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História Vivendo Com Um Fugitivo - Capítulo 13


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Capítulo 13 - Melhor que o pior


Flaaaashbaaaack!!

Eram duas e quarenta e sete da manhã e a maioria das pessoas estavam dormindo, o que era óbvio considerando que o dia seguinte era dia de trabalho e cerca de 98% das pessoas precisa trabalhar. Não era o caso de Edd e Matt, os quais também estavam dormindo, mas isso não quer dizer que eles não podiam dormir mais cedo.

Quem dera Tord pudesse estar dormindo agora. Teria causado problemas muito menores do que os que ele estava enfrentando agora. 

Era para ele ter saído em uma simples caminhada para espairecer, refletir sobre a vida. Só isso. Ele não devia ter descoberto nada do que ele descobriu.

Tord caminhava de um lado para o outro de seu quarto. O barulho de seus sapatos estava ecoando nas paredes por tanto tempo que qualquer um que estivesse lá dentro devia estar ficando maluco. Suas mãos estavam sobre os lábios e os olhos desviavam de um lado para o outro, mas sempre ao nível do chão. Sentado em sua cama, Tom apenas observava o norueguês movendo-se incansavelmente pelo canto das órbitas, mas sem realmente prestar atenção. Ele estava distraído demais com os próprios batimentos cardíacos ensurdecedores para reparar nos passos de Tord.

Quando o norueguês parou de andar, os olhos de Tom permaneceram no chão enquanto ele gesticulava, descoordenadamente, para literalmente todos os cantos do quarto.

- Eu… Eu não acredito. - ele disse para o vazio, com aquele sotaque irritante para os ouvidos de Tom. - Você é um monstro!

- Vai, joga na cara mesmo. - ironizou Tom, revirando os olhos. Ele se sentia um idiota estando naquela posição. Ele só precisava ter tomado mais cuidado, e agora esse maldito norueguês comunista sabia do segredo que ele estava guardando desde sua adolescência. Por mais que ele quisesse negar, Tord tinha todo o direito de tirar sarro de sua cara e o xingar de todas as coisas possíveis. Ele merecia.

O norueguês voltou a andar, mais entusiasmado dessa vez - vai saber por que - com um sorriso em seu rosto e os olhos arregalados. Sua boca abria e fechava, sem formar nenhuma palavra coerente, tropeçando nas várias e várias ideias e perguntas que surgiam em sua cabeça. Em algum momento, as palavras se tornaram mais compreensíveis, não que Tom estivesse prestando atenção. Ao invés disso, ele estava ficando mais e mais irritado com aquele cara falando e falando e falando e pilhando em cima da pilha já grande de vozes em seus ouvidos, os sussurros ficando cada vez mais altos, quase como gritos… 

- Você pode calar a boca por meio segundo, pelo amor de Deus? - Tom gritou e bateu com as duas mãos na cama, e uma delas sem querer bateu na madeira. Tom rangeu os dentes e puxou a mão para o próprio peito, a dor vibrando por seus ossos. Ele teve a vaga noção de sentir Tord se sentar ao seu lado, mas sua cabeça estava em outro lugar. Ele tentou concentrar a respiração para se acalmar, mas com tanta gente falando ao mesmo tempo, ele não conseguia.

Tom mordeu a própria língua, talvez um pouco forte demais e soltou outro grunhido.

- Tom! - Tord exclamou, puxando os ombros do menor, que havia tombado para o lado segurando a própria boca. - Por que você fez isso?

Mais uma vez, Tom não prestou atenção no norueguês; estava ocupado demais em tirar o gosto de sangue da boca. Suspirando, ele inclinou a cabeça no travesseiro e encarou o teto sem nenhuma expressão.

Os dois ficaram em silêncio por um momento, Tord encarando Tom e este o evitando. Eles não deviam estar naquela situação. Se Tom tivesse apenas sido mais cuidadoso e não ter se deixado escorregar, Tord não teria visto a verdade escondida por trás de suas órbitas negras. 

Tudo daquele momento foi como um borrão para ele. De um segundo para o outro, ele estava se levantando do chão de concreto e sendo encarado com espanto pelo norueguês, que não fez a menor questão de esconder em sua expressão o quão bizarro foi a cena que presenciou. Não foi muito difícil para Tom ligar os pontos. Tord o tinha visto. Ele tinha visto ele. E como se isso já não fosse o bastante para atazanar a cabeça de Tom, o cadáver mutilado do rapaz atrás de Tord, com suas tripas completamente expostas e o sangue secando no chão não deixou as coisas nem um pouco melhores.

Ele não podia evitar aquilo para sempre.

- ...O que eu fiz? - Tom perguntou em voz baixa, suas mãos tremendo levemente. Embora ele estivesse apreciando o silêncio e a falta de insistência do norueguês, seja lá o que ele tenha feito, Tom tinha que arcar com as consequências de seus atos, por mais que não fossem seus atos.

Com a pergunta de Tom, Tord, que já não estava entendendo grandes coisas daquela situação pra começar, ficou ainda mais confuso.

- Você não lembra?

Tom lentamente negou com a cabeça.

O norueguês não escondeu o espanto. Ele tinha acabado de descobrir que um de seus colegas de casa tinha um lado monstro e agora este mesmo não tinha a menor ideia do que tinha acontecido. Aquele dia estava ficando cada vez mais estranho, e eram apenas duas da manhã.

- Você matou um cara e depois atacou o açougue. - Tord respondeu. - Comeu todas as carnes que tinham lá; acho que você devia estar com fome ou algo assim. Foi estranho, eu só virei a esquina e vi uma pessoa morta no chão com as tripas de fora e um monstro comendo as carnes do açougue. Deve ter sido a terceira coisa mais bizarra que eu já vi na minha vida. - ele riu para si mesmo, mas Tom apenas grunhiu. O norueguês, percebendo o desconforto do de olhos inexistentes, mordeu o lábio inferior e forçou um sorriso casual e positivo em seus lábios, da mesma forma que Edd fazia nesses tipos de situação. Ele colocou uma mão no joelho dobrado de Tom e abaixou um pouco o tom da voz. - Ei, se te faz se sentir melhor, foi em legítima defesa. O cara que você matou tava carregando uma faca.

- Para de me lembrar que eu matei alguém! Você não tá ajudando em porra nenhuma! - Tom gritou e se sentou novamente na cama. Por Deus, ele odiava Tord tanto, tanto, mas agora não era hora de se preocupar com o norueguês. Quem estava fodido mesmo era ele. Ele levou as duas mãos para o rosto e gemeu contra as palmas. - É agora que eu vou mesmo pro inferno… 

Como se ele já não fosse antes. Tom não era exatamente a melhor pessoa do mundo; mesmo que houvessem piores por aí, isso não justifica suas atitudes. O próprio Lúcifer já o tinha dito que o veria no inferno logo. Às vezes Tom entretinha a ideia, ponderando se não deveria fazer logo aquele favor para todos e desaparecer de vez; pararia de incomodar seus amigos com suas estupidezes e  não machucaria mais ninguém. Aquelas pessoas não voltariam no dia seguinte. Tom acordaria pela manhã, com uma dor de cabeça brava, e as pessoas que ele matou continuarão mortas mesmo depois disso; e sua falta de controle poderia colocar tudo em risco, até a vida de seus próprios amigos.

O silêncio prevaleceu mais uma vez, jogando ambos os meninos em um ambiente escuro e desconfortável. Tord mordeu o lábio inferior e desviou o olhar por um segundo. Aquela situação não era algo que ele resolveria sendo casual. Está na cara que era algo muito sério e impactava Tom mais do que simplesmente ter que salvar o natal todos os anos. Aquilo era diferente, e agir positivo não é do que Tom precisava se quisesse respostas. 

- Quer uma água? - o norueguês ofereceu quietamente ao de olhos inexistentes. Seria uma boa oportunidade para ambos espairecerem, mesmo que apenas por um minuto.

- Quero.

- Espera aqui. Eu já volto. - Tord levantou da cama e deixou o quarto e Tom para trás.

Mas a ida à cozinha não foi o suficiente para clarear sua mente, para nenhum dos dois. O clima estava simplesmente pesado demais.

Ao retornar, Tom permaneceu em silêncio, mesmo depois de tomar toda a água. Ele se encolheu em uma bolinha e abaixou a cabeça, ocultando o rosto dos olhos de Tord.

- Por que você escondeu isso da gente? - o norueguês se arriscou a perguntar em voz baixa após um segundo de silêncio, mas imediatamente foi rebatido com grosseria e irritação da parte de Tom.

- Ah, eu não sei, talvez porque eu não queria que todo mundo soubesse que eu sou um monstro desajustado e assassino! - o sem olhos cuspiu e jogou os braços para cima, enfurecido. Falar aquilo já não doía tanto quanto no começo, ele se acostumara àquela sensação de derrota, mas é algo totalmente diferente ter que admitir isso para seu rival. Tord e ele não se davam bem desde o Ensino Médio, e é claro que o norueguês estaria apenas esperando a hora perfeita para usar tudo que sabia sobre Tom contra ele, e agora ele usaria esse segredo também; o maior de todos. Tom o odiava. - Ugh, eu não acredito que de todas as pessoas que podiam me ver daquele jeito, foi logo você. - ele levou a mão ao rosto, esfregando-a sobre as órbitas. - Olha, seja lá qual for o seu preço, você precisa ficar quieto quanto à isso. Eu não quero que ninguém saiba sobre essa… Coisa.

- Mas não seria muito mais fácil lidar com o problema com ajuda? - Tord imediatamente questionou. - Se você não consegue controlar o bicho, talvez alguém mais possa te ajudar. É bem mais fácil controlar um problema quando se entende ele.

- Não é esse o ponto. - Tom respondeu. - Eu não quero que eles saibam. Não era nem pra você saber. Me deixa em paz! - ele se virou mais uma vez para Tord, dando-lhe as costas.

Não tinha outro jeito, não havia negociação com Tom; quando ele decidia algo, insistiria nisso até o fim, mesmo que custe toda sua dignidade. Independentemente do quão grande fosse a curiosidade do norueguês, não seria de Tom que ele conseguiria uma resposta, não agora, não assim. Quando Tom estava daquele jeito, a única maneira de tirar algo dele é quando ele é obrigado.

Uma lâmpada acendeu na cabeça de Tord. Não é como se ele tivesse outra escolha para conseguir o que queria, mas se Tom insistia tanto que ele fizesse chantagem com ele, que mais ele poderia fazer se não concordar com os desejos dele?

- Está bem… Mas eu quero algo em troca.

É claro. - Tom fechou os olhos e deu um suspiro pesado. Considerando que aquele era Tord e ele tinha uma chantagem contra ele agora, é óbvio que ele pediria algo em troca. Era a cara dele. Tom não devia ter sequer considerado que existia uma chance de as coisas acabarem de outra forma.

Você cavou sua própria cova, Tom. - ele não fazia absolutamente nenhuma ideia de quem tinha dito isso.

- Tá bom. - Tom grunhiu, derrotado. - O que você quer? Fala logo pra eu poder ir dormir alguma coisa essa noite.

Tom seguiu exatamente o roteiro que Tord imaginou; ele sempre foi muito previsível. Agora Tord precisa seguir com calma. Sendo este um assunto sensível, qualquer coisa que ele fizesse poderia arruinar tudo, e assim nenhum deles conseguiria respostas. Ele só queria uma coisa, e tinha Tom na palma de sua mão para chegar onde queria, mas lidavam com algo desconhecido, o que dificulta um pouco as coisas, isso também somado ao fato de que um não ia com a cara do outro.

Fazer o que, às vezes é preciso lidar com coisas ruins na vida se quiser chegar ao outro lado da rua.

- Me deixe te ajudar. - disse o norueguês, convicto. Seus olhos brilhavam com sinceridade intensa e apenas um pouco de seu típico espírito nerd. Ele estava sendo sincero em seu pedido.

A raiva no rosto de Tom foi imediatamente substituída por confusão. Ele se virou para o norueguês com os olhos arregalados em choque e a boca aberta. Por um segundo, duvidou até que tinha ouvido direito. Vai saber, talvez o bicho pudesse ir além de apenas sussurrar em seu ouvido e tentar agarrá-lo em seus sonhos.

- O que?

- Eu quero te ajudar a descobrir o que é esse bicho que você virou. - Tord repetiu mais uma vez.

Ok, aquilo definitivamente era suspeito. Tom não confiava em Tord de jeito nenhum, tinha que ter alguma pegada, algo a mais que ele estivesse buscando e Tom fosse a resposta. Ele não ia querer ajudá-lo sem mais nem menos, de bom grado, especialmente depois de tudo que aconteceu entre eles.

- Por que você ia querer me ajudar? - Tom perguntou, encolhendo os ombros em um ato defensivo.

- Porque eu quero saber o que é. Eu nunca vi nada igual antes! - ele exclamou, quase empolgado. Deus, Tom sabia que Tord era um nerd entusiasta sobre física e o caralho, mas não ao ponto de ser praticamente suicida.

- E por isso você quer que eu seja seu sujeito de testes? - Tom franziu o cenho e cuspiu, ofendido. Se aquilo não estivesse vindo de Tord, ele poderia muito bem ter levado tudo para o lado pessoal, mas, francamente, aquilo poderia muito bem ser o mais perto de um elogio que receberia do norueguês em toda sua vida.

- Na verdade, não podemos fazer testes na casa. - complementou com rapidez, apesar de não ser um detalhe tão relevante assim para o problema em questão. - O Edd já brigou comigo por explodir uma granada sem querer.

Clássico. - Tom pensou e revirou os olhos.

- Então qual seria o plano? - Tom não estava interessado naquela ideia, de forma alguma, mas já que aquela era sua chantagem, podia ao menos saber como o procedimento se daria para saber o que enfrentaria.

- Pesquisa. Podemos fazer uma análise do seu sangue, DNA, essas coisas. - o norueguês deu de ombros e gesticulou com a mão direita.

Aquilo não o surpreendia de forma alguma. Tord sempre foi fascinado por pesquisa e essas coisas de nerd, é claro que ele tomaria proveito da primeira oportunidade de fazer uma grande descoberta científica e tirar dinheiro disso. Ele tinha uma mania de grandeza que o poderia facilmente matar algum dia desses.

E Tom não tinha nada, só um bando de vozes irritantes, uma delas que não era nem sua, conversando e gritando o dia todo, sem o dar um minuto de sossego. Além de esconder aquele maldito segredo de todos por tanto tempo, tinha que fingir que tudo estava perfeito quando claramente não estava. Ele estava cansado, irritado e completamente desgastado. Aquilo já se arrastava por tempo demais, cinco anos, e ele já não aguentava mais. No ponto em que chegou, se Tord queria se meter e tentar ajudá-lo a descobrir o que caralhos estava acontecendo, não é como se fosse fazer muita diferença. Na melhor das hipóteses, perderiam tempo. Na pior, Tom morreria, e ele francamente não podia se importar menos com isso. Acabaria com tudo de uma vez, pelo menos.

- Bom, acho que não tenho nada a perder. - ele suspirou. - Mas isso não quer dizer que somos amigos ou que eu confio em você. - ele disse, apontando um dedo acusador na cara do norueguês.

- Eu sei, eu sei. - Tord disse com um rolar de olhos. - Isso é por pura razões de pesquisa, Tom. Nada demais. Além do que, o que poderia dar errado?

(...)

Todos chegaram na base completamente abalados. A viagem de volta, além de tensa, foi acompanhada por choro e um cheiro absurdo de sangue, sem a possibilidade de abrirem as janelas para refrescar o ar.

No segundo em que o avião pousou, uma equipe médica, maior do que qualquer uma que os meninos viram em toda a vida, se aproximou do avião e, um por um, foram tirando os feridos de dentro do mesmo, para só depois os meninos e os demais membros do Red Army descerem.

- Levem todos para o centro médico e consiga os registros. Assim que pudermos, vamos realocar todos para um local seguro para melhor acomodá-los. - Tord ordenou ao líder da equipe, o qual estava ao seu lado, aguardando suas ordens.

Ele imediatamente assentiu e fez o ordenado, organizando suas equipes e levando os sobreviventes por um caminho diferente de onde os membros do exército seguiram. Os restantes, que seguiram pelo caminho formal, seguiram de cabeça baixa, até os soldados mais experientes naqueles assuntos, por empatia às pessoas que precisavam de ajuda.

Não era a primeira vez que Edd, Matt e Tom viam alguém morrer ou machucado, mas nunca foi daquela forma. Eles eram jovens e imaturos na época, aquele tipo de coisa não significava nada; mas agora era um assunto completamente diferente, Tord via que era. Matt ainda enxugava as lágrimas que escorreram por seus olhos, Edd tentava permanecer neutro, mesmo estando visivelmente abalado. 

E Tom? Tom estava simplesmente destruído. Aquelas foram emoções muito fortes em um período muito curto de tempo, com muitas revelações ao mesmo tempo. Ele não estava sabendo como lidar com toda aquela informação e o peso que elas carregavam. Em uma questão de horas, ele pareceu voltar à onde tudo começou, como se nunca tivesse feito progresso algum.

E ele só queria se encolher em uma bolinha no canto do quarto e chorar.

- Tom… - o norueguês murmurou, chamando pelo namorado ao colocar uma mão em seu ombro. Contudo, ao fazê-lo, no mesmo segundo um soldado apareceu ao seu lado.

- Red Leader, senhor, precisamos de você no nível seis negativo. - ele disse, mantendo a postura formal de soldado e sem manter contato visual com o Red Leader ou qualquer um dos outros com quem ele conversava.

