1. Spirit Fanfics >
  2. Vermelho, Branco e Sangue Azul - Drarry >
  3. Nine

História Vermelho, Branco e Sangue Azul - Drarry - Capítulo 9


Escrita por:


Notas do Autor


Antes tarde do que nunca.
Aproveitem!

Capítulo 9 - Nine


— Certo — ele diz.

Sua mãe está sentada do outro lado da mesa, as mãos cruzadas, olhando para ele com expectativa. As palmas das mãos dele começaram a suar. A sala é pequena, uma das menores na Ala Oeste. Harry sabe que poderia ter pedido para almoçar com ela ou coisa assim, mas, bom, ele meio que entrou em pânico.

É melhor acabar logo com isso.

— Eu andei, hm — ele começa. — Descobrindo algumas coisas sobre mim recentemente. E… Queria que você soubesse, porque você é minha mãe e quero que você faça parte da minha vida, e não quero esconder coisas de você. E também é, hm, relevante para a campanha, de um ponto de vista de imagem.

— Certo — Lilian diz, com a voz neutra.

— Certo — ele repete. — Então. Bom. Descobri que não sou hétero. Na verdade, sou bissexual.

A expressão dela se alivia, e ela ri, descruzando as mãos.

— Ah, é isso, meu bem? Meu Deus, estava com medo que fosse algo pior! — Ela estende o braço sobre a mesa, cobrindo a mão com a dele. — Que ótimo, filho. Fico muito feliz que tenha me contado.

Harry sorri em resposta, a bolha de ansiedade em seu peito diminuindo um pouco, mas há mais uma bomba a ser lançada.

— Hm. Tem mais uma coisa. Eu meio que… conheci uma pessoa.

Ela inclina a cabeça.

— Conheceu? Bom, fico feliz por você, espero que tenha dado toda a papelada para ele…

— É, bom — ele a interrompe. — É o Draco.

Um segundo. Ela franze a testa, suas sobrancelhas se unindo.

— Draco…?

— Isso, Draco.

— Draco, o… príncipe?

— Isso.

— Da Inglaterra?

— Isso.

— Então, não é outro Draco?

— Não, mãe. Príncipe Draco. De Gales.

— Pensei que você o odiasse? — ela diz. — Ou… agora vocês são amigos?

— As duas coisas foram verdades em momentos diferentes. Mas, bom, agora nós, tipo, somos um lance. Temos. Um lance. Há, tipo, uns sete meses? Acho?

— En… entendi.

Ela olha fixamente para ele por um longo minuto. Ele se ajeita desconfortavelmente na cadeira.

De repente, ela está com o celular na mão e levanta, empurrando a cadeira com o pé por baixo da mesa.

— Certo, vou esvaziar minha agenda para essa tarde — ela diz. — Preciso, hm, de tempo para preparar alguns materiais. Você vai estar livre daqui a uma hora? Podemos nos reencontrar aqui. Vou pedir comida. Traga seu passaporte e todos os recibos e documentos pertinentes que tiver, amor.

Ela não espera para ouvir se ele vai estar livre, apenas volta a sair da sala e desaparece no corredor. A porta mal acabou de se fechar quando uma notificação aparece no celular dele. CONVITE DE CALENDÁRIO DE MÃE: 14H. PRIMEIRO ANDAR DA ALA OESTE, REUNIÃO DE ÉTICA INTERNACIONAL & IDENTIDADE SEXUAL.

Uma hora depois, há várias embalagens de comida chinesa e um PowerPoint na tela. O primeiro slide diz: EXPERIÊNCIAS SEXUAIS COM MONARCAS ESTRANGEIROS: UMA ZONA CINZENTA. Harry se pergunta se ainda dá tempo de pular do terraço.

— Certo — ela diz quando ele senta, praticamente com o mesmo tom que ele usou com ela antes. — Antes de começarmos… quero deixar claro que te amo e te apoio sempre. Mas isto é, para ser muito franca, um desastre do ponto de vista logístico e ético, então precisamos garantir que temos tudo alinhado. Está bem?

O slide seguinte é intitulado: EXPLORAR A SUA SEXUALIDADE: SAUDÁVEL, MAS PRECISA SER COM O PRÍNCIPE DA INGLATERRA? Ela pede desculpas por não ter tido tempo para pensar em títulos melhores. Harry deseja fortemente o doce alívio da morte.

O que vem depois é: FINANCIAMENTO FEDERAL, CUSTOS DE VIAGENS, ENCONTROS SEXUAIS E VOCÊ.

Ela está mais preocupada em garantir que ele não usou nenhum jato particular financiado pelo governo federal para ver Draco para fins exclusivamente pessoais — ele não usou — e em fazê-lo preencher várias papeladas para se safarem. Parece frio e errado, ticar itens sobre o relacionamento deles, ainda mais porque metade está perguntando sobre coisas que ele nem discutiu com Draco ainda.

É agonizante, mas uma hora acaba, e ele não morreu, o que já é alguma coisa. A mãe dele pega o último formulário e o coloca em um envelope com o restante. Ela o deixa de lado e tira os óculos de leitura, colocando-o de lado também.

— Então — ela diz. — A questão é a seguinte. Sei que coloco muita pressão em você, filho. Mas faço isso porque confio em você. Você é um tonto, mas confio no seu bom senso. Prometi anos atrás que nunca te mandaria ser algo que não é. Então não vou ser a presidenta nem a mulher que vai te proibir de sair com esse menino.

Ela toma fôlego de novo, esperando que Harry mostre que entendeu.

— Mas — ela continua — isso é importante pra caralho. Não é só um coleguinha de faculdade ou um estagiário. Você precisa pensar muito bem porque está colocando você mesmo e sua carreira e, acima de tudo, essa campanha e toda essa administração em risco. Sei que você é jovem, mas essa é uma decisão para a vida toda. Mesmo que não continue com ele para sempre, se as pessoas descobrirem, isso vai te perseguir para sempre. Por isso, você precisa pensar se o que sente por ele é para sempre. E, se não for, precisa cair fora.

Ela coloca as mãos na mesa diante dela, e o silêncio paira no ar entre eles. Harry sente seu coração subir pela garganta.

Para sempre. Parece uma expressão impossível de tão enorme, que ele precisa de mais uns dez anos para entender.

