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História Veredicto, interativa - Capítulo 30


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Notas do Autor


༐•ᄔ Sim, eu sei que demorei muito mais do que pretendia, peço desculpa por isso. Porém, aqui estou quebrando meu próprio cronograma pra tentar ajeitar isso de novo.

༐•ᄔ Dessa vez, as imagens de capa serão diferentes. Vou usar as edições que fiz, aleatoriamente, ao longo dos capítulos a partir deste. Não necessariamente a capa vai ter a ver com o conteúdo, vai ser um mero enfeite mesmo. Na deste capítulo, temos Durga, Kali, Caim e Eva.

༐•ᄔ Boa leitura!

Capítulo 30 - O olho que tudo vê


Fanfic / Fanfiction Veredicto, interativa - Capítulo 30 - O olho que tudo vê

— Então…

— Sabe, Jano, se está curioso é só perguntar. — Kali mantinha os olhos em seu notebook, tentava manter a concentração, algo bem complicado quando se tinha uma figura inquieta ao seu lado.

Ele franziu a testa por um instante, pegando uma caneta em cima da mesa de Kali. Havia várias ali, a maioria personalizadas, variando entre bichos fofos e uma que tinha o formato de uma seringa. Jano achou bizarro, mas era engraçado, além de Kali parecer ter muito ciúme de suas canetas. O loiro então apontou com a caneta para a tela do notebook.

— Isso aí é o quê?

— Isso é o que humanos fazem pra poder ganhar dinheiro.

De primeira, ela achou que ele tivesse entendido, mas o silêncio de Jano mostrou o contrário. Ele parecia confuso com a informação, e quando Kali o olhou, entendia aquilo não ser da natureza das pessoas dali, muito menos da dele.

— Você provavelmente não precisa, vai viver pra sempre, mas eu e minha irmã somos quase totalmente humanas, então… — Kali deu uma pausa, digitando algumas informações pessoais em um formulário de inscrição. — Temos que nos precaver. Se chama faculdade.

— Não sou o mais ligado nas profissões humanas, mas é onde aprendem a trabalhar, certo?

— Finalmente.

— Isso é tão…

— Você não ouse terminar essa frase. — Ela o interrompeu, olhando-o de forma repreensiva e levantando um dedo. — Pra você é algo inútil, mas significa muito pra mim.

Jano apenas assentiu, não queria ofender ela de alguma forma, mas realmente não entendia muito bem. Claro, anjos tinham funções, mas na visão dele pareciam muito mais abrangentes que uma profissão humana onde o indivíduo está fadado a fazer a mesma coisa pro resto da vida.

— O que você faz?

— Veterinária.

— Ah, trabalhar com animais deve ser muito fofo.

— Jano — Kali riu um pouco, soltando seu notebook e virando a cadeira de frente para ele. — Envolve muito mais que simplesmente ver bicho fofo.

— Mas vê bicho fofo, não vê? — Kali não conseguia levar ele a sério, Jano parecia realmente curioso sobre aquilo.

— Sim, vê. — Kali apenas revirou os olhos, voltando sua atenção para a tela do notebook e terminando de preencher o formulário para concorrer à uma bolsa. — Eu passo um mês fora de lá, vejo coisas que deixariam alguns biólogos malucos. E a pior parte é que não posso nem escrever sobre isso ou vão achar que me banhei em LSD!

— Eu posso fazer uma listinha das pessoas que viram bicho por aqui, isso daria algo incrível pra ti. — Jano sugeriu, e embora Kali concordasse, sabia que era absurdo.

— Metade eu nem devo saber como funciona, embora eu tenha ficado bastante curiosa pra saber como o corpo da Ophis funciona… — Kali foi baixando o tom de voz, quase como um pensamento que acabou saindo. A garota apoiou o queixo com uma mão, realmente ponderando a possibilidade.

— Aquilo deve ser recheada só com banha, mas pergunta pra Luna, ela deve saber bem direitinho como aquilo funciona. — Por um momento, Jano recebeu um olhar incrédulo vindo de Kali. — Mas não agora, ela tá meio estranha, disse que a cobra gorda era um saco de vacilo.

— Aconteceu alguma coisa com elas?

— Ophis deu uma de homem indo pra guerra e foi embora sem avisar nada, Luna tá meio bolada com isso. — Jano moveu os ombros, fazendo uma careta. — Ficou de cara feia desde que a Ophis saiu.

