1. Spirit Fanfics >
  2. Vingança e Paixão >
  3. Capítulo XIX

História Vingança e Paixão - Capítulo 19


Escrita por: Grainer

Notas do Autor


Olá, meus queridos e minhas queridas!!!
Desculpem o pequeno (ok, o grande) atraso em atualizar a fanfic! Mas essa histórica é muito querida por mim e não gosto de escrevê-la de qualquer jeito.
Estou passando por uns momentos realmente complicados na família, mas prometo que não demorarei tanto para atualizar agora!

Agradeço de coração a todos e a todas que continuam aqui, lendo, acompanhando, comentando...
É sempre muito importante esse feedback para que nós, autores, possamos ter uma ideia de como o texto está sendo recebido pelo público!
Sem mais demoras, divirtam-se com esse capítulo!
Acho que novamente bati meu record! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Mas espero que vocês gostem, de coração! Escrevo com muito carinho.

O capítulo foi revisado e comentado pela minha querida amiga Btas (Gabizinha capricapeta). Minha flor, obrigada sempre por suas revisões sarcásticas que me fazem rir, por seus comentários e por suas dicas que só fazem melhorar a qualidade da história, do desenvolvimento dos personagens e dos núcleos!!!!

Na foto de hoje, trago a Catarina, a sobrinha do rei Thomas, prima da Elinor, a amada do nosso querido conselheiro real, Mu, e a herdeira legítima do trono de Káden! Poderosíssima!!!
A atriz que me inspirou para a Catarina foi a Eva Green (gente, eu amo essa mulher!)

Capítulo 19 - Capítulo XIX


Fanfic / Fanfiction Vingança e Paixão - Capítulo 19 - Capítulo XIX

O.o.O.o.O.o.O Nas aforas de Káden O.o.O.o.O.o.O

Fazia quase uma hora que estavam cavalgando na direção das terras dos Panathinaykos em cujos feudos ficava a pequena casa de Shina. A floresta tornava o dia ainda obscurecido, mesmo que acima das copas das árvores o sol já brilhasse fracamente. Vestidos com as capas negras e os tecidos encobrindo parcialmente o rosto, Shura excitava o cavalo batendo nas laterais do animal com o calcanhar.

- Pare o cavalo! Pare imediatamente! Eu estou mandando! Pare o cavalo!

Gritava a mulher, montada às costas do cavaleiro, batendo nas largas espáduas masculinas cobertas pelo tecido negro da capa que ele levava. O espanhol tinha uma máscara que cobria a parte superior do rosto, deixando apenas os olhos de fora, e um chapéu, também preto, na cabeça.

- Você vai conseguir derrubar nós dois de cima da cela se continuar balançando! – resmungou ele, fazendo o cavalo correr ainda mais rápido. – Pare de se mexer! – berrou ele.

Shina debatia-se nas costas do cigano, balançava-se sobre a cela, eufórica pela pertinência daquele homem.

- Você é sempre tão insuportável assim? – interrogou Shura.

- Alguém já lhe disse o quanto você é atrevido? – rebateu Shina.

- Será esse o motivo pelo qual você parece estar gostando de ficar agarrada comigo? – sentenciou Shura, esboçando um sorriso cínico.

Shina olhou para ele de boca aberta, em seguida olhou para os próprios braços e notou que ela os tinha presos ao redor do corpo daquele homem. Ao se dar conta daquilo, a mulher retirou-se de imediato, sob o olhar ainda mais cínico de Shura. Após chegarem em meio a uma clareira, ele finalmente diminuiu o passo do animal até fazê-lo parar, puxando as rédeas com força. Quando o cavalo parou totalmente o passo, Shura retrucou:

- Desce!

Shina, ainda em cima da cela, olhou ao redor por um momento. Não havia sinal de gente ou de animal por aquelas paragens. Apenas o pio de aves quebrava a quietude do bosque. Ela nem sequer sabia onde estavam naquele instante.

- Você vai me deixar aqui?

- Nem bem nos conhecemos e já vai começar a sessão ciúmes? – Shura suspirou, sarcástico.

- Ora, seu...

Com raiva, Shina saltou do animal, com a elegância de um cavaleiro profissional, e bateu as mãos uma na outra para limpá-las.

- Nota-se que o senhor não é um cavalheiro! – disparou ela, encarando Shura em cima da cela – Que homem honrado larga uma mulher indefesa, em um lugar como este, e sozinha?

- Você é uma mulher... você está indefesa... – começou Shura, achando graça das feições dela – Mas eu sei que você pode sair dessa! Faça melhor!

Encararam-se: ela, com ódio da petulância dele. Ele, erguendo uma sobrancelha e segurando o riso:

- Você poderia ao menos me dizer como eu faço para chegar aos feudos? Eu não faço ideia de que diabo de caminho foi esse que você tomou enquanto fugíamos! – esbravejou ela, botando as mãos na cintura. – Eu tenho certeza que você fez de propósito!

- Você pode ir por ali. – Shura apontou para um caminho entre as árvores fechadas – Pode seguir a trilha da floresta que, certamente... – e ele a olhou sedutoramente dos pés à cabeça - ... Alguém irá ajudá-la! Sabe que você fica muito atraente em roupas masculinas?

- Ai, que homem enervante! – berrou Shina – Mas que fim de mundo é este para o qual você me trouxe?

Naquele momento, barulho de rodas se arrastando fê-los olhar na mesma direção. Alguém se aproximava. Assustados, Shura colocou a mão na espada, enquanto Shina pegou um grosso pedaço de pau que se encontrava ali, erguendo-o com as duas mãos, e ficou em posição de ataque. A charrete de ciganos aproximou-se deles, diminuindo a marcha.

- Vocês estão perdidos? – perguntou um dos ciganos, o que manejava o carro, parando diante deles.

Ambos baixaram a guarda quando perceberam que se tratava apenas de uma trupe de ciganos andarilhos que pediam esmolas pelas cidades do reino. Era comum que caminhassem vila após vila, as mulheres liam a sorte utilizando-se de cartas com desenhos enigmáticos às quais eles chamavam tarô. Os homens eram exímios apostadores de cavalos e também roubavam para sobreviver. Ambos, homem e mulher, pediam esmolas.

- Ah, senhor... – Shina cruzou os braços, cínica – Este homem de negro me raptou e quer me largar aqui!

- Mas o que? – Shura olhou para ela com os olhos surpreendidos. – Ela está louca! – falou o espanhol, sorrindo para o cigano. – Eu não raptei você! – esbravejou para ela, indignado pela traição.

- A senhora o conhece? – perguntou o cigano, estreitando os olhos vivazes sobre eles.

- Infelizmente, nós poderíamos dizer que sim. Mas, neste momento, eu respondo que não. – tornou Shina, ainda mais cínica.

- Que mulher sem coração! – esbravejou Shura, revoltado em cima do cavalo – Mas parece uma cobra!

- E você, amigo, parece que não encanta serpentes, não é! – o cigano, cujos cabelos eram grisalhos, piscou um olho malicioso para Shura.

– O senhor poderia livrar uma dama indefesa da companhia de homens mascarados que falam espanhol? – pediu Shina, tomando a frente de Shura.

- Calma, senhorita, eu prometo que irei ajudá-la.

Pediu o guia dos ciganos, e Shura e Shina perceberam que outros olhos, muitos pares, observavam a cena de dentro da carroça, na parte de trás, atrelada ao coche.

- Eu não sou um ladrão de mulheres! – rebateu Shura, desconfiando de toda aquela gente cigana ali debaixo do capacho.

– Meu amigo, a sua roupa não está ajudando muito na sua defesa. – disse o velho cigano para Shura – A senhora deve ter passado por um grande perigo para não querer a presença de um espanhol perto de você. Somos os melhores com a espada – tornou a falar com Shina, e ela percebeu que o cigano também era espanhol, já que notou o forte sotaque na voz dele.

- Eu tenho certeza disso, pois todo o exército do reino queria pegá-lo. – respondeu ela, sarcástica. – E quanto às habilidades na esgrima, bem... – ela lambeu os lábios e sorriu cinicamente para o velho - Eu o vi fazer coisas impossíveis com uma espada na mão. – completou ela, e ao dizer aquilo, Shina relanceou os olhos para Shura em cima do cavalo.

- Esqueceu de mencionar algo, senhorita... – começou Shura.

- Eu já lhe disse que sou uma senhora. – sentenciou ela, fechando a cara e cruzando os braços. – Sou uma mulher casada!

 - Senhora... – repetiu Shura, começando a se irritar – Eu também sei fazer coisas impossíveis sem a espada. – cantarolou na cara da mulher. 

 - É mesmo? – Shina voltou-se para ele e o fitou – E o que seria, senhor mascarado? – ela fingiu um interesse cínico, chamando-o por aquele apelido de maneira irônica. – Além do seu irritante sotaque, de sua arrogância com a esgrima, de passar na minha cara que me ajudou com o meu marido, o que mais o senhor saberia fazer que não precisasse de uma espada nas mãos? – e ela disse aquilo com uma ligeira entonação de malícia.

Shura esticou a mão, calçada em uma luva negra, como se fosse tocá-la nos cabelos. Foi um movimento rápido de mão, e como que por encanto, Shina viu surgir uma flor vermelha entre os dedos do rapaz. Ela fechou sorriso cínico da cara e abriu a boca por algumas vezes sem conseguir dizer nada. Entreolharam-se:

- Eu começo a achar que você deveria trabalhar em um circo. Além de cigano, é palhaço também. – grunhiu ela, mas sentiu as faces corarem naquele momento e recebeu a rosa um pouco sem jeito, atirando-a de lado, e olhando Shura com desconfiança. – Isso não vai melhorar meu humor nem o fato de você não saber onde estamos.

- Eu sei muito bem onde nós estamos! – decretou Shura, com o orgulho masculino ferido, e o senso de direção também.

- Você fez a gente se perder dentro de uma floresta! – esbravejou a mulher, fazendo os ciganos se entreolharem. – Não tem a mínima ideia para onde nos trouxe e se recusa a pedir informação!

- Eu não preciso pedir qualquer informação porque eu consigo achar o caminho de novo sozinho! – ele retrucou sobre o rosto dela – E se você prefere ir andando a ir de cavalo, muito bem, boa sorte com as suas belas pernas!

- Olha, senhor... – Shina aproximou-se do cigano da charrete, abandonando Shura, com uma raiva crescente no peito – Se não for pedir muito, o senhor poderia me levar agora? Ou teremos um crime sangrento aqui, porque a minha vontade e estraçalhá-lo com as minhas próprias mãos!

- Lembre-se, senhora... – Shura grifou o pronome – Que quem está com a espada sou eu!

- Eu não precisaria mais do que as minhas mãos para derrubá-lo da cela! – ela virou-se para ele, sorrindo com cinismo, e colocando as mãos na cintura.

- Seria interessante vê-la tentar. – respondeu Shura, no mesmo tom, também sorrindo para ela com insinuação.

Shina enfureceu-se. Virou-se para o cigano e disparou:

- Leve-me daqui, senhor, para qualquer lugar onde eu reconheça a existência de vida humana. – disse ela – Além da nossa, é claro! Se eu for obrigada a continuar aqui, encarando esse... – ela mordeu o lábio inferior - ...Esse espanhol bárbaro e sem educação... Eu vou ficar maluca!

- Certamente. – anuiu o velho cigano, com um sorriso que mostrava a falta de alguns dentes na boca – A senhora poderia... – e ele apontou para o tronco que ela ainda segurava. - ...Jogá-lo fora? Eu acho que não precisará mais dele.

- Ah, tudo bem. – disse Shina, atirando fora o pedaço de pau.

- Parados!

De repente, o pedaço de couro que recobria a carroça de ciganos foi atirado para trás e do carro saltaram homens e mulheres, e até crianças, armados de espadas e punhais. Shina e Shura puseram-se em alerta. O espanhol novamente levou a mão ao cabo da espada e tentou arrancá-la da bainha, mas era tarde demais. Um dos ciganos mais fortes havia rendido o espanhol encostando a ponta da própria espada no pescoço de Shura. Shina, desarmada, apenas levantou as mãos enquanto uma mulher lhe apontava duas facas, de forma agressiva.

- Ah, não, de novo não... – resmungou Shura com um suspiro.

- Desça do cavalo! – exigiu o velho cigano que guiava a carroça – Nós levaremos a montaria, as armas e o dinheiro que vocês possuem!

Algumas crianças maiores aproximaram-se de Shura e arrancaram a espada que ele tinha.

- Olha, vamos esclarecer as coisas... – Shura tentou falar, mas a ponta da lâmina em seu pescoço enfiou-se mais na goela e ele se calou. – Isso está ficando ridículo! Eu sou cigano e estou sendo assaltado por ciganos! – falou enquanto descia do cavalo e se colocava ao lado de Shina, também com as mãos levantadas para o alto.

- Peguem o dinheiro deles! – disse uma das mulheres, fazendo dois homens se acercarem do casal e rebuscarem pelos bolsos atrás de moedas.

- Senhor, nós não temos dinheiro. – disse Shina.

- Então, levaremos as roupas de vocês! – rebateu outro dos homens, com feições grosseiras e sujas.

- As nossas roupas? – foi a vez de Shura exclamar, surpreso.

- Elas são melhores do que as nossas e podem valer umas boas moedas de prata. – disse o velho, sorrindo com os dentes podres.

- E levaremos isso aqui também! – disse um homem, arrancando a corrente de Shura do pescoço, da qual pendia um pingente de prata maciça em forma de cabra.

- Ei, isso é importante para mim. Foi o meu pai quem me deu. – gritou o espanhol, indignado por estar sendo roubado daquele jeito.

- Você é cigano, não é? – interrogou o velho desdentado – A cabra é o símbolo do clã Manouche, da Espanha! São nossos inimigos!

- Tudo bem, somos inimigos, mas o cordão é sagrado para mim! – arguiu Shura, falando com firmeza na voz.

- É sagrado para nós também. Vai nos alimentar por um mês inteiro. – gargalhou o velho, fazendo todos os outros gargalharem também.

- Tirem as roupas! – ordenou uma cigana, ameaçando-os com uma espada.

- Eu não vou ficar nua na frente dele! – anunciou Shina, surpreendida.

- Como se eu tivesse interesse em vê-la pelada! – desdenhou Shura, revirando os olhos.

- Você vai ter coragem de dizer que não quer me ver sem roupa? – Shina o olhou com um sorriso sarcástico no rosto.

- Ou vocês tiram as malditas roupas, ou os dois irão morrer agora! – ameaçou outro dos ciganos.

- E, então, senhor cavaleiro mascarado! – Shina olhou Shura com ódio nos olhos verdes – O senhor não é mágico? Pois faça alguma coisa para nos tirar daqui!

- Tirem as roupas agora! – esbravejou o velho, perdendo a paciência.

Shura e Shina entreolharam-se, rendidos.

O.o.O

Depois de tropeçar pela quinta vez nas pedras, Shina estacou o passo, passando as mãos pela testa cheia de fuligem a fim de limpar as gotículas de suor que já se acumulavam na fronte. Fazia alguns minutos que ela e o espanhol, aquele tratante!, estavam ali, caminhando entre as árvores, sem conseguir achar qualquer saída, entregues à própria sorte. A sensação que eles tinham era que de que já havia horas que estavam caminhando.

- Eu não acredito! – exclamou ela após prender o pé em uma rocha.

- Sabe que essa roupa fica bem em você? – disse Shura, voltando-se para ela naquele momento; estava igualmente suado e sujo.

- Cala a boca! – esbravejou Shina – Cala essa maldita boca! – berrou mais alto, fazendo Shura encolher os ombros e algumas aves saírem voando das árvores próximas. – Eu não quero mais ouvir a sua voz!

Shina o olhava espumando. As roupas masculinas que vestira haviam sido trocadas por um vestido velho e enxovalhado de cigana. Os ombros estavam desnudos, pois as alças caíam por eles, fazendo com que o decote ficasse totalmente exposto. Ela agarrava na barra daquelas saias fedidas a fim de tentar caminhar pelos pedregulhos que dificultavam e feriam os pés, pois eles estavam descalços. Suas botas também haviam sido levadas.

- Eu apenas quis dizer que o modelo combina com você. – completou Shura, fazendo a mulher rosnar um palavrão na língua materna, que ele não entendeu.

Shura, vestindo roupas de saltimbanco, com um lenço cigano na cabeça, tentava acompanhar os passos velozes da companheira, já que ele próprio caíra umas três vezes naquelas pedras.

- O vermelho lhe cai muito bem. – ele ousou falar quando o silêncio já se havia feito.

Shina explodiu. Virou para ele, que caminhava às suas costas, e andou na direção do homem, o que obrigou Shura a caminhar para trás.

- Você é um simplório arrogante!

- Madre de Dios! – ele exclamou, sorrindo – Eu nunca fui tão elogiado!

- Você é insuportável, um homem vil e sem honra, um... – ela buscava o xingamento na cabeça - ... É um cigano! O povo maldito que a Igreja anda queimando porque vocês só sabem roubar o dinheiro de pessoas honestas.

- Sei... Continue. – pediu Shura, colocando as mãos na cintura e balançando a cabeça afirmativamente, fingindo interesse no que ela estava falando – O que acha que a Santa Madre Igreja fará com você ao saber que vestiu roupas masculinas e que sabe lutar com espadas?

- Você quer saber de uma coisa? – ela o encarou, furiosa – Eu vou embora sozinha.

- Não quer que eu a acompanhe?

Perguntou Shura, aumentando a voz, quando Shina deu-lhe as costas e começou a caminhar em outra direção.

- Só se eu quiser morrer agora! – rebateu ela, voltando-se para ele desdenhosa, virando de costas e voltando a caminhar.

- Um obrigado não faria mal! – retrucou o espanhol, irônico.

- Agradecer pelo que? – Shina voltou-se de novo para trás – Por ter sido roubada? Por quase ter sido presa?

- É, mas quando eu apareci, para ajudar o seu marido a fugir da masmorra, você se atirou nos meus braços! – disparou Shura, também indignado pela ingratidão dela.

Shina ergueu o punho por um momento, mas terminou estirando a língua para ele. Deu as costas ao espanhol e seguiu pela estrada, sozinha e berrando:

- Sabe que eu prefiro você com a máscara? – disse ela – Por um momento você parecia ser um homem gentil como eu jamais havia conhecido. – ela suspirou – Por um momento eu achei que pudesse gostar de você.

E novamente deu as costas para ele fazendo menção de ir embora. Mas de novo ela virou-se na direção de Shura:

- E esse cavaleiro mascarado que me ajudou essa noite, se por acaso o senhor voltar a vê-lo... – ela disse aquilo com ironia - Diga a ele que ganhou uma admiradora!

Completou Shina. Outra vez ela deu as costas a Shura, que permanecia parado e em silêncio. E outra vez ela voltou-se para ele.

- Sabe, Shura, por um momento você foi, sim, um verdadeiro cavalheiro! – falou ela.

- Pelo que vejo será difícil competir com a minha máscara! – esbravejou Shura, irônico, quando ela novamente virou de costas e se afastou.

O espanhol a viu desaparecer entre as árvores. Colocou as mãos na cintura com um leve sorriso entre os lábios. Suspirou, deu meia volta e seguiu na direção oposta à que ela havia tomado.

- Eu consegui ser o meu próprio rival!

O.o.O.o.O.o.O Castelo de Káden O.o.O.o.O.o.O

Ela caminhava com passos velozes através dos corredores do castelo. Estava seria e dispensara as inseparáveis damas de companhia, uma decisão arriscada, levando-se em conta que uma lady deveria sempre estar acompanhada por suas inseparáveis amigas, castas e silenciosa. Mas ela encontrava-se por demais nervosa para se preocupar com a maldade da corte.

Virou em uma esquina. Ela não prestava atenção aos rostos de nobres que cruzavam com ela e a reverenciavam solenemente, não somente por ser uma marquesa viúva, mas por ser a amante oficial do Grande Rei de Rammaren, a sua preferida, a única pessoa a quem Thomas escutava os conselhos. Ela passou a mão pelo rosto e seguiu andando, célere, apressando ainda mais o passo, quase correndo em um determinado momento, os traços apertando-se como se quisesse chorar.

Ágatha desapareceu no final da galeria, chegou diante de uma grande porta, e agarrando os trincos com efusão, abriu-as de par em par, parando na entrada, ainda segurando as maçanetas. Todo o ambiente estava escuro, as cortinas pesadas ainda permaneciam cerradas, o que tornava o ambiente abafado. Não havia qualquer ruído e o quarto parecia engolfado por uma lufada de gelo.

Torcendo o nariz, irritada, Ágatha fechou as portas atrás de si com força. Caminhou, resoluta, até as janelas imensas que ficavam exatamente diante do leito, e agarrando as cortinas com forças, puxou-as, cada uma para um lado, abrindo-as e deixando entrar a forte luz do sol que iluminou a presente cena.

Na cama de casal, larga e ampla, encontrava-se o corpo de seu irmão mais novo, Gustav, belamente adormecido, de bruços, os cabelos loiros escorrendo pelas costas nuas. Quando a luminosidade chegou até ele, o rapaz franziu o cenho, contorceu o rosto em uma feia careta e ergueu o tronco a fim de olhar quem havia perturbado sua manhã de sono.

- Você está louca? – interrogou ele, com uma voz sonolenta, amparando a visão com a mão e reconhecendo a figura da irmã – O que está fazendo aqui? Não deveria estar na cama do rei? O que a traz aqui a essa hora da madrugada?

- Se ainda não percebeu, irmãozinho, já é dia claro! – rosnou ela, apontando para a janela e indicando o sol – E você está aqui, nessas condições, enquanto aquela maldita princesa bárbara vai se casar com o rei amanhã! – gritou ela, enervada.

Ágatha começou a andar de um lado para o outro, com a mão na testa, visivelmente preocupada, pois uma ruga de insatisfação estava presente em sua face.

- Está havendo um atentado contra o rei, por acaso, para você entrar no meu quarto dessa forma e me acordar desse jeito? – rebateu Gustav, sarcástico, atirando-se para trás e caindo em cima do travesseiro. – O ataque é por parte de quem? Dos bárbaros de Tasha ou talvez do ducado da meretriz Heinstein?

Ele estava sem camisa e os cabelos soltos, muito loiros, caíam em cima das alvas almofadas. Era perceptível que um corpo estava acomodado ao lado dele, por debaixo dos lençóis. Ela sabia exatamente de quem se tratava, mesmo que não visse o rosto, pois o mesmo encontrava-se totalmente coberto pela colcha bordô da cama.

- Nunca estivemos tão sozinhos quanto estamos agora, Dite! – disse Ágatha, parando de frente para a janela e de costas para a cama – Nós não teremos outra chance, e não podemos voltar atrás. – ela virou-se na direção dele abruptamente – Não há caminho de volta para nós! Eu estou assustada com o rumo que as coisas estão tomando.

- Mas o rei acreditou que o filho é dele? – interrogou Gustav, ainda deitado na cama, do mesmo jeito, colocando um antebraço embaixo da cabeça – Você sempre foi uma amante fiel, quer dizer, quase fiel, se não fosse aquele maldito italiano, aquele general desgraçado que ainda vai fazer você botar tudo a perder! – rosnou ele.

- Thomas acredita em mim. – ela disse, caminhando até o leito, do lado do irmão, e olhando para ele.

- De quanto tempo você está? – interrogou o irmão, também olhando para ela.

- Quatro meses! – respondeu a jovem, novamente dando as costas ao irmão, perdida em pensamentos – E eu tenho certeza que eu serei mãe de um menino! – ela sorriu com entusiasmo – Eu sinto isso dentro de mim e dizem que as mães sempre sabem qual será o sexo de seus bebês!

- Que interessante! – comentou Gustav, com ironia, soerguendo uma sobrancelha diante do jeito apatetado da irmã – Poupe-me dos detalhes, não estou interessado nessa criatura que você está carregando!

- Não fale assim, Dite! – ela pediu, anuviando-se naquele instante – Ele será seu sobrinho!

- Eu não tenho sobrinhos plebeus! – rebateu o jovem, novamente encarando a irmã, com um olhar tão cortante que fez Ágatha encolher-se. – Se esse... – ele buscou a palavra – Essa coisa que você leva no útero tivesse saído do rei em pessoa, então, eu o receberia como meu sobrinho querido e o amaria para sempre!

Ágatha deixou o sorriso morrer em seus lábios naquele instante, gradativamente, enquanto escutava aquelas palavras vindas do irmão mais novo.

- Mas uma criança bastarda, gerada por um... – novamente ele pareceu cuspir as palavras – Um miserável borra-botas que ninguém sabe de onde saiu... – ele suspirou – Não, eu renego essa criança e ela jamais terá qualquer consideração de minha parte! Eu renego qualquer laço que possa me unir a ela.

- Como pode falar assim? – interrogou ela, após alguns segundos em silêncio, em que apenas olhou atentamente para o irmão procurando algum traço de brincadeira no que ele dizia – É o meu filho, Dite, ele é seu sangue...

- Infelizmente, você resolveu misturar o nosso sangue nobre com o sangue imundo de um aventureiro miserável que não tem onde cair morto. – ele ergueu-se novamente, sentando-se na cama e afastando o lençol.

- Ele é o general do exército do rei! – defendeu Ágatha, indignada – Giovanni é o duque de guerra de Thomas. Até castelo ele ganhou!

– Ele pode ter quantos castelos quiser, quantos títulos puder! – desdenhou Gustav - O sangue que corre nas nossas veias, nas suas veias, Ágatha... – e ele apertou o próprio pulso, onde veias azuladas eram visíveis sob a pele tão branca – Jamais correrá nas veias dele! Ele é tão nobre quanto eu sou plebeu!

- Lembre-se, querido irmão, que a nossa nobre família está arruinada! – rebateu Ágatha, mordendo o lábio inferior – Só temos títulos e nenhuma terra, nenhum dote, nenhuma jóia... – ela ia enumerando, sentindo os olhos umedecidos – Nosso pai só nos deixou dívidas! Muitas dívidas escondidas por um bom nome!

- Nós havíamos combinado que ergueríamos o nosso destino aqui. E o que você faz? Coloca nossos planos em risco por causa de uma paixão adolescente! Você me envergonha, Ágatha! – rosnou o irmão, sem arrefecer na disputa.

- Eu terei um filho do rei! – esbravejou ela, começando a perder a paciência pelo tom ferino que ele estava usando com ela.

- Não! – rebateu ele – Você terá um filho que o rei julga ser dele, mas nós sabemos que não é. Eu pergunto, Ágatha, quantas pessoas mais também saberiam desse segredo? Nós estamos nas mãos de Giovanni!

- Ele está conosco, Dite, Giovanni jamais nos trairia! – disse ela, quase sufocada – Afinal de contas, ele também teria muito a perder se essa história viesse à tona. Giovanni tem os mesmos interesses que nós. Por que acredita que ele poderia ser um perigo?

- Giovanni não está com ninguém, sua idiota! – rosnou Gustav, apertando o canto interno dos olhos – Ele apenas se importa consigo mesmo, nunca esteve totalmente com a gente, a não ser quando nós fazíamos parte dos planos que ele tem para si mesmo. Giovanni acende vela para Deus e para o Diabo, e você sabe muito bem disso. Ele não a ama, Ágatha, ele nunca a amou!

- Isso não é verdade! – respondeu ela, comprimindo os lábios com força para não chorar – Ele já me amou, em algum momento, durante todos esses anos em que estivemos juntos... – e fechou os olhos por um instante – Eu acredito que sim, que ele me amou em algum momento, mesmo que já não ame mais... – e ao dizer aquilo, silenciou, pensativa.

- Ele disse que ia seduzir a irmã do Domothinopoulos para ganhar uma reparação e ter acesso a tudo que pertencia à família... – começou Gustav – E agora, desfila pelo castelo de Káden, de braços dados com aquela pirralha, dizendo para todo mundo que se casou com ela.

- Ele apenas está... – ela buscou as palavras – Bem, ele está encantado porque ela é virgem. É uma menina jovem e virgem e por isso chama a atenção dos homens...

- É engraçado ver a sua cara daqui! – Gustav esboçou um sorriso de lado, cínico, diante da confusão da irmã – Você não tem desculpas melhores para explicar a paixonite do seu amado italiano por aquela garotinha?

- Ela não é a primeira. – rebateu Ágatha, em tom baixo, suspirando para se conter – Por que dessa vez haveria de ser diferente das outras? Uma hora ele vai cansar desse joguinho e vai voltar para mim, como ele sempre fez, ao longo de todos esses anos...

- Se ele é capaz de amar mais alguém além dele próprio, minha irmã, esse alguém não é você. – retrucou Gustav, erguendo-se completamente nu diante da irmã, mas ela não se importou, pois já estava acostumada com aquela intimidade – Giovanni apenas ama a si mesmo. Ele não ama você, nem muito essa menininha que ele resolveu pegar para terminar de criar.

Naquele instante, uma serva bateu na porta e abriu-a em seguida. Era uma das camareiras que estava servindo nos aposentos do arcebispo. Ao vê-lo completamente pelado, a moça assustou-se e hesitou antes de entrar no aposento. Gustav, por outro lado, não pareceu interessar-se por ela nem pelo modo como estava. Seguiu de pé, nu como tinha vindo ao mundo, parado diante da irmã.

A camareira fechou a porta e finalmente adentrou no aposento, tentando não olhar naquela direção, mas sem conseguir evitar espiar com o canto dos olhos enquanto colocava os apetrechos que havia trazido. Sem prestar atenção na mulher, Gustav aproximou-se da irmã e agarrou-a pelos braços, sussurrando para que apenas ela escutasse.

- Ouça, Ágatha, você tem o rei em suas mãos... – dizia ele. – Ele acredita que esse filho é dele. Thomas não será o primeiro homem a criar o filho de outro. Isso é mais velho que o próprio mundo!

A camareira relanceava olhares discretos e curiosos para os irmãos, mas não era capaz de ouvir sobre o que falavam.

- Você precisa colocar a sua cabeça no lugar e não meter os pés pelas mãos. – continuou Gustav – Olhe para você, irmã! É uma bela mulher e está esperando um filho... – ele suspirou - ... Do rei. Se você conseguir agarrar Thomas através dessa criança, você será rainha muito brevemente!

- Eu tenho tido sonhos... – falou Ágatha, deixando que os braços fossem apertados pelo irmão, pois estava emocionada naquele momento – Sonhos repetidos em que eu sou morta...

- Ágatha... – Gustav chamou-a com um murmúrio, enquanto a camareira preparava a tina de água quente para o banho.

- Eu já disse a você: eu sou a morte de Maeve, e ela é a minha morte. – completou a marquesa, cortando a fala do irmão – Uma de nós duas vai perder a cabeça. Enquanto Maeve estiver viva, eu não estarei segura, nunca, nem o meu filho, nem você... – e uma lágrima escorreu pelo rosto.

- Pelo amor de Deus... – sussurrou Gustav, assustando-se pelo estado dela.

Pegando-a pelo braço, ele arrastou a irmã para uma antessala separada do quarto por uma cortina de seda. A serva, observando os movimentos dos irmãos, parecia interessada no que eles cochichavam entre si.

- Por que ela não morre? – bradou Ágatha quando o irmão finalmente a soltou. – Ela parece fraca e anda tendo desmaios! Alguém tentou envenená-la!... – salientou a marquesa – Então, por que ela não morre logo?

- Por acaso você tem alguma coisa a ver com isso? – interrogou Gustav.

- Claro que não! – bradou Ágatha, voltando-se para ele – Eu teria gostado que ela morresse, mas não, Dite, não fui eu... Não dessa vez... – e ela riu nervosamente, como uma louca – Na próxima vez em que o rei estiver fora, ele vai me deixar como regente, então eu poderei ordenar a execução dela...

- Não fale essas coisas! – bradou Gustav, mas ela seguia rindo – Pare! Pare com isso, Ágatha! – ele a sacudiu com força, fazendo a mulher encará-lo.

- Eu estou ficando louca... – disse ela após quase um minuto de silêncio.

- Me escute... – disse Gustav, falando compassadamente – Você é a amante oficial do Grande Rei! Por tudo que é mais sagrado, comece a agir de acordo com a sua posição. Giovanni está virando a sua cabeça. Antes, você parecia feliz. Mas, agora, é uma mulher cheia de tormentos!

Ao escutar aquelas palavras, Ágatha sentiu-se sem ar. A respiração alterou por uma ou duas vezes e ela percebeu que os olhos ficaram novamente molhados. A jovem mulher desviou a vista por um instante, e dando as costas para o irmão, correu para a cortina, passou por ela, cruzou o quarto diante de uma dissimulada camareira e saiu através da porta, batendo a mesma em seguida, com muita força.

Gustav retornou ao quarto já vestido com um robe de seda longo. A camareira, assim que o viu, reverenciou-o, beijou a mão que ele lhe estendia, pois era um representante de Deus, e saiu de imediato, deixando-o sozinho. Assim que o silêncio se fez no quarto, o grosso cobertor da cama mexeu-se. Gustav degustava algumas uvas naquele momento, que haviam sido postas na mesa arrumada para o café, como ele havia ordenado.

Ao ouvir alguém ronronar entre os lençóis, esboçou um sorriso e virou-se para trás. A imagem de Joris, sem camisa, com os cabelos castanhos igualmente soltos pelas costas, apareceu diante dele, com o sarcasmo estampado na face.

- Como você pode aguentar tudo isso? – interrogou ele, referindo-se ao que havia escutado. – Eu acho que é por isso que os pais desejam tanto ter filhos homens. Mulheres são complicadas e quase sempre seus sentimentalismos colocam tudo a perder.

- O problema de Ágatha é o italiano. – disse Gustav, engolindo algumas uvas – Se Giovanni, simplesmente, desaparecesse, ela seria outra mulher.

- Então, por que você não desaparece com ele? – interrogou Joris, dando de ombros, ainda sentado entre os lençóis. – Você pode fazer isso, Gustav, se você quiser. Então, por que deixou que essa história se arrastasse até aqui?

Gustav não soube o que dizer. Encarou o primo e amante por alguns instantes e começou a caminhar pelo quarto, serenamente, lentamente, com um cacho de uvas nas mãos, colocando os pequenos e negros frutos na boca.

- Se eu matar o italiano, Ágatha se mataria em seguida. – disse ele – Por isso eu nunca dei cabo da vida dele, por causa da minha irmã. Além disso, ela jamais me perdoaria se soubesse que fui eu. Mas vontade não me falta. – salientou ele.

Joris levantou-se naquele momento, igualmente nu. Acercou-se de Gustav, que estava em pé, diante da cama, elegantemente vestido com o seu roupão. Chegando próximo a ele, Joris pegou uma uva e ele próprio levou o fruto aos lábios de Gustav, que entreabriu a boca para receber. Joris sorriu para ele, e Gustav sorriu de volta enquanto mastigava a fruta. E, então, o belo violinista beijou-o calorosamente nos lábios.

Gustav largou as uvas no chão e agarrou o rosto de Joris com ambas as mãos, trazendo-o ainda mais para si e aprofundando o beijo. Os lábios tocavam-se com avidez, dando mordidas, sentindo o sabor doce da uva, as línguas passavam de uma boca para a outra com sensualidade. Afastando-se de Gustav, Joris lambeu os lábios inchados, recém-beijados com tanta selvageria:

- Quando isso tudo desmoronar, vai tudo depender de você. – sussurrou Joris – E, então, querido primo, o que você faria nesse dia, com tanto poder? Já pensou nisso? O que você estaria fazendo agora? Hum? Nos forçaria a continuar no pântano?  

Joris seguia olhando docemente para o primo, enquanto Gustav o encarava com certa seriedade, que abrira espaço no rosto do jovem loiro após o longo beijo. Ambos estavam diante um do outro e olhavam-se com minúcia e cuidado.

- Você poderia nos tirar desse buraco em que somos obrigados a viver, e nós dançaríamos e beberíamos todas as noites... – seguia Joris, com uma voz melodiosa e adocicada.

E tomando Gustav nos braços, Joris postou-se em posição de dança, agarrando a mão de Gustav e começando a balançar pelo quarto, fazendo o jovem loiro sorrir com sarcasmo.

- Você pode conseguir uma caçada. Giovanni adora mostrar o quanto é forte e másculo. Nada melhor do que uma caçada para que o general real possa demonstrar toda a sua força. – falava Joris – Nós dois poderíamos afastá-lo do restante do grupo. Que tipo de general vai caçar sozinho? Hum? Eu poderia acabar com o italiano em um piscar de olhos, você sabe disso. Sua irmã perdeu a completa noção sobre quem ela é e onde se meteu. – falou Joris, de uma forma tão aveludada como se cantasse uma canção de amor. – Ela literalmente se perdeu!

E ambos continuavam dançando pelo quarto, como se valsassem ao som de uma música ausente.

- Ela sempre foi uma perdida mesmo! – completou Joris, rindo ironicamente após dizer isso.

Gustav fechou o sorriso que trazia nos lábios. Deteve os próprios movimentos, encarando o amante com uma severidade crescente, enquanto o outro sorria, ou melhor, ria, de forma sarcástica, bem na sua cara. Sem conseguir controlar-se, Gustav levantou a mão e o esbofeteou fortemente no rosto.

Joris olhou-o por um momento, entre a raiva prestes a explodir e a vontade de gargalhar infinitamente da situação em que a família estava afundada. Mas sem esperar qualquer resposta ou movimento por parte de Gustav, ele também ergueu a mão e esbofeteou o jovem arcebispo por sua vez, ainda mais forte do que ele havia feito consigo. Os dois se olharam como inimigos.

E de repente, sem qualquer aviso, ambos sorriram um para o outro, achando graça do que havia passado. Joris levou a mão até a face estapeada, Gustav também fez o mesmo, e os dois riram de si e do outro.

- O que é agora, Gustav? Vai querer mandar em mim? – perguntou Joris.

- Você não deveria ter falado da minha irmã dessa forma. – retrucou o loiro.

- Você já me conhece muito bem. Eu falo como quero. – sussurrou Joris – Não julgue um homem por suas palavras, mas por suas ações. E não se preocupe...

Disse Joris, aproximando-se de Gustav naquele momento e empurrando-o sobre a cama, pois o loiro estava diante do leito desarrumado. Subindo em cima dele, Joris arrancou um sorriso dos lábios do amante.

- Eu prometo que serei misericordioso com o italiano. – comentou com a voz murmurosa, enquanto dava beijos partidos em Gustav – Deixe-me matá-lo pelo bem de nossa família.

- Você o mataria... – Gustav tentou dizer, mas teve os lábios tomados por um beijo.

- Eu estou ao seu lado, mas o que eu ganho? – interrogou Joris – Respeito? Não. Poder? Também não.

- Você ganha dinheiro para esbanjar como bem entende. – respondeu Gustav sobre os lábios do outro.

- Sempre que você tem a chance, você me menospreza. – tornou Joris – Aquele maldito italiano armou para que quase fôssemos pegos. Eu quero a minha vingança, tenho direito a ela.

- Não esqueça com quem você está falando. – disse Gustav, esboçando um sorriso misterioso.

Joris olhou-o por um instante, em cima dele, completamente nu, Gustav rendido sob o peso de seu corpo. Os primos encaram-se por um momento curto, até que o violinista, com os seus cabelos castanhos e olhos de um azul celeste, abandonou-o, saindo de cima do arcebispo e levantando-se insatisfeito.

- Você nunca aprendeu a dividir, Gustav.

O.o.O.o.O.o.O

Marin cavalgava com elegância pelos prados recém tocados pelos raios do sol matinal. O tempo estava muito frio, o que a forçou a usar uma mantilha de pele de carneiro por cima dos ombros a fim de se aquecer. Mas as nuvens da madrugada haviam se dissipado e o céu aparecera azul ferrete, claro, com nuvens brancas esparsas. E quando o firmamento ficava limpo era sinal de que a frigidez do vento iria piorar.

Ao retornar para perto dos muros castelo, adentrando os pátios externos onde muitos vilões e camponeses, homens e mulheres, estavam ainda jogados pelo chão sob o efeito do álcool, enquanto crianças corriam, sujas e maltrapilhas, em meio ao lixo e ao cheiro hediondo de urina, ela encaminhou-se, em cima do cavalo, para perto dos estábulos. Era um lugar quente e acolhedor que muitos convidados, até mesmo nobres alcoolizados, buscavam para se esquentar, ou quando tinham intenções sexuais com alguma dama.

Ela desmontou o belo animal de pelagem castanha e deu-lhe umas batidinhas no pescoço para acalmá-lo. Amarrou o alazão na cerca próxima, e baixando o capuz da cabeça para trás das costas, entrou no aconchegante ambiente, recoberto com palha fresca, onde muitos animais dormitavam ainda.

Ela sabia exatamente o que estava procurando, mas realmente não imaginara que fosse encontrar ali aquilo que buscava. Ao chegar próximo da última baia, que ela pensara estar vazia e com muito feno, parou diante da entrada, contrita e um pouco perturbada com a cena que viu dentro. Aiolia estava deitado sobre a palha, completamente adormecido. As roupas pareciam totalmente molhadas, assim como os cabelos, pois o vento gelado da manhã não permitia que os fios secassem com tanta facilidade.

Deitada ao lado dele, com a cabeça apoiada no peito do cavaleiro, estava sua prima, Clara, adormecida como ele, os cabelos castanhos estavam enegrecidos pela água, pois também estavam encharcados. Para a inteira surpresa de Marin, a jovem apenas trajava as roupas de baixo enquanto o vestido que ela levara durante o baile estava pendurado ao lado, na baia, para secar.

- Mas o que Diabos... - a ruiva franzira o cenho, confusa com o inesperado quadro que se desenrolou diante dela.

Porém, sem dizer mais nada, a mulher aproximou-se com cuidado do casal que dormia profundamente, ajoelhou-se ao lado da prima, com milhares de conjecturas na cabeça. Ela tinha educado Clara nos últimos dois anos e sabia que a moça seria incapaz de cometer um erro como aquele. Clara sabia exatamente quais seriam as consequências para um deslize que poderia destruir a vida das duas para sempre.

Marin tinha certeza que a prima sabia que ambas teriam muito a perder se ela tivesse feito algo como aquilo que... Marin abanou a cabeça negativamente para espantar uma ideia, pois sabia que mesmo que não tivesse passado qualquer coisa entre eles, o mero fato de estarem ali, daquela maneira, com a jovem em roupas íntimas, já seria suficiente para colocar a honra da prima a perder.

Marin, com cuidado, balançou Clara para que ela acordasse. E teve que repetir o gesto, pois a moça estava tão adormecida que mal sentira o toque da prima. Apenas quando a ruiva sacudiu-a com mais violência, foi que a moça abriu os olhos, confusa, relanceando a vista perdida para todos os lados antes de virar o rosto para a mulher que estava ali, ajoelhada perto dela.

- Marin!

Abruptamente, Clara deu-se conta da maneira como estava e repentinamente lembrou-se que o homem com quem dormia naquele momento, de uma forma totalmente indecente, ela reconhecia, era o amante da ruiva. Empurrou o corpo de Aiolia para o lado com agressividade a fim de que ela mesma pudesse levantar.

Jogado de qualquer jeito em cima do feno, o rapaz despertou com o rosto franzido de sono e de confusão. Os olhos de Aiolia demoraram para focar no rosto que o observava, seriamente, do alto.

Clara havia sentado sobre a palha, recolhendo os cabelos para as costas, pigarreando a fim de se tranquilizar. Ao seu lado, o companheiro pareceu reconhecer a figura de Marin, ali, parada, mas não esboçou alguma reação cáustica. Simplesmente voltou a se deitar de costas na palha e passou as mãos pelo rosto.

- Bom dia para você também, Marin. – disse a voz de Aiolia, muito calma naquele momento, ao contrário de Clara, que parecia querer enfiar a cabeça no meio da palha e não levantar dali nunca mais. – Já é dia? – tornou ele, olhando para a ruiva.

- Há algum tempo, sim. – respondeu Marin, ainda bastante séria, mas a voz estava controlada e a entonação não parecia ríspida. – Vocês enlouqueceram? Se alguém houvesse entrado aqui no meu lugar, e tivesse visto essa cena, vocês estariam perdidos!

- Desculpe, Marin... – pediu Clara, e ao contrário do tom da prima, a voz da jovem estava levemente alterada – Não é nada disso que você está pensando. Não aconteceu nada entre nós e...

- E não foi por falta de vontade. – a voz de Aiolia cortou a fala de Clara naquele momento, e ao contrário das duas mulheres, ele tinha uma entonação irônica ao dizer aquilo.

Clara e Marin olharam para ele ao mesmo tempo, ambas muito sérias, mas com feições ligeiramente distintas. Enquanto a ruiva parecia severa e fechada, Clara arregalou os olhos diante da declaração dele.

- O que disse? – interrogou Clara, pensando não ter escutado muito bem naquele instante.

- Que eu gostaria que houvesse acontecido algo a mais entre nós. Gostaria de ter ficado mais satisfeito essa noite. – disse ele, muito tranquilo, encarando a companheira de olhos verdes.

- E que satisfação você esperava ter tido essa noite? – rebateu Clara, um pouco indignada por aquelas palavras, mas ao mesmo tempo nervosa pela afirmação dele de que ele a desejava de alguma maneira.

– A sua prima sabe muito bem sobre o que eu estou falando.

Refutou Aiolia, piscando um olho cinicamente para ela, sorrindo com malícia e sentando-se sobre a palha, apoiando os antebraços nos joelhos; olhava as duas mulheres com um certo ar de sarcasmo.

- Contudo, eu jamais teria ido mais além do seu consentimento, senhorita Clara. Eu não costumo forçar mulheres a se deitarem comigo. E como eu sei que a senhorita é uma donzela, eu nem mesmo tentei qualquer coisa nesse sentido. Portanto, Marin, não há razão alguma para que você me olhe como se estivesse na frente de um criminoso. A sua prima continua tão virgem como ela estava quando entrou aqui.

Clara abriu a boca por um momento, quis dizer alguma coisa, chegou a levantar um dedo para explicar algo, mas não conseguiu nada. Simplesmente sentiu que suas maçãs haviam se avermelhado e ela olhou para Marin a fim de saber como a ruiva tinha tomado toda aquela situação constrangedora.

- Marin, nós nadamos um pouco no lago... – Clara começou a dizer. – Esse idiota jogou-se na água e eu achei que ele estava se afogando...

Enquanto tentava explicar o que havia acontecido para ela e Aiolia terem chegado até ali, daquela maneira, molhados, descabelados e sem roupas, Clara não percebeu que a prima e o seu companheiro de aventuras da madrugada encaravam-se firmemente, olhos nos olhos, sem se preocupar com o que ela pudesse estar narrando.

Não era desejo o que estava contido nos olhares de Marin e Aiolia, eram farpas de rancor mútuo que saíam de um e agredia o outro. Aiolia chegou a soerguer as sobrancelhas diante da ruiva, sem arrefecer na disputa visual, enquanto Marin, com o rosto contraído severamente, mas tentando disfarçar a comoção que toda aquela história lhe tinha causado, pois era orgulhosa, seguia encarando o amante, ou ele já não seria?, com profunda tristeza.

- E foi, então, que o senhor Aiolia puxou-me para dentro da água e eu afundei! – seguia falando Clara, totalmente alheia ao que se passava entre os dois companheiros – Quase me afoguei por conta dessa brincadeira sem graça e...

- Clara! – chamou Marin, cortando a fala da prima abruptamente e com um tom de voz que fez Clara calar de imediato – Eu não estou interessada nas suas aventuras noturnas ao lado do senhor Aiolia Panathinaykos.

- Mas, Marin, eu apenas queria explicar que... – Clara ainda tentou dizer.

- Espere-me lá fora, perto do cavalo. Eu já irei ao seu encontro para que voltemos ao castelo. – ordenou Marin, e pela primeira vez olhou a prima com profunda seriedade – Obedeça e não piore as coisas. O que você fez foi muito arriscado e talvez você pudesse ser obrigada a se casar com o senhor Aiolia apenas por estar dormindo com ele, no feno de um estábulo, em roupas interiores! Uma donzela sozinha com um homem solteiro, minha cara, isso poderia também levá-la para a fogueira! E a mim também.

- Eu sinto muito, Marin. – disse Clara, com sinceridade na voz e Marin percebeu – Eu entendo perfeitamente o que poderia ter acontecido se outra pessoa tivesse visto a nós dois, aqui dentro, sozinhos, nesse estado... – ela angustiou-se – Ninguém acreditaria que não havia acontecido nada.

- Muito bem! – Marin forçou um sorriso de aprovação pelo que a prima estava dizendo – Eu espero que isso sirva de lição para que você não se coloque mais em situações de risco. Tudo o que você possui é a sua honra, prima, guarde-a para alguém que realmente mereça a sua confiança!

Houve um silêncio após aquelas palavras proferidas pela ruiva. Clara baixou os olhos ao chão, sentindo-se realmente mal por ter se deixado pegar em flagrante, daquela maneira horrível, quase nua e nos braços de um homem. O que era pior, não era qualquer homem, mas o amante de sua prima, a mulher que a havia recebido na própria casa após a morte de seus pais, há dois anos.

Após alguns segundos, Clara finalmente vestiu o vestido, ainda molhado, por cima da camisola branca e saiu, não sem antes relancear os olhos para Aiolia, muito sérios, e foi correspondida por ele. Diferente do olhar que Aiolia levantara para Marin, cínicos e mordazes, o olhar que ele deitou para Clara, quando ela também o fitou antes de deixar a baia, foi de cumplicidade e satisfação.

Uma vez sozinhos no estábulo, Marin virou-se para ele e desfez o sorriso com o qual havia acompanhado a prima até ela sair do local. Aproximou-se dele, pé ante pé, e ajoelhou-se na frente do homem que se mantivera na mesma posição: sentado, com os joelhos recolhidos e os braços apoiados sobre eles. Aiolia acompanhou os movimentos dela sem interferir ou falar qualquer coisa.

- O que deu em você? – tornou Marin quando ficou com o rosto na mesma altura que o dele. – É desse modo que você pretende me atingir? É isso o que quer, Aiolia? Vingar-se da minha recusa colocando a virtude da minha prima em risco?

- E por que você acha que eu estou querendo me vingar de você? – rebateu Aiolia, estreitando os olhos em cima do rosto da mulher, muito sério – Quais seriam os motivos que eu teria para querer atingir você através de Clara? Por que você me negou? – ele deu de ombros.

- Se essa é a sua pretensão, eu lhe digo que está agindo muito mal. – refutou a ruiva – Clara não tem culpa das minhas ações, ela não merece pagar no meu lugar. Você não aceita o fim da nossa relação, de uma relação que nunca deveria ter existido, já que sou noiva do seu irmão. Pois, muito bem, resolvamos isto entre nós, como dois adultos. Não se comporte como um moleque que deseja desonrar uma jovem inocente apenas para me fazer mal!

