História Veritaserum - Capítulo 1


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Notas do Autor


Fiz essa one-shot só para me divertir mesmo. Saudades de jogar RPG, especialmente de HP. Dá nisso aqui, né?
Enfim, espero que se divirtam. ♡

Capítulo 1 - "He has the heart of a lion!"


Fanfic / Fanfiction Veritaserum - Capítulo 1 - "He has the heart of a lion!"

Veritaserum

 

 

Gostava de correr pelo Campo de Quadribol durante as primeiras horas da manhã, quando o sol escondia-se por trás da neblina outonal, e o orvalho podia ser sentido contra a pele. Sentia-se vivo. Livre. Com o pulmão a queimar pelo esforço e frio a cada inspiração e expiração ruidosa. As pernas chegavam ao próprio limite, e todo o corpo agradecia o desgaste. Agradecia o fato de poder, pelo menos ali, entre o acelerar do coração e a carga de adrenalina, sentir-se dono de seus próprios passos.

— Vai acabar se matando. — Com as mãos postas sobre as coxas, buscava recuperar o fôlego para apenas mais uma volta, por mais que seus músculos ali reclamassem. Ainda assim, teve ar suficiente para rir, fazendo a caixa torácica abrasar de uma forma quase alucinante.

— A ideia... é... justo... a contrária... — Ofegou entre a própria voz assoprada, incapaz de se pronunciar mais alto que um sussurro.

— Imagino que seja. — Voltou os olhos castanhos para o outro rapaz, vendo-o sentar-se às arquibancadas com um livro de Herbologia em mãos. Seu rosto perdia-se ali, afundado nas páginas amareladas pelo tempo, e era possível distinguir apenas os cachos quase louros de seus cabelos.

— Por que não...?

— Não, obrigado. — Soltou outro riso sôfrego, desistindo da última volta, por um tempo, para poder ocupar um lugar junto dele sobre a madeira.

— Faria bem a você. Alivia a tensão. — Insistiu só mais um pouco, como fazia todas as manhãs em que ele o acompanhava.

— Imagine o que minha mãe diria se soubesse que um Uris prefere correr a voar. — Respondeu sem nem olhá-lo, virando a página que tinha acabado de ler. — Já é uma vergonha que eu tenha sido selecionado para outra Casa que não Slytherin. Acho que já dei desgosto o bastante. — A acidez irônica típica dele era cômica, e sempre fazia com que o fitasse com os castanhos curiosos por entender toda a perspicácia por trás das palavras.

— Bem, pelo menos você não foi colocado em Gryffindor. — Os olhos amadeirados dele perderam o encanto pela página que liam e foram atraídos pelo ainda ofegante menino. — Minha mãe ainda manda berradores por causa disso. E já faz seis anos, por Merlin.

— Eu sinto muito. — E a troca de olhares entre eles realmente mostrou que sentia. Mas ele próprio sentia. Bastante. — Acho que o único que foi feliz nesse sorteio da vida foi o Rich. — Ambos suspiraram juntos ao desgosto. — Das famílias antigas e puro-sangue, a Tozier foi a única a manter a tradição.

— E não é como se ele fosse o aluno mais exemplar, também. — O castanho-claro do amigo fitou-o com um brilho incontido no olhar: sabia onde as reclamações dele sobre Tozier acabariam, e ainda estava demasiado cedo para que os dois se engalfinhassem pelos corredores, ou durante o desjejum.

— Edward Kaspbrak...

— Estou apenas dizendo! Nada de mais! — Rendeu-se ao pedido explícito dele para que parasse a implicância. — Mas que é injusto você estar em Ravenclaw e eu em Gryffindor, é injusto. — Pôs-se de pé, sentindo uma corrente de energia perpassar o corpo só por ter pensado e falado sobre Tozier. — Ele é babaca.

— EDDIE! — Correu antes que o amigo pudesse xingá-lo, voltando-se a se sentir vivo conforme as pernas o guiavam. Conforme a mente se entorpecia e o riso saía pelos lábios enquanto pensava no rosto bem desenhado do Slytherin.

