História Virgem Indomável - Capítulo 15


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Capítulo 15 - Capítulo 15


- Bonnie? - Enzo debateu-se num grande esforço para sentar-se e distinguiu a figura feminina sentada numa cadeira ao lado da cama, na penumbra. Pestanejou, tentando organizar os pensamentos. Sabia que tinha estado doente, mas por quanto tempo?

- Não, milorde. Sou eu, Carol - a criada ajeitou os travesseiros de Enzo, acomodando-o com maior conforto e apanhou uma taça cheia de água fresca. - Beba um gole, vai sentir-se melhor.

Ressequido, Enzo engoliu todo o conteúdo do copo. Por que Carol cuidava dele, em vez de Bonnie?

- Onde está minha esposa?

- No pátio, conversando com Damon a respeito da muralha. Agora, o senhor deve...

- Muralha? Como assim? Ninguém pode trabalhar lá no inverno - O lugar da esposa era junto do marido. Que outra ocupação seria tão importante a ponto de afastá-la de seu dever principal?

- Pois ela deu ordens para que os homens erguessem uma paliçada de madeira.

- O quê?! -Esquecendo-se da própria fraqueza, Enzo solevantou-se abruptamente. De imediato, o quarto começou a girar ao seu redor, forçando-o a recostar-se de novo. Por dentro, sua agitação era imensa. Receava que a construção do tapume pudesse comprometer o trabalho já realizado em alvenaria. Nem cogitara de explicar a Bonnie os riscos que sua idéia implicava, porque o muro era responsabilidade dele. Por outro lado, conhecendo a esposa, devia ter adivinhado...

- Tome um pouco do remédio, por favor - Carol estendeu uma tigela com uma beberagem escura, com cheiro de ervas - Eu irei buscar lady Bonnie.

- Argh... o que é isto?

- Já disse, remédio.

Com uma careta, Enzo engoliu metade da infusão que a criada lhe dera. Enxugou a boca com as costas da mão. Há quanto tempo estou doente?

- Bem, o senhor já estava de cama havia uma semana, milorde. Ela julgou melhor...

- Vá chamar minha esposa, ande. E Damon também.

- O padre Peter logo chegará. Ele vem todos os dias mais ou menos a esta hora e...

- Pelas chagas de Cristo, eu não ligo a mínima... - sem fôlego, Enzo interrompeu o que dizia para respirar. Perder a calma só lhe faria mal. Além disso, se sua esposa resolvera assumir o papel de chefe da casa, a culpa não podia ser atribuída a Carol. - Vá buscar Bonnie e Damon, por favor...

Exausto, afundou nos travesseiros macios. Uma centena de perguntas lhe fervilhava na cabeça, mas suspeitava que não iria gostar das respostas.

- Você acha que isso bastará? - Bonnie indagou pensativa, contemplando a muralha de madeira.

Damon balançou a cabeça em sinal de concordância.

- Ah, sim. Qualquer coisa a mais exigiria um apoio mais forte, o que poderia prejudicar a construção de alvenaria.

- Entendo.

- Milady!

Ela voltou-se para Carol, que corria em sua direção, atravessando o pátio congelado. Por um momento temeu que Enzo tivesse piorado. Sua aflição, porém, durou apenas alguns segundos, cessando ao ver o sorriso, que iluminava o semblante da fiel criada.

- O que houve Carol? Enzo despertou?

- E aparentando grande disposição. Ele quer falar com a senhora. Bonnie, contudo, mal a ouviu, pois já disparava rumo ao quarto, ansiosa para ver o marido.

Carol observou-a desaparecer no interior do castelo e virou-se para Damon.

- Lorde Enzo mandou-me chamar você também.

- Criatura de Deus. Por que não me disse logo? - Damon reclamou, atirando ao chão a vareta que estivera usando para fazer as medições da paliçada.

- Porque imaginei que lady Bonnie gostaria de ficar uns minutos a sós com ele, ora essa.

O rapaz sorriu.

- Nisso você tem toda a razão.

- Mas eu não esperaria muito antes de subir, se fosse você. O patrão não pareceu nada feliz com as novidades sobre o tapume...

Ele praguejou baixinho.

- Eu sabia que me arrependeria por obedecer às ordens dela - murmurou, olhando Carol com ar de cachorrinho perdido. – Mas eu não tinha escolha... lady Bonnie me ordenando as coisas e Enzo desacordado, doente...

A criada apontou para a ponte de pedra.

- Aí vem padre Peter. E melhor deixá-lo entrar.

Com um suspirou, o rapaz concordou.

- É, e depois irei ver Enzo. Embora preferisse enfrentar um boi xucro.