Kali até queria dizer algo, mas não havia muito bem algo a ser dito. Ophis não tinha sido a única a sair, então talvez fosse algo muito maior do que simplesmente “ir embora”. E pela forma que via as duas, duvidava muito disso acontecer.

Kaur então levantou de onde estava, sentando-se ao lado de Jano no móvel acolchoado que ficava à frente de sua cama. Ela abriu a tela do próprio celular e procurou por alguma coisa enquanto apoiava o corpo no braço do loiro. Jano já estava devidamente acomodado ali, então para ela seria ainda mais fácil.

— Faz isso. — Kali entregou o telefone para ele, indicando algumas perguntas.

— O que é isso?

— Teste vocacional, quero ver se você serve pra alguma coisa. — Kali tinha um sorriso no rosto, já ele, fez uma careta de indignação. Achava aquilo uma ofensa, embora também estivesse curioso.

Não respondeu de imediato, começando a responder coisas que achava simplesmente avulsas e absurdas. Pelas expressões faciais de Jano, Kali se divertiu, provavelmente muito dali ele sequer cogitou fazer.

 — Vem cá… —  O loiro estava por volta da vigésima sétima pergunta, não desviou os olhos, embora sua atenção estivesse completamente no que Kali poderia responder. — Quando for ter aula de novo, vai ter que ir embora, não vai?

A filha de Eva suspirou, apoiando a cabeça no ombro dele.

— Vou. Eu preciso.

— Mas você volta?

Dessa vez, ele parou totalmente o teste vocacional, já estava no fim, apenas precisava clicar para saber o resultado. Jano olhou para ela de forma preocupada, apreensiva, parte dele não queria saber a resposta, a outra parte provavelmente já estava chorando no cantinho da parede.

— Você quer que eu volte? — Tanto ela quanto Durga haviam ido para o Éden para poderem conhecer melhor tudo que poderiam encontrar ao longo da vida, não é como se planejassem ficar ou estabelecer contato, mas também não iriam largar tudo ainda mais com pessoas com quem se importavam.

Jano assentiu, movendo a cabeça de forma afirmativa e devagar. Kali não sabia dizer se sentia um aperto no coração ou se estava aliviada, não havia apenas um sentimento envolvido. Ela então abraçou o tronco dele pela lateral, mas antes de conseguir dar um abraço decente, Jano virou o próprio corpo, beijando-a.

Não que ela não esperasse por isso, mas ele tomar alguma iniciativa era realmente surpreendente. O sorriso nos lábios de Kali foi involuntário, ela logo o retribuiu, segurando no rosto e pescoço dele. Foi um beijo calmo e lento, não tinham pressa alguma. Ele segurava nas costas dela, ou melhor, apenas apoiava a mão, era o suficiente por enquanto.

Permaneceram daquela forma por alguns minutos, separando os rostos o suficiente para retomarem o fôlego. Ainda estavam próximos demais, agora um sorriso era visto no rosto de ambos, seguido por um abraço afetivo.

— Eu vou sentir sua falta, sabe.

— Quando meu período de férias já está acabando você vem dizer isso… — Kali riu, desacreditada. Ela passava os dedos calmamente pela lateral da cabeça dele, achava incrível a forma dele de sempre fazer as coisas de última hora.

— Em minha defesa, eu…

Antes de Jano poder dizer alguma coisa, ouviram uma tosse forçada vinda da porta do quarto dela. Ao olharem, sentiram a raiva e o nojo exalando dos dois pares de olhos que os encaravam. Em um ato involuntário, Jano sorriu e fez sinal de “legal” com uma das mãos, já Kali passou uma mão pela testa.

— Atrapalhei?

— Sim. —  Jano respondeu de prontidão, recebendo um olhar ainda mais alarmado de Caim.

— Vocês são meio retardados, claro que atrapalhou, pergunta só pra gastar voz, eu hein. —  Florian, que estava ao lado de Caim, resmungou. — Preciso falar com o desbotado.

— Agora eu acho que eu também preciso. — Caim cruzava os braços ao olhar a situação da irmã com o anjo, internamente queria gritar.

— Caim, não começa. — Kali tinha um tom cansado, já sabia exatamente o que o irmão diria, o surto dele com Durga foi quase igual.

— Eu vou olhar na minha agenda, mais tarde vejo se posso encaixar vocês. —  Jano comentou, dando de ombros, como se realmente fosse estar ocupado o dia todo. Só se fosse ocupado com vários nadas.