Tord o encarou por um segundo e depois de volta para Tom. Seu coração se apertava em seu peito ao vê-lo com aquela cara, que, mesmo sem qualquer expressão, mostrava perfeitamente o quanto ele não estava bem. Tord simplesmente sabia que ele não estava.

- Eu preciso ir. - ele disse baixinho, encarando o soldado que o chamou de soslaio.

Tom mordeu o interior da própria bochecha.

Não, não vai… Por favor, não me deixa aqui.

- Tá bom.

Seus ombros começaram a tremer no segundo em que a mão robótica de Tord se retirou deles. Geralmente ele sabia lidar com aquele tipo de problema, aquelas vozes que gritavam em sua mente, escandalosas - e que por saber que eram suas, o deixavam ainda mais assustado -, mas ele não estava bem. Ele não conseguiria lidar com aquilo sozinho.

- Você vai ficar bem? Eu posso cancelar se você não quiser ficar sozinho. - Tord perguntou mais uma vez, olhando fundo nos olhos de Tom com preocupação.

- Não. Não tem problema. - Tom disse mais uma vez, de cabeça baixa.

É claro que tem! - ele gritou em sua mente. - Não me deixa aqui!

Que ele não estava bem era mais do que óbvio, mas Tord, tendo seus problemas de líder para resolver, não tinha como lidar com a situação agora, e levá-lo junto dele para uma sala e fingir que nada aconteceu só o deixaria em um estado de pânico ainda maior.

Tord suspirou, derrotado, e fez carinho na cabeça de Tom com sua mão orgânica.

- Me avise se tiver algo errado. - ele sussurrou.

- Tá bom. - Tom disse quase imediatamente, observando, a princípio sem expressão corporal, como Tord se afastava dele com um passo de cada vez.

Não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não. 

Não me deixa aqui. 

Por favor.

Não me deixa.

Eu não quero morrer!

- Tom. - a voz de Edd atravessou seus ouvidos e fez seu corpo estremecer.

- O que? - ele perguntou para o amigo, tentando parecer o mais controlado possível.

- Você tá tremendo. - ele apontou, observando de perto as mãos de Tom.

Merda.

- Ah… Desculpa. - Tom rapidamente escondeu as mãos nos bolsos do uniforme e desviou o olhar. Tudo que ele menos precisava no momento era fazer uma cena e conseguir mais olhares nele.

Enquanto isso, a poucos passos de deixar aquela área, Tord gesticulou para Patryck com a mão robótica, para que ele se aproximasse..

- Patryck.

- Sim, senhor. - o soldado imediatamente endireitou a postura e se dirigiu a seu líder com formalidade.

- Fica de olho no Tom pra mim. Ele não tá bem depois do que aconteceu. Pode ser que você precise seguir os procedimentos para pacientes com estresse pós-traumático. Os outros também estão sob estresse, mas fique de olho especialmente no Tom; é reincidente.

- Sim, senhor.

E com isso o Red Leader os deixou para atender a suas urgências de líder, sua cabeça a mil por hora e suas mãos geladas de preocupação. Ele temia por seus amigos tanto quanto os sobreviventes que agora estarão perambulando pela base até encontrarem um lugar melhor que os acolhesse, mas pelo menos os médicos cuidariam dos machucados dos feridos, enquanto o Red Army tinha uma disposição limitada de psicólogos, além de não serem muitos os soldados com vontade de lidar com os próprios problemas - dos quais um deles estava Tom. Nesses casos, Tord se sentia responsável por ter que cuidar do estado emocional daqueles instáveis que não se sentiam à vontade para conversar com profissionais, e sempre fazia o máximo para ajudá-los, o que não era viável no presente momento, pois tinha seus próprios assuntos para tratar. Por mais que o doesse, seus amigos teriam que se cuidar sozinhos.

Eles não estavam bem, nenhum deles, e caminhar pela base, por mais relaxante que pudesse parecer, não estava ajudando. Matt continuava cabisbaixo, Tom pisava duro e Edd parecia o único a querer segurar as pontas.

- Tom, você tá bem? - ele tentou se aproximar do amigo, percebendo a forma como suas mãos, cerradas em punhos, tremiam.

- É óbvio que não, Edd! Nós acabamos de voltar da porra de um abrigo de sobrevivência, vimos um monstro transformar pessoas inocentes em geleia em um segundo e quase não saímos de lá vivos! Eu tô super bem, cara, sério! - Tom esbravejou com escárnio e ironia. Ele acelerou o passo e se afastou o máximo possível de Edd, Matt e Patryck, que os seguia ao lado.

Edd nunca via Tom desse jeito, exceto nas vezes em que eles passavam muito tempo sem Smirnoff na geladeira, o que quer dizer que aquilo era muito sério. Ele ficou realmente abalado com o que viu, assim como o próprio Edd ficou e assim como ele tinha certeza de que Matt também tinha ficado. A forma como as coisas escalaram naquele dia não estava nos planos de ninguém, e obviamente aquilo pesaria no humor de todos os presentes.

Enquanto encarava Patryck de soslaio, Edd ponderou se não seria muito forçado para seus amigos que eles seguissem com a rotina sem um momento para respirarem. Ele sabia muito bem como era ruim a sensação de ter seus sentimentos negligenciados, e por mais que ele estivesse acostumado a guardar as coisas apenas para si, ele sabia que Tom e Matt não tinham o mesmo costume. Edd podia ser meio cuzão às vezes, mas ele prezava pelo bem-estar de seus amigos, na medida do possível. E ele também não estava muito a fim de continuar os exercícios mesmo.

- Tem como pularmos o restante do treinamento por hoje? - Edd murmurou baixo para Patryck, que o fitou de soslaio sem desfazer a postura formal de soldado.

- Infelizmente, eu não posso permitir isso. Sem instruções do líder, eu devo seguir com a rotina original. - ele disse, tentando suavizar discretamente a voz para não parecer rude aos olhos do maior.

- Por favor, eu sei que não nos conhecemos tão bem assim, mas eles realmente não estão bem. O que aconteceu hoje foi muito sério e eu acho que eles não estão sabendo como lidar. O Tom não me deixa falar isso, mas ele não é assim tão durão quanto ele se faz parecer, e o Matt… Acho que você já pegou. Você entende, não é?

Patryck lentamente assentiu. Ele entendia, mais do que gostaria. Era quase inevitável que sentisse simpatia pelo pequeno grupo de amigos.

- Ok, olha, se vocês prometerem não contar nada pra ninguém, eu deixo vocês se refugiarem no meu quarto por algumas horas, até vocês se recuperarem ou até o fim do horário de treino, quando vocês são obrigados a voltar para seus quartos. Mas isso tem que ficar só entre a gente.

Edd virou-se para Tom e Matt com um sorriso no rosto e caminhou a frente de todos com postura pomposa. Cansados, os outros dois só seguiram atrás, e não disseram nada quando entraram em um quarto ao invés de uma sala de treino ou algo do tipo.

- Chegamos. Não reparem na bagunça. - disse Patryck ao mesmo tempo que a porta fechou atrás dele.

Enquanto Edd e Matt se apressaram em começar a xeretar as coisas pelo apartamento de Patryck, Tom simplesmente se sentou no sofá e os observou em silêncio. Eles mexiam em pacotes vazios de comida largados pelo quarto, nos cômodos ao lado e até a cozinha. Tom particularmente não estava impressionado, mesmo que seu quarto só tivesse o quarto ao invés de metade das coisas que eles tinham. Ele não estava no melhor humor para apreciar as coisas dos outros. Pelo menos Edd e Matt pareciam estar se divertindo.

- Seu quarto é bem grande… - ponderou Edd enquanto ajeitava o sobretudo.

- Eu divido com meu noivo. - disse Patryck com um sorriso. - Aliás, por isso tá bagunçado, mas fiquem à vontade. Querem beber alguma coisa?

- Tem algum suco? - perguntou Matt.

Patryck assentiu e saiu para a cozinha em busca do que foi pedido.

No meio tempo, Matt se separou dos outros dois e começou a apertar literalmente todos os botões que viu pela frente. A maioria não fez nada, mas, em um controle, um botão em particular ergueu um compartimento na estante, bem à frente do sofá, e de lá surgiu uma televisão.

- Vocês têm televisão! - Matt exclamou, e se jogou no sofá ao lado de Tom.

Patryck voltou da cozinha com três copos de suco e os colocou no porta-copos nos braços do sofá, juntando-se aos dois, e então a Edd, logo depois.

Estava passando Os Gatos, um dos programas que os meninos mais gostavam de assistir. Eles ficaram quietos por uma boa quantidade de tempo, apenas assistindo, até Edd perceber o olhar de desconforto na expressão de Tom. Ele não parecia estar gostando nada de estar ali.

- Algo errado, Tom? Você adora Os Gatos. - ele perguntou, inclinando-se na direção do de olhos inexistentes.

Tom virou-se para Edd tão rápido e com tanta força que seu pescoço estralou.

- É sério que você tá perguntando isso pra mim? Olha nos meus olhos e diz que você tá falando sério. - ele soava tão sarcástico e rude que Edd por um segundo se desestabilizou.

- Eu tô falando sério. - mas só por um segundo.

Tom puxou os cabelos com força, seus dentes rangendo e suas mãos tremendo de raiva. Matt e Edd pularam de susto com o grunhido gutural que ele soltou, e Patryck imediatamente se colocou em posição, temendo ter que colocar o pedido de Tord em prática. Não foi o caso, mas isso não significava que Tom estava bem.

- Então vocês vão simplesmente jogar tudo pra debaixo do tapete? Como se não tivéssemos acabado de ver a porra de um monstro matar uma caralhada de gente?? - Tom esbravejou e levantou do sofá, gesticulando para todos os lados do quarto. - Não me interessa se vocês já viram isso duzentas e não sei quantas vezes ou não; esse tipo de coisa não é algo que se enterre! Eu não vou agir como se eu não fosse sonhar com isso pelas próximas três semanas! Aquele bicho literalmente jogou tripas pro ar e comeu tudo como se fosse um prato de miojo! Como vocês conseguem ser tão cínicos a ponto de simplesmente fingir que nada aconteceu?

Os três o encararam em choque, embasbacados, não pela forma como Tom conseguia falar sobre aquilo tão facilmente, ignorando o peso e veneno que suas palavras claramente carregavam, mas pelo quanto de emoção ele colocou em cada sílaba que disse. Tom raramente se abria emocionalmente para Edd e Matt, pelo menos em questão de assuntos assim mais graves. Aquela era a primeira vez que isso acontecia.

Patryck abaixou a cabeça, percebendo o quanto ele estava certo em seu discurso. Eles estavam ignorando um assunto importante que tinha peso para todos ali. Patryck já tinha se acostumado com aquele tipo de cena, mas sempre há aqueles soldados em particular que não aguentam lidar com tamanha situação de estresse - afinal, o Red Army tem formações variadas por um motivo. Patryck havia falhado em manter-se fiel aos valores que defendia já há tantos anos.

- Desculpa. - ele desculpou-se baixinho, com os ombros encolhidos e o olhar fixo no chão.

Percebendo a chateação real do polonês, Edd virou-se imediatamente para Tom e bateu o pé para ele.

- Olha só o que você fez, Tom! - ele esbravejou e colocou-se na frente de Patryck de forma defensiva.

Edd não via as coisas da mesma forma que os demais viam. Enquanto Matt preferia falar abertamente sobre o que aconteceu e Tom se fechava completamente, se abrindo apenas para Tord e para os outros dois em situações bem específicas, situações críticas; Edd era diferente. Edd não gostava de falar sobre o que o incomodava de forma alguma. Ele não se fechava, não se isolava, muito menos descontava em algo ou em si mesmo. Ele simplesmente ignorava até tudo ir embora. As coisas se resolviam, ele ajudava da forma como podia e nada mais precisa ser dito. Edd estava bem assim, ele não se sentia mal e essas coisas não afetam a forma como ele segue a própria vida. As coisas podem ser diferentes com Tom e Matt, mas ele não era do tipo que expressava a própria dor. Quando algo ruim acontecia, ele entretinha os sentimentos negativos por um momento e logo os deixava evaporar, como se nunca existisse. Edd tinha uma tendência maior a superar com facilidade a dor de situações de estresse, sem deixar que elas estraguem seu dia, o afaste dos amigos ou altere bruscamente seu comportamento, o que não era uma característica da qual seus amigos compartilhavam. Eles divergiam, e essa diferença de ponto de vista muitas vezes podia fazer Edd se passar por um babaca sem perceber. Não que ele naturalmente não fosse um.

Tom já estava muito acostumado com essas atitudes do amigo. Ele não se importava se era algo inconsciente ou não, mas o fato é que Edd era um babaca; não por sua facilidade de superação ou inabalo emocional, mas sim pelo fato de ele deixar que essa sua característica influenciasse em como agia com os outros. Ele sabe ser um bom amigo, mas também sabe ser o exato oposto. Às vezes Edd parecia esquecer que nem todos são como ele, que não conseguem esperar um pouco e instantaneamente não se incomodar mais com algum evento, e isso fazia com que ele dissesse e fizesse coisas que não fossem exatamente agradáveis aos olhos dos demais. Lidar com ele é ter muita paciência, e todos os seus amigos estavam acostumados com isso, era apenas seu jeito de ser; o problema é que paciência não é exatamente algo do que Tom usufruía naquele momento. 

Contudo, antes que o sem olhos pudesse dizer qualquer coisa, Patryck saiu de trás de Edd e tomou o lugar de fala para si.

- Não, não! Ele está certo! Eu realmente estou empurrando tudo pra debaixo do tapete. Nós do exército entramos em contato com esse tipo de coisa com muito mais frequência do que vocês, isso para nós já se tornou comum. Mas vocês ainda são novatos, nunca viram algo assim. Foi um erro da minha parte ignorar os seus sentimentos e saúde mental dessa forma. Eu sinto muito.

Tom apenas murmurou, mas ele não poderia nem começar a agradecer por alguém finalmente o entender. Ao menos uma vitória ele tinha. Ao menos alguém o entendia.

- Eu sinto muito mesmo. - Patryck continuou. - Devo ter causado uma péssima impressão pra vocês. Mas, se quiserem falar sobre isso, estou aberto pra contar pra vocês tudo que eu sei; dentro dos limites, é claro. Como soldado e parte do conselho, preciso que entendam que há informações que não tenho permissão de compartilhar. Qualquer coisa que queiram discutir sobre o que aconteceu, fiquem à vontade.

Os três assentiram e os em pé se sentaram mais uma vez no sofá. Não conseguiriam muito, mas já é alguma coisa.

Melhor do que nada. - Tom se conformou em sua mente, tentando se confortar para os pedaços faltando do quebra-cabeça que não seriam encontrados. De certa forma, é melhor que seja assim. Quanto menos Tom souber, menos o monstro também saberá, e isso era crucial para mantê-lo sob controle.

Edd e Matt se encararam por um segundo, mas Tom manteve seus olhos fixos em Patryck a todo momento enquanto escolhia sua primeira pergunta.

- Quem fez isso? Os sobreviventes já estavam feridos quando chegamos lá, e nem todos de garras ou semelhantes, o que quer dizer que as feridas vieram de outro lugar.

Patryck fez uma careta. Logo na pergunta de ouro. Tom era mais sagaz do que aparentava, ele o daria isso. Contudo, se isso era bom ou ruim é relativo, visto que Patryck agora estava em uma situação delicada por causa disso.

- Quem causou aquele desastre? Quem foi que fez aquela merda?

Aquele tipo de informação não corria solta pelo Red Army, por assim dizer. Os soldados sabiam quem atacar, mas nomes eram uma situação completamente diferente, que carregavam uma visão nova e complicada, sem contar que envolvia a vida pessoal de seu líder na conversa.

Apesar de que ele estava falando com seu namorado e seus amigos de infância.

Patryck suspirou. Tord que lide com isso depois.

- Essa é uma história meio longa e complexa, mas posso tentar resumir. Quando a ideia do Red Army surgiu, Tord não achou que seria uma boa ideia que nós simplesmente lutássemos contra sete continentes diferentes ao mesmo tempo; traria muitas casualidades e muitos morreriam no processo, além de ser muito arriscado, então resolvemos nos aproximar de um jeito mais estratégico e pacífico. Contribuímos com vários países para nos livrarmos das ameaças sobrenaturais que estivessem enfrentando e, em troca, conseguimos influência política; montamos bases, recrutamos pessoas, etc., assim, subimos de um jeito natural, sem conflitos diretos, sem guerras e sem machucar ninguém. O Red Army conquistaria o mundo como uma brigada de segurança mundial, e manteremos nossa posição lutando contra ameaças sobrenaturais que ameaçassem nosso mundo. 

- Tipo Ghostbusters? - Matt sugeriu.

- Algo assim, mas com armas e diplomacia. Todos sairiam ganhando. As pessoas não precisariam mais viver com medo de ataques aleatórios de demônios e zumbis e, já que o Tord não trabalha no controle completamente sozinho, o monopólio e o absolutismo não são um risco. Acontece que nem todos cedem facilmente, nem com acordos, e somos obrigados a atacar antes que eles nos ataquem. Aquele lugar onde estávamos hoje era uma zona de conflito, um dos lugares onde um exército inimigo nos atacou. Em geral não são muitos, mas não quer dizer que não deem trabalho pra gente, especialmente com a falta de recursos que temos atualmente.

Tom fez uma careta.

- Nome, Patryck. Eu quero um nome. Quem foi que atacou?