Ao escutar aquilo, Aiolia pareceu transtornar-se. O rosto adquiriu uma rigidez quase cadavérica e ele encarou Marin com profunda severidade, uma seriedade que ela própria jamais tinha visto no rosto do amante. Mas ela não baixou a vista, pois não temia Aiolia. Foi ele quem, estreitando o olhar sobre Marin, falou com uma entonação desconhecida para ela:

- Engana-se, senhora, ao achar que eu tenha qualquer motivo para querer me vingar de você. Na verdade, durante todos os momentos em que estive com Clara, você foi a pessoa em quem eu menos pensei. Seu rosto simplesmente desaparecia das minhas lembranças como fumaça. – disparou ele sobre o rosto de Marin e percebeu o nervosismo dela naquele instante – Eu apenas percebi que não queria mais esperar por uma relação que, como você mesma disse, já começou completamente errada! Fere a sua vaidade, Marin, reconhecer que eu possa estar apaixonado pela sua prima?

- Apaixonado? – Marin esboçou um sorriso de ironia – Você? Apaixonado pela Clara? Não seja patético, Aiolia. – ela ergueu-se com precisão, dando alguns passos pelo ambiente, até parar diante dele – Se você acha que eu sou uma tola, ou que a minha prima será uma jovenzinha fácil que você poderá levar para cama e depois descartar, eu aviso a você que tome muito cuidado!

Foi a vez dele de se levantar com profundo rancor pelas palavras que era obrigado a escutar naquele momento. Aiolia caminhou até Marin e também deteve o passo ao chegar perto dela.

- Quem você acha que eu sou? Você realmente pensa que eu seria capaz de brincar com a Clara apenas para fazer você sofrer? Vejo que você não me conhece, Marin, ainda que tenha sido minha amante por todos esses anos. Mesmo que tenha crescido comigo. Você é minha amiga e nós nos conhecemos desde crianças! – disse ele, com uma revolta explícita no olhar e ela percebeu que ele falava com sinceridade.

- O melhor seria que você deixasse a minha prima em paz e não a importunasse mais. Pelo bem dela, Aiolia, para que falatórios não se iniciem, pois ela e você são solteiros. Afasta-se dela antes que essa história possa piorar. – pediu Marin, séria, mas sem a grosseria de antes.

– As minhas intenções com Clara são as melhores. Afinal de contas, Marin, você mesma iniciou tudo isso quando mandou a sua prima cuidar de mim, em sua própria casa, naquelas circunstâncias! – esbravejou Aiolia.

- Como ousa me culpar? – a ruiva pareceu impacientar-se com a acusação.

- Eu acho muito engraçado você se importar tanto com o que os outros vão pensar dela quando foi você quem a mandou para costurar a minha bunda! – salientou ele, fazendo Marin abrir a boca, estupefata – Você queria jogá-la para cima de mim!

- Definitivamente, você perdeu o juízo, Aiolia! – asseverou Marin, balançando a cabeça negativamente. – Você...

- E não, eu não pretendo me afastar dela, não depois dessa noite. – retrucou ele, com firmeza na voz e na face, sem deixar Marin terminar o que ia dizer.

- E o que teve essa noite? – Marin franziu o cenho, sentiu certo temor, e ciúme, pelo que ele poderia lhe dizer – Não me diga que você...

- Eu não fiz nada com ela, se é isso o que você deseja saber. Eu quero que as coisas com a Clara sejam feitas de acordo com a lei. Eu não tocaria nela antes do casamento. – respondeu Aiolia.

- Casamento? – Marin pareceu relutar naquele instante e gaguejou a palavra – Mas do que você está falando? Passa um baile ao lado da minha prima e já está falando em casamento!

- Por que acha essa ideia tão absurda? Por acaso você acha que a sua prima é uma mulher insossa e medíocre, incapaz de despertar qualquer sentimento profundo em mim que não fosse por uma falsa retaliação contra você?  – rebateu ele, sem esperar qualquer reação por parte dela – Você a tem em tão baixa estima, Marin? Pois saiba que eu não. Ela me encanta e nós nos beijamos, caso você tenha algum interesse em saber das minhas aventuras noturnas. – ele suspirou com desfaçatez – Mas eu não tentei qualquer outra coisa, porque tive medo dela arrancar as minhas entranhas com alguma espada da sala de armas. E provavelmente, Clara jogaria os restos no lago onde eu a derrubei noite passada. Eu acho que estou me apaixonando por ela e eu quero pedi-la em casamento.

Houve um minuto de silêncio entre eles enquanto a ruiva parecia absorver aquela confissão e aquele repentino desejo. Até que Marin não pôde disfarçar nem controlar um sorriso, pois achara graça nas palavras que escutara do, agora, ex-amante, ela tinha certeza disso:

- Você realmente acha que tudo isso é assim tão fácil? Você decide que quer casar, ela é obrigada a aceitar porque, afinal de contas, é para isso que as mulheres servem, não é? Eu sinto em lhe dizer, Aiolia, mas Clara não deseja casar com ninguém. Ela mesma me pediu isso, que eu jamais a forçasse a casar, que nunca desse o meu consentimento para que ela fosse escravizada em um matrimônio. 

- Bem, ela pode mudar de ideia. – disse ele.

- E você acha que tem esse poder de fazê-la mudar de ideia? – Marin soergueu as sobrancelhas naquele momento.

- Bom, levando em consideração que eu não a trato como um boneca, frágil e incapaz de ter as próprias iniciativas, nem muito menos a quero como um troféu bonito para colecionar e mostrar para as visitas, sim, eu acho que posso convencê-la, Marin. Eu peço a sua permissão para cortejar Clara, em seu castelo, na sua frente, se você quiser... – falou Aiolia com convicção, o que pareceu enraivecer Marin, mas ela se controlou – Eu quero fazer tudo como deve ser feito. Até porque a senhorita Clara não demonstra ser uma garota muito fácil de se lidar. Não, Marin, eu não acredito que ela viria correndo para os meus braços com um estalar de dedos. Eu quero fazer a corte a ela e pedi-la em casamento. 

- Você vai perder o seu tempo, querido amigo. – Marin grifou aquela última palavra com cinismo – E eu não darei o meu consentimento para que desgrace a minha prima. Busque uma noiva em outro lugar, Aiolia. Por que eu entregaria Clara a você, um filho segundo, sem título ou terras, quando ela poderia fazer um melhor casamento com um duque ou um marquês do próprio rei de Rammaren?

E sem dizer mais nada, Marin deu as costas ao homem, mas antes de sair, disse:

- Eu acho melhor você ir atrás do seu irmão.

- O que aconteceu com Aiolos? – perguntou Aiolia – Resolveu roubar a rainha na cara do rei?

- Eu não duvido que ele tivesse feito isso se eu não houvesse interferido durante o baile. – tornou Marin – Encontre-o, Aiolia, antes que a cabeça dele enfeite o banquete do casamento real.

E ao falar aquilo, ela retirou-se dali o mais rápido possível. Quando chegou do lado de fora, Clara esperava por ela do outro lado do pátio, onde o animal havia ficado amarrado. Marin parou por um momento na entrada do estábulo, antes de ficar visível no campo de visão da jovem, e levando uma mão ao peito, sentiu-se sufocar.

Após alguns segundos em que ela tentou se conter e recuperar o bom senso, passou a mão pelo rosto e respirou forte algumas vezes para fazer parar a tontura que lhe havia abatido. Em seguida, forçou um sorriso e aproximou-se da prima. Clara estava visivelmente com frio. As roupas molhadas pregavam no corpo e faziam com que a jovem tremesse o queixo.

- Suba no cavalo e volte ao castelo. – disse Marin ao chegar perto dela e a voz da ruiva já estava serena – Tome, use isso para se aquecer. – e retirando a pele de carneiro, colocou a peça em cima dos ombros de Clara – Você precisa de um banho quente e roupas limpas, do contrário poderá pegar a febre dos pulmões.

- Marin, eu gostaria que você... – ela tentou falar, ainda querendo desfazer o mal-estar da situação. – Eu e o senhor Aiolia... – ela buscava as palavras – Nós dois...

- Clara, minha querida, depois nós duas poderemos conversar. – disse Marin, sorrindo para acalmá-la. – Está tudo bem. Agora, monte no cavalo e volte ao castelo. É uma ordem.

- Você não vai vir comigo? – interrogou a moça, com os olhos verdes preocupados.

- Eu vou caminhando. Vai me fazer bem andar um pouco e tomar sol. – sorriu a ruiva.

A jovem tentou sorrir, mas foi um sorriso algo entristecido, desconfiado daquela tranquilidade de Marin. Clara finalmente montou no cavalo e disparou a correr na direção do castelo de Káden, deixando Marin para trás. Sozinha, Marin sentiu que galopes chegavam por trás de suas costas. Ao ver Clara desaparecer no horizonte, a ruiva virou na direção oposta e percebeu que Calista havia chegado ali, cavalgando um bonito animal de pelagem negra.
Sorrindo para a ruiva, a bela morena de Degen, devidamente vestida para andar de cavalo, deteve o passo do animal e desmontou com elegância, agarrando o cavalo pela rédea e aproximando-se de Marin.

- Eu não sabia que também estava acordada tão cedo, lady Marin. – cumprimentou Calista, realmente satisfeita por ter encontrado a amiga naquele momento. – O dia amanheceu realmente maravilhoso para um passeio ao sol. Está fazendo tanto frio que eu acho que vou começar a virar um pinguim.

Como Marin não respondesse, apenas forçasse um sorriso de simpatia para ela, Calista deixou que as próprias feições se fechassem, desfazendo o sorriso e encarando Marin com curiosidade. A ruiva era sempre muito entusiasmada quando a via e sempre tinha para ela uma palavra de conforto ou de perspicácia.

- Aconteceu alguma coisa, lady Marin? Há algo em que eu possa ajudar? – interrogou Calista.

- Infelizmente, minha amiga, eu estou sofrendo de um mal que médico ou remédio algum pode curar. – disse Marin, e finalmente sorriu mais aberto. – Não precisa se preocupar comigo, eu ficarei bem.

- Mas você está pálida e parece transtornada! – tornou Calista – Não está passando bem?

- Você saberia guardar um segredo, Calista? – perguntou Marin, suspirando profundamente.

- Claro que sim! – a morena sorriu, já curiosa – Eu encontrei uma grande amiga na senhorita e certamente você pode confiar em mim para qualquer coisa. O que você tem?

- Inveja, Calista. – disse Marin, muito calma e rindo de si própria, ainda sem acreditar nos próprios sentimentos. – Eu tenho inveja. Eu estou com ciúmes. Ciúmes! Você acredita nisso? E eu não sei o que fazer com ele.

- Venha, lady Marin, acompanhe-me em um passeio e conte-me tudo o que a está afligindo. – solicitou Calista, ainda achando estranha aquela declaração ensandecida.

O.o.O

Quando Aiolia saiu do estábulo nem Marin nem Clara estavam visíveis em qualquer ponto dos campos. Ele sentiu-se satisfeito por estar sozinho naquele momento, e como estava sem o cavalo, teve que retornar a pé para o castelo. Mas a caminhada lhe fez bem, pois conseguiu secar um pouco mais as roupas e os cabelos estavam apenas bastante despenteados naquele momento.

Quando entrou pelos portões, a primeira pessoa em que pôs os olhos foi o seu irmão mais velho. Aiolia parou por um momento ao observar a cena, sem acreditar no que os olhos viam. O irmão estava curvado para frente, com uma mão sobre o estômago, apoiado em uma das grossas e imensas pilastras do castelo, vomitando no chão.

- Então, Olos, não está tendo uma boa manhã, eu suponho.

Comentou Aiolia, chamando o mais velho pelo apelido que se acostumara a chamá-lo desde quando era um garotinho, aproximando-se do irmão naquele momento, sentindo vontade de rir da situação do outro. Mas preocupou-se quando Aiolos tentou erguer o rosto para ele e voltou a vomitar no chão.

- É... – resmungou o mais jovem, observando o mais velho – Parece que você bebeu o que pagou, o que botaram no seu copo e o que sobrou nas mesas. O que deu em você?

- Vai procurar outro para encher o saco, Olia. – rebateu Aiolos, limpando os lábios com as costas da mão. – Eu quero vomitar em paz. Será que eu posso?

- Marin mandou que eu viesse atrás de você. Eu fiquei preocupado. Achei, por um momento, que você tivesse agarrado a rainha e fugido do castelo. – tornou Aiolia, com um tom de gracejo – Já que o Milo diz que ela é uma bruxinha, imaginei vocês dois fugindo pelos céus de Káden em cima de uma vassoura.

Aiolia sorriu da própria piada, mas controlou-se quando Aiolos olhou para ele quase fuzilando-o com o olhar.

- Não me olhe assim, foi engraçado. – Aiolia abriu os braços – A visão do líder dos arqueiros e da Grande Rainha fugindo pelos céus, montados em uma vassoura, é simplesmente ridículo.

- Aiolia, mais uma palavra e eu vou te arrebentar. – rebateu Aiolos, sério naquele momento. – A minha situação não é engraçada, ela é dramática e eu não sei o que fazer com ela.

- De fato, apaixonar-se por uma mulher casada já é algo bastante arriscado. – disse Aiolia – Agora, apaixonar-se pela rainha, ou seja, pela mulher do rei... – o mais novo dos irmãos soergueu uma sobrancelha – É no mínimo para rir de nervoso.

- Ou para chorar de desespero, no meu caso. – rebateu Aiolos, com ironia.

- O que você fez para a Marin ficar tão paranoica? – interrogou Aiolia.

- Eu não fiz nada. Apenas queria ir até Thomas e matá-lo. É um crime desejar a morte do rei? – satirizou Aiolos.

- Na verdade, você poderia perder a cabeça somente por ter imaginado a morte dele. – respondeu Aiolia – E você sabe disso. Não podemos pensar a morte do rei!

- Eu não queria apenas pensar, eu queria pôr o pensamento em prática. – retrucou o mais velho. – Além disso, a Marin está sempre enchendo o saco, cuidando da vida de todo mundo como se fosse Deus! – esbravejou Aiolos, quase sem conseguir se manter de pé. – O que ela te contou agora? Que eu passei o resto da madrugada enchendo a cara? Grande novidade! Como se eu já não fizesse isso. Agora, tudo é culpa da Maeve!

- Ninguém está culpando a pobre rainha por suas ideias suicidas, irmão. Mas seria interessante que baixasse o tom de voz ao pronunciar o nome dela. – advertiu Aiolia ao irmão, que ainda se encontrava em um estado ébrio lamentável – Por onde você andou, Olos? Está péssimo! – e franziu o cenho para o estado alterado do irmão. 

- Eu estava em busca de diversão. – falou Aiolos, esboçando um sorriso débil na face – Você vê esse camarada aí? – e apontou para um homem qualquer, possivelmente um servo, que segurava uma viola e estava jogado no chão, adormecido – Ele passou a noite cantando antigas canções da Grécia, Olia! Ele também é grego, de Corinto, meu irmão! Nós dois... – e ele fez um gesto impreciso, apontando ao outro e logo a si mesmo – Nós passamos uma maravilhosa noite cantando Zorba! 

- Você não está falando coisa com coisa, Olos! – retrucou Aiolia, sorrindo, mas sentindo compaixão pelo irmão e pela situação desastrosa em que ele e a rainha se encontravam – Vamos, irmão, eu vou levá-lo para o quarto.

- Não! – brandiu Aiolos, afastando-se de Aiolia – Eu quero mais vinho! – e começou a cantar alguma coisa em grego, com a voz embargada – “O meu amor não me espera... o meu amor...”

E andando para longe de Aiolia com o passo trôpego, Aiolos terminou tropeçando e caindo no chão. Aiolia segurou o sorriso e apenas observou o irmão mais velho estatelado nas pedras duras do castelo de Káden. Jamais esqueceria aquela cena e a usaria contra Aiolos quando quisesse chantageá-lo.

- Essa música é assim, não é, Aiolia? – perguntou Aiolos, virando-se de costas no chão, cansado demais para pensar em se levantar, e abandonando-se ali – A letra está correta? Eu não me lembro muito bem. O papai costumava cantá-la para a mamãe quando éramos pequenos.

- Eu não posso acreditar! Um bobo da corte, apaixonado e bêbado, metido a cantor de músicas gregas, não me faltava mais nada essa manhã! – Aiolia disse consigo mesmo, apertando o canto interno dos olhos. – Eu me recuso a ser seu irmão nesse momento. Se alguém me perguntar, direi que não conheço você!

- É uma canção de amor! – gritou Aiolos, sorrindo de si mesmo – Ao menos eu acho... – e tossiu várias vezes, engasgado com a própria saliva. – Eu tenho a cabeça em águas! – e fechou os olhos, apertando as pálpebras. – O mundo está girando ao meu redor, Olia. Por um momento, eu sou o centro do universo! – e começou a gargalhar.

- É bom saber que você ainda tem consciência de que vai se trair pela língua se não calar a maldita boca! – retrucou Aiolia, caminhando até o irmão e abaixando-se perto dele. – Você quer que o rei mande decapitá-lo, é isso? Está procurando a morte por sua própria vontade, Aiolos?

E pegando em um braço do irmão, Aiolia ergueu Aiolos com certa dificuldade, apoiando-o no próprio ombro.

- Cadê o meu copo? – perguntou o mais velho.

- O que fizeram com você? – perguntou Aiolia, tentando arrastá-lo para longe dali.

- Eles ficaram reclamando que eu não parava de cantar. – resmungou Aiolos, sendo carregado – Irritaram-se com a minha bela voz. – satirizou - Um idiota qualquer veio querer brigar comigo e eu esmurrei a cara dele até o imbecil desmaiar. Então, o dono do bar me convidou a sair... – e ele sorriu com cinismo, e com orgulho também, pelo que tinha feito.

– Expulsaram você da taberna? Por Dioniso, o conde Panathinaykos expulso de uma simples taberna... - grunhiu Aiolia. – Ora, mas vejam só, que grande façanha você conseguiu, irmão. Ser expulso de uma taberna por estar embriagado e cantando!

- O rei vai casar com a Maeve... – começou Aiolos, enquanto era carregado pelos corredores do castelo, agarrando Aiolia pela camisa e forçando o irmão mais jovem a olhá-lo – Ela terá que casar com ele amanhã! – gritou – Amanhã, pela manhã, a minha princesa estará casada com aquele animal! – dramatizou pelo excesso de bebida.

- Cale-se, Aiolos! – pediu Aiolia, já preocupado das palavras do irmão terem sido ouvidas em algum lugar – Você vai terminar nos matando!

- Mas eu amo a rainha... – rebateu o outro, agarrando Aiolia com as duas mãos, pela camisa. – Eu não posso permitir que ela se case com o rei. Eu preciso tirá-la do castelo imediatamente... – e tentou escapar dos braços de Aiolia – Nem que seja em cima de uma vassoura! Ela não pode ser obrigada a um casamento que não quer!

- Você ficou louco? – Aiolia impediu que o irmão fugisse dali; como Aiolos estivesse embriagado, detê-lo não foi tão difícil – Venha comigo, é hora de tirá-lo daqui! – completou - Em um casamento real, meu irmão, sentimentos são irrelevantes. Aliás, eu acredito que eles são os responsáveis por toda essa bagunça.  – tornou Aiolia, abrindo a porta de um aposento e entrando com o irmão.

- Se eu não tivesse salvado a Maeve naquele dia... - resmungou Aiolos, completamente tonto. - Nada disso estaria acontecendo.

- A donzela em perigo e o arqueiro salvador, mas que cliché! - brincou Aiolia, sorrindo da situação do irmão.

- Será que há canções de amor sobre isso? – perguntou Aiolos, ao ser jogado com tudo em cima da cama, ficando ali, com os braços abertos e os olhos fechados.

Ao deixar o irmão sobre a cama, Aiolia chamou dois servos que estavam ali para atendê-los.

- Prepare uma tina de água, bem gelada, para eu jogá-lo dentro dela! – pediu – E depois vocês podem se retirar porque eu mesmo darei banho no meu irmão!

- Sim, senhor.

Disseram os camareiros, sem questionarem a estranha ordem. Saíram dali depressa e foram executar o pedido. Naquele momento, Aiolos ergueu-se de súbito, sentando-se na cama e vomitando todo o tapete ao pé do leito. Aiolia apenas pôs as mãos na cintura, observando a cena, esperando que o irmão esvaziasse o estômago completamente.

Com certeza Aiolos se sentiria melhor se pudesse pôr para fora todo o conteúdo alcóolico que havia ingerido. Ao ver o irmão mais velho apertar as têmporas fortemente, Aiolia pegou um copo de água, de uma jarra fresca que havia sido posta ali para isso, e aproximou-se do irmão, oferecendo o líquido para ele.

- Tome. – falou com um tom ligeiramente imperativo – Vai se sentir melhor. Vou mandar trazerem pepinos para você.

- Pepinos? – Aiolos fez uma careta ao escutar o nome, e novamente regurgitou no chão, encharcando tudo de um líquido arroxeado. – Você sabe que eu odeio pepinos, Aiolia. Quer terminar de me matar? Traga-me uma dose de conhaque. Dizem que faz bem para ressaca.

Aiolos levantou o rosto para o irmão, após recuperar-se dos vômitos frequentes. Parecia levemente empalidecido por estar desidratado. Aiolia o encarou, mas para a surpresa do mais novo, Aiolos tornou-se sério e desviou o olhar.

- Por que bebeu desse jeito? – perguntou Aiolia – Era sempre eu quem tinha de ser controlado. E você vivia me dando sermão para eu não me deixar dominar pelo vinho. Parece que nossos papéis estão se invertendo, estou gostando disso. – e sorriu para tentar animar o irmão, batendo amistosamente nas costas de Aiolos, que pareceu abruptamente severo naquele momento para Aiolia.

- Eu bebo quando eu quero. Eu sou o conde, o primogênito, e você é o irmão mais novo. Sou eu quem dita as regras aqui. Você não me dá ordens. Eu não tenho que dar satisfação da minha vida para você, Aiolia. – rebateu Aiolos, com o tom de voz baixo, mas um pouco feroz, o que surpreendeu Aiolia.

- Você nunca falou comigo nesse tom. – retrucou o mais novo, franzindo o cenho sobre a figura esquálida do irmão – O que está acontecendo, Aiolos?

- Maeve está grávida. – disparou Aiolos, erguendo o rosto novamente para o irmão e encarando Aiolia firmemente. – O que você tem a dizer sobre isso agora, irmãozinho?

- O que você disse? – foi a vez de Aiolia imaginar que, muito provavelmente, ele não tinha escutado aquelas palavras.

- Maeve está esperando um filho meu! – repetiu Aiolos, segurando o olhar do irmão – Diga-me, agora, irmão, como eu posso simplesmente ficar calado e quieto enquanto eu a veja casando-se com o rei? Como você acha que eu vou entrar naquela igreja, amanhã, e vê-la ser dada a Thomas, com um filho meu na barriga, sem que eu possa fazer nada?

- Alguém mais sabe disso? – rebateu Aiolia, passando a mão no rosto a fim de se recuperar da notícia.

- Somente você e Marin. – disse Aiolos – E Ayleen também, é claro! Ela é a minha confidente e da Maeve aqui dentro do castelo.

- A cigana? – o mais novo estreitou os olhos sobre Aiolos – Vocês confiam demais nessa mulher. Ela não me passa muita segurança.

- Ela sabe de tudo, desde quando tudo começou. – falou Aiolos – E se ela realmente não for uma pessoa confiável, então eu e Maeve estamos irremediavelmente perdidos. De qualquer forma, ela tem servido fielmente até agora. Mas eu também não gosto muito de me sentir nas mãos de outra pessoa. Contudo, ela é a minha única ligação com Maeve enquanto ela estiver sob a vigilância de Thomas.

- E o que você pensa em fazer? – interrogou Aiolia, voltando a pôr as mãos na cintura.

- O que você espera que eu pense em fazer? – Aiolos falou aquilo com certo tom de obviedade – Que eu vá nos aposentos da rainha, arranque ela de lá de qualquer jeito, lute com todos os soldados de Thomas e desapareça com ela da face da Terra? Eu não chegaria vivo nem até os portões! O casamento é amanhã, eu realmente não o sei o que fazer! Não há tempo.

- O melhor, então, meu irmão, ao menos por enquanto, é deixá-la casar com o rei. – sentenciou Aiolia. – Preocupa-me, decerto, a noite de núpcias. Thomas vai saber que ela não é mais virgem.

- Não fale sobre isso! – Aiolos levantou-se, desequilibrado, ao ouvir aquelas palavras, apertando as laterais da cabeça – Pensar nessa maldita noite, e no que vai acontecer, me deixa louco! Eu não consigo suportar a ideia...

- Mas ela terá que fazer isso, por bem ou por mal. – tornou Aiolia – A estratégia mais coerente seria o rei pensar, no mínimo, que a criança é dele, ainda que nascida antes do tempo. – salientou Aiolia, lembrando daquele detalhe – Bem, seu filho não será o primeiro a nascer antes do tempo para salvar a própria vida e a da mãe também, não é? O difícil será fazer Thomas acreditar que a criança é prematura, pois o aspecto será o de um bebê normal!

Aiolos não respondeu. Estava de costas para o irmão e tornara-se sério naquele momento. Parecia que fora momentaneamente curado da bebedeira. Não pretendia que Thomas pusesse as mãos em cima de Maeve, pois se julgava o único com direitos de possui-la. Nem muito menos pretendia deixar que seu filho fosse criado como herdeiro do rei. Ele apenas precisava ordenar os próprios pensamentos e arquitetar uma maneira de tirar Maeve do castelo antes do casamento.

O.o.O.o.O.o.O

Como havia chegado ali recentemente, ela ainda não se sentia íntima do castelo. Perdia-se, vez ou outra, pelos longos e obscurecidos corredores, com suas grossas pedras milenares, que pareciam estar ali antes do início do mundo. Mas, sem que fosse vista, e com muita discrição, havia acompanhado os últimos passos daquele homem até vê-lo entrar em um dos estábulos e atirar-se em cima do feno, sozinho, a fim de dormir.

Ela o havia observado durante todo o baile. Naquele momento, o dia já estava claro, mas quando Mylena adentrou o local o homem ainda dormia profundamente, decerto derrubado pelo vinho do baile da noite anterior. Ela parou por um momento na entrada, receosa de seguir adiante. Mas finalmente recuperou o sangue frio e aproximou-se do corpo que estava adormecido.

Pé ante pé, a jovem, ainda trajada com o vestido do baile, os cabelos ainda belamente arranjados, muito diferente da aparência esquálida de meses atrás, acercou-se com cuidado e ajoelhou-se ao lado do homem que dormia. Observava aquela figura com severidade, uma raiva inominável que ela havia guardado dentro de si por tanto tempo.

Não, ela não julgara, em momento algum, que voltaria a vê-lo. Mesmo sabendo que se tratava do general real, uma jovem e humilde camponesa como ela não poderia sonhar tão alto em um dia conseguir chegar perto do general do rei e apunhalá-lo, vê-lo sangrar até a morte, como um porco, um porco estripado.

Enquanto observava Giovanni dormir, vendo o peito masculino subir e descer no compasso rítmico da respiração, ela ergueu o punhal que levava consigo, entre as vestes, quase suspendendo a própria respiração pela tensão crescente em todo o seu corpo. As mãos estavam ligeiramente rígidas pelo nervosismo e os lábios pareciam trêmulos.

Como um gato que se movimenta ao redor da presa, ela encostou a ponta afiada do punhal na garganta do general de Káden, adormecido, desarmado e indefeso. Mas quando pensou em completar a ação e enfiar a folha prateada garganta adentro, os olhos de Giovanni abriram-se calmamente, mas alertas, encarando a jovem dentro olhos.

Mylena suspendeu a mão, não pôde seguir adiante com ele olhando o que ela fazia. Vê-lo abrir os orbes azuis, gélidos e cortantes, pousando-os sobre o rosto dela, fê-la arrepiar de pavor naquele momento e a mão feminina congelara no ato, ainda que mantivesse a ponta da faca na garganta masculina:

- Eu estava observando você desde que apareceu na porta da baia. – disse a voz de Giovanni, séria e controlada, em tom baixo, mas firme. – Você pensou que eu estivesse dormindo?

Ela não respondeu. Seguiu encarando o homem com profunda aflição, os lábios rosados tremendo para que as mãos completassem a ação. Mas o cérebro não lhe dava comando para agir, e ela viu-se suspensa no ar, como se o universo se houvesse alterado, e ela simplesmente esperasse uma resolução para o seu destino.

- E eu o vi me olhando durante o baile, Giovanni D’Angeri. Não tirava os olhos de cima de mim um só minuto. – rebateu ela – Olhou-me com interesse toda a noite, mas não se aproximou de mim.

- Disseram-me que você é a nova dama de companhia de lady Dousseau. – retrucou ele, ainda deitado do mesmo jeito, sem demonstrar receio – Olhei-a porque eu a achei muito bonita, e também porque senti, de alguma forma, que eu a conhecia de algum lugar, eu só não conseguia lembrar de onde ou de quando... – ele franziu o cenho – Eu já vi seus olhos antes...

- Costuma ter lapsos de memória com aqueles a quem já feriu? – perguntou ela, com um fio de voz, quase um sussurro. – Não se lembra de todos a quem já fez algum mal?

- Eu não tenho boa memória, senhorita. Por esse motivo, eu corto as cabeças de todos que eu mato, para levar de recordação e assim jamais esquecer quem eu assassinei. – respondeu ele, esboçando um sorriso de troça pelo que dizia. – Todas as noites, nos meus sonhos, eu vejo os rostos deles. Homens, mulheres, crianças... todos que eu já matei! Eu os vejo, dançando ao meu redor.

- Você não tem medo dos mortos? Eles podem voltar para se vingar. – refutou ela, sempre muito séria.

- Eu tenho medo dos vivos, senhorita. – disse ele, soerguendo as sobrancelhas e indicando a própria adaga que ela ainda mantinha no pescoço dele – São os vivos quem precisam de luz. Mas eu sei que eles estão esperando por mim. E quando eu morrer, e se existir alguma coisa após toda essa merda aqui, os espíritos deles estarão lá e dirão: “Bem-vindo, irmão!” – e sorriu mais alto, com sarcasmo.

Como ela não dizia nada, foi Giovanni quem continuou, sempre olhando para ela, sério, sem mover um único músculo do corpo, debaixo daquele punhal que arranhava a pele:

- Quem é você? – interrogou ele, prestando atenção nas feições dela. – O que quer do general do rei? Por que deseja me matar?

- Você realmente não lembra de mim? – perguntou ela, estreitando os olhos sobre o rosto dele, aprofundando a troca de olhares.

- Por que eu lembraria de você? – rebateu ele, franzindo o cenho diante daquelas palavras – Se ainda tem a cabeça em cima do pescoço é porque eu não a matei. – o homem prestou atenção nos traços dela - Eu a conheço de algum lugar? É alguma mulher com quem fiz sexo? – ele esboçou um leve sorriso de deboche ao dizer aquilo – É a mãe de algum bastardo meu? Veio aqui para me cobrar as minhas responsabilidades de pai...

Abruptamente, sem que ele terminasse de falar, cortando as palavras que Giovanni lhe atirava na face e que pareciam feri-la profundamente, Mylena trouxe para si o punhal, ergueu-o com as duas mãos e deixou que a navalha descesse sobre o abdômen do homem, com toda a força que ela fora capaz de colocar nos próprios punhos.

Ela sentiu quando a lâmina cortou a carne e adentrou a superfície da pele. Giovanni apenas dobrou-se sobre si mesmo pelo golpe inesperado, entre as costelas. Tentou agarrá-la pelas vestes, gemendo dolorosamente. Queria trazê-la para si a fim de estrangulá-la pelo atrevimento, mas a moça foi mais rápida.

Mylena ergueu-se de maneira desequilibrada, atirando-se para trás e caindo momentaneamente ao chão. Olharam-se por um instante, e aqueles olhos enevoados que ela lhe deitou, cheios de medo, mas também de ódio, fizeram com que a memória de Giovanni fosse bombardeada por flashes.

Ele sorriu ironicamente quando finalmente se lembrara de onde a conhecia, de que maneira havia visto aqueles olhos antes. E naquele momento eles também estavam cheios de medo e terror. Talvez fosse justamente aquele sentimento de pavor, que ele sentira nela naquele instante, que o permitiu recordar de tudo o que havia feito.

- Você... – ele resmungou entredentes.

- Eu sobrevivi até agora para encontrá-lo... – disse ela, afastando-se para trás.

- Eu a deixei viva porque imaginei que fosse morrer na floresta. Você estava fedida, parecia um trapo humano. Julguei que algum animal selvagem, um javali, talvez, fosse encontrar você, guiado pelo seu fedor, e fosse devorá-la da face da terra!

A voz de Giovanni terminou quase com um grito feroz que assustou Mylena. O general ainda virou-se de bruços para puxar a saia do vestido, arrastando-se, enquanto ela punha-se de pé, de qualquer jeito, e saía dali, correndo, como se o próprio Diabo a estivesse prosseguindo.

Vendo-se sozinho dentro da baia, Giovanni voltou-se de costas novamente sobre a palha e pegando no cabo do punhal, retirou-o de dentro de si. Percebeu que toda a folha havia penetrado na carne, o que poderia ter provocado um ferimento que certamente o levaria a morte caso não buscasse ajuda, pois o sangue grosso começou a jorrar. O punhal havia perfurado o fígado e ele já sentia ao gosto de sangue na boca, manchando os lábios.

Tentou colocar-se de pé, desequilibrado, sentindo uma dor atroz entre as costelas, mas precisava encontrar alguém, um cirurgião, Lívia, um padre, quem quer que fosse. Do contrário, o general do rei cairia morto, aniquilado por uma garotinha saída dos infernos, que tivera a audácia de apunhalá-lo daquela maneira.

O.o.O

Quando Mylena saiu do estábulo, encostou-se na entrada a fim de recuperar o fôlego, mas relanceando os olhos para trás, reiniciou a corrida que a levaria ao interior do castelo onde estaria segura. Erguendo as saias do vestido, não se importou em passar por cima dos estercos ou das poças de lama, que deram, naquele momento, muito centímetros de sujeira às suas vestes.

Adentrou as galerias do castelo como se fugisse do cavaleiro da morte. As maçãs do rosto estavam avermelhadas, os cabelos começaram a se soltar das presilhas e gotículas de suor já se acumulavam na sua fronte. Chegando aos seus aposentos, os quartos que ela devia dividir com as outras damas de lady Ourelie, donzelas virginais como ela própria havia sido um dia, ela entrou e fechou a porta, trancando-a atrás de si.

Ali dentro, sentindo-se mais protegida, encostou-se na porta e deixou-se escorregar para baixo, sentando-se com os joelhos muito próximos ao corpo. Com uma atitude instintiva, buscando conforto em si mesma, pois já não lhe restara mais ninguém, exceto ele, o seu único amigo, Mylena abraçou-se às próprias pernas, sentindo que lágrimas queriam descer pelo rosto. E se realmente tivesse matado o general? Não havia ficado ali para ver o resultado. E se ele morresse? Alguém iria descobrir que fora ela? Alguém poderia tê-la visto entrando ali? Ela seria decapitada?

O.o.O.o.O.o.O

Ela abriu os olhos naquele momento, bocejando ainda pelo sono. Sorrindo, deixou que o braço e a mão pervagasse o lugar ao lado do seu, na cama, no qual imaginara que encontraria um corpo dormindo perto de si. Mas quando os dedos não tocaram em nada mais, exceto nos lençóis, Lívia olhou para o lado e deixou que o sorriso se fechasse nos lábios.

Ela ergueu-se, sentando subitamente na cama. Os olhos azuis relancearam todo o ambiente e não havia qualquer sinal de viva alma lá dentro a não ser ela própria, sozinha, dormindo em uma imensa cama de espaldar alto, digna de uma rainha. Ficou séria de repente e sentiu-se ligeiramente preocupada. Onde ele estaria naquele momento?

Lívia ainda trazia o vestido de baile, completamente amarrotado pela noite dormida. Os cabelos estavam desarranjados, mas ainda presos nos grampos. Lembrou-se que não tinha roupas nem pertences pessoais com os quais pudesse fazer as abluções da manhã e higienizar-se. Sem que conseguisse organizar os pensamentos, a porta do quarto abriu-se e a figura de uma mulher, alta e morena, apareceu no campo de visão da jovem noiva.

- Bom dia, lady D’Angeri. – saudou Ourelie, abrindo um singelo sorriso falso para a menina, que olhou a recém-chegada com surpresa e confusão na face. – Foi difícil descobrir onde você havia sido posta. Esses não são os aposentos de Giovanni, ao menos não os que ele costuma ficar quando está na corte.

Ourelie havia entrado com naturalidade, já devidamente trajada naquela manhã, os cabelos negros devidamente presos, o que dava a ela um aspecto muito diferente daquele que possuíra durante o baile, quando os fios estavam livres e a faziam parecer quase uma sacerdotisa da ilha sagrada das velhas lendas.

Trazia consigo duas servas que carregavam apetrechos para a higiene íntima de alguém. Com gestos de mãos precisos, a francesa fez com que as criadas organizassem tudo que era preciso para um banho. Após as duas moças saírem para buscar a água quente a fim de despejarem na tina, Ourelie deu atenção a Lívia e sorriu para ela com certa afetação:

- E, então? Como foi a sua primeira noite? – e a esposa de Camus olhou para os dois lados do quarto, afetada, buscando provavelmente o noivo em questão – Onde está o seu marido? Não é de bom tom que um homem recém-casado, ainda em lua de mel, deixe o leito tão cedo! – ironizou a francesa, mas profundamente amargurada pela traição do general.

- Na verdade, senhora, eu não faço ideia de onde o meu marido possa estar. – falou Lívia naquele momento, pela primeira vez, pois apenas observara o movimento das mulheres dentro do quarto – Eu nem sei como eu cheguei até esse quarto. Não sei a quem pertence ou quem me colocou aqui.

- Você não lembra de nada? – Ourelie franziu o cenho sobre a jovem.

- A última coisa de que me lembro foi estar sonolenta na companhia do senhor Mu e da senhorita Catarina. – sorriu Lívia, sentindo-se corar por aquela confissão – Eu estava tão cansada. Eu nunca tinha participado de um baile antes, meu irmão não permitia. Milo dizia que eu era muito jovem e que quando tivesse mais idade, certamente ele me levaria para todas as festas.

- Eu compreendo... – disse a francesa, fingindo um sorriso de solicitude – E seu irmão está certo, Lívia, você ainda é muito jovem para estar acordada até tão tarde. Certamente, você deve dormir cedo, não é assim?

- Na primeira badalada do sino. – confessou ela, sorrindo com sinceridade. – Meu irmão sempre me mandava para a cama muito cedo. – e ela sentiu-se entristecer pela lembrança de Milo.

- Mas agora você é uma mulher casada. – rebateu Ourelie, percebendo um traço de angústia nas faces coradas de Lívia e mudando abruptamente de rumo – Será a senhora de seu próprio castelo e ninguém mais, nem mesmo o seu irmão, poderá dizer o que você deve ou não fazer.

- Nem mesmo o meu marido? – perguntou Lívia, franzindo o cenho diante do que a outra lhe falava.

- Você vai descobrir, minha querida, com o tempo, é claro, que o marido estar na guerra é a melhor coisa que pode acontecer a uma mulher. – e a francesa suspirou, como se falasse consigo mesma muito mais do que com a outra – Tenha certeza, Lívia, entrar para um convento é um destino menos aterrorizante do que se casar.

- Talvez a senhora esteja certa, lady Ourelie, se pensarmos que nós, mulheres, não temos o direito de escolher com quem casar. – falou Lívia – Mas eu me casei com quem eu escolhi, ele não me foi imposto. No início, eu não gostava do jeito que Giovanni me olhava. Ele era estranho, invasivo, como se pudesse ver a minha alma e gostasse do que visse.

- Você ainda é muito inexperiente, Lívia. – retrucou a morena, ainda sorrindo, mas com uma entonação séria – Talvez chegue o dia em que você lamentará profundamente o mau passo que deu ao se unir com o general. Ele não é o homem que você julga que ele seja.

- Bem, eu gosto de acreditar que eu vi algo nele que ninguém mais foi capaz de ver. – rebateu Lívia, encarando Ourelie com certa firmeza nos olhos ainda muito juvenis – Eu percebi, lady Ourelie, que ele não era o ogro que todos imaginam. Ele sabe ser educado e gentil, e até atencioso.

- Eu não entendo muito bem o porquê, Lívia, mas essa sua constatação me deixa ainda com mais medo do Giovanni. – falou a francesa, erguendo as sobrancelhas diante do que escutava – Mas se você prefere vê-lo dessa forma, muito bem. Ele é seu marido agora e talvez seja positivo que você esteja apaixonada por ele. Sim, você faz muito bem! Do contrário, minha querida, casar com alguém que não se ama, por mais perfeito que esse homem possa parecer, é um destino que eu não desejo para mulher alguma.

As duas se encararam por alguns segundos, ambas pensativas, cada uma a seu modo, sobre suas respectivas vidas naquele momento. Mas quando as criadas bateram na porta e entraram no quarto com a água quente, Ourelie finalmente voltou a ser a mulher maternal que sempre julgara ser. Gostava de tratar com meninas mais jovens por sentir que o aspecto de mãe caia-lhe muito bem. Não foi isso que Giovanni lhe havia dito certa vez? Que a maternidade havia feito muito bem a ela.

- Lívia, eu tomei a iniciativa de lhe trazer um banho, óleos perfumados e um vestido novo para que você pudesse trocar por este que vestiu no baile. – disse a francesa. – Venha, vamos lavar você. Vai se sentir melhor para que nós duas possamos tomar o nosso chá matinal.

- A senhora vai me dar banho? – interrogou Lívia, erguendo-se da cama para que as servas pudessem lhe tirar o vestido. – No castelo do meu irmão, quem sempre me ajudava no banho era a minha querida ama.

- E como ela se chama? – perguntou Ourelie, fingindo interesse no assunto.

- Flavilla. – Lívia sorriu – Ela é tão gentil. Criou-me quando os meus pais morreram. Eu ainda era muito bebê e meu irmão era pequeno. Ela ficou conosco e foi a única mãe que eu conheci. Ela deve estar muito preocupada comigo.

Antes que as criadas pudessem se aproximar da moça, Ourelie fez um gesto negativo de mão e dispensou as duas jovens, ficando sozinha com Lívia no quarto. Aproximou-se da irmã de Milo e começou a despi-la do vestido, enquanto Lívia retirava os grampos dos cabelos tão loiros e os deixava cair pelas costas.

- Senhora Dousseau... – chamou Lívia, vestida apenas em uma camisola branca, muito fina, própria para se banhar, enquanto entrava na tina de água morna – Como foi a sua primeira noite?

- A minha primeira noite? – tornou Ourelie, surpreendida pela pergunta, soerguendo as sobrancelhas, enquanto sentava-se por trás de Lívia para ajudá-la a lavar os cabelos. – Bem... – ela titubeou na resposta, realmente constrangida – Eu acredito que tenha sido como a de todas as mulheres. 

- E isso quer dizer... – Lívia também soergueu as sobrancelhas.

- Horrível! – rebateu Ourelie – Foi uma coisa horrorosa. – e sorriu, acompanhada de Lívia – Todas aquelas ilusões com as quais a gente cresce, durante toda a infância, sobre cavaleiros corteses e gentis, elas se desfazem na primeira noite. Eu acho, minha querida, que isso é uma crueldade com nós, mulheres. Eles bem que poderiam deixar que a gente morresse com os nossos sonhos. Eles parecem mais bonitos enquanto continuam sendo sonhos.

- E como foi? O que aconteceu? – tornou Lívia, com a curiosidade natural da jovem por uma mulher mais velha.

- Bem, meu marido roncou a noite toda e usou o vaso da noite de madrugada. Sim, ele urinou na minha frente, eu não precisava ver isso. Mas é assim o casamento. – brincou Ourelie, sentindo-se mais jovial ao falar daquelas confissões que uma mulher só faria a uma irmã querida.

E pela primeira vez, Ourelie notou o quanto era solitária e ansiava por uma amiga com quem pudesse verdadeiramente se abrir sobre os seus mais profundos receios e desejos.

- Mas o senhor Camus parece tão afetuoso. – comentou Lívia, brincando com a água – Ele verdadeiramente parece amá-la, senhora. – Ele é educado e muito sério. Quando eu era criança, eu tinha medo dele.

- Ele também me assusta, às vezes. Mas o senhor Camus é, de fato, um homem muito gentil. – disse Ourelie, afastando os cabelos de Lívia para um lado, colocando-os por cima do ombro direito. – Mas ele continua sendo um homem. – ela suspirou – Ele controla a minha vida como qualquer outro marido faz com a esposa. Com você não será diferente, minha cara. Você deu-se de bom grado para um senhor, Lívia. Um marido é como um dono de escravo, querida, e o escravo somos nós. Eles nos batem, nos dominam, nos controlam... Querem saber aonde vamos, com quem vamos, quando voltamos... Somos obrigadas a dar filhos, homens, para eles. Só temos deveres a cumprir, nada mais do que isso. O casamento, para a mulher, é uma prisão, Lívia, você vai descobrir por si mesma.

- E os maridos? – interrogou Lívia, já sem sorrir, encarando Ourelie com atenção e seriedade – Eles também não devem nos dar explicações das coisas que fazem ou deixam de fazer? Eles também não têm deveres a cumprir conosco?

- Não se iluda, Lívia. O casamento é uma relação senhor-escravo. E em uma relação assim, o escravo é submetido a um tempo prolongado de intimidação e, desse modo, passa a ter certa simpatia pelo senhor, ou até mesmo sentimentos de amor e amizade. Os casamentos são assim, minha criança, eles não têm saída ou solução. Mas os homens ainda podem se divertir do lado de fora. Eles podem ter amantes, quantas quiserem. Os homens são livres para se deitarem com quem quiserem.

- E nós não podemos, lady Ourelie? – perguntou Lívia.

- Para nós, Lívia, resta apenas o dever de honrar o marido. Porque torná-lo corno é uma desonra tão vil e horrorosa para os homens que a sentença para a mulher é a morte. – rebateu Ourelie, encarando Lívia seriamente nos olhos – Mas você não precisa se preocupar com isso, não é mesmo? Você ama desesperadamente o seu marido, pelo que vejo. – e sorriu um pouco melancólica. – Você não vai cometer esse crime tão grande contra a reputação de macho do general real.

- Eu tenho medo que ele busque outras mulheres... – disse Lívia, virada para frente, fazendo Ourelie apurar os ouvidos com interesse ao ouvir aquilo – Eu acho que eu não sei beijar...

- Como você não sabe beijar? – Ourelie sorriu com aquilo – Você não é mais uma donzela, Lívia, e ainda não aprendeu a beijar?

- Eu acho que eu não faço muito bem. – ela sorriu, com as maçãs coradas.

- Bem, eu posso ensinar a você, se quiser. – disse Ourelie, parando de esfregar os cabelos dela com óleos; Lívia olhou-a com entusiasmo.

- A senhora está falando sério? – perguntou a irmã de Milo.

- Sim e é muito simples. Existem três tipos de beijo. – e Ourelie levantou três dedos para dar ênfase às palavras – O primeiro deles é o beijo casto.

- E como seria? – tornou Lívia.

Ourelie beijou-a na bochecha, com um afeto de mãe para filha. Logo, olhou Lívia, que sorriu com empolgação, como se ambas fossem cúmplices de algum crime.

- E qual é o próximo? – interrogou a jovenzinha.

- Depois nós temos o beijo de desejo. – respondeu a francesa – É um beijo que ainda não propõe amor ou paixão, mas exprime interesse e carinho. Ele deve ser quente e afetuoso.

- E como ele é? – Lívia ergueu uma sobrancelha.

Àquela pergunta, Ourelie encostou os próprios lábios nos lábios de Lívia, que ficara quieta a fim de receber o singelo beijo, superficial, apenas os lábios roçando um no outro. Quando Ourelie afastou-se, Lívia olhou para ela com certo ar de riso no rosto, sorrindo por fim e fazendo Ourelie sorrir também.

- E por último... – tornou a mulher de Camus – E o mais importante... – ela fez ar de professora – É o beijo apaixonado. Os amantes devem entreabrir os lábios e as línguas devem se tocar. Esse é o beijo dado entre marido e mulher, Lívia.

E sem que a jovem esperasse, Ourelie a beijou, separando os lábios e obrigando Lívia a fazer o mesmo. A francesa deixou que a língua escorregasse para a boca da companheira e sentiu que Lívia fizera o mesmo, mas não tinha ainda muito jeito.

- Seja menos rápida... - disse a francesa, afastando os lábios por um instante para logo voltar a beijá-la – Devagar, Lívia, deixa a língua serpentear, lenta... – falava sobre os lábios de Lívia.

Ourelie afastou-se, sorrindo, enquanto Lívia ainda se recuperava da experiência. Ambas se olharam por um momento antes de caírem em uma estrondosa gargalhada pelo que haviam feito. Lívia finalmente levantou-se para sair da tina, enquanto Ourelie, também se colocando de pé, pegava a toalha para enxugá-la.

- Lívia, não comente sobre a nossa aula com ninguém, principalmente com o seu marido. – pediu Ourelie.

- Não se preocupe, lady Dousseau. – disse Lívia, ainda sorrindo pelas brincadeiras das duas – Mas eu prometo pôr a nossa aula em prática assim que eu encontrá-lo.

- Nós, mulheres, estamos sempre criando coisas a fim de manter o interesse dos nossos homens acesos e focados em nós. – falou Ourelie, enquanto ajudava Lívia a vestir-se – O mais interessante seria que eles também fizessem isso, não é mesmo? Afinal de contas, nós também sentimos prazer com o que é bonito e com o que é sensual. Um banho de vez em quando não faria mal a eles.

- Meu irmão cheirava mal, às vezes. – sorriu Lívia, com uma alegria infantil, fazendo corar as faces.

- Todos eles cheiram mal, minha querida. – disse a francesa com um suspiro – Eles poderiam, ao menos, tentar não cheirar como porcos. Isso já seria o suficiente.

Naquele momento, alguém batera à porta do quarto, e após a permissão de Ourelie para que entrasse, pois Lívia já estava devidamente recomposta, a porta abriu-se e um camareiro do castelo surgiu diante delas com as faces em polvorosa.

- Lady D’Angeri. – disse ele, após cumprimentar, com uma reverência, ambas as mulheres – Receio que a senhora precise me acompanhar.

- Aconteceu alguma coisa? – interrogou Ourelie, franzindo o cenho em cima da figura resfolegante do homem.

- Foi o meu irmão? – Lívia tomou a frente, correndo até o servo – Milo piorou? Ele morreu? – e toda ela começou a tremer e os olhos se encheram de lágrimas com aquela possibilidade.

- Não, senhora, foi o general. – disse o homem – Ele está ferido.

O.o.O.o.O.o.O

Com dificuldade, Giovanni conseguiu chegar na entrada do castelo. Os soldados deram o alarme, gritando uns para os outros, quando viram o general aproximando-se com a camisa branca completamente ensanguentada. Ele arrastava-se, tropeçando nos próprios pés. Estava perdendo muito sangue e isso começava a afetar as suas faculdades mentais. A vista estava embaçada, mas ele precisava chegar até ali.

- O general está ferido!

