hope sabia muito bem sobre as rixas entre sua espécie e aqueles descendentes do inferno, sabiam as mazelas e consequências geradas, mas nunca havia conhecido alguém a partir de vez. Não da mesma forma de Edwards. Hope sentia um aperto no peito, um nó em sua garganta, havia chorado muito mais do que pensava ser possível.

Agora estava ali, sentada ao lado de Verena, sendo abraçada pela ruiva. Hope agradecia profundamente a presença dela ali, significava bastante. Já Verena, estava preocupada, era a primeira vez a ver Elizabeth daquela forma, tão pra baixo.

— Me ajuda a fazer outro funeral? — Hope perguntou baixo, fazendo Verena erguer a sobrancelha.

Outro? Você já fez um.

— Não pro Edwards. Pra Meghara.

— Você nunca gostou da Meghara — Verena não conteve a expressão confusa, cessando o abraço no momento em que Hope virou o corpo para ficar de frente.

— Não nego, mas ela merece. — Apesar de falar baixo, Hope tinha convicção na voz, queria convencer a ruiva de sua ideia. — Ninguém falou sobre ela, ninguém parece ter notado o sumiço. Ter sido esquecida assim é como se nunca tivesse existido.

Verena ponderou por um momento, "nunca tivesse existido" foi algo que lhe causou um arrepio. A ideia de ser totalmente apagada da existência lhe parecia realmente perturbadora.

— Edwards era como meu pai, mesmo se soubesse sobre ela, não teria feito nada — Hope explicou. — Ele sempre disse que não achava certo um demônio dirigir este lugar, eu sei que odiaria o que proponho, mas me sinto errada.

— Edwards era…

— Era. Sempre disse não ter nada contra ninguém, mas nunca gostou muito de gente… eu não sei nem como colocar isso em palavras — Verena podia notar a sinceridade nas palavras e nos olhos de Hope, mas também estava assustada ao ouvir. — Ele não gostava nem mesmo da Ophis que é o xodó da melhor amiga dele.

— Eu sinceramente não sei nem o que dizer.

De fato, a ruiva estava atônita. Perguntava-se como não havia notado antes pelos pequenos detalhes, pensava bem sobre todos os aspectos do garoto quando estava por perto. Nunca havia visto Edwards com muitos demônios perto, isso era verdade, mas sempre imaginou ele como um ser simpático embora uma vez tenha presenciado o garoto discutindo com Nefertiti.

— Como seu pai está?

— Ainda em negação. Não aceitou muito bem, não o culpo, mas sei que provavelmente não vai me deixar ficar por aqui… — Hope deu uma pequena pausa, franzindo a testa. Ela olhou para Verena com um semblante confuso. — Quando tudo aconteceu, meu pai estava revoltado, mas o vi ficar perto de alguém e falar alguma coisa. Não vi quem era.

— Eu também lembro disso, mas não prestei atenção no rosto da pessoa — a ruiva negou com a cabeça. — Talvez outra pessoa tenha visto. Posso perguntar, se quiser.

— Talvez não seja nada, mas quero saber da mesma forma. — A morena respirou fundo, passando as mãos pelo rosto. — Depois disso, Meghara.

Verena assentiu, esboçando um sorriso singelo, discreto. No momento seguinte, ela abraçou Hope novamente, mais forte, e a morena o retribuiu. Aquela era a forma da Benedetti dizer que tudo ficaria bem, ou pelo menos o menos pior possível.

__________

Está afim de fazer um favor pra mim e depois ficar me devendo?” provavelmente foi a frase mais absurda que Lucille ouvira em toda sua vida, mas compreendeu como o sentido daquilo era racional, pelo menos para ela. Qualquer dia mataria Kai pelas ideias perturbadas que o garoto tinha, mas também agradeceria. Ela se perguntava desde quando havia dado intimidade à ele, havia sido algo quase espontâneo.

E ali ela via o resultado da pequena distração que o filho da Peste planejara. Claro, tinha dúvidas de como alguém como ele começou a querer chamar a atenção de alguém como a irmã mais dócil de Caim, mas não era seu problema. Sua atenção agora era voltada inteiramente para o homem abaixo de si servindo como seu cavalo pessoal.

Não entendia, e nem queria entender, como a vida amorosa de Caim estava indo. Admitia apenas para si mesma que adorou a posição, quem sabe até repetisse algum dia. Se estava naquele inferno, ao menos aproveitaria, e ele como um bastardo imortal serviria muito bem. Ela impulsionava o corpo para frente e para trás, apoiava as mãos na barriga dele. 

