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História Vermelho, Branco e Sangue Azul - Drarry - Capítulo 8


Escrita por:


Notas do Autor


Mais um capítulo pro aniversário do Harry
Aproveitem!

Capítulo 8 - Eight


Assunto: Você é um feiticeiro das trevas
Draco <[email protected]> 8/6/20 15h23
para H

Harry,

Não consigo pensar em nenhum outro jeito de começar esse e-mail a não ser dizer, e espero que perdoe meu linguajar e total falta de prudência: você é lindo pra caralho.

Passei a semana inteira inútil, sendo levado de um lado para o outro para aparições públicas e reuniões, e duvido que tenha feito qualquer contribuição significativa. Como um homem consegue fazer qualquer coisa sabendo que Harry Evans-Potter está à solta? Eu me distraio.

É tudo inútil porque, quando não estou pensando em seu rosto, estou pensando na sua bunda, suas mãos ou sua língua afiada. Desconfio que foi esta última que me colocou nesse dilema. Ninguém nunca teve a audácia de ser insolente com um príncipe, exceto você. No momento em que você me chamou de babaca pela primeira vez, meu destino estava selado. Ó, pais da minha linhagem! Ó, reis do meu passado! Tirem essa coroa de mim, enterrem-me em seu solo ancestral. Se ao menos soubessem que todo trabalho que tiveram seria desfeito por um herdeiro gay que gosta quando um garoto americano com covinha no queixo é mau com ele…

Na verdade, lembra aqueles reis gays que eu mencionei? Acho que Jaime I, que se apaixonou loucamente por um cavalheiro gatíssimo e excepcionalmente bobo em uma competição de justa e o transformou na hora em cavaleiro da câmara do rei (um título que realmente existe), teria misericórdia do meu sofrimento em particular.

Diabos me levem, mas sinto saudades.

Beijo,

Draco

 

Re: Você é um feiticeiro das trevas
H <[email protected]evans45.com> 8/6/20 17h02
para Draco

D,

Você está querendo dizer que você é o Jaime I e eu não passo de um atleta gostoso e burro? Sou mais do que uma estrutura óssea fantástica e uma bundinha dura, Draco!!!!

Não peça desculpas por me achar bonito. Porque, assim, você me colocaria na posição de pedir desculpas por dizer que você acabou comigo em Los Angeles e que vou morrer se aquilo não acontecer de novo em breve. Que tal essa falta de prudência, hein? Tem certeza que quer jogar esse jogo comigo?

Escuta: vou voar para Londres agora, te arrancar de qualquer reunião inútil em que você esteja e te fazer admitir o quanto adora quando te chamo de “baby”. Vou te estraçalhar com os dentes, querido.

Beijos,

H

 

Re: Você é um feiticeiro das trevas
Draco <[email protected]> 8/6/20 19h21
para H

Harry,

Sabe, quando se estuda literatura inglesa em Oxford, como eu fiz, as pessoas sempre querem saber qual é o seu autor inglês preferido.

A assessoria de imprensa compilou uma lista de respostas aceitáveis. Eles queriam um realista, então sugeri George Eliot — não, porque Eliot na verdade era Mary Anne Evans sob um pseudônimo, não um escritor forte e másculo. Eles queriam um dos inventores do romance inglês, então sugeri Daniel Defoe — não, porque ele era um dissidente da Igreja Anglicana. Em certo momento, lancei Jonathan Swift só para ver o infarto coletivo deles com a ideia de um satirista político irlandês.

No fim, eles escolheram Dickens, o que é muito engraçado. Queriam algo pouco afeminado, mas, sinceramente, o que é mais gay do que uma mulher que definha em uma mansão em ruínas enquanto usa seu vestido de casamento todos os dias, só pelo drama?

A verdade afeminada: minha autora inglesa preferida é Jane Austen.

Então, para pegar emprestada uma passagem de Razão e sensibilidade: “Não lhe falta nada além de paciência — ou dê a isso um nome mais interessante, digamos, esperança”. Para parafrasear: espero que, em breve, você faça mais bom uso do seu dinheiro americano do que de sua boca suja.

Seu (sexualmente frustrado),

Draco

 

Harry tem a impressão de que alguém já o alertou sobre servidores de e-mail particulares, mas ele não se lembra muito dos detalhes. Não parece importante.

No começo, como a maioria das coisas que exigem algum esforço, ele não via muito sentido em trocar e-mails com Draco.

Mas, quando Riddle diz a Sean Hannity que a mãe dele não fez nada como presidenta, Harry grita na dobra do cotovelo e volta para: A sua voz é como açúcar escorrendo de um saco furado. Quando o Colin de Boston faz um comentário sobre a equipe de remo de Harvard pela quinta vez do dia: Sua bunda naquela calça é um crime. Quando ele está cansado de desconhecidos encostando nele: Volte para mim quando tiver acabado de voar pelo firmamento, sua plêiade perdida.

Agora ele entende.

Seu pai não estava enganado sobre o fato de que as coisas ficariam feias com Riddle liderando a chapa. Feias em um nível nascido em Utah, cristão, cheio de mensagens indiretas e sorrisos cheios de dentes brancos. Textões de direita chamando ele e Hermione de arrogantes, que querem dar a entender que: “os mexicanos roubaram os cargos da primeira-família também”.

Harry não pode se permitir ter medo de perder. Ele bebe café, faz seu trabalho sobre o plano de governo na campanha, bebe mais café, lê e-mails de Draco e bebe ainda mais café.

A primeira Parada LGBT de Washington desde seu “despertar bissexual” acontece quando Harry está em Nevada e ele passa o dia olhando o Twitter e se remoendo de inveja — confetes caindo sobre o National Mall, o convidado especial Cedric Diggory com um lenço de arco-íris na cabeça. Ele volta para o hotel e afoga as mágoas no minibar.

O ponto mais alto em todo o caos é que sua pressão sobre um dos líderes da campanha (e sua própria mãe) finalmente dá frutos: eles vão fazer um comício gigantesco no Minute Maid Park em Houston. As pesquisas estão mudando em direções que eles nunca viram antes. A principal manchete do Politico da semana: SERÁ 2020 O ANO EM QUE O TEXAS SE TORNARÁ UM ESTADO DECISIVO?

— Sim, vou lembrar a todos que o comício de Houston foi ideia sua — sua mãe diz, mal prestando atenção, enquanto revisa o discurso no avião para o Texas.

— Você deveria dizer “garra” em vez de “força” aí — Hermione diz, lendo o discurso por sobre o ombro dela. — Texanos gostam de garra.

