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História Vicioso - Capítulo 8


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Notas do Autor


Boa leitura! 💓

Capítulo 8 - Capítulo 8


Capítulo 8

“Você diz que eu sou louco,

Eu digo que você provavelmente está certa.”

Cry Baby, Cage The Elephant

*

Ela estava deitada de bruços quando acordou, o que a fez se mudar para uma posição mais confortável, puxando um dos travesseiros para abraçar. Pretendia voltar a dormir, sua cabeça estava um pouco pesada e seus olhos doloridos de sono, mas a maciez dos lençóis e dos travesseiros lhe pareceu estranha. Sentia como se estivesse deitada em uma nuvem e isso era muito diferente do que sua própria cama parecia.

Essa constatação a fez franzir o nariz, mas não foi alarmante o suficiente para fazê-la abrir os olhos. Ao invés disso, ela se afundou ainda mais nos travesseiros aspirando aquele cheiro bom e suave de amaciante, colônia masculina e... cigarro?

Isso sim foi alarmante.

Abrindo os olhos, Hinata se sentou na cama bruscamente. Todas as memórias da noite passada chegaram ao seu cérebro de uma única vez. Ela se lembrou da festa de Naruto, da revelação de Sakura, da dança com Sasuke, das bebidas, das conversas estranhas, da maneira como tinha tirado o vestido na frente dele (suas bochechas se aqueceram com essa lembrança em particular) e agora ela estava na casa dele.

Isso era tão inadequado de tantas maneira diferentes. Ela ainda não tinha resolvido as coisas com Naruto como deveria, nem conhecia Sasuke direito. Tinha sido uma loucura sair, beber e dormir com um quase desconhecido. Mas ainda assim, ela não conseguiu evitar sorrir ao se lembrar de como, finalmente, tinha seguido seus próprios desejos na noite anterior. Pela primeira vez na vida, tinha saído e se divertido como quis, sem ter que dar explicações à Naruto ou pedir permissão ao pai.

Se deixando relaxar pelo contentamento, ela começou a reparar melhor no quarto onde estava. Seus olhos se fixaram no teto alto e branco, com lustre elaborado. Depois se voltaram para as paredes, com papel de parede listrado em tons de cinza claro e chumbo e então, para a infinidade de coisas que haviam espalhadas por aquele quarto. Ela notou a estante de madeira escura repleta de livros que ficava logo ao lado de portas envidraçadas que davam para uma sacada. Ao lado da estante havia uma escrivaninha de madeira do mesmo tom. Haviam também alguns quadros nas paredes e uma espada kusanagi presa em um suporte de madeira. Mas o que mais chamou sua atenção foi o piano de cauda que ficava quase no centro do quarto.

Ela ofegou ao ver um instrumento tão bonito e se ajoelhou na cama. Foi só aí que viu Sasuke, sentado no chão ao lado da porta, com as pernas esticadas, fumando um cigarro enquanto lia um livro.

– Você tem um piano de cauda no seu quarto? – disse ela, como se não fosse óbvio.

Sasuke apenas levantou a cabeça e olhou para ela com um olhar preguiçoso, quase entediado, como se aquela fosse uma pergunta normal a ser feita por uma pessoa que tinha acabado de acordar em uma cama desconhecida.

– Era da minha mãe. – respondeu ele. – Ficou para mim quando ela morreu.

– Eu sinto muito. – disse ela, quase se arrependendo por ter dito algo.

Os olhos dele voltaram para o livro e o silêncio pesado caiu sobre eles. Ela não soube mais o que dizer ou o que fazer. Como se age depois de acordar na cama de alguém?

Ela não sabia, mas estava cada vez mais curiosa sobre ele. O tinha rotulado como um idiota atraente e arrogante, mas talvez tivesse se enganado, ele parecia mais do que isso. Tinha sido tão bom com ela na noite anterior.

– O que está lendo? – tentou ela mais uma vez.

– Não é importante. – respondeu ele.

