História Vitae - Capítulo 2


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Categorias DAY6
Personagens Jae, Young K
Tags Angst, Brian, Jae, Jaehyung, Jaehyungparkian, Jaek, Younghyun
Visualizações 63
Palavras 2.237
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shonen-Ai, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


O enem vai embora e a gente começa a atualizar tudo mesmo que ainda tenha prova rolando na escola

Boa leitura!

Capítulo 2 - Initium


Aprendi na escola que a gente nasce, cresce, reproduz e, por fim, morre.

Mas a vida na realidade não é bem assim.

9 anos era minha idade quando vi minha mãe voltando para casa tarde da noite na companhia de um homem estranho. Ele tinha cabelos castanhos e olhos que delatavam ser ocidental, além de uma expressão serena que se mostrava mesmo quando não estava sorrindo. Visualizei pouco de sua aparência, mas pude perceber em minha mãe algo que há muito não enxergava em si: vida. Em casa, minha mãe mal conseguia esboçar um sorriso, apenas comigo e tentava ao máximo ser verdadeiro, apesar de tudo ao redor corroborar para a tristeza em seu olhar e seu andar, sua fala, seus gestos e seu eu como um todo. A melancolia era quase palpável.

Não precisava ser lá uma criança muito esperta para perceber que ela estava traindo meu pai. Não fez muita diferença, afinal, porque, apesar de meus pais viverem juntos, há muito não eram mais um casal. Meu pai era alcoólatra e grande parte do tempo que passava em casa estava bêbado, falando besteiras e agindo de modo imprudente, impensado, sem conseguir pensar na consequência de seus atos; no entanto, chegou um momento em que, mesmo sóbrio, era como se estivesse sob efeito do álcool. Não gostava de conversar comigo, geralmente me cortava ou dava respostas ríspidas, curtas e afiadas; contudo, ao anoitecer, entrava no meu quarto e me observava como se pensasse em tudo que fez durante o dia. Acreditava que eu estava dormindo, claro, mas, mesmo se não estivesse, ele provavelmente não perceberia.

Minha mãe, por outro lado, apesar de viver em ruínas e tendo de sustentar todo aquele peso em suas costas, era amorosa comigo e me dava toda atenção e carinho em dobro como em uma tentativa de tapar o buraco deixado por meu pai. A tristeza daquela mulher que eu tanto amava me perfurava profundamente sem que soubesse, dilacerando-me toda vez que a ouvia chorar baixinho pelos cantos da casa e disfarçar assim que me via. Alegava ser sua alergia à poeira, mas, se fosse, eu também estaria mal, já que compartilhava dos mesmos problemas de saúde. A casa vivia limpa, apesar de impregnada pelo cheiro forte de álcool e tristeza.

No entanto, minha mãe se tornou outra pessoa a partir do momento em que começou a se encontrar com aquele homem estranho. Ela sempre chegava em casa antes do meu pai, então ele naturalmente não via. Ainda assim, imaginava que eu não sabia de nada, que estava em meu quarto enquanto na verdade observava cada mínimo movimento através das frestas pela cortina da janela. Não via com maus olhos, há tanto tempo não via aquela mulher sorrir de verdade sem ser para mim que, ao que tudo indicava, aquele homem era realmente especial e lhe fazia bem – e se minha mãe estava bem, eu também estava bem.

Não era traição se meus pais não tinham nada, eles apenas viviam sob o mesmo teto. Minha mãe por vezes desabafava comigo antes de meu pai chegar, explicando que há muito o casamento entre eles havia chegado ao fim e que, mesmo naquela situação, a moradia não significava um laço sentimental. Alegava que eu precisava da companhia de um pai e ela estava mais que disposta a fazer por onde ser o melhor para mim, visando meu bem-estar acima do seu.

Embora eu tenha tentado explicar que, a meu ver, tudo melhoraria se ela estivesse bem, nunca me escutou. Insistia que seria pensar mais em si mesma do que em mim e que eu não tinha maturidade o suficiente para entender, alegando que adultos faziam coisas estranhas, mas que, afinal, eram necessárias. E eu não contestei, pois não a via com forças para discutir comigo um assunto que tinha sido dado por encerrado à sua última palavra.

Era bom ver minha mãe sorrir, por mais que fosse quando meu pai estava ausente.

No entanto, uma hora tudo acaba por vir à tona e com isso não foi diferente. Certo dia, meu pai chegou mais cedo e viu ela acompanhada daquele homem. Esperou minha mãe entrar em casa para avançar contra ela, perguntando quem era o outro e lhe empurrando à medida que a resposta se embaralhava e permanecia presa na garganta. Segurou firmemente seus pulsos e usou-os como impulso para jogá-la contra a parede, desferindo-lhe um tapa no rosto e exigindo uma explicação.