— Ah, faça-me o favor, eu preciso falar contigo agora! — A ênfase na frase de Florian assustou até mesmo Caim. O garoto foi até Jano, puxando-o pela gola da camisa, e nisso quase derruba o loiro no chão por ter levantado de forma desajeitada.

— Ai, ai! Espera!

— Espera, nada, vai vir é agora. — Florian parecia estar com mais mal humor que normalmente, sua impaciência mostrava isso. Antes de sair, porém, ele virou o rosto para Kali. —  Pode deixar, te devolvo seu namorado mais tarde.

— É bom mesmo. — Florian ergueu uma sobrancelha ao notar o tom de voz vindo da Kaur, era uma ameaça sutil, com isso Kali ganhou alguns pontos na concepção dele.

— Discordo.

— Caim, fecha o bico. — Jano resmungou antes de ser puxado para fora do quarto com certa pressa.

Ao longe, os filhos de Eva puderam escutar claramente alguns resmungos vindos dos dois, e não eram nada amigáveis. Florian parecia perturbado por algo, isso qualquer um notaria, ou talvez fosse só mais um surto aleatório que ele costumava ter.

Quando já estavam do lado de fora, Jano cogitou chutar Florian por aquilo, mas não faria isso enquanto não ouvisse tudo que ele tinha para dizer. Assim teria certeza do chute ser válido.

— É o seguinte, eu preciso que faça uma coisa pra mim.

— Por que eu faria?

— Porque o único que me escutava tá turistando e o que sobrou parece querer fazer espetinho de mim. — Florian movimentava as mãos rapidamente, Jano mantinha os braços cruzados. — Só que eu preciso que o Kai faça uma coisa, mas ele não me escuta.

— E onde eu entro nisso?

— Ele te escuta, é amigo e agora cunhado dele, entre outras coisas, então precisa fazer ele me escutar. — Fome falava de forma irritada, tentou conversar com Kai naquela manhã e não conseguiu progresso algum.

Jano ponderou por um momento, respirando fundo e coçando o nariz com as costas da mão direita. Não sabia explicar como, mas sentia a verdade nas palavras de Florian, assim como sentia que alguma coisa ele estava omitindo. O garoto menor estava sim um tanto nervoso, precisava agir mais rápido devido à informação de sua irmã, mas essa parte com toda certeza ele não diria.

— O que você quer que eu fale?

__________

Mais cedo naquele dia, sua mãe, Agrath, pedira para o garoto ajudar Ophis com as cartas de Lúcifer. Ou melhor, organizar a bagunça provavelmente deixada por ela. A rainha conhecia bem a quase filha adotiva, era desorganizada em certos aspectos, então tentava zelar pela integridade do espaço físico da garota. Rowan sabia bem da intenção da rainha não ter nenhum envolvimento com saber o conteúdo das cartas ridículas e melodramáticas de Lúcifer se queixando de falta de atenção e sim distrair o garoto e o tirar de casa. Segundo ela, o filho já estava enchendo seu saco, isso era um dos efeitos colaterais de Rowan parecer demais com seu pai, mas Belzebu conseguia ser pior.

Ele viu Asmodeus chegando em sua residência, tinha consciência que haveria uma conversa séria entre seus pais e o príncipe. Talvez não demorasse muito, nunca demorava, mas parecia séria pela expressão de insatisfação na face de Asmodeus. Rowan então foi até a casa dos herdeiros de Lúcifer sem reclamar pelas ordens de sua mãe, pelo menos não em voz alta.

Ele tinha costume de entrar sem pedir, afinal, Ophis e Hades não se importavam, faziam o mesmo com ele. Então assim como outras várias vezes, abriu sem bater, mas ao mover a porta, se deparou com um Hades nu e uma Maia no mesmo estado no colo dele. Só de ver a cena teve a certeza de sua prima Ophis não estar em casa, ela teria feito um escândalo. E um dos grandes. Por não ter chamado a atenção de nenhum dos dois, saiu antes de repararem sua presença ali, afastando-se e rindo da situação. Simon ganharia um cunhado. 

Rowan definitivamente não iria ficar de vela, ainda mais para Hades. Não fazia ideia de como o garoto havia conseguido sequer demonstrar interesse para Maia, nem como Simon não tinha surgido do além ao seu lado para reclamar de alguma coisa, então se retirar seria melhor para seu psicológico e talvez para o físico.

