História Vidas de Papel - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Palavras 2.347
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Adultério, Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Hello, Hello!

Esse romance faz parte de um projeto de escola, ideia desta obra surgiu-me em uma epifania!

Capítulo 1 - Prólogo


 

I

 

Meireles terminou mais uma página, baixou a caneta e analisou minuciosamente o que escrevera. Se viu extremamente insatisfeito, xingou-se mentalmente por ter escrito algo tão ridículo e sem profundidade quanto aquilo. Amassou a folha e lançou-a sobre a lata de lixo, desatou a escrever novamente, mas depois de terminar uma frase se viu em branco total, um bloqueio absoluto. Irritado jogou todas as folhas pelos ares, chutou a escrivaninha e saiu de seu escritório batendo a porta, vermelho de raiva.

— Parco, parco, parco... — repetia a si mesmo.

Desatou a andar em círculos pelo quarto que era adjacente ao escritório, já era o terceiro conto que o encucava dessa forma, o último publicado tivera uma aceitação péssima, Meireles culpou o texto de ser muito transparente e pouco opaco, sem a profundidade dos escritores do século dezenove que tentava atingir, ignorava o fato de todos ao seu redor apontarem que o existencialismo e o niilismo já eram temas ultrapassados, não chamavam atenção alguma dentro da literatura pós-moderna, mas Meireles rejeita isso com fervor, despreza os escritores pós-modernos e vê profundidade apenas nos clássicos.

— Se eles estivessem vivos hoje...

Parou em frente ao espelho, observou sua aparência repulsiva e tropicou numa melancolia profunda. Era um balofo, a barriga era protuberante abaixo da camisa social, os cabelos eram calvos e já apresentavam fios brancos, as bochechas eram caídas e a testa franzida, os olhos eram castanhos escuros e um óculos de aro se equilibrava sobre o nariz e as orelhas. Tinha trinta e dois anos mas aparentava cinquenta, um total fracassado, perguntava-se quando chegara a esse nível de decadência, agora, vendo-se dessa forma, entendeu porque Helena o deixara, era um homem metamorfoseado num monstro.

— Imbecil — sussurrou. —, além de repugnante é um imbecil, sim, um imbecil. Balofo de merda.

Assim desatou-se a xingar-se dos mais variados sinônimos, repassou na memória toda a lista de fracassos que o levaram até essa posição. O mais impressionante era que Meireles não carregava sua cruz sozinho, balanceava o fardo com as mais diversas instituições da sociedade, atribuía seu fracasso ao capitalismo e a sociedade opressora, mas nunca tivera problema algum com nenhum dos dois, repetia apenas as falácias que lhe eram empurradas dia após a dia e as aceitava sem problema algum, afinal, eram alheios que lhe empurravam esses argumentos, livravam-no da culpa de aceitar esses mesmos para inocentar-se, nem mesmo o narrador podia defender-lhe, o autor surpreendia-se ao ver tamanho lixo sair de sua imaginação.

Decidido Meireles jogou tudo pelos ares. Voltou-se apressado ao escritório e reuniu as folhas de papel que se espalhavam como areia sobre o quarto. As presas amontoou as folhas sobre a mesa e as grampeou, releu cautelosamente o conteúdo, manteve a mesma opinião, porém agora não tinha nada a perder, já se via no fundo do poço. Saiu do escritório, trajou o chapéu de feltro preto (que ninguém mais usa) e partiu encarar a editora.

Abriu a porta do Uno vermelho enferrujado e posou as mãos sobre o volante ofegante. “Que diabos está havendo comigo?”. Meireles nunca fora um homem tão impulsivo com suas obras, observou os papeis grampeados sobre o branco e sentiu um medo terrível de vê-los sobre a mesa de seu temível editor, sentiu medo da rejeição que era tão presente em sua vida quanto a comida, estava perto de desistir daquela loucura, mas encontrou dentro de si uma ínfima fagulha de esperança, agarrou-se a ela como seu salva-vidas e recusou-se a soltar, aquela era sua última esperança e se ela morrer nada mais restaria. Respirou fundo, fechou os olhos, abriu-os novamente e olhou para parede sem reboco da sua garagem, por um momento sentiu-se deslocado, sem saber aonde estava, mas logo recobrou-se. Encarou seus olhos castanhos no retrovisor e viu ali arder uma confiança que jamais vira em todos seus anos na terra, aquilo serviu para alimentar ainda mais aquela fagulha que estava se transformando em um fogaréu. Sorriu pela primeira vez em muito tempo, deu ignição no veículo e partiu enfrentar o seu tão temido destino.

No transito irritou-se com a lentidão que São Telmo fluía, não era uma cidade pequena mas seus habitantes não faziam esforço algum para manter o transito mais rápido e o puto que dirigia a frente de Meireles transitava em uma lentidão tão absurda que ele imaginava que o mesmo iria engatar a ré em qualquer momento, para Meireles o povo burro da cidade devia permanecer nos mares, como seu padroeiro. “Merda!”. Irritou-se mais ainda ao lembrar-se do padroeiro da cidade, a mais de um ano cuspira e jogara no lixo sua identidade nacional, não se identificava mais como brasileiro, como catarinense ou com qualquer outra nacionalidade, via apenas desgraça no país que vivia e não enxergava beleza alguma em nações alheia, sendo preferiu não fazer parte do que os outros chamavam de Brasil.

