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História Veredicto, interativa - Capítulo 39


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Notas do Autor


༐•ᄔ Na capa deste, Agrath, Rowan, Louise, Jimena e Belzebu

༐•ᄔ Boa leitura!

Capítulo 39 - Mantenha sua auréola firme


Fanfic / Fanfiction Veredicto, interativa - Capítulo 39 - Mantenha sua auréola firme

Kali estava terminando de enfaixar a perna de um gato, provavelmente seria seu último atendimento do dia, deu sorte de conseguir seu último estágio na clínica da própria universidade. Mais alguns meses ali e talvez já podia contar como emprego fixo após a formatura, era animador.

— Prontinho rapaz, não inventa de ficar pulando do teto de novo. — Kali mantinha a voz calma, entregando o animal no colo do dono. Era um caso peculiar, o gato havia pulado do telhado e o peso acabou por tensionar demais uma das patas traseiras. Resultado: uma torção feia o suficiente para danificar o osso.

O dono agradeceu, não era todo mundo que aceitaria de última hora. A facilidade em remendar a perna do bichano também foi surpreendente. Claro, não fazia parte de seu currículo, mas Kali costumava usar parte de seus poderes de cura para conseguir melhores resultados. Trabalhava muito bem, esse detalhe era apenas… brinde.

— Vai ter a festa de despedida da turma no sábado, deveria ir. — Uma colega comentou.

— Não posso, vou tirar o sábado pra finalizar minha monografia. — Provavelmente não ia, mas Kali não fazia a mínima questão de ir para aquele tipo de evento. — Chama a Maia, talvez ela queira ir.

— Eu ouvi! — Maia guardava alguns dos equipamentos esterilizados, começou a trabalhar ali como estágio não-obrigatório por estar alguns semestres atrás de Kali. Felizmente conseguiu se manter na parte de exames não invasivos, além do desenvolvimento de utilidades para as mais variadas espécies, afinal, não podia ver Kali fazendo um exame de sangue que passava mal.

— Não tenho culpa se entre nós duas a interessada nisso é você. — Kaur fez uma breve careta com bom humor, logo balançando a cabeça ao terminar de limpar sua bancada de trabalho.

Ao terminar de ajeitar tudo, já era perto de seu horário de almoço. Seria tempo o suficiente para poder comer em casa embora geralmente tinha o costume de almoçar junto de Maia no restaurante da própria universidade. Quando finalizou a organização, a atendente da clínica apareceu na porta do consultório, parecia assustada.

— Kali… tem um senhor aqui fora pedindo um horário.

— Só depois do almoço agora. — Kaur pegou sua bolsa, acenando para Maia já ser hora de irem. — Qual o caso?

— Ele tem um cavalo.

Kali franziu os lábios por um momento ao tentar processar a informação. Aquele lugar era o de animais de pequeno porte, animais maiores era em outro centro acadêmico.

Oi?

Não demorou para andar apressadamente até o salão da frente, paralisando ao passar da porta. Talvez tivessem mandado alguma mensagem para seu celular, mas havia esquecido o aparelho em casa, e ali estava Jano. Realmente com um cavalo.

— Você…

— Olha, eu odiei essa burocracia toda pra entrar aqui. — O loiro reclamava enquanto alternava o olhar entre ela e o equino. — Se é clínica veterinária, atende todos, não só cachorro e gato. O Pé de Pano ficou magoado cara.

Definitivamente havia detalhes ali que lhe despertaram a curiosidade, mas Kali sorriu inconscientemente. Deixou a própria bolsa em cima do balcão, logo andando de forma rápida e pulando no pescoço dele em um abraço. Jano ficou meio atordoado, mas achou o ato maravilhoso, assim ele tinha certeza dela não estar mais com raiva como no dia em que saiu.

— Idiota. — Ela comentou ainda mantendo o abraço apertado, notou ele rir baixo.

— Desculpa, vacilei duas vezes contigo e…

— Não foramduas. — Kali tinha um certo tom de repreensão na voz, logo afastando o corpo e olhando para o loiro. — Estou feliz que voltou, pra você quanto tempo foi? Quer dizer, sua mãe… você sabe que agora tem mãe né? Ela avisou que pra você seria menos e...

— Calma, calma, calma. — Jano gesticulava com as mãos, falava tão rápido quanto Kali. — Sim, eu sei, e tipo, foram dois dias só… achei que tava no lucro, você ia brigar menos comi…

Antes dele terminar a frase, Kali segurou na gola da camisa do rapaz e o beijou. Dessa vez o tempo de processamento da informação no cérebro de Jano foi menor, ele logo correspondeu. Ela não negaria ter ficado puta de raiva por toda aquela confusão, mas entendia que brigar com ele de nada serviria, não ainda pelo menos.

Separaram-se quando ouviram o relincho vindo do cavalo, só então Kali lembrou de perguntar o motivo dele estar na responsabilidade de um animal provavelmente mais sensato.

— Esse é o cavalo da Mor… da minha mãe. — Jano se corrigiu, ainda era estranho falar aquela palavra. Kali arregalou um pouco os olhos, cobrindo a boca com a própria mão. — Pé de Pano, essa é a Kali. Kali, Pé de Pano.

— Jano, que tipo de nome é esse? — Ela segurou o riso, olhando maravilhada para o animal, mas ainda incrédula dele passear por aí como se o cavalo fosse quase um cachorro.

— Branco do casco preto, eu achei parecido. — Um relincho, Kali não soube dizer se era de aprovação ou não. — Sim, ele entende o que a gente diz, não sei como.

— Isso é incrível! — Kali manteve o olhar no equino, para alguém da sua profissão aquilo era quase um milagre, fora a parte do animal estar vivo provavelmente desde que a vida começou no planeta.

— Não acredito! — Ouviram Maia exclamar, ela também tinha um sorriso no rosto ao passar pelo balcão.

— Tá fazendo o que aqui? — Jano perguntou com uma careta, logo também abraçando a loira enquanto notava Kali conseguir afagar a cabeça de Pé de Pano.