Sua mãe ficaria certamente desapontada pela ideia de tirar ele de casa ter ido por água abaixo, quem sabe ele fizesse alguma comida que ela gostasse para poder animar a mulher ao menos um pouco. Sim, ele poderia procurar algo útil, algo melhor que ficar em casa fazendo nada, mas se sentia indisposto, incomodado.

Zekram rosnou baixo por um momento, sentindo a garganta ressecar. Sentiu-se estranho, geralmente aquele tipo de coisa só acontecia quando estava prestes a assumir sua segunda forma ou em uma visão mais ampla, o que seria algo como sua forma original como herdeiro de sua mãe. Resolveu ignorar, não iria mudar de forma tão cedo, não havia necessidade. Prosseguiu andando então, estava enfadado, entediado, esfregava o rosto com as mãos várias vezes até ter o braço puxado.

— Rowan, preciso de uma opinião. 

— Você precisa é comer mais um pouquinho, minha filha, achou uma dieta na deep web foi? — A careta feita por ele quase resultou em um belo tapa, porém Adalet precisava concordar. Ela estava magra, os ossos ainda não estavam tão salientes, mas parecia alguém no mínimo a caminho da anorexia.

— Eu estou comendo, mas isso não vem ao caso agora. — De alguma forma, ele conseguia ver claramente certa urgência no olhar dela. — Não sei a quem mais recorrer.

— Se eu sou sua última opção então…

Me escuta! — Demir o interrompeu. Realmente não pediria nada a ele se não estivesse sem saída. Enquanto ela falava, Rowan a puxava para o lado, os dois ficando menos chamativos do que simplesmente no meio da passagem. — Não sou a mais experiente com todas essas coisas sobrenaturais, mas você é. Como humana acho que um sonho é sempre delírio, mas eu tenho certeza que pra você não é.

— Você me chamou pra falar de sonho?! — Zekram estreitou os olhos, indignado, sendo puxado de volta a prestar atenção em Adalet. — Teu problema é delírio por falta de glicose.

— Quando uma pessoa sonha em levar uma sentença de morte, parece delírio pra você? — Antes mesmo de Rowan poder responder, Adalet continuou. — “Sua sentença é morrer de fome” foi o que o Fl…

— Sua sentença é morrer de fome? — Rowan movia as mãos com certa pressa, precisava processar aquilo. Até onde ele sabia, poucos diriam algo daquele tipo. — Explica isso direito.

— Deixa eu terminar, caralho! — Adalet exaltou um pouco o tom da voz. Pela sua expressão corporal, estava começando a ficar irritada. — Primeiro eu vi aquele merda do Florian, depois o rosto dele mudou totalmente ficou… — ela balançou a cabeça, procurando as palavras certas para descrever —, ficou muito bizarro.

— Bizarro como?

— Maior, em carne viva, mais magro do que já é, o rosto… — Demir deu uma pausa, lembrando cada detalhe. Aquilo a havia assombrado por bastante tempo, principalmente aqueles dentes. — O sorriso…

— Olha eu entendo que deve ter sido bem feio, mas agora falar do sorriso do cara eu já começo a achar que tá fissurada no moleque.

— Foi o mesmo sorriso que vi na noite da morte do Edwards. — Adalet concluiu, sussurrando, como se só então tivesse encaixado uma peça em sua cabeça. — Era cadavérico.

Rowan passou então uma mãos pelos fios ruivos, franzindo os lábios. Pela face dele, era óbvio que provavelmente seria mais uma dor de cabeça. Quando ele já tentava não se meter em muita coisa, mais aparecia, e com todas as preocupações juntas ele não queria ser mais um problema para sua mãe.

— Você contou isso a alguém?

— Você. 

— E seu pai?

— Ele não entende nada — Adalet reclamava, suspirando. — Ele sabe que tem algo errado comigo e ainda assim acha que está tudo bem, nem mesmo ele sabe o que é isso e se eu digo que estou sonhando com sentenças de morte… vai me mandar morar com a minha mãe de novo e lá sim eu não vou poder saber de nada!

— Adalet… — Rowan estava receoso, até tinha palpite, mas não ia arriscar falar merda, não de novo.

Ela esperava por uma resposta, não ficaria nada satisfeita com não ter resultado. Olhava para ele na expectativa, isso o incomodava profundamente, odiava ter pressão sobre si. Rowan balançou a cabeça, olhando ao redor, ponderando o que poderia dizer sem soar estúpido. Em um espaço consideravelmente afastado, ele pode reconhecer Luna falando com uma figura certamente esquisita devido a sua visão periférica. O garoto estava com o braço enfaixado, lembrou do motivo no mesmo instante, voltando a olhar para Adalet. A ideia o assustava mais do que gostaria de admitir, apesar de ser a mais óbvia. Por não esconder muito bem a confusão de seus pensamentos, Adalet notou que ele tinha algo a dizer, erguendo as sobrancelhas como quem insistia.