Berravam vozes de homens que vinham de todos os lados. Giovanni sustentou-se em uma das pilastras grossas que sustentavam a entrada do muro principal do castelo, na parte em que o portão ficava suspenso, durante o dia, mas era abaixado pela noite ou quando havia a ameaça de um ataque. O rosto estava transpirado e sujo e ele caiu ao chão, primeiramente de joelhos e logo tombando de lado, sobre as pedras, com a mão apertando o ferimento a fim de tentar fazer sair menos sangue.

- Chamem o médico! – gritou várias vozes, uma atrás da outra. – O general foi ferido! Um cirurgião!

Muitas pessoas rodearam o local em que Giovanni jazia, estatelado, com a camisa cheia de sangue. E ele quase sorriu quando levantou os olhos e viu Lívia correndo na sua direção. Ela estava com as faces transtornadas, os cabelos soltos, pois não houvera tempo de arranjá-los quando recebera a notícia. Agarrada nas saias do vestido, chocava-se com as pessoas pelo caminho, enquanto tentava alcança-lo.

- Giovanni!

Quando ela chegou até ele, ajoelhou-se ao lado do marido, agarrando a cabeça dele e colocando-a sobre o colo. Logo, o vestido que levava ficou manchado do sangue dele. Ela lambeu os lábios, nervosa, olhando todos os rostos que estavam ao redor e observavam a cena.

- Cadê o médico? – berrou ela – Você vai ficar bem. – ela disse, voltando a dar atenção ao marido. – Quem fez isso com você? O que aconteceu? Por onde você esteve?

- Lívia... – ele tentou falar, mas o sangue que estava na garganta fazia com que ele engasgasse e tossisse. – Eu não vi quem foi... – mentiu ele – Ajude-me, tire-me daqui agora, leve-me para o quarto. Eu não estou seguro aqui. Vamos, me ajude a levantar...

Naquele instante, a figura pálida de Ágatha, que igualmente parecia perturbada, apareceu entre a multidão. Ela corria pelas pedras com os pés ágeis e aproximando-se da cena, caiu ao lado de Giovanni, sem se importar com a presença de Lívia ou de outros cortesãos, soldados, padres, camponeses, que faziam da cena um espetáculo a céu aberto.

- Giovanni. – Ágatha chamou-o pelo nome – Em nome de Deus, o que aconteceu com você?

Lívia apenas olhou aquela mulher majestosa enquanto a marquesa agarrava o rosto de Giovanni com as duas mãos a fim de fazê-lo olhar para ela, mas ele parecia inconsciente. A cabeça dele ainda estava deitada nas pernas de Lívia, mas Ágatha não parecia se importar com os olhos dos outros. Levantou-se com atitude e mandou que três servos se aproximassem. Quando os homens se acercaram, ela falou de modo imperioso:

- Levem o senhor Giovanni para o meu quarto. – ordenou com rispidez – Mande as servas levarem água quente, panos limpos, agulha e linha.

- O médico já foi chamado. – falou Lívia, franzindo o cenho ao escutar as ordens da marquesa em relação ao seu marido. – Não é preciso que você faça isso. – completou, erguendo-se depois que os homens haviam pegado Giovanni nos braços.

- Eu não vou ficar parada enquanto ele sangra até a morte. – rebateu Ágatha, com uma entonação tão feroz que assustou os presentes e fez Lívia quase encolher os ombros – Ele precisa ser costurado ou vai desfalecer sem uma gota de sangue. – a marquesa novamente olhou para os criados, que haviam levantado Giovanni do chão e esperavam as ordens – Vamos! O que vocês estão fazendo aí ainda que não cumpriram o que eu disse? Levem-no para os meus aposentos! E quando o médico chegar, mande-o para mim.

- Não! – tornou Lívia, erguendo a voz com muita seriedade e fazendo Ágatha voltar-se em sua direção para fitá-la. – Ele é o meu marido e ficará onde eu ordenar. Se alguém precisa costurá-lo, muito bem, eu farei isso. Afinal de contas, é dever da esposa tratar do marido quando ele necessita.

E olhando para os servos, mudando as feições drasticamente, a jovem disse com muita firmeza na voz.

- Vocês, por favor, me sigam. Eu vou mostrar onde colocá-lo.

E sem esperar qualquer resposta por parte de Ágatha, Lívia saiu na frente, caminhando na direção do quarto no qual ela mesma havia dormido. Os criados iam atrás, carregando o general completamente desmaiado naquele momento. A marquesa, atônita por como a outra lhe havia falado, apenas viu-os desaparecer pelas galerias do castelo.

O.o.O.o.O Em outro ponto do castelo O.o.O.o.O

Devidamente sentado na cabeceira da mesa de sua sala particular, na qual costumava fazer as refeições íntimas apenas acompanhado de parentes próximos ou quando tinha reuniões de estado importantes, Thomas estava muito bem acomodado, informalmente vestido naquela meia manhã, para tomar o almoço. Sua aparência estava radiante e os olhos azuis pareciam refletir uma arrogância ainda mais contundente naquele dia.

A antecipação de seu casamento para o dia seguinte e a notícia da gravidez de Ágatha deram ao monarca um ânimo juvenil como há muitos anos não sentia. Thomas acreditava ter rejuvenescido ao menos uns vinte anos naquela madrugada e acordara muito bem disposto. Fora caçar, como de costume, e fizera seus exercícios físicos militares. Apesar da idade, considerada avançada, ainda que ele tivesse apenas quarenta e quatro anos, o rei mantinha-se em muito boa forma e era demasiado alto para a média masculina.

- Eu acredito que você deva estar muito nervosa para o dia de amanhã. – comentou o rei, de repente, enquanto tomava um gole de vinho sem especiarias, apenas diluído em água para torná-lo mais fraco – As noivas sempre ficam ansiosas nas vésperas do casamento. Isso é absolutamente normal. A minha primeira esposa, Margareth, a mãe de minha única filha, ela estava tão amedrontada com a cerimônia que, na hora das nossas núpcias, ela simplesmente desmaiou. – e ele sorriu pela anedota que contara.

Diante dele, acomodada na outra cabeceira, encontrava-se Maeve, trajada de maneira simples, sem formalidades, uma vez que não iria aparecer em público naquele momento. Os cabelos estavam soltos e o rosto se encontrava ligeiramente empalidecido e o rei julgava, obviamente, que aquele estado de semi-inconsciência no qual ela parecia ter entrado era devido aos preparativos de última hora para o casamento.

Maeve havia escutado o que ele dissera sobre a última rainha e pensou consigo mesma que era muito mais provável que Margareth tenha desmaiado de medo do próprio marido do que de qualquer outra coisa. E ela imaginou a si mesma sendo obrigada a se deitar com Thomas, o que aconteceria na noite seguinte, e sentiu medo e repulsa, mas conteve qualquer reação aparente. Apenas tentou sorrir, sem jeito, para mostrar algum tipo de reação.

Contudo, a princesa sentia um imenso pesar. De repente, para a infelicidade dela, todo o castelo parecia estar se preparando para uma festa, e não era qualquer festa, mas o casamento real após treze anos sem uma rainha oficial em Káden.

Aquilo era verdadeiramente um motivo de júbilo para o sofrido povo de Thomas, que só haviam encontrado compaixão e humildade na última rainha, uma vez que o rei não dava demasiada importância ao seu povo. A princesa de Tasha estava tão empalidecida que a impressão que provocava em quem a visse era de que se tratava de um cadáver que haviam esquecido de enterrar. E ela também se sentia assim.

- Você está me escutando? - tornou o rei, estreitando os olhos sobre ela por um momento - Está tão branca, sem uma gota de sangue na face. Se eu não soubesse que você tem pulsação, eu seria capaz de afirmar que você é uma morta viva recém-levantada do túmulo. Vampiros, não é assim que a sua gente chama? - completou ele, com o cenho franzido, desconfiado, mas comendo tranquilamente.

Ao ouvir a voz do rei mais uma vez, Maeve sentiu-se ser puxada abruptamente dos seus pensamentos. Ele havia dito mais alguma coisa, mas ela não escutara o que ele dissera, porém não quis demonstrar desinteresse e apenas sorriu novamente, ainda sem jeito, quando a mente pareceu voltar de algum outro mundo no qual estivera perdida. Apertou o canto interno dos olhos com impaciência por si mesma. Sua atuação estava sendo desastrosa.

- Sente-se feliz, princesa Maeve? – interrogou Thomas, olhando-a com consideração enquanto comia, embora o jeito pensativo da princesa começasse a tirá-lo do sério.

- Neste mundo, majestade, eu creio que os seres humanos nunca irão conseguir uma felicidade completa. – respondeu ela, erguendo os olhos para ele, por fim, enquanto os dedos brincavam com o talher em cima da mesa sem, no entanto, pensar em pegá-lo.

– Você parece estar sempre em outro mundo, como uma fada. – comentou ele e o tom usado pareceu ligeiramente sarcástico e ela percebeu – E eu particularmente não aprecio fadas, alteza! Sabe o que eu costumo fazer com as mulheres que eu encontro com esse costume?

Maeve desfez o fraco sorriso que conseguira oferecer anteriormente e apenas balançou negativamente a cabeça, piscando os olhos várias vezes pela leve ironia que sentia na voz e nos gestos de Thomas. E antes de responder, ele limpou os lábios com um lenço e sorriu para ela:

- Eu as queimo, alteza, na fogueira santa. A vida é cheia de obrigações que nós temos que cumprir. – disse ele, dando de ombros, como se falasse de ninharias – Quando não se tem aquilo que se gosta faz-se necessário aceitar aquilo que se tem.

- Eu... – ela pigarreou diante do que havia escutado – Eu apenas sinto falta do meu pai e da minha terra. É apenas uma crise de melancolia, majestade, e isso irá passar. – ela tentou sorrir de novo, mas novamente não teve qualquer êxito e terminou baixando os olhos.

- Você não vai chorar, ou vai? Eu não gosto de mulheres chorando perto de mim. Lágrimas nunca são bons argumentos comigo. – rebateu Thomas, com ironia ao sentir que ela entristecera-se – Você precisa começar a entender, mina rainha, que a sua vida agora é aqui. Esquecer é uma necessidade. Meu pai costumava dizer que a vida é como uma lousa e para que o destino escreva algo novo é necessário apagar o escrito antigo. Você parece sofrer dos nervos. Está sempre melancólica e pálida, isso não é nada bom. Pode atrapalhar a maternidade. - completou ele - Eu sempre achei que as mulheres devessem ser mais calmas.

- Eu não entendo por que, majestade, nós somos humanas e sentimos as mesmas coisas que os homens. – falou ela, muito séria naquele momento. – Os homens estabelecem o que é certo para o meu sexo, e quando tentamos atravessar os limites que vocês nos impõe, vocês riem de nós ou nos condenam à morte.

- Se existem limites, eles não devem ser ultrapassados, minha cara. – sorriu o rei. – Quando quebramos uma regra, sempre há um preço a se pegar por tal transgressão.

- Eu apenas gostaria que não subestimassem o meu poder de decidir sobre meu próprio destino. – retrucou ela, baixando a cabeça. - Para nós não resta mais nada a não ser sorrir e obedecer. Eu gostaria que nós, mulheres, pudéssemos ter as mesmas oportunidades que os homens.

- Não há nada mais perigoso do que uma mulher que acha que sabe o que quer. – tornou o rei – Você parece bastante incomodada no dia de hoje e uma mente agitada indica um travesseiro inquieto. – retrucou o rei, com a cabeça abaixada para o próprio prato, mas a vista levantada na direção dela – Dormiu mal esta noite? Sinto-me lisonjeado, alteza, que o dia do nosso casamento a tenha deixado assim, tão empolgada. Eu devo confessar, minha querida rainha, que a senhorita enfeitiçou completamente a minha alma.

Maeve olhou para o rei naquele momento, e contra todas as previsões de Thomas, a princesa pareceu absurdamente séria e não conseguiu sequer fingir um sorriso diante do que ele dissera. Ela sabia que precisava mostrar-se passiva e obediente, até feliz, mas simplesmente não conseguia.

Sua feição não era capaz de se contorcer e formar o esboço de um sorriso, ainda que falso. Parecia que quanto mais ela sabia que Thomas esperava dela inteira devoção e fidelidade, mas o corpo e a mente de Maeve lutavam contra aquela ideia.

Thomas a encarava esperando que ela lhe oferecesse ao menos um sorriso ou um olhar de obediência como resposta. Mas não houve nada. Maeve manteve os olhos azuis presos ao rosto ríspido de Thomas sem conseguir mover um único músculo do corpo, como se tivesse sido atingida por um raio e toda ela estivesse muito dolorida para fazer qualquer movimento. Estava simplesmente congelada.

- Seria muito agradável que a minha esposa falasse alguma coisa ao invés de apenas ficar olhando para mim como se eu fosse um verme terrível. – disse o rei, com a voz controlada, porém com uma entonação tão feroz que Maeve sentiu-se encolher na cadeira – É isso o que acha de mim, princesa Maeve? Que eu sou um inseto perigoso que precisa ser esmagado logo? Que o seu pai a obrigou a casar com um animal feroz? Uma fera horrenda?

- Majestade, eu...

- Sabe, Maeve, eu não sou um homem que recusa elogios. Muito pelo contrário, eu os amo. Eles fazem bem à minha alma e até ao meu corpo. As melhores digestões da minha vida são as das ceias em que eu sou brindado. – e ele ergueu a própria taça, como se fizesse um brinde solitário, e sorveu o líquido completamente.

- Eu sinto muito... - ela tentou dizer, mas o rei a cortou.

- Não diga mais nada, pois tudo o que vai sair da sua boca não passa de mentiras. A mentira, nas mulheres, é involuntária, como a respiração. – rebateu Thomas.

- Majestade...

Ela gaguejou e repentinamente viu Thomas se erguer da cadeira onde estava sentado. Ele pôs-se de pé e colocou as mãos para trás, olhando para ela, ainda sentada na outra ponta da mesa pouco extensa.

- Retirem-se! – ordenou ele aos camareiros e às damas que estavam ali vendo o casal real fazer a refeição – Saiam todos. Eu quero ficar a sós com a rainha!

Diante daquela ordem, os servos e as damas de companhia de Maeve se retiraram em silêncio pela porta lateral, deixando Thomas e a princesa sozinhos. Ayaleen ainda relanceou um olhar tenso para a princesa, e Maeve correspondeu, olhando-a de volta. Mas quando a princesa baixou a vista, submissa, a cigana retirou-se junto com as outras moças.

Após o último criado desaparecer e fechar a porta atrás de si, Thomas afastou a cadeira para trás com convicção, saindo do próprio lugar e caminhando até ela. A jovem havia abaixado a cabeça naquele momento, olhando para o próprio prato, ou para mesa, ou para algum ponto qualquer que não fosse a cara demoníaca que o rei lhe oferecia naquele instante.

- Levante-se!

Mandou ele, parando ao lado dela. Maeve sentiu o peito arfar dentro do vestido. Respirou forte algumas vezes, mas continuou sentada na cadeira, sem fazer qualquer movimento, sem ousar levantar os olhos para Thomas. Perdendo a paciência, a voz dele soou ainda mais cavernosa por conta da tonalidade grave.

- Eu mandei que você se levantasse, princesa Maeve. – repetiu ele – Obedeça ao seu rei.

Finalmente ela pareceu reagir, afastou delicadamente a cadeira para trás e ergueu-se, mas manteve a cabeça e os olhos abaixados, juntou as mãos uma na outra na altura do regaço e esperou uma reação por parte do rei.

Thomas agarrou-a pelo braço, sem qualquer consideração pela posição dela ou qualquer cuidado por como a pudesse tocar. O aperto que ela sentiu no músculo fê-la contorcer a face, mas não disse nada, apenas gemeu baixo em reclamação pela dor que sentira.

Ele trouxe-a mais para si, fazendo-a parar diante dele. Com uma mão, o rei agarrou-a pelo queixo e obrigou-a a levantar a vista para ele, contra a vontade dela. Como Maeve fez cara de choro, Thomas soltou-a, libertando inclusive o braço feminino e empurrando-a para trás.

- Eu sei que você não gosta de mim, não precisa fingir que me ama, pois eu notaria tal tentativa de bajulação desnecessária e eu a odiaria ainda mais pelo fingimento. – começou ele.

- Se eu me casar consigo, sua majestade, vai ser apenas pelo bem da minha terra e pela promessa de paz que fez ao meu pai. – disse Maeve, munida de uma coragem que ela julgara não possuir – Sua majestade será o meu marido, mas nada mais do que isso e nunca seremos felizes. E eu nunca perdoarei o meu pai pelo destino ao qual ele me condenou.

– Eu sei que somos muito diferentes, alteza, mas há algo que compartilhamos mutuamente: o desprezo por esse matrimônio. A humilhação pela qual eu estou passando por ter de me unir a um inimigo tradicional de Káden.

- Então, por que seguir com esse casamento se ele é tão pouco querido por sua majestade? – indagou ela, nervosa, mas com uma ponta de esperança de que aquele maldito matrimônio se desfizesse.

- Porque a política me obriga a acreditar que a vida é curta para nutrir animosidades, minha cara. – completou o rei, com sarcasmo. – Você será a minha esposa por bem ou por mal. Do contrário, se você desejar, eu desfaço o casamento, acabo com a sua reputação e invado Tasha com toda a minha força. É isso o que você quer, Maeve? Ver a cabeça do seu pai espetada nos portões de Káden?

Ela sentiu que os lábios haviam ficado trêmulos e ela titubeou antes de responder com pouca firmeza na voz e uma entonação insegura:

- Não, majestade...

- Eu vejo que ainda há sensatez suficiente em uma mulher para saber o lugar que lhe cabe na ordem natural das coisas, alteza. - esbravejou ele sobre o rosto dela.

- Eu fui enviada pelo meu pai para me tornar Grande Rainha e vou cumprir a tarefa que ele me incumbiu. – decretou ela, com tristeza na voz.

- Esse casamento é uma farsa. - Thomas mastigou a palavra com ódio - Uma mentira muito bem forjada para que a política possa triunfar. Mas, amanhã à noite, eu terei o prazer de fazê-la minha. E acredite, princesa Maeve, que eu a tomarei para mim mesmo que seja à força!

- Eu não duvido. Muitas coisas podem ser forçadas, mas não o coração. Algumas pessoas não foram feitas para ficarem juntas, majestade, não importa o quanto queiramos que a situação seja diferente. – respondeu ela, com a voz sibilante pelo medo que sentia. - Eu serei a sua esposa se a isso a política me condenou. Mas não serei nada mais do que sua esposa.

- Amanhã você será a minha rainha. E quando eu tiver feito o que quero com você, o seu amante não irá mais querê-la. – arguiu o rei, disparando aquelas palavras sobre a face feminina.

- O que? – Maeve pareceu transtornar-se naquele momento, franzindo o cenho diante do que ouvira – De que amante sua majestade estaria falando?

- Não me faça de tolo, Maeve! Eu posso estar velho, mas ainda não estou senil. Eu não sou um idiota! – berrou ele, enfurecido, na cara dela, fazendo-a encolher-se – O seu amante espanhol, eu sei que é por causa dele que você me rejeita. Mas ele será preso, torturado e enforcado amanhã, durante a festa do nosso casamento! Eu já dei a ordem para aprisioná-lo! Hoje mesmo aquele maldito cigano será levado para a masmorra e, por Deus, ele será torturado até que confesse esse pecado mortal!

- Não!

Ela exclamou, sem conseguir controlar a comoção que lhe subira naquele instante. Recuou para trás com pavor, mas o rei saltou para frente e agarrou-a, puxando-a para si.

- Na nossa tradição, senhora, o marido da rainha é o rei da terra, e quando eu lhe fizer filhos ninguém mais vai se opor ao meu reinado. – disse ele. - Principalmente o seu pai e a sua prima, aquela cadela!

- Deixe-me...

Ela tentou se soltar das mãos dele, mas Thomas manteve-a muito bem presa.

- Você é o meu tipo de mulher. – ele a avaliou brutalmente – Margareth era magrinha demais, feia, pálida... – ele ia dizendo, enquanto a princesa fazia esforços para se soltar dos braços do rei – Aqueles malditos cabelos vermelhos que o Diabo deu a ela! – berrou Thomas com olhos insanos – Sim, os cabelos vermelhos eram um sinal de que ela era uma filha de Satã. Ela tinha feito um pacto com ele. Além disso, eu gosto de mulher com mais carne. Você tem seios grandes e quadris largos, vai ser uma boa parideira. Talvez possa me dar o menino que eu desejo há anos...

E beijou-a, pressionando os lábios de Maeve com suas mandíbulas imensas, machucando a carne delicada dos lábios femininos contra os dentes compridos. Thomas colou os lábios aos dela com força, com brutalidade, sem qualquer cuidado, descendo os beijos pelo rosto, pescoço e ombros.

A jovem rainha tentou conter aquele avanço, gemia pela dor que sentia em sua garganta ao tentar prender o choro, os olhos avermelhados, a respiração descompassada, um pavor horroroso de ser tocada por aquele homem.

- Beije-me! – ordenou ele, separando seus lábios dos dela por um instante, fitando aquele rosto transtornado que ele tinha diante de si – Ame-me, Maeve! Ame-me! – e ele dava-lhe beijos partidos - Beije-me, eu ordeno! – e voltou a beijá-la com agressividade, sua boca machucava a dela de tal forma que ela sentia a forte pressão de seus dentes em sua carne - Por que você não me ama?

- Não! – berrou ela, em lágrimas, tentando se soltar, e sem pensar em nada mais, ela esbofeteou o rei na face.

Houve um curto silêncio em que ela abriu os olhos desmesuradamente ao perceber o que havia feito. Mas não teve tempo para pensar em nada mais. Thomas olhou-a, passando a mão pelo rosto golpeado fortemente:

- Eu não vou tolerar esse tipo de comportamento após o casamento!

Rosnou Thomas, com um rancor surdo nascendo no peito ao afastar-se dela, encarando-a e sentindo-se fitar por aqueles orbes azuis que o temiam, verdadeiramente temiam. Outra vez colou os lábios nos dela. Porém, como Maeve não parecia responder aos seus toques absurdamente brutais, ele irritou-se, uma fúria sem precedentes tomou-lhe o sangue.

Sem qualquer aviso prévio, foi ele quem agora desferiu um tapa horrendo no rosto feminino, derrubando-a no chão. Maeve sentiu o gosto de sangue na boca, manchando seus dedos de vermelho quando ela tocou a boca naquele momento.

– Você é uma bruxa infame que me enfeitiçou, mas você não terá poder sobre a minha alma! – gritou o rei.

- Você está louco! – gritou ela, enraivecida pela violência que sofrera.

Thomas aproximou-se dela, que ainda estava atirada sobre o piso, e embora ela tivesse levantado os braços ao vê-lo se acercar, colocando-os na frente da face para amparar as possíveis agressões que temia sofrer, o rei simplesmente a pegou pelo punho e a levantou, agarrando o queixo dela com força e forçando-a a olhá-lo.

– Eu não vou permitir que você me domine, sua feiticeira... - gritava ele - Vou mostrar a você quem é o seu senhor, sua bruxa ordinária! O que fez comigo?

– Eu não sei...

Gaguejou ela, as lágrimas querendo saltar dos olhos, completamente aturdida pelo comportamento algo histérico dele e que ela não entendia. Se tivesse um pouco mais de experiência com homens, teria descoberto facilmente o ponto fraco de Thomas e o teria usado a seu favor.

– Você acha que eu sou um monstro? – berrou o rei - É isso o que você pensa?

Thomas novamente puxou-a para si. Maeve lutou, conseguiu soltar um braço e bateu-lhe na face novamente. O rei, tendo sido atingido, agarrou-lhe os dois braços e sacudiu-a violentamente. Em seguida, ele ergueu novamente a mão para esbofeteá-la. Mas quando o rei estava prestes a descer a mão contra ela, Maeve encarou-o com uma feição nova, que fez o próprio rei assustar-se e deter a mão ao alto:

- Bata-me mais uma vez e eu vou lhe mostrar que uma filha do norte não é mulher de homem algum, majestade! – disse ela, entredentes, com um ódio que torceu a sua face que antes era tão delicada.

Thomas olhou-a com certa surpresa no rosto, pois o semblante da jovem estava visivelmente alterado. O rei encarou-a com uma suspeita raivosa.

- Como ousa levantar a mão a contra mim? – vociferou novamente Maeve, em voz baixa, mas absolutamente odiosa. - Eu sou uma princesa do norte, a Grande Rainha. Você não tem o direito de me distratar!

- Você não voltará a usar esse tom de voz comigo, ou eu lhe darei uma surra de verdade! – rebateu o rei, com o rosto obscurecido pela surpresa e pelo ódio também.

Maeve compreendeu que ela havia mostrado os dentes como um animal selvagem. Mas foi com voz firme que ela respondeu.

- Faça isso e nunca mais será homem outra vez, nem comigo nem com qualquer outra! – disse ela, com as lágrimas descendo pelo rosto marcado pelo tapa.

Thomas abriu a boca para uma resposta violenta, e Maeve pensou que ele lhe fosse bater novamente. Mas, naquele momento, a porta abriu-se e Mu, seguido de alguns camareiros e das damas da rainha, entraram no recinto. O barulho de vozes alteradas, que escutaram do lado de fora, assustou-os e o conselheiro real fora chamada para interferir no que quer que fosse que estivesse acontecendo dentro daquela sala.

Mu olhou para Maeve e depois para o rei e compreendeu que ambos estiveram em meio a uma altercação violenta, pois a jovem estava chorando, o lábio sangrava e a maçã esquerda do rosto estava ficando marcada pela violência que havia recebido. O chanceler pigarreou e adentrou no recinto, colocando as mãos para trás.

Ao ver aquelas pessoas ali, o rei fez um esforço para se controlar, e pegando Maeve pelo braço, novamente com violência e sem se importar com a presença das damas, dos servos ou mesmo de Mu, que observou a cena com certa perturbação na face, ele a arrastou de volta para a cadeira onde ela estivera sentada anteriormente e jogou-a ali de maneira agressiva.

- Volte a comer. – ordenou o rei, caminhando ele próprio para o antigo lugar, sentando-se na poltrona – Eu mandei você comer! – berrou ele na direção dela.

- Majestade... – Mu novamente pigarreou, levando uma mão à boca, e logo colocando-a de novo para trás do corpo – Eu trago notícias ruins.

- O que houve agora? – rebateu Thomas, mastigando a comida como quem mastigava o cérebro do pior inimigo – Um ataque do ducado Heinstein? Não me diga que eles resolveram pôr abaixo as muralhas!

- Não, majestade. – disse Mu, muito sério naquele instante e sentindo-se incomodado pelo pesado clima que se havia instalado no ambiente – Foi o general real.

- O que Giovanni fez agora? Quem ele matou? – Thomas esboçou um sorriso cínico ao comentar aquilo, e deu de ombros, como se não se importasse.

- Ele não matou ninguém, majestade. Na verdade, ele quase foi morto essa manhã. – respondeu Mu.

- Giovanni D’Angeri? – o rei deteve o próprio movimento – Morto? Onde ele está?

- Sendo cuidado pela esposa dele. – disse o conselheiro. – O médico já está no quarto. O ferimento foi grave, mas o cirurgião acredita que ele vai sobreviver.

- Espera um momento. – Thomas limpou os lábios com um guardanapo, tentando concentrar as ideias – Giovanni está casado com quem?

- Com a irmã de lorde Milo, majestade. – Mu fez questão de ressaltar aquela informação – Lady Lívia Domothinopoulos! Casaram-se ontem à tarde, antes do baile, sem qualquer testemunha, e ele trouxe a esposa para festa. Eu creio que ele não a tenha apresentado ao senhor. – o conselheiro pareceu falar aquilo com uma intenção maliciosa.

- E quem deu permissão para ele casar? Que eu saiba, meus homens só podem escolher uma noiva com a minha conivência. – esbravejou o rei, olhando para Mu naquele momento, e atirando o lenço em cima do prato, fazendo Maeve se encolher do outro lado da mesa pelo susto que tomara – Ele teve coragem de contrair matrimônio com a irmã do homem que eu mais odeio? Como ele ousou passar por cima das minhas ordens?

- Eu sinto muito por essas notícias, majestade. – disse Mu, sorrindo por dentro e muito satisfeito em fazer o monarca saber de toda a história. – Eu tenho absoluta certeza que o senhor saberá agir, no momento correto, quanto a este casamento descabido. – completou Mu.

- Retire-se, Mu. Assim que Giovanni for capaz de falar e escutar, eu irei até ele. Eu não aprovo essa união, não reconheço esse casamento ensandecido com a irmã daquele... – ele mastigou a palavra – ...Daquele homem que ousa incomodar a minha filha! Já foi uma péssima notícia saber que Milo segue vivo depois de levar uma espadada nas vísceras.

Mu reverenciou o rei e preparou-se para sair. Mas ao passar por Maeve, que seguia ali, sentada, de cabeça baixa, derramando lágrimas amargas em silêncio, ele a olhou para também reverenciá-la e ela, por fim, levantou os olhos para ele. A violência de Thomas havia deixado marcas visíveis e Mu sentiu-se compelido a ajudá-la, mas não poderia fazer nada por ela naquele momento.

Sentindo-se perturbado pelo estado da rainha, ele reverenciou-a como era devido e saiu sem dizer qualquer coisa, deixando o casal real a sós. Apenas os camareiros haviam permanecido, novamente, enfileirados, no local. Ayleen também estava ali, afastada, junto com as outras damas, todas em silêncio e de cabeças baixas, esperando que o rei terminasse a refeição.

Após a saída do conselheiro real, a porta abriu-se mais uma vez e um camareiro entrou para anunciar a chegada das outras convidadas para o almoço:

- Sua alteza real, a princesa Elinor. Sua alteza real, a princesa Catarina. – disse ele, com uma entonação solene.

Após o criado proferir seus nomes, o homem afastou-se e deu lugar para que as duas jovens entrassem no salão aconchegante, cheio de tapetes pelas paredes e uma lareira que aquecia todo o recinto. As primas pararam a uma certa distância, uma ao lado da outra, e reverenciaram ao rei e à rainha ao mesmo tempo. Catarina manteve os olhos para o chão, pois era a primeira vez em que ficava cara a cara com o tio desde que havia chegado ao castelo.

Ao seu lado, Elinor, muito séria, ergueu a vista para o pai quando voltou a se colocar ereta. Thomas limpou as mãos com um lenço e levantou-se rapidamente da mesa ao ver a filha. Abriu um sorriso, o único sorriso verdadeiramente sincero que ele dera durante toda a manhã, e aproximando-se de Elinor, que mantinha os olhos presos na face do pai, ele a pegou pelos ombros, olhando-a completamente.

- Minha filha querida... – disse o rei – Não sabe a alegria que eu sinto ao vê-la tão bem disposta.

- Eu também estou feliz, papai, em encontrá-lo bem. – disse Elinor, séria como estava, mas esboçando um sorriso que mais pareceu uma careta – Obrigada por me tirar daquela cela horrível. Certamente ela era uma das melhores da masmorra, pois tinha bem poucos ratos. – ironizou.

Thomas sorriu pelo comentário dela, ignorando o sarcasmo que havia na voz da filha. Beijou Elinor no topo dos cabelos e finalmente deu atenção à sobrinha. Parando diante dela, Thomas apenas observou a jovem a quem não via há alguns anos. Ao sentir que os olhos do rei estavam sobre si, Catarina ergueu a vista e o encarou.

- Catarina. – chamou o rei – Seja bem-vinda à minha corte. – Thomas tomou-a pelos ombros e a beijou também no topo da cabeça – E que não haja desavenças entre nós, afinal de contas, você é a minha sobrinha, filha única de meu querido irmão.

- Obrigada, majestade. – resmungou a jovem, com um murmúrio, novamente fazendo uma reverência.

- Tudo o que estiver ao meu alcance será seu, Cathy, basta pedir. Eu quero que você tenha em mim um verdadeiro pai, uma vez que perdeu o seu.

- É muita gentileza, majestade. – ela tentou sorrir pelas palavras.

- Pode me chamar de tio, pois é isso o que eu sou, seu tio. – completou o rei, olhando-a com certa insinuação. – Venham! Sentem-se comigo e com a minha rainha. Será um prazer para mim que todos os dias a família real esteja reunida para as refeições.

Thomas dizia aquilo enquanto se encaminhava para o antigo lugar, na cabeceira da mesa. Catarina e Elinor, ainda silenciosas e pouco à vontade na sala, seguiram o rei. Dois camareiros se aproximaram a fim de puxarem as cadeiras para que elas se acomodassem. Quando as jovens se sentaram, os servos se afastaram novamente para a fileira de criados que estavam dispostos ali para servirem aos presentes.

Houve um silêncio incômodo no ambiente enquanto outros servos colocavam mais pratos de comida na mesa e serviam vinho nas taças. Elinor e Catarina relanceavam os olhos do rei para a rainha e perceberam que Maeve mantinha a vista abaixada, os dedos tocavam o garfo mas não se encorajavam para pegá-lo. Em momento algum a princesa de Tasha ergueu a vista para saudar as recém-chegadas, nem mesmo quando foi reverenciada por elas.

- Papai... – falou Elinor após um minuto de silêncio entre eles, durante o qual apenas o rei parecia muito tranquilo, comendo com satisfação – Sobre o meu casamento...

- Ah, não se preocupe, minha filha, já está tudo arranjado. – disse Thomas, tomando do vinho e cortando a fala da filha – Os príncipes de todo o país foram convidados e estarão aqui, amanhã, desfilando diante de seus belos olhos, a fim de que a minha adorada, e caprichosa, filha, possa escolher um deles para marido. – e sorriu para ela com cinismo.

- Mas, papai, eu pensei que eu pudesse ter uma ideia melhor. – falou Elinor, sentindo-se nervosa por aquele assunto.

- É mesmo? – Thomas pareceu debochar dela naquele momento – Antes de vocês chegarem, eu e a minha rainha estávamos discutindo sobre os direitos femininos. – completou ele com imensa ironia na voz – Maeve dizia sentir muito pelo fato das mulheres controlarem tão pouco os próprios destinos. Não foi isso o que passou, minha querida? – ele perguntou na direção de Maeve, olhando para ela com sarcasmo.

Elinor havia relanceado os olhos para a futura madrasta quando escutou o rei dizer o nome dela. Catarina também deu atenção à rainha, mas Maeve manteve-se na mesma posição. Sentindo os olhos de todos sobre si, a princesa de Tasha finalmente ergueu o rosto e relanceou a vista pelas faces que a encaravam, mas não falou nada.

Elinor e Catarina observaram as feições transtornadas da outra. O rosto estava avermelhado e os olhos inchados, o que indicava que ela estivera a chorar. E pela coloração da face esquerda, elas tiveram certeza do motivo. Elinor sentiu-se constrangida por aquela constatação e baixou os olhos para o prato. Foi a prima quem, com muito cuidado, interferiu na conversa:

- Os homens controlam as nossas vidas. – disse Catarina, muito séria, quebrando o mal estar da mesa. – E por essa razão nós, mulheres, nos odiamos umas às outras. Vocês nos criam como inimigas naturais. Mas eu acho que não devíamos nos odiar!

- E qual é a sua sugestão, sobrinha? – interrogou o rei, seguindo com a mesma entonação sarcástica, enquanto comia uma torrada com geleia – Você acha que as mulheres devem odiar os homens?

- Não, meu tio. – volveu a jovem, olhando para o rei com profunda atenção – Está em nossa natureza amá-los. Mas eu acho que nós deveríamos nos proteger de vocês.

- Como se nós, homens, fôssemos criminosos? – o rei soergueu as sobrancelhas fingindo uma surpresa cínica – Escute, sobrinha, eu sou rei, sou o pai do meu povo, e como tal eu tenho a obrigação de guiá-lo pelos caminhos certos rumo à Deus. E para que um povo precisa de um rei? Ora, o povo não sabe se guiar por si mesmo, eles precisam de um líder a quem seguir, do contrário tudo viraria caos!

- O senhor está dizendo que as mulheres precisam de alguém para conduzi-las? – interrogou Elinor, estreitando os olhos sobre o rosto do pai – Acha que nós precisamos de um senhor? Que somos como crianças pequenas que devem obedecer às ordens do pai, e depois do marido, porque apenas eles sabem o que é melhor para nós?

- Há algo profundo e perigoso em vocês, minha filha.

Disse Thomas, muito tranquilo, comendo pedaços de pão, e relanceou os olhos para Maeve ao dizer aquilo. Quando a rainha sentiu o olhar de Thomas sobre si, baixou a vista para a mesa.

– Esses olhos que vocês têm são como anzóis negros para as almas dos homens. – completou Thomas, ainda observando a rainha com profunda seriedade – E como rei, pai, marido e tio, meu dever é proteger vocês dos males que podem causar inconscientemente. – e ele sorriu, tirando a atenção da rainha para colocá-la na filha e sobrinha, sentadas na lateral da mesa.

- Então, se nós, mulheres, não pudermos satisfazer ao rei, ele poderá nos descartar, nos trocar ao seu bel prazer ou simplesmente nos matar? – interrogou Maeve, abruptamente, franzindo o cenho por um momento e levantando a face na direção do rei.

- Como cristão, eu tenho aversão ao assassinato, senhora! – disse Thomas, abrindo um sorriso maléfico para ela - Mas como rei, e como marido, minha cara esposa, eu sou forçado a discordar. – completou Thomas. – O que o rei deseja, o rei deve ter, sem que isso seja discutido ou atrapalhado.

- Então, eu acho, majestade, que, como cristão, o rei arderá no fogo do inferno para a toda a eternidade! – rebateu Maeve, fazendo Elinor e Catarina olharem para ela ao mesmo tempo.

Houve um silêncio na sala. Os criados se entreolharam, as damas de companhia, entre elas Ayleen, também fitaram umas ás outras, todos com os olhos arregalados pelo que haviam escutado. A cigana chegou a soerguer as sobrancelhas ao escutar as palavras da rainha. Mas Maeve manteve-se firme, encarando o rei do outro lado da mesa, enquanto Catarina e Elinor permaneceram em total silêncio, temerosas pela reação do monarca.

E a reação veio. Thomas empurrou a cadeira para trás e levantou-se do antigo lugar. Ao vê-lo novamente vindo em sua direção, Maeve pensou que ele iria golpeá-la novamente na frente de todos. Mas o rei apenas parou atrás dela, tocou-a nos ombros, o que a fez arfar pelo pavor que sentia a cada vez que aquele homem encostava as mãos nela.

Thomas abaixou-se, curvando-se sobre ela para ficar com os lábios na altura do ouvido feminino.

- Não, minha cara, eu não queimarei no inferno. – disse ele com a voz muito terna e controlada, alta o bastante para ser ouvido por todos. – Você vai queimar no inferno, Maeve. Eu, não. – a entonação dele modificara para um tom ríspido e ele continuou – Eu sou o Grande Rei, ordenado por Deus, senhora. – aquela última frase saíra com um grito feroz no ouvido de Maeve.

Não só a rainha encolheu-se, mas Elinor e Catarina chegaram a saltar dos seus lugares naquele momento pelo susto que tomaram com o grito de Thomas.

- O rei é um leão e leões não se preocupam com o que as ovelhas pensam. – continuou Thomas – Você é minha agora, e se eu tiver que morrer, você morrerá junto. A rainha deve sempre cair com o rei.

E ao falar aquilo, ele deixou-a mais uma vez e retornou ao antigo lugar, sentando-se confortavelmente, abrindo um sorriso sarcástico na direção da filha e levantando a taça de vinho.

- Comam. – disse Thomas – Ninguém vai se levantar dessa mesa enquanto os pratos não estiverem vazios. Portanto, tratem de comer. – ordenou ele e tomou a bebida.

- É uma importante questão, papai, se para um rei é melhor ser temido ou ser amado. – disse Elinor, após um minuto de silêncio, ainda se sentindo constrangida pela cena da rainha.

- Se eu fosse você, Elinor, eu evitaria pensar se isso puder levar você a uma conclusão errada. – rebateu o rei, enquanto comia. – Não perca seu tempo pensando em questões que estão além de sua capacidade. Suas intenções são boas, minha filha, mas equivoca-se na conclusão.

- Essa conclusão errada seria uma conclusão diametralmente oposta à sua, papai? – retrucou ela, com acidez na voz.

- Certamente. Eu sou o rei e você me deve obediência. Eu sou homem e você, mulher, e igualmente me deve obediência. Eu sou seu pai e você é a minha filha, e deve obedecer a mim. – respondeu ele com rispidez, encarando a moça - Vocês precisam ser controladas, porque se o urso descobre a força que tem, homem algum poderá dominá-lo.

- Então, eu creio que o arcebispo Gustav deva ser o mais feliz dos homens. – sorriu Elinor, enraivecida, mas falando com ironia - Afinal de contas, ele evitou a astúcia das mulheres dedicando-se a Deus. – satirizou Elinor. – O celibato deve ser realmente uma bênção. É por essa razão que eu gostaria de me retirar para um convento, papai.

Àquelas palavras, Thomas olhou para a filha com profunda seriedade, deixando de lado o sarcasmo com o qual a tratara minutos atrás.

- Você quer dizer que prefere enterrar-se em um convento do que se casar? – tornou o rei. – Do que ser uma rainha, repleta de joias, dona de vastos reinos e grandes exércitos? Você não precisa de pintura nem de livros, Elinor, uma rainha apenas precisa de mentiras. – e o rei novamente encarou Maeve ao dizer aquilo.

- Ora, papai, o senhor deveria me considerar uma santa e me canonizar. Eu estaria fazendo um bem imenso aos homens, afastando deles os males da astúcia feminina. – e Elinor sorriu entredentes, com profunda raiva brotando do peito.

- Eu sinto muito, Elinor. Se nós fôssemos uma família de camponeses, talvez eu me sentisse honrado em ter uma filha casta servindo ao Cristo na Santa Madre Igreja. – e o rei fez o sinal da cruz – Mas você é uma princesa, e eu sou um rei, e preciso de alianças políticas e militares que você pode trazer para mim.

- Eu não sou um objeto a ser exposto na feira! – rebateu ela, atirando o guardanapo em cima da mesa e tornando-se tempestuosa – Eu sou sua filha! Não pode me tratar como uma mercadoria, algo que se troca pelo melhor lance!

- Eu faço isso porque a amo, Elinor, e eu quero o melhor para você. – volveu Thomas. – Para todas vocês, as três mulheres da minha vida. – e ele abarcou as três jovens com um só olhar.

- O senhor desconhece a palavra amor, papai! – disparou Elinor, com a entonação tão feroz que Catarina e Maeve passaram a prestar atenção ao que ocorria. – O senhor não é capaz de amar ninguém. Nem por um ano, um mês, um dia ou mesmo por uma hora. Quando eu era menina, eu acreditei que o senhor realmente me amasse, tão bem e profundamente, como qualquer pai! – ela pareceu sentir lágrimas nos olhos naquele momento – Mas depois, quando eu cresci, eu percebi que o seu amor é somente interesse. O meu único crime foi ter nascido mulher com uma coroa na cabeça! Eu não posso passar a minha existência servindo aos seus interesses. A escolha tem que ser minha!

- E se eu permitisse que você escolhesse, o que você escolheria, Elinor? – Thomas recostou-se no espaldar da cadeira, olhando para a filha com atenção. – Milo Domothinopoulos ou o convento? Desculpe, minha filha, mas as suas escolhas não me satisfazem. Portanto, eu escolherei por você.

- Ou, então, o que, papai? – desafiou Elinor, sustentando o olhar paterno – O senhor vai me matar, como fez com a minha mãe? Vai me queimar na fogueira?

- Não será preciso ir tão longe! Nada como uma boa educação para fazer você voltar a seguir o caminho correto. – respondeu Thomas, impacientando-se por estar sendo questionado pela filha diante dos criados – Elinor, eu tenho sido muito generoso com você durante todos esses anos. Você é uma filha mimada e arrogante. Sempre teve tudo o que quis e eu nunca questionei os seus atos de mau comportamento. Mas a minha paciência tem limites! – esbravejou ele, entre dentes.

- Eu sei...

Disse Elinor, esboçando um sorriso sarcástico no rosto. E ao falar isso, ela relanceou os olhos para Maeve, que também olhou para a princesa de Káden naquele momento. A rainha parecia preocupada com o rumo que aquela briga ferrenha parecia tomar. As marcas das lágrimas que derramara mais cedo ainda estavam em seu rosto, mas já não chorava naquele instante.

- Eu estou vendo os limites da sua paciência, papai. A sua jovem rainha não parece mais estar tão bela essa manhã. O rosto dela parece ligeiramente manchado... – e Elinor franziu o cenho como se não soubesse do que falava e estivesse confusa.

- Isso foi apenas um problema de disciplina. – respondeu o rei – Mas nós dois já estamos nos entendendo, não é, Maeve? – e ele olhou para ela esperando que a jovem reagisse.

Ao escutar aquilo, a rainha baixou a cabeça para o prato e ficou em silêncio.

- Não existe criatura na terra mais aterrorizante que um rei que se diz justo. – disparou Elinor, sem esperar que a rainha respondesse.

- Cale-se. – bradou o rei, de repente, batendo com o talher no prato, de forma tão ríspida, que o barulho da louça fez algumas damas sobressaltarem-se – Eu ordeno que você fique quieta e coma a sua comida antes que estoure uma veia da minha cabeça, Elinor. Eu não tolerarei rebeldias!

- Eu perdi a fome! – disparou a princesa de Káden, atirando o prato e os talheres na mesa, agressivamente, e levantando-se da cadeira. – Com licença, majestade... – ela fingiu uma reverência, carregada de sarcasmo - Mas eu vou me retirar agora antes que eu tenha uma indigestão.

- Eu não disse que você podia se retirar! – rebateu o rei, erguendo-se também e encarando a filha. – Sente-se no seu lugar e coma o que está no prato! Eu ordeno, Elinor.

- Não! – berrou ela, e após dizer isso, correu na direção da porta, abriu-a ela mesma e saiu por ela com toda a velocidade.

- Você pode até achar um convento, Elinor, mas não vai se livrar de mim! – berrou o rei nas costas da filha, ao vê-la desaparecer.

Naquele momento, Catarina fez menção de seguir a prima, mas Thomas olhou-a com todo o ódio contido nas faces coradas, e apontando um dedo para ela, ordenou:

- Você, fique exatamente onde está! Vai comer até quando eu disser que está satisfeita e vai fazer companhia à minha rainha enquanto eu disser para fazer! – esbravejou ele, fazendo a jovem sobrinha se sentar novamente e encolher-se com medo.

E ao dizer isso, Thomas voltou a se sentar, mas estava visivelmente alterado. Quando ele quis se acomodar na cadeira, uma vertigem o acometeu e ele se desequilibrou. Um camareiro correu para ele e o apoiou no braço, mas o rei afastou-o com raiva, quase batendo-lhe na cara, e voltou a cair sobre a cadeira, transtornado. Maeve percebeu que ele verdadeiramente passara mal, pois ficara pesadamente pálido. Thomas passou a mão pelo rosto e finalmente disparou:

- Maeve! – ele chamou o nome da rainha com violência – Você não comerá mais até amanhã. Vocês estão me escutando? – perguntou ele virando-se para os criados e as damas – Nem um resquício de comida. Só vai tomar água! Isso é para purificar você! – e ele sorriu com ferocidade, arreganhando os dentes para ela – Vá imediatamente para o seu quarto e vista-se. É comum que a noiva acompanhe a missa das seis horas da tarde, a mais importante em nosso reino. As suas damas de companhia devem acompanhá-la, eu não a quero sozinha um só minuto. Você fará uma vigília. Passará a noite rezando ao nosso Senhor Jesus Cristo pelos pecados que a sua alma carrega, pois eu não quero ser contaminado por eles. Depois da meia noite, você poderá voltar ao castelo, quando o sino der a terceira badalada, anunciando o dia das nossas bodas. Retire-se.

Depois que escutou aquelas palavras, em silêncio, Maeve levantou-se para sair dali imediatamente. Como a porta já estivesse aberta pela saída de Elinor, ela apenas dirigiu-se para a entrada acompanhada das damas. Mas antes que pudesse cruzar o umbral, escutou a voz de Thomas dizendo mais uma vez:

- E coloque um véu nesse rosto. Eu não quero você seja vista desse jeito.

Maeve não se voltou para olhá-lo outra vez, e apenas saiu com as suas damas, tão assustadas quanto ela própria. Sozinhos na mesa, Catarina estava congelada no lugar sem saber o que dizer, ou fazer, ou mesmo onde pôr as mãos. Foi Thomas quem, olhando para ela com seriedade, encostando-se na cadeira, e disse:

- Eu também tenho planos para você, Cathy. – falou o rei.

- Para mim, meu tio? – ela ergueu os olhos verdes para ele, surpreendida por escutar aquilo. – Mas, eu...

- Você sofreu muito após a morte de seu pai e eu sinto que não cumpri meu dever como seu único parente vivo. – completou o rei, sem deixá-la terminar. – Cada ferida que sofremos é uma lição, e cada lição nos torna melhores. Eu tenho certeza que você será uma filha mais compassiva do que Elinor. E mais obediente também.

- Majestade, eu não sei o que dizer... – ela tornou-se estranhamente preocupada pelo que poderia estar passando na cabeça do tio – Eu estou muito feliz vivendo em meu castelo, com meus servos e minhas damas. Não nos falta nada e...

- Falta, sim, minha cara. Falta um marido, que é o complemento natural da vida de uma mulher. – falou o tio. – Você irá se casar, Cathy, muito em breve.

- Mas, meu tio... – ela tentou argumentar, virando-se na cadeira, mas Thomas ergueu um dedo para ela pedindo silêncio.

- Você ousa contestar seu tio e seu rei? – ele soergueu as sobrancelhas. – Você não é bem-vinda em Káden, minha querida. Muitos súditos, e eu não duvido que também muitos nobres, julgam que você é a verdadeira herdeira e a única Grande Rainha oficial de Rammaren. Alguns nobres traidores, que eu ainda desconheço os nomes, mas farejo os passos, seriam capazes de tudo, até mesmo de uma conspiração, para ver você ocupar o trono em meu lugar. - completou o rei com uma estranha ferocidade no olhar.

- Meu tio, eu não aspiro à realeza. Eu realmente não desejo ser a Grande Rainha em seu lugar, eu... – Catarina sentiu-se trêmula, pois sabia que o tio havia participado do assassinato de seu pai; mas Thomas cortou-a mais uma vez.

- Eu não hesitaria em matá-la se tivesse certeza que você representa um perigo para mim. Mas eu não posso ignorar os boatos e os fatos. Se você quer se dar bem na corte, Catarina, se você ainda quer permanecer viva, deverá fazer exatamente o que eu mando. Você vai descobrir, como a mulher sensata que eu julgo que você seja, que um bom comportamento pode conquistar coisas que muitas espadas não conseguem. - falou Thomas.

Após um curto silêncio em que a jovem tentava organizar as ideias, Catarina finalmente ergueu a vista para o tio, e muito séria, com ansiedade na face e medo estampado nos olhos, ela interrogou com a voz trêmula:

- E com quem eu devo me casar, meu tio?