— Além disso — ela diz. — Desculpa fazer isso, meu bem. Mas você está fora da campanha.

Harry volta à realidade de repente, um frio na barriga.

— Espera, não…

— Isso não está aberto a discussão, Harry — ela diz, e parece chateada, mas ele conhece bem demais a firmeza na expressão dela. — Não posso colocar isso em risco. Você está muito perto do sol. Vamos falar para a imprensa que você está se concentrando em outras opções de carreira. Vou pedir para esvaziarem sua mesa durante o fim de semana.

Ela estende a mão, e Harry baixa os olhos para a mão dela, as linhas fundas na palma, até a ficha cair.

Ele coloca a mão no bolso, tira o crachá da campanha. O primeiro artefato de toda a sua carreira, uma carreira que ele conseguiu estragar em questão de meses. E o entrega para ela.

— Ah, uma última coisa — ela diz, o tom subitamente profissional de novo, revirando o fundo dos arquivos. — Sei que as escolas públicas do Texas não têm bosta nenhuma de educação sexual, e que não falamos sobre isso quando tivemos nossa primeira conversa sobre sexo, o que é culpa minha por presumir que você era hétero, então só queria que você soubesse que também precisa usar camisinhas mesmo se estiver tendo relações ana…

— Certo, valeu, mãe! — Harry meio que grita, quase derrubando a cadeira tamanha a pressa para sair.

— Espera, filho — ela grita atrás dele —, pedi para uma ONG trazer todos esses panfletos, leva um! Eles mandaram um mensageiro de bicicleta e tudo!

 

Assunto: Uma multidão de tolos e patifes
H <[email protected]> 10/8/20 1h04
para Draco

D,

Você já leu alguma das cartas de Alexander Hamilton a John Laurens?

O que estou dizendo? É óbvio que não. Você provavelmente seria deserdado por simpatizar com revolucionários.

Bom, desde que me expulsaram da campanha, não me resta literalmente nada além de assistir aos noticiários da TV a cabo (corroendo meus neurônios com afinco dia após dia), reler Crepúsculo e rever minhas coisas antigas da faculdade. Só olhar os trabalhos, pensando: Excelente, ótimo, fico tão feliz de ter virado a noite escrevendo isso para tirar um 9,8 na aula e ser sumariamente demitido do meu primeiro emprego e exilado no meu quarto! Parabéns, Harry!

É assim que você se sente no palácio o tempo todo? É uma bosta, cara.

Então, enfim, estava revendo minhas coisas de faculdade, e encontrei uma análise que fiz sobre a correspondência de guerra de Hamilton, e escuta: acho que talvez Hamilton fosse bi. As cartas dele para o Laurens são quase tão românticas quanto as cartas dele para a esposa. Metade delas é assinada com “Seu” ou “Com carinho, seu”, e a última antes de Laurens morrer é assinada “Seu para sempre”. Não entendo por que ninguém fala sobre a possibilidade de um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos não ser hétero (exceto pela biografia de Chernow, que é ótima, aliás, ver bibliografia anexa). Assim, eu sei por quê, mas mesmo assim.

Enfim, encontrei esse trecho de uma carta que ele escreveu para Laurens, e me fez pensar em você. E em mim, acho:

“A verdade é que sou um homem honesto e desafortunado, que falo meus sentimentos a todos e com ênfase. Digo isso a você porque você sabe e não me acusará de vaidade. Odeio o Congresso — odeio o Exército — odeio o mundo — me odeio. São todos uma multidão de tolos e patifes; quase à exceção de você…”

Pensar sobre história me fez questionar como vou entrar para ela algum dia, acho. E você também. Meio que queria que as pessoas ainda escrevessem desse jeito.

História, hein? Aposto que poderíamos fazer.

Com carinho, seu, enlouquecendo lentamente,

Harry, Primeiro-Filho do Sacrilégio contra os Pais Fundadores

 

Re: Uma multidão de tolos e patifes
Draco <[email protected]> 10/8/20 4h18
para H

Harry, Primeiro-Filho de Leituras Históricas Masturbatórias:

A frase “ver bibliografia anexa” é a coisa mais sexy que você já me escreveu.

Toda vez que você menciona sua decadência lenta dentro da Casa Branca, não consigo deixar de pensar que é culpa minha, e me sinto um bosta por isso. Me desculpa. Eu não deveria ter aparecido em um evento como aquele. Me deixei levar, não pensei direito. Eu sei o quanto aquele trabalho era importante para você.

Quero apenas… sabe. Te dar a opção. Se quiser menos de mim, e mais daquilo — do trabalho, de coisas descomplicadas —, eu entenderia. De verdade.

Em todo caso… Acredite ou não, já li um bocado sobre Hamilton, por diversos motivos. Primeiro, ele era um escritor brilhante. Segundo, eu sabia que você foi batizado em homenagem a ele (vocês dois compartilham uma quantidade espantosa de características, aliás: uma determinação apaixonada, nunca saber quando calar a boca etc.). E, terceiro, uma garota bem safada já tentou impugnar minha virtude contra um retrato dele e, nos salões da memória, algumas coisas exigem contexto.

Você está pretendendo fingir ser um soldado revolucionário na cama? Devo lhe informar que quaisquer vestígios do sangue de rei George III que eu tenho se solidificariam em minhas veias e me tornariam inútil para você.

Ou está sugerindo que prefere trocar cartas apaixonadas à luz de velas?

Devo lhe dizer que, quando estamos separados, seu corpo me vem em sonhos? Que, quando durmo, vejo você, a curva da sua cintura, a sarda sobre seu quadril, e, quando acordo pela manhã, acredito que estivemos juntos, que o toque fantasma de sua mão na minha nuca é recente e não imaginado? Que consigo sentir sua pele contra a minha, e isso faz todos os ossos em meu corpo te desejarem? Que, por alguns momentos, consigo segurar a respiração e estar lá de volta com você, em um sonho, em mil quartos, em lugar nenhum?

Acho que talvez Hamilton tenha dito isso melhor em uma carta para Eliza:

“Você ocupa meus pensamentos demais para me permitir pensar em qualquer outra coisa — você distrai minha mente não apenas o dia todo; mas invade meu sono. Encontro você em todos os sonhos — e, quando acordo, não consigo fechar os olhos de novo, de tanto que reflito sobre sua doçura.”