— Eu acho… que você mexeu com quem não devia.

__________

— Que brinquedo legal, Anúbis.

— É bom mesmo. — O garoto não tirava os olhos do pequeno boneco articulado que ganhou de Asmodeus. 

— Eu achei muito bacana. Como usa?

— Tá vivo há tanto tempo e não sabe usar um brinquedo, tio? Seu pai e sua mãe eram tão ruins assim? — Dessa vez, Anúbis olhou para Rafael, confuso. Esqueceu totalmente de responder a pergunta feita pelo arcanjo. — Eu gosto mais quando junta com os da Louise, tio Asmodeus deu alguns pra ela também, é muito bom! Só que agora ela tá falando com a irmã mais velha dela no telefone, elas conversam muito, dá sono.

A careta feita pelo menor fez o ruivo rir pelo nariz. Rafael sabia sobre Agrath e Belzebu possuírem uma prole bem mais velha que Rowan, porém nunca chegou a conhecer. A garota se mantinha afastada por motivos desconhecidos por ele, não que isso importasse tanto.

— Você quer companhia?

— Não. Você é burro e não sabe usar um brinquedo. 

— Anúbis… — Embora o riso sutil ali existisse, a repreensão também. — Isso são modos?

— Papai disse que sim, então sim.

— Então gosta de ficar sozinho?

— Não estou sozinho, Louise já vem e nossa outra amiga também. — A atenção do menino estava novamente de volta para seus brinquedos. — Ela disse que não demora.

— Não quer vir dar uma volta comigo enquanto não voltam? 

— Eu acho que quem não gosta de ficar sozinho é você tio, que grude! — Anúbis falou levemente irritado, levantando e limpando a própria roupa com impaciência. — Tudo sou eu que tenho que fazer! Ser babá não é uma coisa que eu gosto.

Rafael sentiu uma pontada de culpa, Anúbis lembrava muito o pai, até mesmo reclamando. Tudo seria bem mais fácil se Miguel estivesse ali, não precisaria desconfiar de ninguém, ou talvez tudo fosse muito pior. De um jeito ou outro, não teria como saber. 

— Sabe, fui criado com muita gente…

— Só por isso quer ter amiguinho sempre? Tio Jorge te abandonou?

— Jorge está ocupado — Rafael falava o mais calmo possível. Os dois caminhavam tranquilamente, passando pelas fontes quebradas. — É bom falar com gente nova.

— Mas você não é novo, é velho.

Rafael parou por um momento, afagando a cabeça do garoto. Riu baixo e de forma seca, achava uma graça a língua afiada. O ruivo tinha uma das mãos no bolso de sua calça, retirando dali uma pequena lâmina, forjada e encantada na Cidade de Prata. O arcanjo respirou fundo, recebera a lâmina de Metatron mais cedo, mas ainda refletia se deveria usar ou não.

Parte de si se arrependia, parte dizia para ser rápido. O garoto era pequeno, seria algo limpo, embora sua consciência o sufocasse depois. Ainda estava com a mão na cabeça do garoto, e foi ao ver o sorriso animado do menino para alguma coisa que desistiu totalmente da ideia. Metatron que ficasse com o plano dele, jamais machucaria aquele menino. Antes de guardar a lâmina para depois jogar fora, Anúbis o interrompeu.

— Mor! Você voltou! 

O sorriso dele era sincero, porém Rafael nada entendeu. Olhava para a frente e nada via, enquanto o garoto podia claramente ver alguém.

— Com quem está falando Anúbis?!

O garoto não respondeu. Antes disso, a única coisa que Rafael pode notar foi o corpo desacordado do menino caindo ao chão à sua frente.

_________

Mesmo de longe, Fome mantinha o olho naqueles que lhe eram família. Queria muito saber se tinha dado certo, pois do contrário ele estaria muito ferrado só de tentar. Já era quase o saco de pancada da Peste, quem dirá se virasse a mesma coisa da Morte. Para sua felicidade, sua irmã não o visitou naquele dia, isso o preocupava, porém mesmo se perguntasse não teria resposta alguma, Morte era irritantemente reservada em alguns assuntos. 