— Eu trabalho aqui, seu desocupado. — Ambos riram, dando um abraço mais breve porém igualmente animado. Maia notou a presença do cavalo também, mas realmente preferia nem perguntar para não ficar ainda mais atordoada.

— Vocês dois vão almoçar comigo hoje. — Kali tinha a voz firme, ainda dando atenção para o cavalo. — Você vai descrever cada detalhe disso tudo, Jano.

__________

Para conseguirem fornecer o mínimo de conforto para os convidados, transformaram uma das arenas de treinamento em uma sala enorme de reunião. Havia andares para facilitar a visibilidade de todos, não que fosse tão útil, em pouco tempo metade das pessoas ali já estaria de pé e gritando. Era como um teatro enorme, felizmente coberto, assim a acústica ficava melhor.

Faltava pouco tempo para tudo começar, Ophis e Luna provavelmente estariam em um lugar péssimo caso ninguém tivesse guardado para elas. Porém, a atenção das duas estava um pouco longe, Luna falava para a djinn sobre o cavalo, e a morena estava muito interessada naquele assunto.

Minha querida filhinha! — Ouviram ao chegar perto da entrada da arena, Ophis paralisou. Não deu nem tempo de olhar para o lado, já sentia as mãos de sua mãe apertando as bochechas, dando um pulo para o lado pelo susto.

— Tá maluca?! — Ophis franzia o resto, incrédula por Luna ter começado a rir. — Tá fazendo o que aqui, Aisha?

— Aisha não, mamãe querida. — A mulher a corrigiu, erguendo o dedo indicador. — Cadê seus modos Ophis? — Então Aisha virou o rosto para Luna, acenando animadamente. — Oi pra você também coisinha fofa.

— Bom te ver de novo. — Luna tentou ser simpática, mas isso só fez Ophis fechar ainda mais a cara.

— Não, não é bom. O que veio fazer aqui?

— Você acha mesmo que eu perderia um evento como esses? — O olhar da djinn mais velha foi de escárnio, agora já não tinha tanta animação na voz e sim seriedade. — Muita coisa vai acontecer aqui.

Ophis ergueu uma sobrancelha ao olhar para a própria mãe, estreitando os olhos.

— Você sabe de alguma coisa.

— Sei.

— O quê? — Luna quem perguntou, ficando mais próxima de Ophis e alternando o olhar entre as duas de forma preocupada. Ophis havia explicado sobre certas visões, eram sempre fragmentos.

— Um príncipe vai ser acusado hoje.

— Quem? — A pergunta saiu quase no automático, um em específico era quem importava para Ophis.

— Não sei. — Aisha negou com a cabeça,  suspirando em desânimo. Era sinal dela já ter tentado ver mais alguma coisa, mas não lhe foi permitido ter acesso. — Sei que vai ser coisa grave, por isso também estou aqui, não quero que seja logo o meu.

Seu?

— Às vezes esqueço que você tem tão pouca consideração por mim que não vai me visitar e vive desinformada. — A djinn mais velha revirou os olhos. — Seu quase padrasto, Leviatã.

— Que nojo, Aisha.

— Não fale assim. — Luna pediu calmamente, olhando para Ophis.

— Escute a anjinha, não fale assim, deve respeito à ele também.

— Você tá aqui pra fofocar e salvar seu amante. — Ophis franziu o cenho, balançando a cabeça enquanto erguia uma mão. — Isso se for ele o condenado.

Dessa vez Aisha riu discretamente, havia alguma coisa a mais ali. Luna olhou para a mulher como se pedisse pela informação que faltava.

— Aqui está minha aposta. — A djinn falava mais baixo, aproximando-se da filha e da nora. — Anjos podem condenar quem quiser, e até onde sei, quatro dos príncipes já foram lá de cima.

Uma pausa, quatro. Nem todos os príncipes eram tão abertos assim, e pelas informações públicas, apenas sabiam sobre dois deles e um desses dois estava desaparecido. Lúcifer e Leviatã eram as apostas óbvias dela, os outros dois era impossível de saber sem antes assistir o que quer que fosse o show daquele dia.

— Então estão de olho neles quatro, já que os outros sempre foram seres infernais e por isso mais fracos? — Luna falou com certa tranquilidade apesar da dúvida. Em uma situação qualquer, soaria bastante preconceituosa aquela afirmação.

— Exatamente. — Aisha sorriu falsamente, olhando ao redor por um instante. — E eram de hierarquias altíssimas, do contrário todos saberiam quem são já que na era dos arcanjos tudo foi explicitado.

Luna assentiu, Ophis se manteve apática. Não poderiam simplesmente sair avisando sem ter certeza alguma, começariam uma briga antes mesmo de alguém ser indiciado e isso sim levaria a um exorcismo em massa. Estava fora de cogitação.

— Agora preciso entrar, daqui a pouco iniciam.

Aisha beijou a cabeça da filha da forma irritante a qual sabia que Ophis odiava. Fez o mesmo com Luna, mas a loira não achou tão ruim assim. Aquele lugar estava começando a ficar muito mais perigoso que o previsto. Ophis então suspirou, falando antes da mulher se afastar demais.

— Mãe, se cuida.

A djinn mais velha apenas assentiu, preferindo não comentar nada a mais por precaução.

__________

A barriga já estava bem mais aparente, era meio incômoda principalmente pelas várias camadas de roupa que passou a usar. Eisheth estava consideravelmente mais cansada, isso era inegável.

— Você deveria ir.

— Não posso, não assim. — Eisheth olhava para Morte com seriedade, sabia que a mulher estava certa.

— E se caso precisar?

— Deixei acordado com Asmodeus e vou dizer que o filho é dele.

Morte a olhou com incredulidade, sabia da possibilidade de acreditarem naquela desculpa ridícula era enorme, principalmente por ser algo muito esfarrapado. Porém aqueles que conheciam a rainha não acreditariam em nada. Ao lado delas, Louise dormia tranquilamente na cama da rainha, a menina já sabia sobre a existência do mais novo primo.