Se decidir escolher a opção mencionada no início deste e-mail, espero que não tenha lido o resto dessa bobagem toda.

Meus cumprimentos,

Súbita e Azaradamente Romântico príncipe Draco, o Parvo Completo

 

Re: Uma multidão de tolos e patifes
H <[email protected]> 10/8/20 5h36
para Draco

D,

Por favor, não seja besta. Nada disso nunca será descomplicado. Enfim, você deveria ser escritor. Você é escritor.

Mesmo depois de tudo, continuo com a sensação constante de que quero saber mais sobre você. Parece loucura? Fico aqui sentado e me pergunto: quem é essa pessoa que sabe coisas sobre Hamilton e escreve dessa forma? De onde surgiu uma pessoa assim? Como pude ter me enganado tanto?

É estranho porque sempre sei coisas sobre as pessoas, pressentimentos que costumam me levar em uma direção mais ou menos certa. Acho que eu tinha sim um pressentimento sobre você, só não tinha o que precisava na minha cabeça para entender aquilo.

Mas meio que continuei correndo atrás mesmo assim, como se estivesse vagando cegamente em determinada direção e torcendo para dar certo. Talvez isso faça de você minha Estrela do Norte?

Quero te ver de novo em breve. Continuo lendo aquele parágrafo sem parar. Você sabe qual. Quero você aqui comigo. Quero seu corpo e quero o resto de você também. E quero sair dessa casa. Assistir a Hermione e Ginny na TV fazendo aparições sem mim é torturante.

Temos uma tradição anual na casa de lago do meu pai no Texas. Um fim de semana prolongado fora do radar. Tem um lago com um píer, e meu pai sempre cozinha algo incrível pra cacete. Quer vir? Meio que não consigo parar de pensar em você todo lindo e bronzeado no meio do mato. Não é nesse fim de semana, só no próximo. Se Shaan puder conversar com a Minerva ou alguém de te mandar para Austin, podemos te buscar lá. Diz que sim?

Seu,

Harry

P.S. Allen Ginsberg para Peter Orlovsky — 1958:

“Embora eu deseje o contato solar real entre nós, você me faz falta como um lar. Brilhe carinho em resposta, e pense em mim.”

 

Re: Uma multidão de tolos e patifes
Draco <[email protected]> 10/8/20 20h22
para H

Harry,

Se sou o norte, estremeço só de pensar aonde estamos indo.

Estou refletindo a respeito de identidade e sua pergunta sobre de onde surgiu uma pessoa como eu, e o melhor que consigo explicar é com uma história:

Era uma vez um jovem príncipe que nasceu em um castelo. Sua mãe era uma princesa intelectual e seu pai, o cavaleiro mais belo e temido em todo o reino. Quando ele era menino, as pessoas lhe davam tudo com que ele poderia sonhar. As roupas de seda mais bonitas, as frutas mais maduras do laranjal. Às vezes, ele era tão feliz que sentia que nunca se cansaria de ser um príncipe.

Ele veio de uma longa linhagem de príncipes, mas nunca antes havia existido um como ele: nascido com o coração fora do corpo.

Quando ele era pequeno, a família dele sorria e ria e dizia que ele mudaria com a idade. Mas, conforme crescia, seu coração continuou onde estava, vermelho, visível e vivo. Ele não se importava muito, mas, a cada dia, aumentava o medo da família de que o povo do reino em breve notaria e daria as costas para o príncipe.

Sua avó, a rainha, vivia em uma torre alta, onde falava apenas de outros príncipes, passados e presentes, que nasceram saudáveis.

Então, o pai do príncipe, o cavaleiro, foi abatido em batalha. A lança rompeu sua armadura e seu corpo e o deixou sangrando na terra. E, então, quando a rainha enviou roupas novas, uma armadura para o príncipe guardar seu coração em segurança, a mãe do príncipe não a impediu. Porque agora ela tinha medo: medo de que o coração de seu filho também fosse trespassado.

Então o príncipe a vestiu e, por muitos anos, acreditou ser a coisa certa a fazer.

Até conhecer o plebeu mais devastadoramente lindo de uma aldeia da região que dizia coisas absolutamente abomináveis para ele que o fizeram se sentir vivo pela primeira vez em anos e se revelou o tipo mais maníaco de feiticeiro, capaz de conjurar coisas como ouro e doses de vodca e tortas de damasco do nada, e toda a sua vida se desfez em uma fumaça púrpura deslumbrante, e o reino disse: “Não acredito que estejamos todos tão surpresos”.

Eu topo a casa do lago. Devo admitir que fico contente em você sair da Casa Branca. Fico com medo que você acabe botando fogo aí. Isso significa que vou conhecer seu pai?

Estou com saudades.

Beijo,

Draco

P.S. Isso é vergonhoso e piegas e, sinceramente, torço para que esqueça assim que tiver lido.

P.P.S. De Henry James a Hendrik C. Andersen, 1899:

“Que os esplêndidos Estados Unidos, porém, não lhe sejam brutos. Sinto em você uma confiança, querido rapaz — que me é uma alegria mostrar. Meus desejos e esperanças e simpatias mais calorosos e mais firmes vão com você. Então tenha ânimo e me conte, à medida que ela toma forma, sua (inevitavelmente, imagino, mais ou menos estranha) história americana. Que, em todo caso, tutta quella gente seja boa com você.”

 

— Não — Ginny diz, se debruçando no banco de passageiro. — Tem um sistema e você tem que respeitá-lo.

— Não acredito em sistemas quando estou de férias — Hermione diz, o corpo dobrado em cima de Harry, tentando tirar a mão de Ginny do caminho.

— É matemática — Ginny diz.

— Matemática não tem autoridade aqui — Hermione diz a ela.

— Matemática está em toda parte, Hermione.

— Sai de cima de mim — Harry diz, tirando Hermione de cima de seu ombro.

— Você deveria estar me apoiando aqui! — Hermione grita, puxando seu cabelo e recebendo uma careta muito feia em resposta.

— Deixo você olhar um dos meus peitos — Ginny diz a ele. — O peito bom.

— Os dois são bons — Hermione diz, distraída de repente.

— Eu já vi os dois. Estou praticamente conseguindo ver os dois agora — Harry diz, apontando para o que Ginny está vestindo: um macacão surrado e curto e o tipo menos pudico de sutiã.

