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História Vicious - Capítulo 8


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Notas do Autor


Eu prometo que esta não é uma daquelas histórias que possuem um milhão de capítulos. Tem tanta coisa que eu desejo colocar e os detalhes são importantes para mim, porém farei o possível para colocar o máximo possível de conteúdo que conseguir em cada capítulo, sem apressar nada, claro.

Capítulo 8 - Tudo se resume à chamas


Fanfic / Fanfiction Vicious - Capítulo 8 - Tudo se resume à chamas

Mas, meu sorriso logo se desfez com cinzas dispersas ao vento. Minhas emoções poderiam estar me levando à paranóia, porém, não havia nada que garantisse de que aquilo havia sido qualquer tipo de gratificação. 

Agora que a melodia havia partido, o salão me pareceu ainda maior e ainda mais sombrio. 

E agora que estava sozinha… pude sentir o vazio dentro de mim. 

Até onde eu estaria disposta a ir para o preencher? 

E então eu soube o que desejava. 

Precisava encontrar a parte de mim que faltava.

 — Eu consigo sentir você. 

Disse alto, para Alec. 

Tinha sido ingênuo de minha parte pensar que me deixaria só por tanto tempo. Ainda sim, estava aliviada por ser ele e não Jane, ainda que um não se diferenciasse tanto assim do outro. 

— Eu tenho ordens para seguir. — Ele finalmente deixou as sombras.

— Muito bem. — Estendi as mãos para frente, como quem estivesse prestes a ser algemada. 

— Eu realmente não entendo o que Aro vê em você. — Vi-o revirar os olhos. Era a primeira vez que o via agir como a idade que parecia ter. Um adolescente. 

— Jura? — Sorri, passando por ele e tomando sua frente. — Olhe novamente que talvez perceba… — Provoquei-o. 

Alec me olhou em reprovação. 

— Será que eu devo trocar de roupas? — Perguntei. — Vou passar por algum tipo de treinamento?

— Eu não ficaria tão empolgado se fosse você, ele pode ter ficado impressionado com a maneira que agiu na primeira vez que se alimentou… na sua primeira luta… ou como me ajudou com os corpos, mas de jeito nenhum você, Nove, é uma nível 3.  — Ele apanhou meu braço em um punho fechado. — Da maneira que eu vejo, Aro acabou de jogar um coelho desarmado em uma jaula de serpentes. — Disse, com um sorriso malicioso nos lábios. 

Ele estava certo e eu sabia disso. Aro claramente estava brincando comigo. Não que isso me impedisse de me apreciar por alguns segundos, ainda que por dentro, estivesse prestes a desmanchar. 

— Já parou para pensar no que realmente é certo ou errado? — Desmanchei meu sorriso. 

— Como? — Ele soou confuso. 

— As coisas ficam um pouco misturadas aqui… é difícil saber o que realmente é certo. 

— Não é o melhor momento para uma crise de consciência. 

— Eu não sei se tenho mais uma consciência…

Alec não soltou mais meu braço, muito menos permitiu que eu dissesse qualquer outra coisa ainda que eu tivesse milhares de perguntas. Qualquer momento de breve afirmação, o mais próximo que tive de alívio nos últimos dias, tinha ido embora com o que ele havia dito. Ele tinha razão, eu mal havia aprendido a ser uma nível 1. 

Assim que pareceu termos chegado, impedi que ele abrisse a porta por um instante ao segurar sua mão. Eu sabia ser mais forte, mas isso não me daria vantagem por muito tempo. 

— Por favor...só mais uma coisa. — Implorei. — O que significa ser uma nível 3?

— Tchau, Nove. — Ele abriu a porta e colocou-me dentro. 

Encarei-a vendo-a se fechar na minha cara. 

Senti que não estava sozinha. 

Haviam muitos outros. 

Não podia permitir que sentissem o quão assustada eu estava ou jamais teria chance alguma. Virei-me lentamente, como se não tivesse uma sequer preocupação no mundo. 

Eu poderia não ser uma delas, mas poderia fingir...por hora. 

Meus olhos se abriram em euforia ao encontrar o rosto de Blake e o coração congelado em meu peito teve seu segundo instante de alívio. A sala estava cheia. Cheia de olhares tão afiados quanto facas. Não conheci nenhum rosto. Estava sozinha e o cinza do meu uniforme fazia com que eu me tornasse praticamente um marca texto. 

Ótimo. 