— Ninguém vai acreditar na ideia de você transando com um demônio, Eisheth.

— O que impediria?

— Você nunca gostou desse tipo desde que eu te conheço, mais fácil dizer que o Gabriel fez isso.

— Aí não acreditariam é nele comigo.

Morte suspirou, isso também era verdade embora fosse mais fácil de explicar por já sentir uma aura angelical vinda do útero dela. Ambas deveriam ir à convocação geral, mas estavam adiando isso para poder passar menos tempo por lá. 

Batidas na porta, um dos servos de Eisheth a entregou um envelope, logo retirando-se. Felizmente os servos restantes em seu domínio eram confiáveis o bastante, estavam ali há pelo menos quatrocentos anos. Outros um pouco menos. O envelope entregue parecia feito à mão, antiquado, mas obviamente uma piada pela carinha “=D” feita com caneta na parte de fora.

Eisheth fez uma careta, abrindo o papel e notando Morte afastar-se por um momento, os olhos fixos ali. Ela havia sentido alguma coisa.

Ansioso para reencontrar meus amigos do peito” estava escrito na parte de trás de uma das fotos, e ao virar o papel, notou ser uma fotografia de quando o acordo geral foi feito. Não exatamente de todo o grupo, mas de um tempinho antes de começarem os acordos quando todos ao menos fingiam tolerar uns aos outros. Ali estavam Guerra, Fome, Miguel, Lúcifer, Aaba, Lilith, a própria Eisheth, e Belzebu. Havia um coração feito com caneta vermelha circulando Miguel e Guerra que estavam lado a lado, Eisheth bufou.

— Filho da puta.

— Ele quer alguma coisa lá.

— Ele acabou de afirmar que sabe de tudo! — Eisheth jogou o papel ao chão com força, sua voz consideravelmente exaltada. — Se ele sabe então estava com o Metatron quando prenderam o Miguel.

— Você não pode provar isso.

— Eu sei. E ele sabe que isso é o álibi… — A rainha parou por um momento, respirando fundo, olhando para Morte com os olhos estreitos. — Guerra nos odeia como seres que respiram, por que se juntaria com o Metatron pra alguma coisa?

— Como um peão, talvez. Um bastante manipulável.

— O que ganharia com isso?

Morte tinha uma breve noção, seria melhor não dizer isso, não ainda, não iria acusar Guerra de algo que não tinha certeza sem antes ter mais informações sobre os últimos passos do irmão.

— Miguel vai ficar quieto, eu acho, vai proteger o Anúbis por agora. — A cavaleiro começou, sua voz parecia um tanto analítica. — Se você for, ele vai, e isso seria um prato cheio.

— E se eu não for, nem Deus saberia o que esse maníaco pensa em fazer.

Eisheth já parecia alterada, odiava se irritar tão facilmente daquele jeito. Respirou fundo várias vezes, olhando com certa raiva para a foto. Pior que tinha ficado bonita naquele retrato mesmo a câmera sendo antiquada, isso reconhecia, Guerra escolheu uma foto muito boa. Cretino.

__________

Ao entrarem ali se sentiram em um tipo complexo de feira, Joshua também compararia a um evento geek de proporção enorme por metade parecer estar usando fantasias pré-fabricadas de alta costura. Exceto pelo fato de não ser fantasia e sim partes orgânicas de um corpo vivo. Ao seu lado, Adiva parecia tão maravilhada quanto ele, já Simon parecia um tanto incomodado por ser bastante comum para ele aquele tipo de gente.

Havia uma separação não intencional de lugares, de alguma forma seres divinos e infernais se dividiram em cada metade do lugar, além de existir algo como uma área VIP para os seres mais importantes. Sete cadeiras para o lado demoníaco, uma bancada com bancos interligados para o lado angelical. Além destes lugares, havia uma terceira bancada, dessa vez com apenas quatro cadeiras que nem sempre eram utilizadas, mas deveriam estar ali. Seus donos não eram exatamente os mais comprometidos com eventos sociais. Como nem sempre as rainhas compareciam a esse tipo de evento, seus assentos eram colocados apenas se estivessem presentes, situação não muito bem aceita pois mais da metade daquelas pessoas tinham medo das quatro. Naquele dia, três delas estavam ali.

Meu Deus. — Josh disse em um sussurro.

— Pra constar, pra gente como a gente é quase heresia falar isso. — Simon comentou, não era uma repreensão. Achava adorável da parte de Josh ser apegado aos velhos costumes. — Eu entendo.

Josh assentiu, logo avistando Asmodeus, acenando para chamar a atenção do príncipe. O homem de imediato deixou seu assento dentre as cadeiras infernais, indo até o filho. Parecia aliviado por ver o garoto ali.

— Até que enfim você chegou. — Asmodeus segurou a cabeça de Joshua pelos lados, olhando para o filho por um momento para firmar que ele estava ali. — Fique perto de Arabella logo atrás de meu assento, é melhor. Você também pode ficar por lá Simon.

— Obrigado, vou ter que guardar canto pra minha mãe também, eu acho, senão ela me come no grito. 

Asmodeus riu pela forma do menino falar, se bem conhecia Aaba, ela faria isso mesmo. Mais atrás dos dois, o príncipe notou certa figura que parecia estar desviando o olhar e procurando por alguém. Moveu a cabeça em direção do anjo como quem perguntava quem era, não lhe parecia estranho.

— Ah, pai, esse é o Yelahiah. — Josh comentou já virando o corpo. Asmodeus estreitou os olhos, já Yelahiah pareceu arregalar ainda mais. — Você já deve até conhecer, foi mal, mas ele tá procurando o Gabriel, tem como ajudar?

— Seu pai? — Adiva parecia animada, detalhe esse que fazia o anjo querer enfiar o rosto no chão. A menina tinha um sorriso no rosto, estendendo a mão para o príncipe. — Prazer, senhor. Nunca conheci um de vocês antes.