Bufando de raiva Meireles estacionou em frente da editora.

 

II

 

Yasmin irritou-se ao ver aquele maldito usuário tweetar asneiras sobre o feminismo, em um acesso de fúria começou a digitar um grande texto para repreende-lo, mas ao perceber que passará dos 140 caracteres desistiu, disse a si mesma que não valia o esforço. Jogou o celular sobre a poltrona e por um momento desconectou-se do mundo virtual. Retirou-se de seu quarto e partiu rumo a cozinha em busca de seus remédios para a asma que ameaçava atacar, no caminho deparou-se com seu projeto de livro jogado de maneira relaxada sobre a mesa, organização era algo que lhe faltava. Suspirou e aproximou-se daquelas folhas.

— Por que escrevo isso? — questionou-se.

Mas sabia que escrevia porque vendia, não condizia com sua visão de mundo, mas sua visão de mundo não a sustentava, sabia disso e por isso continuava a escrever textos sem profundidade e quase infantis, sabia que conquistar leitores no Brasil era algo tão difícil quanto passar calor na Sibéria, tentava não se queixar do que escrevia. Sentou-se sobre a escrivaninha, encarou aquele lixo superficial e fechou a cara.

Pegou o celular novamente e sem querer abriu a câmera frontal. O rosto que aparecia a câmera era de uma mulher extremamente bela, de traços delicados e cachos negros, olhos verdes penetrantes, pele de uma brancura descomunal e um nariz elegantemente fino, uma mulher semelhante a aquelas que se viam em revistas ou em novelas, mulheres que muitos achavam não existir.

Recriminou-se pelo erro supérfluo de abrir a câmera e dedicou-se a caçar na internet os livros ao qual plagiava em suas obras, suspirou de desgosto, quatro anos para formar-se em letras e trabalhar plagiando obras alheias, era o cumulo da decadência, porém, mas desgostoso ainda seria viver sem um mísero tostão (ou como professora), como uma fracassada, como uma Meireles. Encontrou o trecho que buscava copiar e debruçou-se sobre os papéis para começar seu trabalho, porém, após escrever a primeira frase parou. Sua mão se recusava a mover, estava travada olhando incrédula para aquele livro, tentou de todas as maneiras forçar-se a continuar, mas não conseguia, tentou forçar sua mão, sentiu uma ânsia de vomito, um nojo inexplicável, chegou a tal ponto que não conseguia mais encarar aqueles papeis, tirou-os de sua frente ofegante.

— Que diabos está havendo comigo? — perguntou-se num gritinho agudo.

Tentou pegar os papeis novamente mas não conseguiu, sentia uma aversão descomunal por aquelas folhas, pegou uma nova folha em branco e parou encarando-a, recordou-se novamente do nojo que sentira e tomou a maior decisão de sua vida... e a mais imprudente. Pegou aquelas folhas com um tremendo esforço e jogou-as no triturador de papel, empinou o nariz orgulhosa diante daquele ato. Virou-se em direção de uma folha e desatou a escrever um conto que formulara a pouco tempo mas descartara por ser demasiadamente complicado, no começo se viu tremendamente travada de iniciar um texto tão complexo após anos de besteira e histórias mundanas, mas logo fluiu. Observou o que produzira e sentiu-se orgulhosa de si mesma, era o mais belo texto que produzira em uma década, porém parou e pensou na aceitação, quem publicaria aquilo? Ninguém. Ninguém arriscaria a publicar aquilo, a editora a qual seu nome estava vinculada buscava a nova J.K. Rowling, não a nova Clarice Lispector, suspirou tristemente e engavetou aquele texto, saiu do quarto frustrada e tentou continuar procrastinando, mas sua mente estava inquieta, não conseguia livrar os pensamentos daquele conto em especifico sobre um escritor gordo e fracassado, por fim cedeu a seu subconsciente. Levantou-se da cama e sentou-se em frente ao conto com o objetivo de revisa-lo. Arregalou os olhos ao perceber que o texto estava em perfeito estado (pelo menos aos seus olhos), sem necessidade alguma de mudança, estava bem conciso, as metáforas estavam perfeitas e sentiu que não havia nada para cortar do texto sem que perdesse a sua essência, sorriu orgulhosa do trabalho que teve e pensou no que fazer com aquilo.

Andou em círculos exatas quarenta e oito vezes, apesar do que fizera anteriormente a garota ponderava por muito tempo antes de tomar qualquer decisão importante, sua vida era desorganizada e por isso sentia que o mínimo que podia fazer era pensar bem nas atitudes que planeja tomar. Sabia que sua editora se recusaria a publicar aquilo, sabia também que recorrer a outra significa romper com a editora atual e seria muito imprudente aventurar-se em um novo mercado editorial que não detinha nenhuma experiência, nem mesmo o escritor de seu conto tinha um bom final com aquele mercado, era um fracassado de se dar pena e o que impediria Yasmin de tornar-se uma também?