— Dá para vocês dois sentarem em outro lugar? — ela diz, mas toma nota.

Harry sabe que muitos na campanha estão céticos, mesmo quando veem os números. Por isso, quando param o carro na frente do Minute Maid e a fila dá duas voltas no quarteirão, ele se sente mais do que satisfeito. Ele fica presunçoso. Sua mãe sobe para fazer seu discurso para milhares de pessoas, e Harry pensa “Isso aí, Texas. Prove que aqueles filhos da puta estão errados”.

Ele ainda está pensando nisso quando passa o crachá na porta do gabinete da campanha na segunda-feira seguinte. Já está cansado de ficar sentado à mesa analisando um grupo focal após o outro, mas está pronto para voltar à luta.

O fato de chegar a seu cubículo e encontrar o Colin de Boston segurando o Fichário do Texas o traz de volta à realidade.

— Ah, você deixou isso na sua mesa — ele diz como se não fosse nada. — Pensei que fosse um projeto novo em que tinham nos colocado.

— Por acaso eu vou pro seu lado do cubículo e desligo sua estação do Dropkick Murphys no Spotify, por mais que eu queira? — Harry pergunta. — Não, Colin, eu não faço isso.

— Bom, você meio que rouba muitos lápis meus…

Harry tira o fichário da mão dele antes que ele possa terminar.

— É particular.

— O que é? — Colin de Boston pergunta quando Harry enfia o fichário de volta na bolsa. Ele não consegue acreditar que deixou na mesa. — Todos esses dados, linhas distritais… o que você está fazendo com isso tudo?

— Nada.

— Isso tem a ver com o comício em Houston em que você estava insistindo?

— Houston foi uma ideia boa — ele diz, instantaneamente na defensiva.

— Cara… você não acha de verdade que o Texas possa votar nos democratas, acha? É um dos estados mais retrógrados do país.

— Você é de Boston, Colin. Quer mesmo conversar sobre todos os lugares onde existe intolerância?

— Escuta, cara, só estou dizendo.

— Quer saber? — Harry diz. — Você acha que vocês estão livres de intolerância institucional porque vêm de um estado democrata. Nem todo supremacista branco é um viciado em metanfetamina de uma cidadezinha de merda no Mississippi; tem um monte deles nas universidades Duke e da Pensilvânia vivendo às custas do papai.

O Colin de Boston faz cara de assustado, mas não se convence.

— Nada disso muda o fato de que os estados republicanos são republicanos desde sempre — ele diz, rindo, como se fosse motivo para piada. — E nenhuma dessas populações parece se importar muito em votar no que é bom para elas.

— Talvez essas populações ficassem mais motivadas para votar se fizéssemos um esforço verdadeiro de campanha voltado para elas e mostrássemos que nos importamos e que nossa plataforma é feita para ajudá-las, não para deixá-las para trás. — Harry diz, acalorado. — Imagine se alguém que diz que quer o seu bem-estar sequer fosse ao seu estado para tentar falar com você, cara. Ou se você fosse um criminoso ou… malditas leis de identificação eleitoral, pessoas que não têm acesso às zonas eleitoras, que não conseguem sair da porra do trabalho delas para chegar à urna?

— Tá, quero dizer, seria ótimo se pudéssemos magicamente mobilizar todos os eleitores marginalizados nos estados republicanos, mas as campanhas políticas têm uma quantidade limitada de tempo e de recursos, e precisamos priorizar com base nas projeções — o Colin de Boston diz, como se Harry, o primeiro-filho dos Estados Unidos, não soubesse como as campanhas funcionam. — Simplesmente não tem a mesma quantidade de gente preconceituosa nos estados democratas. Se não querem ser deixadas para trás, talvez as pessoas nos estados republicanos devessem fazer alguma coisa para impedir isso.

Essa é a gota d’água para Harry.

— Você esqueceu que está trabalhando na campanha de uma mulher criada na porra do Texas? — ele diz, e sua voz oficialmente subiu ao ponto em que os funcionários dos cubículos vizinhos estão encarando, mas ele não se importa. — Por que não falamos sobre o fato de que tem uma divisão da Ku Klux Klan em todos os estados? Você acha que não existem racistas e homofóbicos em Vermont? Cara, eu entendo que você esteja trabalhando aqui, mas você não é especial. Não pode sentar aqui e fingir que isso não é problema seu. Ninguém pode.

Ele pega sua bolsa e seu fichário e sai batendo a porta.

Assim que sai do prédio, ele tira o celular do bolso por impulso, abre o Google. Tem provas neste mês. Ele sabe que tem. vestibular pra faculdades de direito região de washington dc, ele digita.

 

3 gênios e Harry
23 de junho, 2020, 12h34

junípero

MIONE

Não é meu nome, não é o nome de ninguém, para

vocalista da banda de k-pop bts kim nam-june

MIONE

Eu vou bloquear seu número

Vossa alteza Príncipe Babaca 💩

Harry, por favor me diga que o Blás não te doutrinou com K-pop.

bom, vc deixou a Ginny te viciar em drag race né

demônio do caos real oficial

[latrice royale eat it.gif]

MIONE

O que você quer Harry????

cadê meu discurso para milwaukee? eu sei que vc pegou

Vossa alteza Príncipe Babaca 💩

Vocês precisam mesmo ter essa conversa no grupo?

MIONE

Parte dele precisava ser reescrita!!! Devolvi com meus comentários no bolso de fora da sua bolsa

flitwick vai te matar se vc continuar fazendo isso

MIONE

Flitwick viu como minhas alterações nos pontos de discussão deram certo no programa do Seth Meyers da semana passada, então ele aprendeu a lição

pq tem uma pedra aqui tb

MIONE

É um cristal de quartzo transparente para claridade e boas vibrações, não enche. Precisamos de toda a ajuda possível.

para de botar FEITIÇOS nas minhas COISAS

demônio do caos real oficial

QUEIMEM A BRUXA

ei o que achamos desse look pro lance de eleitores universitários amanhã

[imagem enviada]

demônio do caos real oficial

estou indo de poeta lésbica deprimida que encontrou uma instrutora gata de ioga em um bar clandestino que a fez entrar pra meditação e pra cerâmica, e agora está começando uma vida nova como uma executiva poderosa vendendo sua própria linha de fruteiras artesanais

Vossa alteza Príncipe Babaca 💩

Ahazou, viado.

alskdjfadslfjad

GINNY VC QUEBROU ELE

demônio do caos real oficial

kkkkkkkkk

 

O convite vem por correio aéreo diretamente do Palácio de Buckingham. Bordas douradas, caligrafia esguia: O PRESIDENTE E O COMITÊ ADMINISTRATIVO DOS CAMPEONATOS PEDEM O PRAZER DA COMPANHIA DE HARRY EVANS-POTTER NO CAMAROTE REAL NO DIA 6 DE JULHO DE 2020.