— Prazer é todo meu. — Asmodeus retribuiu o ato educadamente, ao seu lado, Simon estava de braços cruzados e olhos estreitos, alternando o olhar entre eles. — A forma masculina lhe caiu bem, Yelahiah.

— A gente precisa inovar, não é mesmo? — O sorriso do anjo parecia nervoso embora o bom humor usual estivesse presente. — Vamos Adiva, temos que achar seu tio.

— Como assim forma masculina? Você já foi mulher? — A pergunta da menina fez Yelahiah sorrir novamente, dessa vez não tão disposto. Isso renderia muitas perguntas da menina posteriormente, ele não estava muito animado em responder.

— Depois te conto essa história. — O anjo já segurava nos ombros da filha, puxando ela para o lado e se despedindo de Asmodeus, Josh e Simon com um aceno de cabeça. Definitivamente não esperava ter que falar diretamente com certo príncipe. — Olha o Gabriel ali.

Adiva não teve tempo de falar outra coisa, apenas acenou para o trio deixado para trás enquanto ia com o pai até o arcanjo loiro. Achou esquisito, mas logo tirou aquilo da cabeça quando sua atenção foi desviada para as várias outras pessoas ali que nunca nem sonhou que iria conhecer.

Realmente Gabriel havia acabado de chegar ao lugar, estava acompanhado de Hades e Hope, ambos os mais novos estavam atordoados por toda aquela gente junta então se juntaram ao arcanjo para evitar se perder. No caso de Hope, para evitar Metatron.

— Quase que não te acho, parece até que anda se escondendo. — Yelahiah comentou ao chegar mais perto, Gabriel não pode evitar rir um pouco.

— Problemas familiares. Jano voltou hoje.

Hoje?! Realmente essa galera gosta de surgir quando a coisa tá pegando fogo, Nossa Senhora.

— Ele está aqui? — Adiva tinha certa curiosidade na voz, Gabriel a abraçou como forma de cumprimento. — Nunca conheci.

— Foi procurar a Kali, não sei se volta vivo, mas provavelmente não vem hoje. — Gabriel tinha bom humor na voz, estava feliz, mas achou o filho bastante estranho de certo modo. — De qualquer forma, Adiva, esses são Hades e Hope, meus sobrinhos praticamente.

A dupla mais atrás acenou cordialmente, já Adiva acenava em retribuição com as duas mãos. Ao seu lado, Yelahiah parecia intrigado.

— Por parte de quem?

— Lúcifer, Metatron. — Gabriel comentou ao indicar quem era quem.

— Oh tadinha. — Yelahiah recebeu um olhar repreensivo do arcanjo, mesmo que Gabriel concordasse. Adiva arregalou os olhos e cobriu a boca com a própria mão, se fosse ela falando com certeza levaria uma bronca, já Hades riu de forma mais aberta.

— E eu achando o meu ruim. — Morningstar comentou, tentando controlar o riso.

— Não que não seja, garoto, Lúcifer era um porre, mas ela me lembrou nossa irmã. — Ele chegou mais perto de Hope, pedindo permissão com o olhar para tocar o rosto da menina, virando-o algumas vezes. — Realmente lembra muito. Certeza que veio daquele crápula?

— Que irmã? — Apesar de até querer rir pelo comentário anterior, a menção de alguém a fazia preocupar-se, e isso trouxe de volta à sua mente a conversa que teve com Rowan alguns meses antes.

— Jofiel. Que o Pai esteja cuidando daquela maluca onde estiver, era tão fofa quanto esse daí. — Yelahiah indicou Gabriel com um movimento da cabeça, o loiro revirou os olhos. 

Ao se afastar de Hope, Gabriel indicou para os três mais novos irem procurar lugares, provavelmente ficariam perto de Ophis e Luna, eram os rostos conhecidos mais próximos e também mais neutros. Por um momento, Hope teve a esperança de encontrar Verena ali, e realmente a achou, porém o olhar de desprezo vindo da ruiva foi o suficiente para entender que já não eram tão próximas assim. Um ano antes havia ido conversar com a ruiva para explicar tudo ouvido por ela e por Lucille, acha justo Verena entender os detalhes e assim talvez não se afastar tanto de Rafael. Não foi tão eficaz quanto o planejado.

— Tem coisa, não tem?

— Obrigado por vir. — Gabriel abraçou Yelahiah, aliviado. O ato foi retribuído. — Vai ter muita falta hoje.

— Te odeio por me meter nessas coisas. — Yelahiah bagunçou brevemente o cabelo do arcanjo.

— Miguel não está aqui, Rafael não vem, Uriel… você sabe. Não vou ficar lá sozinho no meio dos serafins de jeito nenhum.

— Como se eu tivesse alguma moral com algum deles.

— Também não tenho.

— Somos um fiasco, Gabriel.

— Eles estão contando com isso. — O olhar preocupado do arcanjo foi explícito. — Ao menos em dois podemos tentar ter uma forcinha.

__________

Quando colocaram os pés dentro do Éden, a reação da dupla foi de desgosto. Deveriam avisar, mas se o fizessem, provavelmente chamariam atenção demais e isso estava fora de cogitação. Normalmente Viper não diria nada, apenas deixaria acontecer, mas seu pescoço estaria na guilhotina caso assim o fizesse. Ele e Jimena tentaram passar despercebidos pelas pessoas ainda fora da arena, conseguiram, mas foi só colocar o pé dentro daquele lugar que notaram ter sido uma ideia estúpida.

Demônios menores agora os conheciam, e dessa vez, o sorriso de desgosto de Viper divertiu Jimena o suficiente para conseguir manter a calma. Ao longe avistaram os próprios pais lado a lado, ambos com a mão no queixo e falando baixo alguma coisa que com certeza estava dando dor de cabeça nos dois. Nada de novidade, realmente novo seria se soubessem sobre a invasão do cofre. 