— Se tudo der errado posso dar aulas... — Parou estupefata com o que disse e chacoalhou a cabeça com veemência. — Não, não! De volta a aquela sala de aula não! Prefiro passar fome.

E assim passou mais vinte minutos andando em círculos pelo quarto, no fim olhou pela janela, já escurecera, desistiu de sua ideia maluca, tomou pílulas para dormir e jogou-se sobre a cama cansada de tanto raciocinar.

 

III

 

Santiago saiu de mais um debate fervoroso. Jogava os mesmos argumentos a mesa por anos e mesmo assim alguns teimavam em desacredita-lo, o libertarianismo era uma conclusão lógica e eles recusavam-se a aceitar isso, por isso era excluído dos “jantares de inteligentinhos”, como chamava, e isso o irritava muito.

Pegou um Uber e indicou ao motorista que caminho seguir. Cruzou as pernas e retirou um livreto para ler, não era o leitor mais ávido do mundo, mas para manter o posto de intelectual precisava também manter um ritmo de leitura, apesar de boa parte de seus conhecimentos partirem de documentários e pesquisas, não de livros, escondia esse fato das pessoas com a qual argumentava, porém se orgulhava por ser detentor de tanto conhecimento com tão pouco esforço, via a si mesmo como um gênio irrefutável, talvez realmente fosse, mas na realidade não passava de um arrogante, “um grandíssimo filho da puta” diziam seus adversários.

O motorista ajeitou o retrovisor, Santiago ergueu o olhar e encontrou-se com ele mesmo no vidro. Era um negro com um raso cabelo grisalho e uma barba bem-feita também grisalha, olhos estranhamente amarelos, proveniente de uma falha genética, uma cicatriz destacava-se na bochecha esquerda, o nariz era excessivamente largo e os olhos absurdamente fundos, não era de todo horroroso, tinha o seu charme.

Voltou os olhos para o livreto e começou a se entediar, sempre se via entediado ao tentar ler qualquer coisa com o balanço do carro, alguns sentiam-se enjoados outros com enxaqueca, mas Santiago sentia-se entediado.

Por fim acabou por fechar o livreto e puxar assunto com o motorista.

— Qual seu nome meu jovem?

O motorista chamava-se Rafael. Santiago passou a emendar assuntos com o motorista como forma de desviar o seu tédio, viu naquele homem um alvo para plantar a semente do pensamento libertário. Começou a questiona-lo sobre os serviços estatais e logo levou-o ao assunto do anarquismo, ao ver o homem negar com veemência a ideia como algo antinatural Santiago o fez cair em contradição, plantou a ideia de propriedade e direitos naturais no homem. Em primeira instância o motorista se fez de confuso e negou por completo, mas após deixar Santiago em frente de seu apartamento ficou com uma pulga atrás da orelha, começou a questionar o que Santiago havia lhe dito, mais tarde o motorista se tornaria mais um que aderiu ao movimento.

Santiago sorriu ao descer do carro, contente por plantar mais uma semente, no ápice de seu ego. Parou em frente da recepção e pediu com um sorriso radiantes as chaves.

— Está feliz hoje seu Santiago. — disse o porteiro gordinho arqueando uma sobrancelha, desviando os olhos do jornal.

— Existem pequenas prazeres que fazem o dia de qualquer homem, afinal, não é nosso direito a busca por felicidade?

O porteiro sorriu e voltou os olhos para a pequena televisão que exibia o jornal. Via o senhor Santiago como um louco que delirava nas suas teorias.

Quando destrancou a porta de seu apartamento Santiago dirigiu-se para o armarinho, pegou um conhaque, colocou Tchaikovsky para tocar na caixa de som e jogou-se sobre a poltrona relaxado. Fechou os olhos e bebericou um pouco da bebida, sentiu-se numa paz de espirito inatingível, ouvia a orquestra que se alterava bruscamente de maneira abafada, concentrando-se em nada, apenas sentindo o vazio.

Ao abrir os olhos novamente depositou o conhaque numa mesinha ao lado, encarou seu quarto luxuoso e sua biblioteca extensa a qual não lera nem um quarto, ao olhar para os livros lembrou-se do texto que estava produzindo para seu blog, mais uma de suas muitas críticas ao estado, aquela era mais extensa e mais filosóficas que as anteriores e agora, nessa calmaria de alto mar, sentiu-se extremamente inspirado para dar continuação a aquela beldade. Levantou-se da poltrona e encaminhou-se rumo ao computador, manteve a mão por cima do teclado por um momento, como se reunindo pensamentos e em uma transição brusca começou a movimentar os dedos sobre as teclas em uma velocidade absurda, vomitando as palavras, estava em um transe completo, mas sua explosão criativa foi interrompida pelo reverberar de uma mensagem, olhou no canto da tela e ali viu uma mensagem vinda de Meireles. 

— O que esse desengonçado quer comigo?



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