Patryck engoliu em seco. Aquela informação não era confidencial, já que vários membros das equipes mais altas do Red Army sabiam dela, e aqueles três agora possuíam conexões diretas com o Red Leader e o conselho, o que, tecnicamente, os dava liberdade para saber daquela informação. Ele só esperava que Tord não o socasse com o braço de metal caso esse não fosse o caso.

- O comandante do exército ao oeste da Europa, próximo à região onde estávamos hoje, é Darrell Andersen, tem trinta e cinco anos e era um estudante de robótica do terceiro ano da faculdade.

Tom franziu o cenho e cerrou as mãos em punhos. Um arrepio percorreu sua espinha.

Já temos um nome. - uma voz sussurrou em seu ouvido, a qual ele claramente reconheceu como sendo a do monstro. - Só precisamos de um rosto.

Patryck observou atentamente a reação dos três rapazes. Tom pareceu ser o que menos reagiu, Matt se colocou pensativo e Edd fez cara feia.

- E por que nunca ouvimos falar nada sobre o exército inimigo? - Tom arqueou a sobrancelha.

- A propaganda é discreta. Não é como a nossa. O Red Leader insiste que, depois de conquistarmos uma região, devemos dar a cara a tapa se quisermos ser merecedores de reconhecimento.

- E ele tá certo. - disse Edd. - Se tem como vocês fazerem propaganda e vocês se escondem, só torna vocês covardes.

- Ou alérgicos ao sol. - Matt rapidamente acrescentou e todos o fitaram com estranheza no rosto. Ele cruzou os braços e ergueu o nariz. - Ei, pode acontecer, tá bom?

O polonês encarou Tom e Edd ainda com o mesmo olhar e o de verde simplesmente negou com a cabeça. “Ignora ele” ele dizia com as mãos.

- O que era aquele monstro? - Edd decidiu perguntar.

- Não sabemos ainda ao certo, mas a teoria mais aceita até agora é que eles tenham sido resultado de alguma experimentação ou derramamento químico, tipo os zumbis que se espalharam pela Inglaterra há uns anos atrás.

São demônios em sua verdadeira forma, não monstros. - a voz do monstro ecoou na cabeça de Tom, mais alta que todas as outras. - Por que você leva a opinião desse cara em consideração? Ele não sabe de nada!

Dá pra fechar a boca por um segundo? Tão falando de você, isso não é interessante? - Tom rebateu mentalmente. Por Deus, aquele bicho sempre ficava quieto, espreitando e esperando que ele fraquejasse, por que caralhos ele resolveu começar a tagarelar agora?

Se o monstro tivesse forma concreta, ele provavelmente teria dado de ombros e mostrado o dedo do meio para Tom. Aquele filho da puta.

- É contra esses bichos que vocês lutam? - perguntou Matt.

- Eles e o exército inimigo, já que são coisas separadas, mas, sim, é isso mesmo. - disse Patryck.

- Não tem nenhum risco de eles estarem trabalhando juntos?

- Eles e os monstros? Duvido muito. Os monstros são criaturas individualistas e extremamente difíceis de controlar. A não ser que tenham uma coleira gigante, a probabilidade é quase zero.

Isso ele acertou. - mais uma vez.

Cala a boca!

- Por enquanto, não falem nada do que eu falei aqui para o Tord. - avisou Patryck após concluir a sessão de perguntas. - Nada disso é coisa muito confidencial, mas não temos uma permissão para ficar contando pra todo mundo sobre essas informações.

Os três assentiram e o silêncio pairou por um tempo. Já não havia mais perguntas para serem respondidas. Era muito para ser processado nesse meio-tempo; a razão da existência do Red Army, quem eles lutavam contra, de onde ele veio, era tudo um balde de novidades jogado em cima deles. Isso adicionado ao fato de haver milhões de vidas em risco.

Patryck entendia o que eles estavam passando. Ele foi um dos primeiros a passar por aquela dor.

- Eu sei que é difícil, ver essas coisas acontecendo e sentir que não se pode fazer nada, mas é exatamente por isso que temos que lutar. Eles não vão ceder. Depende de nós garantir que essas pessoas machucadas se recuperem da melhor forma possível e que ninguém mais sofra assim. Foi por isso que eu me alistei.

- E como vocês aguentam lidar com isso todo santo dia? - Matt perguntou, sua voz triste e cabisbaixa.

- Eu penso que, se eu não fizer alguma coisa, não são os outros que vão fazer. A mudança tem que começar comigo ao invés de eu apenas exigir que os outros tomem uma atitude. A estrada é difícil, sim, mas sacrifícios precisam ser feitos se quisermos conseguir um mundo em que todos possam viver.

Infelizmente, nem tudo pode ser do jeito que queremos, foi o que ele quis dizer e, infelizmente, ele estava certo. Especialmente se tratando de um assunto tão delicado quanto o destino do mundo; os garotos sabiam bem disso.

- Acho que tem um furo na minha cueca… - uma voz murmurou desconfortavelmente desde a entrada do quarto. Os quatro viraram a cabeça e encararam Paul entrando no cômodo, sua mão puxando as calças para baixo e com uma expressão desconfortável em seu rosto. Sob o silêncio do quarto, Paul ergueu a cabeça e encontrou os olhares de todos em si. - Oh, Pat, você tem visitas! - ele exclamou com um sorriso.

- Má hora, Paul. - seu noivo respondeu, silenciosamente lamentando pelo clima ter sido completamente destruído.

- Hum… Ignorem isso que eu falei agora, tá? - Paul abriu um sorriso torto.

- Traumatizado pro resto da vida. - brincou Edd em voz baixa, dando uma leve cotovelada no braço de Tom, que revirou os olhos.

Após dar um peteleco na testa de seu noivo, Patryck se virou novamente para os meninos com um sorriso e fingiu que nada aconteceu.

- Querem comer alguma coisa?

- Claro. Tô morrendo de fome. - Edd deu de ombros, seguido de Matt, que assentiu.

Enquanto o casal se dirigia para a cozinha, o pequeno grupo decidiu se reunir no sofá para assistir um filme, aproveitando a televisão que já estava a disposição deles. Patryck ficou na cozinha e Paul foi para o quarto buscar um cobertor para todos se cobrirem enquanto assistiam ao filme que eles escolheriam.

O cheiro de pipoca logo encheu o ar, assim como o de carne e tempero para salada. Os meninos já estavam com água na boca antes mesmo de colocarem os olhos na comida. Matt se ofereceu para ajudar na cozinha, mas Patryck recusou e o ordenou a ficar na sala, bem na hora em que Paul voltou com cobertores e se sentou à frente dos três e se cobriu com o seu próprio.

- Nossa, vocês mal conhecem a gente e já agem como se nos conhecessem a vida toda! - exclamou Matt, enterrando-se debaixo do cobertor. - Trouxeram cobertores, vamos comer pipoca, eu me sinto num hotel cinco estrelas!

Paul riu.

- Qualquer amigo do Tord é nosso amigo também, nada mais justo que tratarmos vocês da mesma forma. - disse ele com um sorriso. - Especialmente considerando o fato de que isso é um momento raro. Precisamos aproveitar as chances que temos.

Patryck assentiu, chegando da cozinha com a pipoca.

- O Tord nunca foi muito bom em fazer amigos. - disse Edd. - Se eu não tivesse ido até ele no jardim de infância, duvido que as coisa teriam chegado nesse nível hoje. De nada por fazer vocês dois darem certo, aliás. - ele disse para Tom, que franziu o cenho.

- Você gostaria de ter sido responsável por isso. - ele cuspiu com ironia.

- Eu meio que fui, considerando que ele ficou abrigado na minha casa durante seis meses. - o maior apontou para si mesmo, o peito estufado em orgulho.

Tom grunhiu baixinho e estreitou os olhos para Edd, mas o de verde o ignorou por completo. Ele se virou para Paul e Patryck e praticamente esqueceu que aquela conversa existiu.

- Então, vocês conhecem o Tord há quanto tempo? - ele perguntou.

- Eu, desde a faculdade, mas o Paul conhece ele desde o jardim de infância. - disse Patryck, e o interesse dos garotos foi atiçado.

- Espera, você estudou com a gente? - Tom arqueou a sobrancelha.

Paul assentiu.

- Por muitos anos, aliás. Mas acho que só eu lembro disso. - o soldado deu de ombros.

Edd, Matt e Tom se entreolharam, embasbacado.

- Eu acho que me lembraria da sua cara, especialmente das sobrancelhas. - disse Edd, pendendo a cabeça para o lado.

- Acho que você vai me lembrar pelo meu apelido. - Paul retrucou com um sorriso.

- Qual?

- Paul du void.

Edd imediatamente arquejou, as memórias voltando em sua mente.

- PAUL DU VOID! LEMBREI! - ele exclamou, feliz por ter se lembrado.

Quando Tom o encarou com um olhar estranho, Edd e Paul souberam que precisariam articular. Afinal, isso foi quando eles tinham quatro anos.

- A professora falou meu sobrenome errado na chamada uma vez. Meu nome é Paul fer Voir, mas não sei o que deu na cabeça da professora que ela leu “du void”. Acho que ela tava sem óculos no dia. Ela precisava fazer uns exames de vista. - Paul revirou os olhos de leve e enfiou a pipoca na boca.

Tom murmurou em compreensão.

- Cara, eu não acredito. - Edd tinha as mãos na cabeça, como se estivesse tendo um colapso. - Era um apelido tão idiota, mas eu juro que não te conhecia de outra maneira.

Paul deu de ombros.

- Melhor do que o apelido que a Laura deu pra mim.

Patryck cobriu a boca com a mão e Edd se colocou na ponta do sofá, curioso.

- Ah, Deus, qual é? - ele perguntou e, pela cara de Paul, não devia ser nada bom.

- Pingulinho.

A punchline nunca veio, e Edd ficou completamente perdido na piada. Ele olhou para Matt e Tom em busca de esclarecimento, mas eles estavam tão confusos quanto ele.

- Não fui só eu que não entendi, né? - o ruivo deu um sorriso torto.

- Está em português. - explicou Paul. - Meu apelido na faculdade era Pau, e eu não tinha a menor ideia do que a palavra significava em português quando disse pra ela me chamar assim.

- O que significa? - Tom perguntou.

- Pênis. - Patryck disse antes que Paul pudesse abrir a boca.

Como um bando de crianças imaturas, Tom, Edd e Matt começaram a rir. Eles podiam ter trinta e quatro anos, mas sempre seriam um bando de crianças imaturas por dentro.

- É, vocês já podem imaginar como essa história acabou. - Paul revirou os olhos. - Ela me chama de “pingulinho” porque, em português, significa “pau pequeno”. Ela me chama assim porque, nas palavras dela, eu sou um pau baixinho.

As risadas ficaram mais altas, e o humor pesado de antes foi completamente esquecido.

- Gente, para de rir, ele tá desconfortável. - Matt deu uma cotovelada no braço de Edd.

- Não, tá tudo bem. Eu já tô acostumado. - Paul deu de ombros. - Pelo menos agora vocês sabem que eu era da sua sala. Já faz muito tempo, mas eu era.

Edd puxou a orelha de Tom, que continuava a rir, e o sem olhos soltou um “ai” ao mesmo tempo que Edd sorria e voltava a tentar puxar conversa.

- Você e o Tord se davam bem? - ele perguntou.

- Não conversávamos muito; ele tinha cara de esnobe.

- Esnobe? O Tord? - Tom ergueu as sobrancelhas. - Se você falasse problemático eu entenderia, mas esnobe? Mais que o Matt?

- Eu não lembro do Matt ser esnobe nessa época. - ponderou Edd.

- Você não lembra que a mãe dele mimava ele pra porra? - Tom disse ao cruzar os braços e franzir o cenho. - Mimado do caralho.

- Eu não era mimado! - o ruivo protestou.

- Não? Era só você dar um sorrisinho que todo mundo te inocentava de todas as merdas que você fazia.

- Ah, disso eu me lembro. - Edd apontou.

- Parece que temos um burguês entre nós. - Paul provocou com um sorriso no canto dos lábios. - Deve ser por isso que o Tord não fala muito de você. Ele não vai com a cara de burgueses estereotipados.

- Foi pura sorte ele ter começado a sair comigo. - Patryck sorriu. - Meu pai era médico e minha mãe, psicóloga, então já dá pra imaginar a margem de lucro de casa.

- Burguês. - Paul disse entre tosses.

- Eu ouvi isso.

- Ah, perdão, eu disse burguês.

Patryck revirou os olhos e deu um tapa de leve em Paul.

Não foi nada, o francês riu, mas os meninos ainda se sentiram levemente desconfortáveis pela forma como os dois ficaram se encarando apenas por tempo demais. Eles foram jogados pra vela.

- Nossa, nem dá pra imaginar que vocês vão casar. - disse Edd em um volume excessivamente alto, o que tirou a atenção do casal um no outro. - Vocês eram só namorados quando conheci vocês.

Patryck riu baixinho e entrelaçou seus dedos aos de Paul.

- O tempo voa, e eu não ia ficar esperando esse idiota me pedir. Ia demorar um século.

- Ei! - Paul fez cara de ofendido, claramente forçado, por dois segundos e depois voltou a sorrir. - … É verdade. Eu não tenho muita coragem pra essas coisas.

O casal trocou risos e sorrisos bobos, assim como Edd sorria enquanto os assistia sendo PDA. Ele não conhecia Paul e Patryck tão bem quanto gostaria, mas ele sabia reconhecer um casal de longe quando via. E, aqueles dois, desde o dia em que os conheceu, Edd soube que eles iriam para a frente.

Ele saiu do próprio transe quando Tom o deu uma cotovelada de leve.

- Como você conhece eles? - ele sussurrou, não querendo distrair o casal de sua troca de chamegos visual.

- Ah é, vocês ainda não sabem. Lembram quando eu disse que ajudei o Tord a salvar um cara que tinha tomado um tiro, e foi assim que eu descobri sobre a treta toda? - Tom assentiu. - Era ele. - Edd apontou para Paul. - O Patryck chegou logo depois pra levar ele embora pra cuidar dele. Foi mal por não ter contado antes.

Matt o dispensou com um gesto de mão e Tom deu de ombros, complementando:

- Tranquilo. Eu não ia querer saber mesmo. Até algum tempo atrás, eu não queria saber de nada que tivesse a ver com nada disso. - ele tomou um gole do próprio suco. Era realmente uma pena que não era álcool.

- Claro, né, depois do que aconteceu, ninguém ia querer saber. - Edd tomou um gole do próprio suco também. - Eu só sabia o básico.

Por um segundo, Patryck e Paul desviaram os olhares um do outro para o trio, que tinha se fechado por um segundo no próprio centro. Um brilho curioso surgiu em seus olhares, ao mesmo tempo que um preocupado. Patryck apertou a mão do noivo por um segundo, olhando fundo em seus olhos, e ambos compartilharam um suspiro antes de se virarem completamente para os três.

- O que aconteceu? - Paul se arriscou em perguntar.

Os sorrisos trocados entre o trio imediatamente desapareceram, substituídos por expressões preocupadas. Matt encolheu no sofá e Edd guardou as mãos dentro do bolso, e ambos encararam Tom ao mesmo tempo.

- Tem problema contar? - Edd perguntou em voz baixa.

- Não precisamos se você não quiser. - Matt complementou no mesmo tom.

Tom deu de ombros.

- Façam o que quiserem, eu não me importo. - não era uma mentira, por assim dizer, mas não era inteiramente verdade também. Pensar naquele dia ainda o incomodava, mas menos que outras ocasiões em sua vida. Havia coisas muito piores do que O Incidente.

Edd, por um segundo, pensou em desistir da ideia, já que era algo muito pessoal entre os quatro amigos e afetava demasiadamente o emocional de Tom, mas, vendo as carinhas curiosas de Paul e Patryck o encarando, a tentação de contar se tornava maior que a preocupação por seu amigo. Edd era um merda de um carente por atenção e reconhecimento.

- Tá bom então. Sabe como o Tord não tem um braço?

- Ele disse que perdeu em um acidente. - disse Paul, sua voz fina em dúvida.

Edd chupou o ar do lábio inferior e desviou levemente o olhar.

- Então… O acidente meio que foi culpa nossa. Eu e o Matt aproveitamos um dia em que ele e o Tom tinham saído e fomos xeretar nas coisas dele. 

- Estávamos curiosos pra saber o que ele e o Tom faziam que era tão interessante assim. - Matt invadiu a conversa. - Eles ainda não namoravam na época, mas já se davam meio melhor, se me lembro bem. 

- É, e estávamos nos sentindo meio de fora do grupo. Só queríamos nos integrar dos assuntos que eles gostavam pra tentar nos enturmar melhor. - não totalmente verdade, mas também não totalmente mentira.

- E o que aconteceu? - perguntou Patryck.

Edd e Matt se entreolharam uma última vez e Tom ignorou a situação por completo.

- Nós sem querer acabamos invocando um monstro gigante. - confessou o ruivo.

A reação foi imediata. A forma como os olhos de Paul e Patryck se arregalaram ao ouvi-lo falar deixou muito clara a conclusão a que eles chegaram, antes mesmo que Patryck pudesse articular:

- Monstro como…

- Não, não esse. - Edd rapidamente negou. - Na verdade, eu não sei, porque fizemos o ritual errado e o monstro acabou derretendo no meio do caminho.

- Foi muito estranho! Ele estava todo “Rrrr” e “wwrrrgghh”, parecia que estava grunhindo debaixo de um monte de massa de biscoito. - Matt gesticulou com as mãos e grunhiu com a boca fechada.

- Massa de biscoito? - murmurou Paul.