- Eu vou com você.

Damon fitou-a e endereçou-lhe um sorriso caloroso.

- Nada como poder contar com os amigos na hora de enfrentar um boi bravo...

O rosto de Carol manteve-se imperturbável.

Bonnie entrou no quarto como um furacão.

- Enzo! Oh, meu amor! - ela o aconchegou entre os braços, embalando-o com suavidade.

O marido, abrandado pela alegria dela e pela ternura do carinho, enlaçou-lhe a cintura.

Por um instante, ficaram abraçados em silêncio. Por fim, Bonnie afastou-se um pouco e colocou a mão na testa de Enzo.

- A febre passou, mas o seu aspecto ainda não me agrada...- observou franzindo a testa.

- Isso é coisa que se diga ao marido? - ele gracejou. Seu tom, entretanto, soou um tanto rabugento. - Foi por esse motivo que você não estava aqui quando acordei.

Bonnie corou. Para o marido, ela jamais parecera tão bela, com os olhos brilhando com um misto de alívio, preocupação e constrangimento.

- Claro que não, seu bobo! Eu conversava com Damon...

- A respeito da muralha. Carol contou-me. Não creio que tenha sido uma boa idéia; Bonnie.

- Mas nós estávamos tão vulneráveis...

- Cabia a mim, resolver esse problema - a despeito da repreensão, Enzo puxou-a de volta para seus braços. Ah como era bom aquecer-se com o calor do corpo dela, sentir-lhe o cheiro adocicado e a maciez da pele. - A você, compete cuidar do marido e providenciar para que nada lhe falte, para que fique confortável e... - beijou-a nos lábios com doçura – feliz, muito feliz...

Embora apreciando as carícias, Bonnie contraiu as sobrancelhas.

- Ainda acho que...

- Com sua licença, milady.

Enzo desviou o olhar para a porta e examinou o alto e esquelético homem trajando uma batina, parado em seu umbral. Cochichou no ouvido da esposa, antes de afastá-la ligeiramente:

- Em nome de todos os santos, quem é esse?

Embaraçada por ter sido surpreendida num momento de intimidade, Bonnie levantou-se de um salto.

- Entre, por favor, padre Peter. Como pode constatar, nosso doente melhorou muito, hoje.

- Pelo que posso constatar, milady – o pároco concordou, aceitando o convite para ingressar no quarto. - E óbvio que não precisam mais de mim, nem há necessidade daquela... outra pessoa que mandaram, buscar.

Intrigado, Enzo contemplou a esposa com ar de interrogação. Nesse momento, Damon e Carol chegaram. Vendo que o aposento já estava demasiado cheio, a criada retirou-se.

- Que outra pessoa? - Enzo indagou.

- Ela enviou Stefan até a propriedade do barão com a incumbência de trazer Olivia – Damon explicou.

- Olivia? Coitado do Stefan, tendo que percorrer todo o caminho de ida e volta! Mas que coisa estúpida!

O semblante do padre Peter iluminou-se, expressando sua integral concordância. Damon pigarreou, sem jeito, e Bonnie cruzou os braços num gesto de desafio.

- Pensamos que você fosse morrer - declarou, articulando cada palavra. - Lembrando-se de que você já havia adoecido desse modo e que Olivia, o curou, e diante do insucesso de padre Peter, resolvi chamá-la. Julguei que a curandeira pudesse ajudá-lo.

- Bem, todos vocês se enganaram.

_ Eu... acho que vou até o galinheiro, verificar se está tudo bem com as galinhas... - Damon anunciou, quebrando o silêncio carregado de tensão.

- Apareceu mais alguma com os sintomas? - Enzo inquiriu. - Como estão as ovelhas? E os carneiros?

Sentindo-se injustiçada, Bonnie mordeu os lábios. Passara dias de medo e angústia, rezando para que a morte não lhe levasse o marido, e agora via-se ignorada como se não tivesse a menor importância. E tudo por quê? Por não ter ficado todos os segundos em volta dele? Bem, ela ficara. Enquanto a febre ardia no corpo de Enzo, não saíra de seu lado. Depois, porém, quando o padre Peter lhe assegurou que o pior havia passado, ela desviou sua preocupação para a propriedade. Não queria que todo, o trabalho já realizado se perdesse enquanto ele jazia doente, sobre a cama. Principalmente porque ela entendia bem de administração de castelos, talvez melhor do que o próprio marido, que estreava nessa atividade.

Como ela adivinharia o momento em que ele despertaria de um sono que se prolongava havia uma semana?

Por que ele não se mostrava grato por ela ter assumido o controle da situação?