Viper avistou logo atrás deles dois dos irmãos, não era novidade Lucille não estar ali. Estranho seria se tivesse, havia um tempo desde que tivera notícias da irmã gêmea. Seguiram caminho, e antes de Belzebu ou Asmodeus notarem os filhos ali, Jimena notou o olhar da mãe sobre si. Agrath estava na bancada das rainhas junto de Lilith e Nahemah, e sabia se a menina estava ali então havia algo errado, e bastou um olhar dela para o marido para Belzebu receber uma alerta silencioso. Jimena nunca conseguiu entender realmente como era a ligação entre os dois, mas sabia existir e ser forte.

As feições de Belzebu e Asmodeus ficaram rígidas ao finalmente notarem os dois, acompanharam com o olhar o trajeto feito da entrada até atrás dos tronos dos príncipes, tentaram não parecer tão alarmados para não chamar atenção, ou pelo menos fizeram o melhor que podiam.

— Cadê meus irmãos? — Jimena foi a primeira a tomar a palavra, Viper preferiu ficar mais atrás, praticamente de vigia. Sua paranóia cotidiana fazia seu medidor de perigo interno praticamente explodir estando naquele lugar.

— Zek vai ficar do lado da sua mãe, deixamos Louise com sua tia, ela disse que não ia vir.

— Melhor assim. — A morena concordou, alternando o olhar entre os dois. — Tomem cuidado.

— Por quê? — Asmodeus franziu o cenho, lançando um olhar desconfiado para Viper também.

— Escute. — Barone moveu a cabeça em direção de Jimena, por um momento Asmodeus se sentiu ofendido pela imperatividade implícita na voz do filho.

— Eles têm algo contra vocês e talvez contra os outros príncipes, então só tomem cuidado. — Jimena tentava manter a voz tranquila, nessas horas invejava a frieza de Viper, deveria ser ele a estar contando aquilo.

— O que vocês sabem? — Belzebu estava levemente nervoso.

— Os cofres foram saqueados e os sentinelas exorcizados. — Viper comentou tranquilamente, Jimena assentiu, enquanto os dois príncipes quiseram quebrar seus tronos ao meio e jogar em alguém.

— Ele conseguiu usar as armas guardadas para matar dois anjos que ficaram para terminar o serviço no Edom, mas já não tinha metade. 

Os dois príncipes se encararam por um momento, se chegaram às armas então já haviam visto itens mais valiosos e que colocariam uma corda no pescoço dos dois.

— Fiquem no topo na arquibancada, se formos pegos, não podem chegar a nenhum dos dois. — Asmodeus praticamente ordenou, recebendo acenos afirmativos. — Saraph, não me decepcione.

Viper entendeu a ordem implícita para não ser um incompetente, nada de novo vindo de seu pai. Belzebu fez uma careta ao ouvir aquilo, beijando a testa da filha e indicando para irem logo. Assim o fizeram.

Enquanto subiam, ambos pousaram o olhar em duas figuras que os encaravam de formas distintas. Viper preferiu ignorar, continuando a subir, mas parou ao notar não estar mais acompanhado. Respirou fundo, sua vontade era de pegar a mulher nos braços e subir de qualquer jeito.

Você? — Quem falou foi Ophis, olhava para Jimena com a testa franzida.

— Surpresa? — O tom cínico de Jimena fez Ophis endurecer a expressão facial. A djinn se colocava entre a mulher e Luna, esta olhando para as duas bastante confusa.

Jimena notou certa proteção ali, entendendo parcialmente a situação ali quando viu Luna usando um colar bastante familiar, Ophis o tinha desde séculos antes, raramente deixava alguém chegar perto.

— Cuidado com essa cobra, loirinha, ela tem mania de iludir alguém por meio século e depois jogar fora. — Jimena tinha um sorriso quase simpático, não desviando o olhar de Ophis.

— Não faço mais aquilo, Jimena… — Ophis sabia ter culpa, mas não agia mais daquela forma. — É passado.

— Será mesmo?

— Não pode me julgar quando está na companhia de alguém muito pior.

— Pelo visto a língua continua tão afiada, como sempre. — Jimena revirou os olhos, logo notando também Hades e Hope a olhando. Ambos estavam ao lado de Luna na mesma fileira. — Ah, oi cunhadinha. Bom dia pra vocês.

Ophis preferiu não responder, sabia sobre Jimena ser tão maluca quanto Agrath em certos aspectos. Viper agradeceu internamente pela mulher resolver ir, mais um pouco e realmente teria ido até ela e levado pela mão como uma criança. Para a djinn, era uma péssima hora para rever velhos conhecidos.

— Aquela era…

— Irmã mais velha do Zek. — Ophis comentou, mesmo com certo desgosto. — Depois eu explico.

— Viper aqui também foi legal.

— Aquele cara é maluco Luna. — Hades comentou com a testa franzida. Ophis tinha que concordar com o irmão.

— Os dois são.

__________

Fome andava de um lado para o outro inquieto, isso estava definitivamente irritando a Peste. Ele tinha um copo de milkshake em mãos, estava quase acabando, e isso gerava um barulho irritante causado pela sucção do canudo. Talvez estivesse fazendo de propósito.

— Para.

— Cadê o Guerra?

— Me atormentar com esse canudo maldito não vai fazer ele vir mais rápido.

Ele olhou para a irmã, entediado em estar ao lado dela. O olhar de desprezo vindo dele era de cansaço em não fazer nada. Fez barulho novamente com o canudo, deixando explícito ser proposital. Peste segurou o irmão pelo pescoço, erguendo-o do chão e cravando os dedos na pele ressecada do menino, fez o local de contato automaticamente entrar em putrefação, Fome amava a própria garganta.

— Eu mandei parar!

— Tão cedo pra essa violência. — Ouviram a voz bem humorada do irmão, Peste não soltou o pescoço de Fome. — Larga ele, vocês me estressam quando ficam sozinhos.

— Ou quem sabe eu largue depois…

Fome encarou a irmã como quem dizia “só tenta”, ela odiava aquele tipo de comportamento e ele sabia disso. Guerra revirou os olhos, bufando e apartando os dois com um impulso vindo literalmente do nada. Como uma bolha de força minimamente tangível. Peste rosnou para Guerra ao notar o ato.