— Nove...— Blake mencionou meu nome. A confusão em seu rosto, tão grande quanto a de qualquer um outro da sala. 

— Transferência. 

A sala foi tomada por sussurros. Desagradáveis tanto quanto os olhares. Vampiros realmente não eram criaturas que mantinham seus pensamentos para si. 

— Muito bem, seja Bem vinda. — Ele sorriu. — Classe, esta é Nove, a acolham por favor. Escolha um lugar vazio, acabamos de começar. 

“Nós sabemos quem ela é.” Ouvi alguém dizer. 

“O bichinho de estimação dos Volturi.” Alguém sussurrou de volta. 

Eles não faziam ideia do quanto eu desejei que aquilo fosse verdade. Eu estava mais para um experimento disparado para falhar do que para um “bichinho de estimação.” 

Bem vinda foi a última coisa que me senti. Procurei pelo fundo da sala e a cada passo que eu dava, um olhar diferente. Aquele tipo de tratamento estava começando a se tornar previsível. 

Felizmente, ao fundo sempre tinha um lugar vazio. 

Alguns se afastaram de mim como se eu fosse contagiosa, outros, claramente esperavam que eu me afastasse. 

O tema da aula parecia ser sobre criaturas místicas. Ao menos era o que estava escrito na lousa negra atrás de Lucian, em giz branco, juntamente com os nomes fadas, sereias, dragões e lobisomens. 

— Como eu estava dizendo fadas são ceres mitológicos, apesar de muitos acreditarem em sua existência e até as adorarem a ponto de preparem oferendas, de origem celta e germana o primeiro às mencionar foi...— A voz de Lucian era suave e hipnotizante, tive a sensação de que não importaria o que ele dissesse, qualquer assunto se tornaria interessante. 

Deveria ser o suficiente para me distanciar da atenção dos outros. 

Suas palavras, aos poucos, começaram a ecoar em meus pensamentos, misturando-se como se viessem de mim…

Não era um assunto que me trazia qualquer lembrança, ainda sim, trouxe-me conforto como se tratasse de algo que já havia discutido em algum momento de minha vida. Tentei imaginar como poderia ter sido algo assim, já que mal fazia ideia de como era ser humana, propriamente. 

Os instantes que antecediam minha transformação eram vagos… me lembrava da fragilidade, da confusão e do medo, de me sentir exposta e vulnerável. Para mim, naquele momento, não havia nada mais aterrorizante do que a morte.

Mas, além disso, e de imagens manchadas por uma visão enfraquecida pintada de vermelho, não havia mais nada. 

Além de dor...

Meus olhos estavam presos nele… eu não precisava piscar e não desejava tirar minha atenção. 

Mas minhas pálpebras se tornaram pesadas… cada vez mais pesadas enquanto meus pensamentos viajavam à lugares não muito distantes. 

“Eu não preciso fechar meus olhos…” disse a mim mesma em meus pensamentos “mas, não há nada de errado em piscar por um segundo,” continuei..

Pisquei uma vez…

Duas…

três...

                                                             ***

Não reconheci o lugar onde estava…

Era um campo aberto, mas a grama estava seca e as flores estavam morrendo, ainda sim, o perfume trazido pelo vento era o de milhares de rosas e muitas outras coisas doces. 

Um perfume que podia jurar já ter sentido antes…

Avistei ao longe duas pessoas. Andando de mãos dadas. Uma criança pequena, uma garotinha, e uma mulher mais velha, de cabelos longos, grisalhos, presos em trança. 

Elas, no entanto, não pareciam notar minha presença. 

A garota usava um vestido escuro, porém de tecidos finos, com algumas flores bordadas, enquanto a mulher mais velha estava enrolada em túnicas. 

As duas caminhavam enquanto olhavam para as flores que pareciam morrer. 

O cheiro vinha da criança, não do campo ou das flores, mas de seu sangue. Era uma mistura de rosas, mel...algodão doce… caramelo… 

Minha garganta ardeu…

Mas eu não consegui me mover.

Estava presa ao chão. 

“O que eu lhe disse sobre proteger esta parte da floresta? — A mulher mais velha parecia repreender a criança, mas sua voz não deixava de soar doce e carinhosa, ainda que firme.”

“Vovó..eu juro que a culpa não foi minha, as fadas simplesmente não gostam de mim. — A criança choramingou.”

“E o que eu lhe disse sobre as fadas?”

“Para ser boas a elas que elas serão boas a mim.”