Ela deslizou da cama para o chão e, um pouco hesitantemente, se ajoelhou ao lado dele, inclinando um pouco o corpo para ver o texto, mas não entendeu uma palavra do que estava escrito. Sasuke não pareceu incomodado, ele apenas apagou o cigarro no cinzeiro que estava no chão e lhe entregou o livro.

Ela o folheou, passando as mãos sobre a capa preta de couro.

– Está lendo Thomas Mann no original? – perguntou ao conseguir ler o nome do autor, ainda que não pudesse entender mais nada do que estava escrito.

Ele assentiu uma vez.

– Você lê em alemão?

Ele revirou os olhos, como se a pergunta dela fosse estúpida e era.

Ela riu e se levantou do chão, indo em direção a estante de livros. Seus dedos curiosos correram pelas lombadas de alguns dos livros, lendo títulos dos mais variados, nos mais variados idiomas.

– Há muitos idiomas aqui.

– Coisas simples me entediam. – concedeu ele, em forma de explicação. – Preciso sempre estar aprendendo coisas novas, nutrindo meu cérebro ou sinto que vou ficar louco.

Ela se virou para encará-lo por um momento, pensando que ele realmente parecia um pouco louco quando falava dessa maneira. Além disso, haviam olheiras sob seus olhos.

– Você dormiu? – ela se viu perguntando, mesmo que não fosse da sua conta.

Ele a encarou estranhamente antes de dar de ombros.

– Algumas horas. – ele fez uma careta. – Sofro de insônia crônica, então algumas horas por noite é tudo o que eu consigo.

Ela não entendia nada sobre pessoas que sofriam de insônia, porque geralmente dormia como um bebê todas as noites, mas ele parecia saudável, exceto pelas olheiras.

– Está com fome? – perguntou ele, interrompendo seus pensamentos.

Sem saber o que deveria responder, ela só assentiu fracamente. Talvez devesse estar procurando suas roupas para ir embora. Mesmo que seu pai pensasse que estava com Naruto, não podia confiar demais na sorte, Naruto poderia aparecer na sua casa, procurando por ela. Mesmo assim, ela não conseguiu negar a mão de Sasuke quando ele se levantou e a estendeu à ela.

– Vamos comer alguma coisa. – disse ele, abrindo a porta do quarto.

Instantaneamente ela ficou autoconsciente, percebendo que usava apenas uma camiseta que mal alcançava o meio das coxas e começou a puxar o tecido para baixo, sentindo o rubor cobrir as bochechas. Sasuke revirou os olhos.

– Eu vi muito mais do que suas coxas na noite passada.

Isso só fez o seu rubor se intensificar.

– Apontar esse fato não é nem um pouco cavalheiresco da sua parte.

Ela sabia que a culpa era dela, por se despir na frente dele, mas ele não precisava lembrá-la disso tão abertamente.

– Sinto muito. – disse ele, parecendo realmente arrependido. – Nunca quis dar à você a impressão de que eu era um cavalheiro.

Ela fez uma careta para o sorriso presunçoso dele.

– Vamos, Hinata. – insistiu ele. – Vista o seu vestido se é o que te faz feliz, mas ande logo, estou com fome.

Correndo para pegar o vestido que estava no chão, ela foi em direção a outra porta do quarto, que se abriu em um closet, seguido por um banheiro. O quarto dele era enorme, muito maior do que o dela, mas não era isso o que a surpreendia a todo momento, mas sim as peculiaridades espalhadas aqui e ali. No banheiro, as roupas que ele usara na noite anterior estavam espalhadas pelo chão e haviam muitos cigarros entocados em qualquer canto.

Ignorando a maior parte da bagunça, ela aproveitou o momento para fazer xixi, lavar o rosto, escovar os dentes com os dedos e vestir o vestido. Quando voltou para o quarto, Sasuke estava suspirando impacientemente, encostado contra o batente da porta.

Ela o seguiu para fora, por um longo corredor até as escadas, então lhe ocorreu algo que a fez parar no lugar e segurar Sasuke pelo braço.

