História Vocês... - Capítulo 1


Escrita por:

Postado
Categorias Homestuck
Personagens Dave Strider, Gamzee Makara, Jake English, John Egbert, Karkat Vantas, Nepeta Leijon, Personagens Originais
Tags Dave Strider, Drama, Homestuck, John Egbert, Suícidio
Visualizações 40
Palavras 5.287
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Linguagem Imprópria, Mutilação, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 1 - Capítulo Único


POV JOHN

Abri os olhos ao ouvir meu pai gritando do outro lado da porta pela manhã, e meu primeiro pensamento foi no quanto aquele dia seria ruim, de várias formas.

Mas não era como se algum dia fosse diferente, tudo era sempre essa mesma merda. Meu pai na verdade nunca estava em casa, e até quando estava, pouco ligava pra mim, não importa o que eu fizesse, ainda que a muito anos tivesse parado de tentar fazer de tudo para chamar sua atenção.

A solidão me machucava muito, através da janela, eu via diversas vezes os garotos da minha idade passando após a aula com seus amigos, quando na verdade eu já estava em casa a tempos, depois de voltar correndo todos os dias, na esperança de me isolar de todos.

Porém no fundo eu sabia que isso me deixava cada vez pior, mas talvez fosse melhor não tentar mais se aproximar de ninguém.

Na escola talvez fosse o lugar onde eu me sentia pior, era como ir ao inferno todas as manhãs, o pior de tudo era Dave Strider, o garoto que, apesar ser da minha sala, era um ano mais velho.

Naquela manhã, após ter acordado, escovei os dentes e lavei o rosto, na tentativa de acabar com aquelas olheiras fundas e escuras, que já não saiam mais de mim, depois de chorar a noite toda. Desci as escadas calmamente, e encontrei meu pai no andar de baixo, segurando a chave do carro, me esperando para levar a escola antes de ir ao escritório onde trabalhava.

O silêncio do carro era desconfortável, como todas as manhãs, apenas o som baixo do rádio era ouvido, enquanto eu deitava com a cabeça no vidro, esperando pacientemente chegar até a escola.

Quando meu pai estacionava em frente ao grande portão de ferro, eu apenas saía do carro, tentava me despedir dele, mas raramente obtia uma resposta. Suspirei irritado e saí do carro, sabendo que o dia não seria nem um pouco agradável, como todos os outros.

Subi pelos degraus de cimento, e passei pela grande porta de vidro, que dava acesso ao corredor principal, com os armários e algumas salas, que normalmente ficavam sem uso.

Coloquei meus fones e continuei andando, passando por grupos de alunos que me encaravam, mas eu tentava ignorar, até entrar em minha sala e me sentar no habitual lugar do fundo.

Talvez um dos fatores que fizesse tudo piorar, era o fato de que eu estudava em uma escola apenas para garotos, e a quase todos eram altos, fortes, bonitos, que postavam fotos todos os dias na suas festas estranhas. Eu era o oposto de tudo isso.

A aula começou, todos os outros entraram na sala, e eu já notava os olhares que Dave me lançava, rindo enquanto falava coisas aos seus amigos. No recreio, corri para um lugar afastado, sentando em um banco, mexendo no celular enquanto tomava um suco.

Talvez eu devesse ter me acostumado com tudo o que acontecia, mas não, eu nunca ia superar nada.

– E aí, seu bosta. – falou Dave, chegando por trás, dando um tapa forte em minhas costas.

Não respondi, apenas tentei ignora-lo, mas então, Dave parou em minha frente, segurando meu rosto e apertando com as unhas.

– Me responde, John. Tô falando com você.

– O-Oi Dave.

– O que tá fazendo aqui hoje?

– Nada…

– Como sempre. Você é um inútil. Acho que devia se matar logo, faria um favor pra todo mundo dessa escola, e provavelmente pra sua família também.

Fiquei calado, encarando o chão, arranhando o banco de madeira escura, mordendo os lábios com força, tentando não chorar. No fundo eu sabia que era verdade tudo aquilo.

Em casa, não quis comer, ainda que eu já fosse magro demais comparado aos outros, não comia a maioria dos dias. Acabei lendo em minha cama por um bom tempo, quase a tarde toda, até meu pai bater na porta, me surpreendendo, já que isso não era comum.

