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História Vermelho, Branco e Sangue Azul - Drarry - Capítulo 7


Escrita por:


Notas do Autor


Hoje é aniversário do meu neném Harry
Aproveitem!

Capítulo 7 - Seven


Draco realmente escapa da Alemanha e encontra Harry perto de uma multidão de turistas comendo crepes na Place du Tertre, com um blazer azul elegante e um sorriso malicioso. Depois de duas garrafas de vinho, eles voltam trocando as pernas para o hotel, onde Draco se ajoelha no mármore branco e ergue os olhos grandes, azuis e profundos para Harry, e Harry não sabe descrever a sensação em nenhuma língua que conheça.

Ele está tão bêbado, a boca de Draco é tão doce e é tudo tão francês pra cacete que ele esquece de mandar Draco de volta para o hotel dele. Esquece que eles não passam a noite juntos. Então, eles passam.

Ele descobre que Draco dorme de lado, a espinha protuberante em alguns pontos que na verdade são macios ao toque se ele encostar a mão, com muito cuidado para não acordá-lo porque ele está dormindo de verdade, o que é raro. De manhã, o serviço de quarto traz baguetes crocantes, tortas recheadas de damascos gordos e melados e uma cópia do Le Monde que Harry pede para Draco traduzir em voz alta.

Ele lembra vagamente de dizer a si mesmo que não fariam essas coisas. Está tudo um pouco turvo agora.

Quando Draco vai embora, Harry encontra um papel de carta ao lado da cama: Fromagerie Nicole Barthélémy. Deixar instruções de como chegar a uma queijaria parisiense para o amante clandestino — Harry precisa admitir: Draco é muito coerente com seu papel.

Mais tarde, Minerva envia a ele uma captura de tela de um artigo do BuzzFeed sobre a “melhor amizade da história” entre ele e Draco. É um conjunto de fotos: o jantar de Estado, alguns retratos dos dois sorrindo diante dos estábulos em Greenwich, um do Twitter de uma francesa com Harry recostado em uma cadeira diante de uma mesa minúscula de café enquanto Draco termina a garrafa de vinho tinto entre eles.

Embaixo, Minerva escreveu a contragosto: Bom trabalho, seu bostinha.

Ele imagina que é assim que eles vão continuar tocando essa história — o mundo vai continuar achando que eles são melhores amigos, e eles vão continuar representando esse papel.

Objetivamente, ele sabe que deveria se controlar. É tudo físico. Mas o Príncipe Encantado Estoico e Perfeito ri quando goza, e manda mensagem para Harry a altas horas da noite: Você é um demônio completamente maníaco e maldoso, e vou te beijar até você não saber mais falar. Harry está meio obcecado.

Harry decide não pensar demais. Normalmente, eles só se cruzariam algumas vezes por ano; é preciso ser criativo para mudar as agendas e jogar um charme sobre suas respectivas equipes para se encontrarem com a frequência que seus corpos exigem. Pelo menos, eles têm uma desculpa de relações públicas internacionais.

Seus aniversários, ele descobre, têm menos de três semanas de distância, o que significa que, durante a maior parte de março, Draco tem vinte e três anos e Harry, vinte e um. (“Sabia que ele era a porra de um pisciano”, Hermione comenta.) Por acaso, Harry vai cadastrar eleitores na Universidade de Nova York no fim de março e, quando manda mensagem para Draco sobre o compromisso, recebe uma mensagem rápida quinze minutos depois: Remarquei a reunião da ONG em Nova York para este fim de semana. Vou estar na cidade pronto para chicotadas de aniversário et al.

Os fotógrafos estão a postos quando eles se encontram na frente do Metropolitan Museum, então eles se cumprimentam com um aperto de mãos e Harry diz, sorrindo para as câmeras:

— Quero te ver sozinho, já.

Eles são mais cuidadosos nos Estados Unidos e sobem para o quarto de hotel um de cada vez — Draco pelos fundos, cercado por dois seguranças reais altos, e, depois, Harry com King, que sorri, sabe de tudo e não comenta nada.

Há muito champanhe, beijos e glacê de um bolinho de aniversário que, vai saber por que, Draco trouxe e foi parar na boca de Harry, no peito de Draco, no pescoço de Harry, entre os quadris de Draco. Draco segura os punhos dele no colchão e o engole inteiro, e Harry está bêbado e completamente transportado, sentindo todos os momentos de seus vinte e dois anos e nenhum dia a mais, uma espécie de juventude hedonista da história. Boquete de aniversário de um príncipe de outro país tem esse efeito em qualquer um.

Vai demorar semanas para eles se verem de novo e, depois de muitas provocações e talvez até alguma súplica, ele convence Draco a baixar o Snapchat. Draco praticamente só manda fotos inofensivas completamente vestido, mas são provocantes o suficiente para Harry suar durante a aula: uma foto no espelho, calças brancas de polo manchadas de lama, um terno elegante. Em um sábado, a transmissão ao vivo do Senado em seu celular é interrompida por Draco em um veleiro, sorrindo para a câmera com o sol brilhando em seus ombros nus, e o coração de Harry fica estranho pra cacete, a ponto de ele precisar enfiar a cabeça nas mãos por um minuto inteiro.

(Mas, tipo. Está de boa. Não é nada de mais.)

Em meio a isso tudo, eles conversam sobre o trabalho de Harry na campanha, os projetos beneficentes de Draco, as aparições públicas dos dois. Conversam sobre como Blás está se declarando completamente apaixonado por Hermione e passa metade do tempo com Draco falando sobre ela ou implorando para ele perguntar a Harry se ela gosta de flores (sim), pássaros exóticos (para olhar, não para ter) ou joias no formato do rosto dela (não).

São muitos os dias em que Draco gosta de receber mensagens dele e responde rápido, com um humor rápido e sagaz, ávido pela companhia de Harry e pela confusão de pensamentos na cabeça dele. Mas, às vezes, Draco é tomado por um humor sombrio, um sarcasmo ácido, estranho e duro. Ele se retrai por horas ou dias, e Harry começa a entender isso como períodos de tristeza, pequenas crises de depressão ou momentos em que tudo é um pouco “demais”. Draco odeia esses dias. Harry queria poder ajudar, mas não se incomoda em particular. Ele se sente igualmente atraído pelos humores nebulosos de Draco, a maneira como ele volta deles, e os milhões de nuances nesse ínterim.

Ele também aprendeu que o comportamento plácido de Draco se desfaz com a provocação certa. Ele gosta de comentar coisas que vão fazer Draco desatar a falar, como:

— Escuta — Draco diz, acalorado, pelo celular em uma noite de quinta. — Não dou a mínima para o que Joanne tem a dizer, Sirius Black é claramente gay, e me recuso a ouvir o contrário.

— Certo — Harry. — Só para constar, concordo com você, mas me conte mais.

Ele começa um discurso interminável, e Harry escuta, entretido e um tanto fascinado, enquanto Draco desenvolve seu argumento:

— Eu só acho, como príncipe desse maldito país, que, quando se trata dos marcos culturais positivos da Grã-Bretanha, seria bom se pudéssemos não botar para baixo nossas pessoas mais marginalizadas. As pessoas higienizam o Freddie Mercury, o Elton John e o Bowie, que estava transando com o Jagger de um lado para o outro da Oakley Street nos anos setenta, aliás.

Essa é outra coisa que Draco faz — lançar essas análises do que lê, assiste ou escuta que lembram Harry de que ele não só tem um diploma de literatura inglesa mas também um grande interesse pela história gay do país de sua família. Harry sempre conheceu a história gay americana — afinal, a política de seus pais foi parte dela —, mas foi só quando se descobriu que começou a se envolver nela como Draco.

Ele está começando a entender o que palpitou em seu peito na primeira vez em que leu sobre Stonewall, por que se emocionou com a decisão do Supremo de legalizar o casamento entre pessoas do mesmo gênero em 2015. Ele começa a correr atrás do atraso em seu tempo livre: Walt Whitman, as leis de Illinois de 1961 que descriminalizaram a atividade homossexual, as revoltas deflagradas pelo assassinato do ativista Harvey Milk, Paris is Burning. Ele afixou uma foto sobre a mesa no trabalho, um homem num protesto nos anos 1980 com uma jaqueta que diz SE EU MORRER DE AIDS — NÃO ME ENTERREM — SÓ LARGUEM MEU CORPO NA ESCADARIA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE.

O olhar de Hermione se fixa na foto um dia quando ela passa no gabinete para almoçar com ele, lançando a Harry o mesmo olhar estranho da manhã seguinte à que Draco entrou escondido no quarto dele. Mas ela não comenta nada e, enquanto come seu sushi, discursa sobre seu novo projeto de reunir todos os seus diários em uma autobiografia. Harry se pergunta se alguma dessas coisas entraria no livro. Talvez, se ele contar para ela logo. Ele precisa contar para ela logo.

É estranho que esse lance com Draco possa fazer com que ele entenda essa enorme parte de si próprio, mas faz. Quando ele mergulha em pensamentos sobre as mãos de Draco, seus dedos fortes e elegantes, se pergunta como nunca se deu conta antes. Quando volta a encontrar Draco em um baile de gala em Berlim, sente aquela atração gravitacional, o segue até o banco traseiro de uma limusine, e amarra os punhos do príncipe na cabeceira da cama do hotel com sua própria gravata, ele se conhece melhor.

Ao aparecer na reunião semanal dois dias depois, Minerva pega seu queixo com uma mão e vira a cabeça dele, espiando de perto a lateral do seu pescoço.

— Isso é um chupão?

Harry fica paralisado.

— Eu… hm, não?

— Você acha que sou burra, Harry? — Minerva pergunta. — Quem está deixando chupões no seu pescoço, e por que o chupão não veio junto com um termo de confidencialidade?

— Ai, meu Deus — ele diz, porque, sério, a última pessoa que Minerva precisa ter medo de vazar detalhes sórdidos é Draco. — Se eu precisasse de um termo de confidencialidade, você saberia. Relaxa.

Minerva não gosta de ser mandada relaxar.