– Sua família...?  – perguntou sem perguntar, esperando que ele entendesse.

Ela não sabia se suportaria se desse de cara com o pai dele ou qualquer outro parente.

Ele revirou os olhos.

– Meu pai nunca está em casa, meu irmão tem sua própria casa e os empregados tiram folga aos domingos. Só estamos nós dois aqui.

Saber disso trouxe alívio e ela não mais hesitou quando ele puxou sua mão pelo resto do caminho para a cozinha.

Assim como o resto da casa, a cozinha da mansão Uchiha era enorme e ostentosa. Sasuke caminhou por ela tranquilamente, indo em direção a geladeira e pela primeira vez Hinata realmente olhou para ele naquela manhã. Ele estava descalço como ela (ambos pisando no mármore frio) e usava calças de moletom e uma camiseta branca comum, os cabelos lisos caiam sobre os olhos, como sempre. Bonito demais pare ser real. Ela balançou a cabeça para o pensamento.

– O que você quer? – perguntou ele, a tirando dos devaneios, a maior parte do rosto dele estava no interior da geladeira.

Ela deu de ombros apesar de saber que ele não poderia ver.

– Qualquer coisa. – respondeu. – O que você for comer.

– Sorvete? – perguntou ele, tirando um pote grande da geladeira.

Ela franziu o cenho, sinceramente acreditando que ele estava brincando.

– Para o café da manhã?

Ele deu de ombros, abrindo a gaveta do armário e puxando duas colheres.

– O sabor é de chocolate amargo, eu não gosto de coisas excessivamente doces, mas se você quiser também temos calda.

Ela pensou por um momento. Nunca na vida tinha comido algo tão não-saudável no café da manhã. Sua madrasta sempre insistia para que ela tivesse ao menos um suco natural quando ela se negava a comer os ovos ou as panquecas. Seu pai sempre dizia que uma refeição saudável era essencial para se começar bem o dia e sempre a obrigou a comer aveia pela manhã durante a infância.

Mas eles não estavam lá para controlá-la agora.

– Eu quero calda, obrigada. – respondeu.

Pegando a calda e a colher que Sasuke oferecia, ela o viu se sentar em cima da bancada, colocando o sorvete do lado. Mais contida do que ele, ela se contentou com um dos bancos altos, se sentando quase de frente para ele.

Quando ele puxou a tampa e ela jogou um pouco de calda do seu lado do sorvete, os dois mergulharam as colheres quase ao mesmo tempo. Ela suspirou quando sentiu o gosto de chocolate derretendo em sua língua, gelando sua garganta.

– Você sempre come isso no café da manhã? – perguntou por pura curiosidade.

– Quando estou com vontade. – ele respondeu.

Claro, ela quase tinha se esquecido, Sasuke fazia o que tinha vontade, quando tinha vontade e nunca se sentia culpado por isso.

Por um momento, ela desejou poder ser como ele, mas por mais que quisesse sempre fazer o que bem entendesse, como estava fazendo naquele momento, ainda se sentia culpada. Ela deveria estar triste, seu namoro tinha terminado da maneira mais cruel possível. Pensar em Naruto trouxe uma sensação de afundamento ao seu estômago.

– Pelo menos faz sentido que seja sorvete. – murmurou ela mais para si mesma. – A comida universal da tristeza e do termino de relacionamento.

Sasuke franziu o cenho para ela, levando outra colherada a boca.

– O que isso quer dizer?

– É como em todos aqueles filmes bobos, em que a mocinha fica triste e se entope de sorvete enquanto chora e assiste a romances.

Ele fez uma careta.

– Nunca assisti filmes assim. – afirmou. – E é melhor você não começar a chorar, eu detesto lágrimas.

Foi a vez dela fazer uma careta.

– Sim, claro, qualquer coisa para poupar seus sentimentos. – disse ironicamente, jogando mais calda no sorvete.

– Eu não entendo porque as pessoas choram tanto, principalmente por términos de relacionamento. – disse ele, com um vinco surgindo entre as sobrancelhas. – Qual o sentido de chorar por algo que acabou, se tudo está fadado ao fim?