Harry tira uma foto e manda mensagem para Draco:

1. mas que porra é essa? não tem nenhum pobre no seu país?

2. já estive no camarote real

Draco responde: Você é um delinquente e uma praga, e depois: Por favor, vem?

E lá está Harry, passando seu dia de folga da campanha em Wimbledon, só para ter seu corpo perto de Draco outra vez.

— Então, como avisei — Draco diz enquanto eles se aproximam das portas do Camarote Real —, Arcturus vai estar aqui. E outros nobres aleatórios com quem você talvez tenha de conversar. Gente com nomes como Basil.

— Acho que já provei que sou capaz de lidar com a realeza.

Draco parece desconfiado.

— Você é corajoso. Queria ser mais como você.

Dessa vez, o sol brilha forte sobre Londres quando eles saem, iluminando as arquibancadas em volta deles, que já estão quase cheias de espectadores. Ele nota David Beckham em um terno bem ajustado — de novo, como ele havia se convencido de que era hétero? — antes de David Beckham se virar e Harry ver que era com Pans que ele estava conversando, o rosto radiante quando os vê.

— Ei, Harry! Draco! — ela diz mais alto que o burburinho do camarote. Ela está linda, usando um vestido de seda verde-limão de cintura baixa e um par de óculos escuros redondos enormes da Gucci decorados com abelhas douradas.

— Você está maravilhosa — Harry diz, recebendo um beijo na bochecha.

— Ah, obrigada, querido — Pans diz. Ela dá o braço para Harry e Draco e os leva escada abaixo. — Sua irmã me ajudou a escolher o vestido, na verdade. É McQueen. Ela é genial, sabia?

— Já ouvi falar.

— É aqui — Pans diz quando chegam à primeira fileira. — Esses são os seus lugares.

Draco olha as almofadas verdes e luxuosas dos assentos cobertas pelo folheto grosso e brilhante com a programação de WIMBLEDON 2020, bem na frente do camarote.

— Na frente e no centro? — ele diz, um tom de nervosismo na voz. — Sério mesmo?

— Sim, Draco, caso você tenha esquecido, você é da realeza e este é o Camarote Real. — Ela aponta para os fotógrafos lá embaixo, que já estão tirando fotos deles, antes de se aproximar dos dois e cochichar: — Não se preocupem, não acho que consigam notar a cara de safados de vocês dois lá de baixo.

— Haha, Pans — Draco diz com a voz monótona e as orelhas rosadas e, apesar da apreensão, ele senta entre Harry e Pans, mantendo os cotovelos cuidadosamente junto ao corpo, fora do espaço de Harry.

Metade do dia já passou quando Arcturus e Millicent chegam, o príncipe mais velho com a mesma beleza genérica de sempre. Harry se pergunta como a rica genética conspirou para deixar Pans e Draco tão interessantes de se olhar, com sorrisos marotos e maçãs do rosto marcadas, mas jogou tão sujo com Arcturus. Ele parece uma foto de banco de imagens.

— Bom dia — Arcturus diz enquanto assume o lugar reservado ao lado de Pans. Seus olhos passam por Harry duas vezes, e ele consegue sentir que Arcturus não acredita que o primeiro-filho teve permissão para entrar. Talvez seja estranho Harry estar aqui. Ele não se importa. Millicent também está olhando estranho para ele, mas talvez ela simplesmente guarde rancor por causa do bolo de casamento.

— Boa tarde, Arc — Pans cumprimenta educadamente. — Millicent.

Ao seu lado, Draco empertiga a coluna.

— Draco — Arcturus diz. A mão de Draco está tensa na programação em seu colo. — É bom te ver, garoto. Andou bastante ocupado, não é? Ano sabático e tudo mais?

Há uma implicação sob seu tom. Por onde exatamente você andou? O que exatamente esteve fazendo? Um músculo se flexiona no queixo de Draco.

— Sim — Draco diz. — Muito trabalho com Blaise. Está uma loucura.

— Certo, a Fundação Zabini, não é? — ele diz. — Pena que ele não pôde vir hoje. Acho que vamos ter que nos bastar com nosso amigo americano, então?

Com isso, ele volta um sorriso seco para Harry.

— Pois é — Harry diz, alto demais, e abre um sorriso largo.

— Embora eu ache que Blaise ficaria um tanto deslocado no camarote, não ficaria?

Arcturus — Pans diz.

— Ah, não seja dramática, Pans — Arcturus diz com desdém. — Só quis dizer que ele é um tipo peculiar, não é? Aqueles vestidos que ele usa? Um pouco demais para Wimbledon.

O rosto de Draco é calmo e simpático, mas um de seus joelhos se mexeu para pressionar o de Harry.

— Aquelas roupas se chamam dashikis, Arcturus, e ele usou uma vez.

— Certo — Arcturus diz. — Você sabe que não julgo. Apenas penso, sabe, lembra quando éramos mais novos e você passava mais tempo com meus amigos da faculdade? Ou o filho de lady Agatha, aquele que vive caçando codornas? Você poderia considerar ter mais amigos da mesma… estirpe.

A boca de Draco se mantém firme, mas ele não diz nada.

— Nem todos podemos ser melhores amigos do Conde de Monpezat feito você, Arcturus — Pans murmura.

— Em todo caso — Arcturus continua, ignorando a irmã —, é improvável que você encontre uma esposa se não andar pelos círculos certos, não acha? — Ele ri um pouco e volta a assistir à partida.

— Se me derem licença — Draco diz. Ele joga a programação no assento e desaparece.

Dez minutos depois, Harry o encontra no salão do clube perto de um vaso gigante de flores fúcsia medonhas. Seus olhos se fixam em Harry no instante em que o vê, o lábio no mesmo tom de vermelho furioso que a bandeira britânica em seu bolso.

— Olá, Harry — ele diz, com a voz plácida.

Harry entende o tom.

— Oi.

— Alguém já lhe mostrou o clube?

— Não.

— Então vamos lá.

Draco toca dois dedos na parte de trás de seu cotovelo, e Harry obedece imediatamente.