- Com o meu general real, lorde Giovanni D’Angeri, mais conhecido pelo carinhoso apelido de Máscara da Morte! - e o rei sorriu para ela com sarcasmo.

Catarina sentiu-se gelar pela notícia. Não conhecia pessoalmente o general real, mas a fama de Máscara da Morte chegara às suas terras. Era um homem temido e reconhecidamente cruel com aqueles que ficavam sob seu poder. Ela tentou controlar os próprios sentimentos naquele momento, mas o rei, percebendo que a sobrinha não estava bem, curvou-se sobre a mesa, cruzando as mãos, e disse:

- Escute, Giovanni não é um homem em quem eu possa confiar. Eu tenho homens leais ao meu redor, mas definitivamente o general não é um deles. – falou Thomas.

- Então, meu tio, por que o mantém como duque de guerra? – interrogou Catarina, sentindo um aperto na garganta pela notícia, e sem que ela própria compreendesse muito bem, a imagem de Mu veio à sua cabeça.

- Porque, minha cara, ele é um assassino frio e calculista e um rei sempre precisa ter um homem como ele ao seu lado. Um homem sem escrúpulos para quem matar uma mosca ou uma pessoa não representa grande diferença. - salientou Thomas - Giovanni estrangula bebês em seus berços...

Disse Thomas, olhando a sobrinha nos olhos, e deteve a fala esperando que ela demonstrasse alguma reação de medo, pois apreciava vê-la com medo e submissa aos seus caprichos.

- Mas ele faz isso apenas quando os pais lhe pagam. - completou o rei - Eu prefiro manter Máscara da Morte como aliado do que tê-lo como inimigo. Ele comanda todos os exércitos. As tropas de Káden são fiéis a ele, como passava com os antigos comandantes das legiões romanas. E ele é romano. - Thomas ficou silencioso por um momento, era um homem religioso e supersticioso - Alguns dizem que ele é a encarnação de César. Eu não posso arriscar a minha coroa por conta de um estrangeiro que tem uma incrível habilidade para liderar homens em batalha.

- E é com esse assassino vil que o senhor deseja que eu me case? Quer que eu passe o resto da vida ao lado de um homem como ele? – Catarina sentiu vontade de chorar naquele momento. – O senhor não pode me obrigar a isso! Não pode me condenar a uma existência de sofrimento e...

- Todos nós devemos nos sacrificar em prol de um bem maior, minha querida sobrinha. - falou ele, tomando a palavra - O seu pai sacrificou a própria vida pelo que acreditava ser o melhor para Rammaren! Eu terei que me sacrificar casando-me com a filha do meu maior inimigo. E é como o seu rei, a quem você deve obedecer, a quem você jurou lealdade, que eu ordeno, Catarina. – falou Thomas, fazendo-a silenciar – Vai se casar com ele porque eu preciso manter a lealdade de Giovanni de alguma forma.

- Mas, e Elinor? - perguntou Catarina, desesperada; não deseja mal à prima, mas queria escapar daquele destino a qualquer preço - Ela é sua filha, meu tio. Que melhor aliança poderia o senhor ter do que entregar a herdeira de Káden ao duque de guerra?

- Seria, sim, minha cara, se eu não tivesse você para entregar a ele. Elinor é um prêmio alto demais para que eu a entregue tão facilmente. Mas você é minha sobrinha, é uma maneira perfeita de unir Giovanni à casa real de Káden. Você compreende, não é? - falou Thomas.

Catarina olhou para o tio por alguns minutos antes de balançar a cabeça afirmativamente em resposta. Desviou o olhar dele e voltou a fitar o prato à sua frente.

- Excelente. – sorriu o rei – Amanhã mesmo, durante o baile do meu casamento, eu terei a felicidade de anunciar a sua boda.

O.o.O.o.O.o.O Reino de Tasha O.o.O.o.O.o.O

Ela montava majestosamente o belo cavalo de pelagem branca como a neve sobre a qual cavalgava. Munida de uma lança, com o alforje de flechas pendurado às costas e o arco colocado no ombro, a rainha de Arianrodh movimentava-se célere, com uma velocidade que fazia invejar aos mais especialistas cavaleiros de Rammaren.

Estava trajada com um grosso casaco de peles e os cabelos estavam trançados à moda do norte, as tranças loiras caindo pelas costas e fazendo-a parecer a temível rainha das valquírias, Brunhilda, da qual seu próprio nome descendia. Segundo se contava em sua terra, ela era protegida de Odin e o cinto que portava fazia com que ninguém, homem ou mulher, lhe derrotasse em batalha.

- Muito bem, majestade! – gritou um de seus oficiais, que cavalgava junto a ela, acompanhados de outros soldados. – A senhora sempre foi uma exímia caçadora.

- Você vai dizer agora que eu caço quase tão bem quanto um homem, Josten? – ela perguntou, cínica, mas com uma entonação amigável.

- Eu não quis dizer isso, majestade. – desculpou-se rapidamente o soldado, com medo de ter sido mal interpretado pela mulher – Eu apenas quis salientar...

- Eu sei, Josten, não precisa pedir perdão. Você não fez nada de errado. Você foi criado como qualquer outro homem, achando que quando uma mulher é boa demais em alguma atividade naturalmente masculina, ela deve ser comparada ao sexo oposto, pois uma mulher nunca é boa o suficiente para ser considerada boa enquanto mulher, sem comparações. – respondeu ela.

- Majestade... – ele gaguejou, mas ela o cortou de imediato.

- Vocês, homens, acham que é necessária uma grande habilidade para caçar um gamo? Ou, talvez, caçar necessite de conhecimentos mágicos que apenas o sexo masculino possui? – ela sorriu – Eu posso garantir, Josten, que caço bem por ser mulher, e não apesar do meu sexo. Vamos! – falou ela com um tom de ordem – Agarrem o gamo e tragam-no para mim.

Ao ouvirem a voz da rainha, alguns soldados desceram de seus cavalos e se precipitaram para o animal ferido, que agonizava. Terminaram de matá-lo, rapidamente, e prepararam a carroça para pô-lo em cima e carregá-lo para o castelo.

- A sua pontaria é invejável, senhora. – comentou outro soldado – Acertou em um gamo macho.

- Eu conheço a época da procriação, Amundsen. Eu jamais acertaria em uma fêmea, ainda mais quando ela poderia estar carregando um filhote na barriga ou amamentando. – falou Hilda, imponente em cima do cavalo – São os machos que merecem morrer, e como eu não posso sair por aí matando os machos humanos, eu me vingo nas outras espécies do reino animal. – e ela piscou um olho, sarcástica, fazendo os soldados rirem, mas de nervoso.

- Deseja retornar ao palácio agora, majestade? – interrogou Josten, aproximando o cavalo e colocando o animal ao lado da montaria de Hilda – Se ainda quer assar esses dois belos animais, eu receio que seja melhor começarmos cedo. O tempo vai piorar. – e olhou para o céu.

- Dê ordens para que voltem ao palácio. – falou ela, sem olhá-lo, mirando sempre em frente.

O homem voltou-se para trás, por um instante, e com um gesto de mão e um grito ordenou que o pequeno grupo se pusesse em marcha na direção do castelo de Hayal:

- A rainha deseja voltar agora. – gritou Josten – Atrelem os animais nas carroças! Vamos!

– O gamo deve ser colocado aos pés do meu marido. Um presente meu para o rei. – disse Hilda quando ele novamente se virou para frente, cavalgando ao lado dela.

- Mas, majestade, o costume é que o rei faça a oferenda à rainha. – consertou Josten.

- E quem você acha que será o rei de Arianrodh, Josten? – ela, finalmente, voltou o rosto para o conselheiro – Eu jamais permitiria que qualquer pessoa, ainda mais um homem estrangeiro, gritasse ordens na minha terra. Eu sou o rei de Arianrodh, eu e ninguém mais. Meu marido é apenas um enfeite necessário para um rei que nasceu com uma vagina entre as pernas.

- A senhora é o melhor general que eu já pus os olhos em cima. – anunciou Josten, olhando a bela mulher com um olhar paternal – As pessoas dizem que...

- Eu sei o que as pessoas dizem. – Hilda cortou a fala dele – Que a minha força e a minha inteligência, que a minha habilidade no campo de batalha e minha persuasão nos assuntos de estado são dádivas recebidas de um deus: Odin. – ela sorriu com ironia. – Em outras palavras, um homem. – ela gargalhou cinicamente.

- O povo acredita que o cinto que a senhora usa foi dado à senhora pelas mãos do próprio rei dos deuses. – argumentou Josten, falando dos deuses com respeito e devoção.

- Talvez. – ela resmungou, dando de ombros – Veja você, Josten, como nós, mulheres, somos tão pouco consideradas. As histórias que nos contam quando somos crianças nos mostram um mundo dominado por homens. Aquiles, Odisseu, Zeus, Apolo, Poseidon, Teseu, Perseu, Odin, o grande herói Siegfried, Thor... – ela suspirou – Tantos homens para quantas mulheres? – ela olhou o conselheiro – Cleópatra? Ela teve Roma aos pés dela e, no entanto, diminuem o poder dela em prol de sua beleza e sedução. Temos tantos heróis e apenas uma Cleópatra, e por trás dela a História ainda coloca as figuras masculinas de Júlio César e Marco Antônio.

- A senhora é cruel com o meu sexo. – Josten sorriu para ela enquanto cavalgavam de volta ao castelo.

- Você acredita na Eva cristã? – perguntou Hilda – A Bíblia deles tem uma história engraçada sobre uma mulher que é enganada por uma cobra falante e come uma maçã. Mas essa maçã não é qualquer maçã, Josten, mas a maçã do conhecimento do bem e do mal. E por causa disso, por abrir os olhos do homem, fomos acusadas de fracas e manipuladoras, culpadas pela perdição de toda a humanidade. E os cristãos queimam as mulheres deles porque acham que a boceta delas é a porta pela qual Satanás entra no mundo.

- Os cristãos são pessoas muito esquisitas. – suspirou Josten.

- É nas mãos deles que a minha prima se encontra. – disse Hilda e ela tornou-se séria naquele momento – E como mulher eu não me sinto bem em ver outra mulher sendo entregue à danação.

Eles se aproximaram dos portões do castelo e os mesmos foram abertos de par em par para que a escolta da rainha entrasse. As pessoas cumprimentavam Hilda com admiração e respeito e ela devolvia os sorrisos com generosidade. Quando acercou-se da entrada, ela desmontou o animal e entregou as rédeas ao cavalariço. Ao erguer os olhos, sorrindo, Hilda viu Julian caminhando na direção dela.

O jovem rei parecia bem disposto após ter ficado doente pelo esforço e pelo frio que tomara para salvá-la. Desde então, a rainha demonstrara para com ele uma ternura maternal, pois reconhecera que o rapaz se sacrificara por ela e poderia ter morrido para deixá-la com vida.

Aquele gesto realmente a havia impressionado. Julian era jovem, ela sabia disso, ainda não tinha completado vinte anos, mas era forte e corajoso e ela admirava os homens que eram nobres no coração.

- Minha esposa. – ele exclamou quando aproximou-se dela, levando sobre os ombros uma imensa pele para protegê-lo do frio atroz – Eu fiquei assustado quando acordei essa manhã e não a vi ao meu lado. Já estava ficando acostumado em tê-la como minha cuidadora enquanto estive com febre. – e sorriu, parando diante dela.

- Eu fico feliz em vê-lo bem. – Hilda também sorriu para ele – Mas o exercício da caça me chamou. Eu adoro caçar. Ficarei contente quando você puder me acompanhar aos campos, meu marido. – ela pronunciou aquele termo com ironia, mas também com satisfação – Disseram-me que Volterra tem bosques aprazíveis para caçar javalis.

- Os melhores que você irá conhecer, eu posso assegurar. – respondeu Julian – Mal posso esperar para levá-la ao meu reino e coroá-la como minha rainha.

Hilda abriu ainda mais o sorriso para ele, com sinceridade, mas quando deu um passo na direção de Julian, para beijá-lo nos lábios, a figura de Siegfried saiu de trás das costas do jovem rei e a rainha encarou o general do exército de Arianrodh. O sorriso se desfez nos lábios dela quando os olhos azuis cravaram-se no rosto de Siegfried. Ele, por sua vez, estava tão sério que ela mal o teria reconhecido se não fosse pela armadura que ele usava, como duque de guerra.

- Majestade. – cumprimentou Siegfried, com uma frieza glacial, curvando-se diante dela com uma distância oficial que a fez franzir o cenho – Seu tio, o rei Hayal, deseja vê-la com urgência.

Houve um silêncio entre eles, enquanto Hilda olhava para o general com uma profunda angústia, mas sem saber o que fazer ou dizer. Nada do que gostaria de falar para ele poderia ser dito naquele momento na frente de terceiros. Siegfried teria que esperar por uma explicação, e ele a teria.

Mas se o rei de Tasha queria vê-la, os assuntos políticos eram mais importantes do que os ciúmes de um amante. Sim, Siegfried teria que aguardar até que ela estivesse disponível para explicar o que ele queria saber.

Por essa razão, o general apenas a encarou com a seriedade devida a qualquer soberano, mas o olhar dele já não exibia sentimentos por ela, parecia ter-se distanciado totalmente e aquilo terminou por preocupá-la. Por que ele simplesmente não podia entender as responsabilidades que ela tinha enquanto rainha e os sacrifícios que precisava fazer para manter o reino a salvo?

- Diga ao meu tio, o rei, que eu irei ao encontro dele imediatamente, Siegfried. – respondeu ela, por fim, com uma entonação firme.

- Eu irei com você. – anunciou Julian, olhando para Hilda – Eu sei exatamente do que se trata. Enquanto esteve fora, o rei conversou comigo. As notícias não são nada boas.

- O que aconteceu? – a rainha estreitou os olhos sobre o marido.

- Sua prima, a princesa Maeve, vai casar com o rei Thomas manhã pela manhã. – respondeu Julian.

- Amanhã? – Hilda sentiu-se ligeiramente perturbada – Mas o casamento seria apenas no natal! Por que essa mudança tão brusca?

- Não sabemos. Quem pode entender os caprichos de Thomas? – Julian deu de ombros, sorrindo com indiferença. – Provavelmente, o rei deve estar ansioso para pôr as mãos na jovem e bela esposa virgem! – desdenhou.

Mas quando Hilda o encarou com uma fúria estampada nos olhos pelo comentário que ele fizera, Julian pigarreou e deixou que o sorriso se desfizesse, colocando-se sério.

- Perdoe-me pelo comentário, mas não temos a menor ideia do por que Thomas resolveu antecipar a cerimônia. – disse Julian.

- Ou talvez o seu casamento tenha provocado algum efeito de pavor no Grande Rei. – comentou a voz de Hayal, que entrou no salão do castelo naquele momento. – Saiam todos! Deixem-nos a sós! – gritou o rei com firmeza e autoridade e foi prontamente obedecido.

O rei de Tasha aproximou-se da sobrinha e do rei Julian com desenvoltura. Estava trajado formalmente. Hayal era alto e tinha profundos olhos azuis acinzentados, o mesmo par de olhos que alguém poderia encontrar no rosto da filha. Era alto e bem configurado de corpo. Quando mais jovem provavelmente fora um homem bonito e atraente.

- O senhor acha que Thomas viu o meu casamento como um ataque velado à segurança de Káden? – perguntou Hilda, dando atenção ao tio, que parara diante dela.

- Você é uma rainha poderosa e é minha sobrinha, juntos, nós dois unimos todo o norte do país. E você está casada com Volterra agora, ou seja, norte e sul estão em harmonia e os exércitos do Mediterrâneo estão sob o comando de seu marido. – falou Hayal, com um suspiro – Sim, sobrinha, o seu casamento foi um grave golpe aos planos de Thomas.

- E se levarmos em consideração o ducado Heisntein, o Grande Rei está isolado e não viu outra saída senão correr para nós, como um cachorrinho. – salientou Julian, com um sorriso sarcástico.

– Maeve será peça chave no nosso jogo político. Se ela der um herdeiro masculino ao trono de Káden, então nós teremos o Grande Rei em nossas mãos. – completou Hayal.

- Eu não gosto de saber que estou me sustentando nas costas de outra mulher! – rebateu Hilda, olhando para o tio e para o marido, dando alguns passos pela sala, ficando de costas para os homens – Eu contava em ver Maeve antes dela se casar, mas...

- Mas não será possível. – disse Julian – Não chegaremos a tempo. Se deixarmos tudo pronto e partirmos amanhã, então estaremos em Káden na próxima semana.

- Eu darei as minhas ordens. – retorquiu Hayal – Iniciaremos a viagem amanhã antes do sol nascer, com ou sem nevasca.

- Eu gostaria de ver a minha prima... – falou Hilda, mais consigo mesma do que com os outros, mas falando em voz alta – Ela não teve mãe. – virou-se para o tio – Eu gostaria de acalmá-la para a primeira noite. Maeve é inexperiente, meu tio, se ela cometer algum erro, tudo poderá ir por água abaixo! Eu poderia ensiná-la a como controlar um homem usando o que ela tem entre as pernas.

Hayal sorriu diante daquelas palavras que lhe pareceram rebeldes e havia surpreendido os poucos homens presentes. Mas ele apenas caminhou até ela e tomou Hilda pelos ombros, fazendo a sobrinha encará-lo com firmeza.

- Maeve cresceu em um convento por ordens de Thomas. Se minha filha tivesse vivido aqui, comigo e com as amas, ela teria tido uma educação melhor. Seria mais forte e mais dona de si. Mas o que Thomas deseja é um animalzinho indefeso que se submeta a ele. E, pelos deuses, ele terá isso amanhã. Eu mesmo garanti isso durante todos esses anos. – Hayal suspirou – Ela pode não ser forte como você, Hilda, mas Maeve precisa encontrar sua própria força para saber superar e reagir às adversidades.

- O senhor entregou a sua própria filha ao covil dos lobos. – exclamou Hilda, impacientando-se, retirando as mãos do tio de cima de si mesma – Não estou falando sobre se impor como rainha, mas de ser violentada na primeira noite. Mulher alguma merece passar por isso. – e ela tornou-se taciturna naquele momento como se alguma lembrança dolorosa a atormentasse; balançou a cabeça negativamente – O senhor não sabe como é. Não entende o que é ser mulher e tudo o que precisamos suportar para servirmos a esse maldito jogo político.

- Bem... – Hayal pôs as mãos para trás das costas – Ela não será a primeira esposa a ser estuprada na noite de núpcias. Tantas mulheres passaram por isso, você passou por isso. Por que com ela deveria ser diferente?

- Ela é sua filha! – Hilda estreitou os olhos sobre o tio – Como pode falar assim?

- Maeve nasceu para cumprir o destino dela: casar-se e ter filhos. Vê-la casada com o Grande Rei é mais do que eu poderia esperar. Eu garanto, sobrinha, que o que ela tem entre as pernas vai sobreviver à noite de núpcias. – e ele piscou um olho para ela. - Quem procura evitar seu destino ou retardar o sofrimento apenas se condena a sofrer duplamente, em outra vida.

O.o.O.o.O.o.O Káden O.o.O.o.O.o.O

Fazia dois dias inteiros que ela cavalgava quase sem parar. Tirando as poucas horas em que descansara nas margens de um regato para esticar as pernas e tratar dos pés que estavam feridos, Esmeralda correra como um raio entre matas e charnecas a fim de chegar ao castelo do pai. Quando entrara pelos portões, naquela manhã, todo o cansaço da viagem agreste que tinha feito baixou em cima dela de repente.

Ao longe, ela viu os camponeses entrarem e saírem do castelo, os servos estavam entregues aos seus afazeres e ela somente pôde perceber que alguém havia notado a sua presença quando uma das criadas gritou o seu nome, ao longe.

Mas a voz parecia tão distante. Esmeralda entreabriu os lábios para dizer qualquer coisa, mas não foi capaz. Sentiu que seu braço erguia-se sem que ela mesma o controlasse, e quis chamar alguém com a mão.

Mas pálpebras pesaram sobre seus olhos, e quando ela viu algumas figuras correrem em sua direção, a jovem sentiu-se apagar aos poucos, a escuridão invadindo-a totalmente quando seu coração percebeu que já estava segura em casa. Terminou por desmaiar em cima da cela.

- É a menina! – gritavam as vozes ao redor.

- Alguém segure o corpo, ela vai tombar no chão! – berrou outra voz em meio ao povo.

Esmeralda fechara os olhos e derreara para fora do cavalo, desacordada. E só não foi ao chão porque braços a agarraram e a tiraram de cima do animal. Colocaram-na sobre o chão e tentaram reanimá-la. Um grupo de vilões e camponeses já cercavam o local, curiosos, querendo saber o que estava acontecendo.

Um dos servos a tomou nos braços e a carregou para dentro do castelo, enquanto outros criados corriam na frente para avisar ao castelão que a filha tinha voltado, e viva. Dentro do palácio, Guilty escutara as vozes eufóricas do lado de fora e precipitara-se pelos corredores imensos e amplos a fim de alcançar a entrada. Quando chegou no pátio externo, viu a filha ser carregada por um criado, que caminhava na direção em que ele próprio estava.

- A menina voltou, senhor! – diziam as vozes, algumas em uníssonos – Ela está viva!

Guilty recebeu-a em seus braços e levou-a para dentro. Estava deveras emocionado, pois por mais que fosse um homem duro e embrutecido, Esmeralda era a única lembrança daquela maldita mulher a quem amara, mas que o traíra vergonhosamente e ameaçara, uma vez, destruir seus planos.

Livrara-se dela, mas não de sua lembrança, e tudo o que lhe havia restado era aquela filha, tão loira quanto a mãe, mas que servia de desafogo pelo crime que ele cometera.

- Tragam água! – berrava Guilty, enquanto colocava a filha sobre a cama que pertencia a ela – Rápido, seus imbecis! Tragam também água quente e panos limpos!

E acomodando o corpo desmaiado e enfraquecido de Esmeralda sobre o colchão, ele sentou-se ao lado dela, na cama, e passou a mão pela barba. Estava aturdido pelo que estava vendo. Não imaginara que pudesse sentir tamanha emoção ao voltar a vê-la com vida. E em seu coração sentiu-se feliz e, ao mesmo tempo, estranho por descobrir aquela capacidade de se importar com alguém.

Naquele momento, June entrou no quarto carregando uma jarra de água quente, que ela despejou em uma bacia de prata que estava na mesa ao lado do leito. Com um pano limpo, a serva começou a molhar o trapo e passá-lo no rosto da jovem. Esmeralda estava absurdamente suja, a cara coberta de fuligem e os pés feridos.

- Afastem-se! – ordenou Guilty, erguendo-se e dando espaço para que a criada trabalhasse – Saiam daqui imediatamente! Eu não quero ver ninguém dentro do quarto! – berrava ele, com ferocidade.

Quando o quarto principiou a se esvaziar, Esmeralda suspirou mais forte e abriu os olhos com dificuldade. Estava muito tonta e fraca, o corpo havia se alimentado mal e ela quase não tinha bebido água. O pai, pegando de um copo de estanho, encheu com água fresca e aproximou-se dela. June deu espaço para que ele sentasse, e o homem pôde oferecer o líquido reconfortante à filha. Ajudou a moça a erguer a cabeça e tomar um pouco de água.

Esmeralda tossiu algumas vezes, sentindo-se engasgar, e logo deitou-se novamente no travesseiro.

- Papai... – ela quis falar, mas estava sem forças e as palavras não saíam – Eu estou em casa...?

- Sim, você está em casa, minha filha! Está segura agora! – repetiu Guilty, olhando para ela e apoiando o copo na mesinha – Você voltou para mim. Eu julguei que nunca mais fosse vê-la outra vez, Esmeralda.

Naquele momento, a presença de uma outra pessoa na porta do recinto chamou a atenção dos três presentes no quarto. Shun havia se aproximado com cuidado. Estava sério e olhou para dentro com firmeza e afetação. Percebeu que os olhos de Guilty se fixaram sobre ele, assim como os de Esmeralda e também June, parada a um canto, mais afastada da cena.

Shun entrou no aposento pé ante pé, mesmo sem ter sido convidado. Mas parou a uma distância respeitosa, pois ele era apenas um servo do castelo, como seu irmão, e precisavam esperar as ordens dos senhores para fazer qualquer coisa. Foi Esmeralda quem sorriu para ele e estendeu a mão, chamando-o:

- Shun... – ela falou.

- Você viu meu irmão? – perguntou ele, sem atender ao pedido dela, mas encarando a jovem com profunda atenção.

- Eu mandei todos os meus homens atrás de você. – disse Guilty após escutar a pergunta do rapaz, olhando para filha – Foram eles quem a libertaram?

- Não, papai. – disse Esmeralda – Toda a tropa foi aniquilada junto com os soldados do rei Julian, de Volterra. – decretou ela.

- Não, isso não pode ser. – rebateu Shun, sorrindo nervosamente pelo que ouvia – O meu irmão foi atrás de você, enlouquecido, quando soube que tinha sido sequestrada pelo ducado. Você não o encontrou? – e ele franziu o cenho pesadamente.

- Eu não vi Ikki em momento algum. – decretou Esmeralda, sentindo-se estremecer com aquela constatação – Ninguém mais do que eu gostaria de tê-lo encontrado, Shun. Mas, infelizmente, só havia cadáveres por todos os lados.

- Meu irmão não morreu. – decretou Shun, tornando-se ligeiramente ríspido – Ele é um homem muito forte, o mais forte que já conheci. Ele não morreria tão facilmente...

- Todos estavam mortos, você precisa acreditar em mim. – tornou Esmeralda, apreensiva – E aqueles que não estavam, agonizavam a olhos vistos nas mãos dos soldados Heinstein. Não iriam durar muito. E Ikki não estava entre eles.

- Você viu o corpo? – retrucou Shun.

Houve um silêncio no quarto, e Guilty olhou do rapaz para a filha, esperando a resposta. Por um momento, ele sentiu-se gelar com a possibilidade de Ikki estar morto. Se assim fosse, os receios de ser descoberto em algum momento também seriam enterrados com ele. Por alguns segundos, enquanto Esmeralda não respondia, Guilty sonhou com a morte de Ikki. Seria capaz de ir atrás do corpo, apenas para que nenhuma dúvida perturbasse a sua felicidade. Faria um enterro digno de herói e até deixaria a filha chorar por ele.

- Não, Shun, eu não vi qualquer corpo. – respondeu Esmeralda por fim.

- Viu? – Shun soergueu as sobrancelhas, sorrindo com triunfo – Meu irmão não está morto. Ele vai voltar! Ele prometeu que voltaria para mim.

- Você deveria se retirar agora. – anunciou Guilty, erguendo-se e encarando Shun frente a frente – A minha filha passou por um trauma extremo. Ela está fraca e precisa lavar-se e comer alguma coisa. Você já vai ter tempo para fazer perguntas sobre o paradeiro de seu irmão. Mas o fato de não se ver o corpo não significa que Ikki não possa estar morto. Muitos soldados morrem em batalha, meu jovem, e as mães e esposas nem sempre têm um corpo para enterrar.

- Falando desse jeito, senhor, até parece que não tem interesse em ver o meu irmão com vida. – retrucou Shun – E ele é o seu homem mais corajoso.

- Eu darei ao seu irmão um enterro digno da confiança que eu tinha por ele. – retorquiu Guilty, disfarçando a irritação naquele momento. – Essa mesma tarde, Ikki deverá ser enterrado no jardim. Eu mandarei vir o padre para fazer uma oração.

Ao escutar aquilo, Shun relanceou os olhos para Esmeralda, que jazia na cama sem forças para chorar pelo amante que ela acreditava morto. O rapaz finalmente saiu, dando as costas para Guilty e desaparecendo pela galeria. June correu atrás dele e deixou pai e filha sozinhos nos aposentos. Guilty passou a mão pelo rosto e olhou novamente para a filha, forçando um sorriso para ela:

- Você tem certeza que toda a tropa está morta? - perguntou ele.

- Um amigo disse que não havia sobrado ninguém, papai. – falou ela, séria e contrita.

- Um amigo? – Guilty estreitou os olhos sobre ela – De que amigo você está falando, Esmeralda?

- Eu não posso revelar a identidade dele, papai. Mas o senhor tem muito o que agradecer a este honrado soldado. Foi ele quem me ajudou a fugir. – falou ela, esboçando um sorriso sem vida.

Pai e filha se entreolharam por alguns segundos. Guilty escutou aquelas palavras, mas não lhes deu muita importância. Suspirou e novamente considerou a filha deitada na cama:

- Fico feliz em vê-la bem, e viva. Amanhã será o casamento do rei e preciso que se recupere até lá. – falou o pai. – Eu quero tê-la ao meu lado durante a cerimônia.

Esmeralda não disse nada. Sabia que mesmo que protestasse contra aquela imposição, um desejo de seu pai era sagrado e todos deviam se curvar para ele. Ela apenas balançou a cabeça afirmativamente e Guilty beijou-a no topo dos cabelos, levantando-se para sair:

- Eu pedirei que as servas venham ajudá-la e que tragam comida. Você está fraca, mas o vinho trará vida novamente às suas faces. – e dizendo isso, ele a deixou com os próprios pensamentos.

O.o.O.o.O.o.O

O coche deteve o passo diante da entrada do castelo. Shion desmontou do cavalo com elegância, e entregou as rédeas ao cavalariço que se havia aproximado para receber o animal do ex-general do exército de Káden. O rapaz sorriu com grande respeito para o homem mais velho, e seus olhos exprimiam admiração e devoção pelas histórias de bravura que se contavam daquele cavaleiro.

- Obrigado, meu rapaz. – disse Shion, sorrindo com cordialidade e tocando o outro no ombro.

- É uma honra, mestre Shion. – falou o jovem, emocionado, levando o cavalo para o estábulo.

A porta da carruagem abriu-se e Polímnia foi a primeira a saltar para fora, acompanhada dos filhos pequenos e de Samantha, sua criada particular durante a viagem. Com um suspiro de irritação, Charlote foi a última a descer.

Viajara com a cortina corrida na janela durante todo o trajeto, o que fizera a mãe quase se enervar. Não tinha vontade de olhar novamente o padrinho depois do que tinha passado entre eles no quarto da serva. Já era o bastante haver aguentado os olhos julgadores e odiosos da criada para si durante o trajeto.

Quando ela pôs os pés sobre a relva, o primeiro rosto que viu foi o de Dohko, com os belos olhos castanhos cor de mel, os cabelos negros e a pele morena. Ele ainda estava montado no cavalo com o qual viajara e olhara para ela assim que viu a cabeça da afilhada apontar para fora do carro. Houve um silêncio naquela troca de olhares, apenas cortado pela gritaria dos pequenos e as ordens que Polímnia dava para Samantha, que já segurava uma imensa arca nos braços.

- E, então, minha esposa? Qual é a impressão que você tem de Káden após cinco anos sem pisar na corte? – perguntou Shion dirigindo-se à mulher com um sorriso de afeto. – As torres pareciam mais altas antigamente, ou talvez foram as nossas ambições de mudar o mundo que murcharam e isso afetou a nossa percepção!

- Você sabe que eu amo o reino. – disse Polímnia – Aqui respira-se melhor, Shion. A sensação que tenho, quando estou em Káden, é que há cheiro de revolução nas ruas.

- Não comente isso perto do rei, minha senhora, Thomas tem tido sonhos repetidos de que perde a cabeça pelas mãos do povo!

A voz de Mu soou próxima a eles naquele momento. O conselheiro real sorria quando acercou-se à comitiva e foi recebido por Shion e Polímnia, que o corresponderam no singelo sorriso ao vê-lo. Quebrando qualquer protocolo, o chanceler caminhou até Shion e o abraçou tal como um filho faria a um pai. Shion sentiu-se enternecido pela demonstração de afeto.

- Eu já ia perguntar onde estava o meu pequeno discípulo que ainda não tinha vindo me receber. – falou Shion com tom de gracejo – Mas, pelo que você pode ver, Polímnia, não há mais qualquer “pequeno” por aqui.

- O senhor sempre será meu mestre. – retrucou Mu – Kiki! Há quanto tempo! Você cresceu bastante desde a última vez em que o vi.

Naquele instante, do carro das servas que acompanhavam a família, o pequeno garoto, órfão de pai e mãe, saltou com agilidade e acercou-se do padrinho, o próprio ex-general real. Shion olhou a aproximação do rapazinho, que contava doze anos, e sorriu para Mu, soerguendo as sobrancelhas, indicando a criança em questão.

- Parece que você tem um substituto, Mu. – disse o mestre – Está me dando bastante trabalho, mas Kiki parece ter um futuro, isso se conseguir respeitar alguma disciplina.

- Guie uma criança pelo caminho que ela deve seguir e guie-se por ela de vez em quando. – comentou Mu, sorrindo.

- Eu serei seu melhor soldado, mestre Shion. – salientou o menino com empáfia. – Tenho habilidade com a espada.

- Eu realmente espero que essa habilidade na esgrima seja tão grande quanto a que você tem com a língua. – salientou Shion, com ironia, sorrindo.

- Eu tenho certeza que, aqui no castelo, ele irá respeitar as regras. – disse Mu, também dando atenção ao pequeno – Há alguém aqui que ele vai gostar muito de encontrar novamente.

- E quem é? – o menino franziu o cenho.

Mu abriu um sorriso misterioso para ele, fazendo cara de suspense. Em seguida, sem responder a Kiki, olhou novamente para Shion. Com um gesto de olhos, o chanceler indicou que ambos deveriam afastar-se dali para conversarem a sós. Quando haviam dado alguns passos, Mu quebrou o silêncio e a curiosidade de Shion:

- Ela está aqui, mestre. – falou Mu.

- Quando ela chegou? – interrogou Shion, entendendo exatamente a quem o discípulo se referia.

- No dia do baile. Encontrou-se com o rei essa manhã, mas não posso lhe dizer sobre o que trataram. Contudo... – naquele momento, o chanceler suspirou, deixando o sorriso desaparecer. – Ela não parecia muito satisfeita após a ceia na companhia do tio.

- E você já procurou saber as reais intenções dela a respeito dos nossos planos? – tornou Shion, enquanto caminhavam lado a lado. – Não podemos seguir adiante sem o consentimento dela, você sabe disso.

– Eu sei, mestre, mas eu também acredito que já é tempo de fazermos alguma coisa. A rainha não vai aguentar muito mais. As agressões estão ficando piores. – e Mu deteve o passo, virando-se para o mestre e encarando-o de frente – Depois da noite de núpcias, Thomas vai matar a rainha.

- Por que acha isso? Ela é perfeita! Virgem e submissa, Maeve nos dará tempo para agir. Será um entretenimento maravilhoso para um homem dominador, sádico e luxurioso como Thomas! – rebateu Shion.

- Submissa ela pode até ser... – volveu Mu – Mas, virgem... – ele balançou a cabeça negativamente – Se ela sobreviver à noite de amanhã, então, sim, talvez nós tenhamos algum tempo disponível, mestre...

- Quem foi? – Shion franziu o cenho, estreitando os olhos sobre Mu. – Nobre ou servo?

- Eu não posso dizer ainda, mestre. – respondeu Mu após alguns segundos de silêncio – É uma informação valiosa e talvez precisemos dela. Quem sabe poderemos usar isso ao nosso favor se nada mais der certo.

- Mu, você realmente me surpreende. – Shion esboçou um sorriso pela estratégia do outro – Você parece um cordeiro manso, mas está mostrando as garras. Eu gosto disso.

- Eu sou um conselheiro, mestre, ainda não sou um santo. – Mu piscou um olho – Certamente, eu não serei canonizado e tampouco acho que a santidade combine comigo.

- Então, a rainha está usada... – comentou Shion consigo mesmo. – Eu não julguei que essa princesa pudesse nos surpreender. Dizem que foi criada dentro de um convento. Talvez as freiras tenham mais sangue nas veias do que seus mantos negros de escravas podem mostrar.

- O rei já desconfia, mas está desconfiando do homem errado. – rebateu Mu – Entretanto, o pobre diabo não tem qualquer importância para os nossos planos. Deixá-lo morrer no lugar do verdadeiro culpado não nos custará muito.

- Quem é o infeliz que teve a má sorte de cair nas malhas de Thomas? – surpreendeu-se Shion.

- O cigano espanhol. – respondeu Mu – Thomas deu ordens para que ele fosse torturado até que confesse tudo o que o rei deseja ouvi-lo confessar. E amanhã, durante a festa de casamento, ele será enforcado diante de todos.

Shion mordeu o lábio inferior ao escutar aquilo. A notícia da antecipação do casamento pegou a todos de surpresa, e agora aquilo! A rainha não era mais virgem e um homem inocente seria enforcado por causa dela! Thomas, sem suspeitar de nada, havia impedido uma insurreição no dia de suas núpcias. Não havia tempo para reunir homens suficiente e dar um golpe. Derrubar um rei não era algo que se fazia todos os dias. Suspirando, o mestre tocou Mu no ombro e disse:

- Reúna os homens essa noite. Devemos discutir os nossos próximos passos. Eu soube que Kanon Lonnykus está na corte, avise-o para que esteja presente, e também lorde Aiolos, a quem não tenho o prazer de encontrar há algum tempo. Precisamos medir todas as nossas ações a partir de agora e não podemos cometer erros. – anunciou Shion.

- Eu receio, mestre Shion, que lorde Aiolos não vai se unir a nós. – decretou Mu, com cuidado. – Não quando ele souber o que pretendemos fazer.

- E por que não? – Shion estreitou os olhos sobre Mu – Aiolos é um dos nobres mais importantes e fiéis à nossa causa. Eu confio totalmente nele.

- Bem... – o conselheiro suspirou – Nós precisamos discutir algumas questões que envolvem lorde Aiolos e a rainha. Ele não vai aceitar nenhuma decisão que coloque a vida dela em perigo, se é que o senhor me entende.

- A história, então, está se repetindo. – anunciou Shion, e ele não pareceu estar satisfeito com aquela convicção. – Eu acho que vamos precisar chamá-la até a corte. – disse Shion, olhando Mu com insinuação. – Envie uma mensagem imediatamente até a vila no sopé do lago. Diga para que ela esteja aqui sem falta até amanhã. Ela deverá fazer a inspeção da rainha e declará-la virgem diante de todo reino.

O.o.O

Dohko havia desmontado do cavalo e também entregara as rédeas do animal a um cavalariço. Aproximou-se dos homens que os acompanhavam e deu algumas ordens para que desatrelassem as carroças e começassem a transportar as malas da família com a ajuda dos servos do castelo.

Naquele momento, ele percebeu que Eathan e Core corriam pelo pátio, na companhia do astucioso Kiki, que puxava os cabelos da filha mais jovem de Shion, irritando-a e fazendo com que a menina quisesse golpeá-lo com as mãos.

Ele balançou a cabeça negativamente, sorrindo pelas brincadeiras infantis. Mas quando tentou voltar-se para a direção da carroça, teve o caminho barrado pela figura de Charlote, que atravessou-se diante dele de maneira inesperada, quase fazendo o homem chocar-se contra ela.

- Você ainda está com muita raiva de mim? – perguntou ela, mais aflita do que propriamente séria, porém sem a entonação debochada que costumava ter no rosto e na voz. – Eu queria me desculpar e...

- Está tudo bem, Charlote.

Disse Dohko, cortando a fala dela, desfazendo o sorriso jovial que havia posto nos lábios após a longa viagem que tinham feito e durante a qual ele havia permanecido absolutamente sério, entre aos próprios pensamentos.

E sem esperar que ela respondesse de volta, o cavaleiro tentou desviar-se dela para retornar às tarefas. Mas a moça novamente fechou o caminho com o próprio corpo, impedindo que ele se afastasse.

- Você ainda não me disse se me desculpava pelo que eu fiz. – falou ela. – Você vai contar ao meu pai? – ela afligiu-se com a possibilidade – Vai dizer a ele o que eu fiz ontem?

- É disso o que você tem medo? – interrogou Dohko, soerguendo uma sobrancelha com profunda seriedade.

- Eu apenas gostaria que ficássemos bem. – tornou ela.

- Você não quer isso, menina, apenas está com medo de ser castigada por Shion se eu contar a ele o que você fez. – rebateu Dohko – Nós não estamos bem nem poderemos estar, Charlote. Não enquanto você não tirar da cabeça essa ideia insana de querer casar-se comigo.

- Eu o amo, Dohko. – declarou ela, encarando-o com nervosismo, as feições estavam contraídas e ele percebeu que ela falava aquilo com uma seriedade que ele próprio jamais havia visto nela – Se eu cometo ações vis, se sou obstinada, como diz mamãe, é porque eu o desejo para mim, senhor Dohko.

- Não use os seus sentimentos por mim como desculpa para machucar as pessoas. – disse ele, sério, mas com uma entonação amistosa – Isso que você sente por mim vai passar, eu posso garantir isso. Você é muito jovem, Charlote, jovem demais, eu receio. Precisa encontrar um homem que seja igualmente jovem e possa fazê-la feliz.

Ele novamente quis desviar-se para escapar das garras dela. Dohko não podia fingir para si mesmo que era indiferente à paixão que ela parecia nutrir por ele. Aquelas semanas passadas no castelo mostraram a ele que seus próprios sentimentos haviam sofrido uma mudança drástica. Ouvi-la falar que o desejava era quase uma tortura agora, pois havia feito uma promessa a si mesmo, naquela madrugada, enquanto cavalgavam pelos bosques sob a luz da lua, de que não iria encostar a mão na filha de Shion nunca mais. 

Mas Charlote de novo impediu-o de se afastar. Barrou o avanço dele com o próprio corpo novamente, ficando ainda mais próxima do homem, seus rostos estavam quase um sobre o outro, e os dois pares de olhos fitavam-se muito próximo, perto demais, e aquilo começava a se colocar perigoso.

- Eu nunca poderei ser feliz casando-me com outro homem e você sabe disso. Não há felicidade em um casamento quando o coração já foi dado para outra pessoa. Eu não quero mais ninguém, senhor Dohko. Prefiro trancar-me em um convento ou me afogar no rio, mas jamais aceitarei qualquer pretendente que os meus pais queiram atirar para cima de mim.

- Você age muito mal em relação a isso. Deveria aceitar de bom grado que o seu pai queira encontrar um marido jovem e nobre para você. – tornou Dohko, sentindo-se ligeiramente trêmulo com aquela conversa.

- Eu sei que você me deseja tanto quanto eu o desejo, padrinho. – Charlote encostou-se ainda mais nele, dizendo aquelas palavras quase sobre os lábios masculinos – Eu pude sentir o quanto o senhor me quer... – ela mordeu o lábio inferior – Não pode mentir para mim, os seus olhos me contaram...

- Eu sou um homem, Llote, meu corpo sempre vai responder às aproximações de uma mulher. – tornou ele, olhando para os lábios rosados diante de si e, em seguida, para os olhos verdes que o fitavam – Você não conhece sobre os homens, mas somos quase como animais. Sempre vamos reagir quando estamos perto de uma fêmea. Entenda, as minhas reações com você não envolviam sentimentos e...

- Você mente. – rebateu ela, com uma forte entonação, firme, que o fez calar-se de imediato – Mente porque tem medo que a sua amizade com o papai seja aniquilada. Admita, senhor Dohko... – pediu ela, olhando-o com aflição. – Você gosta de mim...

- Charlote, eu...

Ele tentou argumentar, passou a mão pelo rosto, apertou o canto interno dos olhos, mas quando ergueu o rosto para ela, a fim de dizer o que ela queria ouvir, a figura de Samantha emergiu um pouco distante, por trás do corpo de Charlote, alguns passos atrás dela. A morena estava parada, séria, com as feições enrijecidas e quase congeladas.

Havia algum tempo que a criada observava, ao longe, a conversa dos dois, muito próximos, sem parecer se importarem com quem pudesse estar observando. Polímnia estava distraída com os baús dos vestidos. Shion e Mu haviam se distanciado. As crianças brincavam. Os criados trabalhavam. Ninguém parecia dar qualquer atenção ao casal, a não ser ela.

Enquanto ajudava a retirar as malas, ao lado de Zaira, a serva mais velha, quase uma mãe para ela, Samantha revirava os olhos castanhos de bela árabe para o cavaleiro e a afilhada.

Não parecia satisfeita com a aproximação dos dois, quis saber, no fundo, sobre o que eles falavam, e sentiu-se crispar de ódio e de medo pelas lembranças do que havia ocorrido. Quando fez menção em se acercar do casal, Zaira a havia garrado pelo braço, impedindo-a de ir:

- Não faça isso. Não agora, na frente de todo mundo. – disse a boa serva de cabelos grisalhos e jeito maternal. – Charlote pode ter um gênio horroroso, mas é a filha do mestre Shion e você não ganharia nada afrontando-a. Ninguém a defenderia, Samantha. Portanto, fique onde está e deixe para conversar com o senhor Dohko a sós, mais tarde.

- Eu estou cansada de pertencer à escuridão, de ser sempre a mulher com quem ele precisa falar a sós, escondido, de noite, pela madrugada. – rebateu Samantha, olhando Zaira, que ainda apertava o braço da serva mais nova. – Ela não é melhor do que eu. É uma menina mimada, que sempre teve tudo o que quis, e Dohko seria apenas mais um presente que o pai entregaria a ela para fazer os gostos da filha. Como uma das bonecas dela, pelas quais ela chorava, mas às quais abandonava após conseguir.

- Quando pretende contar a ele o que passa com você? – interrogou Zaira, afrouxando o aperto, mas sem soltar o braço da serva – O senhor Dohko não é nenhum canalha, ele cumpriria a promessa que fez a você, e se casaria consigo. Até quando pretende esperar? Não vai poder esconder isso por muito tempo.

- Eu não quero que ele se case comigo apenas por compaixão pelo meu estado. – falou Samantha, voltando a olhar a distância – Eu quero que ele volte a me amar como me amava antes. Eu sinto que eu o estou perdendo. – e ela sentiu que os olhos encheram-se de lágrimas. – E eu não quero prender um homem a mim por causa de um filho. Eu prefiro me livrar disso e seguir minha vida.

E sem que Zaira esperasse, Samantha livrou-se das mãos dela e caminhou, decidida, para perto do casal que seguia conversando. Zaira ainda fez um gesto com a mão para segurá-la pelos cabelos, abriu a boca para gritar por ela, mas Samantha já estava no centro da cena, por trás de Charlote, alguns metros distantes. E quando Dohko levantou o rosto e a viu, ela o encarou com profunda tristeza, mas também com raiva e despeito.

Quando ele a viu, desistiu de falar com Charlote e baixou a cabeça diante da afilhada. Sem dizer mais nada, suspirou e deixou-a, sem dirigir qualquer palavra a Samantha também, abandonando as duas mulheres ali e afastando-se para longe, para cuidar dos outros cavalos que ainda estavam sendo cuidadosamente transportados.

O.o.O.o.O.o.O

Clara estava sentada em um banco diante de sua penteadeira. Olhava diretamente para o espelho enquanto uma serva começava a trançar seus longos cabelos castanhos, de pé, por trás dela. Ainda tentava organizar os pensamentos quanto ao que havia passado naquela manhã. Como pôde deixar-se agarrar daquela maneira, seminua, deitada ao lado de um homem que estava igualmente quase nu, ambos abraçados de modo pecaminoso e o que mais a afligia, não era qualquer homem, mas o amante de sua prima!

- Gwen, eu acho que vou ficar louca! – disse ela, falando com a serva, suspirando fortemente para acalmar a tensão que sentia no corpo. – Você acredita que pessoas possam nascer saudáveis e ficarem idiotas depois? Eu estou começando a achar que o meu destino talvez seja o hospício de Káden!

- Ah, minha querida, você é jovem. As moças como você, que ainda são donzelas, não têm qualquer razão para enlouquecer. Tudo o que você precisa é de um bom marido para aquietar os nervos e ocupar essa cabecinha.

Disse a serva, com uma entonação bondosa. Era gorducha e tinha o rosto de boa matrona. Jamais casara nem tivera filhos. Cuidar de Clara, quando os pais dela morreram, e depois que as duas foram mandadas para o castelo Áquilla, era a razão de sua vida. Clara tinha nela quase uma mãe, ou melhor, uma avó talvez, pois era certo que a mulher já passara dos cinquenta anos.

- Gwen, por que você acha que um homem teria o poder de aquietar os meus pensamentos? – tornou Clara, franzindo o cenho diante do que escutara.

- Ora, porque você vai ter que obedecer ao seu marido e não vai lhe restar muito mais tempo para pensar em coisas sem importância! – cantarolou a voz da serva, de forma cordial e sorrindo para ela.

- E por que eu terei que obedecer? – interrogou Clara, fazendo uma careta naquele momento.

- Porque para isso nascemos, para obedecer! Somos mulheres, esse é o nosso destino! – tornou a serva, com um tom de obviedade.

– E você, por acaso, acha que eu passo os meus dias pensando em encontrar um marido? – rebateu Clara, indignada pelo que ouvira.

- Se não passa, deveria passar. – rebateu a serva – Toda mocinha donzela deseja ter um marido, conquistar um bom pretendente, um cavaleiro honrado e corajoso. – falou Gwen, com ar sonhador – Um homem, minha querida, pode salvar uma mulher de cometer atos pecaminosos. – e ela suspirou com profunda seriedade religiosa. – Tudo o que uma mulher precisa é de um homem.

- Eu gostaria de saber quem criou a regra de que as mulheres nascem apenas para se casar. Por que acreditam que morreríamos sem um homem ou que nossas existências não seriam completas sem a presença de um marido? – rebateu Clara, revirando os olhos diante do que ouvira da serva – Minha vida não depende de um homem. Eu não preciso me casar para ser feliz. Eu sou feliz sendo livre, Gwen. A liberdade é absoluta, ou somos livres ou não somos. Ninguém morre com moderação, não é verdade?

- Deus nos criou para isso, minha querida, e é inútil querer tripudiar dos planos de Deus. – falou Gwen, ajeitando as tranças – Você diz essas coisas porque nunca se apaixonou de verdade. Mas chegará um momento em que o amor vai aparecer e você vai sentir vontade de estar com aquele homem.

- Gwen, o amor é para a mulher o que a guerra é para o homem: a coisa mais mortal que existe. – rebateu Clara.

Ao ouvir as palavras de Gwen, ditas com uma profunda entonação de devoção cristã, Clara sentiu-se anuviar. Sem que ela própria entendesse, a imagem de Aiolia veio-lhe à mente e ela lembrou-se dos beijos que eles haviam trocado naquela noite. Ele dissera que gostava dela. Naquela manhã, na frente da prima, Aiolia havia confessado que teria gostado de se deitar com ela.

Clara mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça negativamente, apertando as têmporas com força para extirpar aqueles pensamentos. Aquelas ideias não eram apenas loucas e pouco condizentes com uma donzela nobre como ela, mas também eram voltadas para o homem errado. Mesmo que Aiolia e Marin estivessem brigados, ela não teria coragem de roubar o amante da prima de uma forma tão baixa e vil.

Ela gostava da companhia dele. O primeiro beijo que haviam trocado ainda estava fresco na memória dela e nos lábios. Será que estava se apaixonando por ele? Não podia ser! Ela não poderia gostar de um homem como Aiolia! Ele era amante de Marin e só isso já era motivo suficiente para repudiá-lo. Ela definitivamente não sabia o que fazer.