– Porque o fim dói. – respondeu ela como se fosse óbvio. – Além disso, existem relacionamentos em que as pessoas realmente acreditavam que viveriam juntos a vida toda e depois tudo deu errado. Isso é triste.

– É assim com você e Naruto? – perguntou ele, de repente.

Ela comprimiu os lábios quase sem perceber, tentando impedir que os sentimentos represados escapulissem. Aquela não era a hora, nem o lugar. Deveria esperar até estar em casa, até estar sozinha, e então poderia deixar esses sentimentos eclodirem dentro dela. Mesmo assim, não pôde evitar o ranger de dentes.

– Eu estou em um relacionamento com Naruto desde os meus catorze anos e sempre fomos incentivados à levar isso adiante. Então eu naturalmente pensava que ficaríamos juntos para sempre.

– E isso era o que você queria? – Sasuke perguntou. – Você sabe, você ainda pode perdoá-lo.

Apenas a ideia daquilo a fez virar o rosto em rejeição. Não podia perdoar Naruto, a confiança havia sido quebrada, jamais poderia olhar para ele com a mesma adoração de antes, nem se sentir tão segura na companhia dele quanto se sentia há apenas alguns dias atrás. Ele havia se tornado um completo estranho para ela. E além disso, ela não queria perdoá-lo.

Era horrível admitir, mas o termino do seu relacionamento tinha trazido uma estranha sensação de liberdade. Nunca tinha se sentido como na noite passada, com Sasuke, e ainda não estava pronta para abrir mão daquilo.

– Não sei se isso é uma possibilidade. – respondeu.

Ele deu de ombros, como se realmente não se importasse e saltou da bancada, largando o sorvete no seu colo. Inconscientemente seus olhos o seguiram enquanto ele voltava a abrir a geladeira e tirava um pacote de waffles congelados. Ele os enfiou na torradeira elétrica e pacientemente os esperou saltar. Depois entregou dois em um prato para ela e preparou mais dois.

Ela cobriu os waffles com sorvete e calda antes de começar a comer e Sasuke apenas partiu os seus em pedaços menores com os dedos antes de enfiá-los na boca. Isso a fez imaginar se aquela era uma refeição comum para ele. Waffles congelados e sorvete não parecia o tipo de café da manhã para se ter habitualmente.

Ainda estava comendo e pensando no que poderia dizer para iniciar uma conversa, quando o celular dele apitou. Ele o puxou do bolso e leu a mensagem. Isso a remeteu ao próprio celular, que estava na mesa de cabeceira de Sasuke, desligado desde que saiu da casa de Naruto na noite anterior.

– Ei! – Sasuke disse, interrompendo seus pensamentos. – O que acha de ir à uma luta?

– Uma luta? – repetiu, surpresa.

– Sim.

– Quando?

– Agora. – respondeu ele.

Ela piscou, um pouco atordoada. Imaginava que esse tipo de evento só acontecesse a noite.

– Eu nunca estive em uma luta antes. – disse.

Ele sorriu, o maior sorriso que ela já tinha visto no rosto dele.

– Eu sinceramente nem sei se você vai gostar. – respondeu. – Mas vai ser interessante levar alguém comigo dessa vez.

Dando de ombros, ela assentiu. Ainda não queria voltar para a realidade, mas logo um pensamento a fez voltar atrás.

– Não posso ir assim. – disse. – Preciso de um banho e de roupas.

– Eu tenho várias roupas. – comentou ele. – Tenho certeza de que você pode dar um jeito com o que está disponível.

Ela quis retrucar e dizer que ele estava sendo demasiadamente arrogante, novamente. Mas ao invés disso, ela cedeu e decidiu fazer o que ele sugeriu.

Assim que eles terminaram de comer, ela subiu e tomou uma boa chuveirada, depois recolocou o vestido, que apesar de usado não aparentava sujeira e depois vestiu uma camisa azul marinho de Sasuke por cima, a amarrando na cintura. Ficou bom de um jeito estranho. Não seria a primeira escolha dela para usar durante o dia, mas iria servir.