E por que não expulsava todos do quarto, para que pudessem ficar a sós mais um pouco? Afinal, havia muito tempo que eles não gozavam de um instante de privacidade, devido à enfermidade e aos problemas que enfrentaram com a nevasca.

- Já que se sente melhor, milorde - Bonnie Interrompeu a conversa a respeito de bois e vacas, - peço a sua licença para retirar-me. Preciso cuidar da ceia.

Com uma graciosa mesura, ela virou as costas e abandonou o aposento. Em silêncio, padre Peter seguiu-a.

Damon esperou que os dois saísse e dirigiu-se a Enzo.

- O que há com você, homem? A febre torrou-lhe os miolos?

- De que diabos você está falando?

- Sua mulher quase morreu de aflição por sua causa, e você a trata dessa maneira?

- Embora o assunto não seja da sua conta, digo lhe que não admito que ela dê ordens aos meus homens no meu lugar. Bonnie não tinha esse direito. O certo seria esperar até que eu me recuperasse.

- Seu imbecil! Nós não sabíamos quando - ou se - você se recuperaria... Não até recentemente, de qualquer modo.

- Ela devia ter permanecido ao meu lado.

Damon perscrutou o semblante do amigo longamente.

- Então é isso, não é rapaz? Você se irritou porque sua esposa não estava ensopando de lágrimas a cabeceira da cama... Enzo virou o rosto.

- Não precisava mandar buscar Olivia. Você devia ter-lhe dito.

- Eu não entendo nada sobre doenças, Enzo. Não sabia o que havia de errado com você. E se morresse? Era de cortar o coração, vê-la sentada nesta cadeira, sem comer direito, sem dormir, lutando contra a febre. Ela precisava agarrar-se a qualquer esperança, por mais remota que parecesse.

- Suponho que eu não, tenha motivos para estar zangado. Contudo, você sabe que a jornada até a propriedade do barão oferece muitos perigos, principalmente no inverno. Stefan foi acompanhado Por uma pequena escolta, não foi?

- Destaquei três homens para acompanhá-lo - Damon assentiu. - Entretanto, não é a mim que deve desculpas, mas à sua mulher.

Ignorando as palavras que o amigo proferiu por último, Enzo indagou, desviando o rumo da conversa:

- Algum sinal dos rebeldes?

-Não.

- Quero que derrube a paliçada o quanto antes.

Damon fitou-o com assombro.

- Você enlouqueceu! Nem viu o que fizemos lá!

- Com certeza estragará a argamassa do topo.

- Acha mesmo que somos idiotas? Pedimos orientação aos pedreiros e trabalhamos com todo o cuidado para preservarmos o muro de pedras.

- Oh... - Enzo mexeu-se debaixo das cobertas. - O tapume já ficou pronto?

- Quase.

- Nesse caso, sou favorável a que o terminem, já que os pedreiros não fizeram objeções.

Damon levantou-se.

- Preciso voltar aos meus afazeres. E você, trate de repousar.

- Deixe comigo. Ah... poderia pedir a Bonnie que voltasse aqui? O rapaz suspirou com visível alivio.

- Por Deus, Enzo! Com você, sua esposa e esse seu gênio terrível, acabarei indo para a cova mais cedo...

Enzo contemplou a figura esbelta de Bonnie, parada na soleira da porta. Seu porte, altivo como de hábito, não indicava que a esposa pretendesse desculpar-se ou qualquer outra coisa no gênero. Contudo, seu olhar traía uma certa insegurança. O que não estranhava, pois, afinal, fora demasiado rude com ela.

- Eu não devia ter-me zangado com você - admitiu em tom conciliador.

No mesmo instante, um sorriso luminoso desenhou-se nos lábios de Bonnie, que caminhou até o leito, fechando a porta atrás de si.

- Não quis ofendê-lo. Apenas, procedi como julgava mais acertado.

- Eu sei. Você ainda me conhece pouco. Eu sempre fico mal-humorado quando adoeço. Não tenho paciência para ficar na cama e acabo descontando minha irritação em cima das pessoas que mais amo. Na próxima vez, você já estará avisada.

Ela estremeceu.

- Nem pense em "próxima vez". Se adoecer de novo, sou eu que me aborrecerei com você - tentou gracejar. Sentou-se na beira da cama, a cama onde não se deitava por tantos dias, e fitou o marido.

Seus cabelos negros e normalmente rebeldes encontravam-se des-grenhados e fios escuros de barba ensombreciam-lhe o queixo. Sob os olhos, olheiras fundas haviam-se formado. A despeito de tudo isso, ele lhe parecia mais atraente do que nunca.