– Entra. – falei baixo, deixando o livro de lado e me sentando.

Ele entrou, sentando ao meu lado na cama, me encarando e começando a falar.

– John, amanhã a tarde é aniversário da sua vó. Vamos fazer uma festa surpresa pra ela, e todos vão lá.

– Eu não quero ir, pai.

– É sua família, John. O que vão pensar se você não for? Ah, e fique feliz lá, não quero ninguém perguntando se meu filho é depressivo.

– Ok…

– Vou te buscar na escola e vamos direto pra lá amanhã. Não discuta.

– Uhum…

Ele saiu, não se importando em me dar boa noite ou algo assim, como eu imaginava que a maioria dos pais fizesse. Depois de tomar banho, me deitei novamente, demorando a dormir, mas só acordando na manhã seguinte.

Já na escola, o dia passou relativamente rápido, até a hora do recreio. Me sentei em outro lugar, porém hoje, eu torcia mais do que nos outros dias, para que Dave não fosse até lá, já que eu me sentia irritado, e ia acabar fazendo alguma merda.

Logo, Dave apareceu como sempre, parando em minha frente, mas apesar de ele gritar comigo, atraindo a atenção dos outros alunos, eu apenas ignorava, sem sequer responder alguma das perguntas e ameaças dele.

Senti um soco forte contra minha bochecha, o anel de prata que Dave sempre usava me machucara, e ele era forte demais comparado a mim. Meu rosto queimava, eu podia sentir o sangue escorrendo do corte e uma dor insuportável tomar conta de mim, enquanto Dave ria, me encarando.

Corri para o banheiro, vazio, e me encarei no espelho. O lado esquerdo do meu rosto estava inchado e sujo de sangue, além de que eu sentia uma dor horrível, e mesmo sabendo que Dave iria acabar ferrado se eu fosse a enfermaria, decidi ir mesmo assim, eu podia inventar alguma desculpa.

Saí do banheiro com as mãos no rosto e andei até a sala da enfermaria, entrando e sentando em uma das cadeiras azul claras, esperando a simpática moça atender um outro garoto, aparentemente mais novo, que já estava lá.

– Olá John. Acertei seu nome, certo?

– Uhum.

– O que lhe traz aqui?

Tirei as mãos do rosto, revelando a parte machucada, vendo-a pegar algumas coisas no armário e me mandar sentar na cama.

– O que você fez aí, carinha?

– Eu bati na trave, só isso…

– Tem certeza?

– Tenho…

– Tudo bem então. Está doendo?

– Bastante...

– Vou passar alguns remédios, talvez arda um pouquinho.

– Ok…

Ela primeiro lavou, antes de começar a passar alguns remédios, fazendo meu rosto arder intensamente, o que só deixava minha vontade de chorar ainda maior, misturando a dor física aos meus sentimentos.

– Prontinho. Mas provavelmente vai doer bastante hoje, você se machucou muito. Quer que eu chame seu pai para vir lhe buscar?

– Não! – falei imediatamente.

Eu sabia que se ele viesse, ela explicaria o que havia acontecido, porém ele jamais iria acreditar, afinal sabia que eu nunca praticava nenhum esporte, nem mesmo fazia educação física, e dessa forma não fazia sentido eu ter batido na trave, além disso, quando ele viesse mais tarde, eu poderia esconder com a touca da blusa.

Voltei para a sala, infelizmente o professor de história já estava na sala, iniciando a aula. Quando entrei, joguei a autorização sobre a mesa dele e andei até meu lugar, percebendo todos os olhares direcionados a mim, mais precisamente ao meu rosto, que além de machucado, provavelmente tinha cara de choro.

Copiei tudo o que o professor passava em silêncio, não prestando atenção em nada além das letras do quadro, ignorando as conversas ao meu redor, daquelas pessoas as quais cada dia eu odiava mais.

– Garotos, como terminei de passar o conteúdo, para não deixar vocês entediados, podem fazer os exercícios das páginas 150 a 156 lá no pátio. – falou o professor.