Barone mantinha os olhos fechados ao jogar a cabeça para trás, sentindo seu corpo reagir prazerosamente com Caim dentro de si. Para ele também estava sendo prazeroso, embora ainda se perguntasse como acabou naquela situação. Os gemidos mais altos de Lucille marcaram o momento em que a garota chegou ao ápice, sorrindo de forma vitoriosa.

Levantaram casualmente do divã na casa dele utilizado como apoio, já procurando pelas roupas espalhadas pelo chão do cômodo. Por um momento, Lucille pode ouvir um pequeno comentário de Caim, ele parecia resmungar para si mesmo algo como “O que foi que eu fiz?”. Usualmente não se incomodaria em responder.

— Fodemos, e foi bom. Até estou ponderando repetir.

— O que te faz pensar que quero repetir alguma coisa com você? — Caim virou o rosto por cima do ombro, levantando sua calça e fechando o zíper.

— Não preciso pensar, eu sei. — O egocentrismo embutido em sua voz era sutil, ela estava vestindo as roupas calmamente. — Sugiro que se mantenha casto em relação ao seu caso, gosto de distrações exclusivas.

Ela pode ouvir uma risada seca vinda dele, estreitando os olhos ao olhar para Caim. Pela expressão dele, parecia se divertir com a frase de Lucille, definitivamente achou irritante.

— Fofo da sua parte achar que, primeiro, eu teria alguma coisa séria com alguém, e segundo, que seu ciúme com suas distrações significam alguma coisa.

De fato, ele nunca teve algo nominável com Lilith, como a própria Lucille havia colocado, também era apenas distração para todas as partes. Barone não se deu o trabalho de responder, apenas ergueu o queixo e o encarou. O teria novamente, era vital para seu ego.

— Particularmente falando — Caim terminava de vestir a própria blusa, olhando para Lucille com um sorriso sugestivo —, você é boa, mas não se emocione muito.

— Ou talvez o emocionado aqui tenha sido você para falar tanto.

— Quem vai saber, não é mesmo? — Caim deu de ombros, erguendo uma sobrancelha.

Um sorriso se formou nos lábios dela, cínico. Caim era alguém que seria adestrado, tomou isso como algo pessoal. Não por ele, mas por si mesma, gostava da ideia de ser desafiada daquela forma, pelo menos em partes, pois internamente queria muito jogar Caim naquele divã novamente.

__________ 

 

O rosto estava um pouco sujo de farinha, a bancada com equipamentos espalhados, Gabriel não utilizava avental para evitar sujar a roupa. E por incrível que pareça, havia sujado o rosto e não a roupa. Ao seu lado Uriel tentava entender como isso aconteceu, mas chegou a um total de zero conclusões concretas sobre o caso.

— Me lembre de novo o motivo de estar fazendo uma comida para comemorações humanas?

— Eles gostam, acham simbólico — Gabriel respondeu enquanto misturava os ingredientes. Ele não olhava para o irmão, mantinha a atenção em sua atual tarefa. — Para nós aniversários não contam, não sabemos quando nascemos, calendário não existia. Eles possuem essa data, são muito novos ainda.

— Em algumas décadas vão acabar esquecendo a idade também… — Era óbvio o julgamento na voz de Uriel, não por achar inútil, mas por não ter passado tanto tempo entre mortais para entender certos costumes.

— Até lá, continuarei fazendo.

A resposta pareceu bastar. Uriel não podia negar que Gabriel de fato era cuidadoso, tinha zelo, isso já era muito mais que outros faziam. Ele pouco lembrava de quando Miguel estava por ali, conviveu pouco com o irmão desde que ele havia tido a primogênita, mas tinha noção dele ser semelhante à Gabriel nesse aspecto. Era a primeira vez que o arcanjo tentava fazer um bolo. Todos os outros anos, ou comprava feito ou pedia ajuda para alguma das Rainhas que estivessem presentes.

— Você está preocupado — Gabriel comentou, olhando para o irmão por uma fração de segundo.

— Sabe bem o motivo.

— Por que acha que ela faria isso logo agora?

— Porque ela é insana e me odeia. — Uriel recostou o corpo na bancada ao lado de Gabriel, suspirando. — Se tudo seguir corretamente, o próximo da lista sou eu. Não tem motivo para que não seja.