- Como anda o estado de espírito de Caroline, depois da partida de Stefan?

- Receio que não muito bem. Ela tem-se mostrado tristonha e arredia, mas creio que voltará ao normal quando o namorado regressar.

- Quanto a mim, Bonnie, comunico-lhe que já "voltei ao normal"...

Ela curvou-se para beijá-lo.

- Oh! É mesmo?

Enzo pousou as mãos nos seios da esposa.

- Dou-lhe minha palavra...

Poucos dias mais tarde, Enzo inspecionou a paliçada de madeira em volta da muralha de pedra. Restavam alguns trechos para completar, mas isso não demandaria muito tempo. Acariciou a cabeça de Rollo, sentado a seu lado.

- O aspecto é sólido - observou em tom casual, ignorando a expressão de "não lhe disse?" estampada no semblante de Damon. - Onde está Ralf?

O amigo deu de ombros.

- Não o vejo desde ontem. Parecia um bocado nervoso... vai ver ficou doente também.

- Devemos pedir ao padre Peter para cuidar dele ou poupá-lo por uns dias? - Enzo indagou em tom sério, embora seus olhos brilhassem de divertimento.

Sem responder, Damon limitou-se a rir da brincadeira.

- Podemos procurá-lo mais tarde. Que tal se saíssemos para caçar? Rapaz, estou louco por um pouco de movimento.

- A idéia me agrada - Damon aprovou. - Eu adivinhei que você me faria esse convite, já que veio com o arco e as flechas.

- E eu que me julguei tão esperto quanto uma raposa... pensei que o surpreenderia.

- Rapaz, quando você aparece com a mó, eu já moí o trigo... - o amigo gracejou. - O que sua esposa dirá sobre o nosso plano?

Enzo franziu a testa. Dessa vez, seus olhos também demonstravam seriedade.

- Quero caçar. Ninguém tem nada a dizer a esse respeito.

O amigo balançou a cabeça.

- Sim, milorde.

De súbito, Rollo farejou alguma coisa no ar e, inquieto, pôs-se de pé.

- Está sentindo o cheiro, Damon? - Enzo indagou, perscrutando o horizonte. - É de fumaça - concluiu, apontando para a nuvem densa, e escura que voluteava no céu, ao norte. Só havia uma explicação para uma fumaceira tão intensa como aquela - um incêndio de grandes proporções, provavelmente um prédio enorme. Restava saber se tratava-se de um acidente ou de um ataque.

- É na propriedade dos Horton, Convoque os homens – Enzo bradou, disparando para o estábulo.

Damon gritou para os trabalhadores que se dedicavam a diferentes tarefas, espalhados pelo pátio.

- Parem o que estão fazendo e sigam-me! - ordenou.

Bonnie saiu correndo do salão, alarmada com o alarido, para verificar o que estava acontecendo.

Nesse momento, Enzo saiu do estábulo, já montado em seu cavalo. Parou ao lado dela e fitou-a.

- Vamos à propriedade dos Horton para ver o que se passa. Aquele velho bêbedo deve ter ateado fogo à própria casa. Não voltaremos antes de apagar o incêndio.

- Acha que... foi um ataque?

- Duvido. Não encontramos qualquer vestígio dos rebeldes há semanas.

- Enzo... precisa mesmo ir? Você ainda está convalescendo...

- É meu dever. Os Horton também juraram lealdade a seu pai, não se esqueça. Além disso, não se trata de uma batalha.

- Eles... seriam um alvo fácil.

- Tem razão - Enzo remexeu-se na sela, tomado por súbito desconforto. Jamais nutrira a menor simpatia pelos dois membros da família Horton, porém não desejava que mal algum os atingisse. Preocupado, berrou para os homens - Todos os que possuírem armas devem trazê-las!

A aflição de Bonnie tornou-se mais aguda ao ver os homens correndo como que preparando-se para um combate feroz.

- Pretende levar todos os homens?

- Como você mesma afirmou, os Horton são um alvo fácil.

- Se só as mulheres permanecerem aqui, então nós também seremos.

A essa altura, os trabalhadores já se haviam organizado para partir, munidos de arcos, flechas e espadas.

- Damon! - Enzo chamou, esquadrinhando o pátio à sua procura.

- Aqui! - o rapaz bradou, aproximando-se.

- Você ficará para proteger o castelo - comunicou, ignorando a expressão de desapontamento no rosto dele. - Escolha alguns homens para montar a guarda.

Damon relanceou os olhos para Bonnie, desviando-os em seguida na direção de Enzo.

- Sim, milorde -, respondeu de má vontade.