- Ignora ele. - o moreno o dispensou com a mão e voltou a contar a história. - Ele era esse monte de pasta branca, cheia de buracos derretidos, tipo massa de pizza esticada, mas que se mexia e fazia barulho! Ele começou a crescer e crescer e destruiu quase todo o prédio! Ele cresceu tanto que começou a engolir todo mundo que estava perto, até a gente!

Paul parecia aterrorizado com a história, como se ela 

- E como vocês escaparam? 

- O Tom e o Tord voltaram na hora e puxaram a gente de volta. Foi por muito pouco! - exclamou Matt.

- Mas pra se livrar do monstro, o Tord teve que enfiar uma bomba dentro dele e o braço dele acabou preso. - completou Edd. - A explosão arrancou o braço fora e lançou ele pra fora do prédio.  

A memória era quase vívida na mente deles, de todos eles. A gosma os arrastando pelo pé até o topo do prédio, cada segundo passando extremamente devagar e menos energia restando em seus corpos; o desespero nos rostos de Tom e Tord quando eles voltaram para o prédio e viram seus dois amigos em perigo; a explosão e Tord sendo lançado para fora do prédio e Tom disparando atrás dele. E eles estavam caindo. E os dois teriam morrido se não fosse por Edd, por um restinho de radioatividade que ele tinha em seu sistema, que o permitiu de usar seus poderes e voar até os dois e impedi-los de se espatifar no chão. Era tão real que contar era como reviver exatamente aquele momento.

E é por isso que Edd não fala das coisas que acontecem com ele.

- Deus do céu. - disse Patryck com uma mão sobre o peito, a outra apertando a de Paul. - Ele disse que foi uma experiência de quase morte, mas não que foi assim. Ele não entrou em detalhes quando contou que precisaria usar a prótese.

No geral, Tom não estava prestando muita atenção na história que Edd e Matt estavam contando. Ele puxou as mangas do moletom sobre as mãos e pressionou os lábios sobre uma das palmas, afogando o som da conversa na sensação confortante que era um tecido fofo em seu rosto. Foi bom por um tempo, terapêutico, e funcionou. Até aquela palavra.

A prótese.

Não uma prótese. A prótese.

Ela já estava pronta antes do acidente.

Quando Tom perguntou à Tord como ele tinha conseguido uma prótese tão rápido, ele o respondeu dizendo que trabalhava rápido, mesmo com uma mão de fora.

Foi uma mentira.

Ele planejou cortar o braço fora desde o começo. Ele nunca melhorou. Tom estava começando a questionar se algum dia ele parou

Aquela era uma visão que ele jamais esqueceria. Ele, escondido debaixo da cama de Tord após passar o dia xeretando as coisas dele, em busca de algo que pudesse incriminá-lo de ir contra seus amigos novamente para que Edd o expulsasse de seu apartamento, observando enquanto Tord se arranhava na frente do espelho. O cheiro insuportável de sangue subindo as suas narinas e o som das unhas de Tord rasgando a própria pele em desespero e sua respiração descompassada ecoavam em seus ouvidos de forma enlouquecedores, como se ele estivesse dentro de sua cabeça. Tom não pôde vê-lo direito, mas sua imaginação era hiperativa o suficiente para imaginar as unhas levemente compridas do norueguês cravando na própria pele e arrancando-a com a facilidade de levantar uma pena, o sangue escorrendo pelas feridas sensíveis e pingando no chão, manchando o carpete de vermelho, a carne exposta para o ar frio do quarto, latejando; o desespero nos olhos cinzentos de Tord, tanto o bom quanto o cego, enquanto as lágrimas escorriam por seus olhos e seu rosto se contorcia de dor e desconforto.

Mas, naquele momento, ele precisava que aquela dor parasse. Mesmo que precisasse recorrer a meios físicos.

A garganta de Tom começou a fechar e seus olhos desceram para as próprias mãos. Elas mexiam uma na outra, como se se estudassem, e sua mente só podia imaginar como sua mão direita se pareceria coberta por queimaduras de terceiro grau.

- Tom. - Edd inclinou-se na direção do amigo, mas o sem olhos não reagiu. - Tom, você tá bem?

A respiração de Tom começou a descompassar, e com a garganta fechada ele não conseguia respirar. O ar entrava em sua garganta, mas parecia não chegar nos pulmões. E as batidas de seu coração em seus ouvidos eram insuportáveis.

Ele só queria acabar.

- Tom?

Paul e Patryck se entreolharam com apreensão, reconhecendo imediatamente todos os sinais. Ataque de pânico.

- Eu p-preciso ir ao banheiro. - Tom disse, sua voz trêmula, e se levantou do sofá com a mão na boca. Patryck correu atrás dele até os dois desaparecerem no banheiro.

Edd e Matt apenas observaram por cima do ombro, preocupação em seus rostos, e encolheram quando a porta se fechou e o som de alguém vomitando ecoou pelas paredes.

- O que aconteceu com ele? - o ruivo perguntou, virando-se para Paul.

- Falar sobre situações estressantes pode nos colocar em mais situações estressantes, o que pode desencadear reações corporais fora do nosso controle. - Paul deu de ombros. - Acho que essa deve ser uma dessas ocasiões.

Edd trouxe uma das unhas à boca e mordiscou a ponta com força. Arrependimento começou a rastejar por suas costas como uma aranha venenosa, erguendo os pelos em sua nuca.

- Eu não devia ter falado sobre o assunto… - ele murmurou para si mesmo. - Melhor eu checar nele.

Mas Paul imediatamente negou com a cabeça e estendeu a mão para pará-lo.

- Não se preocupa, o Patryck pode lidar com isso sozinho. Ele treinou pra auxiliar pessoas durante momentos de estresse e ataques de ansiedade e pânico. Já passamos várias vezes por isso e ele também ajudou o Tord durante os ataques de pânico dele. Ele sabe bastante como lidar com isso.

A questão é que Edd não sabia que Tom sofria de ataques de pânico. Aquilo fazia sentido se colocando em certas situações em que eles já estiveram, mas Edd nunca percebeu.

Seu peito começou a contrair em agonia. Ele e Tom eram amigos há anos, tanto tempo quanto ele, Matt e Tord. Edd deveria conhecê-lo mais do que qualquer um. Então como ele não percebeu isso? Era algo recorrente? Edd devia saber de tudo sobre seus amigos, sendo uma das pessoas mais próximas deles; mas como ele não sabia disso?

- Não tem nada que possamos fazer? - perguntou Matt, preocupado.

- Só tentem dar apoio ao seu amigo nesse momento difícil. - Paul aconselhou. - Vocês todos passaram por algo complicado hoje e precisam de apoio mais do que tudo. A união de vocês é o que mantém as emoções em controle, as pessoas precisam saber que elas têm onde se segurar pra não ter medo de cair.

Ele precisa de um amigo. É isso que ele quis dizer. Edd podia não apreciar muito falar de seus próprios sentimentos; ele não via necessidade e, no geral, mais o deixava desconfortável do que o ajudava; ele só era assim. Mas não é assim que Tom funcionava. Não é assim que Matt funcionava. E às vezes Edd ficava tão perdido no labirinto da própria mente que ele não parava para pensar no que os outros precisavam, até ser tarde demais.

Tom deixou o banheiro junto a Patryck com a mão sobre a boca, como se estivesse limpando alguma coisa.

Edd virou em sua direção e, antes que Matt pudesse se meter, perguntou:

- Tom, você tá melhor?

O de olhos inexistentes assentiu rapidamente com a cabeça.

- Um pouco. - ele deu de ombros e se sentou no sofá.

- Desculpa se tocar no assunto deixou você mal. Eu não queria...

- Não, tá tudo bem. - Tom se apressou em interromper o amigo. - Acho que eu pensei que podia aguentar falar sobre isso, mas as coisas só voltaram tudo de uma vez. Eu tô bem, sério.

Mas ele não estava. Tom claramente não estava bem, ele conseguia ver agora. Aquilo não estava bem. E ele não podia só ficar parado olhando.

Edd era um babaca. Isso era fato. Mas isso não quer dizer que ele fazia de propósito, ou que ele não sabia que devia mudar de alguma forma para deixar seus amigos mais confortáveis. Ele vinha tentando isso há anos, e já estava muito melhor do que era na época do colegial, por exemplo. Mas ele ainda tinha muito que mudar para chegar à um nível satisfatório. A começar com demonstrar que se importa de fato com seus amigos, não necessariamente por palavras, para ser a rede de segurança que Paul disse que Tom precisava.

Edd passou o braço ao redor dos ombros de Tom e o puxou para um meio-abraço, enterrando-o em seus braços grossos e ombros largos. Tom afetuosamente aceitou o carinho, apoiando a cabeça no peito de Edd e soltando um suspiro.

Ele gostava disso. Ele gostava quando Edd mostrava que se importava com eles, quando ele agia assim; afetuoso e compreensivo. Não era comum; ele era do tipo despreocupado e tranquilo. Não gostava de conflito e fazia de tudo para evitar situações estressantes, mesmo que elas viessem até ele por conta própria. Momentos assim, em que ele tomava um tempo para levar uma situação a sério e puxava os amigos para um abraço, eram raros; e Tom gostava de aproveitá-los. Era bom pensar que mais alguém se importava com seu bem-estar além de Tord.

Após um tempo, um sorriso surgiu em seus lábios, e Tom sentiu o sono começar a subir por suas costas, o puxando para um oceano de tranquilidade.

- Ei - Matt se pronunciou, chamando a atenção dos outros quatro. - Eu sei que não é o momento mais apropriado, mas mais alguém tá sentindo cheiro de queimado? 

Paul imediatamente arregalou os olhos e se levantou de onde estava sentado.

- Puta que pariu, a comida! Alguém ajuda aqui! - ele gritou para os outros, e Edd e Matt imediatamente se levantaram para ir atrás dele. Uma pena, Tom estava gostando do conforto do abraço.

Enquanto os três desastrados se atrapalhavam na cozinha, Patryck levantou e sentou ao lado de Tom no sofá. Ambos permaneceram quietos por um momento, apenas contemplando o cheiro de queimado vindo da comida, até o polonês se pronunciar:

- Você sabe como é, não é? - ele sussurrou. - Esse sofrimento?

Os ombros de Tom enrijeceram, lembrando-se da razão de eles estarem ali. Aquele animal, aquela coisa que os queria matar, era a mesma coisa que estava dentro dele agora, corrompendo-o, devorando-o por dentro, esperando o momento certo de sair. Ele tinha esquecido disso por um momento.

Percebendo seu desconforto, Patryck se aproximou e colocou uma mão no ombro de Tom.

- Você já viu algum daqueles monstros antes?

Aquele era sempre um tópico difícil de falar sobre e Tom não se abria para ninguém sobre aquele bicho além de Tord; ele era o único que sabia de seu segredo.

- …Já.

Ou dele inteiro, pelo menos.

Patryck era um cara legal, e ele e Paul pareciam de confiança. Algo em Tom o dizia que ele era confiável, que podia confiar a ele parte de seu pequeno segredo. Ele estava abrindo a boca.

Patryck assentiu em compreensão e abaixou a cabeça.

- Eu também. - ele confessou. Tom ergueu o olhar e o encarou em choque. Pat assentiu mais uma vez. - Um deles matou uma boa amiga minha.

Um peso pareceu cair nos ombros de Tom, mas não do tipo que costumava o deixar devagar. Ele podia ver como aquilo que Patryck acabara de confessar o afeta, assim como o peso que Tom carregava o afeta. Eles não eram iguais, mas entendiam muito bem o valor que uma vida carregava. Ele entendia.

- Eu sinto muito. - Tom disse, seus olhos cheios com empatia.

O polonês mexeu nos cabelos e suspirou corte pela boca.

- Tá tudo bem. Imagino que deve ter sido difícil pra você também. Ter que lidar com um desses, eu digo.

- Oh… - Tom hesitou, seus ombros retraindo e sua forma encolhendo. - É… Sim, foi. 

- Imaginei. - Patryck respondeu. - É difícil pra mim também. Ao mesmo tempo em que lutamos contra esses bichos e ainda outro exército, eu tenho que lidar com a cicatriz da morte da minha amiga abrindo o tempo todo. Toda vez que eu vejo um deles, eu lembro dela; lembro de tudo que aconteceu. Não é algo fácil de lidar.

Os olhos de Patryck começaram a se encher de água, mas ele limpou-a com as costas da mão antes que Tom pudesse ver. Incômodo e culpa o seguiam sempre que ele resolvia falar sobre o assunto, mas ele entendia a importância de falar sobre aquilo se quisesse se aproximar dos sentimentos de Tom. É sempre bom saber que não se está só, até com as experiências ruins da vida.

Tom mordeu o interior da bochecha e suspirou.

- Às vezes eu só gostaria de esquecer que essas coisas acontecem.

Uma tentativa muito estúpida de quebrar o gelo, mas um tentativa ainda assim, Patryck apreciava isso.

- É verdade, é bem tentador. - ele disse. - Mas eu prefiro muito mais aprender a lidar com a dor do que simplesmente esquecer ou ignorar. Ela sempre falava para nós, pra mim, Paul e Tord, que ignorar um machucado é apenas esperar que ele infeccione. Esquecer algo ou alguém por uma memória ruim é apagar a história de vocês e a influência que ela teve para formar a pessoa que você é hoje. É sempre bom falar sobre as coisas que te incomodam para que você encontre a melhor forma de lidar com aquela dor. Cicatrizes não te fazem errado. Te fazem um sobrevivente.

Estranhamente, era exatamente isso que Tom repetia para Tord toda vez que ele não conseguia se olhar no espelho, envergonhado de suas cicatrizes.

- Ela parece bem inteligente. 

- Ela era sim. - disse Pat com um sorriso no rosto. - Adorava psicologia. Na verdade, ela sofreu muito antes de acabar com a gente, por isso acho que ela tinha propriedade pra falar essas coisas.

Tom assentiu, e ambos caíram em silêncio por um tempo, remoendo o que tinha acabado de acontecer em suas mentes.

Observando Tom, apesar de que por pouco tempo, o polonês percebeu que Tom era do tipo que mantinha segredos. Ele não contava as coisas para todos que conhecia, ao menos não sem conseguir intimidade com elas primeiro; isso significava que ele provavelmente tinha uma opinião muito boa dele, mas também que ele provavelmente tinha dificuldade de se sentir incluso, de não se sentir sozinho. Patryck conhecia aquele sentimento muito bem, a necessidade de colocar tudo para fora e sentir que sua voz é ouvida, mesmo que ninguém de fato ouça.

- Olha - Tom ergueu a cabeça ao som da voz de Patryck. - Não sei se pode te ajudar, mas eu sempre gosto de escrever sobre as coisas que me deixam pra baixo pra tirar elas da cabeça. Às vezes ajuda.

- Como escrever um diário? 

- Algo assim, mas não necessariamente. Pode ser uma música, uma poesia, um desabafo ou você pode simplesmente rabiscar a folha com a caneta o mais forte que puder. A escolha é sua. Tudo pra desabafar sobre o turbilhão de coisas que acontecem aqui dentro. Pode ser uma forma boa e saudável de você confessar seus sentimentos sem que ninguém escute.

Bom, Tom sim gostava de música, já até compôs algumas canções bobas quando era mais novo, mas nada que refletisse suas emoções da forma que Patryck sugeria que ele fizesse. Talvez não fosse uma ideia tão ruim.

- Parece uma boa ideia, mas vou pensar melhor. Obrigado.

Patryck sorriu.

- Sempre que precisar.

Os dois soldados trocaram sorrisos por um segundo e passos pesados marcharam de volta para a sala. Paul, Edd e Matt apareceram, sorrindo, e o primeiro carregava um prato acima da cabeça. 

- Boas notícias! A carne sobreviveu! - Paul sorriu e orgulhosamente apresentou o prato na mesa de centro. - Querem assistir um filme?

- Seria uma boa, desde que não seja Profesor Why. - Patryck respondeu, tirando o prato da mesa e roubando uma fatia de carne.

- Não, aquele show é horrível. - Edd revirou os olhos e voltou a se sentar no sofá, se cobrindo com o cobertor e puxando Tom e Matt para mais perto dele, como um amontoado de almofadas.

Paul e Patryck se sentaram no chão, apesar de os três terem oferecido se espremerem um pouco mais. Eles negaram precisar entrar debaixo daquele cobertor e que estavam muito bem no chão, mas Edd tomou aquilo como uma simples desculpa para eles poderem ser PDA e ninguém vem; o que não estava muito longe da verdade.

- Mas, ei, eu tenho uma pergunta. - Matt disse, parando Patryck antes que ele voltasse a ligar a televisão. - Por que vocês têm cozinha no quarto e o restante dos soldados não?

Edd e Tom não tinham parado para pensar nisso. Eles não tinham essas coisas no quarto, e Tom estava no quarto de Tord, o fucking líder da porra toda. Não fazia sentido.

Mas Paul pareceu feliz em responder a pergunta:

- Isso foi uma decisão do Tord pra economizar com as novas acomodações dos cadetes. A maioria dos soldados têm rotinas estáveis, o que dá à cantina um maior controle da comida e tira a necessidade dos soldados de ficar cozinhando, o que gasta ainda mais dinheiro com ingredientes. Nós, do conselho, no entanto, temos rotinas mais instáveis. Às vezes uma emergência pede que eu e Paul deixemos a base por horas; às vezes Tord é chamado pra uma reunião surpresa; às vezes as meninas têm que separar uma briga. Não temos como reservar horários perfeitos para as refeições e isso faz uma bagunça enorme com o pessoal da cantina. Os soldados têm como pedir para colocar cozinha no quarto, se quiserem, mas Tord é bem exigente com quem vai conseguir. A pessoa precisa justificar a requisição e passar num teste pra provar que sabe cozinhar.