— Tão me achando com cara de Morte pra aturar briguinha dos dois? Façam-me o favor. 

— Você demorou, seu corno.

— Estava escovando as patas do Ares, felizmente me preocupo mais com ele do que com você. — Fome até quis retrucar, mas Guerra ignoraria novamente, como sempre.

— Não vai precisar do cavalo. — Peste resmungou, claramente também irritada pela demora dele.

— Acha mesmo que não?

Nenhum dos dois respondeu, ainda encarando um ao outro enquanto Guerra terminava de arrumar a gola de sua camisa social, olhando-se no espelho. Não demorou tanto ali, dando sinal positivo para irem. Mais uma vez, chegariam alguns minutos atrasados.

Em um piscar de olhos os três estavam na entrada da arena aonde todos se reuniam, e pelo barulho não estar tão alto, já deviam ter começado as apresentações. Como sempre, termos de conduta eram lidos no início, desperdício de tempo, nunca eram respeitados. O anjo não chegou nem à metade dos termos, o olhar de todos estava no trio. Principalmente no fato de ser um trio entrando e não um quarteto, como sempre ocorreu.

— Posso ficar na cadeira do meio? Assim parece que vocês são meus subordinados. — Fome comentou baixo enquanto caminhava ao lado dos dois irmãos. Ele carregava uma bolsa térmica de 4 litros com alguns copos de milkshake extra, também tinha um em mãos.

Guerra não era maluco de deixar Fome ao lado de Peste embora gostasse muito de ver a surra entre os dois. Apenas não era hora, quem sabe depois. Era sempre emocionante chegar ligeiramente atrasado para ver o olhares direcionados a si, felizmente não era só ele quem gostava, Fome dava breves acenos para alguns, ele tinha certeza desse alguns serem pessoas com alta vontade de meter a faca em seu irmão. Peste correu os olhos pela platéia por um segundo, não achou quem queria.

Ao sentarem em seus respectivos lugares, Fome ficou de pé em cima da cadeira, olhando ao redor e procurando por pessoas em específico. Dos 4 procurados, apenas achou uma. Acenou para Luna, esta não tinha uma expressão muito amigável para ele. Uma pena, ele gostaria dos sobrinhos reunidos naquele momento especial.

— Ah não, não parem por nossa causa, continuem. — Guerra gesticulava com uma mão em indiferença, passando rapidamente os olhos ao seu redor imediato. Achou curioso seu cunhado estar ali e sua irmã não.

Mesmo com a maioria tensa depois da chegada deles, o itinerário continuou. Acordos e mais acordos foram lidos e discutidos, principalmente discutidos. Nada de muito interessante ou digno de atenção redobrada. Na bancada angelical Gabriel e Yelahiah pareciam profundamente entediados, quase dormindo de olhos abertos. Isso gerou algumas risadas da parte de suas proles, estas obviamente até mesmo registraram com foto.

Todos começaram a opinar mais quando a sessão de reclamações começou, aí sim concordavam ser mais animado. Anjos e demônios de todo o mundo poderiam oferecer a opinião em alguma coisa, geralmente sempre envolvia desigualdade de espécie. Todos discordavam com todos, basicamente. O anjo responsável pela recepção das questões era Raziel, já o príncipe era Leviatã. As rainhas eram chamadas caso envolvesse seus territórios, em sua maioria envolvia, e Lilith já havia xingado todos ali pelo menos três vezes. Agrath só havia xingado uma vez, mas ameaçou Raziel e quase tacou fogo na cara de Leviatã. Nahemah estava incrivelmente mais tranquila. 

No meio da gritaria, Fome havia acabado todo seu estoque de milkshake, pedindo licença para buscar mais.

— Certo, certo, antes que o carbonizado seja eu… — Raziel tentava acalmar os ânimos, e por algum motivo estava achando estranho os serafins tão quietos naquele dia. — Temos aqui… Verena Benedetti, filha do Rafael, que infelizmente não está entre nós neste momento, e de Lilith.

Raziel olhou ao redor, esperando a ruiva subir no local indicado. A presença dela ali fez alguns ficarem inquietos, principalmente aqueles que a conheciam, assim como Metatron também endireitou a coluna. Lilith parecia confusa com a presença da filha ali.

— Comece. — Quem deu a permissão foi Leviatã.

— Obrigada. — Verena mantinha o queixo erguido enquanto falava. — Estou aqui hoje para pedir justiça da parte de vocês para o ocorrido com meu pai.

Pela primeira vez naquele dia o silêncio reinou naquele ambiente. Todos sabiam sobre o ocorrido com Rafael, quem fez e o motivo. Leviatã quis rir, mas se conteve em respeito à garota, o príncipe definitivamente não era imparcial em questões ligadas às rainhas por serem as criaturas mais parecidas com ele. Raziel acenou com a cabeça, indicando para ela continuar.

— Eu sei que o motivo do ataque é válido, era uma criança, mas quero perguntar sobre o que pensam da impunidade dos envolvidos. Quer dizer, voltamos à era do olho por olho, dente por dente? Ele pode ser desmembrado e a autora disso sair andando como se nada tivesse acontecido? E quanto a quem sabia?

— O que quer dizer com “quem sabia”? — Nesse momento o olhar de Raziel estava fixo nela, analítico, ao seu lado Metatron parecia um pouco mais inquieto, assim como as outras pessoas daquele lugar.

Na plateia, Hope estava nervosa, isso pode ser notado por aqueles ao seu lado. Ao longe, ela olhou para Rowan, ele sabia muito bem qual seria o desfecho daquilo se Verena continuasse.

— Antes de tudo acontecer, duas pessoas ouviram a conversa entre meu pai e o cabeça de toda essa situação, mas em vez de espalharem o que ouviram, ficaram caladas. Se tivessem dito algo, nada teria acontecido ao Anúbis, já que são tão rápidos em tomar decisões drásticas nesses momentos.

— E esse “cabeça”, quem seria? — Leviatã tinha uma sobrancelha arqueada.