Só precisava que Jano fosse convincente o suficiente para Kai concordar, se houvesse um resquício de possível confiança…

Fome estava impaciente, tentava não mostrar o interesse na conversa alheia, mas Kai sempre o olhava algumas vezes e o garoto podia sentir que o mais velho estava com clara raiva no olhar. Era imperativo, Fome odiava depender dos outros, ainda mais com sua cabeça a prêmio.

— Desculpe se tiver sendo intrometida, mas devo me preocupar por meu irmão e Kai estarem olhando pra ti como se tivesse, ou fosse, uma doença incurável que pediu permissão pra atacar? — Embora um tanto contida por não querer ver o garoto exaltado, a voz de Luna parecia indicar uma pequena alfinetada. A loira sempre teve um pé atrás com Florian, não sabia o motivo, mas era no mínimo curioso que Jano e Kai estivessem discutindo alguma coisa em relação ao garoto. Um calafrio percorreu o corpo da menina.

— Relaxa, eles me odeiam.

— E você relaxa com isso? — Luna ergueu a sobrancelha esquerda. 

Florian demorou alguns segundos para responder. Ele afastou o corpo para o lado, dando espaço para Luna sentar caso ela estivesse confortável. Por algum motivo ela estava sentado em um toco que um dia foi uma árvore enorme, porém não existia mais por ter sido derrubada em uma das brigas entre Lúcifer e Metatron. Nenhum ali sabia ao certo como aconteceu, haviam sido anos antes de nascerem.

— Nossa família é complicada e o Kai parece não entender isso, ou se entende, se faz de doido… Você deve ter uma imagem péssima da minha mãe por ela ter matado o escroto do… o seu tio — ele se corrigiu ao lembrar que talvez fosse soar insensível, porém Luna apenas moveu os ombros indicando não ligar para certos adjetivos. — Ela não é tão ruim assim. A mãe do Kai é, por isso eu preciso de gente mais forte que me ajude.

— Não tenho uma imagem tão ruim assim. — Luna suspirou, ganhando a atenção de Florian, este erguendo as duas sobrancelhas. — Foi ruim, mas meu pai disse que a mãe do Kai teria feito muito pior, então talvez tenha sido…

— Misericórdia?

— Algo assim. — A menina apenas assentiu. — Por que precisa de ajuda?

— Porque eu sou um traíra que quer se salvar. — Florian fez uma careta ao notar o riso baixo e seco vindo dela. — Como eu disse, minha mãe não é ruim, meus tios que são, ela até era amiga de uns anjos aí…

— Era?

— Sim, nunca te contaram? Depois da Peste Negra, do acordo que tinham feito com a vida do Uriel, ela passou um tempão no grupinho angelical pelo que lembro que me disseram. Sério que não falaram nada? Que ingratidão. Seu pai era um dos mais próximos.

— Não, ninguém comenta muito sobre sua família, é quase… um tabu, eu acho.

— Deselegante. De qualquer forma, eu não estou mais embaixo da asa dela, então preciso me cuidar, e eu sei que os 4 potros do apocalipse têm lugares na terra onde guardam suas coisas mais preciosas ou as que consideram infames. — Luna estreitou os olhos ao ouvir a informação, em parte curiosa por ele estar falando tudo aquilo tão facilmente, já Florian, fingiu não notar a estranheza no olhar dela. — Sei onde é o da minha mãe, porém sou fraco ainda para conseguir entrar lá…

— E o Kai conseguiria.

— É.

— Mas você é o mais próximo de parecer com sua mãe, não?

— Eu sou misturado, Luna. — Ali ele realmente tentou soar mais amigável. — Kai não tem pai, ele é basicamente um deles, é muito mais fácil pra ele conseguir e eu sei que algumas coisas da minha mãe são tão letais que podem ferir até mesmo outros cavaleiros… isso seria uma boa já que parece que todos os outros estão surtando.

Luna coçou a lateral do rosto, era ainda mais estranho. Entendia de certa forma o que ele queria dizer, mas tais objetos em mãos erradas poderiam gerar um desastre ainda maior.

— É isso que pediu para o Jano convencer ele?

— É.

— E você acha que logo ele vai convencer o Kai?

— Eu poderia tentar a Durga também, mas gosto mais da irmã dela. — Fome esboçou um sorriso azedo, sem separar os lábios. — Inclusive cadê sua amiga ex-medrosa que me prometeu doce?