Todos manifestaram alegria, era sempre assim quando os professores nos deixavam sair. Na verdade eu odiava isso, afinal era apenas mais um momento para eu me perceber outra vez sozinho, com todos os outros em pequenos grupos, rindo enquanto faziam as atividades.

– John Egbert, posso falar com você um instante? – falou o professor, quando todos se levantavam e saíam.

– Claro…

Fiquei em meu lugar, e ele puxou uma cadeira para minha frente, segurando minhas mãos, me fazendo sentir na obrigação de olhar diretamente para ele. Esse professor era um dos mais novos da escola, tinha vinte e seis anos, e era conhecido por ser mais amigo dos alunos do que tudo.

– John, você tem problemas em casa ou algo assim? A muito tempo eu percebi que você parece distante das aulas, e frequentemente parece estar com cara de choro…

– Não... Não é isso.

– É algum dos seus colegas?

– N-Não...

– Tem certeza? Se você me contar, eu posso te ajudar, com o que quer que seja.

– Obrigado. Mas não é nada. – falei, forçando um sorriso.

– E o que fez em seu rosto?

– Bati na trave hoje…

– Estranho, eu nunca vejo você jogando.

– Hoje eu joguei… Só isso.

– Tudo bem... Caso queira conversar um dia, pode me chamar, sabe que eu estou na escola todos os dias.

– Uhum.

– Não quer sair com os outros?

– Posso ficar aqui na sala?

– Pode sim. – ele respondeu, sorrindo. – Também vou ficar, preciso corrigir algumas provas.

Não deixei de sorrir também, começando a fazer os exercícios, até a aula terminar, quando todos entraram na sala novamente, e pegaram suas coisas, então fiz o mesmo, saindo da sala e indo na direção do corredor.

Joguei minhas coisas no armário e coloquei o capuz da blusa, não deixando mais a parte machucada visível, então saí, com as mãos nos bolsos do moletom preto, entrando no carro ao lado do meu pai.

– Tire essa touca John, que coisa horrível.

– Tô com frio. Deixa.

– Ok, fique com essa coisa ridícula então.

Deitei a cabeça no vidro, até chegarmos na casa da minha vó, onde já haviam vários carros estacionados na frente. Meu pai me obrigou a abraça-la, e logo após isso, corri para a sala e sentei no sofá, mexendo no celular, esperando que ninguém fosse lá.

– John, venha comer. – falou uma de minhas tias, aparecendo lá.

– Não estou com fome. Vou ficar aqui.

– Tem certeza?

– Uhum.

– Ok então... Daqui a pouco o Jake vem aqui com você.

– Tá...

Jake era meu primo, três anos mais velho que eu, e adorava me irritar, com tudo, desde que éramos pequenos, o que me fazia odia-lo, e fazer o possível para não ficar com ele, mas ainda que fizessem meses que eu não o visse, hoje não poderia fugir.

Poucos minutos depois, senti alguém chegando por trás e tirando minha touca, antes de pular ao meu lado, segurando um pratinho de salgadinhos.

– Eai! – ele falou, batendo em meu braço de leve.

– Oi Jake. – respondi, colocando a touca outra vez, para ele logo tirá-la novamente.

– John, o que fez no seu rosto?

– Nada…

– Foi alguém na sua escola?

– Não, Jake. Me deixa. – falei, colocando as mãos no rosto.

– Ei, calma… Eu me preocupo com você...

– Foda-se.

– Olha pra mim. Você é mais novo, eu preciso cuidar de você. O que foi? Eu me preocupo de verdade, John.

Quando ele falou isso, segurando meu rosto e me olhando diretamente nos olhos, senti as lágrimas se formarem e escorrerem por minha face, e ele me abraçou forte, acariciando os meus cabelos, meio desajeitado, mas ainda assim de uma forma boa.

– Tudo bem se você não quiser me contar agora… Mas se um dia quiser falar sobre isso que acontece com você, vou estar aqui.

– Ok…

Pela primeira vez em treze anos, senti como se pudesse confiar de verdade em Jake, e como se ele realmente se importasse comigo. Me separei do abraço e fiquei ao seu lado, em silêncio, ouvindo a música que ele acabara de colocar no seu celular.