— Olha pra mim — ela diz. — Eu te conheço desde o tempo em que você escondia cuecas sujas na gaveta. Acha que não sei quando está mentindo pra mim? — Ela crava a unha pontuda e pintada em seu peito. — Seja lá quem tenha feito isso, é melhor que seja alguém da lista aprovada de meninas que você pode encontrar em público durante o ciclo de eleições, que vou mandar para você por e-mail de novo assim que sair, caso tenha perdido.

— Meu Deus, tudo bem.

— E, só para lembrar — ela continua —, prefiro cortar meu peito fora a deixar você cometer alguma burrada que faça sua mãe, a primeira mulher eleita à presidência, ser a primeira a perder a reeleição desde a porra do George W. Bush. Você me entendeu? Vou te trancar no quarto por um ano se necessário, e você vai poder fazer suas provas finais por sinais de fumaça. Vou grampear seu pau dentro da perna se for o único jeito de fazer você parar de sair trepando por aí.

Ela volta às anotações com um profissionalismo sereno, como se não tivesse acabado de ameaçá-lo de morte. Atrás dela, ele consegue ver Hermione em seu lugar à mesa, com uma cara de quem claramente também sabe que ele está mentindo.

 

— Você tem um sobrenome?

Harry nunca cumprimenta Draco quando liga para ele.

— Quê? — A resposta monossilábica perplexa e alongada de sempre.

— Um sobrenome — Harry repete. É fim de tarde e está caindo uma tempestade fora da Residência, e ele está deitado de costas no meio do Solário, revisando anteprojetos de lei para o trabalho. — Aquilo que eu tenho dois. Você usa o do seu pai? Draco Malfoy? Eu curto, hein. Ou o da realeza vale mais? E você usa o da sua mãe?

Ele escuta um barulho pelo celular e se pergunta se Draco está na cama. Faz semanas que eles não conseguem se ver, então sua mente é rápida em fornecer a imagem.

— O sobrenome oficial da família é Mountchristen-Black — Draco diz. — Com hífen, que nem o seu. Então, meu nome completo é… Draco George Edward James Malfoy-Mountchristen-Black.

Harry ergue a cabeça, pasmo.

— Ai… meu Deus.

— Juro.

— E eu pensando que Harry Alexander Evans-Potter era ruim.

— É em homenagem a alguém?

— Alexander em homenagem ao Alexander Hamilton, um dos fundadores dos Estados Unidos.

— Meio óbvio demais.

— Pois é, não me deram muita escolha. Minha irmã ficou com Hermione June em homenagem à cantora June Carter King, mas eu fiquei com todas as profecias concretizadas.

— Eu fiquei com os dois reis gays — Draco aponta. — Isso sim é profecia.

Harry ri e chuta os arquivos da campanha para longe. Ele não vai voltar para eles hoje.

— Três sobrenomes é muita maldade.

Draco suspira.

— Na escola, nós todos éramos chamados de Gales. Mas o Arcturus agora é tenente Black na Força Aérea.

— Draco Gales, então? Não é tão mal.

— Não, não é. Foi por isso que você me ligou?

— Talvez — Harry diz. — Pode chamar de curiosidade histórica. — Embora o verdadeiro motivo seja mais próximo da voz levemente arrastada de Draco e do meio segundo de hesitação antes de ele falar que ficou em sua cabeça a semana toda. — Por falar em curiosidade histórica, aqui vai uma: estou sentado no cômodo em que Nancy Reagan estava quando descobriu que Ronald Reagan tinha levado um tiro.

— Cristo amado.

— E também é onde o velho Tricky Dick falou para a família que iria renunciar.

— Desculpa, mas quem ou o que é Tricky Dick?

— Nixon! Escuta, você está desfazendo tudo pelo qual os velhos fundadores deste país lutaram e deflorando o queridinho da república. Precisa pelo menos saber história americana básica.

— Não acho que deflorar seja a palavra — Draco retruca. — Isso seria com noivas virgens, sabe. Esse definitivamente não é o seu caso.

— Uhum, e tenho certeza que você aprendeu todos os seus talentos nos livros.

— Bom, foi na universidade que aprendi. Não necessariamente lendo.

Harry assente e deixa o ritmo da brincadeira passar. Ele olha para o outro lado da sala — as janelas que antes não passavam de cortinas finas em um quarto para a família de Taft dormir em noites quentes, o canto agora empilhado com a coleção de gibis antigos de Remus onde Eisenhower jogava cartas. As coisas por baixo da superfície. Sempre foi isso que Harry buscou.

— Ei — ele diz. — Sua voz está esquisita. Tá tudo bem?

Draco segura a respiração e pigarreia.

— Tudo.

Harry não diz nada, deixando o silêncio se estender em uma linha fina entre eles antes de o quebrar.

— Sabe, todo esse nosso acordo… você pode me contar coisas. Vivo te contando coisas. Coisas de política, de faculdade e de família doida. Eu sei que, tipo, não sou um exemplo de comunicação humana normal, mas. Sabe.

Outra pausa.

— Não sou… historicamente, não sou bom em ter esse tipo de conversa — Draco diz.

— Bom, historicamente, eu não era bom em boquetes, mas todos precisamos aprender e crescer, queridinho.

— Não era?

— Ei — Harry bufa. — Você está tentando dizer que eu ainda não sou bom?

— Não, não, nem sonharia em dizer isso — Draco diz, e Harry consegue escutar o sorrisinho em sua voz. — Foi só o primeiro que foi… Quero dizer. Foi entusiasmado, pelo menos.

— Não me lembro de você reclamar.

— Tá bom, é que fazia séculos que eu vinha fantasiando sobre aquilo

— Viu, já é alguma coisa — Harry argumenta. — Você acabou de me contar isso. Pode me contar outras coisas.

— Não é a mesma coisa.

Ele vira de lado, reflete e, de propósito, diz:

— Baby.

Virou um lance: baby. Ele sabe que virou um lance. Ele deixou escapar e saiu algumas vezes sem querer e, toda vez, Draco fica definitivamente derretido e Harry finge não notar, mas ele não vê mal em jogar sujo agora.

Há um silvo baixo de expiração do outro lado da linha, como o ar escapando por uma fresta na janela.

— É, ah. Não é o melhor momento — ele diz. — Como você disse? Coisas de família doida.

Harry suga o lábio, morde a bochecha. Aí está.

Ele se perguntava quando Draco finalmente começaria a falar sobre a família real. Ele faz referências oblíquas a Arcturus ser rígido como um relógio atômico, ou à desaprovação da avó, e menciona Pans com a mesma frequência que Harry menciona Hermione, mas Harry sabe que isso não é tudo. No entanto, não sabe dizer quando começou a perceber isso, assim como não sabe quando começou a notar os humores de Draco.

— Ah — ele diz. — Entendo.

— Imagino que você não acompanhe nenhum tabloide britânico, né?

— Não se eu puder evitar.

Draco responde com um riso amargo.

— Bom, o Daily Mail sempre teve uma certa propensão a divulgar nossa roupa suja. Eles, assim, deram um apelido para a minha irmã alguns anos atrás. “A Princesa do Pó.”

Um tinido de reconhecimento.

— Por causa da…

— Isso, da cocaína, Harry.

— Tá, acho que já ouvi esse termo.

Draco suspira.

— Bom, alguém conseguiu passar pela segurança e pichar “Princesa do Pó” na lateral do carro dela.

— Que merda — Harry diz. — E ela está mal com isso?

— Pans? — Draco ri, um pouco mais sincero dessa vez. — Não, ela normalmente não dá a mínima para essas coisas. Ela está ótima. Mais abalada por terem passado pelos seguranças. A vovó mandou demitir toda uma equipe da segurança real. Mas… sei lá.

Ele para de falar, e Harry consegue entender.

— Mas você se preocupa. Porque quer protegê-la mesmo sendo o irmão mais novo.

— Eu… isso.

— Sei como é. No verão passado, quase esmurrei um cara no Lollapalooza porque ele tentou pegar na bunda da Hermione.

— Mas não esmurrou?

— Hermione já tinha jogado um milkshake na cara dele — Harry explica. Ele encolhe um pouco os ombros, sabendo que Draco não consegue vê-lo. — E Dora deu um choque de taser nele. O cheiro de milkshake de morango queimado em um machinho universitário suado é uma delícia.

Draco solta uma gargalhada.

— Elas nunca precisam de nós, né?

— Não — Harry concorda. — Então você está chateado porque os boatos não são verdadeiros.

— Bom… na verdade, são sim — Draco diz.

Ah, Harry pensa.

— Ah — ele diz, sem saber de que outra forma responder depois de procurar em seu estoque mental de frases diplomáticas e achar todas frias e insuportáveis.

Draco continua, um pouco hesitante.

— Sabe, tudo que a Pans sempre quis na vida foi tocar música — ele começa. — Acho que meus pais tocaram Joni Mitchell demais para ela quando era pequena. Ela queria aulas de violão; vovó queria violino, porque era mais adequado. Deixaram Pans aprender os dois, mas ela foi para a universidade estudar violino clássico. Enfim, no último ano da faculdade, nosso pai morreu. Aconteceu tão… rápido. Ele simplesmente se foi.

Harry fecha os olhos.

— Que merda.

— Pois é — Draco diz, a voz dura. — Todos ficamos um pouco doidos. Arcturus simplesmente tinha que ser o homem da família, eu virei um babaca, e minha mãe se recusava a sair dos aposentos dela. Pans simplesmente parou de ver sentido nas coisas. Eu estava começando a universidade quando ela se formou, e Arcturus estava servindo no Afeganistão, e ela saía toda noite com os hipsters ricos de Londres, ia escondida tocar violão em shows secretos e cheirar montanhas de cocaína. Os jornais adoravam.

— Meu Deus — Harry exclama. — Sinto muito.

— Tudo bem — Draco diz, a voz mais firme, como se estivesse erguendo o queixo daquele jeito teimoso que ele faz às vezes. Harry queria poder ver. — Seja como for, a especulação, as fotos de paparazzi e o maldito apelido passaram a ser demais, então Arcturus voltou para casa por uma semana e ele e a vovó literalmente a enfiaram num carro e a mandaram para uma clínica de reabilitação, que chamaram de retiro de bem-estar para a imprensa.