- Eu não gosto de Deus, Gwen. – disse ela com um forte suspiro após o longo silêncio – Deus quer que eu me satisfaça com um mundo que eu não consigo entender.

- Não podemos querer compreender os desígnios de Deus, minha querida. – falou Gwen, sorrindo para ela – Somos muito pequenos para isso. Apenas devemos seguir o que os nossos pais seguiram, e os nossos avós antes deles, e assim até o início dos tempos.

- Você acredita que as coisas sempre foram assim e assim serão eternamente até o fim dos tempos? – interrogou Clara, franzindo o cenho para a criada. – Às vezes, eu sinto que o mundo me chama como se me dissesse: “Olha, existe algo mais do que essa vida que os homens impuseram para você!”

- As mulheres foram feitas para o amor, minha criança, assim como são os homens quem vão para a guerra, e não nós. Cada coisa em seu lugar. – tentou explicar Gwen.

- Eu não aceito isso, Gwen. As mulheres também têm uma mente e não apenas um coração. Nós temos desejos e ambições, não apenas beleza e submissão. Eu já estou farta das pessoas dizerem que nós servimos apenas para o amor e nada mais do que isso. – rebateu Clara – Quando os homens dizem que pertencemos aos sentimentos, eles nos relegam a uma parcela ínfima e desimportante da existência. É por causa disso que nós não podemos controlar nosso próprio destino!

Naquele momento, a porta abriu-se e a figura de Marin apareceu no campo de visão das duas. A ruiva percebeu que havia atrapalhado alguma conversação, por aquele motivo ela sorriu com amizade para a serva e para a prima, englobando as duas em um só olhar. Marin entrou no quarto, mas não fechou a porta. Ficou segurando o trinco e disse na direção da serva:

- Gwen, minha querida, eu gostaria que nos deixasse a sós, a mim e a minha prima, nós precisamos conversar. – disse Marin. – Eu termino de trançar os cabelos dela.

- Sim, milady.

Gwen reverenciou a mulher e saiu através da porta que ela ainda mantinha aberta. Depois que ela saiu, Marin fechou a porta e caminhou para Clara que, ao ver a ruiva aproximar-se, voltou-se de costas para ela, ficando de frente para o espelho, a fim de que a prima pudesse mexer em seus cabelos.

Houve alguns minutos de silêncio enquanto Marin manuseava com habilidade as grossas tranças de Clara. Entre as mãos da ruiva, as mexas pareciam maleáveis e ela prendia as pontas no alto para conformar o penteado. Em seguida, utilizou-se dos grampos para prender os rabos no lugar. Foi Marin quem disparou, após relancear os olhos para a prima, por muitas vezes, através do espelho, e ver que a prima igualmente lhe correspondia nas miradas, ambas constrangidas:

- Clara, eu acho melhor que você se afaste do senhor Aiolia.

Fez-se um silêncio quase palpável entre as duas. Durante todas aquelas horas, desde que ela saíra daquele estábulo, Clara passara a se maldizer pelo que havia feito. Sentia-se de certo modo uma traidora em relação a Marin. Mas em momento algum esperara aquela ordem firme e que lhe soara até mesmo rude. Sem que a ruiva percebesse, a moça estreitou os olhos para ela através do vidro do espelho e esperou uma explicação:

- Entenda, minha querida, não é uma proibição, mas um conselho para o seu próprio bem. – completou Marin, sem corresponder ao olhar confuso da prima. – Eu peço isso para a sua própria proteção.  

- Eu compreendo... – disse Clara, séria. – Eu queria ainda pedir desculpas por como...

- Não precisa pedir desculpas. – tornou Marin – Você é jovem ainda e é normal que se coloque em situações perigosas. Mas eu, como sua prima e tutora, como quase uma irmã mais velha, a irmã que você não teve, estou aqui para ensiná-la.

- Eu conheço os riscos em que me pus ao me deixar agarrar daquela maneira. – tornou Clara – Mas nada aconteceu entre eu e o senhor Aiolia. Ninguém mais nos viu naquele momento a não ser você, prima. Eu acho que deixar de falar com ele, ou mesmo de vê-lo, seria uma punição drástica demais para um crime tão pequeno.

E Clara esboçou um sorriso para tentar convencer a prima de suas palavras, embora ela própria não estivesse muito convicta do que estava falando. Ao escutar aquilo, Marin deteve os próprios movimentos, pois havia finalizado o penteado. E ainda parada atrás de Clara, que seguia sentada voltada para o espelho, a ruiva encarou a outra através do vidro, e a antiga entonação amistosa pareceu desaparecer:

- Você está mentindo. – disse Marin – Passaram-se coisas esta noite... – Marin lambeu os lábios – Coisas que teria sido melhor que não tivessem passado. Não finja para mim, Clara...

- Foi ele quem contou? – interrogou Clara, olhando Marin pelo espelho, com muita seriedade. – Eu não julguei que ele fosse contar...

- E por que ele não iria contar para mim? – tornou Marin – Haveria alguma razão especial para que Aiolia Panathinaykos escondesse de mim que beijou você durante toda a madrugada?

Ao escutar aquelas palavras, Clara voltou-se de imediato para a prima e a encarou com seus olhos verdes parecendo ligeiramente obscurecidos pela acusação que ela podia ler no rosto da ruiva. Marin segurou o olhar da jovem com seriedade, mas não parecia irritada. Demonstrava, antes, uma clara sensação de desconforto, mas não de raiva.

- Marin, eu... – Clara pigarreou, pois a língua parecia ter congelado dentro da boca – Eu realmente não sei o que dizer. Não posso mentir, não está em meu caráter fazer isso. Eu juro que eu...

- Não jure! – Marin fez um gesto impaciente com o rosto, piscando os olhos por um instante – Juramentos são sempre inconstantes, Clara, e você poderia incorrer no crime de perjuro, e essa transgressão, minha querida, é passível de pena de morte.

- Você está querendo dizer que vai mandar me queimarem na fogueira? – Clara perguntou aquilo com os olhos abruptamente arregalados na direção da prima.

Por um momento, pensar que poderia ser queimada viva, atada a um poste de madeira, rodeada por palhas secas, em meio a toda a população de Káden, apenas porque nadou no lago com um homem e foi beijada por ele, fê-la arpejar e o decote do vestido que levava subia e descia pela respiração que se havia tornado levemente alterada.

- Não, minha cara! – Marin sentiu vontade de sorrir pelo pavor estampado nos traços da prima – Você é muito madura para a sua idade, mas ainda continua sendo uma jovem donzela sem experiência. - completou a ruiva com certa satisfação ao falar aquilo – Eu jamais entregaria uma mulher à morte, não importa quais crimes ela tenha cometido. O que eu quero dizer, minha querida prima, é que mulheres já arderam por muito menos do que você fez.

Marin olhou para a prima com o mesmo olhar maternal com o qual sempre se dirigia a ela. Clara percebeu que o tom ácido e irritadiço havia diminuído, mas não desaparecido, da voz da prima. Marin estava séria e fez uma pequena pausa, dando um profundo suspiro, antes de prosseguir.

- Se você fosse vista daquela maneira indecente, amanhã o seu corpo estaria sendo dado para o divertimento da corte ao ser queimado em praça pública! – disse Marin – Thomas não aprecia mulheres, Clara. Não me entenda mal... – Marin apontou um dedo para a jovem quando percebeu que ela soerguera as sobrancelhas - Ele as deseja muitíssimo, é um homem devasso e luxurioso. Mas tem medo de nós como o Diabo da cruz. Ele julga que somos perigosas e por isso não aceita o meu juramento para que eu possa manter o meu castelo e as minhas terras sem a necessidade de me casar.

Marin aproximou-se dela e pegando o rosto de Clara com as duas mãos, obrigou a jovem a encará-la fixamente no rosto.

- Tudo o que ele quer é um motivo para que eu seja expulsa de Áquilla, presa e assassinada como bruxa. Ele já lançou acusações contra mim, e elas só não foram adiante porque sou noiva de lorde Aiolos. Essa ligação me mantém protegida, pois o pai de Aiolos era o mais fiel general que Thomas já teve. Ele confia a própria vida aos irmãos.

- Mas se eu desse esse motivo, colocando-me em uma situação de perigo junto a um homem... – começou Clara, entendendo o caminho que a prima lhe abria – Então, nós duas cairíamos em desgraça e seríamos consideradas... – ela gaguejou por um instante – Bruxas?

- Todo o reino sabe que fui amante de Aiolia. – disse Marin, lambendo os lábios – É isso mesmo o que você escutou. Eu fui... – repetiu ela, mas sem tanta convicção na voz como da primeira vez.

- E não é mais? – interrogou Clara, rapidamente, demais até para Marin, e a ruiva percebeu o embaraço da prima quando a encarou; Clara baixou a vista, arrependida pelo que que havia dito.

- Não, prima. Principalmente após essa noite... – suspirou Marin – Eu não poderia seguir sendo a amante de um homem cujo irmão é o meu noivo. Minhas ações podem destruir a reputação de lorde Aiolos também.

- Ele poderia ser obrigado a matá-la. – disse Clara – Thomas aprovou uma lei, desde que a última rainha foi assassinada, de que todo homem tem o direito, e o dever, de matar a esposa que é pega em adultério. – completou ela – E eu tenho certeza que lorde Aiolos não a mataria, Marin, de modo que vocês dois estariam condenados.

- Você precisa se afastar de Aiolia por sua própria segurança. – falou Marin, pegando as mãos de Clara entre as suas – Ele é um homem inconsequente, sempre foi assim. Veja bem, Clara, ele passava por cima da honra do irmão para deitar-se comigo. Aiolia está apenas transtornado porque eu rompi todos os laços que existiam entre nós desde que eu soube que ele teve parte na morte do meu irmão, do seu primo, Touma.

- Ele matou Touma? – Clara ergueu-se lentamente da cadeira, encarando a prima ferozmente nos olhos – Eu pensei que havia sido uma armadilha...

- E foi uma cilada. – disse Marin, balançando a cabeça afirmativamente – Mas Aiolia deixou o meu irmão sozinho para que morresse, enquanto ele e os outros escapavam. Ele foi um covarde e apenas quer usar você para me atingir. Ele acredita que, fazendo-me ciúmes, poderá me ter de volta.

Clara sentiu-se anuviar. Ao escutar aquelas palavras, abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas sentiu que as palavras voltavam garganta abaixo, ressecadas, quase ferindo a pele. Mordeu o lábio inferior e piscou os olhos verdes algumas vezes.

Será que era realmente aquilo que Marin lhe dizia? Aiolia apenas queria usá-la para chantagear a prima? E tudo o que ele lhe havia dito era apenas um plano para manipulá-la? Não podia ser! Balançou a cabeça negativamente naquele momento e soltou-se de Marin.

Ela deu alguns passos pelo quarto e sentiu que as paredes fechavam-se ao seu redor. A ruiva ficara parada atrás, no mesmo lugar, séria e silenciosa, somente aguardando alguma reação por parte da jovem. Clara não conseguia pensar! Poderia ser aquele homem tão astuto e cínico a ponto de tê-la seduzido para fazer dela uma arma contra Marin?

- Eu sei que deve ser difícil para você conseguir enxergar a verdade... – falou Marin após um longo silêncio. – Mas você não acha estranho demais o rápido interesse de Aiolia por você? Prima...

Marin caminhou até ela, colocou as mãos sobre os ombros de Clara e fez a jovem voltar-se para si. Olharam-se com seriedade, mas com semblantes muito distintos. Marin tentou buscar nos olhos da prima como ela havia tomado aquelas declarações.

- Nós sempre fomos amigas... – continuou a ruiva – Eu sempre a tratei como a irmã mais nova que eu nunca tive... – e esboçou um sorriso – Eu apenas quero protegê-la...

Clara ficou em silêncio quando Marin calou-se. Seguia olhando para a ruiva com certa atenção ansiosa. Até que, após alguns segundos, ela mesma esboçou um ar de riso, mas tão entristecido e sarcástico que fez Marin franzir ligeiramente o cenho.

- Eu entendo que você esteja tentando proteger alguém, só não tenho certeza que seja realmente eu, Marin! – disparou a jovem, fazendo Marin erguer as sobrancelhas.

- Clara... – a ruiva tentou falar, mas a jovem cortou-a naquele momento.

- Será que você não está sendo movida por uma pontada de ciúmes? Eu entendo perfeitamente, Marin. Eu também não suportaria a ideia de ser trocada de forma tão rápida, de perceber que o homem pelo qual já nutri tantos sentimentos possa seguir em frente tão facilmente. Isso mexe com o seu ego, goste você ou não dele, não é? – falou Clara – Deve ter sido um tapa na cara reconhecer o quão rápido você foi trocada, não é?

- Como você ousa...? – Marin afastou-se dela, encarando a prima com uma severidade confusa, piscando os olhos algumas vezes – Como pode falar assim comigo? Eu criei você!

- Sim, você me criou. – disse Clara, limpando discretamente uma lágrima que queria descer dos olhos; não desejava que Marin a visse chorar, embora soubesse que a ruiva conhecia que ela estava quase chorando – Mas não tem o direito de querer manipular a minha vida.

- Se você acha que eu estou mentindo, vá em frente. – atalhou Marin, com uma entonação ríspida, magoada pela acusação da prima, que ela sabia ser em parte verdade – Aceite a companhia do senhor Aiolia, ofereça-se a ele facilmente e você verá aonde chegará essa história de amor que você criou na sua cabeça!

- Suas intenções podem ser nobres, Marin, eu não digo que não sejam... – falou Clara, caminhando na direção da prima, sempre mantendo os olhos fixos nela – Mas você move a vida de todos que estão ao seu redor como se fôssemos peças em um tabuleiro de xadrez. Você gosta de brincar de Deus, ou melhor, de Deusa... – Clara sorriu com sarcasmo – Aprecia quando os homens a veem como uma mulher forte e destemida e despreza mulheres passivas, que não sabem se impor.

Naquele momento, Marin ergueu a mão para esbofeteá-la, mas alguma coisa fê-la deter o próprio movimento. Apenas encarou Clara dentro dos olhos e terminou baixando a mão.

- Clara... – Marin a escutava em silêncio, mas seu olhar estava inegavelmente feroz naquele instante – Você não sabe o que está dizendo. Eu conheço Aiolia desde menina, cresci junto com ele, éramos melhores amigos e depois amantes... – disse a ruiva, tomando para si a vez de dizer algumas verdades – Eu fui a primeira mulher que ele conheceu, e ele foi o meu primeiro homem. Nós temos uma história antes de você aparecer. E a senhorita deseja saber mais sobre os sentimentos dele do que eu? – aquela pergunta terminou com um grito que fez Clara encolher os ombros.

- Eu não desejo conhecer os sentimentos de ninguém. – disse Clara, ainda séria e demonstrando firmeza na voz e no olhar – Eu não vou aceitar a corte do senhor Aiolia, Marin, se é isso o que você mais teme. Eu vou mantê-lo longe de mim porque eu jamais seria capaz de trair uma mulher, principalmente quando essa mulher tratou-me como uma mãe. Eu não sou uma mau caráter. Não precisa ter medo de mim nem me ver como uma inimiga. Eu dou a minha palavra de que não haverá nada entre eu e o senhor Aiolia.

E ao dizer aquilo, Clara não esperou pela resposta da prima. Apenas deu as costas para Marin, correndo dali com passos rápidos. Abriu a porta do quarto, passou por ela, fechou-a atrás de si e encostou-se na madeira. Estava arfando pela entrevista que havia tido. Mas o que fazer? Para onde ir? Não tinha ninguém e teria que viver em Áquilla até o dia em que decidisse casar-se ou entrar para um convento. Só havia três destinos para uma mulher no mundo em que vivia: legítima esposa, freira ou prostituta. Que opção ela tinha?

O.o.O.o.O.o.O

Ao chegarem diante dos aposentos da rainha, um servo abriu as portas de par em par e as damas deram espaço para que Maeve adentrasse o aposento. Ao ver a jovem princesa ingressar no quarto, as moças atropelaram-se umas sobre as outras para entrarem atrás dela.

Todas vestidas iguais, de cores claras e com adornos reais sobre os cabelos, as donzelas virginais que deviam acompanhar Maeve por todos os lados pareciam incrivelmente imaturas, ou desinteressadas, para perceberem a perturbação palpável no rosto da rainha.

- Retirem-se todas. – falou Maeve, mal entrara nos aposentos, voltando-se para elas com firmeza e um olhar severo na face rosada – Vamos! Vocês estão surdas? Saiam todas! Apenas Ayleen deve permanecer!

Ao escutarem aquelas palavras ásperas, ditas em um tom de voz igualmente ríspido, as adolescentes entreolharam-se confusas e surpreendidas. Decerto, ninguém esperava que uma rainha pudesse se dirigir às suas damas íntimas, de companhia, com aqueles modos pouco educados ou elegantes!

Mas Maeve não estava preocupada com etiquetas naquele momento. E quando viu que as moças demoravam a agir, permanecendo todas paradas diante dela, como se estivessem pregadas ao chão, a jovem princesa de Tasha impacientou-se definitivamente e alterou ainda mais a voz:

- O que vocês estão esperando para sair? – disparou, fazendo as meninas encolherem os ombros, acotovelando-se umas nas outras – Deixem-me sozinha! Obedeçam à sua rainha! Saiam!

Ayleen decidiu tomar a frente da situação, percebendo a crescente perturbação no rosto da companheira. Esboçando um sorriso, a cigana começou a espantar as moças para fora do quarto, com certa dificuldade, pois as meninas haviam ficado relutantes e olhavam para trás a fim de saber se a rainha estava mesmo em perfeito juízo.

Maeve tapou o rosto com as mãos, dando passadas largas de um lado para o outro do aposento, apertando o canto interno dos olhos com força, enquanto a cigana terminava de se livrar de todos que estavam dentro dos aposentos. Após Ayleen fechar a porta e voltar para junto dela, Maeve olhou para a cigana e jogou-se em cima de uma poltrona:

- Eu não sei se vou aguentar por muito tempo ser seguida por tantos olhos aonde quer que eu vá! – disparou a rainha – Sinto-me sufocar dentro desse castelo. É como se Thomas me seguisse a todas as partes. Nunca estamos a sós, Ayleen. As paredes têm ouvidos, os tetos possuem olhos e as portas... – ela suspirou, cansada – Todas as noites eu sonho que estou sendo levada para o cadafalso. Ajoelham-me diante do bloco de execução e... – ela apertou os olhos naquele instante, passando os dedos pelo pescoço como se sentisse o fio do machado descendi sobre ele.

- Isso são só pesadelos. – disse Ayleen, franzindo o cenho para ela e ajoelhando-se diante da poltrona onde a rainha havia sentado. – Não deve dar atenção a sonhos, majestade. Você está apenas cansada. A senhora está bem? – interrogou, tocando o rosto de Maeve, no queixo, com as pontas dos dedos, e levantando a face da rainha para olhar a mancha arroxeada. – Nós vamos precisar esconder isso com um véu.

- Ayleen... – chamou Maeve, após olhar para todos os lados, fugindo com o rosto do toque da cigana – Não temos tempo para isso agora. Você precisa trazer Aiolos até mim.

- Aqui? Em seus aposentos? – a cigana soergue as sobrancelhas, recolhendo a mão e parecendo verdadeiramente surpreendida por aquele pedido. – Estamos em pleno dia, majestade! Isso seria realmente imprudente e...

- Não, aqui não! Seria arriscado demais! – sentenciou Maeve – Leve-o até o confessionário, na capela interior! É um caso de vida ou morte. – completou – Traga-o até mim imediatamente, Ayleen! Mas não diga nada a ele durante o trajeto. Apenas fale que eu preciso vê-lo o mais rápido possível e que tem que ser agora. É uma emergência, não temos muito tempo!

- Mas, majestade... – Ayleeen tentou argumentar, achando tudo aquilo fora de propósito. – Mesmo na capela pode ser perigoso. A senhora sabe que o rei a mantém muito bem vigiada durante todo o tempo.

- Eu sei... – a rainha mordeu o lábio inferior – Eu não darei motivo para que o rei possa desconfiar de mim. Thomas deseja uma esposa servil e submissa, e por todos os deuses, eu fingirei da melhor maneira possível se essa for o único de modo de manter todos a salvo!

- A salvo de que, senhora? – insistiu a cigana, estreitando os olhos sobre Maeve – O que aconteceu dentro daquela sala quando sua majestade ficou sozinha com o rei? O que ele lhe disse? Por que a agrediu?

- Thomas acredita que Shura é o meu amante. – falou Maeve, erguendo-se da poltrona e caminhando pelo aposento amplo, com os dedos entrelaçando-se uns nos outros nervosamente – Falou que deu ordem para que o prendessem e o torturassem até que confesse que se deitou comigo! – disse com o desespero estampado nas faces ruborizadas - E também falou que, amanhã, em nosso casamento, irá enforcá-lo em meio ao público, como presente para a nossa noite de núpcias!

- Santa Sarah Kali! – exclamou Ayleen, tornando-se séria naquele momento, mas visivelmente chocada pelo que escutava.

- Ele foi seu amante, Ayleen. – falou Maeve, olhando a jovem com cuidado – Decerto você não vai querer que ele morra inocente.

- Não, majestade, de forma alguma. – respondeu a cigana, após ser retirada dos próprios pensamentos – Eu não desejo a morte de Shura. Ele é de minha gente, e um cigano sempre deve proteger outro cigano. Bom, ao menos essa é a lei, mas nem todos a seguem. – completou ela.

- Então, obedeça, Ayleen. – sentenciou Maeve, encarando-a firmemente no rosto – A sua demora põe em risco a vida de um homem inocente! Ande, criatura! – apressou-a a rainha, com um gesto de mão, fazendo a cigana sobressaltar-se. – Traga Aiolos para mim e não fale absolutamente nada sobre isso! Não sei que reação ele poderia ter. Shura é o melhor amigo dele e Aiolos poderia cometer alguma loucura! Já basta um homem condenado a morte neste castelo! Eu irei imediatamente para a capela e ficarei esperando no confessionário.

Ayleen assentiu, e sem nem mesmo lembrar de fazer uma reverência, correu para fora do quarto com passadas largas e desapareceu através da porta. Quando Ayleen fechou a porta atrás de si, deteve os próprios movimentos apressados e relaxou o corpo todo. Olhou para trás, para a porta de entrada dos aposentos da rainha pela qual havia acabado de atravessar parecendo verdadeiramente preocupada em atender às ordens reais.

Mas agora, sozinha, sem a vigilância de qualquer olhar, principalmente de Maeve, ela suspirou e fechou o semblante, tornando-se séria. Caminhando na direção dos quartos de hóspedes, dando voltas pelas galerias e corredores, sem ser importunada por ninguém, procurava em qual aposento o arqueiro poderia estar hospedado naquele instante.

- Ela não parece querer os meus conselhos. – disse para si mesma, pensativa, enquanto caminhava com diligência pelos amplos e obscuros caminhos – Amantes sonhando com um futuro juntos! – ela sorriu cinicamente – Quanta ingenuidade!

E levou uma mão enluvada aos lábios pintados a fim de abafar o riso. Virou em uma esquina e quase foi atirada ao chão por duas servas que saíam apressadamente de um dos quartos. Recuperando-se do impacto que sofrera, Ayleen olhou para as criadas que, envergonhadas, mas igualmente espantadas, encararam a dama da rainha:

- Desculpe-me, senhorita... – pediu uma delas, carregando uma cesta com apetrechos variados.

- Com licença... – disse a segunda, enquanto levava nos braços um lençol coberto de sangue.

- Esperem! – pediu Ayleen, estreitando os olhos sobre as duas moças e fazendo ambas pararem por um momento o trabalho. – O que está acontecendo aqui? Alguém foi ferido? – interrogou, olhando a coberta manchada de sangue fresco.

- O general foi atacado, senhorita. – respondeu a segunda, a que levava o lençol. – Uma ferida horrível! – e fez o sinal da cruz.

- Máscara da Morte foi assassinado? – os olhos de Ayleen, pela primeira vez desde que havia chegado ali, abriram-se desmesuradamente – Ele está morto? Falem!

- Não, senhorita... – respondeu a primeira, que trazia uma cesta com linha e agulha sujas de sangue, assustada pela entonação da outra – Mas poderia estar se não fosse a esposa...

- A coitadinha costurou, sem qualquer ajuda, o enorme buraco. – disse a segunda serva.

- O sangue gorgolejava... – disse a primeira, interessada em fornecer os detalhes sangrentos – Mas eu acho que ele não passa dessa noite!

- Bianca! – esbravejou a segunda jovem, olhando a companheira e fazendo de novo o sinal da cruz – Não diga isso! Ele é um homem mal, senhorita, mas também é filho de Deus! E eu não desejo a morte de ninguém!

- Conversa! – desdenhou a primeira criada, revirando os olhos – O que ela tem é fogo no rabo!

Ao escutar aquilo, a segunda criada abriu a boca imensamente sem, no entanto, conseguir dizer nada. Estava indignada pelo que a companheira estava relatando a uma desconhecida.

- Eu sou uma donzela, fique você sabendo! – a criada defendeu-se. – Nunca estive com homem algum, senhorita! Sou uma mulher honesta desde o dia em que nasci!

- Ah, eu sei... – rebateu a primeira, quase deixando cair a cesta – E eu sou a Virgem Maria que ascendeu aos céus em sua pureza! O único homem com quem você não esteve jamais foi o seu pai... – disse a outra – E o nosso Senhor Jesus Cristo! – fez o sinal da cruz.

Ayleen, sem ser notada, afastou-se das duas servas que continuaram a discutir ferozmente, atirando impropérios uma na cara da outra. Encaminhando-se na direção do aposento pelo qual ambas haviam saído, a cigana estreitou os olhos pela porta entreaberta. Percebeu movimento do lado de dentro. Notou a jovem esposa do general sentada ao lado da cama, parecendo muito atenciosa, voltada para o marido. Mas a figura de Giovanni foi o que realmente chamou-lhe a atenção.

Ele estava despido da cintura para cima, deitado em cima da cama, com uma imensa faixa cobrindo toda a extensão do abdômen. Provavelmente alguém havia coberto após costurá-lo. O homem gemia inconsciente, afundado no colchão, enquanto Lívia passava um pano úmido pelo rosto dele.

Ayleen sabia que feridas como aquela poderiam levar homens como Giovanni à morte. Elas podiam infeccionar em poucas horas, ou mesmo sequer conseguiam cicatrizar por dentro. A febre geralmente cuidava do resto e matava em quarenta e oito horas.

- Vê-lo morrer, Giovanni, sim, isso faz com que eu me sinta melhor. – disse a cigana para si mesma – Cometi um grande erro há cinco anos, mas de qualquer forma, obrigada por fazer de mim o que eu sou!

- Uma dama falando sozinha?

Uma voz de mulher surpreendeu Ayleen pelas costas, fazendo-a virar para trás abruptamente. A cigana reconheceu a figura da marquesa, Ágatha, que havia chegado naquele momento. A mulher, alta e loira, andava de maneira tão elegante que os pés mal tocavam as pedras do chão.

Ágatha olhou para a jovem dama da rainha, reconheceu as roupas que ela vestia e sabia que se tratava de uma das insossas jovens que acompanhavam Maeve por todos os lados.

- O que está fazendo aqui? – interrogou Ágatha, erguendo ainda mais o queixo diante dela – Quem é você?

- Sua graça! – Ayleen sorriu por fim e fez uma reverência diante da mulher. – A rainha soube do ocorrido com o general e mandou-me para saber notícias. Ela estava bastante preocupada e...

- E por que você estava espionando atrás da porta? – retrucou Ágatha, cortando a fala da outra. – Não lhe disseram que escutar às escondidas é pecado?

- Eu acho que perdi essa aula do catecismo. – ironizou Ayleen, irritando-se pelo tom arrogante usado por Ágatha para se dirigir a ela.

- Saia da minha frente! – ordenou Ágatha, olhando seriamente para a cigana.

Ayleen segurou o olhar da outra mulher com firmeza, sem baixar a cabeça ou arrefecer. Após alguns segundos em que nenhuma das duas parecia se mover sequer um centímetro, foi Ayleen quem, recuperando o bom senso e lembrando de seus planos, resolveu se afastar para o lado e dar espaço para a marquesa passar, com uma dama atrás dela, carregando uma cesta.

Ágatha abriu a porta do quarto e entrou, e antes que fechasse a mesma, encarou novamente Ayleen com olhos chamejantes, batendo a porta na cara da cigana.

- Desculpe por ter me exaltado, sua graça! – disse a cigana em voz baixa, sarcástica, fazendo uma careta na direção da madeira da porta. – Você não perde por esperar, marquesa!

O.o.O.o.O.o.O

Aiolia estava sentado em uma poltrona ao pé da cama, enquanto Aiolos, fazendo caretas inomináveis, estava encostado no espaldar do leito, com o antebraço sobre os olhos. De vez em quando, um gemido incômodo saía dos seus lábios.

Ele estava sem camisa e sem as botas, enquanto o irmão mais novo, muito sério, encontrava-se vestido da mesma maneira. Aiolia parecia pensativo naquele momento e seus traços, muito parecidos com os do irmão, ressacado sobre a cama, estavam contraídos em uma terrível concentração mental.

- Eu não acho que esse plano vai dar certo. – disse Aiolia, por fim, quebrando a monotonia do silêncio. – Como você pretende tirar a rainha da catedral?

- Bem... Ai... – Aiolos retirou o braço de cima do rosto e encarou o irmão, não sem antes fazer uma careta de dor – Minha cabeça vai estourar! – comentou – Eu não terei muito tempo depois que o sino bater a meia-noite. Você e o Shura terão que me ajudar, é claro. Maeve fará a vigília, como é de costume, com as damas de companhia. Estará na catedral de Káden durante toda a noite, só podendo voltar ao castelo quando o sino badalar pela terceira vez, o que marca o início do dia das bodas! – explicou Aiolos.

- Eu já entendi essa parte, irmãozinho. O que eu quero saber é de que maneira você pretende arrancar a rainha da igreja sem que ninguém a veja indo embora! Maeve é vigiada fortemente pelos homens de Thomas. Lorde Camus estará fazendo a segurança dela diretamente.

- Isso sem falar naquele maldito general, que para matar qualquer um de nós, basta que pisquemos os olhos! – rosnou Aiolos, lembrando-se da imagem sinistra do italiano - Giovanni não mediria esforços para nos apunhalar e nos acusar de alta traição.

- Se você está tão ciente do perigo que todos nós corremos, por favor, Aiolos, desista dessa mulher de uma vez por todas. – bradou Aiolia, verdadeiramente preocupado com os pensamentos que invadiam a cabeça de seu irmão mais velho – Por favor, Olos, pense melhor sobre esse plano estapafúrdio. Se isso não der certo, e a probabilidade é de que falhemos miseravelmente, você sabe, todos nós podemos terminar com a cabeça na ponta de uma lança amanhã mesmo, no dia do casamento!

- Eu estou ciente dos riscos, Olia, mas eu prefiro arriscar essa noite do que deixá-la entrar naquela maldita igreja amanhã. – rebateu Aiolos, com firmeza, fazendo o irmão caçula erguer as mãos para os céus – As damas ficarão fora da capela ardente onde Maeve deverá fazer as orações. Ela estará sozinha na maior parte do tempo. Eu posso me aproximar dela sem ser notado, eu consigo isso, não vai ser difícil. Você e Shura ficarão observando o movimento da guarda.

- Aiolos, não vai ser difícil você entrar na igreja. – completou Aiolia, encarando o irmão – O difícil, senão impossível, será você sair de lá acompanhado da rainha!

Naquele momento, a porta do quarto abriu-se e a figura de Marin surgiu no campo de visão dos dois, no aposento contíguo à pequena saleta que dava para a porta de entrada. A ruiva caminhou até lá, baixando o leve véu que trazia sobre os cabelos, e a primeira pessoa que viu após o noivo, foi o amante, que também a encarou de imediato.

Aiolia olhou para a mulher com seriedade, e seu olhar contundente foi recompensado por ela com um igual olhar de contrição e receio. Foi Marin, no entanto, a primeira a desviar o olhar por recordar a conversa que havia tido com Clara minutos antes.

Aiolos não percebeu a animosidade entre o irmão e a noiva, talvez porque estivesse preocupado demais com o seu plano desesperado para livrar Maeve do casamento com o rei.

- Eu poderia saber por que fui chamada aqui com tanta urgência? – interrogou ela, após retirar as luvas que levava devido ao frio e dar alguns passos na direção dos dois, suspirando – Pelo que vejo, você conseguiu impedir o seu querido irmão mais velho de fazer qualquer loucura. – disse ela, olhando o estado de Aiolos sobre a cama. – Ontem à noite, eu achei que ele fosse pular no pescoço do rei e degolá-lo ali mesmo, na frente de todo o reino.

- Se você não tivesse me arrastado da maneira como o fez, certamente eu teria acabado com a vida daquele desgraçado no meio do próprio salão! – salientou Aiolos, sério, porém irônico e fazendo uma terrível careta de mal-estar. – Nada mais honrado para um rei do que morrer aos pés do próprio trono, vocês não acham? Dizem que a morte é a maior das felicidades. Pois, muito bem, eu estava disposto a dar a maior das alegrias ao nosso grande e amado tirano!

- Cuidado com a sua língua afiada, Aiolos. – advertiu Marin, realmente assustada pela acidez com a qual o noivo se dirigia ao monarca – As paredes têm olhos e ouvidos, nós nunca estamos sozinhos no castelo de Káden. Lembre-se disso quando pensar em desejar a morte do rei.

- Eu quero que Thomas vá para o inferno! – bradou Aiolos, realmente irritado. – Eu não me importo com o que dizem! O que há entre eu e Maeve existe desde o começo do mundo. Ela nunca poderia ser uma estranha para mim, eu a reconheceria em qualquer lugar. Não importa o que eu fizesse, o que pode acontecer ou o que se interponha entre nós...

- Sua alma gêmea e amor eterno irá se casar com o rei, Aiolos. Só existe esse pequeno empecilho! – atalhou Aiolia, ironicamente, tentando chamar o irmão à razão.

- Não importa! – murmurou Aiolos – Mesmo que nós dois não fiquemos juntos nessa vida, nós estamos ligados um ao outro, e estaremos para sempre! – completou, com uma entonação que fez Marin se arrepiar.

Como ela sentira repentinamente um vento frio lhe percorrer a espinha, bateu sem querer em uma taça de vinho, que estava ao lado de uma jarra, que um criado havia colocado ali junto com água fresca e algumas romãs.

O copo de estanho virou sobre o piso, derramando o líquido sobre o tapete. Aiolia, imediatamente, pegou o artefato e voltou a apoiá-lo sobre a mesa. E ao fazer esse movimento, encarou Marin nos olhos ao se erguer novamente.

- Isso é um mau presságio. – disse a ruiva de repente, sentindo um pouco mais de frio e abraçando-se para se aquecer. – Eu achei que, depois da notícia que Maeve lhe havia dado, você criaria juízo e a deixaria seguir o caminho dela.

- Você é que pensa que ele desistiu das loucuras que o tem atacado ultimamente! – atalhou Aiolia, com um suspiro, sentando-se novamente e encostando-se, cansado, no espaldar da poltrona – Sente-se também, Marin, para não ter o perigo de cair para trás quando ouvir a última novidade do meu querido irmão mais velho! – Aiolia repetiu as palavras dela com acidez irônica.

- O que foi dessa vez? – Marin, que havia dado atenção a Aiolia, ainda que os ânimos entre eles estivessem estilhaçando pelos olhares que trocavam, voltou a pousar a vista em cima do noivo – Decidiu matar o rei com uma flecha bem no meio da cara atirada das amuradas do castelo?

- Essa não seria uma má ideia. – disse Aiolos, erguendo um dedo – É uma vantagem manusear uma arma que não precisa de proximidade para matar! Eu poderia acabar com a vida de Thomas a muitos metros de distância e ninguém jamais saberia quem foi o assassino.

- Eu vou fingir que não ouvi isso. – atalhou Aiolia, bufando. – Nada do que você disser poderá desfazer o pressentimento horrível que eu tenho em relação a essa história!

– O que pretende fazer? Não mandou me chamar aqui para dizer o quanto é habilidoso com um arco e uma flecha na mão. – completou a ruiva. – Aconteceu alguma coisa?

- Além do fato da rainha estar grávida do meu irmão? – Aiolia soergueu as sobrancelhas, dando de ombros e tomando a vez de Aiolos – Não, nada demais. – ele ironizou – Não sei para vocês dois, mas isso é tragédia suficiente para mim! – rebateu com fúria na voz – Eu ainda não acredito que você dormiu com a rainha, Aiolos! – esbravejou na direção do irmão. – Com tanta mulher no mundo, por que diabos você tinha que virar os olhos na direção da princesa de Tasha! E já que fez a lambança, por que você não fugiu com ela quando teve a oportunidade?

- Eu não sabia que ia me apaixonar por ela! Não podia prever que aquela tarde teria todo esse desfecho. – disse Aiolos, falando sério na direção do irmão – E a gravidez de Maeve me força a fazer uma escolha. Eu estou fazendo coisas que jamais imaginei que faria algum dia, mas é o meu filho que está em jogo. Parece que eu não posso possuir Maeve sem sacrificar a mim mesmo! Se vocês não me ajudarem com o plano, muito bem, eu o farei mesmo sozinho. Vocês não podem tirar de mim a única coisa que dá sentido à minha vida.

- Não estamos falando de qualquer mulher que você deseja ter... – falou Aiolia, respeitando o tom sério do irmão – Mas de uma mulher cujo destino já estava traçado muito antes que ela viesse ao mundo. Maeve nasceu princesa e era óbvio que o pai não a casaria com qualquer homem, muito menos com um arqueiro.

- Ela vai ser a esposa do Grande Rei... – suspirou Marin, sem olhar para os irmãos, mas pensando na condição das mulheres naquele momento – Não é bom para um rei importante como Thomas se casar com uma mulher cujo coração já foi dado para outro homem. Isso pode destruir um império!

- Você não deveria tê-la beijado da primeira vez. – rebateu Aiolia – Shura me contou o desenrolar dessa relação insana entre você e a rainha. E já que você decidiu entregá-la para o rei, o que você estava esperando exatamente, Aiolos? Que outro resultado você por acaso estava esperando que não terminasse no casamento dos dois? Você não deveria ter dado o tal amor da sua vida de bandeja ao rei, não acha? Essa história deveria ter parado exatamente nesse ponto!

- Shura é um cigano linguarudo. – falou Aiolos. – Qualquer dia, eu mesmo vou cortar a língua dele fora!

- Se tivesse ficado apenas nos beijos, nós não estaríamos aqui, hoje, decidindo sequestrar a Grande Rainha! – rebateu Marin – De um beijo para chegar ao sexo, é um passo curto... – e naquele momento, ao dizer aquilo, a ruiva relanceou os olhos para Aiolia – Uma liberdade que sempre vai exigir outra ainda mais íntima a cada vez que se repetir... – e ela mordeu o lábio inferior, baixando os olhos em seguida – O amor, às vezes, chega sem ser notado.

- Entre a minha gente, quando um homem quer uma mulher, costuma fugir com ela!

A voz de Ayleen soou repentinamente, e os três integrantes presentes no aposento, naquele instante, voltaram-se instantaneamente para a jovem, com os olhos arregalados e as bocas entreabertas. Aiolos apontou um dedo para a mulher, estreitando os olhos sobre a jovem.

Aiolia, ainda sentado na poltrona ao pé do leito, virou-se ainda mais naquela direção, com o cenho horrorosamente franzido. Apenas Marin pareceu menos impactada, mas era apenas o autocontrole extremo que ela conseguia ter sobre as próprias feições. Por dentro, ela estava igualmente surpreendida.

- Como você conseguiu entrar aqui sem ser notada? – interrogou Aiolos. – Não sabia que você tinha o poder de atravessar paredes!

- Eu sou uma cigana, lembra-se! – sorriu Ayleen, satisfeita por provocar aquela reação.

- Sim, mas continua sendo humana. – atalhou Aiolia, visivelmente incomodado pela entrada misteriosa e silenciosa da outra.

- Seu rei, se soubesse o que sou, não me consideraria dessa forma. – ironizou ela, aproximando-se lentamente dos presentes – Não é o seu Deus quem diz que a minha gente é filha de Satã!

- Estava escutando a nossa conversa? – perguntou Aiolos, erguendo-se da cama e encarando Ayleen muito seriamente.

- Não há nada que eu já não saiba. – disse ela, dando de ombros – Exceto, talvez, o plano de fuga. Mas não tenham medo. – e ela olhou diretamente para Aiolos – Eu sei de coisas piores. Tentar arrancar a rainha do castelo e fugir com ela é o de menos diante do que ela carrega na barriga.

- O que está fazendo aqui, Ayleen? Não deveria estar na companhia das outras damas, ao lado de Maeve? – tornou o arqueiro, estreitando os olhos mordazes em cima dela.

- Ela própria mandou-me aqui. Pediu-me que o levasse até a capela do castelo. Ela está esperando por você no confessionário. Disse que era muito urgente e que a vida de um homem inocente estava em perigo. – respondeu Ayleen, abarcando os irmãos e Marin com um mesmo olhar.

- Que homem inocente seria este? – perguntou Marin, muito séria. – Seja mais clara, menina!

- A rainha apenas pediu-me que desse o recado. E ordenou que eu conduzisse lorde Aiolos ao confessionário de maneira discreta, pois já era suficiente ter um único homem condenado à morte no castelo. – rebateu a cigana.

- Eu não estou gostando disso. – atalhou Aiolia naquele momento.

- Eu irei com você. – disse Aiolos, levantando-se de súbito da cama, preparando-se para pegar a camisa e vestir-se.

- Você ficou louco? – Marin gritou-lhe naquele momento – A dama da rainha diz que há um homem condenado à morte pelo rei e você decide ir ao confessionário do castelo para encontrar a rainha, em pleno dia, para que todos o vejam?

- Se Maeve deseja falar comigo agora, é porque realmente deve ser algo urgente, Marin! – atalhou Aiolos. – Ela não me mandaria chamar sabendo que há perigos iminentes de que sejamos pegos! Alguma coisa está acontecendo.

- Eu concordo com o meu irmão. – suspirou Aiolia, sem acreditar que estava falando aquilo – Não me olhe assim, Marin, mas ele está certo. Se a rainha mandou uma mensageira até nós com tais notícias, alguma novidade existe, e pelo que vejo ela não é nada boa!

- Aiolos, você sabe qual seria a sua pena se alguém visse, porventura, um homem, que não seja padre, entrando no confessionário da rainha? – rebateu Marin, ignorando o que Aiolia havia dito e caminhando na direção do noivo – Maeve não pode receber visitas masculinas e o interior da capela está sempre cheia de gente. Como você entraria lá sem ser notado?

- Um disfarce, talvez! – atalhou Ayleen, que havia permanecido em silêncio durante o diálogo – Você poderia vestir-se de serva ou até mesmo de dama... freira, padre...

- Isso seria algo que eu gostaria de ver. – Aiolia não pôde conter um sorriso sarcástico naquele momento.

- Isso não será necessário, irmãozinho. – respondeu Aiolos, sarcástico, levantando um dedo na direção de Aiolia – Ao menos não agora. Mas pode chegar o tempo em que eu precise de umas dicas sobre espartilhos que flutuam na água. E quem sabe eu busque os seus conselhos. – e piscou um olho para ele cinicamente.

- Isso vai ser um erro! – berrou Marin, olhando de um para outro irmão – Mas vocês são homens e no dia que um homem criar juízo, ele vai virar mulher!

O.o.O.o.O.o.O Fora do castelo O.o.O.o.O.o.O

Ele cavalgava com velocidade pelos brumosos pastos ao redor do castelo. Já sem a máscara, o rosto moreno recebendo o vento frio do inverno que se aproximava, Shura só diminuiu a marcha quando se aproximou dos portões da fortaleza em estilo românico. Ele não podia deixar de se admirar com a imponência da construção. A cerração havia baixado e a névoa que cobria o castelo fazia dele um lugar praticamente assombrado.

Ele saltou do cavalo com elegância antes mesmo que o animal detivesse a marcha, fazendo algumas moças camponesas se assustarem e sorrirem para ele com malícia, o que ele retribuiu com um aceno cavalheiresco de cabeça. Em seguida, entregou as rédeas do cavalo ao palafreneiro e quis alcançar as escadarias que levariam ao interior do salão principal. Mas não havia dado três passos, a ponta de uma espada fê-lo parar a caminhada, encostada bem na altura de sua garganta.

- Buenas tardes para usted también, señor. – disse Shura, cinicamente, olhando para o lado e encontrando o rosto sério e firme de um dos soldados do rei. – Você poderia baixar a sua arma? Vai ser difícil avançar com a ponta dela bem na minha goela, você não acha? – e soergueu uma sobrancelha.

Como o homem permanecesse calado e firme, sem esboçar qualquer movimento para cumprir o pedido dele, ainda que tivesse demonstrado certo ar de confusão, o espanhol suspirou, cansado da aventura que havia tido, das horas de sono que não havia dormido naquela noite.

- Señor... – pronunciou, exagerando horrivelmente o sotaque de sua língua materna – Você sabe, os tempos estão difíceis, os homens precisam ganhar a vida como podem. – ia dizendo Shura, parecendo distraído e totalmente perdido em pensamento naquele instante – Eu sou um andarilho, nunca pensei que, um dia, estaria lutando por paz, justiça e honra cavalheiresca! – e ele fez uma careta de asco ao pronunciar a última palavra – Mas...

E ele olhou novamente para o soldado, que parecia confuso com o discurso do homem. Shura levantou um dedo, em tom explicativo. Alguns outros soldados, interessados na cena, começaram a se agrupar ao redor dos dois homens, alguns sorrindo para encorajar o companheiro, enquanto outros apostavam que o espanhol seria facilmente derrotado por um dos muito bem treinados soldados do exército real:

- Eu sou um homem que sempre soube manipular muito bem uma espada.

Shura completou. E ao dizer aquilo, sem que o próprio soldado esperasse, ele puxou a espada da bainha de um dos homens que estava próximo, sem que ele mesmo se desse conta do movimento rápido que o cigano havia feito. Embainhando a arma com destreza, Shura, golpeou a espada que estava ameaçando sua garganta e a afastou com firmeza, colocando-se em posição de combate:

- Você me desafiou. – gritou Shura na cara do soldado, que ficara surpreendido pela velocidade com a qual o outro escapara – E eu, como um bom espanhol, nunca fujo de uma briga! Vamos, lute comigo!

O homem pareceu ligeiramente em dúvida, sem saber se aceitava bater-se com o cavaleiro ou se devia recuar e obedecer as ordens do capitão da guarda que, no entanto, não se encontrava ali naquele momento. Ouvindo os gritos dos companheiros, que começaram a levantar também as mãos pela diversão, batendo palmas e instigando o duelo, ele decidiu-se. Fechou as feições, e agarrando o punho da espada com as duas mãos, precipitou-se contra Shura, batendo uma lâmina na outra.

O soldado golpeou-o, mas o espanhol abaixou-se e conseguiu escapar facilmente do ataque do outro, quase infantil para ele. Shura sorriu, envaidecido pela tranquilidade que estampava nas faces. O soldado, tendo golpeado o ar, virou-se novamente para o rival, com a espada em riste. Foi novamente para cima de Shura, desferindo golpes que o cigano calmamente defendia, sem fazer qualquer esforço.

De repente, quando o soldado tentou golpeá-lo de novo, Shura desviou da lâmina afiada e agarrou o homem pelo pulso, firmemente, trazendo-o para si:

- Muy bien, señor! – disse, cinicamente – Você quer saber como se ganha de verdade uma luta?

- Como? – interrogou o soldado, surpreendido, sendo atirado para trás por Shura.

- Seja o único a ter uma espada! – respondeu o espanhol, soerguendo uma sobrancelha.

- O que?

Perguntou o soldado, mas não teve muito tempo para pensar, Shura golpeou o punho do homem, com cuja mão ele agarrava o cabo da espada, e fez a arma voar para cima, agarrando-a em seguida e ficando com as duas espadas na mão. Com um urro de satisfação por ter ganhado tão facilmente, ele sorriu para o soldado, que ficara confuso e envergonhado por ter sido derrotado daquela forma.

- Essa foi fácil! – exclamou o cigano, enquanto os homens ao redor gritavam “vivas” para ele. – Aplausos! – pediu Shura, erguendo as duas armas – Aplausos para o meu amigo soldado, ele lutou muito bem! – sorria – Mas ninguém ganha de mim na esgrima! – e piscou um olho ao soldado.

- Realmente, me comove vossa arrogância, mon ami.

Uma voz, com um forte sotaque estrangeiro, atroou perto deles naquele momento, fazendo com que todos os soldados presentes parassem imediatamente de sorrir e ficassem sérios, colocando-se novamente nas posturas esperadas para um defensor real. O homem que estivera a lutar com Shura abaixou a cabeça e deu dois passos para trás ao avistar a figura do capitão da guarda aproximar-se do grupo naquele momento.

Shura girou sobre os calcanhares e olhou para trás. Viu Camus acercar-se calmamente, vestido com sua armadura de capitão real, que muito bem lhe caía. Os homens provavelmente não esperavam o capitão Dousseau, uma vez que haviam recebido a notícia de que ele ficara na casa de Milo Domothinopoulos a fim de cuidar do moribundo. Eles desconheciam que o francês, sempre muito sério, já havia retornado aos seus afazeres militares naquela mesma manhã.

- Não é arrogância reconhecer um fato quando ele é uma verdade. – tornou Shura, dando de ombros – Eu sempre fui muito bom com uma espada na mão. Quer dizer... – e ele sorriu cinicamente – Com as duas...

Camus esboçou um ar de riso naquele momento pelo comentário, mas o sorriso não chegou a se abrir completamente, pois aquele homem jamais sorria de maneira clara. O francês preferia sempre manter uma postura fechada, tal como a sua própria personalidade, mais distante e fria do que qualquer outro homem que a corte já conhecera.

- Seria verdadeiramente uma honra para mim medir a minha habilidade na esgrima contra um homem que se julga o melhor espadachim que já existiu na face da terra. – comentou o francês, em tom amistoso, mas sério.

- Bem, senhor, eu não posso dizer que sou o melhor do mundo uma vez que nunca tive a oportunidade de viajar para todos os lugares a fim de confirmá-lo. – tornou Shura, segurando as espadas pelos punhos e apoiando-as, cada uma, sobre um dos ombros – Mas a minha fama me antecede. Entre os homens e entre as mulheres.

- É uma lástima para mim quando eu sou obrigado a trancafiar homens corajosos e hábeis como você. – falou Camus, encarando Shura com atenção naquele instante. – Jovens que sabem empunhar uma espada são coisa rara hoje em dia. – completou, relanceando um olhar ao homem que fora derrotado - Contudo, eu cumpro ordens que me chegam diretamente do rei. Você está preso, Shura Sánchez! Deve largar as espadas e me acompanhar em silêncio.