 

 

— Teremos de treinar, hoje mais tarde. — Anunciou o Capitão do Time, sentado ao seu lado. Fitou-o de soslaio, com as sobrancelhas grossas caídas em uma carranca pouco amigável.

— Bill, você sabe que temos trabalhos para entregar, essa semana. — Observou, vendo o rosto dele também se fechar com a lembrança de que teria uma redação de Astronomia para fazer. Ainda assim, suspirou e voltou à exuberância leonina que sempre adotava ao dirigir-se ao próprio time.

— Seis da tarde, estejam postos com suas vassouras. — Findou a discussão, fazendo os olhos castanhos revirarem e se voltarem para o prato com salsichas e torradas. Denbrough conseguia ser tão orgulhoso, às vezes, que o julgava, de fato, como o símbolo perfeito da casa, o que seus broches de Capitão do Time e Monitor-Chefe apenas reafirmavam.

— Você sabe que eu não vou te deixar copiar o ensaio pedido por Slughorn, certo? — Declarou, mordiscando uma das torradas com calma, e notando, com o olhar periférico, que o semblante dele havia assumido um tom mais pálido que o normal.

— Tem ensaio de Poções?! — Desesperou-se, ouvindo a risada baixa dos companheiros de time.

 

 

— Por favor, turma! — Professor Slughorn reivindicava o direito de fala, erguendo a destra no ar. — Sentem-se com seus parceiros e tentem reproduzir uma das poções que temos ali, a amostra. — Indicou com um meneio da mesma mão os três caldeirões postos sobre a bancada próxima aos ingredientes dispostos aos alunos. Sem mais instruções, sentou-se na própria cadeira e viu os seletos estudantes do sexto ano, em sua matéria, se organizarem.

— O que acha dessa? — Quis saber Denbrough, fitando Uris com um brilho incerto nos olhos. — Parece ser a Poção do Morto-Vivo. — Comentou, ainda aguardando a aprovação do parceiro. As cores azul e bronze, e a águia emblemática sobre as vestes negras de Uris eram confundidas com as esperanças de William; esperava que Stanley sempre tivesse as respostas.

— Eu não sei... a coloração pode estar certa, mas... o cheiro... não me parece ter infusão de Losna aí. — Aproximou-se deles com cuidado para que não fosse notado. Queria observar a poção a qual falavam, porque não queria ter de ficar com ela. Especialmente, porque seu parceiro estava atrasado.

— Eddie, quer fazer comigo? — Surpreendeu-se com o convite inesperado, sobressaltando-se ao ter o cochicho tão próximo à orelha. Os outros dois alunos viram-se para eles, fitando-os indagadores.

— Cadê a dupla de vocês? — Stanley foi o primeiro a dizer, passando os olhos pela sala quase vazia. Não seria difícil localizar Marsh e Tozier, eles eram singulares demais para se camuflarem onde quer que fossem.

— Bem... Eu não sei, mas não acho que temos muito mais tempo para gastar esperando por eles. — Viu as cores amarelo-canário e preto subirem e descerem com o cachecol sobre seus ombros e enrolado o pescoço. As bochechas rosadas de Hanscom pareciam intensificar sua cor natural ao passo que se preocupava com a atividade que teriam de fazer.

— Eu disse que ele era um babaca. — Soltou para Uris, sentindo as próprias bochechas queimarem em fúria. — Ele sabe o quão importante essa matéria é pra mim e não faz nem questão de aparecer. Ano que vem, eu quero mudar essa dinâmica de pares que vocês me forçaram. — O indicador passeou por Uris, Denbrough, Hanscom e, quando o localizou sentado com e entre Audrey e Patty, por Hanlon, três cadeiras a frente e de costas para eles.

— Não é nossa culpa que a varinha de Rich e a sua sempre produzam as mesmas cores de faísca! — Defendeu-se Hanscom, buscando o apoio dos outros com o olhar.