Foi quase impossível não fazer uma careta, Luna achava absurda a facilidade dele de mudar de assunto, ainda mais um envolvendo comida e Lilian. Por um lado, estava orgulhosa. Não era todo dia que Lilian conseguia manter uma conversa com pessoas tão… pessoas como Florian. Por outro, tinha medo do resultado daquilo, pois sabia como a prima era influenciável e gostava de agradar demais. Já Fome, estava mais interessado na comida do que em Lilian em si, então mesmo não sendo um perigo muito grande, Luna não sabia disso.

— Provavelmente fazendo alguma coisa mais interessante do que prestar atenção em você.

Dessa vez, a tranquilidade na fala dela que fez Florian franzir a testa, indignado com a evidente alfinetada. Não que ele não fizesse a mesma coisa quase sempre, porém achava inusitado logo ela falar algo daquele tipo. Para Fome, Luna era mais simpática, mas pelo visto ela parecia muito mais com outra pessoa bastante conhecida por ele.

— Fico pasmo com essa mania sua de me…

— Filha! — Florian foi interrompido por um chamado de Gabriel, desviando a atenção de Luna.

O arcanjo parecia apressado, apreensivo, ainda mais quando viu Florian ali. Ele se aproximou dos dois em passos rápidos, porém não apressados, e embora o garoto não notasse muita coisa, Luna notava, sabia ter algo incomodando seu pai. Fome até mesmo reclamaria pela intromissão, mas por motivos maiores não o fez. Até porque tinha sido Gabriel quem o ajudou no outro dia e tinha acabado de reclamar sobre ingratidão.

— Aconteceu alguma coisa? 

— Posso falar contigo um instante? É rápido. — Gabriel então olhou para Florian, franzindo os lábios involuntariamente. — Boa tarde pra ti.

— Está ótima. — O típico sorriso travesso estava ali de novo, fazendo o arcanjo querer afogar o menino em água benta.

— Vamos? — Ele olhou novamente para a filha, esta que concordou imediatamente e logo levantou.

Florian permaneceu ali, esperava ainda a resposta de Kai, sendo benéfico para Gabriel que torcia para o garoto não o seguir. Ao indicar para a filha que deveriam se distanciar um pouco, ela entendeu aquilo ser sério o suficiente para não ser dito em público porém tranquilo o suficiente para não sair correndo. Luna nada perguntou, permanecendo quieta até chegarem à residência de Eisheth. 

A loira não teve tempo de perguntar alguma coisa, antes mesmo de falar notou Eisheth já ali esperando os dois, de braços cruzados, provavelmente com um humor péssimo. Luna até mesmo podia dizer ser uma posição birrenta, contrariada, mas nunca imaginou aquela mulher dessa forma.

— A gente precisa que faça uma coisa. — Gabriel fechava a porta atrás dos dois. — Que entregue uma coisa.

— Como…

— Você é ridículo dando notícias. — Eisheth reclamou, revirando os olhos e então desfrutando os braços. A rainha foi até Luna, suavizando um pouco sua expressão facial. — Sim, precisamos, mas acho que deve primeiro saber de tudo e concordar.

— Sim, acho que sim. Aconteceu alguma coisa grave?

— Não tão grave assim. — Eisheth suspirou, movendo o rosto. — Pedi à minha filha para fazer uma coisa, ela foi, mas agora precisa de ajuda que magicamente apareceu por aqui. Nem eu nem seu pai podemos sair sem piorar tudo, então…

— Hórus e Ophis estão lá também. — Gabriel adiantou, ele sabia que ela perguntaria de uma forma ou outra. — Eles vão precisar disso aí. 

Com um movimento do rosto, o arcanjo indicou um objeto que estava nas mãos de Eisheth. Para Luna era totalmente desconhecido, achou até mesmo inusitado, pois podia reconhecer pelo menos o padrão da simbologia.

— Eu teria que ir agora, não é? — Luna suspirou com certo pesar, passando as mãos pelos ombros enquanto os encolhia por uma fração de segundo.

A resposta foi afirmativa.

— Tudo bem. Aonde?

— Lembra do Yelahiah? Aquele que veio visitar a gente quando você tinha…

— Lembro. — Luna interrompeu a fala do pai, de fato recordava do homem embora só o tenha visto duas vezes na vida. — É lá?

— Sim.

— Fácil então.

— Ela sabe ir e brotar que nem vocês fazem? — Eisheth olhava para Gabriel com as sobrancelhas erguidas.