— Hashtag mamilos de férias — ela diz. — Por favoooooor.

Harry suspira.

— Desculpa, Mione, mas a Ginny dedicou mais tempo à playlist dela, então ela fica com o cabo auxiliar.

Tem uma combinação de sons de meninas no banco de trás, repulsa e triunfo, e Ginny conecta seu celular, jurando que desenvolveu algum tipo de algoritmo infalível para a playlist de viagem perfeita. Os primeiros trompetes de “Loco in Acapulco” do Four Tops começam a tocar, e Harry finalmente sai do posto de gasolina.

O jipe é um carro restaurado, um projeto que seu pai empreendeu quando Harry tinha uns dez anos. O carro fica na Califórnia agora, mas ele o leva até o Texas uma vez ao ano para o fim de semana, e o deixa em Austin para que Harry e Hermione possam usá-lo. Harry aprendeu a dirigir neste jipe, durante um verão no vale, e o acelerador parece novo sob seu pé agora, entrando em formação com duas SUVs pretas de segurança e se dirigindo para a interestadual. É raro ele conseguir dirigir sozinho para qualquer lugar hoje em dia.

O céu está aberto e azul violáceo por quilômetros, o sol baixo e intenso no começo da manhã, e Harry está de óculos escuros, com os braços nus e as janelas e o capô abertos. Ele aumenta o volume e sente que poderia jogar ao vento que bate em seu cabelo qualquer coisa, e ela simplesmente sairia voando como se nunca tivesse existido, como se nada importasse além das batidas em seu peito.

Mas tudo continua ali, sob a névoa de dopamina: perder o trabalho na campanha, os dias intranquilos andando de um lado para o outro pelo quarto, O que sente por ele é para sempre?

Ele ergue o queixo para sentir o ar quente e úmido de sua terra natal, e encontra seu olhar no retrovisor. Ele parece bronzeado, leve e jovem, um menino texano, o mesmo garoto que era quando se mudou para Washington. Bom, chega de grandes reflexões por hoje.

Do lado de fora do hangar, há meia dúzia de seguranças reais e Draco de camisa de chambray de manga curta, bermuda e óculos de sol elegantes, uma bolsa da Burberry sobre um ombro — um maldito sonho de verão. A playlist de Ginny começa a tocar “Here You Come Again” da Dolly Parton quando Harry pula para fora do jipe.

— Sim, oi, oi, é bom ver vocês também! — Draco diz em algum lugar detrás de um abraço sufocante de Hermione e Ginny. Harry morde o lábio e vê Draco apertar as cinturas dela em resposta, e então Harry está com ele, inspirando o cheiro límpido dele, rindo na curva de seu pescoço.

— Oi, amor — ele escuta Draco dizer, baixo, em particular, junto ao cabelo sobre sua orelha, e o fôlego de Harry se perde e ele não consegue fazer nada além de rir.

Drums, please! ”, grita o estéreo do jipe, a batida de “Summertime” começa a tocar, e Harry grita em aprovação. Depois que a equipe de segurança de Draco entra em formação com os carros do Serviço Secreto, eles partem.

Draco está com um sorriso largo ao lado dele enquanto cruzam a 45, balançando a cabeça contente com a música, e Harry não consegue deixar de olhar de soslaio para ele, sentindo-se bobo que Draco — Draco, o príncipe — esteja ali, no Texas, indo para casa com ele. Hermione tira quatro garrafas de coca-cola mexicana do cooler embaixo do banco e vai passando para todos, e Draco toma o primeiro gole e praticamente se derrete. Harry estende o braço e pega a mão livre de Draco na sua, entrelaçando seus dedos no painel entre eles.

Demora uma hora e meia para chegar de Austin ao lago LBJ e, quando eles começam a seguir o caminho em direção à água, Draco pergunta:

— Por que chama lago LBJ?

— Mione? — Harry diz.

— Lago LBJ — Hermione diz —, ou lago Lyndon B. Johnson, é um dos seis reservatórios formados pelos diques do rio Colorado conhecidos como lagos dos Planaltos do Texas. Passaram a existir quando LBJ colocou em prática a Lei de Eletrificação Rural quando era presidente. E LBJ tinha uma casa na região.

— É verdade — Harry diz.

— Aliás, curiosidade: LBJ era obcecado pelo próprio pau — Ginny acrescenta. — Ele o chamava de Jumbo e vivia botando ele para fora. Tipo, na frente de colegas, repórteres, qualquer pessoa.

— Também é verdade.

— Política americana — Draco diz. — Sempre fascinante.

— Quer acrescentar alguma coisa, Henrique VIII? — Harry diz.

— Enfim — Draco diz, sorrindo —, desde quando vocês vêm para cá?

— Nosso pai comprou a casa quando ele e minha mãe se separaram, eu tinha uns doze anos — Harry diz. — Ele queria ter uma casa perto de nós depois que se mudou. A gente passava muito tempo aqui nas férias de verão.

— Ah, Harry, lembra quando você ficou bêbado pela primeira vez aqui? — Hermione diz.

— Daiquiris de morango o dia todo.

— Você vomitou tanto — ela lembra com carinho.

Eles viram na entrada cercada por árvores frondosas e sobem para a casa no alto da colina, o mesmo exterior vibrante e antigo, com arcos suaves, cactos altos e aloés. Sua mãe nunca curtiu muito a vibe hacienda de decoração, então seu pai não mediu esforços quando comprou a casa do lago: portas altas verdes-água, vigas de madeira pesada e toques de azulejos espanhóis vermelhos e cor-de-rosa. Um grande pórtico cerca a casa toda e uma escada desce a colina até a doca, e todas as janelas que dão para a água estão escancaradas, as cortinas sopradas para fora pela brisa morna.

Suas equipes recuam para verificar o perímetro — eles alugaram a casa vizinha para aumentar a privacidade e alocar a presença obrigatória de seguranças. Draco carrega o cooler de Hermione no ombro sem dificuldade e Harry se esforça para não se derreter com isso. Há o grito alto de James Potter chegando molhado, aparentemente recém-saído de um mergulho. Ele está usando seu par velho de sandálias huaraches e uma bermuda de natação com estampa de papagaios, os dois braços abertos sob o sol, e Hermione é sumariamente envolvida neles.