Quando tentei impedir seu próximo ato, fui empurrado com tanta força que senti minhas costas baterem contra o chão. Me mandou calar a boca e eu, vendo que não podia fazer nada, pois minha força não se comparava à sua, obedeci. E, pela primeira vez, vi minha mãe apanhar do meu pai.

Um tempo após o ocorrido, meu pai exigiu que minha mãe continuasse morando em casa e dentro do casamento, alegando que ainda estavam juntos perante à lei e que, da próxima vez, iria fazê-la se arrepender amargamente só pela tentativa de lhe enganar. A melancolia voltou a fazer parte do ser daquela mulher e o mundo voltava a desmoronar ao redor.

Tudo havia retornado à estaca zero, agora com a diferença de que... Estava pior. Muito pior.

Vez ou outra minha mãe aparecia com hematomas e se negava a me dizer a origem, mas sabia que eu tinha noção e as perguntas eram retóricas. Observava profundamente seu semblante cansado, as olheiras e os tons de roxo cobertos pela espessa camada de maquiagem cujo cheiro me fazia torcer o nariz e fungar. Qualquer substância em pó fazia meus olhos lacrimejarem, era como se fosse automático. Ela precisava passar mais maquiagem do que o habitual para conseguir esconder as marcas, inclusive em seus braços e pescoço, mas era incapaz de maquiar a tristeza que sua aura emanava – era quase palpável e consumia tudo ao redor, fazendo cada detalhe se tornar parte de um profundo poço sem fim de dor.

Meu pai se tornou fumante. A fumaça do cigarro me deixava tonto e às vezes fazia minha garganta coçar, isso quando não me dava vontade de vomitar. Era um odor terrível, parecia fechar minha respiração e tudo que eu conseguia pedir mentalmente no momento era para me tornar parte da fumaça e sumir em meio ao ar.

Os anos foram passando e a rotina fez com que se dissolvessem rápido demais.

E eu fui deixando pouco a pouco de me importar. Descobri que funcionava como uma válvula de escape e não hesitei em usá-la, percebendo logo de imediato seus benefícios e decidido a viver daquela forma.

Aos 16 anos, decidi que a fumaça daquela merda deixaria de ser um trauma e experimentei o cigarro pela primeira vez, odiando com todas minhas forças aquele gosto pútrido na minha boca. A repulsa me atrapalhou e o cigarro caiu, e, quando fui colocá-lo de volta entre meus lábios apenas para ter a desgraça de sentir alguma coisa daquela vez, me queimei por usar o lado errado. No mesmo dia, aquele homem mais repugnante que o cheiro que lhe acompanhava viu a marca arroxeada no meu lábio e perguntou que merda eu estava fazendo. Sem esperar por uma explicação – que não viria, de qualquer forma – ele avisou que não queria me ver mexendo nas suas coisas e que eu poderia muito bem me virar para comprar as próprias merdas. Basicamente, ele estava pouco se fodendo pelo fato de eu ter fumado, apenas queria que eu não mexesse nos seus maços espalhados e esquecidos por cada canto da casa.

A sensação de fumar era horrível, mas me fazia acreditar que, ao vencer a barreira imposta pela fumaça, estava também vencendo qualquer importância que tinha para com minha vida e meus medos. Eu só queria me tornar alheio a tudo e essa era uma forma de concretizar isso. Nunca fui dependente e reconhecia plenamente isso, apenas me prendia àquilo por ter colocado na cabeça que era compactuado à válvula de escape que consistia em parar de me importar.

Minha mãe nem sequer tinha mais forças para lutar contra a realidade que lhe consumava a cada dia que se passava e nada mudava, permanecia apenas a certeza de estarmos estagnados há tempos no mesmo lugar e nunca seríamos capazes de nos livrar. Na verdade, nem tínhamos mais coragem para tentar – e, afinal, o que tentar?

O que minha mãe poderia fazer?

O que eu poderia fazer?

Foi por causa do cigarro que conheci duas pessoas de grande importância naquilo que eu costumava chamar de vida. A primeira foi aos 17, quando uma garota chamada Hyeri perguntou se eu tinha isqueiro. Era só mais uma festa sem futuro de pessoas que se diziam minhas amigas, mas em ambos os lados havia a certeza de que aquilo não significava nada. Eu só ia para não ficar em casa, mas não fazia tanta diferença.