Tom arqueou a sobrancelha.

- Por que?

- Não podemos ficar correndo o risco de colocarem fogo na base. - Patryck respondeu. - Colocar as pessoas erradas na cozinha pode dar muita merda. As pessoas podem se machucar feio.

- E por que eu não tenho uma cozinha no meu quarto? Eu sei cozinhar! - ele continuou a protestar, sustentado por Edd e Matt, que assentiram com a cabeça.

- Você sabe, mas o Tord sabe? - Paul disse e sorriu com uma sobrancelha erguida, ele claramente sabia a resposta para aquilo.

Tom ainda se lembrava muito bem do que aconteceu na cozinha quando Tord resolveu fazer a ceia de natal. Ele não celebrava, mas mesmo se celebrasse, nunca em um milhão de anos ele comeria o desastre que saiu daquele fogão.

- Não, ele não sabe. - ele disse enfim.

- Sua resposta. - Patryck deu de ombros e enfiou um pedaço pequeno de carne na boca. - Quer?

Sem mais o que dizer, Tom deu de ombros, pegou um pedaço do prato oferecido e relaxou no sofá para poderem assistir ao filme. Um pouco tostado demais, mas continuava gostoso.

E o restante do dia seguiu assim. Cinco soldados em um quarto, comendo carne e pipoca, tomando suco e coca, e assistindo televisão antes do toque de recolher. O tempo passou voando, e embora nenhum deles tenha dito muita coisa naquele meio-tempo, aquele pareceu um bom momento de enturmação. Todos eles, só ali, assistindo filmes até cansar; parecia uma boa atividade para relaxar. Eles deviam fazer isso mais vezes no futuro.

Ao fim do horário, o qual passou mais rápido do que eles gostariam, o trio se despediu de Paul e Patryck e seguiu para o elevador para finalmente voltarem a seus quartos e relaxar os corpos.

- Nossa parada é aqui. - Edd disse quando as portas se abriram. - Você tem que descer mais alguns, não é, Tom? - o sem olhos assentiu. - Nos vemos amanhã então. Boa noite.

Tom se despediu com um aceno e as porta do elevador fecharam, levando-o em direção a seu andar.

Incrivelmente, ele voltou para o quarto com a cabeça mais cheia do que quando saiu. Não quis deixar tudo muito claro na frente de seus amigos e Paul e Patryck, mas ele não conseguia parar de pensar no que aconteceu naquela tarde desde quando aconteceu. Ele se esforçou para prestar atenção na conversa, de verdade, mas ele estava muito mais distraído do que o normal, e isso antes do álcool. Tom não gostava de pensar nas coisas que aconteceram no passado, especialmente quando já praticamente foram enterradas; não faz mais sentido falar sobre assuntos que já estão há tanto tempo saturados.

Ao entrar no quarto, ele se jogou de cabeça na cama e suspirou no travesseiro. Tom estava exausto e não no sentido apenas físico da palavra. Ele estava com o corpo dolorido e a cabeça latejando. Precisava urgentemente de um remédio para dor de cabeça e de um momento sozinho. Na verdade, não necessariamente sozinho. Ele só precisava de algum jeito de se acalmar, de tirar aquela preocupação de seus ombros e recobrar o controle dos próprios pensamentos.

Mas é claro que aquilo não aconteceria. Quando foi que as coisas já funcionaram a seu favor?

Ele podia sentir seus pensamentos escurecendo mais uma vez, as vozes se acumulando e se atropelando numa tentativa de serem ouvidas. Alto, alto e mais alto. Até o som da porta do quarto abrindo cortar todas elas de uma vez, jogando Tom no silêncio.

Olhando ligeiramente por cima do ombro, Tom viu Tord entrar no quarto, caminhar até a cama e se sentar ao seu lado.

- Oi. - ele disse com um sorriso torto.

- Oi. - Tom respondeu, seco.

- Como você tá?

- Horrível. Eu quero morrer.

O norueguês suspirou e levou sua mão orgânica aos cabelos de Tom, entrelaçando seus dedos nos fios.

- Isso passa, não se preocupa. - confortou-o e permaneceu ali, acariciando seus cabelos e esperando o inevitável momento em que Tom se abriria.

Enquanto a mão orgânica de Tord acariciava seus cabelos, Tom tomou o tempo para reparar na prótese descansando em seu colo. Ela mal estava visível, apenas algumas luzes azuis reluzindo na escuridão do quarto, mas estava ali, substituindo um fardo que ele criou e que Tord não conseguiu aguentar. Parte de si odiava Tord por ter considerado fazer isso sem nenhuma necessidade grave ao invés de buscar ajuda. Eles conversaram sobre isso, várias e várias vezes, e Tom sempre tentou fazer seu melhor para que Tord não se sentisse desconfortável com o próprio corpo, para que ele pudesse se olhar no espelho e não temer quem o olhasse de volta, mas a verdade é que Tom nunca teve como saber de fato se Tord começou a melhorar sozinho, se ele conseguiu ajuda por suas costas ou se ele nunca melhorou. No fim das contas, isso não era da conta dele. O que o levava para seu segundo ponto. A outra parte de Tom odiava a si mesmo por pensar isso. Ele não tinha como saber pelo que Tord estava passando naqueles tempos difíceis; olhar para o espelho e não reconhecer quem o olhava de volta; um momento tão difícil, em que a dor que ele sentia era tanta que ele precisava sentir dor física para seu peito parar de doer. Tom não tinha como saber o que era isso. Ele nunca saberia. E ele não tinha o direito de julgar Tord por isso. Se substituir seu braço por uma prótese foi o caminho que ele escolheu, Tom tinha que respeitar sua decisão. O corpo era de Tord, não dele. Ele só podia esperar que conversar com ele e terem se aberto um para o outro tenha ajudado com alguma coisa. Afinal, ele não amputou o braço de propósito.

Tom se lembrava, vívido como o dia, a forma como as mãos de Tord, as duas mãos, trilhavam o caminho por suas costas, seu rosto, sua cintura, suas pernas, fazendo cada parte de seu corpo estremecer. Levou um tempo para que ele pudesse fazer o mesmo por elas, até mesmo para sentir os dedos de Tord entrelaçados aos seus, mas, lentamente, as coisas começaram a caminhar. Eles começaram a caminhar. E ele parecia tão feliz, tão diferente de quando ele o viu daquela vez. Suas atitudes mudaram, seu humor… Ele não se abriu de primeira, mas Tom ficava tão orgulhoso sempre que ele dava mais um passo. Se os arranhões continuaram recorrentes ou não, Tom pelo menos estava feliz que tinha acabado. Tord ainda tinha seus problemas, mas ele não estava mais preso naquele buraco; e ele podia enfim seguir em frente.

Não da mesma forma que Tom.

- ...Eles não voltam ao normal. - o de olhos inexistentes finalmente se pronunciou, sua voz baixa, quase inaudível.

Tord sabia que, quando Tom falasse, seria algo relacionado a isso; como não poderia? Aquele assunto vinha atormentando a ambos por anos.

Lentamente, Tord negou com a cabeça.

- Até agora nenhum deles voltou. Já pegamos vários, mas eles sempre se dissolvem antes que possamos fazer testes.

- Se dissolvem? - o menor arqueou a sobrancelha e virou o corpo na direção do namorado.

- Viram uma poça de gosma. É muito estranho, mas os dados que coletamos das amostras não são muito diferentes de se tirássemos seu sangue, por exemplo.

Tom não sabia, mas muito provavelmente agradeceria a Tord por não ter ficado tempo demais no campo de batalha para ver o monstro se derreter. Era algo horrível. O rosto, que já não era tão belo, se desfigurava, mostrando pele e ossos derretidos escorrendo pela formação rígida, até virar uma poça de nada. Descritivamente podia parecer algo não tão ruim, mas ver pessoalmente os ossos e músculos e tecidos derretendo para se tornarem nada mais que uma poça de lodo era simplesmente bizarro. E Tord não tinha experienciado isso apenas uma vez, e nem em uma só condição.

Ele não era um estranho para o fato de que Tom se sentia solitário sendo o único a lidar com problemas desse tamanho. Ele não queria que seus amigos sofressem, é claro que não, mas às vezes é confortável saber que não se está sozinho na luta contra problemas desse tamanho. 

Tord não gostava de falar sobre esses assuntos, mas, já que estavam tirando tudo do saco a esse ponto, não há motivos para ele não colocar algo para fora também. Ele já tinha segurado isso por muito tempo, de qualquer forma.

- Minha amiga morreu num ataque dessas criaturas. - ele contou em silêncio, sua mão agarrando-se ao cabelo de Tom. O sem olhos o encarou com espanto, e Tord tomou aquilo como sinal para continuar a falar. - Eu não sei como, mas um deles acabou na minha faculdade, quando eu ainda estava no segundo ano. Minha amiga foi uma das vítimas do ataque.

Tom imediatamente se sentou. Ele nunca tinha ouvido Tord falar sobre sua época de faculdade antes, muito menos sobre algo tão sério. Ele já tinha ideia de que as coisas não foram boas para seu namorado na época da faculdade, visto que foi nesse meio-tempo que ele começou a ficar estranho e o Red Army se desenvolveu, mas nenhum detalhe nunca o foi dado sobre o que de fato aconteceu.

- ...O que aconteceu com ela? - ele perguntou com a voz baixa e rastejou para mais perto de Tord. Ele estava um tanto temeroso com a resposta, mas, a esse ponto, saber era uma necessidade.

O norueguês respirou fundo o ar pelo nariz e estreitou as sobrancelhas. O ar saiu trêmulo por sua boca e sua mão começou a tremer, mas ele foi rápido em escondê-la dentre a mecânica.

- Foi durante nossa feira de apresentação de experimentos. Estávamos apresentando quando um deles invadiu e começou a destruir tudo como louco. Quando nos demos conta, metade da classe estava morta, incluindo ela. Nós não tivemos tempo pra subir e pegar as armas; os policiais conseguiram neutralizar o monstro e mataram ele antes que pudessem fazer qualquer coisa. Não conseguiram nenhuma resposta.

Tom engoliu em seco, apreensivo. Ele não podia imaginar o quão difícil devia ser para Tord ter tido que lidar com algo assim, e com alguém tão próximo dele também.

- Foi aí que a ideia do Red Army começou?

- Na verdade, não. Isso foi a um ano depois de começar a entreter a ideia. A morte dela me deu a vontade que eu precisava para finalmente levar o plano adiante. O que aconteceu com ela, eu não gostaria que acontecesse a mais ninguém. Preciso entender o monstro pra saber como podemos nos livrar dele e te soltar de uma vez por todas.

O sem olhos abriu um pequeno sorriso e desviou o olhar para o lado. Ele não gostava de pensar sobre isso, mas ele era um prisioneiro de sua própria mente. Cada pensamento era monitorado por aquele conjunto de vozes e aquela coisa atrás de sua cabeça; ele não podia fazer nada sem ser julgado ou ter dedos apontados para ele, mesmo que sejam dedos metafóricos. E ele não conseguiria escapar daquela prisão sozinho, assim como Tord não poderia escapar da guerra em que se colocou sozinho. Ambos precisavam de ajuda, e é por isso que se abriam daquela forma. Mas isso não quer dizer que pensar em si mesmo como um prisioneiro não o fazia se sentir fraco, como se ele não tivesse o controle do próprio corpo. E se ele não tinha o próprio corpo, o que ele tinha?

- A quanto tempo você lida com eles? - Tom decidiu perguntar, visando perder o foco de seus pensamentos depressivos.

- Eles foram a razão de eu ter começado. As coisas eram meio Ghostbusters no começo, eu e alguns amigos querendo ajudar as pessoas formando um exército para combater as anormalidades que assombram nosso dia a dia. Aos poucos eu conquistaria a confiança dos outros países e subiria na política. 

- E pra quem diz “não”?

Tord deu de ombros.

- Desentendimentos acontecem. Eu só preciso forçar um pouquinho a mão. Sempre tento envolver o mínimo de civis possível, então sempre estamos abertos para negociação; aqueles que se recusam só precisam de um empurrãozinho pra entender a situação.

Dominação mundial é algo complicado e delicado. Se todos pudessem simplesmente concordar com sua ideia seria muito mais fácil, mas as coisas não funcionam dessa forma. De qualquer maneira, não é como se Tord não estivesse disposto a entrar em um acordo; quanto menos pessoas se machucassem, melhor.

Depois disso, Tom murmurou e ficou em silêncio. Muita coisa para processar em um dia só, sua cabeça estava doendo, mas eram coisas que precisavam ser expostas, antes que tudo virasse uma bola de neve. Se Tord se mostrasse um líder ruim, ele mesmo o destronaria.

Soltando um suspiro trêmulo, o norueguês procurou a mão de Tom com a sua orgânica e a apertou entre seus dedos ao encontrá-la.

 - Eu sinto muito que você tenha que saber sobre o monstro dessa forma. Eu sei o que você pensa sobre ele.

Tom o encarou com ternura em seus olhos e retribuiu o contato entre suas mãos.

- Tá tudo bem. Você não sabia. Antes agora do que em um momento pior, eu acho. Eles têm controle sobre esses bichos, os caras que estão contra vocês?

- Não tenho certeza, mas duvido muito. Eles são difíceis de controlar e desintegram quando você os leva até o limite. Seria muito arriscado apostar a vida de tantos soldados em um projeto que tem noventa e sete por cento de chance de fracassar, até pra eles. Ninguém em sã consciência faria algo tão arriscado assim.

Ele tinha um ponto. Mesmo segundo a visão mais sádica de todas, ninguém gostaria de 

- O que aconteceu pra esse povo todo ir contra você? - Tom perguntou com uma sobrancelha arqueada. - No quadro geral, sua ideia não é tão ruim.

Tord mordiscou a unha do dedo mindinho de sua mão orgânica, seu rosto ganhando uma sombra em frente aos olhos.

- Nós sempre tentamos introduzir nossa ideia de um jeito pacífico. Oferecemos ajuda pra nos livrarmos dos problemas dos outros países e quem aceita acaba passando o controle pra mim, alguns aceitam sob outras condições, mas a maioria sabe dialogar. Porém, tem aqueles que não gostam da ideia e recusam, mesmo que a população esteja precisando muito. O que acontece é que, já que esses países não recebem ajuda, ficam mais vulneráveis a ataques, que é justamente o que acontece; o povo acaba se revoltando contra o governo e a guerra eclode sozinha. Nós apoiamos as causas locais, que lutam pela própria sobrevivência, e consequentemente declaramos guerra não verbal aos países que estão contra nós. O comandante do exército inimigo ao oeste, Darrell Andersen, era um colega meu de faculdade. Nunca foi com a minha cara. Acho que ele viu essa guerra como uma forma de arrebentar a minha cara. - ele gesticulava com a mão com uma expressão de desprezo e desgosto em seu rosto, como se aquele assunto o irritasse, mas Tom só tinha sua curiosidade aumentada a cada resposta.

- Deus, o que você fez pro cara?

- Transei com a namorada dele.

Tom se deu um tapa na testa.

- Sério? O destino do mundo em jogo por algo tão estúpido quanto uma foda? - de repente se matar não parecia uma ideia tão ruim assim.

- Em minha defesa, ela não gostava dele. - Tord ergueu os braços. - Eles terminaram dois meses depois de começar.

Há alguns anos atrás, Tord simplesmente não tinha a menor noção de limites. Ele fazia o que queria e dane-se os outros. A situação entre ele e Tom, que já não era tão boa na época, também ficou mais complicada por conta disso. Aquele menino simplesmente estava cagando e andando para o que as pessoas pensassem dele.

- Isso estranhamente é a sua cara. - Tom revirou os olhos. - Como a gente mata ele?

- Preciso descobrir o tamanho do exército dele, onde está a base principal, cercar e matar o líder. Assim que o Darrell cair, o resto vai retalhar e vai ser mais fácil de rastrear e cercar os inimigos restantes. O melhor jeito de quebrar um exército é matar a cabeça, o resto cai por terra naturalmente. Por isso o conselho do Red Army existe. Se porventura eu morrer em batalha, o Patryck assume depois de mim com as meninas e o Paul como suporte. Mas isso obviamente não vai acontecer. Eu vou derrotar aqueles merdinhas e criar meu mundo por bem ou por mal. Eu já investi demais nisso pra voltar atrás, e eu não voltaria mesmo assim. Tem gente demais contando comigo, eu não posso simplesmente desistir.

Tom não disse nada, especialmente porque ele não sabia o que dizer. Tudo isso era muito novo pra ele ainda, não tinha como ele ter noção do que dizer para Tord naquela situação. Ao invés disso, ele simplesmente o puxou para um abraço e lentamente acariciou seus cabelos com movimentos calmantes. Ele sabia como aquilo ajudava o norueguês a relaxar.

Em sua mente, no entanto, Tom podia apenas imaginar como as coisas estavam complicadas para Tord. Um exército inteiro atrás de sua cabeça, milhares de vidas em jogo e o monstro escondido bem debaixo do nariz deles; nesse caso, no fundo das órbitas de Tom. 

Tord não sabia se Tom sabia, mas o simples fato de ele estar ali tornava as coisas muito mais fáceis de lidar. Claro, também tornava tudo muito mais difícil, considerando que Tom agora estava no meio do fogo cruzado, mas Tord conseguia se controlar muito melhor emocionalmente com ele ao seu lado. Dava a ele a sensação de segurança que ele tinha com quem contar quando a pressão se tornava demais, além de tirar de seus ombros o peso de todos os segredos que ele vinha guardando durante anos. Ele tinha se acostumado tanto a contar tudo a Tom que esconder coisas dele simplesmente soava errado, até mesmo quando o próprio Tom não queria saber. Que bom que agora ele podia soltar esse ar.