— É verdade. — Compactuou Denbrough. — Você sabe que não dá para trapacear com o cerne das varinhas. — E adicionou para findar a discussão, voltando a se virar para Uris. — E então, Stan?

— Morto-Vivo. — Concluiu, tomando a mão de Denbrough com a própria, dirigindo-se para as cadeiras próximas de Audrey, que era uma companheira de casa de Stan, e Hanlon e Patty, ambos HufflePuff, como Benjamin, que ainda encarava Kaspbrak esperançoso.

— E então? Faremos juntos ou não? — Suspirou. Queria dizer que não, porque sabia que, como a si mesmo, Hanscom não era um exímio preparador de poções. Na realidade, os dois estavam mais para medíocres. Apenas conseguiam notas boas porque suas duplas eram os melhores da classe. Por mais que Kaspbrak odiasse — com todas as suas forças — admitir.

— Certo... — Assanhou os cabelos castanhos e lisos, deixando-os alinhados para trás para que conseguisse inalar dos caldeirões.

— Quer fazer a do Morto-Vivo também? Podemos pedir ajuda do Stan e do Bill... — A voz de Benjamin foi ficando mais baixa conforme as narinas foram se tornando os pontos sensíveis mais envolvidos ali. Realmente envolvidos.

— Tem... alguma coisa... — Sussurrou, fechando as pálpebras conforme inclinava-se para o caldeirão, sendo guiado pelas fumaças em aspirais que capturavam seus sentidos. Como um todo.

Era capaz de sentir o toque do cheiro nas mãos, que agora se apoiavam no balcão. E tinha certeza que ouvia as aspirais uivando contra as orelhas, como se estivesse no centro de um tornado, o qual sacudia todos os neurônios. Que poção era aquela?! Tinha... algo de mentolado... entremeado pelo cheiro de biscoitinhos caseiros fritos, que sua elfa doméstica costumava preparar-lhe... hm...

— Eddie...?

Queria comer um daqueles biscoitinhos. Eles eram macios. Saborosos. Encobertos por chocolate derretido. Mas... um chocolate com menta são poderia ser tão ruim, certo? Não, não. Seria delicioso, de fato. Tinha cheiro de chuva, também! De terra molhada... que subia... que caía... que se misturava naquela tempestade entorpecente de prazeres tão caseiros. Tão dele. Prazeres apenas seus.

— Mr. Kaspbrak...?

Gárgulas galopantes e fadas mordentes! Aquilo era bom. Era... como sentir a textura macia e lisa de uma camiseta branca de botões. Como percorrer as digitais, bem devagar, sobre a temperatura irregular de um peitoral, entre subidas e descidas dolorosas por oxigênio. Era como ter os dedos a friccionar o arrepio de uma tez durante a subida pelas costas nuas. Largas. Esguias. Era habitar naquela pele, naquele arrepio, naquela vontade.

Naquele cheiro.

— Hey, Eds!

— Aaah! — Soltou um leve grito pelos lábios ao sobressaltar-se com a voz que ecoava o encanto, mesmo que tivesse sido sussurrado. Abriu os olhos, fitando-o com o rosto tomado pela vergonha.

— Você está bem? — Os cílios cheios batiam um ao outro com o piscar demorado, ainda torpe. — A poção te pegou de jeito, hein? Heh. — Apertou uma pálpebra a outra, tentando fugir do transe. Fugir do que sentira. Fugir de ouvir o que o coração à garganta dizia. — O que foi que você cheirou?

Arregalou os olhos, focalizando a palidez do rosto em contraste com os cachos escuros, como a noite. Em concordância com o tom prateado do cachecol em verde-escuro. Profundo como os olhos azuis que, curiosos e maliciosos, o questionavam. E engoliu em seco, ofegante, ao notar como o tom róseo de seus lábios, tão cheios, parecia convidá-lo. Convidá-lo?