— Pela minha própria proteção, e por estar presente nesse recinto, melhor não dizer. Acho que as duas cientes da conversa na íntegra podem explicar melhor. — Verena tinha um sorriso cínico na voz.

— Você sabe que essa é uma acusação muito grave para apontar nomes, não sabe?  — Raziel tinha o tom de voz firme.

— Duas acusações, meu filho, uma pras mudas que ficaram caladas e outra pra minha irmã que nem está aqui para se defender. — Leviatã retrucou, batendo uma mão na bancada.

— Ninguém aqui pode julgar ela por querer destroçar quem tentou matar o filho. — Yelahiah levantou a mão ao falar. — Sendo só peão ou não.

— Muitos outros filhos nossos já morreram, é verdade, mas se fôssemos nós a atacar um anjo seríamos exorcizados na mesma hora, não? — Asmodeus unia as mãos enquanto se pronunciava, entrelaçando os dedos. — E atacar o filho de um irmão…

Nesse momento a atenção de todos foi para Fome, este entrava novamente no salão com dois copos de algum tipo de bebida gelada e sorvete. Aonde havia arranjado aquilo ninguém sabia, nem fariam questão de perguntar.

— Isso é uma questão de…

— Isso é uma questão dele saber muito bem quem ela era e o que poderia fazer. — Agrath interrompeu a fala de Metatron de forma firme. — Eu mesma não teria deixado aquele idiota vivo se tocasse em um filho meu.

— Então está dizendo que concorda com um crime? — Metatron estreitou os olhos, Agrath apenas riu.

— Estou dizendo que você mesmo quase mata seu bastardo pensando que ele tinha alguma coisa a ver com a morte do seu caçula. — A acusação da ruiva repercutiu pela platéia, e nesse momento Simon engoliu em seco, não era mentira. O garoto por um momento agradeceu sua mãe não estar ali para ouvir aquelas palavras. — Não pode julgar minha irmã por ter feito o que fez.

Por um momento Metatron pareceu tremer de ódio, a menção do bastardo era como uma mancha em sua reputação. Belzebu nesse momento olhou com preocupação para a esposa, sabia dela estar instigando Metatron de propósito e aquilo não acabaria bem. Da bancada dos Cavaleiros, o trio parecia entretido.

Os nomes. — Raziel voltou a olhar para Verena. — Isso será averiguado com cautela.

— Hope Elizabeth e Lucille Barone.

O espanto foi geral, principalmente para aqueles mais próximos das duas citadas. Ambas eram bastante conhecidas por aqueles da mesma espécie. Metatron bufou, o olhar de ódio era explícito. Já Hope olhava para Verena com certa mágoa, ela tinha tentado ajudar, e agora é acusada. Das rainhas, Lilith e Nahemah estavam boquiabertas, Agrath já sabia daquele detalhe.

Os príncipes pareciam curiosos, menos Asmodeus e Belzebu, isso seria bem complicado. Asmodeus passou uma mão pela testa, lembrava muito bem de Lucille ser quem o chamou para ver o ocorrido entre Anúbis e Rafael. Ouviram então palmas pausadas propositalmente, Guerra tinha um sorriso de orelha a orelha.

— Pelo que consta… — Dessa vez até mesmo Raziel parecia atordoado, expirando antes de continuar. — As duas irão para julgamento. Leviatã?

— Hope já está aqui, mandaremos buscar a senhorita Lucille imediatamente e estará aqui ao fim desta reunião. — Leviatã parecia ainda menos animado ao falar aquilo, indicando para dois de seus servos buscarem Hope no assento onde ela estava. — Alguém contra?

Ninguém se posicionou, mesmo que quisessem. Rowan até quis intervir, mas recebeu um olhar de sua mãe amedrontador o suficiente para ficar quieto atrás dela. Se tudo seguisse corretamente, Hope e Lucille sairiam ilesas, qualquer intervenção jogaria tudo no lixo. 

Elizabeth não teve reação, estava anestesiada pela ideia de logo Verena fazer aquilo. Permaneceu calada enquanto a levavam em custódia, seu silêncio foi o detalhe mais preocupante para aqueles que se importavam com a garota.

— Muito bem, obrigado por sua ajuda. — Raziel comentou, indicando para Verena retirar-se. Aquilo seria ruim, muito ruim. Suas várias centenas de anos não ajudavam no processamento de surpresas como aquelas. Por um momento o homem olhou para nenhum ponto específico e ao mesmo tempo certeiramente. Tinha o olhar em uma figura no canto superior passada despercebida por qualquer um que não soubesse quem era. No fundo torcia para Lúcifer ali ser útil em ao menos bolar um plano para a próxima notícia. — Próximo, e último por hoje pelo amor do Pai… Metatron?

— Obrigado. — O sorriso do serafim era de satisfação e ódio, e isso preocupou principalmente os seres infernais. Todos os ataques daquele homem eram direcionados à população do inferno, quase nunca venciam. — Assim como a híbrida, tenho uma revelação a fazer.

— Sua índole podre? — Quem comentou foi Fome, gesticulando com sua mão que segurava a colher a qual comia seu sorvete. Muitos teriam rido, mas não ocorreu pela tensão do momento, e até mesmo Metatron não se deu o trabalho de responder.

— Ai meu santo Satã. — Leviatã resmungou com tom de escárnio. — Vai logo, qual a bomba da vez?

Mais acima, Ophis procurou sua mãe com o olhar. Quando a achou, moveu a cabeça como se perguntasse se seria agora, Aisha assentiu. Ainda mais acima, Viper permanecia de braços cruzados e recostado na parede enquanto ao seu lado Jimena cobria a boca com as mãos, apreensiva. Antes de Metatron começar a falar, o anjo e a demônio responsáveis por buscar Lucille surgiram ao centro entre as quatro bancadas, segurando Barone pelos braços enquanto ela tentava se soltar a todo custo. Gritava com os dois, ambos irredutíveis mesmo achando toda a situação absurda.