— Eu sei que ela é um pouco rancorosa, mas… — Gabriel recebeu um olhar repreensivo do irmão, engolindo em seco por isso. — Ok, ela é muito rancorosa, mas já faz muito tempo.

— E ainda assim eu sinto que vai acontecer. Mais uma morte, é a vez dela. A Peste nunca esquece dessas coisas. 

Gabriel podia notar a preocupação na voz do irmão. Em partes se arrependia pelo acordo feito envolvendo a vida dele, mas também sabia qual era o custo se não o fizesse. Todos haviam aceitado aquele acordo, nunca acharam que seria cobrado.

— Afinal, o que você realmente fez pra irritar a Peste? — O arcanjo loiro tinha curiosidade no olhar, parando de mexer a massa e encarando Uriel, este que apenas negou com a cabeça.

Era estranho, ele nunca comentou nada sobre a briga que teve com a Peste na Idade Média. Não era novidade o fato de não se suportarem, mas em certo ponto, tudo ficou muito pior. Uriel nunca comentou sobre isso, não via necessidade, apesar de todos os irmãos terem perguntado. O silêncio presente ali indicava que mais uma vez ele não diria nada.

— Não há mais selo algum para segurar nenhum deles desde que nosso Pai se foi, sabe disso. — Gabriel então falou, quebrando o silêncio e voltando a atenção para sua massa laranja. — Se está realmente preocupado…

— Você também deveria estar, a Morte é imprevisível, sabe disso. Qualquer coisa pode acontecer daqui para a frente.

— Ela não é imprevisível, ela é justa — por um momento, Gabriel franziu os lábios. 

— Justiça alguma se aplica aqui. E você sabe bem que os demônios estão fazendo os próprios planos baseados nisso.

— Eles possuem nome, e não os culpo. Talvez estejam mais seguros que nós.

— Em outros tempos isso seria motivo para guerra. — Uriel passou uma mão pelo rosto, cansado. — Já bastam os órfãos que eu trouxe ontem. Não quero ninguém daqui na mesma situação.

— Não vai acontecer.

Em partes Gabriel concordava com o irmão, em partes discordava, mas entendia totalmente a situação em que ele estava. Não era todo dia que promessas de sangue derramado eram feitas em seu nome. Ambos moveram a cabeça para o lado, ouvindo passos dentro de casa.

Jano parecia apressado, também parecia ter companhia. Os dois arcanjos fizeram silêncio então, não diriam nada daquilo na frente do mais novo, este que pareceu surpreso ao ver o pai na cozinha.

Isso é massa de bolo? — A curiosidade estampada no olhar de Jano era explícita, um sorriso se formou em seus lábios ao se aproximar e ver a tigela nas mãos do pai.

— Sim — Gabriel assentiu, rindo da evidente animação do filho.

— Espero que não fique queimado que nem da outra vez. Oi tio — o mais novo dizia descontraidamente, passando por Uriel e indo diretamente até seu pai. Ao chegar mais perto, passou o dedo pela massa, levando o dedo até a boca em seguida. — Tá gostoso.

— Jano! — Gabriel afastou a tigela quase instantaneamente, repreendendo o garoto com o olhar. — Que bom que agradei seu paladar, mas já disse pra não fazer isso.

Uriel achava incrível como mesmo em uma situação daquela Gabriel não levantava a voz de forma grosseira, na verdade, ele nem parecia estar brigando com o filho.

— Mas olha o lado bom, agora você tem alguém pra ser seu provador oficial e atestar e aprovar a qualidade do seu prato — Jano tinha um sorriso no rosto, daqueles que a pessoa já sabe que vai vir uma desculpa esfarrapada.

— Dispenso o serviço, cara de pau — Gabriel queria rir, mas se conteve. — Passe longe do meu bolo.

— Daqui a pouco vai estar com um gosto diferente, vou ter que provar de novo pra ver a qualidade. — Arkadius piscou, fazendo dessa vez Uriel rir e Gabriel revirar os olhos. — Enfim, eu tenho que pegar umas coisas ali.

Por um momento Jano olhou em direção da sala, esticando o pescoço antes de falar.

— Florian! Ele tá aqui, vem logo enquanto eu busco as coisas. — Nenhum dos arcanjos entendeu muito bem, e isso o mais novo pode notar. — É aquele pirralho que você trouxe tio, ele disse que sempre quis conhecer o papai.

— Qual deles?