Quando saiu do banheiro, Sasuke estava novamente com um livro nas mãos, mas dessa vez ele caminhava de uma ponta a outra do quarto enquanto fumava, lia e murmurava, tudo ao mesmo tempo. Ele tinha uma personalidade estranha.

– Estou pronta. – ela anunciou.

Ele a olhou por cima da capa do livro e arqueou uma sobrancelha. Os olhos escuros dele percorreram seu corpo de cima a baixo, a fazendo corar.

– Espero que não se importe, eu peguei uma das suas camisas.

– Não tem problema, tenho dezenas dessas.

Era verdade, ela mesmo tinha visto. Ainda assim, parecia algo pessoal demais usar as roupas de um garoto. Ela nunca tinha feito isso com ninguém, exceto Naruto.

Sasuke não disse mais nada, apenas fechou o livro com um baque surdo e o atirou sobre a cama ao andar até a porta.

– Vamos. – disse ele.

Eles caminharam silenciosamente pelos corredores, descendo as escadas em direção a porta principal. Seguindo-o vagarosamente, ela se perguntava se estava fazendo a escolha certa em aceitar o convite dele assim. Já tinha passado toda a noite com ele e talvez o melhor fosse voltar para casa.

Mesmo assim, ela não conseguia realmente ir.

Sasuke parou ao lado do carro, puxou a porta e entrou. Ela hesitou por um segundo antes de fazer o mesmo. Ele não tinha o costume de puxar a porta para ela, como Naruto fazia, e ridiculamente essa diferença entre eles a fez sorrir.

– Por que está sorrindo? – perguntou ele, franzindo o cenho.

– Você não gosta quando eu choro, não gosta quando eu sorrio... – comentou ela, falsamente ofendida. – Há algo que eu faço que você goste?

Ele pareceu ponderar um pouco enquanto ligava o carro e manobrava.

– Eu gostei quando você tirou a roupa na minha frente.

Ela sentiu todo o sangue se acumulando por trás das bochechas e o encarou atordoada por um momento até perceber aquele minúsculo sorrisinho provocante no canto dos lábios dele. Ele a estava provocando. Respirando profundamente para se controlar, ela respondeu:

– Você é um pervertido.

Depois desviou os olhos para a janela quando o ouvir rir baixinho. Conforme desciam a rua pavimentada, ladeada de carvalhos, ela percebeu que aquele era um lugar muito conhecido. Franzindo o cenho, se virou para Sasuke.

– Você e eu moramos dentro do mesmo condomínio. – informou.

Ele não se mostrou surpreso.

– Sim, eu sei.

– O que? Como?

– Ino comentou.

Ainda surpresa, ela viu passar o caminho que levava até a própria casa, torcendo um pouco o pescoço para manter os olhos fixos enquanto o carro se distanciava. Aquela pequena parte da realidade adentrando o seu dia fantasioso fez com que sentisse uma pequena torção no estômago. Será que sua família estava preocupada?

Ela sentiu a pressão do celular guardado no decote, pensando se deveria finalmente ligá-lo, mas esse pensamento não se manteve quando passaram pela portaria e pegaram a rodovia que ia direto para o centro da cidade.

Sasuke permaneceu calado, como parecia ser o habitual dele e ela não se esforçou para preencher o silêncio, perdida demais nos próprios pensamentos. Imaginou por um momento o que Naruto poderia estar fazendo, o que poderia ter acontecido depois que fugiu da festa na noite anterior. Será que todos os seus amigos já sabiam sobre o que aconteceu?

Quando eles entraram na cidade, toda a sua atenção foi desviada para as ruas movimentadas. Sasuke deixou o carro no mesmo estacionamento da noite anterior para que eles pudessem continuar o caminho à pé. Ela franziu o cenho com um pensamento que surgiu de repente.