— Espera… desculpa — Harry diz antes de conseguir se conter. — Só. Onde estava sua mãe?

— Minha mãe não se envolveu muito desde que meu pai morreu — Draco diz com um suspiro, mas logo se contém. — Desculpa. Isso não é justo. É só que… o luto foi absoluto para ela. Foi paralisante. Ainda é. Ela era tão cheia de vida antes. Sei lá. Ela ainda escuta e se esforça, e quer que sejamos felizes. Mas não sei se ela ainda tem forças para ajudar alguém a ser feliz.

— Isso é… péssimo.

Uma pausa, pesada.

— Enfim, Pans foi — Draco continua —, contra a vontade, e não achou que tinha problema nenhum, embora desse para ver as costelas dela e ela tivesse passado meses sem falar comigo, sendo que éramos inseparáveis quando pequenos. Ela mesma se deu alta depois de seis horas. Lembro que me ligou de uma balada nessa noite e eu perdi a cabeça. Eu tinha, o quê, dezoito anos? Dirigi até lá e ela estava sentada na escada dos fundos, totalmente fora de si. Sentei perto dela, chorei e falei que ela não tinha o direito de se matar só porque nosso pai tinha morrido e que eu era gay e não fazia a menor ideia do que fazer, e foi assim que saí do armário para ela.

“No dia seguinte, ela voltou, e desde então está sóbria, e não contamos para ninguém sobre aquela noite. Até agora, pelo menos. E não sei direito por que falei tudo isso, só, nunca contei essa história para ninguém. Quero dizer, Blás esteve presente durante quase o tempo todo, então, e eu… não sei.”

Ele pigarreia.

— Enfim, acho que nunca falei tantas palavras de uma só vez em toda a minha vida, então fique à vontade para me sacrificar agora.

— Não, não — Harry diz, tropeçando na própria língua com a pressa. — Que bom que você me contou. Está se sentindo melhor agora que falou?

Draco fica em silêncio, e Harry quer muito ver as sombras de expressões perpassando o rosto dele, ser capaz de tocar nelas com as pontas dos dedos. Harry escuta Draco engolir em seco do outro lado da linha antes de dizer:

— Acho que sim. Obrigado. Por ouvir.

— Claro, sem problema — Harry diz. — Quer dizer, é bom ter vezes em que nem tudo gira em torno de mim, por mais entediante e exaustivo que possa ser.

Ele ouve um resmungo e contém um sorriso quando Draco diz:

— Você é um cuzão.

— Sim, sim — Harry diz, e aproveita a oportunidade para fazer uma pergunta que quer fazer há meses. — Então, hm. Mais alguém da sua família sabe? Sobre você?

— Pans é a única da família para quem eu contei, embora eu tenha certeza que o resto desconfie. Eu sempre fui um pouco diferente, nunca fui muito machão. Acho que meu pai sabia e nunca se importou. Mas a vovó sentou comigo no dia em que terminei o ensino médio e deixou perfeitamente claro que eu não deveria deixar que ninguém soubesse sobre quaisquer desejos desviantes que eu pudesse estar começando a nutrir que refletissem mal sobre a coroa, e que havia meios apropriados para manter as aparências se necessário. Então.

O estômago de Harry se revira. Ele imagina Draco, um adolescente devastado pelo luto tendo de ouvir que precisava se esconder.

— Mas que merda. Sério?

— As maravilhas da monarquia — Draco diz com a voz imponente.

— Meu Deus. — Harry passa a mão no rosto. — Tive que fingir umas merdas pela minha mãe, mas ninguém nunca me falou diretamente pra mentir sobre quem eu sou.

— Não acho que ela veja como mentira. Ela vê como fazer o que deve ser feito.

— Que bosta.

Draco suspira.

— Não restam muitas opções, né?

Há uma pausa longa, e Harry está pensando em Draco em seu palácio, Draco e os anos atrás dele, como chegou até aqui. Ele morde o lábio.

— Ei — Harry diz. — Me conta do seu pai.

Outra pausa.

— Como é?

— Assim, se você não… se você quiser. Só estava pensando que não sei muito sobre ele exceto que ele era o James Bond. Como ele era?

Harry anda pelo Solário e escuta Draco contar histórias sobre um homem com o mesmo cabelo cor de areia e o mesmo nariz forte e reto de Draco, alguém que Harry conheceu pelas sombras que perpassam a maneira como Draco fala, se move e ri. Ele ouve sobre Draco saindo às escondidas do palácio e viajando para o interior, aprendendo a velejar, sendo colocado em cadeiras de diretores. O homem de que Draco se lembra é ao mesmo tempo sobre-humano e tão de carne e osso que parte o coração, um homem que abrangeu toda a infância de Draco e encantou o mundo, mas também era simplesmente um homem.

A maneira como Draco fala sobre ele é uma proeza física, flutuando nos cantos pelo carinho, mas cedendo no meio sob o peso. Ele conta a Harry com a voz baixa sobre como seus pais se conheceram — a princesa Narcissa, determinada a ser a primeira princesa com um doutorado, estudando Shakespeare aos vinte e poucos anos. Que ela foi ver Henrique V na Royal Shakespeare Company e Lucius estava estrelando, que ela conseguiu entrar nos bastidores e deu um perdido nos seguranças para desaparecer em Londres com ele e dançar a noite toda. Que a rainha proibiu, mas ela se casou com ele mesmo assim.

Ele conta a Harry sobre como foi crescer em Kensington, como Pans cantava e Arcturus se grudava à avó, mas eles eram felizes, vestidos de caxemira e meias até os joelhos e levados por países estrangeiros em helicópteros e carros brilhantes. Um telescópio de latão do seu pai no aniversário de sete anos. Como se deu conta aos quatro anos de que todas as pessoas no país sabiam o nome dele, e como ele disse à mãe que achava que não queria isso, e ela se ajoelhou e disse a ele que não deixaria que nenhum mal, jamais, encostasse nele.

Harry começa a falar também. Draco já ouve quase tudo sobre a vida atual de Harry, mas falar sobre a infância deles sempre foi uma linha de demarcação invisível. Ele conta sobre o Condado de Travis, sobre fazer cartazes de campanha em cartolina para o conselho estudantil do quinto ano, sobre as viagens de família a Surfside, sobre correr de cara nas ondas. Fala sobre a grande janela saliente na casa onde cresceu, e Draco não diz que ele é louco por todas as coisas que ele costumava escrever e esconder embaixo dela.

Começa a escurecer lá fora, uma noite opaca e úmida em volta da Residência, e Harry desce para o quarto e vai para a cama. Ele escuta sobre a série de meninos dos tempos de universidade de Draco, todos apaixonados pela ideia de transar com um príncipe, quase todos imediatamente afastados pela papelada e pelo sigilo e, ocasionalmente, os humores sombrios de Draco sobre a mesma papelada e o mesmo sigilo.

— Mas, claro, é… — Draco diz. — Ninguém desde que… bom, desde que eu e você…

— Não — Harry diz, mais rápido do que imagina —, eu também não. Mais ninguém.

Ele ouve palavras saírem de sua boca, palavras que não acredita que está dizendo em voz alta. Sobre Dean, sobre aquelas noites, mas também sobre roubar comprimidos do frasco de ritalina de Dean quando suas notas estavam caindo e ficar acordado por dois, três dias seguidos. Sobre Hermione, o conhecimento tácito de que ela só mora ali para ficar de olho nele, a sensação silenciosa de culpa que ele carrega quando não consegue se afastar. Sobre o quanto as mentiras que as pessoas contam sobre sua mãe machucam, o medo de ela perder.

Eles conversam por tanto tempo que Harry precisa conectar o carregador para a bateria do celular não acabar. Ele vira de lado e escuta, passa o dorso da mão no travesseiro e imagina Draco deitado de frente para ele, dois parênteses cercando seis mil quilômetros. Ele olha para as cutículas roídas e imagina Draco ali sob seus dedos, falando a poucos centímetros de distância. Imagina como o rosto dele ficaria no escuro cinza-azulado. Talvez tivesse uma barba rala no queixo, à espera do barbear matinal, ou talvez suas olheiras se apagassem sob a luz fraca.

Misteriosamente, essa é a mesma pessoa para quem Harry tinha tanta certeza que não dava a mínima, que ainda consegue convencer o mundo de que é um Príncipe Encantado tranquilo e sem problemas. Levou meses para chegar aqui: a compreensão plena de como ele estava enganado.

— Estou com saudades — Harry diz antes de conseguir se conter.

Ele se arrepende imediatamente, mas Draco responde:

— Eu também.

 

— Ei, espera.

Harry rola a cadeira para fora de seu cubículo. A mulher da limpeza do turno da noite para, segurando a alça da cafeteira.

— Sei que parece nojento, mas pode deixar aí? Eu ia terminar isso.

Ela lança um olhar desconfiado mas deixa os vestígios queimados e pegajosos de café onde estão e sai com seu carrinho.

Ele baixa os olhos para sua caneca de EVANS PARA PRESIDENTA e franze a testa para o leite de amêndoa que se acumulou no meio. Por que este gabinete não tem leite normal? É por isso que o povo do Texas odeia as elites de Washington. Destruindo a bendita indústria de laticínios.

Em sua mesa, há três pilhas de papéis. Ele fica olhando para eles, na esperança de que, se os repetir de cor vezes o suficiente, vai encontrar um jeito de sentir que fez o bastante.

Um. O Arquivo das Armas. Um índice detalhado de todas as armas absurdas que os norte-americanos podem possuir e as regulamentações de cada estado, que ele precisa analisar para uma pesquisa sobre uma nova série de políticas federais relativas a fuzis de assalto. A pasta está com uma mancha gigante de molho de pizza de tanto que o faz comer por estresse.

Dois. O Arquivo de Parceria Transpacífica, em que ele sabe que precisa trabalhar, mas no qual mal encostou porque é tão entediante que o deixa zonzo.

Três. O Arquivo do Texas.