Quando Lucille pôs os olhos no pai, paralisou. Ofegava, com os olhos bem abertos, Asmodeus nada disse, apenas moveu a cabeça indicando para ela não resistir. Lucille queria confiar no pai, mas com toda aquela gente ali duvidava muito ser algo de fácil resolução.

— Levem-na. — Raziel foi firme, recebendo confirmação de Leviatã.

Apenas quando já estavam fora da arena, Metatron teve permissão para continuar falando. Junto de mais dois serafins, Jeliel e Elemiah, trouxe até o centro um objeto coberto em panos escuros e delicadamente enrolado com cuidado e delicadeza. Era grande, e ao colocarem ao chão, os dois serafins ficaram um de cada lado como se fossem vigias.

— Vocês bem sabem como todos nós possuímos nossas identificações diferenciadas de humanos. Eles possuem suas digitais, já as nossas? Nossas asas. — Não podiam negar Metatron ser um exímio palestrante. — Assim sendo, não há nada igual a outra, e como primeiro assunto retratado no início de nossas vidas somos ensinados a identificar ao menos as asas de nossos principais representantes.

Nesse momento ele percorreu o olhar por algumas pessoas em específico, demorando-se ao encarar os príncipes infernais, as rainhas e o arcanjo loiro sentado em sua própria bancada. Ao lado, os Cavaleiros tinham reações variadas. Guerra e Peste estavam interessados no assunto, Fome já começava a fazer o mesmo barulho com canudo de antes. Levou um chute por isso.

— Agora imaginem meu espanto quando recebo uma denúncia sobre as asas de um arcanjo… — Metatron agora tinha certa melancolia na voz, pesar, mesmo sendo teatro. — Vocês devem lembrar de quando as asas de nossos amados Lúcifer e Miguel foram jogadas nesse lugar, uma lástima.

— Vá direto ao ponto. — Raziel o advertiu.

— Então eu pergunto, se os arcanjos nasceram para amenizar as divergências entre céu e inferno, não seria um crime contra os acordos um ser infernal dissecar e guardar as asas de um como um prêmio?! — O serafim então apontou para o objeto enrolado, os dois mais próximos começaram a desenrolar os panos.

Metatron agradeceu pelo Cavaleiro da Morte não estar ali, indicando para levantarem. A platéia engoliu em seco quando uma asa foi estendida, as penas com aspectos dourados e reluzentes eram impossíveis de não reconhecer. Até mesmo Gabriel esqueceu por um momento como respirava.

— Todos vocês lembram da Jofiel. Todos demos falta dela quando foi embora, mas não acho que ela simplesmente foi. — Metatron endureceu a voz. — As asas dela foram achadas nos domínios de dois príncipes, junto estavam armas que podem nos ferir.

— Você pode provar isso? — Leviatã franziu o cenho, olhando para os outros príncipes ao seu lado de forma preocupada.

— Mas é claro. — O serafim assentiu, olhando diretamente para Belzebu. — Belzebu, nega que você e Asmodeus mataram e guardaram as asas da Jofiel  como prêmio? 

— Nego. — Belzebu possuía a face rígida, tensa, embora sua resposta tenha sido firme. — Você quem matou ela.

— Isso é um absurdo! — Asmodeus bateu a mão na bancada com força, levantando de seu trono. — Agora o que é isso? Invenção?

— Você quem deu fim na Jofiel seu filho da puta! — Dessa vez foi Agrath quem gritou, também levantando.

— Então vão negar que essas asas estavam em suas residências na Palestina? — Metatron possuía um sorriso cínico, entregando para Leviatã, Raziel, Peste e Lilith fotos preparadas anteriormente do local.

— Voltando ao assunto anterior, colecionar partes de nosso corpo já foi uma prática comum sua, Metatron. — Lilith comentou com calma na voz, erguendo o olhar enquanto passava as fotos recebidas para as irmãs. — Como pode dizer que alguém foi dissecado quando não há corpo? Não há nada dela lá? Ou ao menos é o que vejo aqui.

— Eles não fariam isso. — Gabriel comentou, atraindo olhares curiosos da própria espécie. — Não tem motivo.

— O motivo é serem bárbaros que até mesmo desmembraram o Rafael e acham isso justo! — Metatron então olhou para Belzebu e Asmodeus. — Negam que esta casa na foto é de vocês?

Retesaram, não havia como negar aquilo. Ao redor a maioria estava horrorizada, principalmente pelas possíveis consequências negativas daquela acusação.

— É minha casa. — Belzebu assentiu, notando os serafins já se aproximando em uma posição defensiva.

Metatron não precisou dizer mais nada, apenas olhou para Raziel mostrando estar certo. O querubim apenas olhava para Leviatã, os dois entrando em certa concordância dados os fatos e as confirmações. Raziel sabia o risco e mesmo assim o fez, torcendo para certa pessoa tomar uma atitude. 

— Asmodeus, você está sob supervisão dos serafins a partir de agora, Belzebu, está preso pelo assassinato de Jofiel e será interrogado posteriormente. Podem levar os dois.

Os serafins se aproximaram ainda mais, Asmodeus e Belzebu apenas levantaram com uma ameaça implícita no olhar. Se fossem realmente se defender, falariam coisas que não eram suas para contar. Nenhum se dignou a olhar para trás para nenhum dos filhos, seria pior, principalmente para os dois mais acima. Nesse momento, Viper e Jimena já haviam sumido do lugar onde estavam anteriormente.

Lilith e Nahemah tiveram que segurar Agrath para a ruiva não cuspir fogo nos serafins, isso sim resultaria em mais uma acusação. Vendo a situação ir por água abaixo, Gabriel levantou, indo até os serafins e os afastando de Belzebu. 

— Eu levo ele. Era minha irmã, tenho o direito. — Seu tom estava sério, diriam até mesmo sério demais para ele, magoado. Mesmo não acreditando em toda aquela história, sabia o quão radicais os serafins eram, Belzebu morreria antes do interrogatório.


Notas Finais


༐•ᄔCríticas construtivas, sugestões e elogios são sempre bem-vindos!


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