Descendo por um lance de escadas, passando por uma porta lateral escondida e outro corredor oculto, há uma salinha cheia de cadeiras e roupas de mesa e uma raquete de tênis velha e abandonada. Assim que a porta se fecha atrás deles, Draco joga Harry contra ela.

Ele chega bem perto de Harry, mas não o beija. Para a milímetros de distância, as mãos no quadril de Harry e a boca entreaberta em um sorriso enviesado.

— Sabe o que eu quero? — ele diz, a voz tão baixa e quente que arde pelo peito de Harry, até seu coração.

— O quê?

— Eu quero — ele diz — fazer exatamente o oposto do que deveria estar fazendo agora.

Harry ergue o queixo, um sorriso desafiador.

— Então me diga o que fazer, querido.

E Draco, lambendo o canto da própria boca, puxa com força para soltar o cinto de Harry e diz:

— Me come.

— Bom — Harry geme —, já que estamos em Wimbledon.

Draco dá uma risada rouca e se abaixa para beijá-lo, a boca aberta e ansiosa. Ele está se movendo rápido, sabendo que eles não têm muito tempo, seguindo rapidamente o comando de Harry quando ele geme e puxa seus ombros para mudar de posição. Ele coloca as costas de Draco contra o peito, as palmas de Draco apoiadas na porta.

— Só para entender — Harry diz —, estou prestes a transar com você neste almoxarifado por raiva da sua família. Tipo, é isso que está pegando?

Draco, que aparentemente vinha carregando o seu lubrificante de bolso esse tempo todo no paletó, diz:

— Exato — e o passa para Harry.

— Legal, adoro fazer coisas por raiva — ele diz, sem nenhum sarcasmo, e abre as pernas de Draco com o pé.

Deveria ser… deveria ser engraçado. Deveria ser sexy, idiota, ridículo, obsceno, mais uma aventura sexual selvagem para colocar na lista. E é, mas… também não deveria dar a impressão de que é a última vez, como se Harry pudesse morrer se parasse em algum momento. Há um riso em sua boca, mas nunca sai de seus lábios, porque ele sabe que o que está fazendo é ajudar Draco a passar por um momento difícil. Rebeldia.

Você é corajoso. Queria ser mais como você.

Depois, ele beija a boca de Draco com força, enfia os dedos no fundo do cabelo dele, tira seu ar. Draco sorri esbaforido contra o pescoço dele, parecendo extremamente satisfeito consigo mesmo, e diz:

— Acho que já tive o bastante de tênis por hoje, e você?

Eles saem às escondidas atrás de uma multidão, cercados por seguranças reais e guarda-chuvas e, de volta a Kensington, Draco leva Harry para seus aposentos.

O seu “apartamento” é um labirinto gigantesco de vinte e dois cômodos no lado noroeste do palácio, mais próximo do Laranjal. Ele o divide com Pans, mas não tem quase nada dos dois nos pés-direitos altos e nos móveis pesados e estofados. O que tem é mais de Pans do que Draco: uma jaqueta de couro pendurada no encosto de uma chaise, o sr. Wobbles se lambendo em um canto, uma pintura a óleo holandesa do século XVII em um patamar literalmente chamada Mulher em seu toalete que só Pans poderia ter escolhido da coleção real.

O quarto de Draco é mais cavernoso, opulento e insuportavelmente bege do que Harry poderia imaginar, com uma cama barroca dourada e janelas que dão para os jardins. Ele observa Draco tirar o terno e imagina ter de morar ali, se perguntando se Draco simplesmente não pode escolher a decoração dos seus aposentos ou se nunca quis pedir algo diferente. Todas as noites em que Draco não consegue dormir, apenas vagando por esses aposentos infinitos e impessoais, como um pássaro preso em um museu.

O único cômodo que realmente tem um ar tanto de Draco como de Pans é uma salinha no segundo andar convertida em um estúdio de música. As cores são mais ricas ali: tapetes turcos vermelho-escuros e violeta tecidos à mão, um sofá cor de tabaco. Pequenos pufes e mesas de quinquilharias brotam do chão como cogumelos, e as paredes são cobertas por guitarras Stratocaster e Flying V, violinos, uma variedade de harpas, um violoncelo robusto apoiado no canto.

No centro da sala fica o piano de cauda, e Draco senta diante dele e toca algumas notas, brincando com a melodia de algo que lembra uma música antiga do The Killers. David, o beagle, cochila tranquilamente perto dos pedais.

— Toca alguma coisa que eu não conheça — Harry diz.

Na escola, no Texas, ele era o mais culto da turma de esportistas porque era um nerd de livros, um viciado em política, o único atleta da escola que debatia as maiores complexidades do caso de Dred Scott em História Avançada dos Estados Unidos. Ele escuta Nina Simone e Otis Redding, gosta de uísque caro. Mas Draco tem um compêndio inteiramente diferente de conhecimento.

Por isso, ele apenas escuta, assente e sorri enquanto Draco explica que esse é o som de Brahms e esse é o som de Wagner e que eles estavam em lados opostos do movimento romântico.

— Consegue notar a diferença aqui? — Suas mãos se movimentam de maneira ágil, quase sem esforço, mesmo enquanto ele desata a contar sobre a Guerra dos Românticos e que a filha de Liszt largou o marido para ficar com Wagner, quel scandale.

Ele passa para uma sonata de Alexander Scriabin, piscando para Harry por causa do primeiro nome do compositor. O andante — o terceiro movimento — é seu preferido, ele explica, porque leu, faz um tempo, que foi escrito para evocar a imagem de um castelo em ruínas, o que achou sombriamente engraçado na época. Ele fica em silêncio, concentrado, perdido na música por longos minutos. Então, sem aviso, muda outra vez, acordes turbulentos retornando a algo conhecido — Elton John. Draco fecha os olhos, tocando de cabeça. É “Your Song”. Ah.

O coração de Harry não se derrama em seu peito, e ele não precisa apertar a beira do sofá para se acalmar. Porque isso é o que ele faria se estivesse neste palácio prestes a se apaixonar por Draco, e não apenas para continuar com esse lance em que eles viajam pelo mundo para pôr as mãos um no outro e nunca conversar sobre isso. Não é por isso que ele está aqui. Não é.

Eles se beijam preguiçosamente pelo que parecem horas no sofá — Harry quer transar no piano, mas é uma relíquia inestimável e tal — e sobem cambaleantes para o quarto de Draco, a cama palaciana. Draco deixa Harry acabar com ele com uma paciência e uma precisão minuciosas, geme o nome de Deus tantas vezes que o quarto parece consagrado.