- Vai me levar preso apenas porque lutei com este soldado? – interrogou Shura, sorrindo com ironia, apontando o homem em questão com a ponta da espada que havia pertencido ao outro – Não era um duelo! Nós estávamos apenas treinando e aquecendo o corpo. Você sabe, depois que a guerra acaba, a gente costuma ficar preguiçoso!

- James não estava aqui para treinar com o senhor, Shura Sánchez! – retrucou Camus, falando com cuidado – Ele estava apenas cumprindo ordens minhas!

- E sua ordem era a de me matar? – perguntou o espanhol, franzindo o cenho – Eu mal cheguei ao castelo e ele enfiou uma lâmina bem na minha cara. Isso, para mim, é um claro convite para um desafio!

- Eu peço que você entregue as armas e me siga até a masmorra. – completou Camus, com a mesma entonação controlada, firme, séria, mas demonstrando amizade pelo homem em questão. – Não faça nada insano, você tem muito a perder.

- A masmorra? – Shura, finalmente, deixou que o sorriso sarcástico se desfizesse em seu rosto. – Por que eu estou sendo preso?

- Você saberá durante o seu interrogatório. – respondeu o capitão, com uma calma glacial, pregado ao chão, uma postura impecável e as feições que não denotavam qualquer emoção. – Acompanhe-me, por favor, senhor Sánchez!

- Eu não irei a lugar algum sem antes saber por que estou sendo colocado na masmorra! – retrucou Shura, baixando as espadas e dando um passo na direção de Camus – O que houve enquanto eu estive fora?

- O próprio rei o acusa, cavaleiro. – tornou Camus, sem se sentir intimidado pelo tom feroz do outro.

- E por que o rei me acusaria? – Shura estreitou os olhos em cima do capitão da guarda.

Camus e Shura entreolharam-se por um momento. O espanhol parecia terrivelmente sério naquele instante, tendo perdido completamente o acento brincalhão e sarcástico que havia adotado quando estava lutando com o soldado. Shura sentiu que as pálpebras tremiam, as mãos estavam apertando dolorosamente os cabos das espadas. Camus não respondeu nada, somente fixou os olhos azuis no rosto moreno do espanhol. A face do francês parecia ter um ar de censura, ou assim lhe pareceu a Shura.

- Sua majestade, o rei, o acusa de alta traição. – disse Camus, por fim, com uma entonação baixa que apenas Shura pôde escutar, pois estavam muito próximos. – Acredite, mon ami, eu sei que você é um homem inocente. Mas o rei acha que você é culpado. E o que o rei deseja, o rei deve ter.

E bateu amistosamente no ombro de Shura.

- Venha comigo. – Camus chamou novamente, estirando as duas mãos para receber as espadas – Você está preso em nome do rei.

O espanhol encarou o capitão por alguns segundos. Finalmente, relanceou os olhos ao redor e percebeu que mais soldados haviam se aproximado, cercando ele e o capitão naquele momento.

- Você está rodeado pelos mais bem treinados e armados soldados reais. – avisou Camus, lendo os pensamentos do outro – Eu mesmo treinei esses homens e eles não vão arrefecer em uma luta, eu posso garantir. – continuou – Você conseguiu desarmar facilmente um homem meu, mas não terá a mesma sorte se decidir enfrentar a todos eles ao mesmo tempo. Ou o que seria pior, se resolver enfrentar a mim. Entregue as armas!

Shura franziu as sobrancelhas, ainda sem olhar para Camus, mas por fim voltou-se para o capitão e entregou as duas espadas. Em seguida, Camus passou as armas para um outro soldado e deu as costas a Shura, indicando que ele deveria segui-lo na direção da prisão real. O espanhol balançou a cabeça negativamente enquanto seguia o francês pelos corredores malcheirosos e enegrecidos da masmorra de Káden.

Grades após grades, grossas, impossíveis de serem derrubadas, começaram a sufocá-lo. Shura deteve os passos por um momento, sentindo-se nausear pelo odor fétido de fluidos humanos que subia daquele lugar. Mas o que diabos estava acontecendo? De que ele poderia estar sendo acusado? Ele não fez nada! Mesmo com a confusão daquela madrugada, aquilo não poderia ser a razão, já que ele não pôde ter sido reconhecido por alguém!

Camus, que caminhava na frente, finalmente parou diante da porta de uma cela, um dos muitos cubículos fétidos que apestavam o local. Munido de uma imensa chave, abriu a fechadura e empurrou a porta de ferro para dentro. Entrando na cela em primeiro lugar, olhou para trás a fim de encorajar o espanhol a fazer o mesmo.

Shura suspirou profundamente antes de se decidir a entrar ali. Mas quando o fez, relanceou os olhos pelo local, era imundo e cheirava a carne podre, como se alguma coisa estivesse se decompondo naquele momento. Percebeu, pela visão periférica, que o francês afastava-se na direção da saída e voltou-se de imediato para ele, caminhando até Camus com o pavor estampado nos olhos:

- Até quando eu ficarei aqui? – interrogou o capitão. – Esse lugar é nauseabundo! Eu vou terminar vomitando aqui dentro!

- Eu realmente não sei lhe dizer. – falou Camus, ainda sério e contrito.

- Eu não fiz nada! Seja lá o que for pelo que estou sendo preso, eu me declaro inocente! – rosnou o espanhol.

– É compreensível que o senhor se declare inocente. – ironizou Camus.

- E por que? – retrucou Shura, confuso, agarrando-se nas grades da janelinha da porta.

- Porque todo culpado se declara inocente, mas nenhum inocente se declara culpado. Aqui dentro, meu amigo, todo mundo é inocente e não há ninguém culpado. – e sarcástico, o francês piscou um olho para o outro. - Você será interrogado ainda hoje. E se quer um conselho, aconteça o que acontecer, não confesse! – falou Camus, com muita seriedade.

- Confessar o que? – tornou Shura, realmente assustado com a possibilidade de ser acusado de alta traição pelo próprio rei em pessoa – Eu não tenho nada para confessar!

- Excelente! – disse Camus, querendo entusiasmá-lo – Porém, eu já vi homens urinarem e defecarem nas calças ao serem torturados! Você precisará ser forte! Porque se você confessar... – o capitão balançou a cabeça negativamente.

- Por todos os deuses, o que eu teria para confessar? Eu nem sei do que estou sendo acusado ou porque estou sendo preso! – bradou Shura, agarrando-se ainda mais fortemente aos pequenos ferros da janelinha da porta quando Camus trancou-o lá dentro – Eu serei torturado?

Camus encarou o espanhol por alguns segundos, mas sem responder à pergunta que ele lhe fizera, deu as costas e resolveu se afastar dali o mais depressa possível. Shura, sozinho, olhou para cima, para os lados, para o chão coberto de palha velha e fedorenta. Ao longe, ele ouvia apenas a lamúria assustada de outros presos naquele momento.

O.o.O.o.O.o.O Na capela ardente O.o.O.o.O.o.O

Maeve estava ajoelhada, completamente sozinha, no átrio da capela iluminada por algumas velas, o que tornava o ambiente obscurecido, ainda que o sol brilhasse fracamente do lado de fora. Ali dentro, naquele claustro de paz e reza, era como se a noite tivesse caído por todos os lados. Diante dela estava o altar, belamente adornado, com o imenso crucifixo pendendo da grossa parede de pedra, as feições do Cristo contorcidas em uma careta de dor e sofrimento.

Havia alguns minutos que ela concentrara o olhar naquela figura que lhe parecia pavorosa. Como os cristãos podiam celebrar a morte? Aquela ideia era completamente contrária às tradições nas quais nascera e fora criada. Aquelas pessoas viam a existência como única possibilidade de vida e a morte era um umbral terrorífico que ninguém desejava cruzar. Aquilo lhe pareceu completamente contraditório. Se aquele deus era um deus de amor e piedade, por que os fiéis temiam tanto ir ao seu encontro?

Ela suspirou, ajoelhada diante do altar, com as mãos cruzadas, como se orasse, os cotovelos apoiados em um pequeno altar que estava ali exatamente para isso. O vestido azul que levava naquele momento, os cabelos loiros soltos nas costas e apenas um diadema simples na cabeça, faziam-na parecer uma pequena aparição etérea.

“Como uma fada...” – dizia Aiolos, e ela sorriu ao conseguir escutar a voz dele em suas lembranças.

Ela passou a língua pelos lábios, pois estavam secos e seu corpo clamava por uma mudança de posição imediata. Mas precisava fingir que rezava caso alguém entrasse ali naquele instante. E assim ela tinha que permanecer durante todo o tempo enquanto esperava Aiolos.

O suplício do casamento estava minando o restante de suas forças físicas, que já não eram muitas, depois da terrível recuperação que precisou empreender para sanar sua saúde e seguir com a gravidez.

Não havia comido absolutamente nada durante todo o dia, exceto água e uma xícara de chá amargo que, segundo as criadas do castelo, ajudariam a limpar o organismo.

- Eu não preciso de uma limpeza! – disse para si mesma, com orgulho de suas origens celtas – Eu necessito de comida, ou morrerei de inanição!

Ao lembrar-se da razão pela qual estava ali, prostrada, ela baixou a cabeça e cerrou os olhos com força, tentando pronunciar alguma oração em latim, tal como as havia aprendido no convento.

Porém, não conseguia. Dizia as primeiras palavras, mas sua língua era incapaz de completar as frases corretamente, pois sua memória não conseguia recordar os versos e ela franzia o rosto com uma profunda frustração pela raiva, pela fome, pelo frio e pelo cansaço ao qual estava sendo submetida durante aquelas semanas.

De repente, escutou a porta atrás de si ranger pesadamente, e de imediato virou o rosto naquela direção, nervosa por quem poderia ser. Maeve abriu um sorriso em sua encantadora face, que se iluminou repentinamente. E sem esperar qualquer chamado, sem se importar com os próprios atos ou as consequências que podiam advir deles, levantou-se rapidamente, correndo para ele e atirando os braços em volta do pescoço do arqueiro.

– Meu amor, eu não pensei que viesse! – disse ela. – Eu achei que fosse julgar isso uma grande loucura! Mas acredite, é importante o que eu tenho para dizer.

– Eu não poderia deixar de vir! – respondeu ele, com a voz baixa, um capuz negro sobre a cabeça, mas o rosto estava totalmente à mostra.

– Meu amor, é você mesmo? – perguntou Maeve, anestesiada, olhando ara ele de súbito, sentindo-se protegida dentro dos braços masculinos tão calorosos, com o rosto enfiado no peito masculino. 

– Ninguém mais, minha princesa! – ele sorriu.

- Eu não posso acreditar que estamos juntos novamente. - ela sorriu – Como entrou aqui sem ser visto? – gaguejou ela.

– Meu irmão está de guarda bem na porta. – disse ele – Se houver qualquer perigo, ele vai nos alertar, não há nada a temer. Não sei quando nós dois teremos outra oportunidade como essa.

Ele finalmente a soltou, olhando para ela, e percebeu, horrorizado, a mancha ligeiramente arroxeada na maçã de seu rosto, o canto do lábio cortado e levemente inchado. Aiolos estreitou os olhos pesadamente sobre a face de Maeve e tocou o local machucado com as pontas dos dedos trêmulos, sentindo-se crispar.

- O que aquele animal fez com você?

Rosnou ele, apertando-a contra si, e Maeve sentiu-se ser coberta por beijos. Aquilo era como um sonho.

– Arrependo-me agora de não tê-lo matado ontem, no baile... – disse Aiolos - Seria um grande prazer fazê-lo sofrer como você sofreu.

– Meu amor... – ela sussurrou.

– Você é tão frágil e está sendo tão cruelmente usada... – a voz dele destilava ódio e repulsa.

– Você está aqui... – falou ela, sorrindo para ele - Pensei que nunca mais o veria depois de ontem... – Maeve sentiu os olhos molhados - Ou que não me tocaria novamente, agora que estou para casar com o rei...

Aiolos abraçou-a, beijando-a repetidamente, com um acesso de ternura.

– Eu senti tanto a sua falta! Julguei que nunca mais estaríamos juntos. – falava ela.

– Eu também senti sua falta! – ele a beijou – Mas confesso que o meu irmão quase conseguiu me impedir de encontrar você aqui. O castelo está repleto de gente nesse momento.

Ele sentiu-se angustiado, encarando a amante diante de si, sem medo de ser pego ali.

- Eu tenho uma coisa importante para dizer. – começou a rainha, apertando as mãos do arqueiro entre as suas – O seu amigo está em perigo.

- Você está se referindo ao Shura? – interrogou Aiolos, franzindo ligeiramente o cenho. – O que tem ele?

- O rei o condenou à morte, e você precisa salvá-lo. – falou Maeve, de uma só vez, para conter o nervosismo. – Eu não quero nenhum homem morrendo por minha causa!

Aiolos limitava-se a olhá-la naquele momento. A escuridão da capela fazia desaparecer os contornos dos objetos. O pensamento de seu melhor amigo decapitado provocou-lhe um enorme terror.

- Mas por que diabos aquele maldito condenaria Shura à morte? – retrucou Aiolos, falando em tom baixo, mas com uma entonação feroz pela preocupação, que a rainha via estampada nos olhos dele.

- Thomas acredita que ele é meu amante. – respondeu Maeve, sentindo um imenso ódio pela brutalidade à que fora submetida – Ele disse que Shura seria preso ainda hoje, torturado para que confesse o crime e executado amanhã, durante a festa do casamento.

Aiolos soltou-se dela e deu alguns passos a fim de reorganizar os pensamentos. Aquela notícia estava definitivamente fora dos seus planos. Estava diante do pequeno altar onde a rainha estivera ajoelhada, mas embora olhasse adiante, para o crucifixo, seus olhos não focavam em nada, estavam perdidos pelas palavras que escutara de Maeve.

- Eu tenho um plano de fuga para essa noite, Maeve. – disse ele, de repente, voltando-se para ela.

- Fugir com você? – ela soergue as sobrancelhas e abriu os olhos – Se fugirmos, o rei não terá mais qualquer motivo para condenar Shura à morte! – disse ela, caminhando até ele e parando na frente do arqueiro. – E nós dois estaremos juntos e...

- Duvido que isso seja suficiente para salvá-lo. Thomas provavelmente irá acusa-lo de traição por acobertar nosso caso. Infelizmente, acho que isso tudo também trará consequências para o meu irmão. De qualquer modo, pode oferecer um pouco mais de tempo, já que todos saberão quem é o verdadeiro amante da rainha! – completou ele, bastante sério pelo que estava dizendo.

- Qualquer lugar, longe daqui e perto de você, será como um sonho para mim! – disse ela, esboçando um sorriso, ainda que desesperado. – Você não sabe o martírio que são as paredes desse castelo! Eu prefiro arriscar a minha vida, e até mesmo morrer por isso, do que continuar aqui!

Aiolos sentiu um imenso prazer ao notar, em cada traço delicado do rosto dela, os contornos da felicidade que sua presença causava naquela mulher. Preenchia-o imensamente o fato de saber que ela também o amava.

– Depois que o rei anunciou as bodas para o dia de amanhã, eu pensei que tudo estava perdido e que você fosse se esquecer de mim! – tornou ela.

– Eu não poderia esquecer um só gesto, um só olhar seu, Maeve. – tornou Aiolos, levantando o rosto feminino ao tocá-la no queixo – Eu não conseguiria jamais ir embora sem saber que você ficaria bem!

Volveu ele, e percebeu que as feições de Maeve tornaram-se taciturnas e entristecidas, os olhos azuis enchendo-se de lágrimas. Ela baixou a cabeça por um instante e fechou os orbes para se recompor. A respiração se tornara acelerada ao lembrar-se por tudo que vinha passando e Aiolos, notando-a pálida e nervosa, julgou que a mulher fosse desmaiar a qualquer momento.

– Você precisa ser forte, minha princesa. – disse para ela, recebendo em si o olhar doce de Maeve - O rei é fanático religioso, seja mais beata que ele. Essa é a única forma de sobreviver aqui dentro!

– Ele me deixou sem comida, disse que é para limpar o meu sangue! Eu não sei se vou aguentar muito tempo! – declarou ela, pondo-se aflita pela situação e deixando que ele soubesse todo o seu infortúnio.

– Claro que vai! Você é forte, precisa ser forte, mais do que nunca. Eu vou tirá-la daqui essa noite e iremos embora para sempre de Káden! Não importa mais jogos de tronos, ou política, ou Grandes reis ou rainhas! Seremos só nós dois e os filhos que tivermos!

Agora que os olhos de Maeve se haviam habituado à escuridão, ela podia vê-lo claramente, a linha delicada da testa curvando no lugar dos olhos, o queixo másculo, as sobrancelhas escuras sobre as quais caía o cabelo também escuro. As mãos de ambos estavam unidas. Maeve sentiu que as dele se contraíam sobre as suas.

- Fiquemos um pouco mais aqui... – sussurrou ele, aproximando o rosto do rosto feminino.

- Todo o tempo que você quiser! – murmurou ela, sentindo lágrimas nos olhos.

Maeve envolveu o peito de Aiolos com os braços, enquanto os vigorosos braços do rapaz a apertaram. As mãos masculinas lhe acariciaram os cabelos, que estavam soltos. Ele afagou-os e torceu algumas mechas entre os dedos.

- Maeve, eu tenho a sensação de que você é uma das poucas coisas boas na minha vida. Como uma daquelas fadas de que falam as lendas do norte, da sua gente, que vem de terras desconhecidas e dizem palavras de esperança e beleza para os homens mortais. E depois, partem novamente para as ilhas sagradas para nunca mais serem vistas...

- Mas eu nunca irei embora... – falou ela, com um sussurro.

- Não... – murmurou ele, roçando os lábios pelos delas.

Aiolos puxou-a para si, contra o próprio corpo, arrancou-lhe o diadema da cabeça, atirando-o ao chão, e acariciou-a nos cabelos, segurando-a com delicadeza, inclinando-se para beijá-la, enquanto suas mãos apertavam os ombros de Maeve. As longas palmas do rapaz podiam cobrir toda a mão feminina e escondê-la. O homem levantou os dedos até a parte de trás do vestido, na altura da gola, e começou a puxar os laços.

- Se alguém entrar aqui... – ela murmurou por um momento, abrindo os olhos e relanceando a vista para trás das costas, na direção da porta.

- Meu irmão está de guarda e não vai abandonar o posto até me ver sair por aquela porta, são e salvo. Provavelmente, ele deve estar amaldiçoando aos céus, e a mim também, nesse momento. Mas, acredite, meu amor, nós estamos seguros. Ninguém é louco de desafiar o meu irmão mais novo quando ele resolve proteger a minha vida. – falou Aiolos, piscando um olho para ela.

Maeve sorriu pelo comentário. Ela sentia-se tonta, abalada, a paixão dominava-a como uma onda que cresce e cobre toda a praia. Deixou-se afogar pelos beijos de Aiolos. Ele murmurava coisas que ela não conseguia entender, mas não perguntou o que era, pois não era mais capaz de pensar em palavras.

O.o.O.o.O.o.O Catedral de Káen O.o.O.o.O.o.O

A catedral estava tomada pelo doce e lúgubre canto gregoriano, que preenchia toda a ampla e alta abóbada que subia majestosa na direção dos céus. Os vitrais, que circulavam as naves laterais da igreja, resplandeciam com a luz do sol que as atravessava, o que provocava verdadeiro jogos caleidoscópicos nos pisos e nos bancos da catedral.

O altar estava iluminado por velas e ali, em cima de uma balaustrada, um pequeno coro de crianças e jovens contavam os salmos pela aproximação das seis horas da tarde, a principal hora canônica na liturgia católica. Ele estava de costas para o vasto corredor que levava os fiéis da entrada da catedral até altar aos pés do Cristo crucificado.

Como um maestro, preocupava-se em reger o delicado coral naquele instante, enquanto uns poucos camponeses esfarrapados já se encontravam ajoelhados diante dos bancos esperando pela missa. Tomado completamente pela santa tarefa de fazer as notas soarem afinadas, Shaka, vestido em seus típicos trajes negros monacais, parecia perdido em pensamentos, muito sério, enquanto as crianças seguiam cantando.

O coral finalmente parou de cantar, deixando todos os presentes embevecidos. Houve um silêncio quase sepulcral quando as vozes cessaram, e de repente, o som de uma palma que aplaudia atroou no recinto, ecoando nas paredes. Shaka virou-se de costas naquele momento, com o cenho franzido pelo barulho que o arrancou de sua ascese quase beatífica, pois naqueles momentos sentia-se verdadeiramente mais próximo de Deus.

- Bravo! – disse a voz feminina, após aplaudir as crianças por alguns segundos – Suas crianças parecem um coral de anjos, padre!

Shaka olhou para a mulher que estava parada bem na sua frente. Havia poucos fiéis naquele instante, pois a missa ainda demoraria. Ayleen encarava aquele homem com profunda ironia estampada nas faces. Suas roupas muito elegantes, que a faziam ser reconhecida como uma dama da Grande Rainha, deixavam-na com um ar ligeiramente ambíguo. Para Shaka, era como se tivessem dado asas de anjo ao próprio Diabo. Mas afinal de contas, não tinha sido Satã o próprio Lúcifer, o anjo mais belo, portador da luz?

- O que faz aqui? – perguntou ele finalmente, após quase um minuto de silêncio em que apenas os olhos de ambos se digladiavam – Não deveria estar na igreja.

E virou-se de costas para ela, cruzando as mãos no regaço e afastando-se dali com passos velozes, abandonando as crianças para trás. Ayleen esboçou um sorriso, e sem se sentir constrangida, foi atrás dele. Shaka havia parado diante de um altar de velas que eram acesas pelos fiéis ao fazerem uma promessa para algum santo. Com um acendedor, passou a acender as velas que se haviam apagado, tentando ocupar os pensamentos com uma tarefa útil e esquecer a presença daquela mulher nefasta.

- Ora, e por que uma mulher não poderia entrar na igreja? – interrogou Ayleen, colocando-se ao lado dele e olhando o altar a fim de disfarçar suas ações aos olhos dos curiosos.

- Você não é uma mulher, é o próprio demônio! – rosnou Shaka, sem olhá-la, continuando na tarefa de acender as velas.

- Se eu fosse mesmo um demônio, então eu não poderia ter entrada na casa do Senhor! – rebateu ela, com sarcasmo, fazendo o sinal da cruz com cinismo. – Será que Deus, Nosso Senhor, teria permitido que o Diabo entrasse em sua humilde residência?

- Não blasfeme de Deus! – retrucou Shaka, voltando-se para ela com ferocidade.

- Quem é você para falar de blasfêmia quando está fingindo ser um monge! – disse ela, sorrindo.

- Eu não estou fingindo, Ayleen, eu realmente me converti e tomei os hábitos! – disse ele, gaguejando ao olhá-la dentro dos olhos verdes. – Eu precisava de paz depois de tudo o que houve...

- E você achou que iria encontrar aqui dentro? – ela soergueu as sobrancelhas, dando uma risadinha irônica – As paredes de uma igreja escondem mais imundícies que as de um prostíbulo, padre. Sabe, antes de você me tirar daquele lugar, eu costumava receber visitas de sacerdotes vestidos com suas roupas pretas de escravos de Deus... – ela o encarou com sarcasmo – Eu confesso que era até mais fácil, bastava levantar as saias e...

- Cale-se! – esbraveou Shaka, com uma entonação ríspida.

- Você ainda tem medo de mim. – disse ela, dando um passo na direção dele, que não arrefeceu e continuou a encarar a mulher. – Você tem medo de mim, e raiva também, porque eu lembro a você constantemente que é um humano como outro qualquer! – ela deu outro passo na direção dele, o que fez o monge dar um passo para trás – Eu faço você se sentir um homem como qualquer outro homem debaixo do céu!

E sem que ele próprio esperasse, Ayleen agarrou a cabeça de Shaka com as duas mãos enluvadas, segurando o rosto do monge na direção dela. O rapaz loiro de profundos olhos azuis apenas relanceou a vista ao redor, ainda que o rosto estivesse imobilizado. A catedral estava quase vazia, as crianças se haviam retirado e eles estavam quase ocultos pelas paredes do deambulatório.

- Pode negar o quanto quiser, Shaka, eu sei que você me deseja.

E puxando a cabeça dele para si, ela o beijou na boca, colando com tal força os lábios contra os lábios dele, que Shaka sentiu uma grande pressão dos dentes femininos na própria carne. Após alguns segundos, ele a afastou com força, empurrando-a para longe de si como se o próprio demônio o tivesse beiado. Encarou-a por um curto espaço de tempo, pálido e regelado como se estivesse morto. E de repente, ele saiu com passos largos na direção dos aposentos. Ayleen foi atrás dele sem pensar duas vezes, caminhando rapidamente para não deixá-lo escapar.

- Pode se trancar na igreja! – falava ela, em voz alta, enquanto Shaka, alguns passos adiante, levantou as mãos e tapou os ouvidos para não escutá-la – Pode pedir transferência para outra catedral, ou até mesmo ir para o estrangeiro! Você pode ir até mesmo para o inferno! – seguia ela, gritando, sempre andando atrás dele pelo longo corredor dos dormitórios – Eu quero ver se você consegue me apagar de dentro de você!

Naquele momento, Shaka deteve os próprios passos diante de uma das portas. Não virou para trás para olhá-la. Simplesmente rodou a maçaneta e entrou. Ayleen aproximou-se pé ante pé, com cuidado, e percebeu que ele deixara a porta aberta e havia parado no centro do quarto, olhando para a entrada, decerto esperando, talvez, que ela ingressasse ali também.

Ela assim o fez. Entrou no quarto e fechou a porta atrás de si, mas não a trancou, pois a mesma não tinha chaves. Uma vez lá dentro, os dois encararam-se com semblantes distintos. Shaka estava muito sério, com uma feição severa tal como ela já havia visto antes, o que não a assustou.

- Você pode falar o que você quiser. – disse ele – Mas não passa de uma assassina!

- Eu sou uma assassina, mas eu sou capaz de arrancar você de mim. E você, Shaka? Pelo que vejo, você não conseguiu me esquecer nem mesmo quando pensou que eu estivesse morta. – respondeu ela. – Eu, pelo contrário, já esqueci tanta coisa, por que não esqueceria você também? Eu joguei fora uma vida inteira... – ela tornou-se ligeiramente sombria naquele momento. – Pai, mãe, um noivo honesto me esperando no altar...

- Eu realmente queria que você estivesse morta. – tornou ele, estreitando os olhos sobre ela – Eu tinha certeza de que você...

- Eu sei. – ela sorriu – Você mesmo me enforcou para garantir que eu não tivesse qualquer modo de escapar.

E levando as mãos ao colar que trazia no pescoço, de veludo negro, ela desatou-o e retirou-o dali. Aquela mesma cicatriz que circundava o pescoço feminino mostrou-se novamente para ele.

- Eu vou carregar para sempre essa marca. – disse ela, entredentes. – Mas para quem jogou fora uma vida inteira, o que vale um homem?

- Eu pedi para você não me procurar mais. – falou Shaka, sentindo-se nervoso diante daquela cicatriz que ela lhe atirava na cara.

- Se você quiser que eu vá embora, eu vou. – falou ela.

Ayleen caminhou na direção do monge sem que ele fizesse qualquer movimento para impedir a aproximação dela. Ela chegou muito perto, corpo com corpo, e deixou que uma mão pousasse no peito dele, enquanto Shaka seguia apenas encarando-a de cima para baixo.

- Você sabe que nós dois poderíamos voltar a ser felizes juntos. – murmurou ela, olhando-o de baixo para cima – Você não tem vocação para ser padre.

- Eu não posso ser feliz com uma mulher reconhecidamente assassina. – rebateu Shaka, com a mesma seriedade.

Ayleen tocou com ambas as mãos no rosto dele, delicadamente, puxando a face de Shaka na direção da sua.

- Você não precisa ser padre nem estar em uma igreja para ser santo. – disse ela – Se você quer ser santo, seja aqui fora, comigo...

Shaka deixou-se olhando a mulher por alguns segundos. Mas agarrando as duas mãos dela, retirou-as de seu rosto e afastou Ayleen de si próprio. Em seguida, deu as costas a ela e disse:

- É melhor você ir embora daqui.

- Eu vim até aqui para lhe trazer uma informação. – falou ela, sentindo-se irritada por ter sido desprezada.

- Que informação vinda de você poderia me interessar? – indagou Shaka, ainda de costas, e uma entonação que saiu ligeiramente sarcástica.

- É sobre a rainha e o líder dos arqueiros. – respondeu a cigana.

Ao ouvir aquilo, Shaka virou-se para ela, sério, prestando atenção no que aquela mulher poderia saber que envolvesse o nome da princesa de Tasha e um dos mais nobres e fiéis cavaleiros de Thomas.

- O que aconteceu? – perguntou ele.

- Os dois vão fugir juntos, essa noite, quando a rainha vier fazer a vigília para o dia do casamento. – respondeu Ayleen.

- Fugir? – Shaka estreitou os olhos sobre Ayleen. – Como você ficou sabendo disso?

- A própria rainha me contou. – sorriu a moça. - Agora eu posso ir embora. Imaginei que essa informação interessaria a você. – falou ela. – Com isso, a minha dívida fica paga. Não lhe devo mais nada, padre! – completou aquilo com sarcasmo ferino.

- Saia daqui imediatamente. – disse ele, dando as costas novamente para ela.

Ayleen sorriu ao ouvir aquela ordem que não lhe pareceu tão convincente. Erguendo a mão, deixou cair de entre os dedos um cordão cujo pingente era um crucifixo de ouro maciço.

- Então, você não vai mais querer isso? - interrogou ela, com cinismo. 

Shaka virou-se novamente para ela e franziu o cenho diante do objeto que ela balançava entre os dedos, bem diante dele. Confuso, revistou-se por todos os lados e percebeu que a mulher, em algum momento, havia arrancado seu crucifixo sem que ele próprio percebesse.

- Devolva! – grunhiu o homem, já colocando-se nervoso e estirando a mão para receber o artefato pesado.

- Você o quer de volta? – perguntou ela, erguendo uma sobrancelha.

- É claro que eu o quero de volta. Faz parte da minha ordem. – respondeu Shaka.

Ela sorriu. Erguendo as saias, sem que Shaka pudesse compreender o que ela pretendia, Ayleen esfregou o crucifixo em suas partes íntimas, e caminhando na direção dele, sob o olhar perplexo do homem, agarrou a mão dele e colocou o crucifixo dentro da palma, fechando os dedos dele sobre o objeto.

- Para que você leve o meu cheiro com você. – sussurrou a mulher.

E em seguida, deu as costas ao monge, abriu a porta e saiu dali, deixando-o sozinho, ainda na mesma posição.

O.o.O.o.O.o.O Castelo de Káden O.o.O.o.O.o.O

Com o passar das horas e as conversações pelos corredores do castelo, Mylena criou forças para deixar os próprios aposentos no final da tarde. Afinal de contas, a sobrevivência de seu querido amigo dependia dela. Com o semblante obtuso e relanceando os olhos por todos os lados, desconfiada de estar sendo seguida, esgueirou-se pela galeria que levava diretamente às cozinhas do castelo e entrou no amplo ambiente dentro do qual uma imensa fornalha, que aquecia horrivelmente o local, chamejava. Era continuamente avivada por um criado posto ali para isso.

Naquele momento, muitas servas trabalhavam a fim de aprontarem as comidas para o dia seguinte. Era um banquete de casamento, as bodas do Grande Rei, e deveria haver comes e bebes para todo o reino, nobres e camponeses. Era apenas em dias como aqueles que os pobres tinham a oportunidade de comerem um pedaço de carne assada e ter o seu pão negro e um copo de cerveja.

Ela percebeu que todo o castelo estava afundado na mais completa confusão de um dia tão importante de festas. No pátio externo já flutuavam as bandeiras e as pessoas entravam e saíam pelos portões. Os servos preparavam as liças para os jogos e competições que teriam lugar no dia seguinte. Os vencedores receberiam presentes das mãos da própria Grande Rainha. Os pavilhões já estavam sendo montados por todas as encostas dos morros.

- Você está desonerando demais o caldo! – gritou uma serva para uma jovem que remexia uma imensa panela. – Vai empapar todo o caldo! Olha o tanto de grumos que está se formando!

Mylena relançou os olhos naquela direção, mas foi terrivelmente ignorada pelos atarefados empregados naquele momento. Caminhando entre as abarrotadas mesas, ela conseguiu preencher o seu lenço com pedaços de carne fria e encheu os bolsos do vestido com frutas secas e bolachas. E sem que ninguém a visse, desapareceu dali pela porta traseira.

Caminhando apressadamente para os lados dos últimos estábulos, que estavam desocupados por não possuírem feno suficiente para abrigar os animais, ela repentinamente sentiu um humor frio lhe percorrer as costas, congelando o sangue. O medo de ser presa e executada por tentativa de assassinato novamente estampou seu rosto com os traços do pavor.

Ao se aproximar do local, ela tentou controlar as batidas do coração a fim de serená-las. Agarrou com força o avental do vestido ouvindo o resfolegar de alguns cavalos que estavam pastando por ali naquele momento. Mylena entrou no estábulo procurando dominar o medo crescente. E se Giovanni não morresse? Viria atrás dela para terminar o que ele começou há quase um ano? Ela balançou a cabeça, o pânico era a pior coisa, pois a colocaria a mercê de qualquer desgraça que pudesse surgir.

Ela chegou na baia em que ele costumava esconder-se, mas não havia ninguém ali. Sorrindo, pois sabia que o jovem mantinha-se oculto até que ela lhe revelasse a própria presença, Mylena assoviou de um modo singular, pois aquela era a senha entre ambos. Através da névoa que havia baixado, ela percebeu a forma de um homem que emergiu de trás dos escombros naquele momento.

- Você demorou. – disse a voz dele, enquanto retirava do rosto o capuz e o lenço que servia para lhe cobrir a face, deixando apenas os olhos azuis celestes à mostra – Eu pensei que já não viesse mais. Há uma movimentação estranha no castelo.

- Amanhã é o casamento do Grande Rei. – respondeu ela, aproximando-se do companheiro – Estão todos em polvorosa. Há gente de todos os lados de Rammaren para assistirem à cerimônia e aos jogos. Eu nunca vi tanta gente junta ao mesmo tempo. – ela comentou, parecendo entusiasmada - Você poderia vir disfarçado.

- Eu não sei... – ele sentou-se, encostando-se em uma parede – Pode ser perigoso.

- Ninguém o reconheceria, estaria protegido. – ela ajoelhou-se perto dele, entregando o lenço com comida e deixando as frutas caírem do avental. – Hoje, nós dois teremos um pequeno banquete!

- Você está me saindo uma ladrazinha terrível! – ele sorriu, e aquele movimento iluminou seus traços.

Ele era alto, com a pele branca e os cabelos de fogo. Trajava uma capa grossa que lhe protegia do frio intenso da noite e da madrugada, um capuz que servia para lhe cobrir a cabeça e a face, e um lenço, que ela própria lhe havia dado, e que ele usava para ocultar metade do rosto. Ele parecia com um dos homens das tribos, os druidas.

Mylena colocou nas mãos do amigo uma caneca feita de metal. Despejou nela o líquido doce, suave, com gosto de turfa e nozes que ela havia roubado da dispensa. Ele tomou todo o vinho com muita sede, e percebera que tomara depressa demais depois de um longo jejum. Sentiu-se levemente tonto.

- Você encontrou a minha irmã? – interrogou ele, enquanto comia o pedaço de carne.

- Ainda não. – disse ela – Mas como eu poderei encontrá-la? Eu nunca a vi antes na vida!

- Você irá reconhecê-la. – tornou ele – Dizem que os nossos traços são dolorosamente parecidos. – e ele esboçou um sorriso ao falar aquilo. – Ela também tem cabelos vermelhos, a marca dos diabólicos, segundo as novas leis de Thomas.

Por um momento, ele foi incapaz de controlar a voz para poder falar. E com a dor das lembranças, veio o terror, pois era claro para Mylena que ele havia permanecido fora do mundo por mais tempo do que lhe parecera possível.

- Você parece pálido e mais magro... – comentou Mylena, enquanto mordia uma maçã – Você nunca me disse por onde andou ou o que fez antes de que eu o encontrasse daquela forma...

- Eu vivi na solidão e distante do mundo. Não vi nem falei com ninguém por um algum tempo. Perdi até mesmo a conta das estações. – respondeu ele.

Mylena notou o rosto perturbado dele e, por um momento, ela olhou-o um pouco curiosa, lembrando-se de como ele a havia encontrado, suja, doente, violada de todas as formas. E ele a havia ajudado e conduzido até o castelo do norte.

- Eu preciso voltar. – disse ela, preparando-se para fazer o caminho de volta ao castelo.

- Por que tão cedo? – ele continuou sentado, encostado às tábuas do estábulo, um joelho recolhido para perto do corpo e um braço apoiado nele. – Eu gosto da sua companhia, Myla, nunca me sinto sozinho estando com você.

Mylena percebeu que, apesar de sua aparência esbelta e robusta, ele era tímido e aquela era a maneira dele demonstrar que a amava. Ela sorriu, pois aquele sentimento reconfortava seu coração.

- Venha comigo. – ela convidou, estirando a mão na direção dele – Sair um pouco desse esconderijo vai lhe fazer muito bem. Vamos, por favor, acompanhe-me. Com o capuz sobe o rosto ninguém irá vê-lo. E poderemos nos divertir um pouquinho.

Ele esboçou um sorriso e aceitou a mão dela, erguendo-se de imediato.

O.o.O.o.O.o.O Káden O.o.O.o.O.o.O

Era comum que a rainha acompanhasse a missa das seis horas da tarde. Era também um cerimonial importante que as suas damas de companhia a seguissem até a igreja para acompanhá-la durante a missa e durante também a vigília, que deveria findar a meia noite, quando o sino batia pela terceira vez, anunciando o dia da boda.

Eram tradições que haviam sobrevivido ao fim do império romano, mesmo quando a Santa Madre igreja ainda não detinha o poder de fato, mas de direito. Com o advento do império Carolíngio e a conversão de seus reis ao cristianismo, as práticas católicas tornaram-se, ao longo do tempo, dogmáticas e irrefutáveis: não pergunte, não duvide, obedeça. E os cristãos seguiam bem essa cartilha que aprenderam desde pequenos, afinal de contas, era tudo que eles conheciam.

Maeve caminhava na frente, com um passo sóbrio, a cabeça ereta, um véu azul sobre os cabelos loiros e escorridos, mantendo o olhar austero e sério, como se estivesse caminhando para a forca. Levava um diadema sobre os cabelos do qual descia um fino véu que lhe cobria a face, disfarçando a mancha que trazia na maçã do rosto, pela violência que sofrera mais cedo, do próprio rei.

Atrás de si, acotovelando-se em um grupo de rendas e tules, as nobres damas seguiam a escolta real na direção da catedral de Kaden e eram reverenciadas à medida que cruzavam as ruas, onde os mercadores principiavam por recolher seus objetos. Era a hora em que toda Kaden ajoelhava-se para rezar, fosse rico ou pobre.

Diferentemente da noiva, as acompanhantes não permaneciam em silêncio absoluto, com exceção de Marin, que estava acompanhada de Ourelie. A francesa havia tomado do braço da ruiva e murmurava impropérios aos olhares lascivos que os comerciantes despediam às ricas damas da sociedade. Calista, que seguia do outro lado de Marin, olhando para frente com o queixo altivo, limitava-se a suspirar a cada vez que a voz aguda e renitente da francesa, com o sotaque característico, chegava até os seus ouvidos.

Camus ia na frente, muito bem trajado em suas roupas de capitão da guarda, liderando o pequeno grupo de soldados, com suas espadas embainhadas, servindo de escudo ao paredão feminino que atravessava o reino. Aiolos, montado em seu cavalo, seguia junto do irmão mais novo, Aiolia, igualmente acomodado sobre um belo animal de pelagem castanha, e ambos completavam a escolta do pequeno grupo de senhoras que se dirigiam à igreja.

Maeve, que majestosamente ia adiante de todos com o seu vestido azul, relanceava os olhos para o lado e encontrava os orbes do arqueiro, que cavalgava lentamente próximo a ela. Ele também a fitava e um sorriso cúmplice esboçava-se nos lábios masculinos. O líder dos arqueiros logo tomava um discreto golpe do irmão e de imediato desviava os olhos da rainha e olhava para Aiolia, que o fitava com um semblante pouco confortável.

- Poderia ser mais discreto? – perguntou o mais jovem.

Aiolos apenas sorria pela preocupação do irmão. O sol não estava mais brilhante, as nuvens moviam-se pelo céu que se enegrecia. Cada flor em meio à grama do chão reluzia com uma luz interior própria, luz que Maeve sentia brilhar também dentro de si. Ela novamente olhou para Aiolos, sorrindo, e ele a encarou, fazendo um aceno sedutor de cabeça. Ela viu-se refletida nos olhos dele, e soube que era bela, que ele a desejava e a amava, e que o amor e o respeito que sentiam um pelo outro eram tão grandes que ela sentiu-se explodir de alegria.

Mas os olhares da pequena população, que ainda estava fora de suas casas, concentravam-se na figura pálida e sorridente de Maeve, que não ousava encarar a nenhum deles por puro anseio de ser motivo de chacota pela sua ascendência das fadas. Virar o rosto na direção de Aiolos era a sua segurança.

– Essa é a rainha que nos querem impor? – perguntou uma senhora ao seu marido, postando-se na beira da rua para ver a procissão nobre passar. – Parece uma cidra branca vestida azul! Se não fossem os cabelos loiros, julgaria ver um fantasma. Sim, porque ela seria invisível!

– Não fale tão alto, Genevieve, alguém pode escutar e você vai terminar enforcada! – rebateu o marido, abanando a mão – Bonita ou feia, trará a peste para o nosso reino!

- É uma pagã e somente um tormento divino pode livrar Rammaren da fúria de Deus! – disse outra camponesa maltrapilha e fez o sinal da cruz.

– A antiga rainha era mais simpática! – falou um outro homem – Essa nem sequer se dá ao trabalho de levantar os olhos e nos encarar.

- Decididamente, a arrogância triunfou entre os bárbaros! – rosnou outro homem.

Era impossível não escutar os murmúrios dos cidadãos sobre a sua pessoa. Durante a noite, Maeve estivera acordada boa parte da madrugada, imaginando milhares de coisas que não faziam sentido. Estava bastante pálida, e seu aspecto não era dos melhores naquele início de noite. Ainda que o encontro com Aiolos lhe tivesse trazido um sopro de esperança ao seu coração angustiado, quem a via naquele momento com certeza tinha a impressão de estar diante de um fantasma e não da futura Grande Rainha de Rammaren.

- Aiolos... – Aiolia sussurrou para o irmão enquanto cavalgavam lado a lado. – Não encare a rainha. Não é respeitoso. Já basta Shura estar preso.

- Quando eu e Maeve fugirmos, essa noite, ele estará a salvo. Se a acusação do rei encontra-se em um suposto crime de adultério, então não haverá mais motivo para a execução dele.

- Eu espero que os seus cálculos estejam certos. Thomas mata pessoas pelo puro prazer de matar, não há a necessidade de um motivo plausível para isso. – rebateu Aiolia, realmente preocupado. - E nesse caso, haverá um motivo plausível: Shura está associado a você. Ele te ajudou a salvar a rainha. Você, honestamente, acha que Thomas não irá acusá-lo de acobertar o caso?

- Não se preocupe, irmão. Amanhã, toda Rammaren, de norte a sul, e até o ducado Heinstein e as terras geladas do norte, saberão quem é o verdadeiro culpado. Mas estaremos longe o suficiente para isso. – falou Aiolos, olhando novamente para a rainha, que caminhava adiante. – Thomas não conseguirá nos alcançar.

- Pelo o bem do Shura, e meu próprio, eu espero que esteja certo. Você irá vê-lo? – perguntou Aiolia.

- Sim. Pretendo entrar na masmorra enquanto Maeve estiver rezando na catedral. Será o momento perfeito. – disse o arqueiro.

- Eu irei com você. – decidiu Aiolia, recebendo um aceno positivo do irmão mais velho.

Maeve ficara taciturna ao escutar os comentários feitos em voz alta enquanto passava a caminho da catedral. Com o coração batendo forte, notou que aquela gente olhava para ela – que era uma verdadeira estranha para eles - com um pavor estampado nas faces esqueléticas pela fome e sujas pela miséria. Era uma gente sofrida que acreditava que ela era uma bruxa, filha do próprio Satã.

Apenas a sua educação de princesa pôde oferecer o autocontrole que ela necessitava para se manter digna e ereta, com o queixo erguido. O olhar de Aiolos, ao contrário dos outros, era de amor, desejo, quase de adoração por ela. Provavelmente, a gente de Kaden esperava ver nela algum sinal bárbaro pintado na testa, roupas enlameadas, cabelos despenteados. Era essa a imagem que era pintada e cantada das mulheres do norte.

Para os cristãos, a rainha não era somente uma figura simbólica e feminina, ela era a contraparte do rei e devia ocupar seu lugar no primeiro plano da corte. E ela, Maeve, era, ao modo de ver de todos naquele instante, completamente inadequada para isso. Era uma estrangeira, vinda de terras pagãs! Pareceu-lhe à população de Káden que o rei Thomas havia escolhido muito mal a sua rainha.

Margareth havia sido uma boa governanta, forte, bondosa e amada pelo povo. Era uma cristã convicta, parente do papa que havia lutado pela libertação de Jerusalém das mãos dos infiéis mulçumanos. Mas morrera queimada com a marca de adúltera nas vestes.

Para os cristãos, a rainha era a esposa do rei e não apenas a governanta de sua casa, pois qualquer serva poderia fazer isso. Ela era o símbolo de todas as realidades do mundo, uma lembrança de que a guerra não era eterna e que existia a doçura e a família para a qual os homens sempre voltavam.

Mas Maeve era uma pagã, e para os olhos do mundo cristão, os pagãos eram bárbaros incivilizados, que não conheciam seus costumes nem falavam a sua língua e que tampouco tinham qualquer conceito de moral ou família. Maeve, para o povo de Kaden, não era uma rainha apta a governar um reino de Cristo.

Em Tasha, na sua terra, as mulheres lutavam ao lado dos homens, cresciam empunhando uma arma, uma espada, um arco e flecha, guerreavam em igualdade e eram respeitadas. Mas mesmo aí, desde o princípio dos tempos, era tarefa dos homens trazer a comida para o lar e afastar os perigos que cercassem seus seres mais queridos. E o papel da mulher era justamente zelar por esse mesmo lar. Maeve balançou a cabeça negativamente, sentindo que pensar naquelas coisas não lhe faria nada bem.

Chegaram, por fim, à fonte de Santa Edwiges, na qual, acreditava-se, se uma moeda fosse atirada, um pedido seria realizado pela padroeira de Káden. Era bastante tradicional que as moças virgens, donzelas casadoiras, jogassem moedas de prata, tão raras de se conseguir quando em cada reino havia um padrão monetário diferente, para obter um marido ou ao menos um pretendente.

Mas a noiva da vez devia atirá-la para pedir sorte e abundância em seu caminho como esposa. Camus dispersou os seus homens por um momento, para que descansassem, enquanto as damas agrupavam-se ao redor das águas cristalinas da bela fonte secular que adornava o centro do reino. Havia sido construída pelo imperador Teodósio I.

– Não vai jogar uma moeda, Marin? – perguntou Ourelie, ao atirar uma pequena moeda dentro da água – Não vai pedir à Santa Edwiges um belo marido para comandar as suas terras?

– Não preciso de um homem para comandar as minhas terras, Ourelie. – sorriu Marin, dando de ombros pelo comentário da amiga.

- E mesmo que precisasse... – a voz de Clara soou naquele instante, chamando a atenção das duas mulheres - Pedir um pretendente a uma santa é algo quase ilógico, uma vez que elas fazem voto de castidade, não é assim!

Respondeu Clara, observando as outras garotas mais jovens atirarem suas moedas, dadas pelos soldados, dentro da água. Estava séria desde que tivera aquela discussão com Marin, e como caminhava atrás da escolta real, ela suspirava de alívio por não ser o foco de atenção de Aiolia naquele instante. Sem dar qualquer atenção à conversa entre sua prima e a francesa, Clara afastou-se, caminhando lentamente, e observando o belo e imponente local. Era deveras lindo!

– E você, Ourelie, o que pediu? Se já tem um marido, deveria se abster de tal tradição! – comentou Marin, querendo cortar o mal estar pelo comentário da prima.

– De fato, minha amiga. Mas o casamento não nos proíbe de sonhar, não é verdade? – a francesa sorriu com malícia - As fantasias de uma mulher casada são mais interessantes que as que pode conceber uma solteira. – e sorriu com mais malícia ainda, mais para si que para a outra.

– Eu não duvido! – Marin esboçou um sorriso sarcástico.

Suspirando e virando-se para o lado, a ruiva percebeu Calista, que estava ali próxima, olhando também para a bela e reluzente fonte. Sorrindo, aproximou-se da morena com cuidado. Calista olhava fixamente as águas claras e frias da fonte, completamente perdida em pensamento. Marin acercou-se por trás, chegou-lhe ao lado e somente quando sorriu e dirigiu-lhe a palavra, foi que a morena sobressaltou-se, completamente alheia ao mundo ao se redor.

– Também vai pedir um pretendente, bela Calista? Já ouvi boatos, mal você chegou, de que seu futuro noivo é um dos irmãos Lonnykus, a quem tive a honra de conhecer alguns anos atrás. É com Saga Lonnykus que vai se casar? – interrogou Marin, com simpatia.

– Não, dama Marin, mas com o irmão dele, Kanon.

Respondeu Calista, sorrindo-lhe, pois havia simpatizado com a ruiva desde que a encontrara pela primeira vez. Mas, naquele instante, a figura de Kanon cruzou atrás de Marin, olhando para ela. Calista olhou por sobre o ombro de Marin e fez a ruiva virar-se naquela direção, curiosa pelas feições ansiosas da amiga de Degen.

A ruiva observou o belo rapaz Lonnykus bem atrás de si. Esboçou um discreto sorriso quando ele se aproximou delas, fazendo um aceno para ambas, bastante sério, e dirigindo-se a Calista:

- Prima, o lugar em que deverá ficar, na Igreja, já está preparado para recebê-la. - falou ele, encarando a jovem diretamente nos olhos.

Calista sentiu um comichão subir e descer por seus antebraços.

- Eu agradeço, primo. – respondeu ela, sorrindo com nervosismo.

- Com licença... – disse Kanon, fazendo um aceno para Marin e afastando-se dali.

- Pela maneira rústica como se aproximou de nós, esse é o gêmeo mais novo de Saga: Kanon Lonnykus.

- Ninguém além dele próprio. – falou Calista, com um suspiro, observando o primo afastar-se.

- É com ele que você vai se casar? – Marin soergueu uma sobrancelha.

- Não! – respondeu Calista, rápido demais, fazendo Marin piscar os olhos várias vezes. – Quer dizer... – ela duvidou, sem jeito, baixando um pouco os olhos – Não haverá mais casamento!

– Que pena! – disse Marin, desfazendo o sorriso e notando que a outra ficara corada e sem jeito – Acho que fariam um belo casal. Na verdade, minha querida, uma mulher como você é um belo adorno para o braço de qualquer homem!