Não era para ele ter esse arquivo. Não foi o chefe de gabinete de políticas públicas nem ninguém da campanha quem o deu para ele. Não é sequer sobre política pública. É mais um fichário do que um arquivo. Ele pensa que deveria chamá-lo de: o Fichário do Texas.

O Fichário do Texas é o seu bebê. Ele o guarda com zelo, enfiando-o na bolsa a tiracolo para levar para casa quando sai do gabinete e o escondendo do Colin de Boston. Contém um mapa dos condados do Texas com análises demográficas complexas dos eleitores, ao lado das populações de filhos de imigrantes sem documentos, eleitores não registrados que são residentes legais, padrões de votação ao longo dos últimos vinte anos. Ele o encheu de planilhas de dados, registros de votação, projeções que pediu para Ginny calcular.

Em 2016, quando sua mãe ganhou a eleição geral por muito pouco, o gosto mais amargo foi perder o Texas. Ela foi a primeira presidente desde Nixon a conquistar a presidência mas perder em seu próprio estado de residência. Não foi exatamente uma surpresa, considerando que as pesquisas já vinham indicando o voto do Texas na chapa republicana, mas todos torciam em segredo para que a Cometa de Lometa ganhasse no fim. Não aconteceu.

Harry sempre volta aos números de 2016 e 2018, zona eleitoral por zona eleitoral, e não consegue abandonar a sensação incômoda de esperança. Existe algo ali, algo mudando, ele tem certeza disso.

Não que ele seja ingrato pelo cargo no gabinete de políticas públicas, é só que… não é o que ele esperava. É frustrante e lento. Harry deveria se manter concentrado, dar um tempo, mas, em vez disso, sempre volta para o fichário.

Ele pega um lápis do estojo de Harvard do Colin de Boston e começa a esboçar linhas no mapa do Texas pela milionésima vez, reorganizando os distritos que homens velhos brancos traçaram anos atrás para forçar os votos na direção deles.

Harry tem essa centelha de fazer o máximo que pode e, quando passa horas por dia sentado em um cubículo se preocupando com minúcias, não sabe se está realmente dando o melhor de si. Mas, se ele conseguir encontrar um jeito de fazer o voto do Texas refletir a alma daquele estado… ele está longe de ter a qualificação para desmantelar sozinho as cortinas de ferro da manipulação de votos texana, mas e se ele…

Uma vibração incessante o traz de volta ao presente, e ele tira o celular do fundo da bolsa.

— Cadê você? — a voz de Hermione pergunta do outro lado da linha.

Merda. Ele olha a hora: 9h44. Ele tinha marcado de encontrar Hermione para jantar mais de uma hora atrás.

— Merda, Hermione, foi mal — ele diz, pulando da cadeira e enfiando as coisas na bolsa. — Estava concentrado no trabalho… Eu, eu me esqueci completamente.

— Eu te mandei um milhão de mensagens — ela diz. Ela fala como se estivesse planejando o velório dele.

— Meu celular estava no silencioso — ele diz, desesperado, correndo para o elevador. — Me desculpa de verdade. Sou um babaca completo. Estou saindo agora.

— Não se preocupa — ela diz. — Pedi o meu pra viagem. Te vejo em casa.

— Mione.

— Preciso que você não me chame assim agora.

— Hermione…

Ela desliga.

Quando ele volta para a Residência, ela está sentada na cama, comendo macarrão de um pote de plástico, com Parks & Recreation passando no tablet. Ela faz questão de ignorá-lo quando ele chega à porta.

Ele pensa em quando eles eram crianças — por volta de oito e onze anos. Ele se lembra de parar ao lado dela diante do espelho do banheiro, olhando para as semelhanças entre seus rostos: as mesmas pontas arredondadas do nariz, as mesmas sobrancelhas grossas e rebeldes, o mesmo queixo quadrado herdado da mãe. Ele se lembra de estudar a expressão dela no reflexo enquanto escovavam os dentes, a manhã do primeiro dia de aula, o pai deles fizera tranças no cabelo de Hermione porque sua mãe estava em Washington.

Ele reconhece a mesma expressão no rosto dela agora: decepção cuidadosamente disfarçada.

— Desculpa — ele tenta de novo. — Juro que me sinto um lixo total e absoluto. Por favor, não fica brava comigo.

Hermione continua mastigando, o olhar fixo na fala de Leslie Knope.

— Podemos almoçar amanhã — Harry diz, desesperado. — Eu pago.

— O problema não é a porra da comida, Harry.

Harry suspira.

— Então o que você quer que eu faça?

— Quero que você não aja como a mamãe — Hermione diz, finalmente erguendo os olhos para ele. Ela fecha o pote de comida e levanta da cama, andando pelo quarto.

— Certo — Harry diz, erguendo as duas mãos —, é isso o que está rolando agora?

— Eu… — Ela respira fundo. — Não. Eu não deveria ter dito isso.

— Não, você obviamente quis dizer isso — Harry diz. Ele põe a bolsa no chão e entra no quarto. — Por que você não fala de uma vez o que está pensando?

Ela vira para encará-lo, os braços cruzados, a coluna apoiada contra a cômoda.

— Você realmente não enxerga? Você nunca dorme, está sempre mergulhando em alguma coisa, deixa a mamãe te usar para tudo que ela quer, os tabloides vivem atrás de você…

— Hermione, eu sempre fui assim — ele a interrompe com a voz suave. — Eu vou ser um político. Você sempre soube disso. Vou começar assim que me formar, em um mês. É assim que vai ser minha vida, tá? Essa é a minha escolha.

— Bom, talvez seja a escolha errada — Hermione diz, mordendo o lábio.

Ele recua.

— De onde é que isso está vindo?

— Harry — ela diz —, você sabe.

Ele não sabe aonde ela quer chegar.

— Você sempre me apoiou até agora.

Ela ergue o braço de maneira tão enfática que chacoalha um vaso de cacto em cima da cômoda e diz:

— Porque até agora você não estava trepando com o príncipe da Inglaterra!

Isso consegue fazer Harry calar a boca. Ele caminha até a área de estar na frente da lareira, se afundando em uma poltrona. Hermione o observa, as bochechas num vermelho vivo.

— Ginny te contou.

— Quê? — ela diz. — Não. Ela nunca faria isso. Mas que é uma bosta que você tenha contado pra ela, e não pra mim, isso é. — Ela cruza os braços de novo. — Desculpa, estava tentando esperar que você mesmo me contasse, mas, meu Deus, Harry. Quantas vezes eu tinha de fingir que acreditava que você estava se oferecendo para fazer aquelas aparições internacionais de que vivia tentando fugir? E, tipo, você esqueceu que eu moro do outro lado do corredor desde que a gente era criança?

Harry baixa os olhos, encara o tapete dos anos 50 perfeitamente escolhido por Hermione.

— Então você está brava comigo por causa do Draco?

Hermione solta um barulho sufocado e, quando ele volta a erguer os olhos, ela está revirando a gaveta de cima da cômoda.

— Ai, meu Deus, como você consegue ser tão inteligente e tão burro ao mesmo tempo? — ela diz, tirando uma revista de baixo das calcinhas e sutiãs. Harry está prestes a dizer que não está a fim de ler os tabloides quando ela joga a revista para ele.

Uma edição antiga da J14, aberta em uma página do centro. A foto de Draco, aos treze anos de idade.

Ele ergue os olhos.

— Você sabia?

— É claro que eu sabia! — ela diz, se afundando dramaticamente na poltrona diante dele. — Você vivia deixando marcas dos seus dedinhos gordurosos nela! Por que sempre parte do princípio de que nunca vai ser pego? — Ela solta um suspiro sôfrego. — Eu nunca… entendi de verdade o que ele era pra você, até que entendi. Eu achava que era só uma paixonite ou coisa assim, ou que eu poderia te ajudar a fazer um amigo, mas, Harry. Nós conhecemos tanta gente. Tipo, milhares e milhares de pessoas, e muitas delas são idiotas, e muitas são incríveis e especiais, mas quase nunca conheci alguém que combinasse com você. Sabia? — Ela se debruça e toca o joelho dele, as unhas cor-de-rosa em sua chino azul-marinho. — Você tem tanta coisa aí dentro que é impossível combinar. Mas ele combina, seu idiota.

Harry a encara, tentando processar o que ela disse.

— Estou com a impressão que você está projetando suas fantasias românticas em mim — é o que ele decide dizer, e ela tira a mão da sua perna na mesma hora e volta a olhar feio para ele.

— Você sabia que não foi o Ronald que terminou comigo? — ela diz. — Eu terminei com ele. Eu ia para a Califórnia com ele, morar no mesmo fuso horário que o papai, conseguir uma porra de um emprego no Sacramento Bee ou coisa assim. Mas desisti de tudo pra vir pra cá, porque era a coisa certa a fazer. Fiz o que o nosso pai fez… fui aonde eu era mais necessária, porque era minha responsabilidade.

— E você se arrepende?

— Não — ela diz. — Não sei. Acho que não. Mas eu… fico pensando como seria. Nosso pai fica pensando como seria às vezes. Harry, para de ficar pensando. Você não precisa ser como os nossos pais. Pode ficar com Draco, e descobrir o resto depois. — Agora ela está olhando nos seus olhos, com firmeza. — Às vezes você se pressiona demais sem motivo. Vai acabar se esgotando desse jeito.

Harry se recosta, passando o polegar na costura do braço da poltrona.

— Então, o quê? — ele pergunta. — Quer que eu largue a política e vire uma princesa? Isso não é muito feminista da sua parte.

— Não é assim que feminismo funciona — ela diz, revirando os olhos. — E não foi isso o que eu quis dizer. Quis dizer que… sei lá. Você já considerou que talvez exista mais do que um único caminho para usarmos aquilo que temos? Ou chegar aonde você quer chegar para fazer mais diferença no mundo?

— Não sei se estou entendendo.