— O magrelo meio estranho, ele disse que é filho da Morte, do jeito que é esquisito nem duvido — enquanto o loiro menor falava, Florian se aproximava da cozinha, parecia um tanto apático. — Cara fica aqui rapidinho, já volto.

Jano particularmente não queria deixar Florian sozinho de jeito nenhum, o garoto já havia dado trabalho o suficiente para Kali, pelo menos com dois arcanjos era mais provável que botassem moral no menino.

Uriel poderia jurar ter visto o irmão empalidecer, os olhos de Gabriel estavam arregalados, ou pelo menos mais arregalados do que o natural para o loiro. Ele sabia bem que Florian dava trabalho, todo o caminho até ali foi um caos por conta do garoto.

— Ah, você. — Uriel suspirou, olhando para Gabriel como quem indicava que um belo problema havia chegado ali.

— Nossa eu sempre quis conhecer vocês assim de perto — Florian comentou, aparentemente animado. Ele olhava principalmente para o loiro com uma tigela na mão. — Isso é bolo?

— Você é mesmo filho da Morte?

— Que intimidade é essa rapaz, pra você tem que usar "Cavaleiro" como prefixo — Florian fazia aspas com as mãos, logo suavizando a expressão. — Mas sim.

— Pena de quem foi o pai. — Uriel comentou baixo, mas isso arrancou uma careta vinda do garoto.

— Meu pai era maravilhoso. Mamãe casou com ele há alguns anos, pelo que me disseram a cerimônia foi linda — Florian movimentava as mãos dando ênfase em sua fala. — Saudades dele.

— Não o vê há muito tempo? — Foi o que Gabriel conseguiu perguntar, ele olhava minuciosamente para Florian, analisando-o.

— Ele morreu, um de vocês matou. — Florian deu de ombros, fazendo uma expressão triste, como se sentisse aquilo com pesar. — Não faz muito tempo, mamãe ficou arrasada.

— Não me culpe por custar a acreditar nisso — Uriel retrucou, cruzando os braços à frente do próprio corpo.

— Mamãe tem sentimentos, tá certo? 

— Eu acredito que sim. — Gabriel tinha um tom mais baixo que de costume, lançando um olhar compreensivo para Florian. — Tem gente que surpreende.

Ouviram Jano chamar por Florian, este imediatamente respondeu ao chamado, mas não sem antes acenar para os dois arcanjos que ali estavam. Em partes, ambos estavam aliviados, aquele garoto era de fato perturbador, Uriel tinha certeza sobre o incômodo que sentiu era de inteira responsabilidade de Florian.

Assim que ouviram o barulho da porta fechando, suspiraram ao mesmo tempo. Gabriel balançou a cabeça negativamente, voltando a atenção para seu bolo inacabado, sendo Uriel a tomar a palavra.

— É esse tipo de criatura que anda aparecendo ultimamente, e eu não gosto nada disso.

__________

Haviam ponderado bastante sobre o que fazer, nenhuma das ideias era minimamente viável. Kai tentava pensar em algo útil, Hórus reclamava, mas em uma coisa o filho do Cavaleiro da Guerra estava certo — Florian não tinha nada a ver com a Morte, até poderia ter parentesco com eles — mas definitivamente não era primo.

A ideia útil veio quando Durga, em uma conversa com Malakai, sugeriu interrogar o garoto pacificamente. A parte pacífica seria a mais difícil. Kai havia explicado para a garota tudo que achavam, e ela concordou sobre tomarem alguma atitude o quanto antes. Durga poderia ser muito mais dócil que a irmã, mas tinha o pensamento mais rápido, principalmente sob pressão.

— E você quer que cheguemos lá tipo “oi primo, não confiamos em ti, fale que é um farsante”? Não vai rolar.

— Desse jeito sem colaboração não vai mesmo — Durga olhava para Kai com um olhar tedioso e incrédulo. — Vocês querem saber o que ele veio fazer aqui, perguntem.

— Ele não vai responder assim fácil.

— Vai, se sentir que sabem de alguma coisa. Blefem — a garota apontava para os dois, Durga tinha dureza na voz. — Finjam saber mais do que deixam transparecer, ele vai soltar alguma coisa. Hórus, você devia ser quem ameaça, mas…

Ela não precisou terminar a frase, sua careta já disse tudo. Kai já tinha total acesso aos poderes por parte de mãe, já Hórus, não. Ele sempre barrou isso da própria vida, e agora estava vindo com tudo, ele não possuía controle algum.