O sorriso agradecido da esposa fez com que o desagrado de Damon perdesse a importância para Enzo. Ele inclinou-se para depositar um beijo de despedida nos lábios de Bonnie.

- Sossegue... tenho certeza de que estará em segurança - confortou-a. - Voltaremos o mais breve possível.

- Enzo... cuidado! Receio que se trate de uma cilada.

Ele sorriu-lhe com autoconfiança.

- É improvável. Regressaremos para a ceia. Você verá.

Com um sinal, Enzo pôs em marcha, seguido pelos companheiros.

Kai virou-se para Joseph com ar de triunfo ao ver o grande grupo que se deslocava pela floresta galopando. Escondidos numa vala a curta distância da estrada, puderam constatar que a maioria dos homens da propriedade de Salvatore se encontravam naquele bando.

Joseph, porém, não se sentia tão exultante.

- Pretende matá-la também? - indagou num tom que exprimia vergonha e reprovação.

- Ela é uma traidora, e os traidores devem morrer - Kai declarou com desdém. Acreditava naquelas palavras de coração, ou do que restara dele.

- Atear fogo para afastar Enzo de seu castelo, eu entendo, assassinato a sangue-frio, porém...

- Ora, pare com essas tolices. O que se perde matando um normando?

- Priscilla Horton era sua amante.

- Ela era amante de todos, com exceção de você - Kai replicou.

Agarrando o companheiro pela túnica, puxou-o em sua direção até encará-lo bem de perto. - Priscilla foi Útil até o momento em que começou a chantagear-me. Imagine, ameaçar revelar meus planos a Salvatore caso não a desposasse.

- E quem poderia culpá-la por isso? - Joseph argumentou, batendo na mão de Kai para que o soltasse. - Você não repetia sempre que a desposaria se ela cumprisse todas as suas ordens?

- Esta conversa não tem cabimento. O importante é que Salvatore e seus homens saíram do castelo, deixando-o desguarnecido. Agora, cale a boca e vamos embora.

A boca de Joseph, todavia, transformara-se numa linha rígida e, determinada.

- Se você tocar na esposa de Enzo, Kai, juro que o matarei.

- Desde quando o bem-estar da potranca normanda é da sua conta?

- Antes de ser normanda, ela é uma mulher e como tal deve ser tratada. Não permitirei que lhe encoste um dedo, fui claro?

Kai fitou-o com raiva.

- Engraçado... você mesmo me descreveu as barbaridades que os normandos fizeram com sua irmã, na sua frente, antes de matá-la.

- É verdade. Por isso não consentirei que você os iguale em infâmia.

Sorrindo com frieza, Kai ordenou:

- Se é assim, você não irá conosco. Fique no esconderijo, como uma velha reumática. Os outros companheiros são homens de fibra, não preciso da sua ajuda.

Joseph levantou-se, contemplando com pesar o líder por quem perdera todo o respeito.

- Não se trata de coragem. Na verdade, é uma questão de honra. Se você perdeu a sua, corroído pelo desejo de vingança, o problema, é seu. Eu não permitirei que maltrate uma dama.

Sem aviso, Kai deu-lhe um pontapé, num gesto rápido e imprevisível, derrubando-o. Os homens ao redor, que não haviam acompanhado o ponto principal da discussão, fitavam a cena com espanto.

- Ele é um traidor - Kai declarou. Todo o seu ódio pelas pessoas que atraiçoavam a própria gente agigantou-se em seu peito, circulando-lhe pelo sangue como um veneno mortal. - Serei obrigado a matá-lo, Joseph, para impedir que rasteje para o lado de Lorenzo Salvatore?

Sem esperar pela resposta, ele atacou o companheiro que ainda jazia no chão.

Joseph girou o corpo, porém não tão rápido que pudesse esquivar-se do golpe com a espada. Soltou um grito de dor, apertando o ombro de onde o sangue jorrava em profusão, empapando-lhe a túnica esfarrapada. Os companheiros ergueram-se de um salto, observando a cena com ar confuso e amedrontado.

Então, Kai enterrou a espada na barriga de Joseph. Franzindo a testa, retirou-a e enxugou a lâmina nos calções, guardando-a na bainha. Em seguida, chutou o antigo amigo para baixo de um arbusto.

- Vamos deixá-lo aqui. Temos coisas mais urgentes a fazer.

Sem sequer um olhar na direção daquele que fora seu braço direito, Kai acenou para os homens, que, ainda aturdidos, atenderam ao comando e o seguiram rumo ao castelo Salvatore.


Notas Finais


Os capítulos são enormes eu sei


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