— Bom. — Ela baixa os olhos para as próprias unhas. — É como o lance todo do Sacramento Bee… nunca teria dado certo. Era um sonho que eu tinha antes da mamãe virar presidenta. O tipo de jornalismo que eu queria fazer é basicamente o tipo de jornalismo que uma primeira-filha não tem o direito de fazer. Mas o mundo é melhor com ela ocupando esse lugar, então estou procurando um novo sonho que seja melhor também. — Seus grandes olhos verdes da família Evans se erguem para ele. — Então, não sei. Talvez haja mais do que um sonho para você, ou mais de uma maneira de realizá-lo.

Ela encolhe um ombro, virando a cabeça para olhar para ele com franqueza. Hermione é quase sempre um mistério, uma grande bola de emoções e motivações complexas, mas seu coração é honesto e verdadeiro. Ela é basicamente a ideia santificada que Harry tem de uma pessoa sulista em seu melhor: sempre generosa, afetuosa e sincera, trabalhadora e confiável, uma luz na escuridão. Ela quer o melhor para ele, pura e simplesmente, de um jeito nada egoísta ou calculista. Ele percebe que faz um tempo que ela está tentando começar essa conversa.

Ele baixa os olhos para a revista, sente o canto de sua boca se erguer. Ele não acredita que Hermione a guardou por todos esses anos.

— Ele parece tão diferente — ele diz depois de um longo minuto, admirando o filhote de Draco na página e sua segurança tranquila e infantil. — Quero dizer, tipo, óbvio. Mas a maneira como ele se porta. — Seus dedos passam pela página no mesmo lugar em que passavam quando ele era novo, sobre o cabelo dourado pelo sol, com a diferença de que agora ele conhece a textura exata. É a primeira vez que ele vê essa versão de Draco desde que descobriu onde ela foi parar. — Me irrita às vezes pensar em tudo que ele passou. Ele é uma boa pessoa. Ele se importa, se esforça. Ele nunca mereceu nada daquilo.

Hermione se inclina para a frente, olhando para a foto também.

— Você já falou isso para ele?

— Nós não… — Harry tosse. — Não sei. Não falamos dessas coisas?

Hermione inspira fundo e faz um barulho de pum enorme com a boca, quebrando o clima sério, e Harry fica tão grato por isso que se derrete no chão em um ataque de riso histérico.

— Argh! Homens! — ela resmunga. — Nenhum vocabulário emocional. Não acredito que nossos ancestrais sobreviveram a séculos de guerras, pragas e genocídios só para acabar com um imprestável como você. — Ela joga uma almofada nele, e Harry ri e grita quando ela cai na sua cara. — Você deveria tentar falar essas coisas pra ele.

— Para de tentar bancar a Jane Austen com a minha vida! — ele grita em resposta.

— Escuta, não é culpa minha que ele é um jovem príncipe misterioso e retraído e você é um rebelde charmoso que chamou a atenção dele, tá?

Ele ri e tenta rastejar para longe, enquanto ela o puxa pelo tornozelo e bate outra almofada na cabeça dele. Ele ainda se sente culpado por dar um bolo nela, mas acha que fizeram as pazes agora. Ele vai melhorar. Eles disputam um lugar na cama de dossel enorme dela, e ela o obriga a contar como é dormir em segredo com um príncipe de verdade. E assim Hermione sabe; ela sabe sobre ele, o abraça e não se importa. Ele não tinha se dado conta de como estava apavorado que ela soubesse até o medo passar.

Ela volta a colocar Parks & Recreation no tablet e pede para a cozinha trazer sorvete, e Harry pensa no que ela disse: “Você não precisa ser como os nossos pais” — ela nunca tinha mencionado o pai deles no mesmo contexto que a mãe dessa forma. Ele sempre soube que parte dela guardava rancor da mãe pela posição que eles ocupam no mundo, por não terem uma vida normal, por se afastar dos dois. Mas ele nunca se tocou que ela tinha a mesma sensação de perda que ele guarda no fundo pelo pai, que é algo com que ela já lidou e superou. Que a história com a mãe é algo pelo qual ela ainda está passando.

Ele pensa que ela está errada em relação a ele, em boa parte — ele não acredita necessariamente que precise escolher entre a política e esse lance com Draco ainda, ou que está avançando rápido demais na carreira. Mas… tem o Fichário do Texas, e saber de outros estados e milhões de outras pessoas que precisam de alguém que lute por elas, e a sensação no fundo do seu ser de que existe muita força dentro dele que poderia ser aperfeiçoada para lutar por algo mais produtivo.

Tem a faculdade de direito.

Toda vez que ele olha para o Fichário do Texas, ele sabe que seria um belo argumento para ele fazer o maldito vestibular de direito como seus dois pais querem em vez de deixarem que ele entre de cabeça na política. Ele sempre, sempre se recusou. Ele não espera pelas coisas. Não perde tempo dessa forma, não faz o que mandam.

Ele nunca parou para pensar muito nas opções além de um caminho de triunfo à frente dele. Talvez ele devesse.

— Agora é um bom momento para comentar que o melhor amigo gato e riquíssimo do Draco está apaixonado por você? — Harry diz a Hermione. — Ele é basicamente um filantropo bilionário genial e meio doidinho. Pensei que seria seu tipo.

— Por favor, cala a boca — ela diz, e pega o sorvete de volta.

Depois de Hermione, o círculo de pessoas que sabem chega a sete.

Antes de Draco, a maioria de seus envolvimentos românticos como primeiro-filho eram incidentes casuais que envolviam King ou Dora confiscando celulares antes do ato e apontando para a linha pontilhada do termo de confidencialidade na saída — Dora com um profissionalismo mecânico, King com o ar de um diretor de cruzeiro. Era inevitável que eles ficassem sabendo.

E tem o Shaan, o único dos funcionários da realeza que sabe que Draco é gay, tirando seu terapeuta. No fundo, Shaan não se importa com as preferências sexuais de Draco desde que elas não lhe arranjem problemas. Ele é um profissional consumado de terno Tom Ford perfeitamente ajustado, que não se deixa perturbar por nada, cujo afeto por seu protegido é expresso na maneira como ele cuida de uma planta favorita. Shaan sabe pelo mesmo motivo que Dora e King: absoluta necessidade.

Também tem Ginny, que ainda faz uma cara presunçosa toda vez que o assunto vem à tona. E Pans, que descobriu quando apareceu em uma de suas sessões de FaceTime tarde da noite, deixando Draco gaguejando palavras britânicas com uma expressão catatônica por um dia e meio.

Blás parece saber do segredo desde o começo. Harry imagina que ele tenha exigido uma explicação quando Draco literalmente os fez fugir do país na calada da noite depois de enfiar a língua na boca de Harry no jardim Kennedy.

É Blás quem atende quando Harry liga para Draco pelo FaceTime às quatro da madrugada no horário de Washington, pensando que encontraria Draco no seu chá matinal. Draco está passando o feriado em uma das casas da família no interior enquanto Harry se sufoca sob as últimas semanas da faculdade. Ele não reflete sobre por que sua enxaqueca exige imagens relaxantes de Draco em um ambiente aconchegante e pitoresco, tomando chá ao pé de uma colina verde e viçosa. Apenas aperta os botões do celular.

— Harry, querido — Blás diz ao atender. — Que simpático você dar um alô para sua tia Blaisie nesta maravilhosa manhã de domingo. — Ele está sorrindo, sentado no que parece o banco de passageiro de um carro de luxo, vestindo um chapéu de sol grande e caricato e uma pashmina listrada.

— Oi, Blás — Harry diz, sorrindo em resposta. — Onde vocês estão?

— Saímos para dar uma volta, admirar a paisagem de Carmarthenshire — Blás responde. Ele vira o celular na direção do motorista. — Diz bom-dia para a sua amante, Draco.

— Bom dia, amante — Draco diz, tirando os olhos da estrada para piscar para a câmera. Ele parece renovado e relaxado, as mangas de linho cinza-claro arregaçadas, e Harry se sente mais calmo em saber que, em algum lugar de Gales, Draco conseguiu uma boa noite de sono. — O que fez você ficar acordado até as quatro da manhã dessa vez?

— Minha porra de prova final de economia — Harry diz, virando para o lado para olhar para a tela. — Meu cérebro não está funcionando mais.

— Você não pode arranjar um daqueles pontos do Serviço Secreto com Ginny do outro lado?

— Posso fazer a prova por você — Blás intervém, virando a câmera de volta para ele. — Eu manjo tudo de dinheiro.

— Sim, sim, Blás, sabemos que você não tem limites — diz a voz de Draco fora da câmera. — Não precisa jogar na cara.

Harry ri baixo. Pelo ângulo em que Blás está segurando o celular, ele consegue ver Gales passando pela janela do carro, a paisagem íngreme e escarpada.

— Ei, Draco, fala de novo o nome da casa em que você está ficando.

Blás volta a câmera para o sorrisinho de Draco.

— Llwynywermod.

— De novo.

— Llwynywermod.

Harry grunhe.

Jesus.

— Estava torcendo para vocês dois começarem a falar sacanagem — Blás diz. — Por favor, continuem.

— Não acho que você conseguiria acompanhar nosso ritmo, Blás — Harry diz.

— Ah, é mesmo? — A imagem volta para Blás. — E se eu colocar meu pa…

— Blás — surge a voz de Draco, e uma mão com um anel de sinete no mindinho cobre a boca de Blás. — Eu imploro. Harry, que parte de “ele não tem limites” você achou que valeria a pena testar? Sinceramente, você vai acabar matando todos nós.

— É esse o objetivo — Harry diz, com um sorriso. — Então, o que vocês vão fazer hoje?

Blás lambe a palma da mão de Draco para se libertar e continua a falar.

— Rolar pelados nas colinas, assustar ovelhas, voltar para casa para o de sempre: chá, biscoitos, nos prender nas algemas do amor para nos lamentar sobre os irmãos Evans-Potter, o que tragicamente virou unilateral desde que Draco ficou com você. Antes eram várias garrafas de conhaque, sofrimento compartilhado e “Quando eles vão nos notar”…

— Não conta isso para ele!

— … e agora só fico perguntando para o Draco: “Qual é o seu segredo?”. E ele diz: “Eu ofendo Harry o tempo todo e parece funcionar”.