Aquele silêncio não era desconfortável como quando eu ficava com meu pai, era bom de alguma forma que eu não sabia explicar. Acabei voltando para casa só a noite, quando meu pai chamou, e no carro fez algumas perguntas sobre o que eu tanto falava com Jake, mas não sobre o machucado, afinal eu colocara a touca outra vez.

Tomei um banho e fui deitar, assistindo alguns vídeos no celular, já que mesmo não tendo comido nada o dia todo, não sentia fome, assim como a maioria dos dias, o que provavelmente era um dos fatores que me deixavam tão fraco sempre.

Comecei a pensar em tudo que acontecera comigo hoje, desde Dave me batendo até Jake me abraçando. Mesmo assim, no fundo eu sabia que nunca teria coragem de contar isso para ninguém, nunca confiaria em alguém o suficiente pra contar essas coisas.

Enterrei o rosto no travesseiro e chorei, arranhando o cobertor azul escuro, até acabar dormindo. No outro dia, por ser sábado, acabei acordando apenas bem tarde, com a luz do sol batendo em meu rosto através das cortinas, o que me irritava muito, todos os dias.

A casa estava silenciosa, indicando que meu pai não estava, ou seja, lá estava eu, novamente sozinho, numa manhã de sábado. O dia estava um pouco quente, e já que estava sozinho, não me importei em tirar o monte de blusas que vestia, ficando apenas com uma camiseta, que deixava algumas marcas expostas, tanto de cortes nos pulsos quanto de agressões feitas por Dave.

Desci para a cozinha e comi alguma coisa, enquanto assistia um filme na televisão, e olhava as fotos sobre a estante, algumas onde apareciam apenas eu e minha mãe, e outras com meu pai junto. A que eu mais gostava era a do meu primeiro aniversário, e único que minha mãe passou conosco. Nessa foto, ela e meu pai me seguravam juntos, sorrindo, enquanto eu olhava assustado para a câmera.

Eu era pequeno demais para lembrar daquele dia, assim como meses depois, quando minha mãe se matou, enforcada, segundo meu pai diz, mas as fotos eram o suficiente para relembra-la um pouco. Eu também não conseguia lembrar de como meu pai era comigo antes de tudo, mas hoje, embora ele não diga nada, eu sei que me culpa secretamente pelo suicídio de minha mãe.

Quando eu era mais novo, as vezes me sentia com raiva, culpando minha mãe por ter me abandonado, me trocado pela morte, mas com o passar do tempo, percebi que com certeza ela passava por problemas dos quais ninguém nunca saberia, e essa foi a saída encontrada por ela, o que começa a fazer cada vez mais sentido pra mim, que penso a cada dia mais em colocar um fim na minha vida, acabar com esse sofrimento. Se minha mãe estivesse aqui, talvez tudo fosse melhor…

Sem perceber, acabei chorando, enquanto encarava as fotos ali, e imediatamente sequei meu rosto, voltando ao quarto. Acabei jogando o dia todo, trancado no quarto escuro, e quando percebi, já era noite, e meu pai entrava no quarto sem mesmo bater antes, sentando em minha cama. O ignorei, sem levantar da cadeira em frente ao computador, mas eu me sentia desconfortável com o silêncio, então fechei o jogo, me virando para ele, colocando as mãos no bolso da jaqueta que vestira horas antes. Meu pai me obrigou a ir com ele até a sala, onde sentou no sofá, comigo ao seu lado, antes de começar a falar.

– Precisamos conversar. – ele falou sério.

– Ok, pode falar. – respondi seco, cruzando os braços.

– Agora eu estou namorando. E amanhã a noite iremos a um jantar, você irá conhece-la.

– Não quero.

– Não interessa se você quer ou não. Você vai.

– Mas porque? Não posso ficar em casa?

– Eu já namoro com ela a um bom tempo, e está na hora de vocês se conhecerem. E possivelmente vamos nos casar.

– QUE? NÃO!

– Sim, John.

Subi correndo e entrei no quarto, batendo a porta com força e me jogando na cama, abraçado ao travesseiro. Eu não queria conhecer aquela mulher, ninguém nunca ia substituir minha mãe, jamais.