— HJ! — ele diz enquanto a gira no ar e a senta no parapeito de estuque. Ginny é a próxima, e depois um abraço esmagador em Harry.

Draco dá um passo à frente, e James o olha de cima a baixo, a bolsa da Burberry, o cooler no ombro, o sorriso elegante, a mão estendida. Seu pai tinha ficado confuso, mas acabou aceitando quando Harry perguntou se poderia levar um amigo e mencionou casualmente que o amigo seria o príncipe de Gales. Ele não sabe exatamente como vai ser isso.

— Oi — Draco diz. — É um prazer conhecer o senhor. Meu nome é Draco.

James bate na mão de Draco.

— Espero que esteja pronto para botar para foder.

James pode ser o cozinheiro da família, mas a mãe de Harry era a responsável pela churrasqueira. Nem sempre fazia sentido em Pemberton Heights — seu pai mexicano dentro da casa fazendo um bolo de tres leches com esmero enquanto sua mãe loira ficava no jardim virando hambúrgueres —, mas funcionava. Harry se incumbiu de aprender o melhor com cada um, e agora é o único ali que consegue lidar com as tiras de costeletas enquanto James cuida do resto.

A cozinha da casa do lago dá para a água, sempre cheirando a frutas cítricas, sal e ervas, e seu pai a mantém estocada com tomates gordos e abacates maduros quando eles vêm visitar. Ele está na frente das janelas grandes e abertas, três tiras de costeletas espalhadas na assadeira do balcão à frente dele. Seu pai está à frente da pia, debulhando espigas de milho e cantarolando junto com um disco antigo do Chente.

Açúcar mascavo. Páprica defumada. Cebola em pó. Chile em pó. Alho em pó. Pimenta-caiena. Sal. Pimenta-do-reino. Mais açúcar mascavo. Harry mede cada um com as mãos e os joga na tigela.

Perto da doca, Hermione e Ginny estão concentradas no que parece um torneio de cavaleiros improvisado, se atacando sobre o dorso de animais infláveis com espaguetes de piscina. Draco está alegre e descamisado, tentando ser o juiz, em cima da doca com um pé sobre uma pilha de estacas e acenando uma garrafa de cerveja Shiner feito um maníaco.

Harry sorri consigo mesmo, observando-os. Draco e suas meninas.

— Então, quer conversar? — diz a voz de seu pai, em espanhol, em algum lugar à sua esquerda.

Harry tem um sobressalto. Seu pai veio para o balcão perto dele, misturando uma grande tigela de cotija e crema e temperos para elotes.

— Hm. — Será que já está tão na cara assim?

— Sobre Ced.

Harry suspira, relaxando os ombros, e volta a atenção para o tempero.

— Ah. O filho da puta — ele diz. Eles apenas abordaram o tópico por cima com mensagens de texto cheias de palavrões desde que saiu a notícia. Os dois se sentem traídos. — Você faz ideia do que ele estava pensando?

— Não tenho nada de bom para dizer sobre ele também. E não tenho nenhuma explicação. Mas… — Ele pausa, pensativo, ainda mexendo. Harry consegue sentir que ele está avaliando vários pensamentos ao mesmo tempo, como sempre faz. — Não sei. Depois de todo esse tempo, quero acreditar que existe um motivo para ele ficar no mesmo ambiente que Tom Riddle. Só não consigo imaginar qual.

Harry pensa na conversa que escutou no gabinete da governanta, se perguntando se seu pai um dia vai colocá-lo a par do quadro geral. Ele não sabe como questionar sem revelar que literalmente se escondeu num arbusto para bisbilhotar os dois. A relação de seu pai com Diggory sempre foi assim: conversa de adultos.

Harry esteve no primeiro evento de arrecadação de fundos para a campanha de James no Senado quando eles conheceram Diggory, Harry tinha apenas catorze anos e já tentava aprender. Diggory apareceu com uma bandeira do orgulho LGBT à vista no bolso da lapela; Harry nunca esqueceu disso.

— Por que você o escolheu? — Harry pergunta. — Eu lembro daquela campanha. Conhecemos muitas pessoas que teriam virado ótimos políticos. Por que não escolher alguém mais fácil de eleger?

— Você quer saber por que apostei no cara gay?

Harry se concentra para manter o rosto neutro.

— Eu não colocaria nesses termos — ele diz —, mas sim.

— Ced já te contou que os pais dele o botaram para fora de casa quando ele tinha dezesseis anos?

Harry se crispa.

— Eu sabia que ele tinha passado por um período difícil antes da faculdade, mas nunca soube detalhes.

— Pois é, eles não receberam bem a notícia. Ele sofreu por alguns anos, mas ficou mais forte. A noite em que o conhecemos foi a primeira vez em que ele voltou para a Califórnia desde que foi expulso, mas ele estava decidido a ir para apoiar um irmão da Cidade do México. Foi como quando Minerva apareceu no gabinete da sua mãe em Austin e disse que queria provar que aqueles canalhas estavam errados. Você reconhece um lutador quando vê um.

— Sim — Harry diz.

Há outra pausa de Chente cantando ao fundo enquanto seu pai mexe, antes de ele voltar a falar.

— Sabe… — ele diz. — Naquele verão, te mandei para trabalhar na campanha dele porque você era o melhor homem que eu tinha. Eu sabia que daria conta, mas também achei que você podia aprender muito com ele. Vocês têm muito em comum.

Harry não diz nada por um longo momento.

— Preciso ser sincero — seu pai diz e, quando Harry ergue os olhos, ele está olhando pela janela. — Pensei que o príncipe seria mais mimadinho.

Harry ri, voltando a olhar para Draco, a curva de suas costas sob o sol da tarde.

— Ele é mais durão do que parece.

— Nada mau para um europeu — seu pai diz. — Melhor do que metade dos idiotas que a Hermione já levou para casa. — A mão de Harry paralisa, e ele volta a cabeça para o pai, que ainda está mexendo com sua colher de pau pesada, o rosto imparcial. — Metade das meninas que você trouxe também. Mas não melhor do que Ginny. Ela sempre vai ser minha preferida. — Harry o encara, até seu pai finalmente erguer os olhos. — Que foi? Você não é tão sutil quanto imagina.