— Vou dar meia-volta com esse carro.

— Isso não vai funcionar com a Hermione — Harry diz.

— Deixe-me pegar uma caneta…

Ele descobre que os dois estão passando a viagem trabalhando em projetos de filantropia. Faz meses que Draco está contando a Harry sobre os planos deles de se internacionalizarem, e agora estão discutindo três programas para refugiados na Europa Ocidental, clínicas para HIV em Nairóbi, abrigos para jovens LGBT em diversos países. É ambicioso, mas como Draco ainda está decidido a cobrir todas as suas despesas com a herança do pai, suas contas reais estão intocadas. Ele está determinado a usá-las apenas para isso.

Harry se deita abraçado ao celular e ao travesseiro quando o sol nasce em Washington. Ele sempre quis ser uma pessoa com um legado neste mundo. Sem dúvida alguma, Draco é isso. É um pouco inebriante. Mas tudo bem. Ele só está zonzo de sono.

 

No fim, as provas finais passam com muito menos alarde do que Harry imaginava. É uma semana de estudos e apresentações, com a quantidade habitual de noites em claro, e logo acaba.

Toda a faculdade foi assim. Ele não chegou a ter as experiências que os outros tiveram, sempre isolado pela fama ou cercado por seguranças. Ele não foi carimbado na testa no seu aniversário de vinte e um anos no The Tombs, nunca pulou na Dalhgren Fountain. Às vezes é como se mal tivesse frequentado a Universidade Georgetown, apenas atravessado uma série de palestras que, por acaso, aconteciam na mesma área geográfica.

De todo modo, ele se forma, e todo o auditório o aplaude de pé, o que é estranho, mas até que é legal. Uma dezena de colegas quer tirar fotos com ele depois. Todos sabem seu nome. Ele nunca falou com nenhum deles antes. Ele sorri para os iPhones dos pais deles e se pergunta se deveria ter tentado se enturmar mais.

Harry Evans-Potter se forma summa cum laude na Universidade de Georgetown com um bacharelado em administração pública, dizem seus alertas do Google quando ele olha o celular no banco de trás da limusine antes mesmo de tirar o capelo e a beca.

Há uma festa enorme no jardim da Casa Branca, e Ginny está lá de vestido, blazer e um sorriso maroto, dando um beijo na bochecha de Harry.

— O caçula do Trio da Casa Branca finalmente se forma — ela diz, sorrindo. — E nem precisou subornar nenhum professor com favores políticos ou sexuais para fazer isso.

— Acho que alguns deles finalmente vão poder parar de ter pesadelos comigo — Harry diz.

— Vocês têm uma relação estranha com a faculdade — Hermione diz, chorando um pouquinho.

Há um misto de agentes políticos importantes e amigos da família presentes — incluindo Cedric Diggory, que se encaixa em ambas as categorias. Harry o avista com o rosto cansado e bonito perto do ceviche, em uma conversa animada com o avô de Ginny, o vice. Seu pai veio da Califórnia, recém-bronzeado por causa de uma trilha que acabou de fazer através do parque Yosemite, sorrindo com orgulho. Minerva dá um cartão para ele que diz “Parabéns por não fazer mais do que sua obrigação” e quase o empurra na tigela de ponche quando ele tenta abraçá-la.

Depois de uma hora, seu celular vibra no bolso, e Hermione faz uma cara meio feia quando ele desvia a atenção no meio da frase para ver. Ele está prestes a ignorar, mas, ao seu redor, vários iPhones e Blackberries estão sendo tirados do bolso com agitação.

É o Colin de Boston: Jacinto acabou de convocar uma coletiva, boatos de que vai retirar a candidatura para as primárias, ou seja, é oficialmente Evans vs. Riddle 2020.

— Caralho — Harry diz, virando o celular para mostrar a mensagem para Hermione.

— Já era a festa — ela diz, e tem razão. Em questão de segundos, metade das mesas estão vazias à medida que os funcionários da campanha e congressistas deixam suas cadeiras para se agrupar em torno dos celulares.

— Isso é um pouco dramático — Ginny comenta, tirando uma azeitona com os dentes da ponta de um palito. — Todos sabíamos que ele acabaria dando a indicação para Riddle. Devem ter colocado o Jacinto em uma sala sem janelas e apertado o pau dele com uma prensa até ele ceder.

Harry não escuta o que Ginny diz em seguida porque uma movimentação perto das portas do Salão das Palmeiras no canto do jardim chama sua atenção. É o seu pai, puxando Diggory pelo braço. Eles desaparecem por uma porta lateral, na direção do gabinete da governanta.

Ele deixa seu champanhe com as meninas e traça um caminho sinuoso em direção ao Salão das Palmeiras, fingindo olhar o celular. Depois de refletir se a bronca que vai levar da equipe da lavanderia vale a pena, ele se esconde no meio dos arbustos.

A terceira vidraça inferior na parede sul do gabinete da governanta está frouxa. Fica ligeiramente saltada, de modo que sua vedação à prova de balas e de som não está totalmente intacta. Existem três vidraças assim na Residência. Ele as descobriu durante seus primeiros seis meses na Casa Branca, antes de Hermione se formar e de Ginny ser transferida, quando ele estava sozinho, sem nada melhor para fazer do que esses pequenos projetos investigativos pelo terreno.

Ele nunca contou a ninguém sobre as vidraças frouxas; sempre desconfiou que poderiam vir a ser úteis algum dia.

Harry se agacha e vai se aproximando da janela, seus mocassins se enchendo de terra, na esperança de ter acertado o destino deles, até finalmente encontrar a vidraça que está procurando. Ele se debruça, tenta aproximar a orelha o máximo possível. Apesar do som do vento farfalhando os arbustos ao seu redor, ele consegue ouvir duas vozes baixas e tensas.

— … caramba, James — diz uma voz, em espanhol. Diggory. — Você contou para ela? Ela sabe que você está me pedindo para fazer isso?

— Ela é cuidadosa demais — diz a voz do seu pai. Ele também está falando em espanhol, uma precaução que os dois tomam às vezes quando estão com medo de serem ouvidos. — Às vezes é melhor que ela não saiba.

Há o som de uma expiração silvada, pés se agitando.

— Não vou agir pelas costas dela para fazer algo que nem quero.

— Você quer me dizer que, depois do que Riddle fez com você, não tem vontade nenhuma de jogar essa merda toda no ventilador?

— Jesus, James, claro que tenho — Diggory diz. — Mas eu e você sabemos que não é tão simples assim, porra. Nunca é.

— Escuta, Ced. Sei que você guardou os arquivos sobre tudo. Você nem precisa fazer uma declaração. Você poderia vazar para a imprensa. Quantos outros jovens você não acha que foram…

— Não começa.

— … e quantos mais não vão ser…

— Você não acha que ela pode vencer por conta própria, acha? — Diggory o interrompe. — Você ainda não confia nela, mesmo depois de tudo.

— A questão não é essa. Dessa vez é diferente.

— Por que você não me deixa em paz e não mistura algo que aconteceu vinte anos atrás, porra, com seus sentimentos mal resolvidos pela sua ex e se concentra em vencer essa maldita eleição, James? Eu não…

Diggory se interrompe por causa do barulho da maçaneta, alguém entrando nos gabinetes.

James fala em um inglês rápido, dando a desculpa de estar discutindo um projeto de lei, depois diz a Diggory em espanhol:

— Só considera.

Há sons abafados de James e Diggory saindo do gabinete, e Harry senta na terra vegetal, se perguntando do que é que ele não ficou sabendo.

 

Começa com um evento beneficente, um terno de seda e um cheque de respeito, uma bela festa de gala. Começa, como sempre, com uma mensagem: Evento beneficente em Los Angeles no fim de semana. Blás diz que vai comprar quimonos bordados combinando para todos nós. Coloco você + 2 na lista?

Ele almoça com seu pai, que muda descaradamente de assunto toda vez que Harry comenta sobre Diggory e, depois, vai para o baile de gala, onde é apresentado a Pans pela primeira vez. Ela é muito mais baixa do que Draco, mais até do que Hermione, com a língua afiada de Draco, o cabelo loiro e o rosto triangular da mãe. Ela está usando uma jaqueta de couro sobre o vestido de gala e tem uma leve postura, que ele vê em sua própria mãe, de ex-fumante inveterada. Ela abre um sorriso grande e travesso para Harry, e ele se identifica com ela imediatamente: outra jovem rebelde.

São muitas taças de champanhe, apertos de mão e um discurso de Blás, encantador como sempre, e, assim que acaba, suas equipes de segurança se reúnem na saída e eles vão embora.

Como prometido, Blás deixou seis quimonos de seda combinando à espera na limusine, cada um com um bordado diferente nas costas com uma brincadeira de um nome de filme. O de Harry é um verde-água claro e diz PUTO DAMERON. O verde-limão de Draco diz PRINCESO PROMETIDO.

Eles vão parar em algum lugar de West Hollywood, em um caraoquê reluzente que, por algum motivo, Blás conhece, com tantas luzes de néon que parece natural, embora King e o restante da equipe de segurança tenham passado a última hora e meia verificando o local e alertando para as pessoas não tirarem fotos. A pessoa que trabalha no bar usa um batom rosa e tem a barba rala visível apesar do reboco de maquiagem, e eles logo pedem cinco doses e uma soda com limão.

— Ai, caramba — Draco diz, olhando seu copo vazio. — O que tinha nisso? Vodca?

— Isso — Ginny confirma, ao que Blás e Pans desatam a rir.

— Que foi? — Harry diz.

— Ah, eu não tomo vodca desde a universidade — Draco diz. — Costuma me deixar, é… Bom…

— Extravagante? — Blás propõe. — Desinibido? Tarado?

— Divertido? — Pans sugere.

— Como é? Eu sou muito divertido o tempo todo! Eu sou uma graça!

— Oi, com licença, pode mandar outra rodada, por favor? — Harry pede para o bar.