“E então? Quer me contar o que aconteceu?”

“Uma delas disse que eu sou ruim… e a senhora vê, eu tentei me controlar...mas às vezes...— A criança olhou para as pequenas mãos e em seguida olhou para o meio das flores.”

Demorei, mas enfim encontrei para onde olhava. Era praticamente um ponto de luz amarelo, mas a energia que emanava, era sagaz, como quem se divertia diante da repreensão da criança. 

Quis apanhar o pontinho de luz e o esmagar com a ponta dos dedos por sua petulância. 

A mulher logo também encontro o ponto de luz...que timidamente tornou a se esconder. 

Fadas eram reais? 

“As fadas são criaturinhas irritantes às vezes!”

“As fadas são criaturinhas irritantes às vezes!”

Disse juntamente a mulher.

Como se eu já houvesse ouvido tais palavras.

Como se tivessem sido ditas a mim. 

“Nove…” Ouvi, chamarem-me ao longe. Procurei pela voz… era a mesma voz dos corredores. O mesmo perfume. A voz feminina.. desconhecida... “Venha me encontrar…” soou arrastada...provocativa. 

Estava tão longe que mal podia a sentir. Como se me chamasse de fora. 

No entanto… a mulher e a criança também pareciam terem a ouvido e então seus olhos finalmente me encontraram. 

“Nove” Ouvi mais uma vez.

Mas, desta vez, era outra voz…

Era a voz de…

                                                      ***

— Nove! — O comando fez com que eu abrisse meus olhos rapidamente. Blake estava parado ao lado de minha mesa, seu semblante tão pesado como se carregasse chumbo. — Você estava...dormindo? 

— Isso não seria possível. — Respondi. 

— Eu podia jurar que não podia me ouvir… a aula acabou a cinco minutos.

— Eu...— Para mim eu tinha ficado fora por poucos instantes. — Me perdi nos meus pensamentos, só isso.. Fechar os olhos é um hábito meu. — Menti. 

Ultimamente andava mentindo tanto que poderia me tornar muito boa nisso. 

— Minha aula estava tão desinteressante assim? — Ele sorriu, cruzando os braços,  enquanto se sentava em cima de minha mesa, se aproximando de mim. 

Lucian era tão bonito que chegava a ser irritante. 

Seu rosto, seus olhos, sua voz, a maneira como se vestia, seu cheiro… 

— Não...o tema em si que era interessante demais. 

— Criaturas místicas?

— Sim! Fadas são criaturinhas irritantes às vezes...— Repeti a frase, desta vez com um sorriso nos lábios. 

— Está me dizendo que acredita em fadas? — Ele mordeu o lábio em um meio sorriso. 

— É possível. — O provoquei. 

— Estou intrigado para saber de onde vem a crença…

— Talvez você tenha falado tão bem que tenha me convencido. — Continuei a brincar com minhas palavras. 

— Talvez? — Ele fingiu se ofender. — Mas, o que eu realmente quero saber é o que esta fazendo aqui...— Agora o seu tom se tornou mais sério. 

— Se eu fizesse ideia… Eu mal sei porque fui transformada. 

— Eu digo aqui...no nível 3. 

— Não sei! Aro me jogou aqui, sem explicação ou meias palavras. Eu nem sequer entendo o que os níveis significam ainda… mas Alec disse que eu não sou uma nível 3 e eu sinceramente concordo. 

— Fico surpreso que Alec divida qualquer coisa com você...mas, pelo que já notei você parece ter seu jeito com as pessoas. — Ele me pareceu pensativo. 

— Ou as pessoas tem seu jeito comigo. 

— Bom...veremos mais um do outro daqui para a frente, sou mais presente nos níveis mais altos do que no primeiro...o primeiro nível é mais sobre aprender controle. 

— Um controle que eu não aprendi a ter. 

— Claramente Aro tem planos para você, ele não faz nada que não seja premeditado. 

— Eu acredito que não faça, porém… tenho medo de suas intenções que nunca são claras.

 Fiquei surpresa por confiar tanto em Lucian. As palavras saíam fáceis...fáceis demais e antes que pudesse me lembrar de que ele mesmo havia me dito para não confiar em ninguém, já tinha lhe entregado pedaços que giravam em minha cabeça. 

— O objetivo de cada um por aqui… é de se fazer ser visto e você tem conseguido isso desde o seu primeiro dia sem qualquer esforço… isso pode ser incrivelmente perigoso. — Blake me pareceu genuinamente preocupado. 