- Temos mais uma missão amanhã. É melhor irmos dormir. - o norueguês murmurou contra o braço do namorado, afagando o rosto no tecido de sua roupa.

Silenciosamente e sem reclamar, Tom assentiu e ambos deitaram na cama. O clima pesado se dissipou com relativa facilidade, e os dois, ainda em uniforme, caíram no sono. O dia foi muito exaustivo para notarem esses pequenos detalhes. O que mais precisavam agora era uma boa e completa noite de sono.

Tom acordou uma hora depois. Ele não tinha dormido absolutamente nada; pelo menos era como ele se sentia. Tord ainda estava dormindo ao seu lado, os dois de uniforme, e não pareceu perceber que ele tinha acordado. Sua cabeça estava cheia, embora menos se comparado a como estava antes. O peso do sono estava em suas pálpebras, mas ele simplesmente não conseguiu pregar os olhos.

Depois de vinte minutos tentando voltar a dormir, Tom simplesmente desistiu e resolveu dar uma volta pela base para clarear os pensamentos. Seus pés o guiavam por conta própria, Tom não prestava nenhuma atenção neles. Sua cabeça estava cheia, mas não havia um único pensamento coerente, nem de sua mente e nem do monstro. Era preocupante, mas ele já estava acostumado a esse ponto. Nem fazia diferença alguma.

Ele acabou na cantina. As portas estavam abertas, muito provavelmente por conta de outros soldados como ele que apareciam por ali a altas horas da noite para buscar algum lanche para ajudar a voltar a dormir. Tom teve certeza disso ao chegar na cozinha da cantina e encontrar mais dois soldados ali.

Dois homens, um pouco mais altos que ele, pegavam biscoitos na geladeira, assim como uma garrafa de leite. Ambos se viraram em sua direção ao ouvirem seus passos, e ergueram a sobrancelha ao colocar os olhos nele.

- Também veio fazer um lanchinho da meia-noite? - um deles o perguntou.

- É, mais ou menos isso. Também queria dar uma espairecida. - Tom respondeu, se aproximando da geladeira e pegando a garrafa de leite.

- Relaxa, o pessoal que passa aqui tem um acordo silencioso de não comentar com ninguém que estivemos aqui. Se perguntarem pela comida, foram ratos mutantes.

Tom riu.

- Valeu. - ele disse antes de tomar um gole do leite direto da garrafa. - Ei, você por um acaso não saberia dizer onde eu posso pegar um caderno, sabe?

Os dois rapazes se entreolharam e morderam os biscoitos.

- É claro que sim. Temos vários no estoque. Posso te levar lá, se você quiser. - o segundo ofereceu.

- Não precisa, eu me viro. Só preciso saber onde fica.

Os soldados o deram instruções básicas. Havia um depósito no primeiro andar, logo ao fim de um longo corredor, nos confins da estrutura. Lá, eles guardavam todo tipo de material para os cadetes recém chegados. Ele só precisava achar um jeito de abrir e pronto.

Na verdade, não foi tão complicado quanto Tom imaginou que fosse. Ele só precisou forçar a porta um pouco para cima e passar por baixo, pegar o caderno que ele queria, e sair como voltou. Como sua voz não estava registrada em todo o sistema, Tom não podia só dizer “abre” e a porta abriria. Se isso lhe causasse algum problema, ele se entenderia com Tord mais tarde.

Tom escolheu um caderno quadriculado em preto e branco, bem do estilo que ele gostava, de espiral preta e uma cartelinha de adesivos coloridos na primeira folha. Ele provavelmente não os usaria, pois não seria algo bonito que ele colocaria ali naquelas páginas, mas era um detalhe bonitinho que ele gostou naquele caderno.

Ao retornar ao quarto, Tord ainda estava dormindo, sem sequer reparar em sua ausência. Mas Tom não estava com o mínimo de sono, apesar de as pálpebras estarem pesadas. Ele precisava descarregar alguma coisa em algum lugar, mas de uma forma que apenas o cansasse, sem destruir nada ou fazer algo que chamasse a atenção de alguém. O plano era rabiscar o caderno com qualquer coisa que viesse em mente e depois esconder debaixo do colchão para que ninguém o descobrisse.

Na ponta dos pés, Tom caminhou para a mesa de Tord e sentou-se na cadeira. Por não poder acender a lâmpada, usou a lanterna do celular como iluminação. Meio complicado de posicionar de um jeito bom, mas ele enfim conseguiu, e tudo que lhe restava era pegar uma caneta e colocar tudo que quisesse nas folhas listradas.

Ah, se fosse assim tão simples. Escrever o filme dos Gatos do Espaço foi mais fácil do que isso. As palavras simplesmente não se formavam em sua cabeça, como se ele estivesse em um quarto branco, no meio do nada. Na única vez em que aquelas malditas vozes poderiam ser minimamente úteis elas desaparecem. Deus, Tom era um fodido mesmo.

Escrever sobre seus sentimentos, foi isso que Patryck o tinha dito para fazer. Mas como ele poderia escolher? Foram tantos momentos conturbados em sua vida de uma vez só que ele tinha um leque completo de merdas para escrever sobre. Apesar de que, ele tinha de admitir, as coisas estavam muito piores para ele há algum tempo atrás. Ele não conseguia controlar a sensação de angústia que crescia em seu peito e sua consciência parecia puxada cada vez mais para longe da própria mente, como se ele fosse um espectador da própria vida. Ficar sozinho era uma desgraça, porque ele não tinha distrações para impedi-lo de pensar naqueles sentimentos insistentes, naquelas memórias perturbadoras. E aquela voz ficava mais e mais alta. Ele não sabia se era ele, se era ele, ou se eram os dois. Elas se misturavam em sua cabeça, como se fossem uma só, ecoando em seus ouvidos.

E era isso que mais o assustava.

O quanto dele ele já tinha perdido? O quanto de si ele já não podia mais tocar, não podia mais sentir? Ele queria acabar, mas não queria acabar com tudo. Era pedir demais que aquelas malditas sensações fossem embora? Ele só queria ter o controle de novo.

Tord já o disse várias vezes que ele devia passar com um terapeuta, tantas e tantas vezes, mas ele não se sentia muito confortável falando sobre isso com alguém que ele não conhecia. 

Foi um tanto irônico que, então, Tord tenha virado seu terapeuta, especialmente depois de tudo que tinha acontecido após seu retorno, a destruição da casa e tudo isso que todos já estavam cansados de ouvir sobre.

Eles costumavam se encontrar durante a noite, no apartamento de Tom ou no telhado, e passavam horas conversando. Nenhum deles sabia como acabaram assim, mas aconteceu. Em vários desses encontros, conforme eles bebiam e perdiam o controle das próprias vozes, os segredos e confissões iam se esparramando pelo chão, revelando-se para a escuridão da noite cinzenta. Talvez o que fosse pior para ele na época fosse o fato de que eles não estavam bêbados o suficiente para perder a consciência, ou seja, eles se lembravam de quase todos os detalhes no dia seguinte. E seus encontros para atirar e beber se transformaram em completas sessões de terapia. Foi um tanto tímido no começo, mas, aos poucos, eles foram se abrindo um para o outro, abriram quase todas as feridas, e enfim conseguiram fechá-las.

E, por um segundo, Tom sentiu como se pudesse respirar de novo.

As coisas não estavam perfeitas, ele ainda tinha um monstro alojado no fundo de sua mente, mas era bom sentir um peso subir de seus ombros. Depois de tanto tempo, com tantos problemas empilhados um em cima do outro, qualquer saco tirado já significava muito; e isso se mostrou muito a calhar no futuro, visto que Tord não foi embora de novo, como disse que iria. Ele ficou. 

E Tom estava feliz que ele o tenha feito. Tord se tornou uma boa distração para o peso que sobrou. Tom não tinha que pensar no monstro, seu passado ou qualquer outra coisa. Aqueles pensamentos já não invadiam mais sua cabeça com tanta frequência e, apesar de a angústia, a ansiedade e seus medos continuarem existindo e martelando sua cabeça, as coisas realmente pareciam estar melhorando para ele.

Isso até hoje.

O que ele viu não seria facilmente esquecido, Tom não queria que fosse, ele precisava se lembrar do que viu para saber o que fazer para ajudar, para cumprir o papel no exército do qual escolheu fazer parte. Contudo, isso não quer dizer que ele estava pronto para lidar com mais um peso. Pessoas sofrendo, morrendo, além de onde ele conseguia alcançá-las, passando por algo talvez muito pior do que ele passa, e ele não podia fazer nada para ajudar. E isso também o assustava. Tom não podia se ajudar, já tinha se conformado com isso, mas se ele não podia ajudar os outros, o que restaria dele? Para que ele existia? Ele não servia para si mesmo, tentar alcançar os outros era tudo que ele podia fazer, tudo que estava ao seu alcance, e se ele não podia nem isso, para que ele servia? Por que ele estava ali? Não fazia sentido. Ele entrou naquele exército para poder contribuir com seus objetivos e combater o próprio tédio, mas, sem poder fazer nada, ele não precisava estar ali. Ele era um peso morto.

E os barulhos em sua cabeça não calavam a boca.

Essa era a pior parte, os barulhos. Tanto a voz do monstro ecoando em sua cabeça quanto a outra voz, além da sensação de ter os ouvidos entupidos, se aproveitavam dele no segundo em que o pegavam sozinho. Quando ele estava sem nenhuma distração, sem ninguém por perto, por mais que o quarto estivesse vazio, era como se ele estivesse no meio de uma multidão. E todos olhavam para ele. Tom não conseguia fazê-los calar a boca, ele não conseguia ouvir os próprios pensamentos, não havia uma linha coerente; ele não sabia onde estava, o que estava acontecendo, se estava sozinho ou com alguém, ele não se sentia no controle do próprio corpo. E ele precisava afogar aquelas vozes de alguma forma.

Ele só queria ouvir o silêncio mais uma vez, poder ouvir a própria respiração e o coração calmo e respirar sem mais problemas, mas ele não conseguia quando tinha tanta gente falando ao mesmo tempo.

E era nesse momento que a outra voz tirava vantagem dele.

Tom era medroso, por mais que não gostasse de admitir, especialmente quando se tratava de assuntos relacionados a ele mesmo. Por mais que ele entretivesse os pensamentos de vez em quando, imaginando como seria, ele nunca, em nenhuma ocasião, se viu realmente fazendo as coisas que aquela voz o seduzia a fazer. Ele não conseguia segurar uma faca, apontar uma arma ou pendurar uma corda; aquele era seu limite. Mas isso não tornava aqueles pensamentos fáceis de lidar.

Ele não sabia o que fazer. Seu corpo travava, ele não conseguia se mexer, como se estivesse congelado. E então o monstro entrava e se juntava ao novelo de sussurros, ele conseguia senti-lo tocando sua pele, arrepiando seus pelos, mas Tom não conseguia se mexer e as vozes ficavam mais altas, mas ele não conseguia tampar os ouvidos, ele não conseguia se mexer, e eles podiam fazer o que quiserem com ele e ele não podia dizer não.

Ele só queria que acabasse de uma vez. Ele só queria poder respirar. Ele queria poder abrir os olhos e se sentir bem e poder ter todos os pesos fora de seus ombros para poder ser o amigo que sabia que Edd, Matt e Tord mereciam. E ele não entendia como eles conseguiam ficar perto dele nesse estado. Por que eles não fugiam dele? Por que eles continuam ali? Por que sorriem pra ele quando ele não consegue ouvi-los? No que eles estão pensando?

E para onde ele iria se tudo acabasse?

Quando Tom voltou a si, a caneta já tinha chegado ao fim da folha.

(...)

Sair despercebido não era tão fácil quanto Matt pensava. Ele pensou que, assim que desse a hora de todos voltarem para o quarto, ele não teria problema em andar pela base e chegar ao lugar que Paul o indicou. No fim, ele quase foi pego, uma vez por um soldado aleatório e outra por Tom. Matt não tinha a menor ideia do que seu amigo estava fazendo acordado a essa hora, mas ele não estava em posição de perguntar.

Depois de quase se perder umas três vezes mo caminho, ele encontrou Paul na porta de trás do primeiro andar, esperando por ele com um cigarro entre os lábios. 

- Pegou tudo? - o soldado perguntou. Matt sorriu e puxou as chaves do bolso. - Ótimo, agora só precisamos ir para o helicóptero sem ninguém nos ver.

- Por que não vamos de carro?

- As recrutadoras estão se preparando para buscar os novatos a essa hora para passá-los pelo escâner médico e fazer exame de sangue. Todos vão estar de olho nos carros. Mas ninguém em sã consciência ia pensar em pegar um helicóptero. Se deixarmos longe do chão o bastante, o barulho não vai chamar a atenção. - Paul sorriu. - Tem tudo para dar certo.

- O que vocês dois estão fazendo?

O francês travou quando estava prestes a abrir a porta, uma gota de suor escorrendo de sua testa, e virou para trás.

Matt e ele encararam Patryck de frente. O soldado polonês tinha os braços cruzados e uma carranca no rosto. 

- Estamos… Procurando leite quente! - o ruivo tentou inventar uma desculpa; não era a melhor, mas era melhor do que nada, além de que eles estavam mais ou menos próximos de uma das cantinas.

- É! Isso! Acabou o leite da geladeira da cantina e estamos indo buscar mais, pra dormir melhor!

Patryck, que já não estava com a cara muito boa, agora estava ainda pior. Estreitou os olhos e franziu os lábios em desprezo.

- Eu acabei de voltar da cantina e tinha uns cinco galões de leite na geladeira. E vocês estão perfeitamente vestidos. - o polonês encarou os dois de cima a baixo, claramente nem um pouco convencido da desculpa. Já não havia esperança para aqueles dois. - O que vão fazer?

A dupla se entreolhou, incertos se deveriam contar à Patryck a verdade sobre sua busca. Ele podia muito bem contar à Tord sobre o que estavam fazendo, já que nada daquilo estava segundo documentado ou reportá-lo, mas Patryck não era do tipo que rateava ou outros para o líder, especialmente quando seu noivo estava envolvido. Apenas há algumas horas atrás, ele e Paul abrigaram três soldados que deviam estar treinando em seu quarto. Eles precisariam arriscar.

- Nós vamos pra casa do Matt pegar a arma de memórias de volta. - explicou Paul, sua voz apreensiva.

- O Tom ainda guarda ela no quarto dele, eu tenho certeza! - ressaltou Matt. Ele não podia fazer muito naquele momento, além disso, mas é melhor que nada, certo?

Patryck continuou os encarando com desdém em seu rosto, mas, com um suspiro, ele amoleceu os ombros.

- Nesse caso, eu vou com vocês. - ele disse, convicto. 

- Amor, não precisa. - Paul disse e colocou as mãos nos ombros do noivo. - Volta pra cama que eu lido com isso.

- Eu não confio em vocês pra ficarem sozinhos no helicóptero. Se essa merda cair, quem leva ovo sou eu, e pelo menos se eu morrer junto do helicóptero vai ser mais rápido e menos doloroso. Eu vou com vocês.

No fim do dia, eles não tinham muita escolha. Se Patryck não fosse com eles, contaria tudo à Tord, então Matt e Paul tiveram que dar boas-vindas ao polonês em sua busca pela arma de apagar memórias. 

Isso era algo que Paul admirava bastante em Patryck, na verdade. A forma como ele era convincente e sabia exatamente o que dizer para convencer os outros a fazer o que ele queria. Paul não tinha essa habilidade, e por mais que ela pudesse ferrá-lo em várias ocasiões, ele tinha orgulho das habilidades estrategistas e de negociação de seu noivo. Patryck era bom em várias coisas que Paul não era, assim como era o contrário, o que os tornava uma das melhores duplas do Red Army - não sendo à toa que ambos fazem parte do conselho. Ele definitivamente estava para se casar com a pessoa certa.

De carro, o trajeto até a casa de Matt não era muito demorado, levando cerca de uma hora. De helicóptero então, era mais rápido ainda, demorando apenas cinco minutos. Não foi uma viagem muito divertida, mas os dois soldados do conselho conseguiram aproveitar o tempo respondendo às perguntas de Matt. Ele era um rapaz bem curioso, com várias ideias e questionamentos em mente, bem parecido com uma criança; e responder sua série de questionário na verdade era uma ótima forma de entretenimento.

- Por que vocês não usam a arma de apagar memórias pra lidar com os problemas que aparecem pra vocês? Não seria muito mais prático ter apagado a memória dos inimigos pra tomarem o controle dos outros países de uma forma mais tranquila? - pelo menos Matt assumia que seria mais fácil dominar o mundo se ninguém soubesse o que está acontecendo; mas quem disse que ele sabe de alguma coisa?

Na verdade era uma boa ideia, mas havia inúmeras razões para Tord não recorrer àquela arma - uma delas sendo o fato de ela não estar em sua posse quando ele fundou o exército.

- Ela não estava pronta na época. E, além do mais, ela não está pronta até agora. Muitos efeitos colaterais. Ela apaga completamente a memória do indivíduo que é acertado nela, mas os testes que fizemos nos mostraram que todos os casos acabam resultaram em um progressivo dano no desenvolvimento do indivíduo. - Patryck tentou explicar a lógica para o ruivo, mas, percebendo sua cara de confusão, tentou resumir. - Quando uma pessoa perde as memórias de curto prazo, elas permanecem com um instinto remanescente, um resquício das suas memórias, mas aos poucos esse instinto se perde e tudo que resta vem das memórias de longo prazo, a maioria remetidas à infância. Quem usa o apagador de memórias basicamente vira criança de novo. É um processo lento, mas acontece. Por isso evitamos de usar; muita dor de cabeça para pouca coisa. 