— Sai de perto de mim! — Empurrou o mais alto, sentindo o coração acelerar ao perceber o quão próximo ele estava de si, com as mãos sobre a cintura, a apertando. — Não seja ridículo! Isso aí é Veritaserum. Não tem cheiro. Até eu sei disso, Tozier! — Com o rosto em chamas, pegou a mão de Hanscom, o afastando da ruiva Slytherin que havia se aproximado dele. — Perdeu seu par, agora o Ben vai fazer comigo. — Puxou o HufflePuff para que se sentassem ao lado de Uris e Denbrough.

— Mas... — Ignorou os olhares confusos de Tozier e Marsh, os quais se aproximaram e trocaram um único olhar significativo.

 

 

— Richard. — Saudou o menino que havia ocupado o lugar à sua frente, na mesa da biblioteca, sem, contudo, erguer os olhos das cinquenta e sete linhas que tinha escrito pelo pergaminho. Estava absorto em sua correção, fazendo o som da pena a riscar as fibras do papel soar.

— Edward. — Não era a voz dele.

— O que...? — Ergueu o olhar de seu trabalho de Astronomia, encarando as constelações de sardas no rosto da ruiva. Ela tinha um sorriso largo e satisfeito a enfeitar o rosto. Largo e satisfeito demais. — Eu... — Sentiu as maçãs do rosto corarem. — Eu pensei que...

— Fosse o Richie?

— É. Ele sempre vem me encher o saco, na biblioteca. — Mentiu, voltando-se mais uma vez para o pergaminho em mãos, ignorando o próprio rubor.

— Será isso... Ou será meu novo perfume? — Suspirou, erguendo os olhos mais uma vez.

— Sim. Foi o seu perfume. Eu poderia jurar que era o Tozier. — Confessou, sentindo-se estúpido, por alguma razão. Bastante estúpido. Não conseguia nem se concentrar em uma linha sequer, desde que ela tinha se sentado ali. E não conseguia evitar lançar olhares para sua figura sorridente. Radiante.

— Certo. — Depois de três segundos inteiros de um incômodo crescente na boca do estômago e no enrubescer do rosto, aliviou-se ao ver que ela se levantava. — Boa noite de estudos pra você, Eddie. Eu te vejo amanhã, na aula.

— Okay... Boa noite... — Sussurrou, notando que ela ainda não tinha se movido para ir embora, mas o fitava com o mesmo triunfo a emanar de todo o seu ser. — O que houve, Beverly? — Por alguma razão, sentia-se incerto se queria saber a resposta. Ou se, até, prestaria alguma atenção. O que estava havendo?

— Nada. É que eu tenho aquela redação do Slug para fazer, ainda. Veritaserum.

— Oh... Desculpe, mas... Não posso te ajudar, a minha foi sobre a Poção do Morto-Vivo.

— Eu sei. — Viu a menina suspirar, sem perder o brilho da vitória no azul dos olhos. — Bem... Mas você sabe o uso dela, não sabe?

— Sim... — Piscou algumas vezes, inclinando a cabeça para o lado como se estivesse com bastante dificuldade de entender. — É para fazer quem a beber falar a verdade.

— Exato. — E, com um último sorriso, flutuou para longe de Kaspbrak, que não tinha conseguido tirar os olhos dela, até que tivesse sumido pelas portas de madeiras.

Piscou algumas vezes, suspirando e coçando o nariz com a destra. Sentia o perfume colado a si, ainda, e tinha a estranha sensação de ter acabado de acordar de um sonho. Será que... tinha adormecido sobre o trabalho?

 

 

— E então? — Ela se aproximava da rodinha de amigos, sendo logo recebida por Ben.

— A poção funcionou? — Quis saber Patty, a qual trocava olhares com Audrey, com quem tinha os braços dados.

— Nós tivemos de assaltar o material de Slughorn! — Comentou Audrey, apontando para si mesma e para Uris, que apenas concordou com a cabeça, voltando a deitá-la sobre o ombro de Denbrough.

— Acho bom ter funcionado! — Hanlon exclamou ansioso.

— Melhor que o esperado. — Marsh comentou. — Foi a melhor Amortentia que eu já tive o prazer de preparar.



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