– Eu não quero ser o adorno de ninguém! – rebateu Calista, encarando-a com uma entonação algo seca pelo comentário.

– Eu não quis ofendê-la, minha cara. – volveu Marin, suave e amiga – Mas somente expressar o fato de que uma mulher da nossa classe não significa nada mais que uma aliança para os homens... – e suspirou, olhando a fonte.

– E uma parideira também! – grunhiu Ourelie, aproximando-se das duas mulheres naquele instante - Eles nos transformam em éguas de seus estábulos. – completou, sorrindo tristemente para ambas.

– De fato! – disse Calista, e olhando a princesa de Tasha, alguns passos distantes dali, ela comentou – A rainha também será uma égua? – franziu o cenho por aquele pensamento.

– Sim, mas dos estábulos reais! – exclamou a francesa, sarcástica, também olhando Maeve – E se ela não parir um garanhão logo, será sacrificada!

O.o.O

Maeve já não escutava quaisquer comentários, na verdade não escutava coisa alguma vinda de quem quer que fosse. Seus pensamentos estavam longe e seus olhos estavam cravados nas águas da fonte. Foi Camus quem se aproximou dela, gentilmente, e lhe havia entregado uma moeda para que ela a jogasse na água, explicando-lhe o valor simbólico daquele ato para o povo de Kaden.

E logo se afastou, deixando-a sozinha, quando a princesa cravara-lhe o olhar de forma confusa e tímida, sem saber bem por que tinha que jogar uma moeda para pedir a felicidade. Então, se ela atirasse aquele pequeno objeto, Aiolos poderia vir até ela naquele momento? Olhou ao redor, mas não viu qualquer rastro dele naquele momento.

Ela aproximou-se da fonte e olhou para as límpidas águas, fechou os olhos segurando a pequena moeda entre seus dedos longos e finos. Parecendo envolver-se em uma terrível concentração mental, ela atirou a moeda na água, escutando o som que causara ao bater na superfície e vendo-a, lentamente, escorregar para o fundo onde milhares de outras moedas se encontravam.

Por um momento ela esperou, sorrindo, estática, que algo acontecesse, com o olhar azul fixo na superfície que se movia em ondas. Fechou os olhos por um instante, e de repente, contra qualquer aviso, um movimento sobrepujou-a pelas costas. Com os olhos ainda fechados, ela eriçou-se ao sentir um corpo encaixar-se ao dela pelas costas. Sem abrir os olhos, ela, no entanto, sorriu luminosamente:

– Essa é a minha moeda?

Indagou Maeve, naquele momento, sentindo o coração acelerado e corando ardentemente, a olhos vistos, com a proximidade fatal em que eles estavam. Ela ainda mantinha os orbes fechados.

– Eu não tenho como saber, senhora. – disse Aiolos, ao lado dela, por trás dela, aspirando o doce perfume que subia do corpo dela – Por que?

– Porque há um desejo preso a ela! – murmurou Maeve, sem abrir os olhos, enquanto sussurravam um para o outro.

A rainha sentiu a respiração dele em seu pescoço, sobre o seu ombro esquerdo.

– Então, eu espero que o seu desejo se realize. – volveu o homem, esboçando um sorriso reconfortante, ao qual ela correspondeu quase com um enlevo etéreo.

Maeve finalmente abriu os olhos, sem qualquer aviso prévio; e de forma inesperada, ela percebeu que a mão dele estava diante de seu rosto, bem no local onde ela imaginara que estivesse, e sobre a palma grande e amorenada havia uma pequena moeda prateada, que brilhava à luz das primeiras estrelas. Ela sorriu novamente para a imagem que era já sua conhecida, a imagem da sua felicidade refletida na água. Maliciosa, ela esticou a mão para tocar no reflexo.

Voltou-se para ele lentamente e o encarou muito próximo de si. O sorriso diminuiu, mas o olhar tornou-se ainda mais cúmplice. Seus profundos olhos azuis acinzentados abriram-se desmesuradamente diante do arrebatador da situação. Era uma imagem completa feita de carne e osso e um capuz imenso cobrindo-lhe toda a cabeça. Ele levantou o rosto para ela no momento em que percebeu, nitidamente, na face transtornada e radiante de Maeve, que ela por fim havia se dado conta de que era ele mesmo ali e não o fruto de um pedido de uma moeda.

O.o.O

Clara estava sentada na borda de mármore da fonte. Distraída, ocupava o tempo em mergulhar a mão nua na água fria sob cujo espelho nadavam pequenos peixes com os quais ela brincava. Sorria para si mesma, perdida em pensamentos. A água brilhante, avermelhada pela fraca luz do sol, estendia-se por toda fonte. O olhar estava fixo nas águas turvas por seus próprios movimentos.

- Senhorita Clara...

A voz dele sobrepujou-a pelas costas e ela sentiu-se tremer ligeiramente. Ainda de costas para ele, a respiração modificou-se e ela percebeu que a presença de Aiolia não passava despercebida ao seu próprio corpo. Sim, porque o corpo dela parecia reagir muito mais aos desejos de Aiolia do que os dela própria. E Clara sentia-se terrivelmente irritada consigo mesma por não conseguir controlar os próprios pensamentos.

- Eu não pensei que viesse rezar com a rainha. – comentou ele, soerguendo uma sobrancelha e caminhando lentamente na direção dela.

- Por que eu não haveria de vir? – indagou a jovem, erguendo o rosto quando o rapaz sentou-se na borda da fonte, diante dela própria, que seguia brincando com as águas. – Eu sou uma mulher, e para o rei, meu lugar é bem aqui, com os outros espécimes do meu sexo amaldiçoado. – completou com ironia.

Aiolia esboçou um sorriso pelas palavras ácidas dela, mostrando os belos dentes, bem alinhados, em um sorriso perfeito. E aquele sorriso que ele lhe ofereceu quase tirara o fôlego de Clara. Ela pigarreou e desviou os olhos daquele local, voltando a fitar os peixes, que nadavam de um lado para o outro, de um lado para o outro...

- Você é muito dura com o seu próprio sexo. – retrucou Aiolia, fazendo-a sobressaltar-se.

Clara se havia perdido em pensamentos naquele instante. Recordou, contra sua vontade, os momentos em que estivera com ele, naquele lago, na noite anterior, e em seguida, lembrou da conversa que tivera com Marin naquele mesmo dia. Ela levantou o rosto novamente para ele, parecendo ter sido pega de surpresa.

- Eu não sou cruel, apenas realista. – rebateu ela, após conseguir encontrar o fio das próprias ideias – Não é isso que o rei Thomas defende? Que as mulheres são insignificantes e só servem para dar filhos legítimos ao marido? O deus cristão é um deus pouco amoroso para com as mulheres. Talvez seja um indício de que ele prefere os homens... – e ela sorriu maliciosa, demonstrando o duplo sentido que existia em suas palavras – Já percebeu que a repulsa pelas mulheres mostra uma clara admiração masculina por seu próprio sexo?

Mais uma vez, Aiolia não pôde deixar de se assustar pela audácia da jovem. Aquelas palavras que saíam dela poderiam levá-la à fogueira facilmente. Mas Clara não parecia ter medo e isso fazia com que ele a admirasse cada vez mais. Era uma mulher forte, apesar da pouca idade. Ela era, decerto, a mulher mais inteligente que ele jamais conhecera.

- Devo confessar, milady, que a indisposição masculina em relação às mulheres não é uma prerrogativa apenas dos cristãos. Na minha terra... – e ele pareceu ligeiramente pensativo e saudoso naquele momento – As mulheres passam toda a vida trancafiadas dentro de um único quarto da casa.

Ao escutar aquilo, Clara, que brincava ainda com os coloridos peixinhos, ergueu os olhos verdes para o rapaz, demonstrando a exata surpresa que a declaração dele provocara nela. Suas mãos detiveram, por um momento, a tarefa de espargir água e a moça apenas fitou o jovem com profunda seriedade.

- Trancam as mulheres dentro de um quatro? – ela retrucou, incrédula.

- Eu nasci em Atenas, mas cheguei a Kaden aos dez anos de idade. – começou Aiolia – Entre os gregos, as mulheres são consideradas seres desprovidos de razão, logo elas não possuem capacidade de discernimento ou de julgamento.

- Ou seja... – rebateu Clara, cortando a fala dele – Ela não pode decidir o próprio destino, tomar as próprias decisões, controlar a própria existência... – falou ela com profunda irritação, não dele, mas pela condição de seu sexo – As mulheres são consideradas eternas crianças que precisam de um pai ou de um marido para falarem por ela, decidirem por ela, viverem por ela.

- Bem... – Aiolia pigarreou por sua vez, percebendo o desconforto da companheira – As tradições gregas categorizam as mulheres em três tipos.

- Estou curiosa para saber quais são eles, milorde. – falou Clara, com um sarcasmo ferino na voz ao pronunciar aquele título.

- Existem as mulheres para a diversão, as hetairas. Há também aquelas mulheres que cuidam de nós, as concubinas. E as esposas são as senhoras de nosso lar e as mães de nossos filhos legítimos. – respondeu Aiolia.

- E agora você vai me dizer que a melhor qualidade para uma mulher é o silêncio. – completou Clara, esboçando um sorriso fingido. – Eu nunca escutei tanto absurdo!

- Senhorita Clara, gostaria que soubesse que, embora eu seja grego, não compactuo com essas tradições. Eu cresci longe de Atenas e... – ele tentou dizer.

- Bem, o senhor não cresceu em um lugar muito melhor, senhor Aiolia. – ela tomou a palavra. – Um reino cristão não é o melhor exemplo para a liberdade feminina!

- Ao meu lado, você poderia ser ou fazer o que quisesse... – falou ele repentinamente, fazendo Clara erguer o rosto para olhá-lo.

- Eu poderia ser qualquer coisa que quisesse contanto que você concordasse com isso, não é assim? – ela satirizou, erguendo uma sobrancelha - Não sei que liberdade é essa em que tenho que me tornar a propriedade de alguém. O senhor teria total autoridade sobre mim após o casamento. De acordo com a lei, o marido pode se comportar como bem entender. Eu, não.

- Um homem decente trata a esposa como uma igual, senhorita, muito menos subestima a mente de uma mulher. Eu gostaria de pensar que tenho uma parceira e não uma escrava ao meu lado. Eu a admiro, senhorita Clara. Eu falo seriamente. Eu vejo você. É uma garota impetuosa e muito atrevida. Mas... – ele suspirou por um instante e tornou-se bastante sério – Por debaixo dessa superfície de sarcasmo e racionalidade, esconde-se a mulher mais fantástica que eu já conheci em toda a minha vida.

- Ou, talvez, você não me admire... – disse ela, após alguns segundos de silêncio, em que ambos apenas se entreolharam – O que você vê em mim talvez não seja eu mesma, mas outra mulher, que você gostaria de possuir e, no entanto, não pode...

- Do que está falando? – Aiolia franziu o cenho pesadamente e estreitou os olhos sobre ela. – Eu não vejo qualquer outra mulher em você, milady. Quando eu a olho, apenas sou capaz de enxergar você. Se me permite admitir, eu tenho pensado na senhorita desde essa madrugada. Você não me sai dos pensamentos.

Clara comprimiu os lábios naquele momento pelo nervosismo. Não contava em escutar aquelas declarações no momento em que havia prometido para si mesma, e para Marin, que se manteria longe de Aiolia a qualquer custo. Ela desviou os olhos do rosto dele e olhou para baixo, piscando várias vezes para focar as ideias.

- Clara, eu...

Aiolia tentou falar, e ao fazê-lo, quis alcançar a mão dela, que estava pousada sobre a borda. Mas quando a jovem sentiu o toque dos dedos dele por cima dos seus, retirou a mão rapidamente, como se tivesse levado um choque.

- O que deu em você? – interrogou ele, olhando-a como se a desconhecesse.

- Eu acho que nós dois não deveríamos ter esse tipo de conversa. - tornou ela, tentando recuperar o autocontrole. – Nós não nos conhecemos intimamente, senhor Aiolia, portanto, não somos amigos e eu não acho que essas investidas possam me beneficiar de alguma forma.

- Foi a Marin, não foi? – perguntou ele, ainda sentado diante dela, próximo a ela, encarando-a – O que ela disse a você?

- Por que acha que ela me disse qualquer coisa? – interrogou Clara, franzindo o cenho – Você acha que eu não sou capaz de tomar minhas próprias decisões baseadas em meus próprios julgamentos?

- Eu não quis dizer isso e você sabe muito bem. – rebateu Aiolia, tornando-se pesadamente sério e segurando o olhar da companheira – Não parece a mesma Clara que eu tive em meus braços essa noite. O que aconteceu com você?

- Talvez tenha razão, senhor Aiolia, eu não sou aquela Clara, impetuosa e atrevida. – ela levantou-se de um salto e postou-se diante dele, mas falando em voz baixa – Eu apenas consigo perceber a situação ridícula na qual eu mesma me coloquei. E o senhor, se tivesse alguma decência, teria vergonha em se aproximar assim de mim, uma donzela, colocando em risco, diante de todos, a minha honra.

- Eu não tenho qualquer interesse em ferir a sua honra, milady. – Aiolia também ergueu-se ao escutar aquelas palavras que lhe pareceram desaforadas. – Eu tenho as melhores intenções com você e a senhorita me acusa de indecente e de sedução de donzelas indefesas! – completou ele com ironia. – E se eu tenho alguma culpa nisso tudo, muito bem, eu não sou o único. Eu não precisei fazer esforços para arrastá-la até o lago, e depois até aquela estrebaria. Você foi caminhando com as suas próprias pernas...

Ela abriu a boca de incredulidade e indignação. Quis dizer qualquer coisa, mas não foi capaz. Ambos entreolharam-se por quase um minuto, cada qual buscando o melhor argumento para vencer a barreira que o outro havia levantado.

- Suas palavras apenas demonstram que o senhor não tem qualquer boa intenção para comigo. – falou ela – Sua fama o precede, senhor Aiolia. É um mulherengo conhecido no reino. E o seu irmão também. Afinal de contas, vocês possuem o mesmo sangue. Por que não vai buscar algumas dessas mulheres que servem apenas para diverti-lo? Assim, você poderia me deixar em paz. Ao contrário do que você deve pensar, eu não nasci para ficar trancada em um quarto o resto da minha existência!

- Você não quer isso! – rebateu Aiolia, olhando-a dentro dos olhos, e esboçando um sorriso irônico naquele momento – Não sei até onde pretende chegar com essa encenação. Eu não sei o que realmente houve entre você e Marin, mas não vai conseguir me espantar, senhorita Clara.

- O senhor é tão arrogante e pretensioso a ponto de acreditar que uma mulher pode não ter caído diante de seu poder de sedução? – interrogou ela, ainda mais indignada pelas palavras dele, mas sentindo-se nervosa de não conseguir esconder seus próprios sentimentos.

Ao escutar aquilo, Aiolia atirou-se para ela, chegando-lhe muito perto, ignorando quem pudesse estar próximo deles. Na realidade, não se importava nem um pouco com os olhares dos quais eles poderiam ser vítimas. Não era o irmão, que estava cortejando a rainha, mas um homem solteiro cortejando uma dama solteira. Ninguém poderia levá-los presos por aquilo.

- Então, me diga, senhorita Clara... – exigiu ele, com o rosto muito próximo ao dela, olhando-a de cima para baixo – Mande-me ir embora daqui e nunca mais aparecer! Vamos! Se é isso que tanto quer, então exija, ordene, e eu irei obedecê-la!

Houve um curto silêncio entre eles. Os lábios femininos entreabriram-se para responder, ordenar, exigir que ele a deixasse em paz, com seus pensamentos, seus tormentos, suas perturbações. Ela queria dizer aquilo, queria mandá-lo embora, mas a língua não obedeceu e os dois ficaram ali, suspensos, um perdido no olhar do outro, aguardando uma resolução para os seus destinos.

- Eu... – ela gaguejou, e de imediato, Aiolia sorriu e disse:

- Foi exatamente o que eu pensei! – e relanceando os olhos ao redor, dando-se conta de que eram amplamente ignorados, ele a beijou superficialmente nos lábios, fazendo-a calar a boca – Eu a vejo na igreja, em seguida! Espere-me lá!

E sem esperar qualquer resposta por parte dela, ele afastou-se, sorrindo, buscando o irmão com os olhos. E ali ela permaneceu, atônita pelo que tinha passado, séria, pensativa. As pontas dos dedos tocaram levemente na carne rubra dos lábios, onde ele a havia beijado. E ela esboçou um sorriso discreto, sem conseguir mentir para si mesma que tinha gostado daquilo.

O.o.O.o.O.o.O

No castelo, Lívia seguia cuidando de Giovanni. Os cabelos presos descuidadamente, o avental sujo de sangue, ela estava se desdobrando em mil a fim de dar conta de todas as tarefas. O general estava sobre a cama, respirava compassadamente, parecia sofrer pela dor, pois gemia em sua inconsciência que não chegava a ser um sono, mas tampouco estava desperto. O rosto virava de um lado para o outro e as feições expressavam dolorosamente o sofrimento pelo qual passava.

Já estava escurecendo lá fora, o quarto estava iluminado por velas recém acesas por algumas servas que trouxeram também lenha fresca para a lareira. Ela afastou-se da cama e passou a avivar o fogo com a ajuda de um atiçador. O rosto estava visivelmente cansado e ela parecia verdadeiramente exausta pelos cuidados excessivos com o intuito de manter Giovanni longe dos portões do outro mundo.

- Lívia...

De repente, um fio de voz soou nas costas dela. Sobressaltando-se ao se virar para trás, ela abriu os olhos ao perceber que o homem, quase moribundo, olhava para ela com profunda dor no rosto.

- Lívia...

Ele chamou novamente, quebrando o silêncio do aposento, cuja porta estava fechada naquele momento e apenas o marulhar do fogo, crepitando, quebrava a quietude. Ela esboçou um sorriso, aliviado, ao vê-lo desperto. Soltando o atiçador no chão, correu para ele e sentou-se na cama, olhando-o com alegria.

- Giovanni... – ela o chamou, piscando algumas vezes e sentindo as lágrimas molharem as retinas – Que bom que você acordou. Isso significa que você vai melhorar e...

- Quem esteve aqui enquanto eu estava inconsciente? – interrogou ele, muito sério, olhando para ela, mas sem deixar que ela seguisse falando – Alguém entrou neste quarto enquanto eu dormia?

- Bem, sim... – Lívia gaguejou por um instante, sem entender aquela pergunta e franzindo o cenho confusamente para ele – Muitas pessoas entraram aqui durante todo o dia e...

- Quem? – Giovanni segurou-a pelos ombros, erguendo o tronco com dificuldade, fazendo uma careta horrenda de dor ao forçar a recente ferida – Diga-me os nomes de todas as mulheres que estiveram aqui...

- Mas... – Lívia suspirou pela exaustão – Por que? Eu não entendo...

- Escute-me... – ele tomou o rosto dela entre as duas mãos, grandes, quase conseguindo fechar-se sobre a face fina e delicada da jovem – Eu não confio em ninguém... – Giovanni manteve o rosto dela preso na sua direção – A única pessoa em todo o mundo em quem eu confio é em você.

Lívia sentiu-se arrepiar ligeiramente diante daquelas palavras. Ela podia ver certo receio nos olhos azuis de Giovanni e escutá-lo dizer aquilo, naquele momento de fragilidade, fê-la realmente emocionar-se. Ela segurou os pulsos dele com as mãos, alisando aquela região, enquanto as mãos do homem seguiam sustentando sua face aquilina.

- Eu não quero que ninguém mais entre aqui a não ser você. – ordenou ele, fazendo um grande esforço para falar e manter-se naquela posição, sustentando-se sobre o tronco.

- Mas as servas... – ela tentou falar, porém Giovanni impediu-a mais uma vez.

- Apenas você, Lívia. Eu não quero mais ninguém aqui dentro enquanto eu estiver incapaz de me defender. – tornou ele, com firmeza – Você me entendeu?

Lívia não conseguiu responde de imediato, com a rapidez que ele esperava. A face dela estava corada pelos contínuos exercícios ao cuidar dele durante todo aquele dia e também pelo calor do fogo que já tomava conta do local. Houve um curto silêncio entre eles durante o qual os dois apenas se entreolharam.

- Você entende o que eu estou dizendo? – ele perguntou – Ninguém mais deve entrar aqui, homem ou mulher, amigo ou inimigo, a não ser você.

Ela balançou a cabeça afirmativamente, com efusão, agarrando em uma das mãos dele e beijando-a com carinho.

- Eu farei o que você mandar. – disse ela. – Você não quer me contar quem fez isso?

- Eu... – ele suspirou com dificuldade, deixando a vista se perder por um momento – Eu não vi quem foi... – disse por fim. – Eu estava dormindo quando fui atacado.

- Para onde você vai? – perguntou Lívia, ao vê-lo afastar a coberta que ela própria lhe havia colocado por cima para protegê-lo do frio – O que pensa que está fazendo, Giovanni?

Ele arrancou o lençol de cima de si mesmo e atirou-o para um lado, colocando as pernas para fora da cama e sentando-se com dificuldade. Estava sem camisa e o abdômen encontrava-se completamente enfaixado. Havia uma mancha de sangue na altura em que ele havia sido atingido pelo punhal daquela maldita!

Giovanni fez uma careta horrenda de sofrimento e soltou um gemido forte e doloroso. Lívia correu para auxiliá-lo, queria forçá-lo a se deitar novamente, mas controlar um homem daquele tamanho, que a ganhava bastante em altura, era uma tarefa impossível e inútil. Quando ela quis novamente persuadi-lo a se encostar na cama, nos travesseiros, ele a empurrou para o lado:

- Deixe-me. – pediu ele, colocando uma mão sobre o ferimento – Eu não posso ficar aqui por muito tempo.

- Você foi gravemente ferido, meu amor. – volveu Lívia, olhando-o com pavor – Está muito fraco e com febre. Você precisa descansar, do contrário...

- Se eu continuar aqui, nesse estado deplorável, Lívia, eu serei assassinado facilmente! – rebateu ele, grunhindo aquelas palavras na direção dela – Eu sou o general, o homem mais temido do reino, e um animal asqueroso teve a audácia de se aproximar de mim e apunhalar-me! – ele rosnou com fúria, lembrando-se da cena na estrebaria.

- Você é um homem temido, meu amor, mas é apenas um homem. – disse ela, balançando a cabeça negativamente – A ferida pode infeccionar. Eu preciso lavá-la constantemente com unguentos para ajudar a cicatrizá-la mais rápido. – ela tentava animá-lo – Dentro de uma semana, talvez, você possa voltar a montar um cavalo novamente. – ela sorriu, como se quisesse convencer uma criança a permanecer na cama.

- Traga-me a adaga. – disse ele, como se tivesse ignorado o que ela acabara de falar. – E uma vela também.

Lívia permaneceu quieta por um instante, e por fim resolveu obedecer. Agarrou a adaga que pertencia a Giovanni, e que estava nos casacos, tomou um castiçal no qual queimava uma vela, e levou tudo para ele. Giovanni, ainda sentado na cama, começou a desfazer as bandagens que Lívia, com dificuldade, lhe havia atado no corpo para cobrir o ferimento. Fazendo careta de dor a cada vez que movimentava os braços para se livrar dos tecidos, ele finalmente conseguiu retirar tudo e expôs diante dos olhos de Lívia o feio corte, o feio corte que estava irritado e ainda pingava sangue.

- O que vai fazer? – interrogou ela, assustando-se quando Giovanni agarrou o punhal e a vela de suas mãos. – Giovanni...

- Não vai parar de sangrar... – comentou ele, observando atentamente o corte – Vai infeccionar em algumas horas, e dentro de dois dias eu estarei morto pela febre. – completou.

Ele passou a lâmina do punhal pela vela durante um longo tempo. Lívia, durante todo aquele instante, observava os movimentos do marido com profundo terror nos olhos azuis, mas não fez qualquer movimento para impedi-lo. depois de um longo tempo esperando a lâmina ferver, Giovanni, respirando profundamente, encostou com força a lâmina em cima do ferimento. Soltou um grito contido, mas feroz, que assustou Lívia profundamente. Ele mordeu o lábio inferior com força, quase arrancando a carne com os próprios dentes, enquanto ainda segurava a adaga no mesmo lugar.

Após alguns segundos, ele atirou o punhal para longe de si, com raiva, caindo em cima da cama e deixando que gemidos de dor saíssem de entre os seus lábios.

- Dio santo... – exclamou em sua língua materna – Madonna mia... – e ele gemeu mais alto. – Isso doeu!

Lívia estava parada ao pé da cama, enquanto ele se havia jogado para trás, com as pernas penduradas para fora, e o tórax para cima. Giovanni ainda gemia dolorosamente, enquanto ela apenas o observava, inerte, assustada, surpreendida pela frieza brutal daquele homem que era seu marido. Giovanni, por fim, pareceu lembrar-se dela e olhou-a, ainda deitado, parecendo exausto pelo que acabara de fazer.

- Desculpe se eu assustei você... – disse ele com um fio de voz, e ao falar aquilo, ergueu-se novamente com dificuldade, sentando-se. – É isso que fazemos na guerra, Lívia, quando sofremos algum golpe.

- Pareceu0me algo primitivo e bárbaro... – comentou ela, tentando recuperar o próprio fôlego.

Ele agarrou a jovem pela cintura, pois ela estava parada diante dele, encostada aos seus joelhos. O general trouxe-a para si, colocando-a sentada em seu colo. A dor que sentia não importava mais, apenas queria olhá-la mais de perto. Estava achando graça das feições congeladas dela. Lívia o olhava de maneira confusa e aterrorizada pelo que vira. Giovanni segurou a nuca dela por baixo dos cabelos e fê-la olhá-lo atentamente, os rostos muito próximos.

- Eu realmente não queria assustar você. – repetiu ele, com um murmúrio – Não precisa ter medo de mim, Lívia.

- Eu não tenho medo de você. – disse ela, com firmeza, encarando-o nos olhos, e sorriu para ele.

Giovanni também sorriu para ela, e Lívia não soube dizer se aquele era um sorriso de alegria ou uma careta de dor.

- Você é a única pessoa em todo o mundo que pode dizer isso! – ele falou e a beijou.

O.o.O.o.O.o.O

Marin aproximara-se da fonte, caminhando lentamente pela bela paisagem. Com a aproximação do poente, ela respirou com força o ar gelado, enquanto os últimos raios de sol batiam em seus cabelos, tornando os fios acobreados. Ela gostava do inverno. Apreciava cavalgar através da geada e da neblina, antes do nascer do sol. Sentia-se livre naquelas horas, sem ser observada por qualquer olhar, exceto a própria natureza.

Acercando-se da fonte, debruçou-se sobre ela a fim de olhar para o fundo translúcido que estava repleto de moedas, algumas muito antigas, provavelmente da época do Império. Ela deixou-se perder em pensamentos naquele instante, as lembranças emergindo de sua mente serenada pelo pôr do sol que tornava tudo tão vermelho.

Ela encarou a própria face no lago e pôde ver a sua própria beleza refletida dentro de seus olhos azuis. Os cabelos vermelhos caindo em cachos para frente. Ela precisou afastar algumas mexas para o lado a fim de continuar mirando o belo rosto de uma jovem de vinte e quatro anos que observava a si mesma na superfície do lago.

De acordo com os costumes, ela já estava em idade avançada para casar-se. Sorriu ao pensar naquilo. Sua mãe não aprovaria que, aos vinte e quatro anos, sua filha primogênita ainda continuasse solteira. Marin sempre sentira que seu destino era permanecer sozinha. A solidão caía-lhe bem, mas era um fardo pesado para se carregar. Se seu irmão estivesse ali, vivo, naquele momento, não precisaria de um marido para acompanhá-la velhice.

Seu irmão era seu melhor amigo, sempre havia sido tão fácil entre eles. E ela lembrava-se do quanto Touma costumava ser esperto e vivaz quando os dois estavam juntos. Ela gostava de brincar com ele dizendo-lhe que seu belo rosto chamava a atenção de muitas donzelas solteiras do reino. Ao que ele respondia: “Nós dois ficaremos velhinhos, sozinhos, um ao lado do outro Marin. Não vou me casar com ninguém, jamais irei abandoná-la, minha irmã.”

- A felicidade só é completa quando compartilhada. – ela sussurrou para si mesma e suspirou. – E eu gostaria de tê-lo aqui, irmão...

Touma não tinha cumprido a promessa, havia abandonado a sua querida irmã mais velha ao decidir ir para a guerra em nome de Thomas. E agora ela estava ali, sozinha, tendo de casar-se para não perder as terras da família. Ela fechou os olhos por um instante e voltou a abri-los. Exteriormente, parecia tão forte. Ela era a perfeita mulher de boa família, firme e prestativa, a quem todas as jovens inexperientes costumavam buscar para pedir ajuda ou algum conselho. Mas por dentro, sentia-se como um escravo acorrentado a um destino que não escolhera. Por dentro, ela estava gritando a plenos pulmões sem que ninguém a percebesse ou sequer escutasse.

A água turvou-se por um instante e desfocou a imagem que era refletida. Marin olhou para o lado e percebeu que algumas damas da rainha agitavam a água naquele instante, brincando de atirar o líquido fresco uma na outra, sorrindo como era normal em meninas daquela idade, tão inocentes como ela própria já fora um dia.

Ela voltou novamente ao seu antigo labor de se fitar por um instante nas águas. Percebeu, para a sua inteira surpresa, que uma imagem começou a se formar ao lado da sua. Ela apenas deu atenção ao reflexo com um capuz imenso, mas os olhos azuis estavam de fora.

Ela pôde ver o rosto parcialmente coberto e, por um momento, julgou ter visto um fantasma querido em cores naturais. Sentiu um arrepio frio tomar a sua espinha. Ela sacudiu as águas a fim de espantar aquela visão de outro mundo, mas a imagem não desapareceu, insistia em permanecer ali, olhando para ela através do espelho d’água.

Marin estremeceu por um instante. Não ousou levantar o rosto naquela direção. Igualmente, ela encarava a figura pela superfície da água, tão dolorosamente parecida a ela própria. Por fim, ela ousou fitar com o canto do olho e em seguida virou totalmente o rosto naquela direção. Quando ela fez esse movimento, também a imagem fez o mesmo, como se ambos fossem o reflexo um do outro.

- Marin...

– Meu Deus, mas que audácia!

Marin não pôde sequer reagir àquela palavra que saíra dos lábios daquele desconhecido cuja metade do rosto estava coberta. Em resposta ao seu olhar amedrontado, mãos fortes agarraram o encapuzado pelas costas, puxando-o violentamente pela capa e afundando-lhe a cabeça dentro da fonte.

As damas de Maeve sobressaltaram-se, algumas se afastaram, assustadas, e outras gritaram, levando suas mãos às bocas, surpresas e confusas pelo ocorrido, pensando tratar-se de um ladrão, pois havia vários plebeus no meio delas naquele momento.

Aiolos, que havia se sentado na beirada de mármore, do outro lado da fonte, ergueu-se rapidamente, franzindo o cenho e tentando entender o que acontecia. Maeve, ao seu lado, instintivamente ergueu-se e agarrou-lhe no braço, apertando-o um pouco pelo nervosismo que sentira naquele instante.

Polímnia sobressaltou-se diante da cena violenta e algumas moças mais jovens correram para ela. A esposa de Shion, que não estava acompanhada do marido, tinha a capacidade de mostrar-se maternal e segura diante de uma situação de perigo e muitas das jovens mais novas buscaram refúgio perto dela, inclusive a filha, Charlote, que estava entre as damas da rainha naquele momento.

Ourelie levara a mão ao peito, boquiaberta, e aproximou-se alguns passos das costas do marido, que tinha o seu adversário muito bem preso em suas mãos, enquanto era afogado pelo capitão da guarda na água da fonte. Camus, com força e firmeza, afundava-lhe o crânio cada vez mais profundamente, embora este lutasse terrivelmente por soltar-se.

Pego de surpresa, o jovem desconhecido não tivera tempo sequer para pensar onde estava, tentava alcançar alguma parte da roupa de Camus ou até mesmo a sua espada, mas o capitão era bastante treinado para deixar-se capturar daquela forma.

– Solte-o! – Marin, abruptamente, conseguira despregar os membros inferiores do chão, correndo na direção da balbúrdia, pulando em cima de Camus, para a surpresa de todas as mulheres presentes – Solte-o, por favor, capitão. Ele não fez nada comigo! Solte-o!

E com uma aflição estampada na face branca, agora ainda mais branca pela terrível miragem que julgara haver tido segundos antes, ela agarrou-se no braço do capitão, surpreendendo a própria Ourelie, que a olhou com se visse nela o próprio Diabo. Marin tentou inutilmente fazê-lo libertar o jovem em questão.

– Um ladrão dirigindo a palavra à uma dama da rainha de Káden! – esbravejou Camus, na sua voz severa e firme. – Uma lady!

– Deixe-o em paz! – a voz de Mylena levantou-se em meio à multidão, correndo para a cena enquanto segurava as saias do vestido a fim de movimentar-se melhor – Por favor, eu o conheço, ele não é um ladrão! – disse ela, com os olhos quase repletos de lágrimas, e começou a lutar incansavelmente para puxar o braço de Camus, o que era uma tarefa infrutífera. – Solte-o, por favor, lorde Camus! – pediu ela, o que fez Camus olhá-la por um instante – Ele é apenas um pobre coitado que vive da caridade alheia!

Por fim, o capitão da guarda trouxe o rapaz para cima, mas sequer deu-lhe tempo de recuperar o fôlego. Jogou-o para trás, com toda a força dos seus braços, fazendo as damas novamente gritarem, algumas buscando a proteção dos outros soldados reais, enquanto outras se ocultavam atrás das companheiras, os olhos arregalados, as mãos trêmulas, temendo ficarem com os olhos abertos, mas com a curiosidade aflorada demais para mantê-los fechados.

O jovem encapuzado, atirado violentamente, caiu sobre uma mesa onde sacos de farinha estavam armazenados, com Camus no seu encalço. O francês retirou sua adaga pessoal de dentro da veste e agarrando o suposto plebeu, encostou-lhe a ponta afiada na garganta latejante.

O jovem por fim reagiu, agarrou ambas as mãos do capitão da guarda, impedindo a aproximação da ponta da faca. E assim ficaram os dois, medindo forças, ora Camus conseguindo aproximar o objeto, ora o desconhecido afastando o perigo iminente por alguns centímetros.

– Ele vai matá-lo! – gritou uma das jovens, tapando os olhos – Eu não quero ver!

– Vou colorir o mercado com o seu sangue! – gritou Camus, mantendo a presa sob controle, embora não conseguisse feri-lo. – Nunca mais vai se aproximar de uma dama da rainha!

– Deixe-o em paz! Deixe-o em paz! – gritou Maeve naquele momento, aproximando-se da cena ao lado de Aiolos; Aiolia também havia chegado ali de imediato, Clara colocou-se ao seu lado e ambos se olharam naquele instante, igualmente perplexos.

Marin novamente havia se atirado para cima de Camus, puxando-lhe do braço. A ruiva tinha a face banhada em transpiração, os olhos quase saltando das órbitas e as maçãs do rosto coradas pelas lágrimas que queimavam em seus orbes, mas que não ousavam sair.

Malgrado os esforços que fazia para tentar afastar Camus daquele desconhecido, ela não conseguia fazê-lo se mover sequer um centímetro, o que aumentava a sua aflição. Seus lábios tornaram-se trêmulos, sua língua enrijecia-se e tudo o que conseguia pedir era que o capitão o soltasse, mas não era ouvida. Camus franziu o cenho, ainda medindo forças, nem ele nem o rapaz arrefecendo na luta, porém este último ainda subjugado com a adaga no pescoço.

– Conhece esse plebeu, milady? – perguntou Camus, voltando-se para Mylena.

– Claro que eu o conheço! – rebateu Mylena, nervosamente, aproximando-se de Marin e puxando-a para trás ao ter reconhecido o seu querido amigo como o suposto desordeiro. – Bem... – ela buscou uma desculpa – Ele padece do mal de São Lázaro...

Ao ouvir aquilo, as jovens saltaram para trás, com um grito, afastando-se da cena. Algumas pessoas presentes demonstraram asco diante das palavras e alguns outros fizeram o sinal da cruz três vezes. Apenas Camus não pareceu afligir-se e manteve a presa muito bem dominada contra o próprio corpo.

– Se é um leproso, então como se atreveu a dirigir à palavra a uma lady? Como teve coragem de se aproximar da rainha? Cortarei a sua língua impertinente fora! – berrou Camus.

– Não! – gritou Maeve, soltando-se do braço de Aiolos e correndo para perto de Marin e Mylena, ficando entre as duas mulheres.

– Eu ordeno, senhor, não estrague esse dia perfeito para nós! – Maeve foi em auxílio do jovem desconhecido – Esse deve ser um dia de júbilo! Amanhã é o casamento de seu rei, e ele não ficará satisfeito por tal perturbação quando deveríamos comemorar a nossa felicidade! – disse ela, dissimulada, falando as primeiras coisas que lhe vinham na cabeça - Deixe que o mendigo mantenha a sua língua! Ele pode precisar dela no futuro para explicar a sua impertinência para com a sua rainha!

– Então, moleque, você escutou a rainha! Não deve haver mais impertinência! – bradou Camus.

E com um rompante agressivo, o capitão afastou a faca do pescoço do rapaz, libertando-o e dando um passo para trás. O desconhecido cobriu-se ainda mais com o capuz, aproveitando-se da desculpa de Mylena, de que era leproso, e portanto deveria ter vergonha de sua face deformada.

Ele ergueu-se, tentando recuperar-se, com a cabeça e as vestes superiores completamente molhadas. Sua respiração estava ofegante e olhava Camus com surpreendente curiosidade, uma vez que não lhe era desconhecido o capitão da guarda.

Aiolos havia puxado Maeve novamente para perto de si, querendo afastar a rainha da situação e tentando controlar os ânimos de um escândalo ainda maior que aquele. De certo modo tinham sorte de não ter sido o general D’Angeri a estar ali, de outro modo o rapaz não haveria escapado. Maeve engoliu em seco, com o coração voltando ao normal lentamente.

– Não escutou, plebeu? – bradou Camus de novo – Eu disse: não deve haver mais impertinência!

– Não haverá, meu senhor! – respondeu o rapaz, com o rosto ocultado – E eu imploro o perdão da rainha por qualquer ofensa! Se houver algo que eu possa fazer para redimir minha injúria, de bom grado o faria!

E olhou na direção de Maeve, esperando decerto que ela se pronunciasse sobre o ocorrido. Mas foi Marin quem se intrometeu, tomando a frente e dando alguns passos na direção do suposto doente. Ela estreitou os olhos sobre ele e quis ver-lhe o rosto através do capuz, mas ele não permitiu. Vestiu-se ainda mais e baixou a vista para não a encarar.

– Deve haver... – Marin disse, escolhendo as palavras com cuidado – Certamente deve haver um modo desse plebeu se desculpar pela imensa ofensa que causou à rainha e à mim.

– Então, minha senhora, gostaria de saber o quê! – disse o jovem, voltando-se para ela, encarando-a e fazendo-lhe um aceno com o olhar, mas com a metade do rosto encoberta, deixando apenas os olhos de fora.

Maeve relanceou os olhos para Marin, como se perguntasse o que ela pretendia fazer, e a ruiva, acenando-lhe com a cabeça, deitando para ela uns olhos cúmplices, tomou coragem para gaguejar essas palavras:

– Acompanhe a vigília desta noite pela felicidade de seu rei. – falou Marin, trêmula demais para pensar em qualquer outra coisa.

– Faça isso. – volveu Maeve, ajudando-a – Todos nós estaremos na catedral essa noite. A sua rainha estará na capela ardente, até a meia noite, louvando o sagrado nome de Deus! – disse Maeve, olhando para Aiolos naquele momento, com consideração, e ele entendeu o recado que ela lhe queria passar.

– À meia noite? – repetiu o rapaz desconhecido para si mesmo.

– E implore o perdão de Santa Edwiges. – falou Ourelie, aproximando-se da amiga e tomando-lhe do braço, mesmo que Marin não a tivesse convidado. – Só isso poderá salvar a sua alma da danação eterna por esta injúria! – completou, desdenhosa.

– Agora, desapareça enquanto ainda tem língua para falar! – disse Camus por fim – Dispersem-se! – gritou para os seus homens, que prontamente o obedeceram – Aiolos, acompanhe a rainha até a igreja. – falou para o arqueiro, que fez um aceno de cabeça para o capitão - Vocês estarão protegidas agora! – disse para as damas que, lentamente, voltavam ao normal, retomando o caminho.

Mylena, ao ver as pessoas afastando-se e voltando a caminhar na direção da catedral, olhou novamente para o amigo, que ainda estava se recuperando pela surpresa da situação, enquanto preparava-se para partir. Ela andou até ele e o interpelou em voz baixa, porém severa.

– Fez bem em não revidar, seu idiota! – rosnou ela, atraindo a atenção do jovem – Eu espero que você tenha aprendido a lição, pois da próxima vez o capitão não vai parar!

– Então, por que ele parou? – desafiou o rapaz, franzindo o cenho e erguendo a cabeça na direção dela – Não estou pedindo a vossa compaixão, Mylena!

– Não seja arrogante, Touma, nem ingrato. Camus não costuma matar pessoas inocentes. É um perfeito cavalheiro. Ele não o teria matado, apenas queria assustá-lo, pois a rainha está presente e você poderia ser um perigo! – completou ela - Não me obrigue a levantar a minha espada contra você! Proteger você é o meu trabalho!

O.o.O.o.O.o.O Castelo Meleagrath O.o.O.o.O.o.O

Os três estavam sentados na mesa naquele momento. Com o passar dos dias, Saga conseguira recuperar-se um pouco a fim de conseguir sentar-se para jantar com o tio e a noiva. O tórax estava enfaixado, de vez em quando ele ainda fazia uma careta de desconforto, mas procurava comer tranquilamente, em silêncio.

Após a viagem de Kanon e Calista, o humor do gêmeo mais velho tornara-se sorumbático. Saga não escondia de si mesmo a insatisfação e o desconforto que sentia pelo fato de sua prima estar, naquele momento, na companhia de seu irmão mais novo.

Os outros dois ocupantes da mesa estavam igualmente silenciosos. O conde, acomodado na cabeceira da mesa, preocupava-se em tomar goles de sua sopa, acompanhado do vinho temperado com especiarias. Do outro da mesa, ao lado do pai e diante de Saga, estava Brianna.

Ao contrário dos dois homens, ela não havia tocado no prato. Os dedos brincavam, sem forças, com a colher em cima da mesa, mas não se resolvia a comer. Ela relanceava os olhos para o primo, e ele devolvia a mirada, sério e sentindo-se oprimido pelo silêncio constrangedor do momento.

- Não vai comer, minha filha? Você precisa alimentar bem o seu bebê. – comentou o conde, enquanto tomava mais uma colherada de sopa, sem virar o rosto para a jovem – É necessário que você esteja bem para o seu casamento, que acontecerá muito em breve, se Deus assim o quiser!

- Meu casamento? – Brianna, franziu o cenho ao escutar aquilo e olhou de imediato para Saga. – E o senhor já decidiu com quem devo me casar, meu pai?

- Com o seu noivo, Saga. – respondeu o pai, com o rosto na direção do prato, parecendo muito calmo, sem atinar para quaisquer dos dois jovens à mesa – Você e Saga estão prometidos desde pequenos. Não há nada que possa impedir essa união. Você e Saga vão se casar, assim como Kanon deve casar-se com Calista.

- Mas, papai... – Brianna piscou os olhos várias vezes, incrédula pelas palavras que ouvia – Isso não faz sentido. O senhor sabe do meu estado e...

- De que estado você estaria falando? – perguntou o conde, erguendo o rosto e limpando os lábios com um guardanapo. – Fala sobre o seu bebê?

- Meu tio... – naquele instante, Saga, que também limpara a boca com um lenço, resolveu intrometer-se, mas o fez com cuidado – O senhor não acha que seria melhor...

- Cancelar o casamento? – cortou John, olhando da filha para o rosto de Saga, que estava sério. – É isso que você vai dizer, Saga? Que eu deveria romper os laços que une você e minha filha?

- Eu apenas iria salientar que os casais poderiam ser trocados... – respondeu o rapaz, escolhendo as palavras, e baixando a vista ao dizer aquilo – Se Brianna está esperando um filho de meu irmão, muito bem, que o senhor obrigue Kanon a assumir a responsabilidade pelo que fez.

- Você vai assumir essa criança como sua, Saga. – disse o tio, parecendo igualmente sério ao dizer aquilo – Afinal de contas, você e Kanon são gêmeos. Não haverá qualquer perigo de que essa criança não se pareça com você. Além disso, ela também terá o seu sangue, não é assim?

E ao disparar aquelas palavras, o conde voltou a pegar na colher, enfiar na sopa e levá-la à boca, tudo isso após beber um grande gole de vinho. John fez uma cara de satisfação pela sopa, chegando a soltar uma exclamação alta a fim de ironizar o momento em família. Parada a um canto, Brigit apenas pigarreou, abrindo desmesuradamente os olhos diante do que ouvira e levando uma mão à boca.

Foi Saga quem quebrou o silêncio, após alguns minutos de reflexão, em que pensara no que ouvira e sentira-se deveras surpreendido com as palavras sarcásticas do tio e fê-lo saber disso:

- Desculpe-me, tio, mas eu não sabia que o senhor poderia ser tão cínico. – disparou o gêmeo mais velho.

- Cínico? – John ergueu o rosto para ele, estreitando os olhos em cima do rapaz – Cínico! Quem você pensa que é para chamar, a mim, que o criei, de cínico?

- Meu tio, eu... – Saga apertou o canto interno dos olhos.

- Você e o seu irmão viveram sob minha proteção desde que o pai de vocês foi assassinado por traição. Sim, o seu pai, Saga Lonnykus, foi executado por alta traição, por ter cometido adultério com a rainha e teve o destino que todo traidor merece. – rebateu o tio, falando severamente, mas em tom baixo. - E eu recebi os dois filhos de meu mais caro amigo dentro de minha casa. E o que um de vocês me faz? – ele deu um murro feroz na mesa, fazendo Brianna assustar-se – Apunhala-me pelas costas! Trai a minha confiança debaixo do meu teto.

Houve novamente um silêncio incômodo entre eles. Saga olhava para o próprio prato. Os dedos apertaram-se, tão fortemente, que ele sentiu a pressão das unhas na palma da mão. Brianna, por seu lado, mantinha também a vista voltada para a mesa, mas não focava absolutamente nada. Estava perdida em pensamentos. Imaginou Kanon, naquele momento, pelas estradas de Káden, na companhia da prima, e uma raiva sem precedentes tomou o coração dela.

Então, seria obrigada a casar-se com Saga ainda que não o amasse? Mesmo que estivesse carregando o filho de outro homem? E que aquele homem fosse o irmão gêmeo de seu próprio noivo? Os lábios dela apertaram-se pela angústia e ela teve vontade de chorar naquele momento.

- Eu gostaria de voltar ao convento. – disse ela por fim, quando a quietude tornara-se deveras intragável para ser suportada – Eu nunca fui tão feliz quanto o fui durante o tempo em que servia a Deus com as outras irmãs.

- Mas você não voltará. – rebateu o pai, sério, mas sereno – Seu lugar é aqui, ao lado de seu marido, e cuidando do filho que você vai ter dentro de alguns meses.

- O senhor não pode me obrigar a essa situação. – retrucou ela, sentindo os lábios tremerem pelo ódio, erguendo o rosto e encarando o pai frente a frente – Não pode me rebaixar a tal desonra apenas porque...

- Eu posso, sim, Brianna, e eu o farei. Você vai me obedecer. – rosnou o conde – Você, como a má filha que é, deveria me agradecer quando eu mantenho o seu compromisso com o Saga, quando eu deveria dar a ele o poder de decidir devolver você de volta por tamanha vergonha debaixo do meu teto! Trate de preparar as suas belas pernas para o natal, pois não somente você irá casar, como também eu irei.

Ao escutarem aquelas palavras, Saga e Brianna entreolharam-se por um instante, ambos franzindo o cenho pesadamente. Apenas o conde parecia totalmente alheio à troca de olhares que os primos disparavam de um para o outro.

- O senhor vai se casar? – interrogou Saga, quase gaguejando a pergunta.

- Sim. Por que o espanto? – tornou o conde – Estou velho, mas ainda gosto de uma boa companhia. Tenho apenas cinquenta e cinco anos e preciso de uma esposa equilibrada e devotada para cuidar de mim na velhice.

- Mas, meu pai... – Brianna abriu a boca, porém as palavras encontravam dificuldade para sair – Isso não faz qualquer sentido. O senhor sempre disse que não pretendia substituir a minha mãe depois que ela morreu. Por que essa mudança brusca de opinião?

- Foi uma mudança brusca de sentimento. – decretou o conde – Eu vou me casar com uma mulher muito prendada, pelo que me dizem, e para ela eu deixarei a minha fortuna. Você, Brianna, receberá apenas o que lhe é devido de dote. E que o seu noivo aqui presente faça bom uso dele, pois não lhes darei muito mais. Kanon, por sua vez, não receberá nada. O dote de Calista ficará com ela, e a minha querida sobrinha, tão enganada quanto eu, decida o que fazer com ele.

- Mas isso não é justo, tio. – rebateu Saga, sentindo-se deveras injustiçado por estar sendo punido junto ao irmão – Não fui eu quem cometeu qualquer erro. Eu não traí a sua confiança em momento algum. Eu não posso sofrer as consequências dos atos insanos de meu irmão. A desonra de Kanon não pode respingar em mim.

- Vocês são irmãos, possuem o mesmo sangue. A desonra dele também é sua. Nada se faz individualmente em nossa sociedade. – retrucou John, suspirando naquele momento – A traição de seu pai passou para a descendência dele. Você, Saga, é tão passível de desonra quanto o seu irmão. Você apenas tenta ocultar esse lado obscuro de si mesmo.

Novamente, um silêncio hostil desceu sobre os inquietos e enraivecidos membros da mesa. Os três se entreolharam por alguns minutos sem nada mais para dizer. De repente, passos rápidos e um tumulto do lado de fora do castelo, no pátio central, chamou a atenção deles.

Saga foi o primeiro a estranhar a movimentação barulhenta, algumas vozes em altíssono chegaram até a sala de refeição, mas não foram capazes de entender o que acontecia. Até que um dos cavalariços entrou correndo no salão no mesmo instante em que Brigit ia dirigir-se para fora a fim de verificar o que ocorria. Não vendo a governanta, esbarrou fortemente nela, quase levando-a ao chão:

- Milorde! – gritou o servo, com as feições transtornadas e os olhos muito abertos – Milorde!

- O que houve, Junius? – interrogou John, erguendo-se de súbito da cadeira em que estava sentado no momento em que o rapaz entrara correndo, com o coração aos pulos, no local – O que está acontecendo lá fora? Que gritaria é essa?

- Milorde! – o servo parou um momento para recuperar o fôlego, antes de disparar – É o senhor William.