Matt mordeu o lábio inferior, as palavras de Patryck zumbindo em sua cabeça. Se as pessoas que recebiam um tiro daquela arma ficavam com a mentalidade de uma criança, então ele estava com a mentalidade da criança que ele foi naquele exato instante. É por isso que ele se sentia tão estranho perto de seus amigos? Porque eles ainda tinham a inteligência que conseguiram no Ensino Médio e ele não? Mas eles sempre agiam como se as coisas que falassem fosse óbvio e claro para todos, como se Matt devesse saber dessas coisas. Mas, se até mesmo uma criança pudesse saber daquelas coisas, então esse tempo todo eles o estavam chamando de burro, não? Quando ele era pequeno, sua mãe sempre o dizia que ele era a pessoa mais inteligente da classe, que as notas estavam erradas. Sua mãe não mentiria para ele. Nada fazia o menor sentido.

O silêncio de Matt causou um pequeno problema de interpretação entre Paul e Patryck. Eles sabiam mais do que o ruivo, inclusive a razão pela qual não incorporaram uma arma de apagar memórias no Red Army, mas em matéria das memórias que ele ainda mantinha, não sabiam até onde ela ia. Matt aparentemente se lembrava de coisas de sua infância, mas muito do que veio depois nunca lhes foi dito, ou se foi foi pela boca de outra pessoa. Não tinham como saber se ele se lembrava do reinado que ele instaurou sobre tudo em toda a existência depois de roubar uma máquina do tempo; e é até melhor que ele não se lembre. Mas, apesar de tudo, ainda eram suas memórias, e ele se lembraria de qualquer forma após recuperar a arma de apagar memórias.

Paul encarou Patryck com culpa em seu rosto, mas não fez nada; ele não faria até conseguir a opinião de seu noivo. Para sua sorte, Patryck compartilhava da mesma expressão, e assentiu com a cabeça para se fazer mais claro.

- Ok, na verdade tem outro motivo. - Paul decidiu abrir o jogo. - Há alguns anos atrás, quando ainda estávamos na faculdade, uma pessoa já tinha dominado o mundo usando uma máquina do tempo. Eu não lembro o que aconteceu com ele, mas um dia ele mexeu em uma máquina de apagar memórias e apagou coletivamente a memória do mundo todo. Ninguém lembra do reinado dele, nem de como ele era ou o que ele fazia, mas ele existiu, juro.

Matt arregalou os olhos, espantado com a história. Ele não tinha a menor ideia de que o mundo já foi dominado uma vez!

- E como vocês sabem? Ele não apagou a memória de todo mundo?

- Estávamos viajando no tempo na época. - Patryck disse e tomou a dianteira para contar a história. - Queríamos descobrir o que aconteceu com esse cara pra ele virar o rei e o criador de tudo na existência. Não fomos afetados pelo raio porque não estávamos aqui pra receber o tiro.

Matt murmurou em compreensão, sua mente muito mais clara.

- E vocês viajaram no tempo como?

- O Tord fazia robótica e engenharia. Ele inventou uma máquina do tempo e nós fomos. - Paul deu de ombros, e, com as perguntas respondidas, Matt enfim se calou.

Paul e Patryck relaxaram em seus assentos e continuaram a viagem sem mais problemas. Eles não se sentiam muito bem por não terem contado toda a verdade, mas sabiam que seria melhor não dar ideias à Matt, especialmente enquanto eles estavam pilotando.

A história era um pouco mais complicada do que isso. Na verdade, não complicada, desenvolvida. A questão é que Tord não era cego. Ele percebeu que a máquina do tempo que Matt exibia pra lá e pra cá era sua - ele mesmo já tinha ideias de um protótipo que se parecia exatamente com aquela máquina. E se tinha algo que Tord odiava, é que roubassem suas invenções e clamassem que eram delas. Independentemente de ter sido roubado de uma versão futura sua, ainda era a máquina dele. E Tord não perdoava ninguém que mexia em suas coisas. Foi Tord quem derrotou Matt e apagou a memória de todos, tendo que voltar no tempo ele mesmo para consertar tudo que ele tinha mudado. A sorte é que Tord sempre foi muito bom em história.

Eles também exageraram na parte da máquina de apagar memórias. Ela já estava pronta para uso, bem mais refinada que o protótipo que usaram em Matt. Eles não a usavam porque ela era reservada para aqueles que traíssem o exército ou decidissem sair. Poderiam configurar para apagar a memória do mundo todo, assim como fizeram da primeira vez, mas isso também resetaria o progresso de seu exército, visto que não eram capazes de selecionar absolutamente todos os membros de todas as bases que tinham para que eles não perdessem a memória. Era algo muito arriscado e não valia a pena a longo prazo. Portanto, Tord acabou decidindo reservar-se a apenas o uso quando estritamente necessário, que era a eliminação de soldados rejeitados.

Depois de mais alguns minutos voando, o ruivo se segurou no ombro de Paul e o chacoalhou de leve para chamar sua atenção.

- Minha casa é ali. - disse ele e apontou para o telhado vermelho de sua nova casa. 

Ainda era estranho se referir àquele lugar como sua casa; ele não tinha ficado sequer uma semana lá. Ele e os outros foram todos levados para o Red Army e tiveram que deixar a casa para trás. Seria bom poder voltar alguma hora.

Paul colocou o helicóptero no piloto automático e se levantou do assento para buscar a corda para Matt e amarrá-la para que ele pudesse descer.

- Desça, pegue a arma e dê o fora. - Paul disse quando terminou de atar o nó. - Quanto mais rápido sairmos daqui, menos riscos corremos e mais rápido restauramos suas memórias. Vamos te descer e puxar de volta quando sair, mas até lá vamos deixar a corda puxada; não estranhe se sair e não nos achar.

Matt assentiu e tomou a corda em mãos enluvadas; luvas dadas mais cedo por Paul justamente para que ele descesse. Pulou a segurando com toda a força e deslizou com rapidez até o solo sem maiores problemas.

A noite nublada colaborava muito bem para esconder o helicóptero que o esperava no céu; mal estava visível. Se ninguém estivesse acordado e decidisse olhar pela janela, eles nunca seriam descobertos. Mas Matt precisava ser rápido, por via das dúvidas.

Tirou a chave do bolso e destrancou a porta com pressa, olhando por cima dos ombros para ter certeza de que ninguém o estava espiando, e então entrou, batendo-a atrás de si.

A casa estava praticamente igual à última vez em que esteve lá, com exceção de um robô faxineiro, que andava de um lado para o outro, sugando os coelhos de poeira e as aranhas enxeridas; algo dizia à Matt que Tord esteve por ali desde a partida deles. 

O ruivo foi para o quarto de Tom e virou a maçaneta; sua porta, felizmente, estava destrancada. O lugar não tinha nada de especial, apenas algumas roupas bagunçadas, no máximo. Nenhum sinal de Susan ou experiências malucas de Tord ou qualquer coisa do tipo. Nem mesmo o apagador de memórias. 

Ele começou a vasculhar pela bagunça, tirando tudo do lugar e jogando pelo quarto sem cuidado algum. Ele não sabia nem se Tom ainda tinha a arma ou se já a tinha jogado fora, muito menos se ela tinha quebrado, mas ele tinha que tentar, Ele tinha que conseguir aquelas memórias de volta. Ele estava cansado de estar quebrado.

Podia ser meio assustador, mas Matt estava bem empolgado para recuperar suas memórias. Por tempo demais Edd e Tom agiram como se eles soubessem de algo que ele não sabia, e isso o deixava bem chateado, e às vezes um pouco bravo. Talvez agora ele finalmente soubesse do que se tratava, e ele poderia se sentir próximo deles novamente. Ele tinha que achar aquela arma.

Eventualmente, Matt percebeu algo de diferente debaixo da cama de Tom; um volume debaixo de um suéter velho. A princípio, ele temeu ser um dos dildos que ele sabia que Tord mantinha escondido por aí, mas quando de fato sentiu a forma, ele teve certeza.

Ele estava certo. Tom realmente ainda tinha a arma.

Puxando o suéter de cima da arma e depois a trazendo para si, Matt suspirou e a escondeu debaixo de seu sobretudo, como se estivesse contrabandeando drogas. Suas mãos tremiam; ele finalmente entenderia a razão de se sentir estranho assim o tempo todo. Ansiedade crescia em suas costas e cada passo que Matt dava em direção à porta era um passo mais perto de descobrir toda a verdade.

Ele quietamente fechou as duas portas atrás de si, tanto a de Tom quanto a da frente, e passou a chave. Matt sairia dali, pegaria a corda e seria como se nada nunca tivesse acontecido.

- O que você está fazendo aqui? - uma voz grossa e estranhamente familiar chamou atrás de si enquanto ele guardava as chaves no bolso.

Ao virar-se de frente, Matt escondeu a arma na parte de trás de seu sobretudo, segurando-se a ela com toda a força que podia para mantê-la parada. O azul de seus olhos se arregalou ao encarar a contraparte de Edd cara a cara, este com os braços cruzados e sobrancelhas juntas. Ele não parecia nem um pouco amigável; só mostrava que Matt precisava tomar mais cuidado ainda com a arma escondida atrás de si.

- Eduardo! Há quanto tempo! - ele exclamou com um sorriso, tentando parecer amigável. - Nossa, com a correria que as coisas estão esses dias, eu mal parei pra pensar que faz tempo que não nos falamos! Vamos tomar um chá um dia desses, viu, mas agora eu preciso mesmo ir andando.

O latino o encarou com os olhos estreitos assim como os lábios. Ele não engoliu absolutamente nada daquela desculpa; como poderia? Matt era péssimo nelas. E o ruivo tinha quase absoluta certeza de que ele tinha reparado na gota de suor que escorreu por sua testa em nervosismo.

- E onde você estava exatamente? - ele perguntou sem mudar sua posição. A forma como os ombros enrijeceram só deixou Matt ainda mais nervoso na verdade; e isso não ajudaria em nada a manter uma postura convincente para tirar Eduardo do seu pé.

Matt engoliu em seco e puxou a gola do moletom com a mão livre. O clima estava frio, mas ele estava morrendo de calor, suando igual a um porco.

- O Edd achou que seria uma boa ideia fazermos uma pequena viagem, só nós dois. Queríamos provar ao Tom e o Tord que não precisamos deles pra nos divertir; mas eu tive que voltar porque começou a faltar dinheiro pro hotel em que estamos ficando. - ele disse e se deu um tapa nas costas pela desculpa. 

- É isso que você está escondendo atrás das costas?

Mas Eduardo não cedia de jeito nenhum. Deus, eles não se conheciam direito, como ele sabia que Matt estava mentindo? Ele era tão mau mentiroso assim?! Não é como se fosse a primeira vez que ele fosse obrigado a inventar uma desculpa para se safar de alguma cagada. Eduardo não era tão inteligente quanto se fazia passar para não cair nessa desculpa; ela, assim como tudo que Matt fazia, era absolutamente linda.

O ruivo abriu a boca para dizer algo quando um barulho estrondoso, parecido com metal batendo no chão, ecoou em seus ouvidos. Vindo de logo atrás de Eduardo, ele se virou para ver o que era, e viu as latas de lixo na frente de sua casa derrubadas no chão, com seus conteúdos se espalhando pelo asfalto.

- Filho da puta, eu limpei isso hoje! - ele exclamou e percebeu no mesmo segundo que estava distraído. Porém, ao virar-se novamente, Matt já tinha desaparecido. - Merda!

Na primeira chance que teve, Matt saiu correndo para os fundos da casa, para onde o helicóptero o seguiu, segurou-se na corda jogada para ele e foi puxado para cima; visto que não estava em condições de escalar. Foi por muito pouco, mas ele conseguiu escapar da mira de Eduardo.

Deus, o que há de errado com aquele cara? Eles não se falam há anos, não desde que a antiga casa foi explodida, e agora que eles eram, tecnicamente, vizinhos de novo, ele se via no direito de invadir o espaço dele sem sequer dar um oi antes? Quanta grosseria! E não foi por falta de convite, porque Edd tentou puxar conversa com ele e até o chamou para comer com eles uma vez; convite este que o latino recusou. E agora de repente ele estava interessado no que Matt estava fazendo? O ruivo não era a pessoa mais inteligente do planeta, mas até ele conseguia ver que tinha algo errado.

Edd, você tem um gosto horrível pra parceiros românticos.

Paul guiou Matt para um dos assentos do helicóptero e o amparou enquanto Patryck tomava o controle da direção. O ruivo pôde enfim tirar aquele objeto de suas costas e segurá-lo em suas mãos enquanto o soldado ao seu lado analisava as condições desta.

Ele ainda estava nervoso. Agora que finalmente tinha a arma, é como se sua mente dissesse para desistir do plano; que não valia a pena. Mas não podia não valer a pena, não quando ele já tinha chegado lá. Matt queria saber, queria descobrir a verdade sobre seu passado e a porção de sua vida que perdeu. 

Um suspiro trêmulo deixou seus lábios e ele ouviu Paul perguntar baixinho se ele estava bem. Ele assentiu.

- E como vamos fazer isso? - ele perguntou, gesticulando com o rosto para a arma em suas mãos.

- Pra isso vamos precisar usar a sala de simulação. Não tem como forçar as memórias de volta pra sua cabeça, o melhor que podemos fazer é passar pra você assistir. - Paul disse ao traçar as linhas da arma com a ponta dos dedos.

- Tipo um filme?

- Tipo um filme.

A mente de Matt se livrou imediatamente daqueles pensamentos, como se fossem sacos de lixo, e um sorriso foi forçado em seus lábios.

- Yay! Eu adoro filmes!

O francês sorriu, o cigarro pendurado no canto dos lábios e deu uma breve tragada antes de prosseguir.

- Eu sinto, no entanto, que agora está muito tarde. Precisamos descansar. Resolveremos tudo isso amanhã a tarde; no primeiro momento que surgir uma vaga em sua agenda. Como somos parte do conselho, vai ser fácil tirar você da sua aula de treinamento.

- Ou podemos mudar a escala. - Patryck sugeriu do assento do piloto.

Paul assentiu, suportando a ideia.

- De qualquer forma, seja lá o que formos fazer, decidiremos pela manhã.

Apesar de muito ansioso para descobrir a verdade, Matt assentiu e relaxou em seu assento. Paul tinha razão; se preocupar com essas coisas a essas horas da noite não era uma boa ideia, e ele precisava de seu sono de beleza. 

Enquanto ainda voavam no helicóptero de volta para a base, Matt fechou os olhos por um segundo, apoiou-se no ombro de Paul e acabou dormindo com a arma na mão. No meio do sonho, ele apertou seus dedos sobre o gatilho, suave demais para disparar mas perceptível o bastante para ser processado por seu subconsciente. Ele não sonhou com nada.

(...)

Era a segunda noite seguida que Tord acordou às quatro da manhã, dessa vez sem precisar do despertador. Não porque ele estava particularmente ansioso para o que aquele dia o reservava, mas porque ele tinha perdido o sono; e também o humor quando percebeu que tinha dormido de uniforme. Ele revirou os olhos, irritado. Agora teria que tomar um banho demorado para se livrar do cheiro de suor que tinha sobrado do dia anterior; ainda mais trabalho.

Pelo menos Tom não acordou com o som dele saindo da cama. Ele sabia como ele tinha sono leve de vez em quando, especialmente quando algo o chateava; ele não conseguia dormir direito.

Tord passou vinte minutos no chuveiro antes de sair. A água fria não ajudou muito com seu mau-humor, muito menos com seu cansaço, mas pelo menos tirou o suor preso em sua pele, o que já era um começo. Agora ele só tinha que sobreviver o resto do dia.

O norueguês deixou o banheiro com uma toalha enrolada na cintura e água pingando de seus cabelos e se escondeu dentro do armário para buscar uma roupa confortável, além de um uniforme limpo. Dessa vez, ao invés de seu moletom vermelho, ele colocou apenas uma blusa preta por baixo do sobretudo do uniforme. Já passava calor demais com aquele tecido grosso, quem dirá mais uma roupa de frio por baixo.

Ao terminar de se vestir, ao mesmo tempo que seus chifres característicos voltaram a se esticar de sua cabeça, já estando secos, o barulho de lençóis se mexendo veio da cama e Tom abriu os olhos.

- Acordou de novo? - ele resmungou ao ver Tord de pé e com o uniforme posto.

Um sorriso surgiu nos lábios do norueguês e ele foi para a cama para dar um beijo suave na testa de Tom.

- Esse é o horário que eu sempre acordo, amor. Tenho coisas importantes de líder pra fazer. - ele disse, beijando-o mais uma vez. - Aliás, assina aqui. - acrescentou ao puxar uma prancheta que estava em sua mesa por sabe-se lá quanto tempo.

- O que é isso? - Tom perguntou, sentando-se.

- É pra inscrição pra ser meu guarda-costas. - informou Tord. - É em uma semana.

O sem olhos murmurou em compreensão e pegou uma caneta para assinar o papel na prancheta. Não esperava muito daquela tentativa de se integrar ao exército e à vida profissional de Tord, mas tentar nunca matou ninguém; pelo menos até agora.

Tord sorriu ao tirar a prancheta de suas mãos.

- Também consertei seu óculos. Estão na mesa. - ele disse e gesticulou com a cabeça para o local indicado. - Você provavelmente vai ter que usar por mais uns seis meses até fazermos a cirurgia. Tente tirar o menos possível. 