— Eu… não sei — Harry balbucia. — Pensei que você precisaria, tipo, de um momento católico sobre isso ou coisa assim.

Seu pai bate em seu bíceps com a colher de pau, deixando uma mancha de crema e queijo nele.

— Dá um voto de confiança pro seu velho aqui, poxa. Que tal um pouco de respeito pelo santo padroeiro dos banheiros de gênero neutro da Califórnia? Seu bosta.

— Tá, tá, desculpa! — Harry diz, rindo. — Só sei que é diferente quando é um filho seu.

Seu pai ri também, passando a mão no cavanhaque.

— Não é. Pelo menos não para mim. Estou do seu lado.

Harry sorri de novo.

— Eu sei.

— Sua mãe sabe?

— Sim, contei para ela algumas semanas atrás.

— Como ela reagiu?

— Assim, ela não liga que eu seja bi. Ela meio que surtou por ser ele. Rolou um PowerPoint.

— É a cara dela.

— Ela me demitiu. E, hm. Falou que eu precisava pensar se o que sinto por ele vale a pena o risco.

— E vale?

Harry resmunga.

— Por favor, pelo amor de Deus, não me pergunta. Estou de férias. Quero ficar bêbado e comer churrasco em paz.

Seu pai ri, melancólico.

— Sabe, em muitos sentidos, me envolver com sua mãe foi uma ideia ruim. Acho que nós dois sabíamos que não seria para sempre. Nós dois somos orgulhosos pra caralho. Mas, Deus, aquela mulher. Sua mãe é, sem dúvida, o amor da minha vida. Nunca vou amar ninguém daquele jeito. Era incontrolável. E tive você e Hermione, as melhores coisas que já aconteceram a um velho babaca como eu. Esse tipo de amor é raro, mesmo que seja um desastre completo. — Ele suga os dentes, refletindo. — Às vezes você só tem que se jogar e torcer para não cair de um penhasco.

Harry fecha os olhos.

— Já acabamos com os monólogos paternos do dia?

— Você é um bosta — ele diz, batendo um pano de prato na cabeça do filho. — Vai colocar as costelas no forno. Quero comer isso ainda hoje. — Ele grita atrás de Harry: — É melhor vocês dois dormirem nos beliches esta noite! Santa Maria está de olho!

Eles comem à noite, grandes pilhas de elotes, tamales de porco com salsa verde, uma tigela de argila com frijoles charros, costelinhas. Draco cria coragem e enche o prato com um pouco de cada e fica olhando para tudo como se os segredos fossem se revelar para ele, e Harry se dá conta que ele nunca comeu churrasco com as mãos antes.

Harry dá o exemplo e observa com um sorriso mal disfarçado enquanto Draco pega uma costela com cuidado na ponta dos dedos, e considera como se aproximar, comemorando quando Draco mergulha de cabeça e arranca um naco de carne com os dentes. Ele mastiga com orgulho, uma mancha gigante de molho barbecue no lábio superior e na ponta do nariz.

Seu pai tem um violão velho na sala de estar, e Hermione o traz para o pórtico do lado de fora para os dois tocarem. Ginny, com uma das camisas largas de Harry sobre o biquíni, entra e sai descalça, mantendo todos os copos cheios com um jarro de sangria transbordando de pêssegos brancos e amoras.

Eles sentam ao redor da fogueira e tocam músicas antigas do Johnny King, Selena, Fleetwood Mac. Harry fica escutando as cigarras, a água e a voz rouca e caipira do pai e, quando James vai para a cama, o soprano de Hermione. Ele se sente envolvido e quente, girando devagar sob a lua.

Ele e Draco vão para um balanço na beira do pórtico, e ele se enrola ao lado do corpo de Draco, enfia a cabeça na gola da camisa dele. Draco coloca um braço em torno dele, toca a ponta do queixo de Harry com os dedos com cheiro de fumaça.

Hermione dedilha “Annie’s Song”, you fill up my senses like a night in a forest, e a brisa continua avançando rumo aos galhos mais altos das árvores, e a água continua subindo rumo às anteparas, e Draco se abaixa para beijar Harry, que está. Bom, Harry está tão apaixonado que poderia morrer.

 

Harry cai da cama na manhã seguinte com uma leve ressaca e uma das sungas de Draco enroscada no cotovelo. Tecnicamente, eles dormiram em camas separadas. Só não começaram a noite ali.

Na pia da cozinha, ele toma um copo d’água e olha pela janela, o sol ofuscante e forte sobre o lago, e há uma pedrinha incandescente de certeza no fundo de seu peito.

É este lugar — a separação absoluta de Washington, os velhos cheiros familiares de cedro e chile de árbol seco, a sanidade nisso tudo. As raízes. Ele poderia sair e enfiar os dedos na terra macia e entender tudo sobre si.

E ele entende, de verdade. Ele ama Draco, e isso não é nenhuma novidade. Faz anos que está se apaixonando por Draco, provavelmente desde que o viu impresso nas páginas da J14, quase com certeza desde que Draco prendeu Harry no chão de um almoxarifado hospitalar e disse para ele calar a boca. Tanto tempo. Tanto.

Ele sorri enquanto pega uma frigideira, porque sabe que esse é exatamente o tipo de risco insano a que ele não consegue resistir.

Quando Draco entra cambaleando na cozinha de pijama, tem todo um cardápio de café da manhã sobre a mesa verde e comprida, e Harry está diante do fogão, virando a décima segunda panqueca.

— Isso é um avental?

Harry aponta com a mão livre para a peça com estampa de bolinhas que ele colocou sobre a samba-canção, como se estivesse exibindo um de seus ternos de alfaiataria.

— Bom dia, querido.

— Desculpa — Draco diz. — Estava procurando outra pessoa. Bonito, petulante, baixinho, não é simpático antes das dez da manhã. Você o viu?

— Vai se foder, um e setenta e cinco é a altura média.

Draco atravessa a cozinha com uma risada e chega por trás dele para dar um beijo na sua bochecha.

— Amor, nós dois sabemos que você está arredondando para cima.

Quando Draco está enchendo uma caneca de café, Harry estende o braço para trás e coloca a mão no cabelo de Draco antes que ele consiga se mover, puxando-o em um beijo na boca dessa vez. Ele bufa um pouco surpreso mas retribui o beijo com intensidade.