Pans grita, Draco ri e aponta o dedo para ele, e tudo fica turvo e quente como Harry adora. Todos sentam trôpegos em uma mesa redonda, as luzes estão baixas, e ele e Draco estão mantendo uma distância segura, mas Harry não consegue deixar de olhar para os raios de efeitos especiais refletidos nas maçãs do rosto dele, cobrindo seu rosto com tons de azul e verde. Ele é de outro mundo — meio bêbado e sorridente usando um terno de dois mil dólares e um quimono, e Harry não consegue tirar os olhos dele. Então pede uma cerveja.

Depois que as coisas começam a fluir, é impossível saber como Pans é a primeira a ser convencida a subir ao palco, mas ela tira uma coroa de plástico do baú de adereços e arrasa em uma versão de “Call Me” do Blondie. Eles todos assobiam e gritam e o público do bar finalmente se dá conta de que tem dois membros da família real, um filantropo milionário e o Trio da Casa Branca ao redor de uma mesa ensebada usando um arco-íris de seda vívida. Surgem três rodadas de doses — uma de uma despedida de solteira bêbada, uma de um grupo de lésbicas mal-encaradas no balcão, e uma de uma mesa de drag queens. Eles fazem um brinde, e Harry se sente mais bem recebido do que nunca, mais até do que nos comícios de vitória de sua família.

Blás levanta e se lança em “So Emotional” de Whitney Houston com um falsete surpreendentemente impecável que deixa todo o bar em pé em questão de segundos, gritando em aprovação enquanto ele atinge notas gloriosas. Harry olha com um fascínio embriagado para Draco, que ri e encolhe os ombros.

— Falei que ele não tem limites — ele grita mais alto que o barulho.

Hermione está assistindo a toda a apresentação com as mãos no rosto, boquiaberta, e se aproxima de Ginny e grita, embriagada:

— Ah, não… ele é… tão… gostoso…

— Eu sei, gata — Ginny grita em resposta.

— Eu quero… enfiar os dedos na boca dele… — ela grunhe, com a voz horrorizada.

Ginny ri e concorda com a cabeça e diz:

— Posso ajudar?

Pans, que já tomou cinco sodas com limão diferentes até agora, passa para Harry uma dose que foi entregue para ela enquanto Blás puxa Hermione para o palco, e Harry vira o copo. O calor faz seu sorriso e suas pernas se abrirem um pouco mais, e seu celular está em sua mão antes que ele se dê conta de que o tirou do bolso. Ele manda uma mensagem para Draco embaixo da mesa: quer fazer uma coisa idiota?

Ele observa Draco tirar o celular do bolso, sorrir e arquear a sobrancelha para ele.

Mais idiota do que isto?

A boca de Draco se abre em uma expressão nada lisonjeira de excitação embriagada e espanto, feito um peixe sexy, com a resposta de Harry alguns segundos depois. Harry sorri e se recosta no banco, envolvendo os lábios úmidos no gargalo da cerveja. Draco faz uma cara de quem está vendo sua vida inteira passar diante de seus olhos, e diz, com a voz um pouco mais aguda:

— Certo, bom, só vou… dar um pulo no banheiro.

Ele sai enquanto o resto do grupo ainda está concentrado na apresentação de Blás e Hermione. Harry conta até dez antes de passar por Ginny e ir atrás dele. Ele troca um olhar com King, que está recostado em uma parede e entrou na brincadeira usando um boá de penas rosa-choque. Ele revira os olhos mas desencosta para vigiar a porta.

Harry encontra Draco encostado na pia, os braços cruzados.

— Comentei nos últimos tempos que você é um demônio?

— Sim, sim — Harry diz, confirmando se a barra está limpa antes de puxar Draco pelo cinto para dentro de uma baia. — Depois você me repete isso.

— Você… sabe que isso ainda não vai me convencer a cantar, né? — Draco engasga enquanto Harry beija seu pescoço.

— Você realmente acha que é uma boa ideia me desafiar, querido?

É assim que, meia hora e mais duas rodadas depois, Draco está diante de uma multidão aos gritos, trucidando “Don’t Stop Me Now” do Queen enquanto Ginny faz backing vocal e Pans lança rosas douradas com glitter aos seus pés. O quimono dele está pendurado em um dos ombros de maneira que só dá para ler no bordado atrás princeso metido. Harry não sabe de onde surgiram as rosas, mas acha que perguntar não vai levá-lo a lugar nenhum. Ele também não conseguiria ouvir a resposta porque está gritando do alto dos seus pulmões por dois minutos seguidos.

— I wanna make a supersonic woman of youuu! — Draco grita, pulando violentamente de lado, pegando Ginny pelos dois braços. — Don’t stop me! Don’t stop me! Don’t stop me!

— Hey, hey, hey! — o bar todo grita em resposta. Blás está praticamente em cima da mesa agora, batendo no dorso do banco com uma mão e ajudando Hermione a subir numa cadeira com a outra.

— Don’t stop me! Don’t stop me!

Harry coloca as mãos em forma de concha em volta da boca.

— Ooh, ooh, ooh!

Em uma cacofonia de gritos, chutes no ar, rebolados e luzes piscando, a canção entra no solo de guitarra, e não tem mais nenhuma pessoa sentada no bar, muito menos quando o príncipe da Inglaterra está deslizando de joelhos no palco, tocando uma guitarra imaginária apaixonada e ainda assim erótica.

Ginny arranjou uma garrafa de champanhe e começa a molhar Draco com ela, e Harry perde a cabeça de tanto rir, sobe em cima da cadeira e assobia. Pans está absolutamente fora de si, lágrimas escorrendo pelo rosto, e Blás subiu na mesa de verdade agora, Hermione dançando ao seu lado, com uma mancha fúcsia brilhante de batom no cabelo platinado dele.

Harry sente um puxão em seu braço — Pans, puxando-o para perto do palco. Ela pega a mão dele e o rodopia, e ele coloca uma das rosas dela entre os dentes, e eles assistem a Draco e sorriem um para o outro em meio ao barulho. Harry sente em algum lugar, sob as cinquenta camadas de bebida, algo cristalino irradiando dela, um conhecimento em comum de como essa versão de Draco é rara e maravilhosa.

Draco está gritando no microfone de novo, levantando aos tropeços, o terno e o quimono grudados no corpo pelo champanhe e pelo suor em um caos confusamente sexy. Ele ergue os olhos, turvos e ardorosos, e os fixa em Harry na beira do palco, com um sorriso largo e desarranjado.

— I wanna make a supersonic man outta youuuuu!

No fim, todos o aplaudem de pé, e Pans o segura com a mão firme e um sorriso endiabrado, bagunçando seu cabelo pegajoso pelo champanhe. Ela o guia para a mesa até o lado de Harry, ele a puxa para o lado dele, e os seis tombam juntos em um emaranhado de gargalhadas roucas e sapatos caros.

Ele olha para todo o grupo. Blás, seu sorriso largo e sua alegria cintilante, a maneira como seu cabelo loiro-branco contrasta com a pele escura e lisa. A curva da cintura e do quadril de Pans e seu sorrisão punk rock enquanto ela chupa a casca de um limão. As pernas compridas de Ginny, uma das quais está erguida na mesa e cruzada sobre uma das pernas de Pans, sua coxa desnuda onde o vestido subiu. E Draco, corado, ingênuo e esguio, elegante e escancarado, o rosto sempre voltado para Harry, a boca rindo sem reservas, com desejo.

Ele vira para Hermione e fala com a voz enrolada:

— Bissexualidade é realmente uma tapeçaria rica e complexa.

Ela gargalha e enfia um guardanapo na boca dele.

Harry não sabe dizer muito do que acontece na hora seguinte — o fundo da limusine, Ginny e Draco disputando um lugar em seu colo, um drive-thru da lanchonete In-N-Out e Hermione gritando perto da sua orelha:

— Animal Style, você me ouviu pedir o Animal Style? Porra, Blás, para de rir.

Tem o hotel, três suítes reservadas no nome deles na cobertura, andar de cavalinho pelo lobby nas costas impossivelmente largas de King.

Hermione fica fazendo psiu para eles enquanto eles vão tropeçando para os quartos com as mãos cheias de sacos engordurados de hambúrguer, mas ela faz mais barulho do que todos, então não adianta nada. Pans, sempre a única sóbria do grupo, pega uma das suítes ao acaso e coloca Hermione e Ginny na cama gigante e Blás na banheira vazia.

— Imagino que vocês dois consigam se virar sozinhos? — ela pergunta a Harry e Draco no corredor, um brilho de malandragem nos olhos enquanto entrega a terceira chave para eles. — Pretendo vestir um roupão e investigar essa história de mergulhar batata frita no milkshake que Ginny me contou.

— Sim, Pansy, vamos nos comportar de maneira condizente com a coroa — Draco diz. Está meio vesgo.

— Besta — ela diz, e dá um beijo rápido na bochecha dos dois antes de desaparecer pelo outro corredor.

Draco está rindo com o rosto enfiado nos cachos da nuca de Harry, que tenta abrir a porta, e eles tropeçam juntos de cara na parede e depois em direção à cama, deixando um rastro de roupas no chão. Draco cheira a perfume caro, champanhe e um cheiro que nunca sai dele, limpo como grama, e seu peito envolve as costas de Harry quando ele se ergue atrás dele na beira da cama, colocando as mãos em seu quadril.

— Supersonic man out of youuuu — Harry murmura baixo, esticando a cabeça para trás no ouvido de Draco, que ri e chuta seu joelho.

É um tombo desajeitado de lado na cama, os dois passando as mãos sedentas um no outro, a calça de Draco ainda pendurada em um tornozelo, mas isso não importa porque os olhos de Draco estão se fechando e eles estão finalmente se beijando de novo.

Suas mãos começam a descer por instinto, a doce memória muscular do corpo de Draco contra o seu, até Draco baixar a mão para detê-lo.

— Espera, espera — Draco diz. — Acabei de perceber. Tudo aquilo mais cedo, e você ainda não gozou essa noite, né? — Ele baixa a cabeça de novo no travesseiro, olha para ele com os olhos estreitados. — Bom. Isso eu não vou aceitar.

— Ahh, é? — Harry diz. Ele aproveita o momento para beijar o pescoço de Draco, a concavidade de sua clavícula, o nó de seu pomo de adão. — O que você vai fazer a respeito?