Ele leva Draco além de seus limites, derretido e deslumbrado sobre os lençóis luxuosos. Harry passa quase uma hora tirando tremores dele, fascinado pelas expressões elaboradas de espanto e agonia prazerosa que surgem em seu rosto, roçando as pontas dos dedos em seu maxilar, seus tornozelos, a parte de trás de seus joelhos, os ossinhos no dorso de suas mãos, a curva de seu lábio inferior. Ele toca e toca até levar Draco a mais um limite apenas com a ponta dos dedos, apenas com a respiração dentro de suas coxas, a promessa da boca de Harry onde ele havia encostado os dedos antes.

Draco diz as mesmas duas palavras da sala secreta em Wimbledon, dessa vez seguidas por: “Por favor, eu preciso”. Ele ainda não consegue acreditar que Draco possa falar desse jeito, que ele seja o único que possa ouvir.

Então obedece.

Quando eles voltam à terra, Draco praticamente desmaia no peito de Harry sem dizer uma palavra, fraco e esgotado, e Harry ri baixinho, faz carinho no cabelo suado dele e escuta os roncos baixos que vêm quase em seguida.

Mas ele demora horas para pegar no sono.

Draco fica babando nele. David sobe na cama e deita perto dos seus pés. Em poucas horas, Harry vai ter que estar no avião para voltar às preparações do Comitê Nacional do Partido Democrata, mas ele não consegue dormir. É o fuso horário. Só o fuso horário.

Ele se lembra, como se a mil quilômetros de distância, de dizer a Draco para não pensar demais nisso.

 

— Como seu presidente — Tom Riddle diz em uma das telas planas no gabinete da campanha —, uma das minhas muitas prioridades será incentivar os jovens a se envolver mais no governo. Para mantermos nosso controle do Senado e recuperarmos a Câmara, precisamos que a próxima geração aja e entre para a luta.

O Comitê Republicano da Universidade Vanderbilt aplaude na transmissão ao vivo, e Harry finge vomitar em cima de seu mais novo rascunho de anteprojeto de lei.

— Por que não sobe aqui, Daphne? — Uma estudante loira bonitinha se junta a Riddle no pódio, e ele coloca um braço em volta dela. — Daphne foi a principal organizadora com que trabalhamos para esse evento, e ela fez um trabalho incrível para nos trazer um público tão espetacular!

Mais aplausos. Um funcionário de meio escalão atira uma bola de papel na tela.

— São jovens como Daphne que nos dão esperanças para o futuro de nosso partido. É por isso que tenho o prazer de anunciar que, como presidente, vou lançar o programa Congresso da Juventude Riddle. Outros políticos não querem que as pessoas, especialmente jovens com discernimento como vocês, cheguem perto de nossos gabinetes e vejam como tudo é feito…

quero ver sua avó e esse demônio filho da puta que está concorrendo contra a minha mãe lutarem numa gaiola, Harry manda para Draco ao voltar para o cubículo.

São os últimos dias antes do Comitê Nacional Democrata, e faz uma semana que a cafeteira não para cheia. As caixas de entrada do gabinete de políticas públicas estão transbordando desde que eles liberaram a plataforma oficial dois dias atrás, e Colin de Boston está disparando e-mails como se sua vida dependesse disso. Ele não falou mais nada sobre o surto de Harry do mês passado, mas começou a usar fones de ouvido para poupá-lo de suas escolhas musicais.

Ele digita outra mensagem, desta vez para Diggory: pode por favor ir ao programa do anderson cooper ou sei lá e explicar aquele parágrafo sobre lei tributária que você escreveu secretamente para a plataforma pras pessoas pararem de perguntar? sem tempo, irmão.

Ele passou a semana toda mandando mensagens para Diggory, desde que a campanha de Riddle vazou que eles nomearam um senador independente para um futuro cargo. O velho miserável do Albus Dumbledore recusou terminantemente todos os últimos pedidos de apoio — no fim, Diggory contou a Harry em segredo que eles tiveram sorte de Dumbledore não ter tentado concorrer contra eles nas primárias. Não é nada oficial, mas todos sabem que é Dumbledore quem vai entrar para a chapa de Riddle. Mas, se Diggory sabe quando o anúncio vai acontecer, ele não está dizendo.

É uma semana e tanto. As pesquisas não estão indo tão bem, Paul Ryan está sendo um hipócrita em relação à Segunda Emenda, e tem uma matéria da Salon rolando: SERÁ QUE LILIAN EVANS TERIA SIDO ELEITA SE NÃO FOSSE CONSIDERADA BONITA? Harry tem certeza que apenas as sessões de meditação matinal impedem a sua mãe de estrangular um assistente a qualquer momento.

Já ele sente falta da cama de Draco, do corpo de Draco, de Draco e de um lugar a milhares de quilômetros da linha de montagem da campanha. Aquela noite em Wimbledon uma semana atrás parece saída de um sonho agora, ainda mais atormentadora porque Draco está passando alguns dias em Nova York para tratar da papelada para um abrigo para jovens LGBT no Brooklyn. O dia não tem horas suficientes para Harry encontrar uma justificativa para ir até lá e, por mais que o mundo adore a amizade pública entre eles, suas desculpas plausíveis para serem vistos juntos estão se esgotando.

Esta vez não é nada parecida com sua primeira viagem esbaforida para o Comitê Nacional Democrata em 2016. O pai deles tinha sido o representante que anunciou os votos da Califórnia. Harry e Hermione apresentaram a mãe antes do discurso de agradecimento dela, e as mãos de Hermione estavam tremendo, mas as dele estavam firmes. A multidão vibrava, e o coração de Harry vibrava em resposta.

Neste ano, eles estão todos exaustos e de cabelo em pé por tentar governar o país e uma campanha ao mesmo tempo e uma noite de Comitê já é demais. Na segunda noite da convenção, eles sobem no Air Force One — seria o Marine One, mas nem todos caberiam em um helicóptero.

— Você fez uma análise do custo-benefício disso? — Minerva está falando no celular durante a decolagem. — Porque você sabe que estou certa, e esses patrimônios podem ser transferidos a qualquer momento se você discordar. Sim. É, eu sei. Tudo bem. Foi o que pensei. — Uma longa pausa, depois, muito baixo: — Também te amo.

— Hm — Harry diz quando ela desliga. — Algo que queira compartilhar com a turma?

Minerva nem tira os olhos do celular.