Tenho certeza que meu pai me abandonaria na primeira oportunidade, ele sem dúvidas me odeia, eu sou apenas uma inutilidade em sua vida… Não dormi naquela noite, e no dia seguinte, não sai do quarto, até meu pai praticamente invadir o cômodo no final da tarde, me obrigando a tomar banho e trocar de roupa para o maldito jantar, no qual fui sem a menor vontade, entrando ao lado dele no restaurante sofisticado, indo na direção de uma mulher que estava parada próxima a uma das mesas, que beijou meu pai ao vê-lo.

– Esse é meu filho. John, fale oi.

– Oi. – falei baixo, sem deixar de encarar o chão.

– Ele é um pouco tímido...

Sentei na mesa, com eles, porém longe de eu querer falar qualquer coisa, só queria ir embora dali o mais rápido possível, voltar para a casa e me trancar no quarto, na esperança de fugir da realidade.

Não quis falar nada, e me levantei, andando até o banheiro, do lado esquerdo do restaurante. Parei em frente ao espelho, e me encostei na parede, afinal não estava com vontade de ficar lá, muito menos de comer.

Lavei meu rosto e continuei ali, apoiado na pia, até resolver ouvir música, sentado no chão frio. Porém eu não esperava que alguém fosse entrar ali, e que uma voz, infelizmente, muito conhecida, fosse falar algo.

– Olha só quem eu encontrei aqui.

Me levantei e vi Dave parado ali, me encarando com os braços cruzados. Não pensei duas vezes antes de sair correndo dali, mesmo que eu precisasse ficar na mesa, era melhor que ficar lá, e apanhar outra vez de Dave Strider.

Quando voltei para a mesa, os dois já haviam pedido, e insisti que não queria comer, ainda que meu pai me olhasse com uma cara nem um pouco agradável. Acabei mexendo no celular durante todo o jantar, até que finalmente pude ir pra casa.

– John, não dava pra você ser normal pelo menos uma vez?

– Não. Eu não queria estar lá. Eu não gostei dela.

– Vai aprender a gostar.

Não respondi, apenas fechei meus olhos, me encostando no banco do carro. Meus olhos ardiam, eu queria chorar, mas me controlei, até chegar em casa, onde tirei minhas roupas no quarto e corri para o banheiro, colocando meus óculos na pia e entrando no box.

Chorei por um bom tempo, com a água quente escorrendo por meu corpo, pensando naquele dia horrível. Saí depois de talvez horas, e me vesti, voltando para o quarto escuro.

Apesar de tarde, eu não estava com nenhum sono, então apaguei a luz e sentei em frente ao computador, jogando um pouco. Quando me dei conta, já passavam das três da madrugada, eu estava cansado daquele jogo, mas ainda sem sono. Deitei na cama e fiquei encarando o teto, eu sabia que provavelmente não iria dormir nada essa noite, mas poderia arrumar uma desculpa para não ir a escola amanhã, afinal, eu já tinha problemas o suficiente para precisar ver Dave Strider outra vez.

Coloquei uma música baixa no celular, e fiquei ouvindo, até a luz começar a invadir o quarto por baixo das cortinas, o suficiente para eu saber que era hora de levantar e encarar outro dia horrível na escola.

Tomei um banho rápido e me vesti, descendo as escadas e passando por meu pai, indo lhe esperar dentro do carro. Em pouco tempo, estava na escola, outra vez na sala, encarando os outros, que já estavam lá, pelo fato de eu ter me atrasado.

"Se eu tivesse amigos, tudo seria diferente…", pensei. "Porque eu não posso ser como os outros?". Ao contrário da maioria dos dias, Dave ainda não estava na sala, mas provavelmente chegaria, afinal ele nunca faltava.

Quando o sinal bateu, e Dave não estava lá, a aula começou, me senti aliviado, poderia finalmente ter um dia normal, afinal ele era o único que me batia, os outros apenas encaravam, coisa que eu já me acostumara.

Fiquei o recreio todo mexendo no celular, sem ninguém me incomodar, e quando meu pai me deixou em casa, era como se tudo estivesse melhor, estava aliviado, não conseguia explicar

O dia sem Dave fora ótimo, eu me sentia diferente, quase como se pudesse dizer que estava "bem", como poucas vezes ficava. Naquela noite, acabei descendo comer com meu pai, e ele mesmo notou algo diferente em mim, mas não perguntou nada, e mesmo se perguntasse, eu jamais falaria.