– Como fomos para a sua casa ontem? – perguntou, se lembrando vagamente dele a colocando dentro de um carro. – Você não dirigiu, dirigiu?

Ele revirou os olhos, enfiando as mãos nos bolsos.

– Kisame veio nos buscar. – respondeu simplesmente, como se ela já soubesse quem era Kisame, o que ela com certeza não sabia. – Depois voltou para pegar o meu carro.

Ela assentiu, se sentindo aliviada por ele não ter os colocado em risco dirigindo embriagado. Tinha sido muito irresponsável da sua parte ter bebido tanto com alguém que mal conhecia. Sasuke podia ser um maluco psicopata até onde ela sabia. Esse pensamento a fez olhar para ele, que caminhava tranquilamente pelas ruas de Tóquio com a luz do sol refletindo em seus cabelos escuros e lisos.

– Por aqui. – instruiu ele, cortando seus pensamentos.

Ele a guiou por uma rua paralela, depois por um beco, onde desceram alguns lances de escada. A cada pedaço do percurso que percorriam, o número de transeuntes diminuía, mas o de indigentes e mendigos aumentava. Em uma das esquinas ela viu uma senhora cega pedindo esmolas que a fez desejar estar carregando um pouco de dinheiro consigo.

– Para onde estamos indo exatamente? – perguntou, encarando Sasuke com curiosidade.

Não tinha a menor ideia do que ele quis dizer quando a chamou para uma luta, nem de onde tal luta pudesse acontecer.

Ele estendeu uma mão em sua direção, que ela aceitou.

– Só mais um pouco. – garantiu ele, a puxando para a porta lateral do que parecia um comércio abandonado.

Ela se sentiu insegura ao entrar em um lugar como aquele, mas confiou em Sasuke. Era estranho que, por mais imprevisível que ele fosse, tivesse sua confiança. Era um sentimento que ela não sabia explicar, como se o conhecesse há muito tempo, como se visse através do que ele mostrava.

O som de gritos e vozes foi aumentando conforme percorriam um corredor de luzes trêmulas. Quando chegaram ao fim desse corredor, haviam dois homens muito grandes parados de ambos os lados de uma porta. Sasuke pegou o celular e virou a tela na direção de um deles, que assentiu e abriu a porta, permitindo que eles entrassem.

Ela sentiu um frio gelado descer a espinha, aquele lugar não parecia o tipo de lugar que costumava frequentar. O salão da onde vinham as vozes era amplo e bem decorado, destoando totalmente do visual abandonado do exterior do edifício. Haviam muitas mulheres seminuas, servindo bebidas à homens de todos os tipos, embora a maioria parecesse ter saído diretamente de um filme do Tarantino.

– Que lugar é esse? – sussurrou à Sasuke.

Mas antes que ele pudesse responder, um sujeito de cabelos descoloridos num tom acinzentado apareceu. Ele tinha tatuagens faciais e os dentes mais afiados que ela já tinha visto na vida, lembrando-a de um tubarão.

– Você veio mesmo. – disse ele à Sasuke.

– Eu disse que talvez viria. – Sasuke respondeu.

Os olhos do sujeito se viraram para ela e ele ficou visivelmente surpreso ao ver sua mão na de Sasuke. Franzindo o cenho, ele deu um sorriso incrédulo.

– E trouxe uma princesinha para assistir a luta? – perguntou.

Ela ficou rígida pelo apelido. Sasuke suspirou.

Princesinha. – desdenhou ele, como se testasse a palavra na boca, então se virou para ela.

Ela sentiu as bochechas corarem sem entender bem o porquê. O vinco entre as sobrancelhas de Suigetsu se aprofundou, o sorriso morreu nos lábios.

– Você sabe que o que acontece aqui não pode ser comentado por aí. – disse entredentes, fazendo um gesto com a mão.

Sasuke assentiu uma vez.

– Hinata não dirá nada. Eu confio plenamente nela.

Aquilo fez algo se remexer dentro dela, com uma sensação de que os sentimentos dele espelhavam os seus. A ideia disso era um alívio com certeza, mas ela se sentiu um pouco nervosa com o que Suigetsu disse.