— Sim, era meu namorado e, não, você não pode fazer mais perguntas sobre ele.

Hermione fecha o caderno com um interesse repentino.

— Como você pode ter um namorado sem que a gente saiba?

— Vejo você com mais frequência do que vejo cuecas limpas — Harry diz.

— Você não está trocando de cueca com frequência, meu bem — sua mãe intervém do outro lado da cabine.

— Às vezes eu não uso — Harry diz com indiferença. — Esse por acaso não é um namorado inventado, é? Ele — ele faz aspas no ar — “mora longe daqui”?

— Você está realmente decidido a ser jogado de uma escotilha de emergência, hein? — ela diz. — É um relacionamento à distância. Nada além disso. Chega de perguntas.

King também intervém, insistindo que ele merece saber já que é o guru do amor da equipe, e há um debate sobre informações apropriadas para compartilhar com seus colegas de trabalho, o que é engraçado considerando o quanto King já sabe sobre a vida pessoal de Harry. Eles estão rodeando Nova York quando Hermione para de falar de repente, voltando a se concentrar em Minerva, que ficou em silêncio.

— Minerva?

Harry se vira e vê Minerva completamente imóvel, algo tão diferente de sua agitação habitual que todos também ficam paralisados. Ela está olhando fixamente para o celular, boquiaberta.

— Minerva — sua mãe repete, muito séria. — O que aconteceu?

Ela finalmente ergue os olhos, a mão firme no celular.

— O Post acabou de revelar o nome do senador independente que vai entrar para o gabinete de Riddle — ela diz. — Não é Albus Dumbledore. É Cedric Diggory.

— Não — Hermione repete. Ela está segurando os saltos na mão, os olhos brilhantes sobre a luz morna perto do elevador do hotel onde eles combinaram o encontro. Sua trança está se desfazendo em fios rebeldes. — Você já tem sorte de eu aceitar falar com você, então é isso ou nada.

O repórter do Post hesita, os dedos vacilando no gravador. Desde que eles pousaram em Nova York, ele vinha atormentando Hermione em seu celular pessoal para conseguir umas aspas dela a respeito da convenção, e agora está insistindo para ouvir algo sobre Diggory. Hermione não costuma ser uma pessoa nervosa, mas foi um dia longo, e parece faltar pouco para ela cravar um daqueles saltos no olho do homem.

— E você? — ele pergunta a Harry.

— Se ela não vai falar, eu muito menos — Harry diz. — Ela é muito mais boazinha do que eu.

Hermione estala os dedos na frente dos óculos de hipster, os olhos em chamas.

— Você não vai falar com ele — Hermione diz. — Essas são as minhas aspas: minha mãe, a presidenta, ainda pretende vencer essa eleição. Estamos aqui para apoiá-la e incentivar o partido a se manter unido por ela.

— Mas quanto ao senador Diggory…

— Obrigada. Vote Evans — Hermione diz, tensa, cobrindo a boca de Harry. Ela o puxa para dentro do elevador que chegou, dando uma cotovelada nele quando ele lambe a palma da mão dela.

— Aquele maldito traidor do caralho — Harry diz quando eles chegam ao andar. — Filho da puta duas caras! Eu… eu ajudei a eleger aquele cuzão. Pedi votos para ele por vinte e sete horas seguidas. Fui ao casamento da irmã dele. Decorei o maldito pedido dele na lanchonete!

— Caralho, Harry, eu sei — Hermione diz, enfiando o cartão-chave na abertura.

— Como aquele bostinha com cara de Vampire Weekend tinha seu número pessoal, aliás?

Hermione atira os sapatos na cama, que quicam e caem no chão em direções diferentes.

— Porque transei com ele no ano passado, Harry, o que você acha? Você não é o único que toma decisões sexuais idiotas quando está estressado. — Ela se joga na cama e começa a tirar os brincos. — Só não entendo qual é o objetivo. Tipo, qual é a intenção do Diggory aqui? Ele é algum tipo de espião enviado do futuro para me causar uma úlcera de estresse?

Está tarde — eles chegaram a Nova York depois das nove, se jogando em reuniões de gestão de crise durante horas. Harry ainda está elétrico, mas, quando Hermione ergue o rosto, ele consegue ver que parte do brilho em seus olhos começa a parecer lágrimas de frustração, e se acalma um pouco.

— Se eu tivesse que chutar, Diggory acha que vamos perder — ele diz baixo — e acha que pode ajudar a forçar Riddle para a esquerda se entrar para a chapa dele. Tipo, apagando o fogo de dentro da casa.

Hermione olha para ele, cansada, examinando seu rosto. Ela pode ser a mais velha, mas política é a área de Harry, não a dela. Ele teria escolhido essa vida se tivessem lhe dado a opção; ela não.

— Acho que… eu preciso dormir. Por, tipo, um ano. Pelo menos. Me acorda depois da eleição.

— Tá, Mione — Harry diz. Ele beija o topo da cabeça dela. — Pode deixar.

— Obrigada, irmãozinho.

— Não me chame assim.

— Mini-irmãozinho minusculozinho.

— Vai se foder.

— Vai pra cama.

King está esperando por ele no corredor, tendo trocado o terno por roupas comuns.

— Conseguindo segurar as pontas? — ele pergunta a Harry.

— Assim, meio que preciso.

King dá um tapinha no ombro dele com sua mão gigantesca.

— Tem um bar lá embaixo.

Harry considera.

— Tá, tudo bem.

Felizmente, o hotel Beekman está calmo a essa hora, e o bar está à meia-luz, com tons quentes e matizados de dourado nas paredes e couro verde-escuro nas banquetas de encosto alto. Harry pede um uísque puro.

Ele olha o celular, engolindo em seco a frustração junto com o uísque. Três horas atrás, ele mandou uma mensagem sucinta para Diggory: mas que porra é essa? Uma hora atrás, recebeu em resposta: Não espero que você entenda.

Ele quer ligar para Draco. Ele acha que faz sentido — eles sempre foram pontos fixos no mundo um do outro, pequenos polos magnéticos. Algumas leis de física fariam bem agora.

Deus, como o uísque o deixa piegas. Ele pede outro.

Ele está considerando mandar mensagem para Draco, embora ele provavelmente esteja do outro lado do Atlântico, quando uma voz envolve seu ouvido, quente e suave. Ele tem certeza que não está imaginando coisas.