Harry se esquece, por um momento, das panquecas e de tudo mais, não porque queira fazer coisas absolutamente obscenas com Draco — talvez ainda de avental —, mas porque o ama, e não é doido saber que é isso que torna as obscenidades tão incríveis?

— Não sabia que tinha um brunch colonial — diz a voz de Ginny de repente, e Draco tem um sobressalto tão rápido para trás que quase enfia a bunda na tigela de massa. Ela pega a caneca de café que ele esqueceu, abrindo um sorrido maroto para os dois.

— Não parece muito higiênico — Hermione diz com um bocejo enquanto senta em uma cadeira à mesa.

— Desculpa — Draco diz, acanhado.

— Não precisa ter vergonha — Ginny diz.

— Eu não tenho — Harry diz.

— O que eu tenho é ressaca — Hermione diz enquanto pega a jarra de mimosas. — Harry, você fez tudo isso?

Harry encolhe os ombros, e Hermione estreita os olhos para ele, turvos mas astutos.

À tarde, ao som do motor do barco, Draco conversa com o pai de Harry sobre os veleiros projetados no horizonte, entrando em uma discussão complexa sobre motores de popa que Harry nem tenta acompanhar. Ele se recosta na proa e observa, e é tão fácil imaginar: um futuro Draco que vem à casa do lago com ele todo verão, que aprende a fazer elotes, amarra cunhos de escota cuidadosos e se encaixa perfeitamente em sua família esquisita.

Eles vão nadar, discutem política um por cima do outro, tocam mais violão. Draco tira uma foto com Hermione e Ginny de biquíni, uma de cada lado. Ginny está segurando o queixo dele em uma mão e lambendo o lado de seu rosto, enquanto Hermione está com os dedos emaranhados em seu cabelo e a cabeça na curva de seu pescoço, com um sorriso angelical para a câmera. Ele manda a foto para Blás e recebe respostas angustiadas em caps lock e emojis de choro, e eles quase se mijam de tanto rir.

É bom. É muito, muito bom.

Harry não consegue dormir à noite, bêbado de cerveja Shiner e a barriga explodindo de marshmallows queimados na fogueira, e fica olhando para as espirais nos painéis de madeira da cama de cima do beliche, se lembrando de crescer ali. Lembra de quando era um garoto, sardento e destemido, quando o mundo parecia alegre e sem fim mas tudo ainda fazia muito sentido. Ele deixava as roupas amontoadas no píer e mergulhava de cabeça no lago. Tudo estava em seu devido lugar.

Ele usa a chave de sua casa da infância em volta do pescoço, mas não sabe a última vez em que realmente pensou no menino que a enfiava na fechadura.

Talvez perder o emprego não tenha sido a pior coisa que poderia ter lhe acontecido.

Ele pensa sobre raízes, sobre sua língua materna e paterna. O que ele queria quando era criança, o que quer agora e como essas coisas se interligam. Talvez esse ponto, o encontro dos dois, seja aqui, na insistência leve da água em volta das suas pernas, nas letras rústicas gravadas com um canivete velho. No palpitar constante do pulso de outra pessoa junto ao seu.

— Draco? — ele sussurra. — Está acordado?

Draco suspira.

— Sempre.

Eles atravessam a grama aos sussurros depois de passarem por um dos seguranças reais de Draco que cochila no pórtico, e descem para o píer, empurrando os ombros um do outro. O riso de Draco é alto e cristalino, seus ombros cor-de-rosa queimados de sol no escuro, e Harry sente que poderia nadar por todo o lago sem parar para respirar ao olhar para ele. Ele tira a camiseta à beira do píer e começa a tirar a cueca e, quando Draco ergue uma sobrancelha para ele, Harry ri e pula.

— Você é uma ameaça — Draco diz quando Harry volta à superfície. Mas ele hesita apenas um momento antes de tirar a roupa.

Ele para pelado à beira do píer, olhando para a cabeça e os ombros de Harry boiando. As linhas de seu corpo são longas e lânguidas sob o luar, apenas pele, pele e pele sob a luz suave e azul, e ele é tão lindo que Harry pensa que esse momento, as sombras suaves, as coxas pálidas e o sorriso de viés, é o retrato de Draco que deveria entrar para a história. Há vagalumes piscando em volta da sua cabeça, pousando em seu cabelo. Uma coroa.

Seu mergulho é tão gracioso que chega a dar raiva.

— Você consegue fazer alguma coisa sem fazer charme? — Harry diz, espirrando água nele assim que emerge.

— Olha quem fala — Draco diz, e ele está com um sorriso largo como fica quando está bebendo em um desafio, como se nada no mundo o alegrasse mais do que as provocações de Harry.

— Não sei do que você está falando — Harry diz, nadando até ele.

Eles se perseguem ao redor do píer, correm pelos baixios do lago sob o luar, cotovelos e joelhos à mostra. Harry finalmente consegue apanhar Draco pela cintura, e o segura, passa a boca molhada sobre o pulso latejante da garganta de Draco. Ele quer continuar enroscado nas pernas dele para sempre. Quer comparar as sardas novas no nariz de Draco com as estrelas sobre eles e pedir para ele lhe mostrar as constelações.

— Ei — ele diz, a boca a milímetros da boca de Draco, observando uma gota d’água escorrer por aquele nariz perfeito e desaparecer em sua boca.

— Oi — Draco responde, e Harry pensa: “Caramba, como eu amo esse menino”. Isso se repete na cabeça dele, e vai ficando mais difícil olhar para os sorrisos tranquilos dele e não dizer em voz alta.

Ele bate um pouco as pernas para os girar em um círculo lento.

— Você fica bonito aqui.

O sorriso de Draco fica torto e um pouco tímido, mergulhando para roçar contra o queixo de Harry.

— É?

— É — Harry diz. Ele torce o cabelo molhado de Draco nos dedos. — Que bom que você veio — Harry se ouve dizer. — Tudo anda tão intenso ultimamente. Eu… precisava muito disso.

Os dedos de Draco cutucam suas costelas, uma repreensão leve.

— Você vive com coisa demais na cabeça.

Seu instinto sempre foi retrucar “Não, eu não” ou “Eu gosto de ser assim”, mas ele se refreia e diz:

— Eu sei — e percebe que é a verdade. — Sabe o que eu estou pensando agora?

