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História Você pode me ouvir? - Capítulo 3


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Notas do Autor


Espero que gostem 🥺💜

Capítulo 3 - Lábios Silenciosos


Já passava das duas da manhã, em uma noite quente, e Jungkook ainda estava vidrado em seu notebook. Havia encontrado um bom site onde ensinavam libras muito bem. Até agora, ele já havia decorado as expressões: "Olá"; "Bom dia, boa tarde, boa noite"; "Obrigado"; "Por favor"; "Tudo bem? "; "Eu te amo".

Este último encontrou por acaso, e Jungkook achou engraçado o modo como se dizia isso em libras, era apenas o dedo mindinho, indicador e dedão levantados, igual a como os roqueiros faziam. Era simples e Jungkook gostou do modo de como era fácil sinalizar.

Engraçado era que Jeon estava tão fascinado em aprender e a entender um garoto que mal havia conhecido que qualquer palavra em libra que lhe aparecia ele já queria decorar. Queria poder entender os sinais que Jimin fazia com tanta facilidade e graciosidade. Achava belo as expressões que ele usava enquanto suas mãos dançavam, desesperadas em fazê-lo compreender o que Jimin queria tanto dizer.

Sorriu ao achar uma imagem do sinal de "amigo" em libras, refez o gesto relativamente fácil. Ao rolar a barra para baixo, encontrou um link que em seu título tinha "Cinco maneiras para comunicar-se com surdos e mudos".

Curioso, Jungkook clicou no link, sendo redirecionado para outra página. Leu rapidamente a lista e se deparou com uma coisa que não havia pensado antes. Leitura labial. Instigado, pesquisou mais a fundo, leu dicas e até praticou um pouco com vídeos que um site disponibilizou, que era pessoas falando, mas sem voz alguma. Quem sabe podia pedir para Jimin simular algumas frases para ver se não entendia alguma coisa?

Jungkook bocejou, fechou o notebook e foi deitar.

***

—Bom dia, Jungkook. — Jin cumprimentou ao ver o garoto descendo as escadas preguiçosamente. Jungkook fitou servente e o cumprimentou com um aceno de cabeça.

— Sua mãe me ligou agora há pouco, queria que eu puxasse sua orelha por quebrar aquela janela.

— Tch. — Jeon resmungou. — Por que ela mesma não puxa?

Jin reprimiu os lábios, às vezes se sentia mal pela angústia do adolescente em não ter os pais presentes. Era assim desde que ele foi contratado, mais ou menos na época em que Rei assumiu o hotel e não teve mais tempo para cuidar de Jungkook.

Agora, Jungkook estava no meio de seus dezesseis anos, incomodado, porém acostumado.

— Jin hyung.

— Sim? — Ele prontificou-se, deixando o prato que secava na bancada.

Jungkook sentou-se diante da mesa, encarando a salada de frutas que ele preparou para si.

— Hm, nada. Eu ia pedir uma coisa, mas é melhor eu mesmo fazer. –—Jin ia insistir, mas ele continuou. — Eu vou passar a tarde fora, ok?

O moço assentiu levemente, colocando uma mecha de seus cabelos roxos para trás da orelha.

— Para onde vai?

— Para a casa da Hyun-ssi.

— Hyun? — Ele repetiu, confuso. — Não foi essa a mulher que ligou para sua mãe a respeito da janela?

— Sim, mas digamos que... –—Jungkook sorriu para Jin. – Eu simpatizei com o filho dela.

— Ah, entendo. Que bom para você, assim não fica em casa direto.

Jin sorriu, sincero.

Jungkook assentiu, terminou o café da manhã e o ajudou com a louça.

Voltou para o quarto, ligando o computador a fim de estudar mais um pouco. Enquanto aguardava, andou pelo quarto enquanto bocejava, madrugar nunca foi seu feitio, por isso sentia-se extremamente cansado quando o fazia. Seu celular tocou. Jeon tateou os bolsos, falhando na tarefa de encontrá-lo. Quando o encontrou, carregando na tomada ao lado da cama, ele atendeu.

— Alô?

— Que história é essa de quebrar janelas alheias, Jungkook? — Ouviu a voz alterada de sua mãe do outro lado da linha e segurou um suspiro.

— Foi sem querer.

— Foi sem querer porque sou eu quem pago!

— Eu já pedi desculpas para a Hyun-ssi.

—Eu sei disso! —Rei acalmou-se, respirando fundo. —Ela me contou que você foi bem gentil com ela e o filho dela. Como se chamava mesmo? Chi... Chimin?

—Jimin.

— Ah, isso mesmo.

Jungkook sorriu, conseguia imaginar a mãe de Jimin alegre contando sobre ele para sua mãe, Hyun havia ficado bem contente por Jungkook ter simplesmente conversado com Jimin.

— Está tudo bem, Jungkook, só tome cuidado da próxima vez, ok?

— Claro, me desculpe por isso.