Ele arqueou uma sobrancelha cinzenta e assentiu uma vez.

– Tudo bem. – concordou. – A luta começara em breve, faça uma boa aposta.

E ao dizer isso, se retirou, caminhando para longe de maneira quase predatória. Ela o observou se afastar por um tempo, depois se virou para Sasuke.

– Onde estamos? – perguntou, exigente. – Quem é ele?

Ele segurou seu braço, logo acima do cotovelo e se aproximou do seu ouvido para falar em tom baixo, mas audível, apesar de todo o barulho de conversas esbravejadas.

– Suigetsu é o idealizador. Ele parece jovem, mas é muito esperto e sabe investir em negócios realmente lucrativos. – explicou sucintamente. – Nós estamos aqui para ver uma luta e apostar. É divertido. – garantiu.

– Uma luta em pleno dia? Em um lugar como esse? Isto é algo ilegal, não é?

Ele assentiu, sem dar muita atenção, como se aquilo não tivesse importância. Hinata sentiu um arrepio de nervosismo.

– Você poderia ter me avisado. – disse, a contragosto.

– Eu te disse que viríamos à uma luta. – ele deu de ombros.

– Não que era ilegal. – rebateu ela.

Ele revirou os olhos.

– Nada vai acontecer com você se estiver comigo, não se preocupe.

Ela estava prestes a dizer alguma coisa, qualquer coisa, para expressar sua contrariedade, quando os burburinho de vozes cessou e as garotas que serviam bebidas saíram em uma fila ordenada. Abriu-se espaço entre as pessoas, um círculo perfeito, e ela se agarrou ao braço de Sasuke para impedi-lo de se afastar ainda que minimamente. Dois homens de constituição física robusta entraram, carregando algumas grades que usaram para isolar o espaço aberto pela pequena multidão.

Ela não conseguia falar, apenas observar o mais atentamente possível tudo o que acontecia ao redor. Uma garota loira de roupas apertadas entrou naquele círculo isolado e algumas vozes se sobressaíram em assovios. Hinata mal pôde entender o que ela dizia, não porque ela não estivesse falando alto o suficiente, mas porque não conseguia parar de olhar para as extremidades das grades, onde os lutadores finalmente haviam aparecido. Eles estavam brilhantes de suor, óleo corporal, ou o que quer que fosse, e se encaravam ferozmente.

– Por que é ilegal? – perguntou ela, de repente, sem desviar os olhos do centro do salão. – Quer dizer, existem lutas de UFC e MMA que são totalmente legais.

– Aqui não há nenhuma regra. – respondeu Sasuke, mais perto do que ela imaginava, causando arrepios em sua nuca. – Não há categorias de peso, nem juiz e o lutador não precisa passar em exames anti-dopin ou ter a ficha limpa. Qualquer um pode lutar, qualquer um pode desafiar qualquer um. Até mesmo eu poderia lutar, se quisesse. E a luta só termina quando um dos lutadores não consegue mais se levantar do chão.

– Isso é brutal.

Ela sentiu a risada dele sussurrada em seu pescoço, descendo por sua espinha.

– Você fala como Itachi.

Isso a fez franzir o cenho.

– Meu irmão. – explicou ele antes que ela pudesse perguntar. – Ele não aprecia nada que fuja do comum ou do correto. Já eu, acho que tudo que é minimamente fora da curva merece atenção.

Ela tentou pensar sobre o que ele disse, mas som estridente de um sino a fez se voltar bruscamente para o ringue improvisado, os dois lutadores cercavam um ao outro, cada um parecendo medir as habilidades do adversário.

– Hora de apostar. – Sasuke disse. – Quem você acha que vai ganhar?

Ela virou o rosto para olhar para ele.

– Eu não saberia dizer.

Ele estalou a língua contra os dentes.

– Vamos, tente.