Eu estava com sono, como a muito tempo não ficava, então tomei banho e deitei, ainda meio cedo, comparado ao que eu costumava tentar dormir. Me enrolei nos cobertores e acabei realmente dormindo

Abri os olhos e me vi em uma cama diferente da minha, porém extremamente confortável, aparentemente eu estava em um quarto que nunca vira antes.

Me levantei lentamente, não me sentindo cansado, nem mesmo com sono, e ao abrir a porta, me deparei com três pessoas me olhando. Um deles era alto, com cabelos grandes e bagunçados, o outro era um pouco menor, e também havia uma garota, ainda menor que o segundo, com cabelos curtos e lisos. Eles pareciam humanos, porém suas peles eram cinza claro, e possuíam chifres em suas cabeças.

– Quem são vocês? – perguntei baixo.

– Eu sou Gamzee Makara. Esse é Karkat Vantas, e essa é Nepeta Leijon. – respondeu o mais alto deles, com uma voz rouca.

Eu sabia que aquilo era um sonho, mas não parecia nem um pouco, eu tinha controle sobre tudo que fazia, e lembrava perfeitamente de ter ido dormir, era como se eu simplesmente tivesse acordado em outro lugar, porém também não vestia minhas roupas, e nunca havia visto aquelas que estava usando.

– Quem são vocês?

– Isso não importa, John.

– Ahn… Como vocês sabem meu nome? Eu nunca vi vocês...

– Nós somos seus amigos.

Embora não os conhecesse, sorri ao ouvir isso deles, afinal era algo que eu sempre quis ouvir. Eles pediram para que eu lhes seguisse, e foi o que fiz, passando por uma casa enorme, toda decorada, e saindo dela também, por um jardim em frente a casa, então andamos até uma sorveteria.

– Escolhe o que você quiser, John.

– Hum... Ok… – falei, pegando um sorvete, assim como eles.

Saímos andando, enquanto comemos, eles conversavam comigo, eu me sentia mais feliz do que nunca, era como ser igual aos garotos da escola, porém depois de um tempo, uma música alta começou a tocar, e tudo lá começou a escurecer.

– Você precisa ir. – falou Nepeta, olhando ao redor.

– Eu queria ficar aqui com vocês...

– Você não pode, John. Quando você dormir outra vez, podemos nos ver de novo.

– N-Não…

Acordei assustado, sentando na cama com a respiração ofegante, vendo que já eram sete horas. Não havia ninguém ao meu lado, como no sonho, apesar de tudo parecer tão real. Karkat não estava lá, Gamzee não estava lá, Nepeta não estava lá.

– JOHN, LEVANTE, VAI SE ATRASAR! – ouvi meu pai gritando, do andar de baixo.

Suspirei irritado e joguei os cobertores para o lado, me levantando e colocando os pés no chão frio do quarto, sem me importar em colocar algo nos pés, afinal pegar uma gripe ou algo assim era uma ótima desculpa para faltar a escola.

Peguei minhas coisa e entrei no banheiro, tomando um banho demorado, mas a única coisa que eu pensava, enquanto sentia a água escorrendo por meu corpo, era no sonho que eu tivera.

Não parecia um sonho, era como se eu até mesmo sentisse o gosto do sorvete de chocolate em minha boca, havia sido a melhor coisa que me acontecera, ainda que não fosse real, eu tinha amigos, pela primeira vez na vida.

Saí do banho e me vesti, saindo e encontrando meu pai, que me encarava feio, e entrei no carro, até a escola, onde eu torcia para Dave ter faltado outra vez. Quando chegamos, o diretor estava na sala, mas ele não, o que de certa forma me aliviou.

Ele pediu para que todos sentassem, e foi o que fizemos, até ele começar a falar.

– Garotos, tenho uma notícia não muito boa para dar a vocês. O colega de vocês, Dave Strider, está internado, e não virá a escola essa semana. A mãe dele falará com um de vocês para pegar as coisas que fizerem.