— Então acha que o que ele fez pode ser prejudicial? — Referi-me sobre subir repentinamente de nível. 

— Com toda a certeza. 

— Perfeito. — Fechei os olhos. Era quase como se já pudesse sentir os problemas se aproximarem. 

— A proposta que fiz...sobre te ajudar, ainda esta de pé. 

— E se eu escolher aceitar?

— Ofereci porque espero que aceite. 

— Como faço para o encontrar?

— Estarei sempre nesta sala… ou no meu quarto… — A sugestão fez com que meus olhos buscassem os seus. 

Ele limpou a garganta e se levantou, como quem havia acabado de se queimar. 

— Eu o procuro, então. — Levantei-me, sendo eu a me aproximar desta vez. 

Ouvimos uma batida na porta. 

Alec. 

Ele não precisou dizer nada. Despedi-me de Blake com um olhar e fui em sua direção. 

— Se não é a minha babá preferida… 

O olhar que ele dirigiu a mim, era uma clara declaração de guerra. 

Ele era mais divertido do que deixava-se entregar e quanto mais ele resistia, mais eu sentia vontade de o romper. 

Enquanto Alec me levava para sei lá onde, não pude deixar de me lembrar do que suponha ter sido outro lapso de memória. A criança era eu? Eu claramente havia sido vista, tinha certeza disso, então como poderia ser possível? Será que era a minha cabeça me pregando peças? 

Algo poderia estar seriamente quebrado dentro de mim. 

— Eu não sabia que professores eram a sua preferência. — Alec disse.

Alec! Puxando assunto comigo! Fiquei estática por um breve instante, não acreditando ter acabado de ouvir sua voz, de maneira casual, dirigida a mim. 

— Ahm… o que? Não! Não é dessa maneira. 

— E ele sabe disso? 

— Não sinta ciúmes, você sempre será o meu segurança preferido. — Brinquei. 

— Não é comigo com quem deveria se preocupar. 

Pronto! Mais um enigma do qual eu não fazia ideia. 

Com quem eu deveria me preocupar? Aro? Caius? Alguma garota ficcionada em Lucian? 

Alec sabia exatamente o que dizer quando pretendia me desestabilizar e isso ajudava-me a compreender um pouco do porque de Aro o manter por perto. Eu não fazia ideia das suas habilidades, mas podia dizer que ele sabia muito. Sobre tudo. A liderança o servia bem. 

— E com quem eu deveria me preocupar? 

— Ah… logo logo você deve descobrir. O que eu posso dizer, é que vai ser interessante. 

— Que bom então! 

— Ou...eu quis dizer interessante para mim. — E o sorriso do mal dele, estava de volta. 

— Para onde vamos agora? — Tentei acompanhar seus passos, mas ele era incrivelmente rápido, quase como se desejasse que eu não conseguisse o acompanhar. 

— Por que perguntar se pode simplesmente esperar e ver por si mesma? 

— Para me preparar psicologicamente? — Disse, imaginando ser razão óbvia e suficiente. 

Ele pareceu pensar por alguns segundos. Parou de caminhar e olhou para as paredes ao seu redor. Pude ver que tentava se decidir entre dividir algo comigo ou calar-se. Imaginava que seguiria o que considerasse ser mais vantajoso para si. 

— Nada muito físico...ainda. — Ele disse, por fim. — Diga-me, Nove, já ficou perto de um humano sem o matar? 

— Não… 

— Interessante. — E eu pude perceber que ele não me diria muito mais do que isso. 

— Sabe? Eu jurava que Véspera estava encarregada por mim. 

— Era essa a ideia… mas Aro decidiu que você era uma responsabilidade grande demais para alguém como Véspera. 

— Ela cuidou de mim muito bem. 

— Não tão bem como eu poderei cuidar, claro. 

— Se por cuidar você quer dizer, me ameaçar a cada segundo...então sim, você é o melhor. 

— Como pode falar assim? — Ele fingiu estar ofendido. — Ainda nem chegamos na melhor parte. 

— A melhor parte?

— A parte onde eu tenho a oportunidade de te matar. 

E com isso ele tomou a minha frente e se calou mais uma vez. 

Sinceramente, eu não fazia a menor ideia se ele estava falando sério. 