A alegria das pessoas me irritava. Vê-las ali, a minha frente, dançando sob o efeito do álcool sem se importar com a música péssima que preenchia o local me enojava. Eu não bebia, apesar de sempre aparecer algum conhecido ou desconhecido disposto a me oferecer. A vontade que eu tinha era de derramar todas aquelas garrafas de bebida pela casa e acender meu isqueiro.

E isso não é engraçado, porque nunca foi brincadeira. Que todas aquelas malditas pessoas se ferrassem com seus malditos vícios tão podres quanto suas almas, não fariam diferença alguma, não subtraiam nem adicionavam em nada. Insignificantes. Nunca suportei aqueles adolescentes de merda que bebiam simplesmente por influência dos amigos, por pressão dos mesmos ou por pura rebeldia. Rebeldia. Pro inferno com suas atitudes imprudentes sem motivo, tiravam desculpa de qualquer lugar para justificar os próprios atos mais imbecis que suas índoles. Além dos rebeldes sem causa, a segunda espécie que mais me irritava era aquela dependente do amor – quer dizer, diziam que era amor. Sofriam por amor, faziam de uma paixão passageira uma razão para viver e alegavam que iriam morrer ao ver a pessoa amada longe.

Por que não morriam logo de uma vez com todo esse amor fugaz preso na garganta? Que morrerem de amor, também não faziam diferença.

E Hyeri era só mais uma adolescente estúpida usando como pretexto o isqueiro para dar em cima de mim. Tudo acabou em um quarto com cheiro de bebida e maconha, embora eu nunca houvesse experimentado ambos. Eu não era virgem, já tinha feito sexo com outras garotas e Hyeri não tinha nada de especial, mas, pelo visto, ela viu algo em mim. Pediu meu número e no mesmo dia marcou outro encontro, embora completamente diferente da primeira vez que nos vimos.

Apesar de demonstrar se importar comigo e querer saber a origem de tanta raiva dentro de mim, nunca fui capaz de me abrir e dizer o que acontecia. A meu ver, era algo só meu e não era do interesse de mais ninguém, e foi justamente por isso que a gente, no final das contas, não deu certo. Porque ela se importava comigo, queria me ajudar e fazer o que fosse possível para ver em mim alguma melhora, mas eu não permitia e nem pensava em lhe dar essa permissão. Alegou que, quando eu estivesse disposto a deixar ela tentar me ajudar, poderia procurá-la, que seu número continuaria salvo na minha lista de contatos e eu sabia como encontrá-la.

Mas eu nunca lhe procurei novamente. Apesar de ter sido a primeira – depois de minha mãe – pessoa se importar comigo, deixei que fosse embora tão facilmente quanto a fumaça que cobria meu rosto toda vez que meus lábios se entreabriam para liberar toda a angústia personificada em uma nuvem acinzentada que se dissolvia ao mínimo movimento. Não sei se cheguei a amá-la, mas reconheço que sentia algo que ia além de uma noite com mais uma garota qualquer. Hyeri não foi só mais uma, mas eu não queria ser ajudado.

E, afinal, o que ela poderia fazer?

De esforço escusado já bastava, não havia mais espaço.

Aos 18, no último ano do ensino médio, conhecia a segunda pessoa.

Kang Younghyun disse que o cigarro iria me matar.

E eu mandei ele se ferrar e diminuir a porra do volume dos fones de ouvido, pois não era obrigado a ouvir a música que lhe estourava os tímpanos. Havia sentado ao meu lado na calçada em frente à loja de livros usados já fechada àquele horário, surgindo sem mais nem menos e querendo dizer o que eu deveria fazer da minha vida.

Mas a música era boa, e ele, ao perceber, disse o nome de banda antes que eu pudesse perguntar.

Alcest.

Younghyun não pediu permissão para entrar. Invadiu meu espaço subitamente com suas músicas de blackgaze enquanto eu ainda estava no doom metal. Não me acompanhava em festas nem me ofereceu álcool ou qualquer outra porcaria, senão um lado dos fones de ouvido e a certeza de que a música talvez pudesse fazer alguma diferença.

E a certeza juntamente ao talvez na mesma frase.

Sem usar da palavra amizade, tornou-se o primeiro a apresentá-la a mim.

Amassando meu último cigarro no chão com a sola do tênis, avisou mais uma vez que aquilo iria me matar; mas, afinal, não era como se eu estivesse vivo o bastante para poder morrer.

“Sem esperar por nós, tantas estações se passaram
As folhas douradas estão indo morrer ao chão
Um dia renascerão sob um céu radiante
Mas nosso mundo erodente ficará o mesmo
E, amanhã, você e eu já teremos partido.”
– Alcest


Notas Finais


Obrigada a você que leu até aqui!

Chu~


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