— Sem problemas. —Ela pareceu hesitar. — Você tem algum plano para hoje à tarde? Estou pensando em deixar o hotel aos cuidados de outra pessoa pelo resto do dia e ter um momento de mãe e filho com você. Topa?

— Tenho compromisso, sinto muito. Quem sabe outro dia. — Antes de ouvir a resposta da mãe, completou: — Preciso desligar agora, nos falamos a noite.

Desligou e fitou a tela de seu celular, que exibia o contato de sua mãe. Bufou, deixando-o descansando sobre o travesseiro. Não é como se não gostasse de sua mãe, apenas achava idiota ela querer lhe repreender sendo que ela quase nunca está aqui. É como se ela não tivesse essa moral.

Às vezes Jeon se sentia muito egoísta quanto a isso, ele sabia que seus pais trabalhavam tanto para lhe oferecer uma vida confortável, mas poxa, podiam ao menos tirar uma semana de folga para viajar? Ou fazer algum programa em família? Até se fosse para passar a tarde assistindo televisão Jungkook já estaria feliz.

Suspirou, voltou para seu notebook e deu mais uma estudada em libras antes de jogar alguma coisa para matar o tempo.

***

Às 13:36 Jeon deixou sua casa e em suas mãos carregava um pote com bolo de cenoura que ele mesmo fizera. Havia pensado em pedir para Jin, mas resolveu que era melhor ele mesmo fazer.

Não queria chegar lá de mãos abanando, talvez esse bolo pudesse ser usado como um pedido de desculpas. Jungkook não era muito fã de doces, por isso não colocou nenhuma cobertura no bolo. Esperava que eles gostassem mesmo assim.

Como sua casa era relativamente perto do campo, e sendo assim, perto da casa de Jimin, não demorou para chegar lá. Bateu na porta calmamente, mas tentando ao máximo controlar sua ansiedade por dentro.

Hyun abriu a porta, e ao ver Jungkook ali, sorriu.

— Então você realmente veio!

— ... Claro. — Respondeu, sem jeito.

Hyun novamente pediu-lhe para a acompanhar, e Jungkook o fez, subindo as escadas. Ao deslizar a mão pelo corrimão, franziu o cenho, pensando em um tópico curioso.

— Hyun-ssi, não é muito difícil morar em uma casa com dois pisos sendo que o Jimin é paralítico? Você me disse que ele não sai com frequência, mas não é trabalhoso leva-lo para baixo e para cima?

— Ah... — Ela riu. — Realmente é trabalhoso, até pensei em nos mudar para uma casa térrea, porém Jimin não quis. Ele disse que gosta desse lugar.

Jungkook assentiu, sem ideia do que responder.

— Aqui, vou deixar vocês conversando a sós, tudo bem?

— Sim. — Ele assentiu, apertando o pote em suas mãos. — Obrigado.

Em resposta ela apenas enviou um sorriso de canto, dando meia volta pelo corredor e sumindo nas escadas. Jungkook respirou fundo e bateu levemente na porta. Revirou os olhos para si mesmo. Ele não iria responder.

Abriu a porta devagar, revelando a imagem de Jimin o fitando, havia um livro aberto em seu colo. Ao ver Jeon, Jimin sorriu, gesticulando um "oi", em libras.

Jungkook viu a chance de mostrar o que sabia e então repetiu o gesto, emedando com um "tudo bem? ".

Jimin riu.

"Estou bem".

— Eu fiz para você. —Jungkook disse, referindo-se ao bolo que estava em suas mãos. – É de cenoura. Gosta?

Ele assentiu. Novamente, gesticulou. Jeon notou que ele diminuiu a velocidade com que realizava os sinais apenas para que ele entendesse.

Primeiro, Jimin agradeceu. O resto Jungkook não entendeu. Afinal, apenas um dia de estudo não é suficiente para ser fluente.

— Vou chutar que disse que gosta de bolo de cenoura.

Jimin arqueou as sobrancelhas, abanando a cabeça negativamente. Apontou para um local atrás de Jeon e juntou as mãos, num "por favor" sinalizado. Jungkook olhou para trás, sem antes deixar o pote em cima do criado-mudo, e logo localizou o bloco de notas em cima de uma cômoda cor de creme.

Pegou o bloco e logo voltou, entregando o Jimin. Como no dia anterior, sentou-se na banqueta ao lado da cama. Com os olhos negros, observou-o escrever freneticamente no papel.

Jimin levantou os olhos, Diamantes o fitando profundamente antes de estender o braço, oferecendo o bloco.

"Você andou treinando. É o que eu disse antes. Aliás, realmente não precisava se incomodar em trazer o bolo".

Jeon levou mais tempo que o normal lendo, a caligrafia inclinada e pequena de Jimin tinha um charme, era como se fosse algo só dele. Havia alguns erros, como falta de pontuação, mas mesmo assim era uma letra muito bonita.