- William! – gritou John, saindo de trás da mesa e aproximando-se do rapaz.

Ao escutar o nome, Brianna e Saga também se ergueram de imediato. Ela estreitou os olhos sobre o rapaz resfolegante, enquanto o pai parara diante dele, esperando com aflição que ele desse a notícia.

- O que tem o meu filho? Ele apareceu? Está no castelo? – perguntava o conde atropeladamente – Responda, criatura!

- Ele está morto, milorde. – disparou o cavalariço – Acabaram de trazer o corpo. Acharam na floresta. – completou, quase às lágrimas – E pelo estado, já está se decompondo há uns poucos dias.

Ao escutar aquilo, Saga soergueu as sobrancelhas, sem disfarçar a comoção que a notícia lhe provocara. Não se dava bem com o primo, na verdade detestava-o de maneira veemente, mas nunca desejara a morte do rapaz. Brianna sentiu-se desfalecer, levou uma mão à boca quando escutou as palavras, e se não fosse Saga correr para ela, a moça teria caído no chão, desmaiada.

- Leve-a para o quarto, Saga. – disse Brigit, que também se havia aproximado da jovem, tão surpreendida e horrorizada quanto todos os outros presentes – Eu vou cuidar dela. Venha comigo, traga-a para o quarto, ela precisa de ar fresco e um pouco de água. Oh, meu Deus, quantas desgraças!

Ia bradando a governanta, enxugando os olhos envelhecidos com um lenço. Caminhava apressadamente pelo corredor, com Saga atrás de si, carregando Brianna, desacordada, nos braços.

- O menino está morto! Céus! Como isso foi passar? – resmungava chorosamente a serva – Eu vou rezar um rosário pela alma dele antes de dormir. Ficaria perto do caixão a noite inteira...

- Brigit, você poderia caminhar mais rápido? – Saga impacientou-se – Brianna não está passando bem e eu preciso voltar para ajudar o meu tio.

O conde permanecera estático ao ouvir a notícia. Principiou por empalidecer, os olhos azuis abriram-se demasiadamente. A boca também se escancarou, mas ele não foi capaz de emitir qualquer som. Simplesmente afastou-se do criado e disparou pelos corredores, na direção do pátio. Antes de chegar lá fora, John pôde ver que os seus homens carregavam um corpo e o depositavam, naquele momento, sobre as lajes de pedra do pátio.

- Nós o encontramos enquanto caçávamos, milorde. – disse um dos cavaleiros de John, com solenidade pelo momento – Já faz alguns dias que está morto.

O conde havia descido os degraus que o separavam do pátio. Não derramava uma só lágrima, mas os seus traços estavam tão contraídos em uma feia careta que todos perceberam que o velho havia sentido o primeiro tremor da velhice. Aquele era um filho problemático, mas era seu filho, o único filho homem que tinha. E estava morto!

Parou, por um momento, diante do cadáver. Não reconheceu as roupas que ele levava, uma capa preta com capuz, que estava roída pelos bichos. A pele começava a despegar da carne e havia ainda alguns vermes. Decerto os seus homens tinham limpado o máximo o corpo antes de apresentá-lo ao conde.

Finalmente ajoelhou-se ao lado do corpo. Esticou as mãos para tocá-lo e sentiu-as tremerem. Finalmente as pôs sobre o filho, cujo rosto reconhecera, pois não estava ainda deformado, ainda que as veias estivessem horrivelmente saltadas e arroxeadas, o que lhe conferia um aspecto assustador. Por fim, John deixou as mãos deslizarem pelo filho, puxou o manto que ele trazia e cobriu-o melhor, como quando o colocava na cama, para dormir, e o cobria para que não sentisse frio.

John era um homem forte e rijo. Havia sido um grande cavaleiro em sua época. Gostava de cavalgar ainda, de treinar com a espada. Mas ver o corpo de seu único filho varão daquele modo, fê-lo verdadeiramente emocionar-se. Após alguns minutos de silêncio, em que todos os seus homens respeitaram o seu pesar e o admiraram pela dor contida, ele ergueu o rosto para todos e falou:

- Mandem lavar o corpo e colocarem no caixão. Depois, coloquem o ataúde no centro da sala durante toda a noite. Eu ficarei com ele. – falou.

Naquele momento, passos apressados atrás de si chamaram a sua atenção, mas não se voltou, pois sabia de quem se tratava. Saga, após verificar que Brianna estava melhor, correu para fora a fim de auxiliar o tio naquele momento difícil. Perder um filho era a pior dor que alguém poderia sentir.

Saga aproximou-se com cuidado, percebendo a tristeza, e até mesmo o choro, no rosto de alguns homens e nos olhos de todas as servas. Mas quando ficou cara a cara com o cadáver de seu primo, o irmão mais velho de Brianna, ele estacou de súbito. Um frio percorreu sua espinha ao observar aquele corpo emagrecido pela morte, descarnado, uma visão realmente pavorosa.

Saga piscou os olhos a fim de focar a visão. Estreitou a vista em cima do cadáver e não podia acreditar. Reconheceu de imediato o capuz que o outro levava. Flashes obscuros cruzaram sua cabeça naquele momento, provocando náusea. Eram retalhos confusos de sua memória ainda febril, mas não tinha dúvida de que aquele homem que estava ali era o mesmo que o havia atacado e a quem ele próprio tinha matado dias atrás.

Naquele momento, arrancando-o de seus devaneios horrendos, a mão de John pousou no ombro de Saga, chamando a atenção do rapaz para a figura do tio, que lhe pareceu mais velho e mais pálido pelo sofrimento.

- Você, agora, é meu filho querido, Saga. O meu rapaz mais velho. – disse o conde, tentando esboçar um sorriso, mas apenas conseguindo uma careta de tragicidade – Quis Deus que meu único filho fosse arrancado de mim. E maldita seja a mão que lhe tirou a vida, deixando-me sem um herdeiro. Que o assassino do nosso sangue seja amaldiçoado mil vezes sobre a terra e que sofra até o fim de seus dias para pagar esse sangue derramado.

E olhando para todos os seus homens naquele instante, John abarcou a todos e falou com fúria e firmeza:

- Vamos encontrar quem cometeu esse crime horrendo contra um dos nossos e vamos vingar a morte de nosso filho. – falou John – É uma promessa de sangue que eu faço agora. Que eu hei de encontrar o assassino do meu sangue e do meu nome, e com as minhas próprias mãos eu irei matá-lo.

Ao escutar aquelas palavras, os homens levantaram as mãos, alguns com suas espadas, e deram gritos de entusiasmo e fúria guerreira. Apenas Saga permaneceu quieto, em silêncio, com a mão do tio ainda sobre seu ombro, pesando amargamente, como se o mundo estivesse esmagando sua alma.

O.o.O.o.O.o.O Ducado Heinstein O.o.O.o.O.o.O

A noite estava prodigiosa, embora gélida. Uma névoa leitosa cobria os céus do condado silveriano, o que prenunciava chuva forte. O firmamento estava tão claro pelo brilho da lua cheia que as estrelas palidamente conseguiam cintilar sobre as densas e fechadas florestas, que separavam o condado do resto do mundo.

A sensação que se tinha naquelas paragens era de que se estava em outra dimensão, fora do mundo real. E a estranha aparência daquela mulher misteriosa apenas ajudava a aumentar aquele sentimento. Por alguns momentos, enquanto era prisioneiro naquele castelo, Ikki achava que estivesse morto. Pensava estar em algum tipo de inferno, sensual e excitante... um inferno cujas chamas pareciam paradisíacas, mas ainda assim um inferno.

Com a cabeça ligeiramente tomada pelo efeito do vinho temperado que uma serva lhe servira mais cedo, por ordens expressas da esquisita Trívia, Ikki esperava, não muito pacientemente, que a sua bela algoz viesse libertá-lo como havia prometido, dois dias atrás.

Segurando-se nas grossas paredes, em meio à obscuridade do ambiente, escalando pelas pedras ele queria ver a lua. Mas pela altura da pequena abertura que servia de janela, o rapaz só tinha uma visão parcial do belo astro, que se apresentava naquela noite em todo o seu esplendor.

- Eu vejo que o senhor está apreciando a beleza de Hécate.

Uma voz serena, calma, como um sussurro no meio da noite, soou às costas dele, fazendo o jovem quase despencar da parede, em cujas pedras ele se sustentava horrivelmente. Ikki desceu de seu pedestal e virou-se para a recém chegada visitante. Era ela, a sua misteriosa, e bela, algoz, que tanta impressão lhe havia causado.

Ele estava sério, com o semblante severamente franzido para ela. Contudo, os traços contraídos do rapaz não pareciam provocar nela qualquer reação. Aquela mulher não demonstrava o mais ligeiro traço de qualquer emoção ou sentimento. E isso o desconcertava verdadeiramente.

- Quem é Hécate? – interrogou ele, parado a metros de distância dela, com a humilde cama separando os dois.

- Se alguém perguntar quem sou... – ela esboçou um leve esgar de sorriso, encarando o outro olho no olho – Diga que eu sou a filha da noite. Diga... – ela suspirou, dando alguns passos pelo ambiente, fazendo a volta na cama a fim de se aproximar dele - ... Que eu falo de amor... Que eu falo do vento... Que eu esqueço do tempo...

E finalmente deteve os passos na frente dele. Olharam-se por um momento, alguns segundos de silêncio. Ela levantou a mão e acariciou o rosto de Ikki. O rapaz quis afastar-se, chegou a enrijecer-se pelo toque, temendo ser alguma armadilha, mas finalmente deixou-se quieto e permitiu que ela continuasse a carícia. O vinho que lhe haviam dado tinha deixado seu corpo em um estado muito próximo da excitação e aquele toque acelerou a respiração dele.

- Há alguns anos... – começou ela, ainda acariciando o rosto masculino, os dedos arranhando-se na barba malfeita – As entranhas dos corvos predisseram que um guerreiro viria até mim e que ele seria o escolhido de Hécate.

- Por que você está me dizendo isso? – Ikki estreitou os olhos em cima dela – Vai dizer que eu sou esse tal homem que você estava esperando? – ele riu por aquela possibilidade.

- O que Hécate faz ninguém desfaz. – falou a mulher, muito séria, com um olhar que parecia conter séculos de existência. – Você vai libertar o ducado do poder nefasto dos meus irmãos!

- Você é algum tipo de bruxa? – tornou Ikki, realmente assustando-se com os caminhos que ela tomava a cada vez que o visitava naqueles dois dias.

- Ser chamada de bruxa não é nenhuma ofensa, mas um elogio. Quer dizer... – ela apertou os lábios – Isso vai depender do meu humor.

- Existem milhões de guerreiros na face da terra. Muitos deles já lutaram nas terras do ducado. – comentou Ikki.

- Mas só você está aqui hoje. – salientou ela, soerguendo uma sobrancelha.

- Porque você me escolheu. – rebateu Ikki, impacientando-se naquele momento, e apontando um dedo para ela – Você me encontrou completamente indefeso e resolveu fazer de mim esse homem que existe apenas na sua cabeça.

- Não. – disse ela – Eu vim aqui para libertá-lo, como havia prometido.

- Então, por que não me deixa ir embora? – retrucou ele.

Embora falassem em voz baixa, mantinham tons diferentes: ela continuava tranquila e a entonação parecia aveludada; enquanto ele quase trovejava pela raiva que sentia ao pensar que podia estar encurralado ali para sempre. Sabia-se lá o que aquela maluca tinha na cabeça!

- A porta está aberta e do lado de fora, na saída das florestas, há dois cavalos, um para mim e outro para você. – comentou ela, completamente segura de si, o que começou a enervá-lo. – Eu o levarei até os limites do ducado.

- Eu não preciso de guia. – esbravejou Ikki – Sou um homem adulto e posso achar o meu caminho sem qualquer ajuda.

- Sem a minha ajuda, guerreiro, não vai sobreviver a Hécate. Só as mulheres podem cruzar seus bosques. Homens só entram lá com a permissão dela ou... – ela hesitou por um instante antes de responder - ... Ou de sua sacerdotisa.

- E você é a sacerdotisa dessa tal de Hécate? – ele pareceu troçar dela naquele instante e a moça percebeu. – Por que ela não vem, em pessoa, me dar permissão para cruzar aquele maldito bosque?

- Cuidado com o tom que usa para se dirigir a mim, guerreiro. – tornou ela, parecendo a ele repentinamente mais alta e mais poderosa, como se uma aura de poder a cercasse – Eu sou aquela que é donzela, mãe e feiticeira.

- Você é uma louca e eu sou mais louco ainda de continuar aqui, escutando você, ao invés de ir embora. – respondeu Ikki.

E ao dizer isso, Ikki passou por ela, abriu a porta e olhou para fora. O caminho estava escuro e totalmente livre. Pandora, suspirando, acompanhou-o, tomando a frente e guiando o jovem pelos caminhos corretos. Com a ajuda de sua aguda percepção do castelo, ela o levou para fora sem a ajuda de qualquer luz que pudesse iluminar as estradas.

Ao chegarem a céu aberto, Ikki respirou fortemente o ar gelado de fora e sentiu o corpo se arrepiar. Olhou para cima e viu a lua cheia, grande, redonda, tão próxima dele que o rapaz se sentiu emocionar por ainda estar vivo. Ela, então, ofereceu a mão para ele, e o jovem, após alguns instantes, resolveu aceitar a mão que ela lhe oferecia.

Caminharam serenamente sob a luz da lua até chegarem na borda da floresta, onde dois cavalos negros pastavam graciosamente, soltos, sem se apartar, o que realmente surpreendeu Ikki. Ela lhe indicou o animal no qual ele deveria subir, e montou ela própria no outro, com destreza e habilidade. Em seguida, parados diante do obscuro bosque, ela olhou a floresta e ergueu as mãos para o alto:

- Senhora das encruzilhadas, Hécate, eu chamo por ti. – falava Pandora – Que as tuas tochas iluminem o nosso caminho, a mais escura das noites, e nos mostre o caminho. Aguardo por tua orientação, senhora, e confio em tua sabedoria. Hail, Hécate!

E após proferir aquelas palavras, ela iniciou a entrada na densa floresta, com Ikki atrás dela, olhando-a com desconfiança, muito sério, e relanceando os olhos ao redor apenas para manter-se em alerta. Não podia fingir para si mesmo que vê-la erguer as mãos aos céus negros o havia deixado com os pelos arrepiados. Mas era preferível seguir em silêncio e poder sair dali o mais rápido possível.

Ikki gostava da natureza, do campo, das pradarias, das espigas de trigo apontando para o alto. A primavera era a época mais charmosa do reino, quando a colheita para o inverno principiava. Desde aquela manhã lhe havia agarrado tal disposição de ânimo que ele tinha a impressão de ter se afastado de toda a gente.

Enquanto cavalgava ao lado de Pandora, a quem pensava chamar-se Trívia, ele sentiu-se inquietar por esta sensação de solidão. Havia algo involuntariamente patético nos homens, ele confessou a si mesmo. E pensou nela, em Esmeralda. Às vezes, olhava-a com ternura; noutras, com desejo, mas sempre com um estranho sentimento em seu peito, que ele jamais conseguira discernir.

Com as ideias presas em sua amante, ele voltou a atenção para Pandora. Nunca tinha reparado naquela mulher que o havia mantido prisioneiro até aquele momento. E nem poderia, pois a última vez em que estivera com ela antes daquela noite contavam algumas horas.

- Você é realmente uma bruxa? – perguntou ele, de repente, apenas para puxar qualquer assunto, pois a caminhada seria longa. – Pergunto porque eu nunca tinha estado tão perto de uma antes dessa noite. – ele sorriu.

- Talvez você esteja me imaginando em alguma fogueira do seu Cristo, queimando e gritando até a morte. – comentou ela, sorrindo – Mas a força de uma bruxa, seja ela do campo ou da cidade, jovem ou velha, gregária ou solitária, não está em escrituras ou livros sagrados. Mas, sim, em sua capacidade de mergulhar na alma do mundo. A deusa personifica, evoca e dirige as luzes e as sombras sob o ritmo de sua vontade.

- Eu confesso que não consigo entender muito bem essas questões mais... – ele procurou as palavras - ... Mais mágicas! Eu não acredito em coisas para além desse mundo em que conheço. Para mim, não há céu nem vida após a morte. Isso é um conto de fadas para quem tem medo do escuro.

- E no que um homem como você, um guerreiro, acredita? – interrogou Pandora, guiando o cavalo com cuidado por entre os arbustos.

- Em mim, na minha própria força. – respondeu Ikki, olhando para ela e sorrindo.

- Olhe... – disse ela, erguendo uma mão e mostrando a natureza ao seu redor – Veja, essa é a aparência da senhora. – e indicou tudo o que havia ao redor – Ela é tudo o que é maravilhoso e também tudo o que é horrível. A senhora tem quatro faces. Ela é virgem, mãe e também anciã. Mas ela tem uma quarta face, e eu espero que você jamais conheça essa quarta face, Ikki. – disse Pandora, dando uma entonação de preocupação ao proferir aquilo. – Escute.

Disse ela, apurando os ouvidos e fazendo com que o companheiro fizesse o mesmo. Ambos detiveram os passos dos animais, que apenas se movimentaram em círculos, sobre os arbustos. Por alguns minutos, Ikki não foi capaz de ouvir absolutamente nada. Mas se concentrando, ele pôde escutar os pios das aves noturnas, eram corvos que voejavam naquele momento.

- Essa é a voz dela. – falou Pandora.

Em seguida, os dois retomaram a trilha, lentamente, deixando os animais escolherem por quais caminhos desejavam seguir. Enquanto andava, Ikki começou a assoviar alguma canção. Pandora sorriu para ele. Chegando em uma estrada estreita onde algumas árvores altas e grossas formavam um imenso esconderijo, o cavalo de Ikki parou abruptamente, assustando o cavaleiro e relinchando. Quando Ikki tentou controlá-lo a fim de não ser atirado ao chão, o animal relinchou ainda mais alto e se ergueu no ar, quase derrubando o jovem da cela.

- O que deu nele? – perguntou Ikki, mantendo-se firme na cela. – Vamos lá, amigo, não tenha medo. Já estamos quase chegando... – e alisou o pescoço do animal para acalmá-lo, mas o cavalo seguia nervoso e tenso.

- Não é o cavalo, Ikki. – disse Pandora, cujo animal estava parado, mas também sem querer seguir adiante. – É o caminho. – e ela apontou para frente, para a estreita estrada entre as árvores.

A neblina havia baixado e cobria de uma densidade leitosa o local. Ikki olhou para a direção que ela apontava. Tentou, mais uma vez, fazer o cavalo seguir para aquele local, mas novamente o cavalo se recusou, relinchando e erguendo-se no ar, dessa vez mais baixo.

- Ele não vai avançar a partir daqui, Ikki. Devemos fazer o caminho a pé. – comentou Pandora, parecendo muito tranquila enquanto desmontava do animal.

- Se o cavalo se recusar a seguir por essa trilha, muito bem, eu vou seguir o concelho dele. – e novamente fitou a direção, verdadeiramente apavorante – Eu não vou por essa estrada!

Pandora sorriu e fez um movimento a fim de baixar da cela. Ikki ainda recusou-se a descer e abandonar a montaria, mas terminou cedendo quando viu Pandora tranquilizar o animal no qual vinha montada, preparando-se para seguir a pé. Ele suspirou e saltou do cavalo, deixando que o bicho se afastasse para comer grama enquanto ele preparava-se para seguir aquela mulher.

- Senhora, Hécate, mãe de toda a vida, aquela que tudo pode. – começou ela, sem se aventurar a entrar pelo caminho, enquanto Ikki já havia dado alguns passos – Venho agradecer-te por toda vida. Posso senti-la a cada pulsar e respiração. Erga as tuas tochas para que eu possa passar. Guia-me! Faça de mim o teu instrumento. Assim se faça!

- Terminou? – retrucou Ikki, querendo sorrir da cena, mas controlando-se, afinal de contas, era um homem desarmado e estava a mercê daquela mulher.

Quando Ikki viu que ela fazia um aceno positivo, ele deu-lhe as costas e começou a seguir por entre as densas árvores, olhando tudo com cuidado, enxergando uma cilada a cada recanto escuro entre as árvores. Houve um longo silêncio enquanto apenas os arbustos sendo quebrados embaixo de seus pés eram escutados. Os corvos piavam ainda mais altos e por um instante Ikki sentiu-se confuso. Seu senso de direção perdeu-se quando ele não pôde mais enxergar a luz da lua no céu.

Ele olhou para o alto a fim de tentar se localizar, mas a lua parecia uma luz difusa, como se viesse de todos os lados ao mesmo tempo. Relanceou os olhos para os lados e voltou-se para trás. Mas não havia mais ninguém. Pandora não estava seguindo atrás dele como ele imaginara minutos antes. Ele era capaz de sentir a presença dela, mas a moça não estava visível em qualquer ponto da estrada.

- Trívia? – chamou ele, rodando no próprio eixo enquanto tentava se localizar, mas sem qualquer visão das estrelas. – Trívia!

Ikki girou várias vezes no mesmo eixo, mas não era capaz de encontrá-la em lugar algum. Deu mais uns passos para frente, se é que ele caminhava para frente e não para trás, para os lados ou em círculos. Já não era capaz de saber em que direção seguia. Para onde se virava encontrava árvores grossas, tão antigas quanto o próprio mundo. Será que ele havia virado em alguma direção errada e perdera-se dela? Mas por que ela não gritara por ele? Seria aquilo uma armadilha? Ela o teria levado até ali para ser presa fácil dos soldados silverianos, ou de algum animal selvagem?

Ikki continuou caminhando, usando as mãos para afastar os grossos galhos das árvores que batiam em seu rosto. De repente, ouviu um uivo forte atrás de si e virou-se naquela direção. Não viu nada. Franziu o cenho e continuou caminhando. Se fosse uma armadilha, ele estava desarmado e não poderia deixar-se apanhar daquela forma.

Outra vez, ele ouviu uivos. Voltou-se em todas as direções procurando descobrir de que lado vinham aqueles sussurros grotescos que mais pareciam os lobos das montanhas. Mas de repente, sem qualquer aviso, ele viu um cão dos infernos. O rapaz deu um salto para trás, sobressaltado, desequilibrando-se e caindo no chão. O horrendo animal estava parado a alguns metros de distância, apenas observando-o. Era imenso, negro, com olhos vermelhos e parecia fitá-lo atentamente.

A lua brilhava sobre a clareira e iluminava aquela fera pavorosa, com a forma de um grande cão de caça, porém muito maior que qualquer cão de caça em que ele já havia posto os olhos em cima. Quando Ikki o encarou, o animal, se é que aquilo que via era de fato um animal, olhou também para ele, a boca ensanguentada e os olhos cuspindo fogo.

- Mas o que diabos é... – Ikki tentou dizer qualquer coisa.

- Não tenha medo, Ikki...

A voz de Pandora soou atrás dele e Ikki quis voltar-se para ela, mas estava tão paralisado, transpirado pelo medo, atormentado pela confusão mental que o atingia naquele momento, que não foi capaz de fazer qualquer movimento para desviar daquela imagem fantasmagórica a sua atenção. Apertou o canto interno dos olhos antes de novamente fitar o famigerado cão infernal. Mas já não havia qualquer cão ali. Ele piscou os olhos muitas vezes a fim de focar a visão, mas não tinha nada.

- Ali... – ele novamente quis dizer alguma coisa, e levantou um dedo para apontar o local onde estivera o cão. – O que era aquilo?

- Havia alguma coisa ali? – perguntou Pandora, ainda atrás dele, mas sem que o rapaz se virasse para vê-la. – Você viu alguma coisa?

- Eu acho que sim... – ele novamente esfregou os olhos, erguendo-se de spubito – Eu não tenho certeza... eu...

E finalmente ele se voltou para ela. Parou abruptamente e a encarou, sobressaltado e em silêncio, os traços masculinos mostrando claramente um desconforto surpreendido pelo que via. Ela estava completamente nua, parada diante dele, os olhos fixos sobre a figura do cavaleiro que ela sentia tremer ligeiramente. Ele não pôde deixar de olhá-la completamente. Era bela, tão pálida que a brancura de sua pele iluminava o lugar onde estavam parados, um de frente para o outro.

 - Trívia... – ele murmurou o nome dela – Por que você está...

- Nua? – ela completou.

Pandora caminhou para ele. Não estava apenas nua, mas pintada misteriosamente. Símbolos estranhos para ele cobriam muitas partes do corpo feminino, principalmente os seios, o ventre, o vale das coxas e marcavam a sinuosidade da cintura. Ikki pensou por um momento que estivesse enlouquecendo. Mais uma vez, a ideia de que já estivesse morto, preso em espírito em algum mundo paralelo, no além, assaltou seus pensamentos. Apertou os olhos para acordar daquele pesadelo.

Porém, abriu-os abruptamente, franzindo o cenho diante dos cascalhos que escutava ranger sob os pés dela ao caminhar até ele. Certamente, o vinho que tomara devia ter qualquer coisa, pois alterara sua capacidade sensorial. Seus olhos, por estarem na escuridão, demoraram para conseguir divisar aquela silhueta a centímetros de si.

Ele delineou aos poucos a fisionomia da figura de uma mulher, muito próxima dele. Ela realmente estava ali, de pé, despida de qualquer tipo de vestimenta. Os cabelos negros estavam soltos, as tranças desfeitas, os fios caindo selvagemente pelo rosto, ombros, costas. O aspecto daquela mulher parecia o de um animal selvagem prestes a atacá-lo, como o próprio cão dos infernos que acabara de ver. O rosto também trazia manchas de alguma tinta preta, que antes não estavam ali; ou talvez fosse alguma lama dos pântanos que havia ao redor. Ele não sabia dizer.

Ela não demonstrou medo diante da reação dele. Pandora não fez movimento algum quando ele saltara para trás, como se o corpo dela desse choque, e pôs-se em posição de ataque. Ikki conteve a respiração com o coração palpitante. Ela estava nua, ele pensava, completamente nua, tal e qual viera ao mundo. As maçãs femininas, salientes, estavam pintadas. Aqueles desenhos feitos com tinta preta davam a ela um aspecto algo grotesco, de fêmea, de loba, como se quisesse seduzi-lo, atrai-lo para o seu covil, para a sua toca, como uma dança dos sete véus do mundo animal.

- Não tenha medo de mim. – falou ela, e novamente ergueu a mão para acaricia-lo, como fizera anteriormente; Ikki não se afastou dela, muito mais por estar paralisado do que por qualquer outro motivo. – Eu sou a sombra lunar e preciso do seu auxílio, o escolhido de Hécate. A senhora vem, hoje, lhe saudar, Ikki.

- Eu... – ele gaguejou, encarando-a firmemente, mas sentindo-se ligeiramente hipnotizado por aqueles olhos escuros que pareciam vales profundos. – Isso é bruxaria!

- A deusa da magia está aqui esta noite para banir as energias más, os meus irmãos mais velhos. – continuou ela, e pegando as duas mãos de Ikki com as duas próprias, ela as levou aos próprios seios para que ele os tocasse. – Com a sua ajuda, eu poderei impedir que o poder dos meus irmãos possa ir mais além do que já tem ido...

– Trívia...

Ele falou seu nome após minutos de silêncio, os minutos que precisara para entender quem estava ali diante dele e tentar compreender o que se passava naquele momento.

- Meus irmãos me controlam... – continuou ela – Ao lado deles, a minha vida é cinza e morte, um sono profundo que parece manter tudo encerrado em uma prisão de morte.

- Eu não entendo... – gaguejou Ikki.

- Eu já vi muitos homens, eu já possuí muitos amantes... – falou ela – Mas quando vi você, caído, ferido... – ela passou a língua pelos lábios – Eu vi a cor do sangue pela primeira vez... – Pandora acercou-se ainda mais dele, assustando-o – Você me acordou de um longo sono que me mantinha prisioneira.

– O que está fazendo aqui? – perguntou Ikki com o cenho completamente franzido, transtornado por encontrá-la daquela forma, naquele local, daquela maneira, naquela ocasião e escutar aquelas palavras que lhe pareciam insanas. – E aquele...?

Ela não respondeu. Seguia fitando-o com insistência, parada diante dele, tesa, muda, estática, desnuda, selvagem, linda, transparentemente bela, impiedosamente desejável, fatalmente acolhedora. Não era uma garota normal que estava diante dele, mas uma fêmea, a própria deusa, Hécate. Ele estremeceu diante do olhar dela, duro e firme, que não arrefecia, e por um momento ele sentiu-se preso ao chão. Sem controlar os próprios movimentos, Ikki apertou levemente os redondos seios da jovem.

- Quando invocamos a deusa, ela vem até nós... – comentou Pandora.

- Eu não acredito em deuses ou deusas. Na verdade, eu estou cansado de toda essa baboseira de outro mundo... – resmungou ele, mas sem retirar as mãos dos seios dela.

- Não precisa acreditar em Hécate... – Pandora respondeu – Ela acredita em você. A senhora deseja que o ducado retorne ao poder de uma mulher.

E ela seguia mirando-o, sem nada mais dizer, sem fazer qualquer gesto, apenas deixando que os olhos masculinos vagassem sobre seu corpo. Após alguns instantes, Ikki pareceu relaxar, e ainda com o semblante contraído, surpreso, fez menção de retirar as mãos daquele local e dar-lhe as costas. E foi isso o que fez. Puxou os dois membros de uma só vez e voltou-se de costas para ela a fim de organizar as ideias. Apertou as têmporas com força, encostando-se ao tronco de uma árvore, sem desgrudar os olhos daquela figura estranha.

– Tire-me daqui. – disse ele por fim, sério.

- Não. – rebateu ela – Não antes de você me possuir.

- O que? – Ikki estreitou os olhos sobre ela – Por que eu faria algo assim?

- Por que é a vontade da deusa. – retrucou Pandora, parada no mesmo lugar. – E a minha vontade também.

- Essa é a sua vontade... – esbravejou Ikki – Se queria se deitar comigo, não precisa ser desse jeito, bastava ter pedido.

- A deusa não pede nada. Ela toma para si. – respondeu ela – Você pertence a ela.

- Eu não pertenço a ninguém. – rebateu ele, apontando um dedo para ela – E você vai me levar embora dessa maldita floresta.

- Hécate não permitirá que você saia, como muito bem pôde perceber... – voltou ela. – Não conseguirá sair daqui, Ikki, a menos que cumpra o seu papel.

- E esse papel seria deitar-me com você? – ele soergueu uma sobrancelha. – Ser uma espécie de consorte de uma deusa, tal como acontece nas terras bárbaras do norte?

- Sim. – falou ela. – Você é a oferenda escolhida para ela.

- Oferenda? – Ikki franziu pesadamente o cenho – Eu sou uma oferenda? De uma deusa? – ele riu de nervoso, mas terminou fechando o semblante e disparando - E se eu me recusar? – tornou ele, tornando-se severo.

- Vai vagar por essa floresta até o fim dos seus dias, sem jamais encontrar a saída. Nunca mais poderá voltar ao mundo dos humanos. Ficará perdido entre os dois mundos, nem vivo nem morto, para sempre, sem jamais poder morrer completamente, mas sem poder viver completamente. – disse ela.

 – Por que está pintada como uma pagã? – interrogou Ikki.

Pandora tinha o rosto traçado como os povos do norte, que costumavam desenhar sua pele para a guerra. Baixando a cabeça, porém não os olhos, ela o fitava no ponto focal de seu ardor. O coração tremia-lhe no peito. Ela estava fértil. Aquela noite seria sua libertação.

– Vai ficar aí me olhando como se eu fosse um fantasma? – disse Ikki após um minuto de silêncio - Vista suas roupas, cubra-se. Tire essa lama da pele, você não parece ser uma bárbara para estar pintada assim. E leve-me para longe daqui.

Refutou ele, com uma entonação ligeiramente ríspida, autoritária e desdenhosa. E recostando a cabeça no tronco, fechou os olhos para abandoná-la ali, parada, esperando que a jovem caísse em si e se afastasse, envergonhada pelo seu estado. Mas, para espanto de Ikki, ele mal fechara os olhos quando sentiu uma massa cair sobre si. Pandora havia se atirado para ele, de tal forma que o homem, embora tivesse mais força que ela, tivera dificuldade em agarrar-lhe os braços para impedir sua aproximação.

Pego de surpresa, e por estar desarmado, Ikki teve imensa dificuldade em acuá-la, enquanto a mulher, enfurecida em cima dele, tentava romper a barreira que os punhos masculinos lhe impunham, tentando mantê-la longe de seu corpo. Ela gemia no calor da luta por aproximar-se, jogar-se para ele, como se o quisesse violentar, tomá-lo para si, na sua ânsia selvagem de conquistá-lo, de fazê-lo ceder, entregar-se.

No calor da luta, Ikki olhou por cima do ombro da jovem, e aquele mesmo cão dos infernos desenhou-se diante de si, com os olhos vermelhos horrorosos e a boca babando sangue. Ele assustou-se, cedendo na luta e deixando que ela o derrubasse no chão. Sem ar, por baixo do corpo feminino, ele virou o rosto na direção do cão. Ainda estava ali, não desapareceu como da última vez, seguia olhando para ele fixamente.

– Por todos os deuses! – ele gaguejou com a voz estrangulada – O que pensa que está fazendo? Eu estou enlouquecendo!

– Você não pode me desdenhar! – ela gritava, a voz aflita, quase chorosa, com uma raiva contida, querendo forçá-lo a aceitá-la – Você me quer, demonstrou isso a cada vez que me olhou durante esses dias! Seu corpo me diz isso neste exato momento. Então, me toma para você!

- O cão... – murmurou ele, olhando para o lado e percebendo o animal parado na distância, entre a sombra e a escuridão.

- Olhe para mim. – pediu ela, pegando o rosto dele com as duas mãos e puxando-o para encará-la. – Não olhe para mais nada, apenas para mim.

E em um ímpeto abrupto, ela atirou-se para cima do homem com toda a sua força, que não era pouca, o que surpreendeu Ikki. A moça estava sentada sobre o corpo dele, com uma perna de cada lado do corpo masculino. Pandora quase o podia beijar em seus lábios, tamanha era aproximação que ela conseguira.

Ela era forte, não cabia dúvida, e o amor, a paixão, o êxtase lhe davam muito mais ânimo para tomar para si o que ela julgava ser seu por direito. Ele não oferecia muita resistência. Com um forte impulso, Ikki jogou-a para o lado e virou-se sobre ela. Agarrou-lhe fortemente os pulsos, travando as mãos femininas contra a terra, torcendo-lhe os braços de tal forma que, por um instante, temeu machucá-la verdadeiramente, arrefecendo na luta e permitindo, com isso, que ela o imobilizasse no chão novamente, tomando um lugar de domínio sobre ele.

– Faça-me sua! – pedia ela, beijando-o com força, e não sendo correspondida por ele. – Eu quero ser sua mulher!

– Você perdeu o juízo! – rosnou ele entre os lábios dela.

E jogando-a para o chão, Ikki a empurrou ferozmente, com violência, uma agressividade tamanha que surpreendeu a si mesmo. Jogada para o lado de forma pouco delicada, Pandora levantou-se no mesmo instante em que Ikki erguera-se, recompondo-se e dando às costas para ela. Com a respiração acelerada pela disputa, Pandora aproximou-se novamente, saltando sobre ele, pelas costas, porém o rapaz virou-se com todo o furor que entrara em seu sangue naquele momento, deferiu-lhe um tapa no rosto, o que a levou ao chão.

Não queria tê-la agredido, mas agira por impulso, na vã tentativa de apartá-la, de chamá-la a si, de fazê-la recuperar a razão que definitivamente perdera. Houve um minuto de silêncio onde ele, em pé, observava-a ao chão, sobre a relva, a olhá-lo como quem olhava um assassino, uma pessoa asquerosa, um inseto que merecia ser esmagado depressa. Pandora, com toda a indignação de seu orgulho ferido, fitava-o com os lábios trêmulos, os dedos tocando a face que fora machucada.

Ikki levantou a cabeça e novamente viu aquele cão a observá-lo. Estava ofegante pela disputa. Ajudou-a a levantar, oferecendo-lhe a mão. Ela aceitou e ele, sem entender muito bem os próprios movimentos, puxou-a para si, colou o corpo dela ao seu. Pandora sentiu as mãos dele folgarem. Ela o encarou por um momento e afastou-se dele sem dizer nada, andando para trás, sem tirar os olhos de cima dele.

Ele a seguiu com o olhar, e para a inteira surpresa dele, ela parou a alguns metros dali. Pandora encostou-se em uma das árvores, nua, e virou-se para ele. Ikki, sério, andou até lá, parando defronte da mulher. Vagarosamente, ele aproximou-se, não ousando tocá-la com as mãos, apenas encostando novamente seu tronco ao tronco dela, apertando o peito contra os seios delicados da jovem, os braços masculinos cercando-a ao sustentar-se no tronco.

Pandora encolheu-se dentro dos braços dele como se não desejasse tocá-lo. Ikki acercou o rosto ao rosto dela, e a jovem foi capaz de ouvir a respiração dele em seu ouvido. Ela estremeceu e voltou a encará-lo com a face pintada como uma bárbara. Em seguida, saindo do abraço dele, novamente ela afastou-se, mas com ar felino, embrenhando-se entre as árvores espessas. Ikki seguiu-a, tendo o cuidado de olhar para trás e ver ainda o cão infernal que não afastava dele o olhar sangrento.

Ela encostou-se a uma árvore antiga. Ele olhou-a por inteiro, sem pudor ou educação. Não queria ser cavalheiro, não queria ser romântico. Tinham o mesmo sangue, o mesmo poder fluía do corpo dela para o dele e Ikki sentia uma sensação estranha que o empurrava para ela. O brilho da lua cheia salpicava de luz por entre as copas das árvores.

Ikki aproximou-se, encostou-se nela, imprensando-a entre o próprio corpo e a árvore. A mão masculina tocou a face em brasa, os dois pares de olhos encaravam-se com ferocidade. Com a ponta dos dedos, Ikki percorreu o contorno da boca carnuda, avermelhada de forma convidativa. Ela tomou o dedo dele entre os lábios e sugou-o com movimentos insinuantes. Ikki roçou o rosto no dela, de olhos fechados, soltando murmúrios inaudíveis, descendo os lábios pelo pescoço até o contorno dos seios.

E beijou-a lascivamente por fim. As mãos dele agarraram-se tão fortemente aos cabelos femininos que a mulher deixou escapar um leve gemido de dor. As mãos dela, por sua vez, apertaram com força a pele masculina, ajudando-o a livrar-se da camisa. Pandora o segurava com tal força que Ikki podia sentir a pressão das unhas dela em suas carnes.

As línguas exploravam-se uma a outra com vontade, em uma mistura de desejo e obsessão. E quando ele a derrubou no chão e a apertou contra o chão, de forma ainda mais violenta, ela sentiu o calor que tomava o corpo dele se comunicando ao dela. Pandora tocava-o com domínio, enquanto ele prendia os braços dela para ter acesso à pele pálida.

Ele não queria ser delicado. Era com fúria que se possuía uma deusa. Os dentes de Ikki encontraram a carne macia do pescoço, enquanto ela lhe cravava as unhas pela nuca, subindo pelos cabelos escuros. A medida em que ele descia pelo corpo dela, tomando os mamilos na boca enquanto massageava os seios, ela inclinava-se sobre ele, nas costas largas.

Até que Pandora sentiu Ikki encostar o rosto na feminilidade dela, contra a sua virilha, roçando os lábios naquela região. O cheiro dela impregnou-lhe os sentidos. Pandora soltava leves gemidos enquanto ele a beijava entre as pernas. Por fim, ele ergueu-se, agarrando-a pelas coxas com força, abriu-lhe as pernas e trouxe-a para si. E, então, ele a possuiu.

O.o.O.o.O.o.O Castelo de Káden O.o.O.o.O.o.O

O fogo crepitava na lareira e apenas o chiado seco dos estalos da lenha que queimava quebrava o silêncio no quarto. Sentindo a garganta ressecada, ele abriu os olhos. Não era capaz de perceber há quanto tempo havia adormecido ou mesmo quanto tempo passara inconsciente após cauterizar a ferida. Tudo que necessitava era um bom gole de água fresca.

A mão deslizou ao lado da cama, mas ele não encontrou ali o que pensara encontrar. Olhou para o lado e viu que Lívia não estava deitada no leito, ao seu lado. Giovanni piscou os olhos algumas vezes. Lembrava-se dela deitada ali, com a cabeça dele encostada em seu peito. E, então, tudo apagou-se na mente dele. Mas a jovem havia saído enquanto ele provavelmente dormia.

Fazendo um esforço sobre-humano, sentindo uma dor horrível no corte recém cauterizado, Giovanni sentou-se na cama e sobressaltou-se pela cena que encontrou ali. Lívia estava sentada em uma cadeira, diante de uma pequena mesa de madeira que estava ali para as refeições e abluções. Ela havia adormecido sobre as bandagens que tinha colocado nele. Pela primeira vez, depois que havia queimado o corte, Giovanni percebeu que o tórax tinha novamente sido enfaixado. Ela fizera aquilo sozinha, sem ajuda, como ele havia pedido.

Lívia apoiava a cabeça sobre os braços cruzados na mesa e dormia profundamente, suas costas quase não se movimentavam, tão cansada ela estava. Mas, por trás dela, em pé, parada, observando-a, estava Ágatha. A marquesa olhava fixamente para a nuca de Lívia, que estava desnuda diante dos olhos azuis da mulher. Porém, o que mais regelou o sangue do general, foi perceber que a amante segurava uma faca que estava encostada na pele de Lívia, mas não pesava o suficiente para fazê-la acordar.

- Ágatha... – ele chamou, sem ousar fazer qualquer movimento. – O que pensa que está fazendo?

Ela não prestou atenção ao que ele dissera, sequer havia olhado para ele quando percebera que o homem havia acordado e levantado. Ágatha mantinha os olhos grudados no alvo pescoço de Lívia, a quem ela considerava uma rival, a faca tremia em sua mão, sem que ela própria conseguisse decidir se seguia com a ação ou se recuava.

- Ágatha... – Giovanni chamou novamente, conseguindo colocar-se de pé, lentamente, sem fazer movimentos bruscos – Solte essa faca e vamos conversar. Você não está bem, minha querida...

- Eu vou matá-la. – disse Ágatha, na mesma posição.

- Não, você não vai, você não quer fazer isso. – disse Giovanni, arriscando dar dois passos na direção dela, enquanto a mulher mantinha-se na mesma posição, como se estivesse congelada. – Afaste-se de Lívia, largue a faca e converse comigo...

- Nós não temos mais nada para conversar, Giovanni. – e pela primeira vez, Ágatha virou o rosto para ele, mas ainda mantendo a faca no mesmo local. – Você me traiu! Disse que apenas queria desonrá-la para forçar o irmão a uma reparação.

Eles falavam em voz baixa, principalmente Ágatha, que tinha os lábios trêmulos e a voz saía visivelmente emocionada, e ele percebeu o estado alterado dela.

- Eu não traí você. – falou Giovanni. – O plano não saiu como eu previa e...

- E você apaixonou-se por ela! – retrucou a mulher, amargamente. – Você vai me abandonar, a mim, que estou esperando um filho seu!

- Eu não queria mais filhos, Ágatha, você sabia muito bem disso. – tornou ele.

- Mas eu queria, sim, um filho... - o lábio inferior tremeu - Para substituir aquele que Deus nos tirou. – disse ela, parecendo ligeiramente insana naquele instante. – Ele morreu nos meus braços e era tão pequeno...

- Como você mesma disse, talvez Deus não tenha querido que uma criança nascesse de nós dois. – rebateu Giovanni, com cuidado, escolhendo as palavras – Não somos boas pessoas, Ágatha, não temos o direito de colocar um filho no mundo!

- Eu tinha direito! – volveu ela, com aflição – Deus não podia ter levado o nosso bebê, não podia! E agora eu estou esperando outro filho seu e o que você faz? Abandona-me!

- Ágatha... – ele tentou chamá-la a si.

- Está com medo que eu corte o pescoço da sua preciosa garotinha como se ela fosse uma galinha? – rosnou a mulher, com a voz igualmente baixa, mas severa e ríspida, o que assustou Giovanni. – Se você se aproximar, eu degolo essa desgraçada como se degola um pato para o jantar! Ela não será a primeira, Giovanni! Você sabe disso! Quantas eu já tive que matar por sua causa? - rosnou ela, com os lábios violentamente trêmulos pela emoção, os olhos congelados, coalhados em cima dele, destilando um veneno de ódio.

- Ágatha... – Giovanni apontou um dedo para ela – Se você encostar um dedo nela, eu mesmo vou matá-la, com as minhas próprias mãos! – ameaçou ele - Eu juro que acabo com a sua vida de uma vez por todas! Eu já não suporto a sua falta de controle, a sua histeria, os seus nervos...

- Eu não tenho medo de você. – rebateu ela, com um esgar de riso de loucura – Na verdade, meu amor, um pacto de morte foi o que fizemos, quando éramos mais jovens, você não lembra mais? – ela falou aquilo com uma pontada de insensatez nos olhos – Você disse que só a morte poderia nos separar. Falou também que você me mataria e se mataria em seguida para que nós pudéssemos ficar juntos na outra vida.

- Éramos quase crianças, Ágatha, isso faz tanto tempo. Nós não sabíamos o que dizíamos um ao outro naqueles anos! – ele tentou sorrir para passar descontração, mas conseguiu o efeito contrário – Você só tinha quinze anos, e eu tinha apenas dezessete. O que poderíamos saber sobre o mundo, sobre a vida, sobre o que a sorte prepararia para nós?

- Cale-se! – exigiu ela, os olhos enchendo-se de lágrimas – Você é meu, Giovanni D’Angeri! Você me fez uma promessa. Você me pediu em casamento, eu aceitei, e nós nos casamos! - ela ergueu a mão esquerda na qual um anel de ferro, uma aliança grossa, encontrava-se no dedo anelar - Você esqueceu isso? Nós assinamos um papel!

- Não, eu não esqueci. – ele apertou os lábios e novamente deu mais alguns passos para aproximar-se dela – Como eu poderia esquecer? Eu a amo, Ágatha, eu sempre a amei. Você sempre será a minha única esposa.

- Então, por que você não diz isso para todo mundo? – tornou ela, um pouco mais serenada pelas palavras que ouvira dele – Por que não dizemos para o rei a verdade sobre nós?

- Não podemos, minha querida, do contrário, seu casamento com o marquês será considerado nulo. Você vai perder suas terras, suas jóias, seus títulos... É isso o que você deseja? – perguntou ele, algo desesperado pelo estado dela.

- Eu desejo você de uma vez por todas! – rebateu ela. – Não aguento mais viver dessa forma, mentindo, enganando, sofrendo... Vendo você se deitar com outras e eu ter que ficar calada! Ou o que é pior, tendo que matar uma por uma... uma atrás da outra... sem parar!

Giovanni percebeu nela um brilho feroz no olhar. As pupilas de Áfatha pareciam perdidas em meio ás retinas azuis. Ela não era mais a doce e compassiva amante há alguns anos. Bastava que ele olhasse para outra mulher, e o humor de Ágatha tornava-se sorumbático e assassino. 

- Mas é melhor para nós, ao menos por enquanto, Ágatha. – respondeu Giovanni, já bem perto dela – Casado com Lívia, as terras dos Domothinopoulos também serão minhas, ou melhor, serão nossas.

- Milo vai deserdar a irmã quando souber o que você fez. – disse a mulher – Ele não morreu, Gio, como estava nos seus planos. Parece que o idiota do irmão é mais forte do que você pensou. Seus planos deram errado.

- Ele não morreu agora, mas pode morrer ainda, ele é humano. Basta que eu faça as coisas direito dessa vez. Eu cometi um erro, mas ele não vai mais se repetir. – atalhou o general, sério, sentindo-se irritar pela alusão ao erro que havia cometido. – As terras e o título dos Domothinopoulos serão meus. E o castelo também, e toda a criadagem... – ele aproximou-se do corpo dela, que ainda mantinha a faca no pescoço de Lívia.

- Por isso, Colombina... lembra-se desse apelido que eu coloquei em você? – ele soergueu uma sobrancelha quando a viu sorrir, entre as lágrimas, ao escutar o nome – Nós precisamos aguentar um pouco mais. Eu prometo a você que, assim que tudo o que pertence aos Domothinopolous for nosso, eu mesmo mato essa garotinha! Até lá, Colombina, deixe que eu me divirta, como nos velhos tempos!

- Mas eu tenho ciúmes de você... – refutou ela, sentindo a mão de Giovanni deslizar sobre seu pulso, cuja mão segurava a faca. – Eu quero você só para mim...

- E eu sou seu, Colombina... – falou Giovanni, agarrando a mão de Ágatha, com cuidado, e afastando do pescoço de Lívia, trazendo-a para si. – Eu sempre fui seu, não será diferente agora.

- Mas você disse que a amava e... – ela tentou falar, mas ele a impediu, colocando um dedo nos lábios dela.

- Eu estou apaixonado por ela, mas voltarei para você, como sempre fiz. – disse ele.

Houve um silêncio entre eles, em que apenas se entreolharam, e foi Ágatha que, agarrando mais na faca que trazia ainda, apontou-a ameaçadoramente para Giovanni, o que fez o homem levantar as mãos em sinal de paz:

- Se você estiver mentindo para mim, Gio, eu mato essa criatura! E não me desafie, você sabe muito bem o que eu sou capaz de fazer.

E ao dizer aquilo, ela baixou a faca, relanceou os olhos para Lívia, que ainda dormia profundamente, mexendo-se vez ou outra em seu sono inocente, as pálpebras piscando de vez em quando. Em seguida, a marquesa caminhou para porta, que estava entreaberta, saiu por ela e fechou-a atrás de si.

Sozinho, dentro do quarto, Giovanni passou a mão pela testa, que estava suada, tanto pelo calor que fazia ali, quanto pelo medo que vivenciara, a preocupação pela vida de Lívia. Sim, Ágatha tinha razão, havia sido sua cúmplice nos planos de matar Milo e seduzir Lívia para ter acesso a tudo que pertencia aos Domothinopoulos. Mas não pensara que o cavaleiro fosse escapar da morte, nem que ele próprio se apaixonaria pela garota a ponto de querer verdadeiramente casar com ela.

Mas já era casado legalmente com Ágatha. O casamento dela com o marquês não tinha qualquer validade, mas ninguém precisava saber disso. Gustav havia conseguido burlar o sistema para que o registro de casamento deles não fosse encontrado nos arquivos da Igreja.

Suspirou. Pegou Lívia nos braços, e ela não acordou, apenas rodeou o pescoço dele como se soubesse que se tratava dele mesmo. Giovani, sentindo muitas dores, levou-a para a cama e a deitou. Depois, sentindo-se febril e percebendo que, de fato, queimava de febre, ele atirou-se do outro lado da cama, mas não conseguiu dormir.

- Eu preciso me livrar de Ágatha e dessa criança antes que toda essa história sórdida chegue até o rei e eu termine sem a cabeça. – disse consigo mesmo.

O.o.O.o.O.o.O Continua... O.o.O.o.O.o.O



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...