Os outros garotos se olharam, talvez tristes ou preocupados, afinal Dave era algo como o mais famoso da sala ou algo assim. Não deixei de sorrir ao ouvir isso, teria uma semana inteira melhor.

Todos aqueles dias foram bons, eu não me importava em ficar lá, até meu pai percebia que eu estava diferente, além de que a cada noite eu dormia bem, e em todas eu sonhava com aquelas pessoas, que continuavam não parecendo sonhos.

Eles, além de tudo, eram minha força para continuar vivendo, os amigos que eu sempre quis, conversavam comigo, faziam coisas, era o que eu esperava, mesmo que ninguém pudesse vê-los, ninguém soubesse de sua existência

Infelizmente, nada dura pra sempre, aquela semana terminou, e mesmo sabendo que isso era errado, eu torcia muito para que Dave continuasse doente, até mesmo que morresse, tudo para que eu ficasse o maior tempo possível sem encontra-lo em minha frente.

Naquela manhã, apesar de tentar de tudo, tive que ir a escola, e para meu ódio total, Dave já estava lá também, e me encarou, sorrindo daquele jeito que me fazia querer chorar, então virei meu rosto, me afastando dele.

Não consegui prestar atenção na aula, eu sabia que no recreio Dave iria até mim, e foi exatamente o que aconteceu, senti suas unhas segurando meu pescoço por trás, apertando com força, fazendo com que eu me virasse imediatamente.

– Olá John. Sentiu minha falta?

Neguei com a cabeça, fechando os olhos, sentindo as lágrimas descerem.

– É mesmo? – ele falou rindo, soltando meu pescoço, agarrando meus pulsos com as duas mãos, e os virando, apertando contra a parede.

Doía, eu sentia meus pulsos machucados, mas tentava ignorar a dor, ainda que fosse muito difícil, torcendo para que ele me soltasse, mas ao contrário disso, ele colocava cada vez mais força.

– S-Solta Dave... Por favor…

– Não tô a fim.

Mordi meus lábios com força, tentando não chorar, e mesmo se eu conseguisse me soltar, não conseguiria, já que dois garotos mais velhos estavam ao meu lado, a pedido dele, me impossibilitando de fugir.

– Você acha que eu esqueci daquele dia no restaurante? Não, eu não esqueci. Você me ignorou completamente, como se nem tivesse me visto. Mas eu sei que viu.

– E-Eu sei…

– Você vai aprender a não me ignorar mais, John.

Dave me segurou, colocando as mãos em minha bunda, mas quanto mais eu tentava sair, mais ele me prendia. Ele aproximou seu rosto do meu, colocando sua boca contra a minha, me beijando.

Eu nunca havia beijado ninguém antes, e Dave era o último com o qual eu gostaria, a sensação era horrível, sua língua passando por minha boca, suas mãos segurando minha bunda, seu joelho se levantando até encostar em meu membro e apertar aquela área, me fazendo gritar, e tentar empurra-lo ainda mais. Aquilo era a pior coisa que eu já sentira em toda a minha vida, doía mais do que tudo que ele já fizera, e agora os dias sem ele na escola pareciam lembranças muito distantes.

Quando o sinal tocou, ele finalmente parou de me tocar, se afastando de mim com a boca vermelha e um sorriso nos lábios, me empurrando com força contra a parede, fazendo com que eu sentisse um forte impacto do concreto em minha cabeça.

Corri para o banheiro, chutando uma das portas com força, tentando fazer minha raiva passar, totalmente em vão, e encarei minha imagem no espelho sujo. Eu sabia que não aguentaria olhar para Dave, então saí de lá, pedindo ao diretor para que meu pai fosse me buscar mais cedo, e para que alguém levasse minhas coisas na sala, assim eu não precisaria entrar lá novamente.

Meu pai chegou minutos depois, totalmente irritado por ter sido tirado do trabalho para me buscar na escola mais cedo, então apenas me largou em casa e saiu outra vez.

Me tranquei no quarto, apagando as luzes, com as cortinas fechadas, deitando na cama, chorando até meus olhos arderem, e assim passei o dia, sem sequer sair do quarto nem fazer outras coisas além disso.