— Deixa que eu faço a ameaça, ele fica observando — Kai concluiu, expirando.

— A credibilidade que tenho com os dois é maravilhosa. — Hórus resmungou, mas no fundo sabia ser verdade. Uma hora ou outra os poderes vindos de seu pai iriam extravasar, ele tinha medo de acabar atingindo alguém, por isso tentava reprimir ainda mais.  Decisão burra, Hórus tinha plena consciência, mas era um momento horrível.

— Depois que resolvermos isso com esse treco, a gente resolve sobre seus poderes — Kai apontava para o primo, gesticulando com uma das mãos. — E eu não quero ouvir reclamação ou coloco tua namorada pra te meter uma surra pra ver se o olho fica ao menos vermelho.

— Isso não é meio… — Durga estreitou os olhos e franziu o rosto. — Violento?

— Sim, mas só isso vai fazer funcionar. Ele tem que ficar com raiva ou pelo menos estar em um ambiente pesado demais.

— Agradeço a preocupação, mas prefiro não apanhar de forma alguma. — Hórus sorriu azedamente, exibindo um sorriso falso.

Os três fizeram silêncio por um instante. Durga em partes estava preocupada, se questionava em que situação Kai esteve para que conseguisse estabilizar os poderes dele, tomando como base a sugestão para o primo. Provavelmente algo bem ruim, depois perguntaria a ele com mais detalhes. 

Kali havia avisado sobre Florian estar com ela e Jano, foi o suficiente para os dois supostos primos do garoto quererem ir atrás. Tinham pressa, tentariam não deixar isso muito exposto, não seria inteligente. Antes de praticamente sair correndo atrás do dito cujo, Kai parou um tempo e beijou a bochecha de Durga como agradecimento pela ajuda. Hórus ficou muito interessado no detalhe, fez uma nota mental para depois esfregar na cara do primo sobre ele estar certo no dia da festa.

Ambos andaram apressadamente, não precisavam nem fechar a cara e fingirem “cara de mau”, estavam realmente nervosos. Felizmente, não precisaram ir muito longe para achar quem procuravam, de fato Florian estava com Kali e Jano, parecia estar enchendo o saco dos dois, pelo menos nisso se assemelhava brevemente com os supostos primos. Hórus ainda resmungou uma última vez em como o garoto era estranho para os padrões dele e em como preferia ter na família pelo menos uma criança melhorzinha, tipo o Anúbis ou a Louise.

Kai apoiou o braço no ombro de Jano ao chegar mais perto, já Hórus permaneceu com as mãos nos bolsos. Chegar perto daquele garoto fazia sua parte daquela família praticamente gritar, simplesmente odiava. Kali notou o incômodo dele, sendo a abençoada a colocar uma mão no ombro dele como se dissesse “está tudo bem”.

— Desculpem interromper essa interação maravilhosa, sei que adoram demais essa figura, mas precisamos bater um papo — Kai falava e olhava diretamente para Florian, pode até mesmo notar o olhar do menino brilhar ao vê-los ali.

— Ah, claro, vou super sentir falta — Jano comentou com óbvia ironia.

— Pode levar. — Kali deu de ombros, ela iria ficar muito aliviada por isso, achava o garoto um porre de se lidar. Não impossível, apenas um porre.

— Que bom, então anda — Kai indicou com a cabeça para Florian levantar e sair dali.

— Você não pede nem um “por favor”, nem uma palavrinha mais fofa… — Florian resmungava, recebendo um tapa na nuca vindo de Hórus.

— Cala a boca e vem, começa a tagarelar não. — Jano e Kali ficaram surpresos ao ver Hórus utilizando aquele tom, não era de seu feitio, ele provavelmente sempre foi o mais simpático da família.

— Que violência — o menino resmungou uma última vez.

Kali silenciosamente perguntou à Hórus se estava tudo bem, a resposta foi negativa. Depois ele explicaria a ela tudo que aconteceu, ou talvez Durga o fizesse, mas ele preferia falar pessoalmente. Considerava Kali como uma amiga próxima, se sentia no dever de não deixá-la totalmente no escuro.

O filho da Peste segurou o suposto primo pela camisa, empurrando-o. Kai não tinha tato algum, nem se esforçava para ter, Florian estava quase tropeçando por isso. Se ele caísse de cara no chão provavelmente nenhum dos dois maiores ajudariam, então prezava manter seu corpo ereto.