Draco enfia a mão no cabelo dele e puxa de leve.

— Vou ser obrigado a dar a você o melhor orgasmo da sua vida. O que posso fazer para que seja bom para você? Falar sobre a reforma tributária dos Estados Unidos durante o ato? Você tem pontos de discussão?

Harry ergue os olhos, e Draco está sorrindo para ele.

— Eu te odeio.

— Talvez umas preliminares leves de lacrosse? — Ele está rindo agora, os braços subindo em torno dos ombros para apertá-lo junto ao peito. — O captain, my captain.

— Você é péssimo — Harry diz, e anula seu argumento se inclinando para dar mais um beijo nele, leve, depois intenso, longo, lento e acalorado. Ele sente o corpo de Draco se mexendo sob o dele, se abrindo.

— Espera — Draco diz, parando sem fôlego. — Para um pouco. — Harry abre os olhos e, quando olha para Draco, a expressão em seu rosto é uma mais conhecida: nervoso, inseguro. — Eu, na verdade. Assim. Tenho uma ideia.

Ele desliza a mão sobre o peito de Draco até seu queixo, roçando um dedo na bochecha dele.

— Ei — ele diz, sério agora. — Sou todo ouvidos. De verdade.

Draco morde o lábio, visivelmente procurando as palavras certas e parecendo chegar a uma decisão.

— Vem aqui — ele diz, avançando para beijar Harry, envolvendo o corpo todo dele dessa vez, descendo as mãos para pegar na bunda dele enquanto o beija. Harry sente um som escapar de sua garganta, e está se deixando levar cegamente por Draco, beijando-o com intensidade sobre o colchão, seguindo a onda contínua do corpo de Draco.

Ele sente as coxas de Draco — aquelas benditas coxas de cavalgada e de polo — subindo em volta dele, a pele quente e macia ao redor de sua cintura, os calcanhares encostados em suas costas. Quando Harry se afasta para olhar para ele, a intenção no rosto de Draco é mais clara do que tudo que ele já viu ali.

— Tem certeza?

— Sei que nós nunca — Draco diz baixo. — Mas, é. Eu já, antes, então, posso te mostrar.

— Assim, eu conheço a mecânica — Harry diz, sorrindo um pouco, e vê o canto da boca de Draco se erguer para refletir o dele. — Mas você quer?

— Quero — ele diz. Ele ergue o quadril, e os dois soltam gemidos involuntários e intensos. — Quero. Com certeza.

O kit de barbear de Draco está na mesa de cabeceira, e ele estende o braço e tateia cegamente dentro dele até encontrar o que procura — uma camisinha e um frasquinho de lubrificante.

Harry quase ri ao ver aquilo. Lubrificante de bolso. Ele já teve algumas transas experimentais na vida, mas nunca passou pela sua cabeça que poderia existir algo assim, muito menos que Draco pudesse viajar com um ao lado do seu fio dental.

— Isso é novidade.

— É, bom — Draco diz, e pega uma das mãos de Harry na sua e a leva até sua boca, beijando a ponta de seus dedos. — Todos precisamos aprender e crescer, né?

Harry revira os olhos, pronto para retrucar, mas Draco enfia dois dedos na sua boca, fazendo com que ele se cale. É incrível e desconcertante a maneira como a confiança de Draco vem em ondas dessa forma, como ele se esforça tanto para conseguir pedir o que deseja e então o toma no instante em que a permissão lhe é dada, como no bar, quando o empurrãozinho certo o fez dançar e gritar como se estivesse esperando que alguém falasse que lhe era permitido.

Eles não estão tão bêbados quanto antes, mas ainda há álcool suficiente em seus corpos, e não parece tão intimidador quanto pareceria em outra ocasião, a primeira vez, nem quando seus dedos começam a encontrar o caminho. A cabeça de Draco cai para trás nos travesseiros, e ele fecha os olhos e deixa Harry tomar conta.

Nenhuma transa com Draco é igual à outra. Às vezes ele se move sem embaraço, tomado pela adrenalina, e às vezes é tenso e rígido e quer que Harry o relaxe e o desmonte. Às vezes nada o faz gozar tão rápido quanto ser contrariado, mas, às vezes, os dois querem que ele use toda a autoridade em seu sangue, sem deixar que Harry chegue lá antes de receber permissão, antes de implorar.

É imprevisível, inebriante e divertido, porque Harry nunca encontrou um desafio que não amasse, e ele… bom, Draco é um desafio, dos pés à cabeça, do começo ao fim.

Hoje, Draco está bobo, quente e entregue, o corpo fácil e disposto a dar o que Harry procura, rindo e incrédulo com sua própria receptividade ao toque. Harry se abaixa para beijá-lo, e Draco murmura no canto de sua boca:

— Quando estiver pronto, amor.

Harry respira fundo, segura. Ele está pronto. Acha que está.

A mão de Harry sobe para acariciar seu queixo, a linha suada de seu couro cabeludo, e Harry se posiciona entre suas pernas, deixa Draco entrelaçar os dedos de sua mão direita na esquerda de Harry.

Ele está observando o rosto de Draco — não consegue se imaginar olhando para nada além do rosto de Draco agora — e sua expressão fica tão suave e sua boca tão feliz e surpresa que a voz de Harry fala sem sua permissão, um “baby” rouco. Draco responde com a cabeça, um gesto tão pequeno que alguém que não conhecesse todos os seus tiques poderia não notar, mas Harry sabe exatamente o que significa, então ele se abaixa e chupa o lóbulo da orelha de Draco e o chama de baby de novo, e Draco diz “Sim” e “Por favor”, e puxa seu cabelo pela raiz.

Harry mordisca a garganta de Draco, aperta seu quadril e se afunda na felicidade ofuscante de estar impossivelmente perto dele, de poder estar dentro de seu corpo. É estranho, mas ainda o espanta que tudo isso pareça ser tão incrível e extraordinariamente bom para Draco como é para ele. O rosto de Draco deveria ser proibido, a maneira como está voltado para ele, vermelho e entregue. Harry sente seus próprios lábios se abrindo em um sorriso contente, deslumbrado e orgulhoso.

No fim, ele volta ao seu corpo em partes — os joelhos, ainda cravados no colchão e tremendo; o estômago, molhado e grudento; as mãos, enroladas no cabelo de Draco, acariciando-o gentilmente.

Ele sente que saiu de si e voltou para se encontrar ligeiramente rearranjado. Quando volta o rosto para olhar para Draco, a sensação volta a seu peito: um aperto em resposta à curva do lábio superior de Draco sobre os dentes brancos.

— Meu Deus — Harry diz por fim e, quando olha de novo para Draco, ele está com um olho estreitado, um sorriso malicioso.

— Você descreveria isso como supersônico? — ele pergunta, e Harry grunhe e bate no peito dele, e os dois se dissolvem em gargalhadas desordenadas.

Eles se separam, se beijam e discutem sobre quem tem de dormir na parte molhada até apagarem por volta das quatro da madrugada. Draco vira Harry de lado e se aproxima por trás até quase cobri-lo completamente, seus ombros envolvendo os de Harry, uma das coxas pressionadas sobre as coxas de Harry, seus braços sobre os braços de Harry e suas mãos sobre as mãos de Harry, sem faltar um lugar intocado. Faz anos que ele não dorme tão bem.

O despertador toca três horas depois para os voos de volta para casa.

Eles tomam banho juntos. O humor de Draco fica sombrio e ácido no café da manhã diante da dura realidade de voltar para Londres tão cedo, e Harry o beija em silêncio, promete ligar e deseja que houvesse mais o que ele pudesse fazer.

Ele observa Draco se lavar e barbear, passar pomada no cabelo, passar o perfume Burberry para o dia, e se pega desejando poder assistir isso para sempre. Ele gosta de desmontar Draco, mas há algo incrivelmente íntimo em sentar na cama que eles desfizeram na noite anterior, sendo o único a observá-lo criar o príncipe Draco de Gales para o mundo.

Sob a ressaca latejante, ele desconfia que todos esses sentimentos são o motivo por que ele evitou Draco por tanto tempo.

Além disso, ele sente que pode vomitar. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Eles encontram os outros no corredor, Draco com cara de ressaca mas ainda elegante, e Harry fazendo o seu melhor. Pans parece descansada e renovada, e muito presunçosa por isso. Hermione, Ginny e Blás saem desgrenhados de sua suíte com cara de gatos que comeram os canários, mas é impossível saber quem é um gato e quem é um canário entre os três. Tem uma mancha de batom atrás do pescoço de Ginny. Harry prefere não perguntar.

King ri baixo quando os encontra nos elevadores, uma bandeja de seis cafés equilibrada em uma mão. Cuidar de ressaca não é parte da descrição de seu cargo, mas ele é uma mãe coruja.

— Então esse é o bando agora, hein?

E, em meio a tudo, Harry de repente se dá conta: ele tem amigos.


Notas Finais


Ois
As always: essa história não é original minha, mas da autora Casey McQuiston
Eu pensei em mudar as datas dos aniversários para os 'reais', mas isso mudaria o tempo em toda a fic, então deixei como o do livro.
Falando em aniversário, hoje é o aniversário do bebê Harry, e como sou muito legal, vou dar de presente outra att dupla!
Draco fala sobre o fato de Sirius Black ser gay, eu mudei de "Remus John Lupin" porque, apesar de ser pura verdade o que Henry diz na obra original, eu já coloquei Remus como marido da Lilian, então achei que poderia ficar estranho.
O nome completo desses bebês: George, Edward e James para Draco porque eu não soube identificar quais deles além de James era o outro rei gay e eles chegam a citar George no futuro; Mountchristen eu deixei porque não tinha mais outro sobrenome para pegar. Alexander pro Harry porque, como eu já disse antes, tem mais relações com o Alexander Hamilton.
PRIMEIRA VEZ DELES, tão fofos. Fiquei toda derretida com o quanto eles são românticos (se casem logo)
Acho que é isso! Bebam água, lavem as mãos, usem máscara e fiquem em casa.
D


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