Tom deu de ombros e pegou os óculos. Estranho. Ele nem tinha reparado neles quando se sentou para escrever em seu caderno. Se bem que estava escuro, então ele não tinha como saber que seus óculos estavam ali. Ele só escreveu o que quer que viesse a sua mente em uma página aleatória do caderno e o escondeu debaixo do colchão quando acabou. Aquele não era o tipo de coisa que ele se sentia confortável mostrando para Tord; Tom gostava de manter os próprios segredos de vez em quando, o fazia se sentir menos dependente.

Um alarme começou a apitar no celular do norueguês, chamando a atenção do casal e fazendo o dono do celular grunhir.

- Tenho que ir. - ele disse baixinho e Tom assentiu. - Hoje você vai ficar com a Angela; ela provavelmente vai te treinar em combate corpo a corpo ou sei lá. Pra desestressar do que aconteceu ontem e essas coisas.

Tom assentiu mais uma vez e deu um rápido beijo de despedida em Tord antes de vê-lo deixar o quarto. Depois disso, sem mais o que fazer, ele se levantou da cama, fez sua higiene diária, e foi para a cafeteria tomar café depois de pronto. Ele não esperava nada demais daquele dia, portanto não agiria como se fosse algo demais. Tom era desleixado, especialmente quando seu humor estava uma bosta, e aquele era exatamente esse caso.

Quando Angela o levou para a área de treinamento, demorou mais do que o que deveria ser necessário para Tom começar a se motivar. O lugar era repleto de todo tipo de equipamento, desde sacos de areia para aqueles que treinavam box, quanto tatames para combate corpo a corpo. Até aqueles que não queriam treinar podiam encontrar o que fazer ali; eles tinham uma bela variedade de halteres e equipamentos de musculação para aquecimento, então a falta de preparo não era uma desculpa. Tom simplesmente não queria fazer nada. Ele estava acabado. Encarar o saco de pancada por uma eternidade não o deixaria com vontade de socá-lo.

Ele só queria desaparecer. Poder deitar em algum lugar e simplesmente perder a consciência, sem mais nem menos. Ele não se importava para onde iria ou o que faria, nem mesmo o que estava acontecendo; Tom só queria um segundo de paz.

Uma mão tocou seu ombro de repente, sua aproximação silenciosa o fazendo pular de susto. Edd estava atrás dele, ainda vestindo aquele sobretudo preto por cima do uniforme, por cima do moletom verde, por cima da blusa branca, e o encarou com preocupação, mascarada em sua neutralidade. 

- Treinando? - ele perguntou ao não receber nenhuma reação de Tom, apenas seus olhos vazios. 

Ele também tinha sido designado para treinar; não esperava encontrar o amigo ali, e ele parecia tão inquieto, mesmo parado, que Edd não resistiu a tentação de se aproximar e descobrir a razão daquele comportamento estranho. Depois do que descobriu no dia anterior, Deus o perdoe se ele deixar as coisas continuarem do jeito que estão.

Tom balançou a cabeça em sim para a pergunta. Eu deveria estar, pelo menos, ele deixou de fora.

- Se importa se eu me juntar? - Edd ofereceu, tirando o sobretudo e tudo que tinha embaixo e jogando-os em uma pilha perto da parede. 

Tom deu de ombros.

- Fique à vontade.

O moreno abriu um sorriso e, com um golpe de mão, socou o saco de pancada com toda a força que podia. E o saco voltou direto na sua cara. Ele foi parar quase do outro lado da arena, de costas no chão e o rosto vermelho. Tom murmurou uma risada com a mão na boca e deu um passo para trás quando Edd correu para o saco de pancada, preparando outro soco.

A cena se repetiu mais algumas vezes. Edd socaria o saco, ele voltaria em sua cara e Tom riria na maior cara de pau. Não demorou muito para que o de olhos inexistentes entendesse a realidade da situação; Edd estava tentando fazê-lo se sentir melhor depois do dia anterior. Era fofo da parte dele, mas Tom estava bem só mantendo seus segredos consigo mesmo; deixava ele e Matt fora da área de risco.

Depois de tanto socar e socar, Edd caiu no chão, cansado, e Tom o acompanhou até a parede, onde os dois se sentaram por um minuto para que o mais alto pudesse recuperar o fôlego.

- Como você tá? - Tom perguntou enquanto o via engolir metade da garrafa de água em questão de segundos.

- Já estive melhor, com certeza, mas foi bom pra exercitar os músculos. - Edd respondeu e sorriu após limpar a boca com a costa da mão. Sua expressão feliz durou pouco, no entanto, quando ele se virou para Tom e fez a mesma pergunta. - Como você está?

Tom sabia que isso aconteceria uma hora ou outra. Edd é curioso, assim como Matt, além de xereta; se intrometer nos assuntos dos outros era tão parte de sua rotina quanto desenhar. Mas ele não queria falar sobre isso, não agora.

- Como você acha? - ele decidiu dizer, apoiando a bochecha no próprio ombro para encarar o amigo.

Horrível, com certeza. Tom nunca se sentia de outra forma quando falava daquele jeito, especialmente quando respondia uma pergunta com outra pergunta. 

Edd suspirou. No fundo, talvez ele soubesse que não poderia tirar satisfação alguma do amigo, mas, sendo o teimoso que era, resolveu tentar mesmo assim. Ele não tinha nada a perder, não é; e Tom já se irritava o tempo todo de qualquer maneira.

- Por que você não me contou que sofre ataques de pânico? 

- Porque não é da sua conta. - a resposta foi imediata.

- Tom… 

- Tá, desculpa. Mas, sério, eu tô bem. - ele insistiu. - Só preciso aprender a me controlar melhor.

Que Tom era reservado Edd já sabia, sempre foi assim, mas aquele era um assunto sério, que afetava tanto a ele quanto todos os outros com quem Tom convivia. Ele precisava saber o que estava acontecendo para saber o melhor jeito de lidar com a situação; sempre foi assim.

- Você não acha melhor procurar um psicólogo? - ele sugeriu, mas Tom, além de reservado, era teimoso.

- Não precisa. Eu me viro sem ninguém. - Tom respondeu e puxou as pernas para o peito, envolvendo-as com os braços.

Edd soltou um suspiro cansado e estressado; ele não estava com humor o suficiente para lidar com aquilo agora. Estava tão impactado quanto Tom e Matt, e isso não os dá o direito de passar por cima de tudo daquela forma. Como Paul tinha dito, eles precisam ficar juntos em tempos assim.

- Olha, se você não tá confortável falando com alguém que não conhece, fala pro Tord; não sei. Eu tô preocupado com você, Tom.

Dessa vez foi Tom quem suspirou. Era justamente por isso que ele não contava nada para Edd. Ele não gostava de se estressar com os problemas dos outros, especialmente com coisas que estavam fora de seu controle; ele se conformava mais rápido que os demais e seguia em frente fazendo aquilo que podia, enquanto Tom era do tipo que remoía tudo que acontecia pelo máximo de tempo possível. Não era justo que ele incomodasse um de seus melhores amigos com seus problemas se ele não tinha como ajudá-lo.

- Não precisa. Eu tô bem, relaxa. Já tenho quem me ajude a lidar com isso, não precisa ficar se preocupando à toa. - Tom insistiu e se levantou, caminhando para a pilha de halteres no chão e contemplando se devia pegar algum.

Edd o acompanhou com olhos doloridos. Tom não falaria nada, e ele tampouco tinha direito de se meter daquele jeito. Talvez ele só não estivesse pronto para falar ainda; aquela história era recente, afinal. De qualquer forma, Edd não estava se sentindo muito confortável para insistir naquela questão agora. Talvez uma outra hora.

- Tá bom, então, se você diz… - ele disse ao se levantar e seguiu atrás de Tom, parando bem atrás dele. Respirando fundo, Edd resgatou uma ideia no fundo de sua mente; algo que na verdade ele já vinha pensando há algum tempo. - Me deixa treinar com você regularmente de agora em diante pelo menos. - muito tempo se passou desde que Edd e Tom se conheceram, mas recentemente eles ainda pareciam distantes um do outro, assim como era entre os três em geral. Talvez tenham sido as circunstâncias, ele não sabia, mas as coisas estavam diferentes. Aquela seria uma oportunidade interessante para Edd tentar resgatar aquela conexão que ele tinha com um de seus melhores amigos, além de poder ajudá-lo com seus próprios problemas; que eram muitos. - Eu sei que você tem bastante raiva acumulada, Tom, sobre muitas coisas; me deixa te ajudar a desestressar. Lutar com alguém deve ser mais divertido que bater em um saco de areia. - ele virou-se para o saco de areia que socou tantas vezes anteriormente e atirou nele um raio-laser de seus olhos, destruindo-o no mesmo instante. - Viu? Eles caem muito fácil. 

Tom sorriu com a cena e revirou os olhos. Edd podia ser inconveniente, mas ele também sabia ser estúpido de um jeito divertido, sem malícia. Tom sempre guardava aqueles momentos com carinho.

- Preciso ver minha agenda certinho, mas posso considerar. - ele deu de ombros. - Acho que seria uma boa ideia; e te ajudaria também, não?

- Nah, eu não preciso. - gesticulou com as duas mãos. - Eu tô suave. Considere isso o favor de um amigo e um presente de aniversário adiantado.

Huh. Com todo o tumulto dos últimos dias, Tom tinha esquecido que esse dia estava chegando, não que ele se importasse.

- Não comemoro, mas, obrigado.

Edd sorriu e deu dois tapinhas nas costas de Tom antes de voltar para a pilha de roupas que jogou longe e ajeitá-las da maneira correta. Enquanto ele fazia isso, Tom sorria por suas costas. Edd não tinha muito costume de sair da própria rotina pelos outros sem que tivesse algo por trás; era mais uma questão de comodismo do que ele ser um aproveitador, então quando ele saía daquela zona de conforto, já era um milagre por si só, maior ainda se envolvesse algum tipo de exercício físico, coisa que Edd odiava com todas as forças.

Embora Tom criticasse Edd pela forma como ele simplesmente ignorava as coisas que aconteciam ao redor dele, ele havia de admitir que entendia seu ponto de vista. Edd era despreocupado; não gostava de sofrer por coisas que ele não podia evitar, e às vezes Tom até sentia inveja dessa parte dele, pois ele nunca conseguiria fazer esse tipo de coisa, não com tudo que ele já sofreu, pelo menos. Conversar sobre seus sentimentos era bom, mas às vezes ele precisava de alguém como Edd por perto para não precisar pensar em seus problemas o tempo todo; para aliviar o estresse, mesmo que momentaneamente, e aproveitar o privilégio das coisas que estavam ao seu alcance.

Seja lá por quanto tempo aquilo fosse durar até as vozes voltarem a ecoar em sua cabeça e o momento fosse completamente destruído, Tom podia pelo menos aproveitar ao máximo. Ele só não podia deixar suas expectativas muito elevadas, assim a queda não doeria tanto, mas ele já estava acostumado a fazer isso.

(...)

Pessoas caminhavam de um lado para o outro, mesmo debaixo da escuridão que as grandes janelas de vidro do aeroporto mostravam existir lá fora. Todos tinham um lugar para estar e um lugar para ir, sempre apressadas demais para imaginar para onde o próximo iria. Tantas pessoas juntas, mas ninguém se importando o suficiente para abrir a boca.

Deus, Eduardo devia estar muito depravado de sono para estar pensando nessas coisas uma hora dessas.

Ao lado dele, Mark dormia sobre duas malas coloridas, uma pertencente à cada um deles. Eles estavam esperando a quase quatro horas para que seu voo fosse liberado e eles fossem chamados para o embarque, e a espera já os estava deixando loucos. Todos pareciam passar na frente deles, até de voos que eram depois dos deles e, francamente, isso estava enchendo o saco.

Eduardo encarou Mark de soslaio, o loiro ainda dormindo, e soltou um pesado suspiro. Aquela situação toda ainda parecia surreal, mas era onde estavam agora. Não tinha como voltar atrás.

O latino bocejou e encostou no banco da cadeira. Ele estava prestes a dormir junto ao amigo quando seu celular começou a tocar, despertando-o de seu quase sono. Eduardo quase caiu da cadeira com a tremedeira em seu bolso e quase arremessou o aparelho longe na tentativa desesperada de atender a ligação.

- Oi. - ele resmungou com o ouvido no celular.

- Já embarcaram? - uma voz feminina enlaçada em sotaque soou do outro lado da linha.

Fudeu. - Eduardo engoliu em seco. Endireitando-se na cadeira, ele puxou a gola da camisa e colocou um sorriso educado em seu rosto, por mais que ninguém fora os outros passageiros pudessem vê-lo.

- S-senhora! Estamos esperando a chamada.

- Excelente. Aguardem novas instruções assim que cumprirem a primeira parte da missão. Não se esqueçam, isso vai ser longo, então tenham certeza de que pegaram tudo que precisam, porque não vamos voltar para buscar nada de vocês.

Eduardo olhou por cima do ombro, para Mark, que continuava a dormir em cima das malas.

- Pegamos tudo, não há com o que se preocupar. - até onde eles tinham planejado, pelo menos.

A mulher do outro lado murmurou.

- Excelente. Essa é a chance de vocês provarem seu valor. E não esqueçam do que está em jogo.

Nisso, Eduardo respirou fundo e abaixou o olhar. Ele já estava cansado de pensar no que estava em jogo. Ao mesmo tempo que o desgastava, o deixava mais determinado em fazer aquela viagem. Ele apertou a alça da mala que tinha em mãos.

- Não esqueceremos. 

- Não nos faça nos arrepender de estarmos confiando em vocês, Eduardo. Não esqueça que vocês podem ser facilmente substituídos, assim como seu amiguinho azul.

Enquanto o latino tinha que escutá-la falando, uma terceira figura, familiar aos dois vizinhos, desceu de cima de Eduardo e parou de ponta cabeça ao seu lado.

- Ela está falando de mim? - Jon perguntou com uma mão no queixo. Sua voz repentina fez Eduardo pular e soltar um palavrão alto, e todos os que estavam por perto olharam para ele.

- Aconteceu algo? - a mulher misteriosa perguntou. Ela parecia ao mesmo tempo preocupada e irritada.

- Não. Não, está tudo bem. - Eduardo rapidamente explicou-se enquanto fuzilava Jon pelo canto do olho. - Ligamos de volta quando chegarmos na Finlândia. - ele desligou o celular sem esperar uma resposta e, agora podendo se concentrar, virou-se inteiramente para o amigo fantasmagórico e se permitiu ficar bravo com ele. - Jon, o que você tá fazendo aqui?

- Eu vou com vocês! - o fantasma exclamou, segurando ao seu lado duas malinhas de mão.

Eduardo franziu o cenho e intercalou o olhar entre Jon e as malas. Aquilo só podia ser brincadeira. Com tudo que eles estavam fazendo, o motivo de isso tudo estar acontecendo, Jon ainda tinha a cara de pau de chegar nele assim.

- Não, você não vai. - ele respondeu simplesmente, forçando-se a se manter calmo e não gritar com Jon na frente dos outros. Já tinha passado a época em que ele faria isso na frente de todo mundo sem nenhum problema, as coisas mudaram. - Precisamos de alguém pra ficar de olho na casa e fazer parecer que tem gente.

Jon franziu o cenho e colocou as mãos na cintura.

- Ridículo! Os vizinhos não precisaram fazer isso e ninguém suspeitou até agora!

- Isso é porque pessoas são estúpidas, você não percebeu? - Eduardo gritou, jogando os braços para cima e atraindo a atenção dos outros passageiros mais uma vez. Percebendo o desconforto no olhar de Jon, o latino engoliu em seco e reservou-se alguns segundos para respirar e se acalmar. Ele estava fazendo de novo. - Por favor, Jon, nós só queremos proteger você.

O fantasma pareceu visivelmente cabisbaixo com a última afirmação, além de estar impactado pelos gritos. Entretanto, ele permaneceu firme em seu posicionamento.

- E como eu vou saber se vocês não precisam de ajuda? Além do mais, eu já tô morto mesmo! - ele exclamou, jogando as mãos para o ar, imitando o amigo. - Por favor, Edu, eu posso ser útil! - Jon continuou a suplicar. - Você não pode confiar em mim só uma vez?

Eduardo se arrependia amargamente de ter aberto a boca para ele. Se ele não tivesse contado sobre suas escapadas, ou tivesse sido mais cuidadoso para não ser visto, eles não estariam naquela situação tão constrangedora.

Mas, por mais que ele quisesse muito gritar, espernear e arrastar Jon de volta para casa, sua forma fantasmagórica e o jeito como ele o olhava tornavam aquilo simplesmente impossível.

- Você sempre usa esse argumento… - Eduardo suspirou, derrotado. - Tá bom.

Um sorriso enorme surgiu nos lábios de Jon e ele se atirou em Eduardo, envolvendo-o, da forma que conseguia, com seus braços fantasmagóricos.

- Oba! Obrigado, Edu!

O latino suspirou mais uma vez e abaixou a cabeça, exausto. Não tinha como lidar com ele e Mark. Não importa o quanto ele quisesse parecer rude e pagar de machão, eles sempre davam um jeito de driblá-lo.

Um som ecoou pelos áudios do aeroporto e uma voz masculina começou a falar. Seu embarque foi iniciado.


Notas Finais


Espero que estejam gostando da história! Favoritos e comentários são muito apreciados <3

Próximo capítulo já disponível no AO3: https://archiveofourown.org/works/22817920/chapters/60649570
Me sigam lá também: https://archiveofourown.org/users/Monilovely

See Ya~


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