Quando notei que já era noite, tomei banho e me deitei novamente, virando para o lado da parede. Acabei me levantando, descendo silenciosamente até a cozinha, e rapidamente tomei todos os remédios que encontrei no primeiro armário, na esperança de ter uma overdose ou algo assim, e morrer naquela noite. Eu me sentia tonto, voltei ao quarto e deitei outra vez, pensando que não fosse conseguir dormir, mas ao contrário disso, chorei até pegar no sono, em pouco tempo.

Naquela noite, eu não tive aquele sonho, era como se eu sonhasse com aquele lugar, porém tudo lá estivesse diferente, silencioso, sem vida, e nenhum deles estava lá também.

Abri os olhos, com o sol passando debaixo das cortinas, minha cabeça doía, e eu não sabia dizer se era pelos remédios, ou talvez pelo fato de ter chorado até dormir na noite anterior. Peguei meu celular ao lado, vendo que já passavam das oito horas, ou seja, estava totalmente atrasado, já havia perdido a primeira aula, meu pai desistira de me acordar e fora trabalhar, e agora, quando ele voltasse, brigaria comigo por horas e horas.

Não pensei duas vezes em me levantar da cama, pegando uma pequena a caixa que guardava em cima do armário. A forma de eu colocar um fim em tudo, após isso, meu pai não brigaria mais comigo, Dave não poderia mais fazer nada, eu deixaria de ser um inútil, e sabia que ninguém sentiria minha falta, nunca.

A coloquei no banheiro e tirei minhas blusas, ficando completamente sem camisa, e saindo para a varanda da parte de trás da casa, sentindo o ar frio da manhã, de um dia que mostrava que o início do inverno logo chegaria, e segundo a previsão, a temperatura tendia a cair ao longo do dia.

Eu pensava em tudo que acontecera comigo ao longo dos anos, e em como tudo era bom quando eu era pequeno, minha mãe estava aqui, todos me amavam, e eu não tinha nenhuma preocupação…

Quando me dei conta, percebi que em minha mente, eu havia montado um tipo de carta, em partes como se falasse com Nepeta, Gamzee e Karkat. Eu não fazia idéia do que acontecia após a morte, nunca acreditei muito em nada, mas eu secretamente desejava estar naquele sonho com eles para sempre, afinal, eu estaria dormindo para sempre.

Vocês foram meus motivos para continuar por mais alguns dias, fizeram com que eu me sentisse melhor e mais forte, como se alguém gostasse de mim, mas nem ao menos eram reais, e nesta noite até mesmo vocês me abandonaram, e ainda assim eu já estava morto por dentro a muitos anos, e ninguém era capaz de perceber. Eu sabia que poderia ter falado com Jake antes, mas afinal, ele provavelmente nem ligava de verdade, assim como todo mundo, talvez minha mãe se importasse se estivesse aqui. Mas não estava. Perde-la foi o que por muitos anos eu considerei como a pior coisa que me acontecera, porém agora entendo seus motivos, e vejo que na vida existem coisas muito piores do que perder alguém que se ama… Como quando você percebe que perdeu a si mesmo.

Entrei quando o vento frio começou a ficar mais intenso, eu já tremia na varanda, então fechei a porta de correr, me sentando no chão gelado do banheiro, encarando as lâminas em minha frente.

Peguei a maior delas, que tantas vezes no passado eu já usara, que havia deixado cicatrizes profundas em meus pulsos, de cortes que por muito tempo me aliviaram, mas nada comparado a hoje, agora nada mais me ajudaria.

Passei por meus pulsos, vendo o sangue escorrer e manchar o piso de azulejos brancos, e continuei por um longo tempo, vendo os cortes abertos, onde a dor, apesar de forte, não superava a que eu sentia por dentro. Perdi o controle sobre meu corpo, e caí, provavelmente meu pai me encontraria talvez essa noite ou talvez dias depois ao sentir minha falta andando pela casa, ou até quando ele me chamasse por estar atrasado e eu não respondesse, porém dessa vez não seria porque eu estava dormindo. E sim porque eu estava morto.


Notas Finais


Um pouco inspirado em "O Reino das Vozes Que Não se Calam".


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...