— Aprendeu quando tinha 7, não me pergunte como. — O loiro ergueu as mãos, dando de ombros e emitindo uma risada seca.

__________

Após a cena presenciada ao lado de Hope, Lucille demorou pouco para processar parte dos acontecidos. Ligou alguns pontos, começou a ver vantagem em ter ficado ali mesmo não gostando. Sim, ela estava preocupada com a própria carreira, mas certos assuntos mereciam a atenção de sua parte súcubo e de sua parte curiosa. 

Estava indo procurar por Hope novamente, mesmo não tendo ligação alguma com a garota, precisava esclarecer algumas coisas mesmo que precisasse persuadir Elizabeth para falar algo mais. Sim, Lucille tinha certeza dela saber mais, e se Asmodeus estava comprometido, isso significava que a prole dele também estava.

Porém antes de achar Hope, pode avistar mesmo que de longe um dos focos de seu problema, Rafael e Anúbis, assim como o acordado com Metatron, sem supervisão alguma e sem nenhum ser infernal para defender o garoto. Se tudo fosse como o esperado… 

Barone respirou fundo, olhando ao redor. Não era de seu feitio ser caridosa com causas que não lhe diziam respeito, porém, seria uma chance ótima de agradar seu pai e livrar a pele dele ao mesmo tempo. Para sua felicidade, avistou Asmodeus em uma distância razoável, e ele estava com Josh. "Pelo menos perdeu o medo", ela pensou sobre o meio irmão. 

Isso admitia, Joshua havia evoluído em bastante coisa desde a chegada dos dois no local.

Lucille apressou o passo, chegando mais perto do pai e o puxando pelo braço para chamar atenção. Como esperado, Asmodeus a olhou alarmado, não era do feitio dela o tratar daquela forma.

— Você precisa vir comigo, agora.

— Liorit, não fale assim com…

Agora! O Rafael vai matar o pirralho!

— O que… — Joshua não pode terminar sua fala, antes disso Lucille já estava puxando Asmodeus. Por não saber o que fazer, Josh os seguiu.

Asmodeus não entendeu muito, porém o nome de um anjo envolvido nisso lhe era preocupante, ainda mais por poucos "pirralhos" realmente importarem tanto assim. Não demorou para chegarem à fonte, Barone ainda estava apressada para mostrar ao pai o que viria a seguir. Pela pressa dos dois, outros ao redor ficaram curiosos pela correria, prestando atenção na microrregião onde estavam. 

Para o alívio dela, e para o desespero de outros, no momento em que chegaram mais perto de onde o arcanjo ruivo estava, o corpo de Anúbis caiu ao chão. Asmodeus precisou segurar o ar por um momento, de olhos bem abertos. Definitivamente não era nada bom.

Por terem chamado atenção, mais pessoas se aproximaram, sem entender. Automaticamente Asmodeus caminhou a passos largos até onde Rafael estava, Lucille ao seu lado. Joshua ficou mais atrás, abismado demais para conseguir se aproximar, cobrindo a boca com a própria mão.

— O que você fez?! — Rafael estava atônito, voltando a pensar direito quando Asmodeus o empurrou. Mesmo encarando o arcanjo, o príncipe infernal pode notar Lucille ao chão com Anúbis, tocando o pescoço dele.

— Eu não…

— Você matou ele! — Lucille falou em um tom de voz bastante alto, acusativo.

— Ficou maluco!? — Outro empurrão vindo de Asmodeus, agora notando o brilho da lâmina ainda na mão de Rafael. — Você usou essa droga nele?

— Não, eu não fiz nada — Rafael tentou se defender, jogando a lâmina ao chão ao engolir em seco. Ele falava baixo, não havia entendido nada do ocorrido, estava longe de entender realmente. — Ele…

Asmodeus o empurrou mais uma vez. Por sua visão periférica podia notar outros vindo até eles, incluindo a mãe do garoto. Aquilo terminaria muito mal, ele sabia, nem mesmo os príncipes infernais se atreviam a mexer com as rainhas.

Foi quando notou a testa de Rafael começar a escurecer em linhas sinuosas, o arcanjo não parecia notar, apenas quando as linhas ficaram totalmente escuras e aparentemente arderam em sua pele. Asmodeus levantou uma mão em direção do ruivo, franzindo a própria testa ao reconhecer o símbolo formado. "Droga".

— Por… por que está marcado com o Olho que Tudo Vê?


Notas Finais


༐•ᄔ Críticas construtivas, sugestões e elogios são sempre bem-vindos!


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