— Quero uma gim-tônica, por favor — ele diz, e lá está Draco em carne e osso, sentado ao lado dele no balcão, com o ar um pouco desgrenhado, camisa cinza-claro e jeans. Harry pensa por um segundo insano que seu cérebro conjurou algum tipo de miragem sexual induzida pelo estresse, quando Draco diz, baixando a voz: — Que imagem trágica essa de você bebendo sozinho.

Definitivamente o verdadeiro Draco, então.

— Você está… O que você tá fazendo aqui?

— Sabe, como representante de um dos países mais poderosos do mundo, consigo me manter a par da política internacional.

Harry ergue uma sobrancelha.

Draco inclina a cabeça, acanhado.

— Mandei Blás para casa sem mim porque fiquei preocupado.

— Aí está — Harry diz com uma piscadinha. Ele pega o copo para esconder o que imagina ser um pequeno sorriso triste; o gelo estala contra seus dentes. — Não diga o nome daquele filho da puta.

— Saúde — Draco diz quando o barman volta com seu drinque.

Draco dá o primeiro gole, sugando o suco de limão do polegar, e, porra, ele está lindo. Suas bochechas e seus lábios estão corados, o brilho do calor do verão do Brooklyn a que seu sangue inglês não está acostumado. Parece algo macio e felpudo em que Harry quer se afundar, e ele se dá conta de que o nó de ansiedade em seu peito finalmente relaxou.

É raro alguém além de Hermione se esforçar para saber como ele está. Isso, em grande parte, é culpa dele, uma barricada de charme, monólogos intermitentes e independência teimosa. Draco olha para ele como se não se deixasse enganar por nada disso.

— Toma logo esse drinque, Gales — Harry diz. — Tenho uma cama gigante lá em cima chamando meu nome. — Ele muda de posição no banco, deixando um de seus joelhos roçar os de Draco embaixo do balcão, abrindo as pernas dele.

Draco estreita os olhos para ele.

— Mandão.

Eles ficam sentados até Draco terminar a bebida, Harry ouvindo o murmúrio relaxante de Draco falando sobre marcas diferentes de gim, grato por ele parecer contente em guiar a conversa sozinho dessa vez. Ele fecha os olhos, deseja que os desastres do dia passem, e tenta esquecer. Ele se lembra das palavras de Draco no jardim meses atrás: “Você já se perguntou como seria viver como uma pessoa anônima?”.

Se ele tivesse outra vida, teria vinte e dois anos e estaria um pouco bêbado, guiando um cara para seu quarto de hotel pela fivela do cinto. Ele estaria puxando um lábio entre os dentes, tateando com a mão atrás do corpo para ligar o abajur e pensando: “Eu gosto dessa pessoa”.

Eles se separam e, quando Harry abre os olhos, Draco o observa.

— Tem certeza que não quer conversar?

Harry resmunga.

A questão é que, sim, ele quer, e Draco também sabe disso.

— É que… — Harry começa. Ele anda para trás, as mãos nos quadris. — Era pra eu ser ele daqui a vinte anos, entende? Eu tinha quinze quando o conheci, e fiquei… deslumbrado. Ele era tudo que eu queria ser. Ele se importava com as pessoas, e em fazer o trabalho porque era a coisa certa a fazer, porque estávamos melhorando a vida dos outros.

Sob a luz fraca da única lâmpada, Harry se vira e senta na beira da cama.

— Nunca tive tanta certeza de que queria entrar pra política como quando fui pra Denver. Eu vi aquele jovem gay que se parecia comigo, dormindo à mesa porque queria que os alunos de escolas públicas do estado dele tivessem merenda gratuita, e pensei, tipo, eu posso fazer isso. Sinceramente não sei se sou bom ou inteligente o suficiente para ser como algum dos meus pais. Mas aquilo eu podia ser. — Ele baixa a cabeça, nunca se ouviu dizer essa última parte em voz alta antes. — E agora estou sentado aqui pensando naquele filho da puta vendido, então talvez seja tudo mentira, e eu realmente não passe de um moleque ingênuo que acredita em merdas mágicas que não acontecem no mundo de verdade.

Draco se aproxima e para na frente de Harry, com a coxa encostada na parte de dentro do joelho dele, e baixa a mão para acalmar sua inquietação nervosa.

— A escolha de outra pessoa não muda quem você é.

— Parece que muda — Harry diz a ele. — Eu queria acreditar que tem pessoas boas fazendo esse trabalho porque querem fazer o bem. Fazendo as coisas certas na maior parte do tempo e a maioria das coisas pelos motivos certos. Eu queria ser o tipo de pessoa que acredita nisso.

A mão de Draco se move, subindo pelos ombros de Harry, pela curva de sua garganta, por baixo de seu queixo e, quando Harry finalmente olha para cima, os olhos de Draco são firmes e suaves.

— Você ainda é. Porque você ainda se importa pra caramba. — Ele se abaixa e dá um beijo no cabelo de Harry. — E você é bom. A maioria das coisas é horrível na maior parte do tempo, mas você é bom.

Harry respira fundo. Draco tem um jeito de ouvir o fluxo errático de consciência que sai da boca dele responder com a verdade mais clara e cristalina que Harry não conseguia enxergar. Se a cabeça do primeiro-filho é uma tempestade, Draco é o ponto onde o trovão atinge a terra.

Harry deixa Draco empurrá-lo de costas na cama e beijá-lo até sua mente se esvaziar, deixa Draco despi-lo com cuidado. Ele se pressiona contra Draco e sente os músculos tensos de seus ombros começarem a relaxar, como Draco fala das velas de seus barcos sendo desenroladas.

Draco beija sua boca de novo e de novo e diz baixo:

— Você é bom.

 

As batidas na porta começam cedo demais para o gosto de Harry. Elas são tão cortantes que ele sabe que Minerva está do outro lado antes mesmo de ela falar, e se pergunta por que ela não ligou até pegar o celular e o encontrar sem bateria. Merda. Isso explica o despertador não ter tocado.

— Harry Evans-Potter, são quase sete horas — Minerva grita do outro lado da porta. — Você tem uma reunião de estratégia em quinze minutos e eu tenho a chave, então não dou a mínima se estiver pelado, se você não abrir a porta em trinta segundos, eu vou entrar.

Ao esfregar os olhos, ele se dá conta de que, sim, está extremamente pelado. Um olhar rápido sobre o corpo pressionado contra suas costas: Draco, completamente pelado também.

— Ah, puta que pariu — Harry exclama, sentando tão rápido que se enrosca na coberta e cai de lado da cama.

Blurgh — Draco geme.