Pensava em milhares de insultos que poderia dirigir a Alec, em minha cabeça, quando fomos surpreendidos. Pude sentir seu cheiro antes de sentir sua presença, mas agora que o via, ambos eram igualmente inebriantes. 

Era ele. 

Meu criador. 

— Mestre. — Alec o reverenciou. Revirei os olhos ao perceber toda sua postura sumir, quase como se ele pudesse desmanchar diante de Caius. 

— Deixe-a comigo…

— Eu tenho ordens para… — Caius interrompeu-o com um olhar. Olhar suficiente para me fazer tirar os olhos dele. — Sim, senhor. 

Segui-o sem qualquer objeção. 

Com ele era diferente. 

O mínimo senso de liberdade que sentia ter com outros, sumia diante dele. Até jane me parecia ser mais macia de ser mastigada. A minha vontade era de o questionar, mas temia levantar minha voz e ser extremamente mal recebida com o que quer que dissesse. 

— A quanto tempo você não se alimenta de verdade? — Ele foi o primeiro a dizer algo. 

— Desde o dia que fui transformada, senhor. — Respondi rapidamente. 

— Então precisamos resolver isso. 

Não senti espaço para dizer coisa alguma. Ele estava bem mais impenetrável hoje. 

Ele parou de caminhar… e eu, que mal olhava para onde andava, sem perceber, permiti que meu corpo se chocasse contra o dele. Caius virou-se, colocando de frente a mim. Senti imensa vontade de me colocar de joelhos e me desculpar por sequer ter o tocado sem sua permissão. 

“Feche os olhos.” Ele sussurrou. 

Obedeci. 

Senti seus braços me envolverem em um abraço. 

E então foi como se contássemos os ar. 

Eu sabia que movíamos juntos. Ou melhor, ele me movia juntamente a si. Ele era rápido e de olhos fechados, quase senti que voássemos de verdade. 

Antes de abrir os olhos mais uma vez, senti o cheiro de sangue preencher o ar. Inspirei, longa e profundamente, não era mais eu quem me mantinha no lugar, mas Caius que ainda me envolvia em seus braços. O sangue não estava tão perto assim, porém era o suficiente para que meu cérebro desligasse. Um grunhido escapou por entre meus dentes enquanto sentia a ardência consumir minha sanidade aos poucos. 

Prendi meus dedos contra os braços que me seguravam. 

Caius soltou um gemido doloroso. 

 — Se eu a soltar...você vai matar qualquer coisa que encontrar depois daquela porta? 

Até então eu nem havia percebido a porta, ou o lugar onde estávamos. O mármore polido havia sido substituído por pedras grotescas, quase como se estivéssemos em meio às ruínas de um castelo incrivelmente antigo. 

A pergunta que ele havia feito havia sido válida e tinha me feito questionar mais uma vez o que antes Alec havia julgado como “crise de consciência.” 

Eu precisava começar no que seria o certo para mim. 

Mas agora que eu havia sentindo o odor do sangue, não havia muito o que eu pudesse fazer ou no que conseguisse pensar. Era extremamente doloroso. 

Nem havia tido tempo para o responder. 

Meus lábios sequer eram capazes de formar palavras. 

— Vá. — Caius me soltou. 

O modo de caça foi ativado dentro de mim, era tarde demais para voltar atrás. A porta se mostrou frágil diante ao meu toque e dentro dela havia uma garota. Menor do que eu, aparentemente mais nova, presa por correntes, vendada… estava suja, no escuro, mas o cheiro de seu sangue mascarava o cheiro de qualquer outra coisa. 

Não havia sangue suficiente em suas veias para saciar nem um pouco da sede que eu sentia. Fiquei brava quando vi o que Caius tinha para me oferecer. 

Mas...fui até ela mesmo assim. 

Controlada pelo cheiro. 

— Por favor! — Estendeu as mãos acorrentadas, ainda que não pudesse saber onde eu estava. Eu sabia ser rápida demais para seus sentidos humanos. — Eu não tenho filhos...nem marido...nem amigos...— Ela choramingou. 

— Bom...mais uma razão para morrer. — Respondi. 

Sabendo que não deveria ter dito uma única palavra. Me aproximei um pouco mais, desta vez, sentindo o coração da humana acelerar, como se soubesse o que a aguardava. 

— MAS! Eu sou a filha de alguém. — Sua voz tremia, suas mãos, seu corpo… até o sangue em suas veias chacoalhava em medo. — Alguém que está esperando que eu volte para casa… 

E eu era a responsável por isso. 