Foi despertado por Park, que bateu as palmas.

Pediu desculpas em libras e recolheu o bloco para explicar.

"É minha forma de chamar a atenção das pessoas. Desculpe se isso o incomoda de alguma forma".

— Não, não tem problema. — Lembrou-se de algo. — Aliás, Jimin, além de estudar libras, o que descobri agora que não adiantou para muita coisa... — Soltou uma risada nasal. — Eu dei uma olhada em leitura labial. Você... poderia simular alguma frase, por gentileza? Quero ver se consigo o entender.

— Leitura labial? — Jimin repetiu, movendo os lábios lentamente, inclinando a cabeça para o lado como se este gesto colocasse o "ponto de interrogação" no final da frase. — Parece interessante, nunca testei antes".

Jungkook estava vidrado nos lábios do loiro, tentando decifrá-lo. Conseguiu entender, embora tenha ficado em dúvida na palavra "interessante".

Meneou a cabeça.

— Enfim, Jimin... que livro é este?

O rosto dele iluminou-se, um sorriso tímido nascendo nos lábios grossos. Fechou o livro e mostrou a capa.

- "A sereia", de Kiera Cass? – Jeon leu, bagunçando os cabelos pretos. – Nunca ouvi falar, fala sobre o quê?

Jimin apoiou o livro no colo e voltou a escrever.

"Fala sobre três sereias que vivem no mundo dos humanos e servem a Água, elas não podem falar, pois a voz delas é fatal e mata qualquer um que a ouvir. É um ótimo romance".

Jungkook sorriu.

- Hmm, por acaso você não fala porque sua voz é fatal, Jimin?

Ele sorriu ladino.

"Vai saber...".

Sem saber o que dizer em seguida, Jeon fitou a janela. Havia fita adesiva cobrindo a parte quebrada, mas além disso, ele notou que a janela dava uma ótima visão para o campo de futebol.

— A sua mãe me disse que você não quis se mudar, mesmo com a dificuldade das escadas.

Park volveu os olhos azuis para ele, suas bochechas ganhando um forte tom avermelhado. Encolheu-se, totalmente constrangido, enquanto guiava a caneta pelo papel.

"É um dos meus passatempos observar você e seus amigos jogarem, não queria me mudar para voltar a depender só dos livros e televisão".

Agora era Jeon quem estava envergonhado. Jamais iria imaginar que, além de alguns pedestres passageiros, Park Jimin assistia aos jogos.

— A-ah... — Desviou o olhar, levando a mão direita até os cabelos. — Bem, e-eu...

Fechou a boca, sem saber dar uma continuidade a sua fala.

O Park mordeu o lábio inferior, fitando a caneta em suas mãos. Queria adicionar mais razões por querer continuar ali, mas não se lembrava de mais nenhuma. Havia se apaixonado pelo esporte e era divertido ver aqueles garotos jogarem.

Sentia vontade de poder jogar também.

Apertou a caneta em suas mãos e abaixou o rosto, puxando o bloco de notas que ainda estava nas mãos de Jeon.

"Enfim! O que mais gosta de fazer, Jungkook?".

Ao ler a pergunta, Jungkook respirou fundo e tentou transmitir um sorriso.

— Além de jogar, gosto de filmes e me interesso por alguns livros clássicos, como Shakespeare. Também toco violino.

Ao ver o rosto de Jimin converter-se em surpresa, completou:

— Não que eu toque muito bem, eu comecei há uns três anos e só praticava com o violino no clube de música da escola. Comprei o meu próprio há alguns meses.

Park apontou para a própria boca, e Jungkook entendeu o que ele quis dizer.

— Gosto dos acordes do violino.

Com os lábios do loiro movendo-se tão devagar e analisando o contexto, ficava até que fácil decifrar suas palavras.

— Não é? Também gosto. Considero um dos instrumentos mais bonitos do mundo, assim como o piano.

Jimin abriu a boca, mas voltou a fechá-la. Julgou melhor escrever, por isso voltou a olhar para o papel.

"Eu costumava cantar quando minhas cordas vocais ainda eram úteis".

Jungkook reprimiu os lábios. Queria saber como que Jimin perdeu a voz, o que aconteceu com suas pernas, o que aquele rosto tão puro escondia. Mas limitou-se a perguntar:

— Jimin, faz muito tempo que é mudo? Se este tipo de assunto te incomodar, apenas me avise.

Ele ergueu quatro dedos.

— Há quatro anos?

Jimin assentiu.

Jeon não perguntou mais que isso. Fitou Jimin, os cabelos loiros estavam bagunçados e os grandes olhos azuis olhavam tudo, menos o moreno.

Até que ele parou de encarar um canto qualquer, escreveu no bloco com mãos tremendo, uma súbita vermelhidão novamente cobrindo suas bochechas. E então, de cabeça baixa, entregou o bloco para Jungkook.

"Jungkook, me desculpe, mas... você já beijou uma garota?"​



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