Voltando a atenção para a luta, ela observou os dois lutadores. Um deles era musculoso e grande, o tipo de homem que parecia ser capaz de derrubar alguém com apenas um soco; o outro era mais atlético, tinha um rosto jovem e aparentava agilidade.

– Eu acho que o mais magro tem uma boa chance. – disse por fim.

Sasuke tirou um maço de notas e ela arregalou os olhos ao vê-lo se afastar para onde Suigetsu estava coordenando garotas que seguravam pranchetas e pegavam as apostas. Quando Sasuke voltou, ela o puxou para perto.

– Você apostou em quem?

– Você sabe, você escolheu.

– Sasuke! – o repreendeu levemente. – Eu não entendo nada sobre lutas, você não deveria me ouvir.

– Você fez uma boa escolha. – respondeu ele. – Vamos assistir a luta.

Foi realmente brutal como ela havia imaginado, mas também perversamente divertido. Na maior parte do tempo ela se sentiu assistindo a um daqueles filmes violentos, onde você simplesmente não consegue desviar os olhos. Sasuke ficou todo o tempo parado as suas costas e ela não conseguiu ver as expressões que ele fazia ao longo da luta. Tudo o que ela podia perceber, além da luta em si, eram os outros homens que se aglomeravam ao redor do ringue improvisado, parecendo ansiar para sentir o cheiro e o gosto do sangue.

Assim que a luta acabou, a mão de Sasuke se fechou logo acima do seu cotovelo a puxou para trás, os tirando da aglomeração que parecia ter se intensificado ao redor do lutador caído.

– Sua aposta estava certa. – disse ele, enquanto a direcionava para onde estava Suigetsu.

– Quanto você ganhou? – perguntou ela por pura curiosidade, no exato momento em que alcançaram Suigetsu.

– Você ainda continua o mesmo maldito sortudo. – disse ele.

Sasuke revirou os olhos.

– São probabilidades.

– Que seja, ainda acho que é um maldito sortudo. – Suigetsu deu de ombros, estendendo um maço de dinheiro bem mais grosso do que aquele que ela viu Sasuke tirar da carteira.

Sasuke pegou o dinheiro e enfiou no bolso antes de pegar sua mão e a puxar para fora daquele lugar. Eles passaram pelos mesmos homens na porta e percorreram o mesmo corredor em direção ao beco. A luminosidade do dia a fez piscar os olhos.

– Aqui. – disse ele, assim que a soltou.

Ela se virou para ver o dinheiro que ele estendia.

– Foi o seu palpite. – disse ele como explicação.

Ela negou.

– Você teria chegado a mesma conclusão com base em probabilidades. – respondeu, sorrindo de maneira perspicaz.

Ele arqueou uma sobrancelha.

– Sim, mas eu quis saber a sua opinião.

– Isso não me faz ter direito sobre esse dinheiro.

Ele olhou para o dinheiro e depois para ela, depois suspirou com impaciência e o devolveu ao bolso. Então puxou um cigarro, o acendeu e começou a fumar, andando para longe. Ela se apressou em segui-lo.

No caminho de volta passaram pela mesma senhora cega que estava pedindo esmolas de antes. Sasuke enfiou novamente a mão no bolso, tirou o maço de notas e o colocou na mão da mulher, que agradeceu, tateando o dinheiro. Os olhos sem vida se arregalaram levemente.

Hinata presenciou aquilo completamente petrificada, a atitude dele a tinha surpreendido e ela não conseguiu fazer nada além de parar no meio da calçada e olhar para ele com uma expressão admirada.

Ele franziu o cenho e a encarou de volta.

– O que foi? Não é como se você ou eu precisássemos.

Não, ela sabia que eles não precisavam, mas ainda assim nunca tinha visto alguém abrir mão de uma quantidade tão grande de dinheiro como se não fosse nada.

– Você só me surpreendeu. – foi tudo o que ela conseguiu dizer.

Sasuke Uchiha era a pessoa mais estranha que ela já tinha conhecido.

– Tanto faz. – resmungou ele, dando um trago no cigarro. – Vamos embora, eu vou levar você para casa.



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