Quando chegaram à um local menos movimentado, Kai empurrou Florian contra uma parede com pouca ou quase nenhuma delicadeza. Hórus ficou logo ao lado, segurando o menino pela gola. Kai também segurava Florian nesse momento, erguendo o menino do chão.

— Começa a falar.

— Falar? Não ganho nem mesmo um bom dia? — O sorriso irônico no rosto do mais novo soava ainda mais irritante, fazendo Kai erguê-lo ainda mais.

— Você vai ganhar 5 dentes a menos se não colaborar. — Kai era ríspido, ali ele notou a aura do garoto, era muito complexa, diferente. Isso só comprovou que suspeitar dele não era exagero nenhum. — Então vamos começar pelo básico: quem é você e por que veio?

Formou-se um sorriso ainda mais animado nos lábios de Florian, ele estava odiando ser levantado daquela forma, ainda mais por aqueles dois. O garoto assumiu uma face mais macabra, seus olhos estavam mais esbugalhados e a bochecha mais funda. Um sorriso de animação ao ver a reação de Kai e Hórus quando sentiram os órgãos internos se retorcerem. Ambos se afastaram, com as mãos por cima da barriga.

— Que merda é essa? — Hórus foi o primeiro a olhar com raiva e surpresa para o garoto pálido.

— Alguém já falou pra vocês que são tão simpáticos quanto seus pais? 

— Quem é você? — Kai quase rangia os dentes, franzindo o maxilar ao sentir seu estômago querer entrar em putrefação. 

Mesmo com o rosto deformado, Florian ainda mantinha a face plena, foi o suficiente para Hórus socá-lo. Kai por um momento retesou, bater em criança seria meio absurdo, mas algo o dizia que Hórus teve um motivo muito bom para fazê-lo, além do óbvio.

— Doeu, estou orgulhoso. — Florian mantinha uma mão na própria mandíbula, suas bochechas estavam cada vez mais fundas. 

— Esse merda é nosso tio. — Hórus então falou. Ele havia reconhecido o cheiro quando chegou mais perto, lembrou da noite em que Edwards morreu, havia sentido o mesmo odor no vulto perseguido por Adalet.

Antes mesmo de falar algo, foi a vez de Kai socar o rosto de Florian, agora na outra face. Florian apenas riu, aliviando a dor interna que exercia sobre os dois que o encaravam. Seus nariz sangrava, mas não vermelho como todos, era um líquido preto e de odor forte, em outras palavras, podre. Florian então assumiu totalmente sua verdadeira forma, cadavérica, seca, apenas aqueles dois poderiam ver pois ele tinha plenos poderes para escolher quem o via e quem não.

Era mais alto, seco, podiam ver claramente o formato dos ossos do rosto e dos braços, talvez pudessem até mesmo contar as costelas se estivesse sem os panos por cima. Era como lembravam do tio, a exata imagem que sempre conheceram.

— Que bom que foram inteligentes o suficiente, ou pelo menos um de vocês foi.

— O que está fazendo aqui? Pra quê matar aquele anjo? — Kai respirava fundo, quase bufando. Nunca viu o tio longe da Morte, eram próximos demais, isso explicava parcialmente a escolha dele de falso parentesco.

— Porque eu quis? Porque ele era inútil? Porque eu odeio o pai dele? — Fome falava como se fossem perguntas óbvias, deixando sua forma original, voltando a aparentar ter 14 ou 15 anos, o corpo que chamava de Florian. — Ele também tinha irmãos, mas os achei bonitinhos demais. Me agradeça, Hórus, poupei seu irmão alterado.

Hórus retesou, ele estava falando de Simon. Se Simon era bastardo logo daquele homem, explicava muita coisa deixada pela metade. Também não permitiria o tio mexer logo com Hope. Estava aliviado, mas também culpado por concordar em partes em sacrificar Edwards.

— Você não vai mexer com mais ninguém aqui. Não tem motivo. — Kai chegou perto novamente do tio, encarando-o com raiva.

— Quem sabe eu leve mais um ou dois — o sorriso na face do Fome era cínico, mas logo sua face ficou séria, ajeitando a própria roupa. — Como bons sobrinhos, creio que vão ser obedientes e ficarão de bico fechado sem se meter nos assuntos meus e de sua tia. Morte odiaria saber que são tão iguais aos escrotos dos seus pais.


Notas Finais


༐•ᄔCríticas construtivas, sugestões e elogios são sempre bem-vindos!


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