— Puta merda — diz Harry, cujo vocabulário agora se resume a palavrões, pelo visto. Ele se solta das cobertas enquanto procura sua calça chino. — Cacete do caralho.

— Quê — Draco diz devagar para o teto.

— Consigo ouvir você aí dentro, Harry, juro por Deus…

Há outro barulho na porta, como se Minerva a tivesse chutado, e Draco pula da cama também. Ele é uma visão e tanto, com uma expressão de pânico desnorteado e mais nada no corpo. Ele olha de soslaio para a cortina, como se considerasse se esconder atrás dela.

— Jesus do inferno — Harry continua enquanto se atrapalha para vestir a calça. Ele pega uma camisa e uma cueca ao acaso do chão, as joga para Draco e aponta na direção do armário. — Entra ali.

— Interessante — ele observa.

— Sim, depois podemos falar da simbologia irônica por trás disso. Vai — Harry diz, e Draco obedece e, quando a porta se abre, lá está Minerva com sua garrafa térmica e uma expressão no rosto que diz que ela não fez um mestrado para virar babá de um homem adulto que, por acaso, é parente da presidenta.

— Hm, bom dia — ele diz.

Os olhos de Minerva perpassam o quarto — os lençóis no chão, os dois travesseiros amassados, os dois celulares na mesa de cabeceira.

— Quem é ela? — ela questiona, andando até o banheiro e abrindo a porta como se fosse encontrar uma atriz iniciante de Hollywood na banheira. — Você deixou que ela trouxesse um celular para cá?

— Ninguém, meu Deus — Harry diz, mas sua voz se afina no meio da frase. Minerva arqueia uma sobrancelha. — Que foi? Fiquei meio bêbado ontem à noite, só isso. Tranquilo.

— Sim, é muito, muito tranquilo que você vá passar o dia de hoje de ressaca — Minerva diz, o encarando.

— Estou bem — ele diz. — Está tudo bem.

De repente, há uma série de baques na porta do armário e Draco, com a cueca de Harry no meio das coxas, literalmente tomba para fora do armário.

É, Harry pensa quase histérico, tá aí um trocadilho visual perfeito.

— É… — Draco diz no chão. Ele termina de vestir a samba-canção de Harry. Pisca. — Olá.

O silêncio se estende.

— Eu… — Minerva começa. — Será que quero que você explique pra mim que porra está acontecendo? Literalmente como ele veio parar aqui, física ou geograficamente, e por quê… não, chega. Não me responde. Não me fala nada. — Ela desenrosca a tampa da garrafa térmica e toma um gole de café. — Ai, meu Deus, fui eu que fiz isso? Nunca pensei… quando organizei… ai, meu Deus.

Draco levantou do chão e vestiu uma camisa, e suas orelhas estão vermelho-vivas.

— Acho que, talvez, se ajudar. Foi. É. Bastante inevitável. Ao menos para mim. Então, você não deveria se culpar.

Harry olha para ele, tentando pensar em algo para acrescentar, quando Minerva crava uma unha em seu ombro.

— Bom, espero que tenha sido divertido, porque, se alguém um dia descobrir isso, estamos todos fodidos — Minerva diz. Ela aponta para Draco. — Você também. Posso supor que não preciso pedir para assinar um termo de confidencialidade?

— Já assinei um para ele — Harry diz, enquanto as orelhas de Draco passam de vermelhas a um tom preocupante de roxo. Seis horas atrás, ele estava pegando no sono afundado no peito de Draco e, agora, está aqui seminu, conversando sobre burocracia. Ele odeia a porra da burocracia. — Acho que cobre isso.

— Ah, maravilha — Minerva diz. — Que bom que vocês pensaram nisso direito. Ótimo. Há quanto tempo isso está acontecendo?

— Desde, é… O Ano-Novo — Harry responde.

Ano-Novo? — Minerva repete, os olhos arregalados. — Isso está acontecendo há sete meses? É por isso que você… Meu Deus, achei que você estivesse começando a se interessar por relações internacionais ou coisa do tipo.

— Assim, tecnicamente…

— Se você terminar essa frase, vou acabar passando a noite na cadeia.

Harry se crispa.

— Por favor, não conta pra minha mãe.

— Sério? — ela sussurra, furiosa. — Você está literalmente enfiando o pau no líder de um país estrangeiro, que é um homem, no maior evento político antes da eleição, em um hotel cheio de repórteres, em uma cidade cheia de câmeras, em uma disputa tão acirrada que pode virar com uma merda dessas, concretizando um dos meus maiores pesadelos de estresse, e está me pedindo para não contar para a presidenta?

— Hm. Sim? Eu não, é, saí do armário pra ela. Ainda.

Minerva pestaneja, pressiona os lábios um no outro, e solta um barulho como se estivesse sendo estrangulada.

— Escuta — ela diz. — Não temos tempo para lidar com isso agora, e sua mãe tem coisas demais na cabeça dela para lidar com a porra da crise sexual do filho de vinte e poucos anos na OTAN, então… não vou contar para ela. Mas, depois que a convenção acabar, você vai ter que contar.

— Certo — Harry diz com um suspiro.

— Faria alguma diferença se eu mandasse vocês não se verem mais?

Harry olha para Draco, com a cara desgrenhada e nauseada e apavorada no canto da cama.

— Não.

— Puta que pariu do céu — ela diz, esfregando a palma da mão na testa. — Toda vez que eu te vejo, eu perco um ano de vida. Eu vou descer, e é melhor que você esteja vestido lá embaixo em cinco minutos para podermos tentar salvar essa maldita campanha. E você — ela parte para cima de Draco —, você precisa voltar para a porra da Inglaterra agora e, se alguém te vir saindo, eu mesma vou acabar com a sua raça. Não pense que tenho medo da coroa.

— Entendido — ele diz com a voz fraca.

Minerva dispara um último olhar contra ele, dá meia-volta, e sai a passos largos do quarto, batendo a porta atrás de si.


Notas Finais


Ois
Como sempre: essa história não é original minha, mas da autora Casey McQuiston.
Mais um dia de att dupla, mas hoje pra comemorar o aniversário do Harryzinho.
Tive que arrumar o capítulo no celular novamente por causa do emoji, que desgraça.
Spirit não ajuda o toc
Harry e Draco são super casalzinho! Amo muito!
Cedric Diggory foi pro lado do Tom Riddle (tudobom?) e Minerva descobriu sobre o romance gay mais perfeito, agora a coisa complica.
Acho que é isso! Bebam água, lavem as mãos, usem máscara e fiquem em casa.
D


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