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História Vermelho - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Único - Cereja


Fanfic / Fanfiction Vermelho - Capítulo 1 - Único - Cereja

 Eles me contaram que o caixão não podia ser de vidro, e eu até entendi. A última cena que fez o fim foi de digestão deveras difícil, e então mostrar isso não seria prudente, e eu não vejo pelo lado de quem vê de fora, e sim dele – que não merecia nada. Nada disso, porque ele merecia o melhor.

 Cicatrizes são pilastras vitais na construção de um indivíduo, e nesse caso eu devo admitir que de alguma forma ele era tão especial que as fazia parecerem dois acessórios que complementavam todo o resto. Mas aquela cicatriz, aquela que ninguém realmente precisa citar, não era bonita. Ela era um borrão de tinta no meio de uma pintura que estava somente no começo, que foi feito sem querer, e ninguém percebeu. E não tem como consertar. E agora alguém sem escrúpulos vai jogar ela fora sem sentir nem um pouco de remorso. No entanto, eu queria pendurar ela no meio da minha sala, eu queria que os raios de sol que entrassem pela janela batessem diretamente nela toda manhã, e que todo dia que eu acordasse eu olhasse aquela obra de arte. Ela nunca vai saber o quão bonita eu achava ela, eu não tive tempo de apreciar, eu não tive tempo de dar o maior lance no leilão.

 E o comprador que ninguém espera levou ela embora.

 Se alguém me perguntasse, a pouco mais de um mês, o que a cor vermelho significa, eu lembraria de tudo aquilo que é desprezível e já sujou minha mão. A minha paleta nunca teve cores suficientes pra eu ficar indeciso na hora de responder algo assim, e eu vou dizer, eu nunca ficava indeciso. Mas depois de um tempo, vermelho virou coisas demais. Vermelho era a cor do teu cabelo, a cor de uma das tuas tintas e a cor da cereja que você adorava.

 E agora quando me perguntam o que eu lembro, sobre vermelho, eu não penso em nada além de você. E quando ninguém me pergunta nada, quando ninguém diz nada, quando o silêncio grita, eu não sei pensar em nada. Tudo fica vermelho. Eu não ficava indeciso, mas quando a questão vinha de ti, eu não sei.

 Eu vou admitir aos quatro ventos que eu detestava cereja – eu nunca experimentei uma cereja, na realidade – e não acho que vou. Se eu tentasse experimentar, o gosto seria amargo, e não cabe a mim, uma pessoa nem um pouco delicada assim, tentar me acostumar com cerejas. Cabia a ele, as cerejas não enfeitavam lugar nenhum tão bem quanto as laterais do rosto dele.

 Eu vi o pôr do sol vermelho, rosa e laranja por uma fração curta da minha vida – também curta – e viciei. E quando o meu céu voltou a ser cinza, eu não soube lidar. E quando todo o amontoado de vermelho que pintou meu corpo foi embora junto com a chuva, eu senti falta. A grama verde nunca vai ser tão bonita, as rosas nunca vão ser tão vibrantes e as cerejas nunca vão ser tão doces assim.

Eu vou comprar um colar de esmeralda e pendurar na minha cortina, talvez assim, o céu se ponha um pouco menos cinza. E talvez assim todo esse placebo alivie um pouco o buraco que se abriu, também, em mim.



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