— O quê?

— Estou pensando em, depois da posse, tipo, no ano que vem, vir pra cá com você de novo, só nós dois. E podemos ficar sentados sob a lua e não nos estressar com nada.

— Ah — Draco diz. — Parece bom, mas improvável.

— Ah, vai, pensa a respeito, baby. Ano que vem. Minha mãe vai ser presidenta de novo, e não vamos ter que nos preocupar em ganhar mais nenhuma eleição. Vou poder respirar finalmente. Vai ser incrível. Vou cozinhar migas de manhã e vamos nadar o dia todo e nunca usar roupas e transar no píer, e não vai importar se os vizinhos virem.

— Bom. Vai importar, você sabe. Sempre vai importar.

Ele recua e encontra o rosto de Draco indecifrável.

— Você sabe o que eu quis dizer.

Draco está olhando para ele, e Harry não consegue abandonar a sensação de que Draco o está vendo pela primeira vez. Ele se dá conta de que essa deve ser a única vez em que trouxe o amor a uma conversa com Draco de propósito, e isso deve estar estampado em sua testa.

Algo muda por trás dos olhos de Draco.

— Aonde você está querendo chegar com isso tudo?

Harry tenta encontrar um jeito de colocar em palavras tudo que precisa dizer a Draco.

— Hermione diz que eu me pressiono demais sem motivo — ele diz. — Sei lá. Sabe como sempre dizem para levar um dia de cada vez? Acho que levo uns dez anos no futuro. Quando eu estava no ensino médio, as coisas se resumiam a: bom, meus pais se odeiam, e minha irmã vai embora pra universidade, e às vezes eu olho para outros caras no chuveiro, mas, se eu pensar mais pra frente, essas coisas não vão me alcançar. Ou se pegar essa matéria, ou esse estágio, ou esse trabalho. Eu pensava que, se imaginasse a pessoa que queria ser e usasse toda a ansiedade maluca no meu cérebro e a concentrasse nesse ponto, eu poderia reprogramar essa ansiedade. Usar para energizar outra coisa. É como se eu nunca tivesse aprendido a simplesmente estar onde estou. — Harry toma fôlego. — E estou aqui. Com você. E estou pensando que talvez eu devesse começar a levar um dia de cada vez. E só… sentir o que eu sinto.

Draco não fala nada.

— Querido. — A água ondula devagar ao redor dele enquanto Harry ergue os braços para segurar o rosto de Draco com as duas mãos, traçando as maçãs do rosto dele com os polegares.

As cigarras, o vento e o lago ainda devem estar fazendo barulho em algum lugar, mas tudo se afundou em silêncio. Harry não consegue ouvir nada além dos batimentos de seu coração em seus ouvidos.

— Draco, eu…

De repente, Draco se mexe, mergulhando sob a superfície para longe do alcance de seus braços antes que ele possa dizer mais alguma coisa.

Ele volta a emergir perto píer, o cabelo colado na testa, e Harry se vira e o encara, esbaforido pela perda. Draco cospe a água do lago e manda uma onda na direção dele, e Harry força um riso.

— Meu Deus — Draco diz, batendo em um inseto que pousou nele —, o que são essas criaturas infernais?

— Pernilongos — Harry responde.

— Eles são horríveis — Draco diz com a voz imponente. — Vou acabar pegando uma praga exótica.

— Me… desculpa?

— Só quero dizer, sabe, Arcturus é o herdeiro e eu sou o reserva, e se aquele imbecil nervosinho tiver um ataque cardíaco aos trinta e cinco e eu tiver malária, o que vai acontecer?

Harry ri de leve outra vez, mas tem uma sensação nítida de que algo foi tirado de suas mãos antes mesmo que ele pudesse segurar. O tom de Draco ficou leve, curto, superficial. Sua voz de imprensa.

— De todo modo, estou exausto — Draco diz agora. E Harry observa, indefeso, enquanto ele se vira e começa a sair da água e subir na doca, voltando a colocar a bermuda nas pernas trêmulas. — Se for tudo bem por você, acho que vou deitar.

Harry não sabe o que dizer, então observa Draco caminhar a linha comprida da doca, desaparecendo na escuridão.

Uma sensação vazia e ecoante começa atrás de seus molares e desce por sua garganta, para dentro de seu peito, para o fundo de seu estômago. Algo está errado, e ele sabe disso, mas tem medo demais de insistir ou perguntar. Esse, ele percebe de repente, é o perigo de permitir que o amor entre nesta história — a noção de que, se algo desse errado, ele não sabe como iria suportar.

Pela primeira vez desde que Draco o agarrou e o beijou com tanta certeza no jardim, o pensamento entra na cabeça de Harry: e se essa decisão nunca coube a ele? E se ele ficou tão envolvido em tudo que Draco é — nas palavras que ele escreve, na dor sincera em seu peito — que esqueceu de levar em conta de que esse é simplesmente quem ele é, o tempo todo, com todos os outros?

E se ele fez aquilo que jurou que nunca faria, aquilo que ele odeia, e se apaixonou por um príncipe porque era uma fantasia?

Quando ele volta para o quarto, Draco já está no beliche, em silêncio, de costas para ele.

Pela manhã, Draco foi embora.

Harry acorda e encontra a cama dele vazia e feita, o travesseiro arrumado com capricho sob o lençol. Ele quase arranca a porta das dobradiças e corre para o pátio, encontrando-o vazio também. O quintal está vazio, o píer está vazio. É como se ele nunca nem tivesse estado ali.

Ele encontra o bilhete na cozinha:

Harry,

Precisei ir embora mais cedo por uma questão de família. Saí com os seguranças.

Não quis te acordar.

Obrigado por tudo.

Beijo

É a última mensagem que Draco deixa para ele.


Notas Finais


Ois
Again: essa história não é original minha, mas da autora Casey McQuiston.
Desculpa postar tão tarde, hoje foi dia de faxina de guarda-roupa (mas como limpar guarda-roupa cansa).
Eles são tão fofos juntos que eu me derreto toda.
História, hein?
Mas e esse Draco? Por que fugir assim, neném? Por que quebrar meu coração assim? Deixa o menino falar que te ama!
Acho que é isso! Bebam água, lavem as mãos, usem máscara e fiquem em casa.
D


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...