Sabia que a decisão era minha e o que eu decidisse, direcionaria grande parte dos meus pensamentos a partir de agora. 

Será que eu também era a filha de alguém? 

Será que alguém procurava por mim?

— Qual é o seu nome? — Sussurrei em seu ouvido. 

Ela se encolheu ao perceber o quão perto eu estava. 

— A-anna, s-s-senhora. — Ela gaguejou. 

Senhora? Eu? Claro, poderia supor que a situação se organizava assim considerando o que eu era e o que ela era. 

— Anna… mesmo que eu poupe sua vida, você esta morta de qualquer maneira. 

Ninguém a deixaria sair viva dali. Mesmo que eu encontrasse dentro de mim, forças para impedir meus impulsos, aquela agora, Anna, poderia terminar nas mãos de Jane e então… que Deus tenha pena da sua alma. 

Deus…

Pensar neste nome causou-me arrepios. 

Eu não fazia ideia de que um vampiro poderia se arrepiar desta maneira. 

— N-não se você me ajudar. — Suas mãos apanharam as minhas. Será que ela conseguia me ver. O toque tinha sido pior. Eu conseguia sentir seu sangue pulsar sob sua pele. 

Alec havia me perguntando se eu já havia estado diante de um humano sem o matar, será que aquilo seria um teste? E se eu escolhesse errado? A decisão pesou um pouco mais, agora, em minha consciência. 

— Você precisa de ajuda para terminar? — Ouvi a voz de Caius atrás de mim. 

A garota soltou minhas mãos. 

O medo aumentando dentro dela. 

Ele a assustava mais do que eu conseguia a assustar, ainda que eu estivesse tão perto e a voz dele tão distante. 

— Se você não fizer...eu faço. — Ele disse. 

— Faça você, senhora, por favor. — A garota implorou. — Não deixe que ele chegue perto de mim de novo… eu imploro, por favor, um último pedido. 

Olhei para Caius. 

— Eu prometo ser rápida. 

E eu fiz. 

Mesmo sabendo, que não importava o quão rápida eu fosse, aquela seria a pior dor que ela sentiria antes de deixar esse mundo. 

Em segundos, já não havia mais nada dela que eu pudesse sugar e meus ouvidos ainda permaneciam preenchidos por seus gritos de agonia. 

— Muito bem. — Caius disse. 

Pude ouvir o sorriso em sua voz. 

Levantei-me. 

Limpei minhas mãos nas roupas que usava. 

— Eu vou cuidar do corpo. — Parti as correntes com as mãos. 

Senti as mãos dele me envolverem mais uma vez, desta vez mais fortes, mais dominantes. Não era sua força que me segurava, mas sua influência. 

— Não. — Ele sussurrou em meus ouvidos. 

Seu comando partiu-me profundamente. Olhei uma última vez para Anna e desejei que tivesse descanso, já que eu não pude conceder a misericórdia da qual ela precisava. 

Senti algo diferente…

Um sentimento maior do que a sede. 

Aquilo não havia sido certo. Ela era inocente e não merecia ter sido terminada daquela maneira. Convencer-me de que ela já estava morta antes que eu chegasse até ela não seria o suficiente. 

Eu tinha feito o que tinha feito. 

Meu peito se movia junto a ele ainda que meu coração não batesse. 

Ardia, como a sede, porém talvez fosse capaz de queimar muito mais dentro de mim. Como fogo. Fogo de verdade. 

Fechei os punhos com força e os choquei contra o chão, sentindo-o partir sob minha pele. O choque de dor repentina não me incomodou, meu cérebro mal acompanhava o que acontecia. 

Tudo o que eu tinha em mente era o que eu sentia. 

Angústia? Raiva? Decepção? Arrependimento? O que fosse… era ruim. 

O corpo foi tomado por chamas, chamas douradas que tornavam-se maiores e estalavam à medida que meus olhos as encontrava. Não somente queimavam o corpo, como o protegiam de mim...como se soubessem o que eu havia feito. 

Eu não sabia de onde vinham…

Mas as temi. 

Caius me puxou para trás e ambos caímos juntos, meu corpo sobre o dele. 

Até que fui jogada para longe, sentindo meu corpo ir ao encontro de uma das paredes. 

E percebi…

Meus pulsos estavam em chamas, mas as chamas não queimavam minha pele ou me causavam dor. 

O fogo vinha de mim. 


Notas Finais


Ok, o que acharam?


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